Artigos originais do Jovem Soropositivo.

O documentário de longa-metragem “Carta Para Além dos Muros” acaba de divulgar seu trailer. Com data de estreia prevista para abril de 2019, o filme refaz a cronologia da epidemia de aids no Brasil, através de um debate envolvente sobre a evolução do tratamento antirretroviral e os desafios que ainda enfrentamos em relação ao estigma e discriminação.

O documentário investiga o porquê da evolução no tratamento do HIV não vir acompanhada da mudança de mentalidade em relação à infecção. Um dos depoimentos retratados no filme, da imunologista Márcia Rachid, resume bem este desafio: “falar de HIV hoje tem o mesmo mistério de 35 anos atrás. Não pode!”.

André Canto, o diretor, entrevistou especialistas, pessoas que vivem com HIV, personalidades e autoridades. Estão no documentário nomes como os ministros da saúde que foram chave para que o Brasil se tornasse uma referência na resposta à epidemia, José Serra e José Gomes Temporão; os médicos Dráuzio Varella, Ricardo Tapajós, Ricardo Vasconcelos e Rosana Del Bianco; a apresentadora Marina Person; Lucinha Araújo, mãe de Cazuza, além de jovens que se tornaram a nova voz desta epidemia, entre tantos outros entrevistados, incluindo o autor deste blog.

“Contar a história da epidemia de aids significa tocar nos medos e nas memórias soterradas de pelo menos duas gerações. Dezenas de milhões de pessoas chegaram à vida adulta no Brasil dominadas pelo pavor de serem infectadas pelo HIV. Os gays viveram um medo duplo, tanto pela doença, que no início os afetava quase que exclusivamente, quanto pela discriminação que já sofriam. Uma combinação que só contribuiu para aumentar ainda mais o clima de incompreensão acerca do HIV”, explica Canto.

“Apesar de todos os avanços no tratamento e no entendimento da doença, muito desse medo e dessa incompreensão ainda persiste. O filme não é um trabalho psicanalítico, nem um relatório informativo sobre o HIV e a aids. Ele se propõe a ser um estopim, para tocar algo que permanece inconsciente no espectador, para mobilizá-lo, para instigá-lo a uma reflexão importante e incontornável sobre o HIV em nossa sociedade, para provocar uma mudança de postura e perspectiva sobre a história da aids e sobre a realidade atual do HIV”, conclui o diretor.

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No ar desde 28 de setembro para assinantes do canal Fox Premium 1 e, ao que tudo indica, em 2019 no Netflix, a série Pose (2018), criada por Steven Canals, Brad Falchuk e Ryan Murphy — este último, o mesmo criador de American Horror Story e American Crime Story —, é altamente recomendada!

Ambientada no final da década de 80, Pose é uma série que acompanha a vida de pessoas LGBTIQ+, bem como a expansão destas comunidades em uma década na qual ainda não se sabia muito sobre esses grupos de pessoas. A circunstância desta época acabou por unir transexuais, travestis, drag queens, gays e outros grupos que acabavam por compartilhar interesses em comum e, por acaso, que começam a ser assolados pela epidemia de aids.

Essa produção de Ryan Murphy é emblemática, porque conta com o maior número de atores transgênero como protagonistas, atores principais, num elenco finamente selecionado para contar a história de vários segmentos da vida e da sociedade de Nova York no final dos anos 80: um mundo da cultura de baile, do surgimento do universo de luxo na época de Trump e a cena social e literária do centro da cidade. Pose já tem garantida sua segunda temporada, para 2019, a qual promete se aprofundar mais na questão da epidemia e dos soropositivos daquele período.

Que o novo presidente faça um bom governo. Que suas falas sobre o regime militar, a tortura, as falas com conteúdos homofóbicos, preconceituosos, racistas, machistas e que incentivam a violência sejam fake news ou, pelo menos, falas ultrapassadas de alguém que já mudou de opinião. Que siga a Constituição o novo presidente. Que o nosso acesso universal e gratuito ao tratamento antirretroviral seja mantido. Que a oposição se una e cobre deste presidente um bom governo, e que o faça de maneira justa, sem fixar-se em puro oposiocionismo ou dogmas partidários. Que os partidos que estava no poder há mais tempo façam autocríticas; e que a sociedade, nós, também a façamos.

Em uma entrevista antiga, Jair Bolsonaro (PSL) afirma que o Estado não deve custear os medicamentos antirretrovirais para os portadores de HIV. “Não é problema meu”, disse ele. “O Estado deve tratar de doentes infortúnios e não de vagabundos que se drogam ou adquirem aids por vadiagem.”

O candidato defende que não se deve usar dinheiro público para tratar quem contrai doenças em atos sexuais, classificando a população gay como grupo de risco. Nas palavras do próprio Bolsonaro, “uma pessoa que vive na vida mundana depois vai querer cobrar do poder público um tratamento que é caro” — é isso o que publicou a Carta Capital e, em texto semelhante, um post anterior deste blog.

Jair Messias Bolsonaro

O que acontecerá conosco, soropositivos, Bolsonaro sendo eleito presidente, se essas afirmações forem levadas a cabo? Para ilustrar a reposta, há pelo menos dois países que podem servir de exemplo: Rússia e Venezuela.

A oferta russa ao tratamento antirretroviral é bastante limitada e sobrevive num cenário de forte machismo e homofobia institucionalizados, fazendo a epidemia de HIV crescer 10% ao ano no país. Por sua vez, a Venezuela vive praticamente uma total falta de medicamentos antirretrovirais. “Ficar na Venezuela é morrer de aids”, conta um rapaz de 31 anos de idade, que trabalha recepção do Serviço de Infectologia do Hospital Geral do Oeste (HGO), para o El País.

Carlos Pérez, chefe do Serviço de Infectologia deste mesmo hospital, explica que a Venezuela atravessa a pior crise na área e em particular na nossa patologia. O médico administra um grupo de WhatsApp com seus pacientes no qual mensagens angustiadas são frequentes.

“A cada semana morrem dois pacientes meus. Estão chegando já na fase de aids e os recém diagnosticados estão muito imunossuprimidos. Isso levou a um aumento significativo das mortes por HIV. Nos últimos meses, temos tratado a crise discriminando os pacientes que estão melhor, distribuindo doses para uma semana de tratamento, usando os medicamentos deixados pelos pacientes que morrem ou receitando o esquema incompleto, embora tenhamos consciência de que isso favorece a aparição de um HIV resistente. A situação é tão grave que eu recomendei que os pacientes emigrem ou, se tiverem a possibilidade de que lhes tragam medicamentos do exterior, que façam isso, mas é algo insustentável para muitas famílias”, diz Pérez, que há 20 anos trata pacientes com HIV.

Corredor de hospital na Venezuela.

Nesse sentido, ou, no tocante à saúde, usando o linguajar do presidenciável Jair Bolsonaro, a verdade é que, sendo cumprida a afirmação do candidato pesselista, decerto nos aproximaremos da situação na Venezuela, país que ele tanto critica — e, ao meu ver, critica com razão.

A Venezuela vive uma ditadura de esquerda, atualmente sob o governo de Nicolás Maduro, presidente daquele país desde 2013, sucedendo o autoritário Hugo Chávez, que alterou a constituição do país para permitir sua reeleição e, no ano 2000, passou a governar através de decretos, sem a necessidade de aprovação da Assembleia Nacional. Chávez morreu em 2013, em decorrência de um câncer, mas teria milagrosamente voltado na forma de um passarinho para visitar o novo presidente Maduro.

Em 2017, Maduro foi reeleito, em eleições questionadas internacionalmente — mas, mesmo assim, parabenizadas no Brasil pelo Partido dos Trabalhadores, o PT. Nem poderia ser diferente, uma vez que a campanha teve o apoio do próprio Lula, que gravou um vídeo elogiando o colega venezuelano. Assim que Maduro foi eleito, o PT publicou uma nota.

“Venezuela: mais uma vez, exemplo de democracia e participação cidadã!”, diz a carta de apoio, datada de 16 de outubro de 2017. “O Partido dos Trabalhadores saúda o presidente Nicolás Maduro e seu partido, o PSUV, pela contundente vitória eleitoral nas eleições regionais deste domingo, 15 de outubro de 2017”, diz a nota assinada pela presidente do PT Gleisi Hoffmann e pela sindicalista Mônica Valente. O mesmo comunicado ainda afirma que o dia da eleição regional venezuelana seria lembrado “como o dia de uma vitoriosa jornada de democracia, onde mais de 60% do eleitorado atendeu à convocação democrática e compareceu, de maneira cívica e pacífica, manifestando seu apoio à paz, à democracia e à soberania na Venezuela.”

Todavia, o link original desta publicação do PT, bem como outros links com manifestações de apoio à Venezuela foram tirados do ar pelo próprio partido, no último dia 11 de outubro. De acordo com o próprio secretário de Comunicação do PT, Carlos Árabe, o bloqueio do acesso ao link foi feito por causa de mensagens de WhatsApp que estariam usando o comunicado como pretexto para distorcer a posição do PT sobre a Venezuela e disseminar notícias falsas. Árabe disse que o link havia sido bloqueado e que a nota continuaria no site, mas que o partido estudava uma maneira de recolocá-la no ar. “Não nos interessa manter bloqueado”, afirmou ele ao UOL.

Se isso é parte do caso das fake news disparadas por WhatsApp, é importante lembrar que ambas as campanhas, tanto de Bolsonaro como de Haddad, fizeram uso da ferramenta. Dados de um serviço de disparo de mensagens em massa a que a reportagem do UOL teve acesso trazem novos indícios sobre o esquema revelado na semana passada pela Folha de S.Paulo. Os dados revelam que, na tarde de 18 de outubro, foram apagados os registros de envio de mensagens disparadas pela campanha de Bolsonaro, horas depois da publicação da reportagem da Folha. A reportagem do UOL apurou que as campanhas de  Bolsonaro e Haddad fizeram uso da mesma plataforma digital. Apesar dos dados, as duas campanhas negam ter cometido irregularidades.

Voltando às declarações de apoio à Venezuela, é importante lembrar que este não foi o único apoio petista à uma ditadura. Ainda este ano, em 2018, “uma verdadeira insurreição” aconteceu na Nicarágua, conforme descreve o próprio site do PSTU, partido de esquerda. Os protestos naquele país teriam sido contra a reforma da previdência exigida pelo FMI, mas acabaram se transformando em um amplo movimento para derrubar a ditadura de Daniel Ortega.

Manifestantes enfrentam seguidores de Daniel Ortega na Nicarágua.

Ortega é o atual presidente da Nicarágua, no poder desde 2007. Antes, fora eleito entre 1985 e 1990. É membro da Frente Sandinista de Libertação Nacional, partido socialista fundado em 1961 no país. Diante dos protestos, Ortega os considerou ilegais e exigiu uma “limpeza das ruas, custe o que custar!” — lembrando bastante, convenhamos, a recente fala do presidenciável Bolsonaro, que sugeriu varrer os “vermelhos” para fora do Brasil.

Pelo menos 300 pessoas morreram na “limpeza” de Ortega e, mesmo assim, este presidente ganhou apoio do PT, que acusou os manifestantes nicaraguenses de fazerem parte de uma “contraofensiva neoliberal”. Dilma Rousseff, Monica Valente, Evo Morales e Nicolás Maduro encabeçaram a defesa a Ortega, dizendo: “Depois de tantos eventos, sofremos uma contraofensiva imperialista, liberal, multifacetada, com guerra econômica, mídia, golpes judiciais e parlamentares, como ocorre na Nicarágua e ocorreu na Venezuela”.

Entretanto, a verdade é que muito mais pessoas morreram na Colômbia, estima-se, em decorrência dos conflitos entre o Estado e as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, as Farc. Em 50 anos de guerrilha, até o cessar-fogo, foram mais de 200 mil mortos.

Soldados das Farc

As Farc foram consideradas uma organização terrorista não somente pelo governo da Colômbia, mas também pelos Estados Unidos, Canadá e União Europeia. Em 2008, o então presidente venezuelano Hugo Chávez rejeitou publicamente esta classificação e apelou à Colômbia por um reconhecimento diplomático das guerrilhas como uma  “força beligerante”, argumentando que, dessa forma, elas estariam obrigadas a renunciar às táticas de sequestro e atos de terror, que notoriamente praticavam, encorajando-as a finalmente respeitarem as Convenções de Genebra.

Então, em agosto de 2017, ex-combatentes das Farc, depois da assinatura do acordo de paz com o governo colombiano, evento conhecido como o “Acordo de Havana”, fundaram o partido político Fuerza Alternativa Revolucionária del Común, cuja sigla também é FARC.

Menos de um ano depois, em abril de 2018, as Farc enviaram uma carta de solidariedade a Lula, por conta de sua prisão. A carta foi orgulhosamente publicada no site do PT, onde ainda permanece e, naturalmente, fomenta algumas as teorias (possivelmente) conspiratórias a respeito da maneira como entraram no Brasil os armamentos encontrados pelo Ministério da Justiça e pelo governo do Rio de Janeiro nas mãos de criminosos no estado — há indicações de que as armas vieram das Farc.

Fernando Haddad

O candidato do partido político orgulhoso da solidariedade das Farc e envolto em mensagens apoio ao ditador Maduro, na Venezuela, e a Ortega, na Nicarágua, é Fernando Haddad, do PT.

Haddad nasceu em 25 de janeiro de 1963, em São Paulo, mas só entrou na política em 1983, quando filiou-se ao Partido dos Trabalhadores. Depois que se formou bacharel em Direito pela USP, em 1985, Haddad especializou-se em Direito Civil, concluiu um mestrado em Economia e doutorado em Filosofia. Com este currículo, Haddad tornou-se professor ainda na mesma instituição, onde lecionava Teoria Política Contemporânea. Haddad ficou bastante conhecido como prefeito de São Paulo, em 2012, quando venceu o candidato tucano José Serra (PSDB).

Serra, aliás, merece um parênteses: quando ministro da Saúde, comprou uma verdadeira briga com a indústria farmacêutica, ameaçando quebrar patentes de remédios e utilizar as fábricas estatais de medicamentos para a produção de genéricos. Este foi grande feito da era FHC, que trouxe um impacto indiscutível no tratamento antirretroviral e na qualidade de vida de quem vive com o HIV. Essa política de saúde pública foi mantida nas gestões de Lula e Dilma e transformou o Brasil em referência mundial em tratamento e prevenção ao HIV.

Findo seu trabalho como prefeito de São Paulo, Haddad tentou reeleição, mas perdeu já no primeiro turno para João Doria (PSDB), e entrou no ranking dos prefeitos de capitais com pior avaliação no País. Apesar disso, é inegável que sua carreira política também teve feitos importantes.

De acordo com o site oficial do candidato, enquanto Ministro da Educação ao longo de sete anos, entre 2004 e 2012, Haddad criou programas nacionalmente reconhecidos. O novo FIES é um deles: permitiu que o financiamento estudantil, dividindo o programa em diferentes modalidades, chegasse a juros zero, de acordo com a renda familiar de cada aluno. Outro programa foi o Caminho da Escola: iniciativa na área de logística dos estudantes, que inclui não apenas ônibus, mas o transporte aquático em regiões ribeirinhas e até bicicletas, para facilitar o acesso dos estudantes às escolas.

No campo político, a verdade é que não se pode dizer o mesmo de seu oponente, Jair Bolsonaro, que tem apenas dois projetos aprovados em 26 anos de Congresso. Haddad não estava errado quando, no programa Roda Viva, nos lembrou que seu adversário “nunca nem administrou um boteco!”

De um lado, temos Jair Bolsonaro, do PSL, um candidato que apoia abertamente o regime militar, a tortura e ainda reúne incontáveis discursos, gravados, com conteúdos homofóbicos, preconceituosos, racistas, machistas e que incentivam a violência — sem falar da vontade declarada do candidato de abolir o tratamento antirretroviral universal e gratuito no Brasil. De outro lado, temos Fernando Haddad, do PT, partido que afirma rejeitar a ditadura e defender a democracia e, de fato, que nunca instaurou um regime comunista no Brasil, mesmo em doze anos de governo, muito embora apoie e se solidarize com regimes ditatoriais e autoritários no mundo, sem falar de organizações terroristas.

É impossível sequer considerar voto ao primeiro candidato, Bolsonaro, diante de suas falas e promessas. Bolsonaro “inspira medo”, já apontou Joaquim Barbosa, ex-ministro do Supremo Tribunal Federal, o STF. Além disso, seu plano de governo é vago e sequer pode ser aprofundado publicamente pela imprensa, vista sua total ausência nos debates televisivos — exceto, é verdade, nas sabatinas durante o começo da campanha: em uma delas, na GloboNews, o candidato mostrou evidente despreparo e, inclusive, uma limitação, talvez cognitiva, em compreender aquilo que lhe é perguntado. Além disso, Bolsonaro é apontado como um candidato desastroso para a economia brasileira. É rechaçado diversos editoriais em jornais do mundo todo, setores da sociedade, incluindo economistas, publicitários, intelectuais, policiais, entre outros, além de artistas como Roger Waters e Caetano Veloso, como o pior candidato que poderíamos ter no Brasil. Bolsonaro é inclusive criticado pela própria extrema direita, na França.

Enfim, não votar em Bolsonaro me parece a escolha natural. Mas isso é suficiente para votar em seu oponente, Fernando Haddad? Não seria justo considerar que um candidato com tamanha quantidade de votos, como é o caso Bolsonaro e já foi o de Lula, de fato desperte no povo que mais necessita os pontos fundamentais para que tenha o seu voto? Estaria a maioria dos eleitores enxergando algo positivo em Bolsonaro que eu sou incapaz de enxergar? Enquanto Bolsonaro apoia deliberadamente o autoritarismo e a ditadura, o partido de Haddad não estaria apoiando regimes semelhantes, mas de maneira talvez mais discreta?

Foi na busca por estas respostas que escrevi esse post, procurando e encontrando os argumentos contra o PT, que fundamentam a onda bolsonarista. E devo dizer que compreendo, sim, muitos desses argumentos — quem sabe, assim como fez Fernando Gabeira. Todavia, a verdade é que não consegui fazer o oposto: os argumentos simplesmente a favor de Bolsonaro carecem bastante de fundamentação.

Eleitores de Bolsonaro, conversando nas ruas, parecem defender seu candidato dizendo que ele não fará aquilo que diz em seus discursos ofensivos. É curioso: é como se os  eleitores de Bolsonaro tentassem nos convencer de que seu candidato não fará aquilo que promete! Esses eleitores também dizem que ele é o único candidato capaz de evitar que o PT transforme o Brasil em uma Venezuela, sustentando seu argumento no amontoado de evidências listadas ao longo do texto acima, mas fechando os olhos, ao que me parece, para os pontos em comum que os dois partidos e seus candidatos carregam.

Tanto Haddad como Bolsonaro apresentaram a proposta de uma constituinte, que alteraria a nossa Constituição mesmo em meio à crise política que vivemos no País, tal como fez Hugo Chávez. Diante de questionamentos da imprensa e da opinião pública no Brasil sobre o tema, os dois candidatos recuaram sobre esse ponto e retiraram-no de suas pautas.

Permaneceu então outro ponto em comum: a regulação da imprensa. Haddad a defende em seu plano de governo. Bolsonaro, por sua vez, embora não defenda a regulação da imprensa diretamente pelo Estado, sugeriu algo parecido ao afirmar que cortará a verba da imprensa que dele discordar: “Sem mentiras, sem fake news, sem Folha de São Paulo. Nós ganharemos esta guerra. Queremos a imprensa livre, mas com responsabilidade. A Folha de São Paulo é o maior fake news do Brasil. Vocês não terão mais verba publicitária do governo. Imprensa livre, parabéns; imprensa vendida, meus pêsames”, disse ele.

Em muitos pontos, são muito parecidos esses dois candidatos! — frase esta que os bolsonaristas provavelmente responderiam apontando em direção à corrupção. Todavia, é preciso reconhecer a Lava Jato já atingiu 14 partidos políticos: para além do PT, PMDB e PSDB, foram alvos da Lava Jato políticos do PTC, PSB, SD, PR, PPS, PP, DEM, PC do B, PRB, PTB e PSD. Além disso, de acordo com um levantamento, dos cinco partidos com maior número de congressistas sob investigação, dois são de direita (PP, com 35 parlamentares, e PR, com 19), um é de esquerda (PT, com 32) e dois são de centro: PMDB (também com 32) e PSDB (26). Em ordem decrescente, portanto, o PP, que já abrigou Bolsonaro, segue em primeiro lugar, PMDB e o PT de Haddad logo atrás, praticamente empatados, e PSDB em seguida. (Esse levantamento é importante, mas devemos ter em mente que investigar é diferente de condenar e, acima, temos a quantidade de investigados.)

O argumento que Bolsonaro mais usa para se provar incorruptível é a fala de Joaquim Barbosa, ex-ministro do STF, que teria dito que “só Bolsonaro não foi comprado pelo PT no esquema de corrupção conhecido como Mensalão”. Barbosa, porém, corrigiu Bolsonaro, lembrando que ele “não era líder nem presidente de partido” e “não fazia parte do processo do Mensalão”. Nesse sentido, Barbosa não poderia tê-lo absolvido, exonerado e sequer julgado, pois “só se julga quem é parte no processo”. O ex-ministro do STF conclui que “é falso, portanto, o que ele vem dizendo por aí”.

Talvez pior, Bolsonaro e Haddad são os únicos dos candidatos à presidência que não assinaram compromisso de apoio às chamadas “Novas Medidas contra a Corrupção”, um pacote de projetos para melhorar o enfrentamento à criminalidade, inclusive a de colarinho branco, lançado por entidades do movimento “Unidos Contra a Corrupção”. Além disso, embora não se enquadrem na Lei da Ficha Limpa, tanto Bolsonaro quanto Haddad respondem a ações penais ou de improbidade administrativa.

Bolsonaro é réu em duas ações penais no STF: os crimes imputados a ele são de incitação ao crime, injúria e apologia ao crime. Por sua vez, Haddad é réu em ação cível de improbidade administrativa: segundo promotores do Ministério Público de São Paulo, o MP-SP, houve irregularidades na construção de um trecho de 12 km de ciclovia na capital paulista, com a utilização de um tipo de contrato que dispensaria licitação, superfaturamento e deficiências na execução do serviço.

Pela primeira vez desde a redemocratização, elegeremos um presidente que é réu. Entretanto, quem for eleito não mais terá seu processo solucionado pela justiça, uma vez que a Constituição determina que processos contra presidentes da república sejam suspensos durante o mandato. Em outras palavras, seremos governados por alguém que não saberemos se é culpado ou inocente do crime ou irregularidade do qual é acusado.

Portanto, diante desse cenário, em quem votar? Ou, melhor dizendo, em quem não votar? No que diz respeito a nós, soropositivos, temos o risco de, com Bolsonaro no poder, termos uma saúde venezuelana no Brasil, sem antirretrovirais. Bolsonaro é ameaça de morrermos de aids, enquanto, com Haddad, não temos esse prenúncio.

O pior de Haddad parece ser o histórico de seu partido, o PT, envolvido em escândalos de corrupção e apoiador de regimes ditatoriais, através de notas de apoio do partido. Mas Haddad tem dado sinais de que quer se distanciar disso. Primeiro, reconhecendo que Venezuela e Nicarágua não são democracias. Depois, recuando sobre pontos polêmicos em seu plano de governo, chegando inclusive a alterar esse plano, retirando dali o nome de Lula, condenado e preso na Lava Jato. Haddad não planeja mais controlar o judiciário, como antes tinha dito, é mais enfático na defesa dos homossexuais e, agora, pondera o termo “golpista”, entre outros pontos que, de certa forma, o distancia dos dogmas de seu partido.

Nesse Haddad, ainda que timidamente contrário aos erros do PT, me sinto mais à vontade em votar, embora com muitas reticências. Desde o primeiro turno me mantive tendente ao voto nulo ou à abstenção. Me parecia o mais coerente a se fazer, do ponto de vista ético e político, embora contrário ao meu instinto de sobrevivência, pois preciso dos antirretrovirais para sobreviver. Para piorar, a onda de Bolsonaro tem motivado ataques contra homossexuais — se antes esses ataques já ocorriam, a verdade é que agora eles vêm com gritos de apoio ao candidato pesselista. Não é à toa que chamou a atenção da Ku Klux Klan: Bolsonaro endossa, sim, os discursos fascista e nazista.

O pior de Bolsonaro continua sendo Bolsonaro, indiferentemente de seu partido. O pior de Haddad, me parece, é seu partido e não a sua pessoa. Por isso, às vésperas da eleição é que decido meu voto, decido por não anular ou abster e, sim, votar em Haddad. Assim como Marina Silva e quase como Ciro Gomes, farei voto crítico em Fernando Haddad. Vou votar 13.

Dentre os principais candidatos à presidência, quase nenhum deles cita HIV ou aids em seu plano de governo registrado no Tribunal Superior Eleitoral, o TSE. Esse é o caso de Fernando Haddad (PT), Geraldo Alckmin (PSDB), Jair Bolsonaro (PSL) e Marina Silva (Rede): nenhum deles menciona especificamente sobre a epidemia de HIV e aids no Brasil, seu controle, tratamento ou o atendimento às pessoas que vivem com HIV. A única exceção entre principais candidatos à presidência é Ciro Gomes (PDT).

Dentre os demais candidatos, com menor intenção de voto de acordo com as pesquisas, Alvaro Dias (Podemos), Cabo Daciolo (Patriota), Eymael (DC), Henrique Meirelles (MDB), João Amoedo (Novo), João Goulart Filho (PPL) e Vera Lúcia (PSTU) também não apresentam qualquer proposta específica para HIV e aids e pessoas que vivem com HIV em seus planos de governo. O único candidato com menor intenção de voto que em seu plano de governo apresenta propostas específicas é Guilherme Boulos (PSOL).

Guilherme Boulos, da coligação Sem Medo de Mudar o Brasil, fala sobre HIV ou aids nas páginas 66, 73, 74 e 92 de seu plano de governo, ao mesmo tempo em que fala sobre a inclusão de pessoas trans:

As pessoas trans são as principais vítimas dos crimes de ódio (e o Brasil é o país onde mais são assassinadas a cada ano por sua identidade de gênero), constituem o grupo mais vulnerável à epidemia de HIV/aids, e também sofrem, como nenhum outro grupo social, a exclusão e a discriminação no acesso à educação, à saúde, ao emprego e à moradia. Todas essas formas de opressão são naturalizadas pela maioria da sociedade, que não as percebe, porque as próprias pessoas trans não são percebidas.

Boulos lembra da invisibilidade legal sofrida pelas pessoas trans: o Estado que não lhes reconhece oficialmente e, assim, lhes nega o direito de ser quem são. Nomeadamente, a impossibilidade de usar legalmente o nome pelo qual são chamadas, que identifica as pessoas trans, e de ter seu gênero registrado nos documentos, produz constrangimento, problemas na vida quotidiana, negação de direitos fundamentais e constante humilhação. Ademais, a identidade de gênero das pessoas trans ainda é tratada como doença ou patologia, tal como aconteceu no passado com a homossexualidade.

Diante dessa realidade, o governo de Boulos e Sônia propõe:

  • apoiar a aprovação, no Congresso Nacional, do PL-5002/2013 (Lei João Nery), dos deputados Jean Wyllys (PSOL-RJ) e Érika Kokay (PT-DF), que despatologiza a transexualidade e reconhece o direito das pessoas trans à identidade de gênero e à autonomia para decidir sobre seus corpos.
  • desenvolver uma política nacional para prevenir a discriminação e o preconceito contra as pessoas trans na infância e na adolescência, com ênfase na educação formal e em campanhas de difusão dirigidas às famílias;
  • criar um programa de acolhimento, moradia e inclusão social para as pessoas trans expulsas do lar familiar e/ou em situação de rua;
  • promover a inclusão de mulheres trans na lei 13.104/2015 (Lei do Feminicídio) e desenvolver uma política nacional de prevenção da violência e dos crimes de ódio contra a população LGBTI;
  • reestruturar o processo transexualizador, em adequação ao CID-11, garantindo o cuidado das pessoas trans numa perspectiva não patologizante e de saúde integral, em sintonia com o projeto de Lei João Nery;
  • ampliar o número de ambulatórios voltados para a população trans, garantindo sua presença em todas as cidades com mais de 300 mil habitantes, com disponibilidade de Tratamento Fora de Domicílio (TFD) para pessoas que residem em municípios que ainda não contem com o serviço;
  • articular uma rede de atenção e cuidado à população intersexual, garantindo sua autonomia para tomar decisões sobre seus corpos, orientação das famílias e proteção dos seus direitos.

Em relação aos serviços do SUS, Boulos alerta que as políticas de prevenção da epidemia de HIV e aids focadas na população LGBTI foram em muitos casos desmanteladas, segundo ele, por pressão dos fundamentalistas religiosos, o que teve um impacto direto nas estatísticas de transmissão do vírus, cuja incidência na população mais pobre e na população LGBTI cresceu. Boulos também reconhece que existem dificuldades na provisão dos medicamentos antirretrovirais. Além disso, aponta inúmeros problemas enfrentados por pessoas trans e homossexuais no SUS, para os quais ele propõe:

  • criar uma linha de cuidado à saúde integral das mulheres lésbicas e bissexuais e trabalhar junto às universidades para promover uma melhor formação dos profissionais da saúde nessa área, enfrentando também a violência ginecológica e obstétrica sofrida por mulheres lésbicas ou bissexuais e homens trans;
  • implementar uma política de atenção integral à saúde de trabalhadores/as sexuais;
  • Realizar campanhas de prevenção ao suicídio de pessoas LGBTI e fortalecer a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS);
  • promover a completa despatologização das identidades LGBTI, assim como o fim das “comunidades terapêuticas” e da pseudociência, das intervenções corporais indevidas em pessoas intersexo, das internações forçadas e dos tratamentos anticientíficos para a mal chamada “cura gay”;
  • criar plano de políticas públicas e metas para redução da transmissão do vírus do HIV, recuperando e reforçando campanhas e políticas específicas para a população LGBTI, negra, campesina e indígena, e da mortalidade por aids e coinfecções como tuberculose e pneumonia;
  • acabar com a proibição de doar sangue para os homens que fazem sexo com homens, apoiando a aprovação, no Congresso Nacional, do PL-6297/2016, do deputado federal Jean Wyllys (PSOL-RJ).

Para enfrentarmos esse cenário, Boulos defende que o Estado atue na melhoria das condições de vida da população, na garantia do direito à saúde e na consolidação do SUS enquanto um sistema de saúde público, universal e gratuito. Ele alerta que os recursos destinados à saúde pública, no Brasil, representam metade da média do gasto em países com sistemas universais semelhantes. Boulos é contra a privatização da gestão, que não resolveu o problema da eficiência na utilização dos recursos públicos.

Ciro Gomes, em seu plano de governo, fala sobre HIV na página 36, subitem 6.8, em que afirma que o programa de controle de HIV/aids no Brasil é um caso de sucesso que deve ser mantido, e também na página 51, quando fala da maior vulnerabilidade das pessoas LGBTI à epidemia de HIV.

Em relação à saúde como um todo, Ciro defende aprimorar o SUS para melhorar o atendimento na saúde:

Ao completar 30 anos de sua criação, o SUS precisa ser fortalecido
 e aperfeiçoado, em busca de melhores resultados para a população brasileira. É necessário aprimorar a organização, supervisão, avaliação e controle do Sistema, eliminando também, como na Educação, o subfinanciamento causado pela Emenda
 do Teto de Gastos. Só assim será possível ampliar a qualidade e a resolutividade
da atenção primária, que ainda hoje é objeto de insatisfação da população.

Ciro defende a redução da espera para os atendimentos ambulatoriais, consultas especializadas e realização de exames, bem como a diminuição da espera para as cirurgias eletivas. Para isso, segundo ele, é necessário investir na rede de atendimento, nas campanhas de prevenção e de vacinação, na formação de médicos generalistas, na melhoria dos sistemas de informação, na coordenação entre as diversas esferas de atendimento, incluindo o pacto federativo, e na premiação do bom desempenho. Além disso, planeja criar o “Registro Eletrônico de Saúde”, que registrará o histórico do paciente e facilitará o atendimento do paciente em todas as esferas do SUS.

Além disso, o plano de Ciro inclui:

  • recuperar a cobertura vacinal, atentando para a necessidade premente de evitar uma epidemia de sarampo;
  • criar o “Comitê Nacional de Políticas Públicas LGBT”, com representantes estaduais, assim como uma “Secretaria Nacional de Políticas Públicas para a
    Cidadania da população LGBTI”, incluindo o amparo à seguridade de trabalho, emprego e renda à população LGBT e de ações afirmativas de combate à discriminação institucional de empresas e no ambiente de trabalho;
  • implementar o Plano Nacional de Promoção da Cidadania e Direitos Humanos LGBTI;
  • respeitar o Termo de Compromisso com a Aliança Nacional LGBTI+ e parceiras, tentando cumprir com máximo esforço suas propostas;
  • criar meios para coibir ou obstar os crimes LGBTIfóbicos, definindo suas características, equiparando aos crimes por racismo, injúria e feminicídio, cada qual com sua especificidade;
  • reestruturar, ampliar e fortalecer o Disk Direitos Humanos (Disk 100);
  • combater toda forma de preconceito, seja ele por raça, etnia, sexo, orientação sexual e/ou identidade de gênero no Plano Nacional de Educação;
  • desenvolver plano de ações e metas para diminuir a discriminação nas escolas e a evasão escolar;
  • garantir e ampliar a oferta de tratamentos e serviços de saúde para
que atendam às necessidades especiais da população LGBT no SUS e suas especificidades, assim como o acolhimento dessa população acima dos 60 anos;
  • considerar as transversalidades da população LGBTI e suas vulnerabilidades, tais como: situação de refúgio, conviventes com HIV/aids, LGBTIs negros e negras, em situação de rua, dentre outras, fomentando a ampliação das políticas públicas existentes e criação de políticas públicas de proteção e acolhimento à essas especificidades;
  • fomentar a aprovação de Projetos de Lei em tramitação que visam à equiparação do casamento civil igualitário, assim como a Lei de Identidade de Gênero conhecida como Lei João W. Nery em consonância com as Ações Diretas de Inconstitucionalidade (ADI) de número 4277 e 4275, respectivamente, votadas pelo pleno Supremo Tribunal Federal.

Além de Boulos (PSOL) e Ciro Gomes (PDT), nenhum outro candidato à presidência fala sobre HIV e aids em seu plano de governo. Fernando Haddad (PT), Geraldo Alckmin (PSDB), Jair Bolsonaro (PSL), Marina Silva (Rede), Alvaro Dias (Podemos), Cabo Daciolo (Patriota), Eymael (DC), Henrique Meirelles (MDB), João Amoedo (Novo), João Goulart Filho (PPL) e Vera Lúcia (PSTU) não apresentam qualquer proposta específica para HIV e aids em seus planos de governo.

Vale registrar que o plano de governo de Lula, registrado no TSE antes da negação de sua candidatura, também não apresenta qualquer proposta específica para quem vive com HIV ou para controlar a epidemia no Brasil.

O Diário de um Jovem Soropositivo entrou em contato com todos os candidatos, suas equipes ou partidos, perguntando sobre as políticas públicas de cada um para as pessoas que vivem com HIV e para o controle da epidemia de HIV no País. Até a publicação desse texto, nenhum candidato respondeu aos questionamentos.

Apesar do silêncio de todos estes candidatos, nenhum deles se posicionou publicamente contra as pessoas que vivem com HIV ou contra a oferta universal e gratuita de tratamento antirretroviral — exceto um: Jair Messias Bolsonaro (PSL).

Jair Bolsonaro fala pouco sobre saúde em seu plano de governo, citando genericamente sobre o tema nas páginas, 10, 12, 22, 34, 36, 37, 39, 40, 41 e 80.

Abandonando qualquer questão ideológica, chega-se facilmente à conclusão que a população brasileira deveria ter um atendimento melhor, tendo em vista o montante de recursos destinados à Saúde. Quando analisamos os números em termos relativos, o Brasil apresenta gastos compatíveis com a média da OCDE, grupo composto pelos países mais desenvolvidos. Mesmo quando observamos apenas os gastos do setor público, os números ainda seriam compatíveis com um nível de bem estar muito superior ao que vemos na rede pública. É possível fazer muito mais com os atuais recursos!
 Esse é o nosso compromisso!

Bolsonaro propõe “libertar nossos irmãos cubanos” do Mais Médicos: “suas famílias poderão imigrar para o Brasil”. E, também, mudar o conteúdo e o método de ensino nas escolas, com mais matemática, ciências e português e “sem doutrinação e sexualização precoce”. Não existe plano específico para a população LGBTI no plano de governo de Bolsonaro, entretanto, publicamente, o candidato já afirmou que “filho gay é falta de porrada”.

Em relação ao tratamento universal e gratuito para quem vive com HIV, Bolsonaro já disse em entrevista que quem viveu a “vida mundana”, e daí contraiu uma doença, não pode vir cobrar do poder público por seu tratamento de saúde. Em outras palavras, Bolsonaro é contra o acesso gratuito ao tratamento antirretroviral contra o HIV.

É importante lembrar que uma política semelhante já foi adotada na Rússia, sob o governo de Vladimir Putin. Por conta disso, e epidemia russa de HIV tem crescido 10% ao ano, forçando as pessoas que vivem com HIV no país a organizarem clubes de compras de antirretrovirais, tal como no filme Clube de Compras Dallas (2013). A política discriminatória russa também tem criminalizado a transmissão do HIV, especialmente contra mulheres, mesmo sem qualquer comprovação da transmissão ou da origem da infecção.

Considerando as propostas dos candidatos e, também, suas afirmações e declarações públicas para além de seus planos de governo, minha convicção pessoal é votar contra o candidato do PSL, Jair Bolsonaro — em outras palavras, votar em qualquer outro candidato com alguma chance real de vencê-lo, de acordo com as pesquisa de inteção de voto.

Os incontáveis discursos de Bolsonaro homofóbicos, preconceituosos, racistas, machistas e que incentivam a violência ou o uso de armas são suficientes para meu repúdio à sua candidatura, para não falar da sua defesa ao regime militar, da falta de evidência de sua competência, com apenas dois projetos aprovados em 26 anos de Congresso, e, por fim, da sua evidente limitação em se aprofundar em diversos assuntos que julgo essenciais para um presidente, como economia, saúde e salário mínimo, entre outros, tópicos que Bolsonaro, ao meu ver, sempre se mostra incapaz de responder (talvez, até incapaz de compreender a pergunta) nas entrevistas e sabatinas que participou durante a campanha.

Seu plano de governo é carente de propostas claras, não apresenta um plano prático de como “mudar isso aí”, tal como o candidato tanto gosta de falar. Em seus discursos, suas propostas ocasionalmente apresentadas são geralmente confusas, por exemplo: apesar de se apresentar como um liberal, Bolsonaro indica em suas atitudes ser contra a privatização de estatais e se absteve de votar no ano passado no Projeto de Lei da Terceirização (PL 4330/04). Além disso, já defendeu barreiras alfandegárias, tal como fez Dilma Rousseff em seu mandato, e se manifestou a favor de barreiras migratórias. A visão de mundo de Bolsonaro é militarizada, retrógrada e enviesada.

Bolsonaro parece representar um ódio coletivo contra a insatisfação de muitos brasileiros, a qual para parece vir dos últimos governos do PT e, também, do PSDB, com Fernando Henrique Cardoso. Sendo isso verdade, é natural almejar agora por um presidente de outro partido, diferente da dicotomia que experimentamos há tantos anos, dividindo o Brasil em dois e rivalizando entre “coxinhas” e “mortadelas”, petistas e tucanos. Entendo que é importante a troca de poder e que é saudável que este vá para as mãos de alguém hábil em unir estes lados díspares na sociedade brasileira atual. Contudo, é muito claro que este alguém não é Bolsonaro — e, se fosse, o preço a se pagar por isso, com ele no poder, presumindo-se a partir de todo o discurso do próprio candidato, seria mais terrível do que qualquer outra situação que já experimentamos, com exceção à ditadura.

Votar contra Bolsonaro é votar de acordo com as  pesquisa de intenção de voto, as quais hoje indicam que qualquer um dos demais candidatos com maior intenção é capaz de derrotá-lo no segundo turno. Nesse sentido, votemos em que se alinha às nossas convicções. Para mim, vejo que esse candidato é Ciro Gomes (PDT): é ele que terá o meu voto! E você, em quem vai votar?

 

Lendo aquela notícia, publicada nos últimos dias, que fala sobre o baixo índice de vacinação no Brasil, o pior dos últimos 16 anos, me veio à cabeça o seguinte pensamento: será que no futuro, talvez distante, talvez próximo, quando existir uma vacina eficaz contra o HIV, existirão também aqueles vão preferir não tomá-la?

Nos vejo, aqui, torcendo para o desenvolvimento de uma vacina que ainda não existe, enquanto parece que há quem torça para acabar com as vacinas que já existem — não é curioso? São chamados “negacionistas das vacinas”, grupo para o qual a Organização Mundial da Saúde, a OMS, já chegou a organizar seminários para treinar a combater o seu discurso anti-vacinação. Eles são uma espécie de derivação dos negacionistas do HIV: enquanto uns negam a validade das vacinas, outros chegam a negar a existência do HIV ou do seu impacto sobre a saúde — mesmo décadas depois do surgimento da terapia antirretroviral e de seu incontestável sucesso em evitar milhares de mortes decorrentes da doença. Teorias da conspiração sustentam ambos os discursos negacionistas; e documentários já foram feitos dando argumentos, factíveis ou não, sobre todo este assunto.

Dr. Andrew Wakefield

No que diz respeito à negação das vacinas, fala-se do documentário Vaxxed (2017), que inspira sua narrativa num estudo liderado pelo Dr. Andrew Wakefield, publicado em 1998 no jornal científico britânico The Lancet. O estudo Wakefield, como ficou conhecido, afirma ter investigado o caso de doze crianças encaminhadas ao Royal Free Hospital and School of Medicine com enterocolite crônica e transtorno regressivo de desenvolvimento. Os autores relataram que os pais de oito das doze crianças associaram a perda das habilidades adquiridas de seus filhos, incluindo a linguagem, à vacinação com a tríplice viral, que protege contra sarampo, rubéola e caxumba.

Os autores do estudo concordaram com os pais, concluindo que haveria “possíveis gatilhos ambientais”, causadores da doença gastrointestinal e da regressão do desenvolvimento, e que este agente seria a vacina. Em resumo, a partir da observação destas doze crianças, os autores concluíram que a vacina é a causa do autismo.

“Revelado: escândalo da vacina tríplice viral”

Passaram-se alguns anos até que se descobrisse que o estudo Wakefield fora conduzido de maneira fraudulenta. Para começar, as crianças estudadas não haviam sido escolhidas randomicamente: ao contrário, elas  foram cuidadosamente selecionadas, para que estivessem dentro os requisitos que levariam ao resultado desejado. Além disso, o estudo foi financiado por advogados que atuavam em favor dos pais envolvidos em ações judiciais contra as fabricantes de vacinas. Era interessante para os advogados, financiadores do estudo, que o resultado do estudo favorecesse a ação judicial.

Enfim, um bom exemplo daquilo que é chamado de “viés de confirmação”, que nada mais é que a tendência de buscar e enxergar apenas os indícios daquilo que nós — ou o nosso grupo — acreditamos ou preferimos acreditar. O viés de confirmação vai na completa contramão do método científico. Em Ciência, para alcançar uma conclusão, é preciso controlar o experimento, de maneira a descartar as variáveis passíveis de mascarar o resultado. Em outras palavras, é preciso verificar e confirmar que a causa do resultado obtido é mesmo aquela que observamos, que eventualmente já havíamos pressuposto, garantindo que este resultado não é decorrente de outro agente que não estaria sendo considerado. Um resultado obtido em um estudo controlado deve então ser testado novamente, por outros cientistas em outro local e momento — essa é uma maneira importante de verificar aquilo que foi concluído.

Robert De Niro no Tribeca Film Festival

Nada disso foi feito no estudo Wakefield. Por isso, em uma reavaliação publicada 12 anos depois, o The Lancet publicou uma retratação e reconheceu as diversas falhas no estudo. Andrew teve sua conduta sentenciada como “antiética” pelo General Medical Council e sua licença médica  foi revogada, por sua falha em revelar conflitos financeiros de interesses e violações de ética. E o documentário Vaxxed, dirigido pelo próprio Andrew, foi banido do Tribeca Film Festival em 2015. “Minha intenção ao exibir este filme seria dar oportunidade para conversar sobre um assunto que é profundamente pessoal para mim e minha família”, disse o ator e fundador do festival, Robert De Niro, que aproveitou o assunto para revelar que seu filho sofre de autismo. “Mas, depois de revê-lo nos últimos dias, com a equipe do Festival de Cinema de Tribeca e membros da comunidade científica, não acreditamos que isso contribua ou amplie a discussão que eu esperava.”

O Dr. William Schaffner, professor de medicina preventiva da Faculdade de Medicina da Universidade de Vanderbilt, é possivelmente um dos motivadores da retirada de Vaxxed do catálogo do Tribeca Film Festival. “Toda a diretoria do festival e o Sr. De Niro aprenderam muito nos últimos dias. Tiro meu chapéu para eles por terem escutado e pensado sobre isso, discutindo e respondendo.” Mas Schaffner também disse que é alarmante o fato de um filme repleto de ideias totalmente refutadas chegar tão perto de uma exibição tão prestigiosa. Como é possível que uma conclusão mergulhada em viés de confirmação chame tanta atenção e até seja considerada como plausível?

Minha teoria, pessoal, é que isso é natural, em tempos em que o viés de confirmação faz parte do nosso dia a dia. O melhor exemplo está nas redes sociais, com as amizades que se encerram e grupos que se fecham a cada postagem de conteúdos que refletem opiniões divergentes. O resultado é um conjunto de pessoas que compartilha entre si informações que corroboram sempre com a opinião que já é uníssono entre aquele grupo. Os de esquerda sempre postarão conteúdos de esquerda, lidos e comentados por pessoas de esquerda. Os conservadores de direita, os “coxinhas”, a mesma coisa — provavelmente também falando mal dos pensamentos de esquerda. Os vegetarianos postarão sobre os benefícios da dieta sem carne e receberão likes de outros vegetarianos. Os místicos falarão sobre as últimas da física quântica. E assim por diante.

Para piorar, adicione ao viés de confirmação a epidemia de fake news, notícias falsas propagadas pelos algoritmos do Google e Facebook, sem qualquer discernimento de controle e verificação da sua veracidade. Nos dias de hoje, é fácil fabricar fatos e conclusões. Talvez, por isso, a descrença nas vacinas ainda continue. “Vivemos em uma época na qual todo tipo de conhecimento científico — desde a segurança do flúor e das vacinas até a realidade das mudanças climáticas — enfrenta oposição organizada e, muitas vezes, virulenta”, escrevia uma reportagem da National Geographic, de abril de 2015. “Acirrados por fontes de informação próprias e por interpretações peculiares de pesquisas, os contestadores declararam guerra ao consenso dos especialistas.”

O artigo também lembra que foi seguindo este raciocínio que, no filme Interestelar, a Nasa do futuro é mostrada como uma organização obrigada a trabalhar na clandestinidade: ninguém nem sabe que ela existe. O mundo passou a ser um lugar reinado pelas crenças leigas, incrédulas do conhecimento científico, incluindo total descrédito, por exemplo, pela viagem do homem à Lua. É oculta no subsolo que a Nasa modifica geneticamente as plantas para que resistam às pragas cada vez mais combativas, que aniquilam nossas últimas fontes de alimento, e constrói foguetes para nos levar, longe da morredoura Terra, para algum lugar habitável no espaço.

Mas não é fácil subir até as estrelas. Antes, é preciso vencer a gravidade, a força que gruda nossos pés no chão e que, como consequência, nos impede de perceber o mundo tal como ele é de verdade: uma esfera. Por milhares de anos, nosso planeta foi tido como plano, e não esférico. Contava-se histórias de que monstros marinhos habitavam nas beiradas do desconhecido e engoliam os desbravadores que ousassem chegar até lá. Aparentemente, foi só com a experiência do navegador português Fernão de Magalhães, que fez a primeira viagem de circum-navegação ao globo de que se tem notícia, entre 1519 e 1522, que a teoria de um mundo plano foi por água abaixo. O medo dos monstros que habitariam na linha do horizonte mostrou-se imaginário, e não real. (A primeira observação direta de que a Terra é redonda só viria muito depois, com o astronauta russo Yuri Gagarin, que em 12 de abril de 1961 foi o primeiro homem a ir para o espaço e dizer: “A Terra é azul”.)

Surpreendentemente, apesar de tantas observações documentadas ao longo da história, o negacionismo da terra esférica ainda é uma tendência real — e, talvez, uma das melhores soluções tenha sido dada por um usuário da plataforma Reddit: “Como terminamos o debate da Terra Plana de uma vez por todas? Vamos fazer um reality show, no qual os competidores que acreditam na Terra Plana sejam enviados em uma expedição para tentar descobrir a borda do mundo!” Afinal, não há nada de errado em experimentar e tirar suas próprias conclusões, certo?

Quem sabe, uma das melhores citações a esse respeito vem de um texto que circula pelas redes sociais, por acaso, uma fake news, falsamente atribuído a Buda: “Não acredite simplesmente porque você escutou. Não acredite simplesmente porque está escrito. Não acredite meramente nas autoridade, professores e anciãos. Não acredite nas tradições só porque elas foram transmitidas ao longo de muitas gerações. Mas acredite depois de observar e analisar. Quando encontrar algo com que concorda com razão e é favorável ao bem e ao benefício de todos, então, aceite-o e viva de acordo com isso.”

Mas quão longe podemos ir com essa desconfiança? Será que podemos testar e experimentar tudo e, então, tirar nossas próprias conclusões? “Há um limite para o debate de ideias, especialmente quando se aplica à saúde pública”, diz o médico infectologista Dr. Esper Kallás. “É legítimo questionar se a vacina contra o sarampo é eficaz? Deveríamos debater o estímulo ao cigarro em escolas? Ou o uso do amianto em incubadoras de berçários? É preciso ter o mínimo de bom senso quando se fala de um assunto tão grave em saúde pública.”

Isso quer dizer que assuntos como este não deveriam nunca ser questionados? “Todo mundo deveria questionar”, opina Marcia McNutt, editora da revista Science, em entrevista à National Geographic. “Mas todos deveriam recorrer ao método científico, ou confiar naqueles que usam o método, para se posicionar em relação a essas questões.” Afinal, existem questionamentos que são sabidamente irredutíveis. “A evolução aconteceu mesmo. O clima está mudando. As vacinas salvam vidas. Faz diferença ter razão — e a tribo dos cientistas tem um alentado histórico de ter, afinal, entendido o que estava ocorrendo.”

E é importante acrescentar e lembrar: os cientistas não são a imprensa. No caso da vacinação, por exemplo, alguns veículos de imprensa noticiaram mal que a queda na cobertura da vacinação traz o risco de doenças erradicadas voltarem a fazer vítimas. O fato é que doenças erradicadas por vacinação nunca antes voltaram a atacar. “Veja o exemplo de doenças preveníveis  com vacinação. Só há dois exemplos de sucesso na erradicação de doenças: varíola e pólio 2 e 3”, comentou comigo o Dr. Esper. A poliomielite que voltou a assolar o planeta não é nenhuma dessas: trata-se da pólio do tipo 1, que tem prevalecido em áreas de conflito, como Síria, Nigéria e Paquistão. O sarampo, por sua vez, está de volta no Brasil, é verdade, graças à falta de vacinação; entretanto esta era uma doença considerada quase erradicada, ainda não totalmente erradicada.

Ainda assim, o sucesso das vacinas na prevenção de doenças é incontestável. “O sarampo mata aproximadamente 40 mil crianças ao ano. Se não existisse a vacina, seriam de 6 a 13 milhões!”, lembrou o Dr. Esper. “Além disso há um importante componente social: não se vacina apenas para si, mas pelo coletivo. Exceto aqueles com contraindicações formais, todos devem ser vacinados. Ao não se vacinar, prejudica-se a imunidade de toda uma população.”

Por tudo isso, sou a favor das vacinas. E que venha também a vacina contra o HIV.

Almir Nascimento

Almir Nascimento tem 59 anos de idade. Foi dono do bar e restaurante Paparazzi, antes de integrar a organização da Parada do Orgulho GLBT de São Paulo em 1999 e 2000, anos em que o Movimento Gay da cidade ganhou bastante notoriedade. Entre 2009 a 2013, foi presidente da Associação Brasileira de Turismo GLS. Há 19 anos é proprietário da da sauna Wild Thermas Club. Desde julho, voltou a integrar a Associação da Parada do Orgulho GLBT de São Paulo e é um dos organizadores do 1º Encontro de Saúde/Prevenção IST/Aids entre Jovens LGBT, no dia 28 de novembro — a primeira vez que a Parada Gay de São Paulo vai falar sobre a prevenção ao HIV.

Conheci Almir em uma reunião que aconteceu em setembro deste ano, no bairro dos Jardins, em São Paulo, depois de ter sido convidado para colaborar com a iniciativa da Parada do Orgulho GLBT em uma campanha sobre a prevenção do HIV. Quando cheguei, ele já estava na sala, sentado de costas para a janela, vestindo uma camisa social xadrez e calça jeans, quando se levantou para me cumprimentar, com um aperto de mão firme e um olhar sorridente. Almir parece ser daquelas pessoas que escuta mais do que fala. Pelo menos, foi assim naquela reunião, na qual ele ouviu atentamente aos que estavam ali presentes — entre eles, o youtuber Gabriel Estrëla, do Projeto Boa Sorte, e o médico infectologista Ricardo Vasconcelos, coordenador de um ambulatório do Hospital das Clínicas da FMUSP especializado em HIV, que participou dos estudos iPrEX e PrEP Brasil. No pouco que falou naquele dia, Almir reconheceu que era hora de incluir o HIV e a aids na pauta da Parada Gay, algo que não foi feito até hoje. Conversei novamente com Almir nos últimos dias, quando tomamos um café num bairro da região central de São Paulo.

Jovem Soropositivo — A Parada do Orgulho GLBT de São Paulo nunca abordou oficialmente o tema do HIV e da aids. Por que essa mudança agora?

Almir Nascimento — O índice da epidemia está explodindo, novamente, especialmente entre os jovens homens gays. Não era para estarmos ainda falando de aumento do número de casos, de campanhas que ainda precisam ser feitas. Já era altura da epidemia estar controlada. Mas parece que estamos sempre patinando, patinando… Se a Parada tivesse feito isso há vinte anos, o quanto ela já não poderia ter conseguido? Se a gente já tivesse feito um trabalho para os jovens que hoje estão se infectando e que não têm informação sobre o HIV, o quanto a gente não poderia ter ajudado? Enfim, a Parada optou por outro caminho, foram outras conquistas. Mas eu acho que a Parada pode fazer alguma coisa, sim.

Você diz isso num tom de mea culpa?

É mea culpa da minha parte, não da Parada e nem da Associação. Dentro da comunidade gay, sempre foi falado da epidemia de HIV. Muitos associados e muitas pessoas próximas viviam e vivem com HIV. Então, sempre se falou sobre isso dentro da comunidade.

Mesmo assim, é verdade, a Parada nunca teve um evento dela própria voltado para a prevenção e conscientização sobre o HIV. O que tivemos foram vários parceiros, incluindo as ONGs que trabalham com HIV e aids, como Fórum ONG/Aids, Pela Vidda, GIV e GAPA, que foram parceiros da Associação. Então, quando chegava a época da Parada, os parceiros procuravam a Associação para fazer alguma ação. A Parada acreditava e acredita nesses parceiros, que faziam e fazem importantes ações de prevenção durante os eventos.

Mas a Parada nunca assumiu para si essa função, porque, embora muita gente imagine que sejamos uma baita organização, a verdade é que somos um pequeno grupo que faz um evento para milhões de pessoas. Durante a 4ª Parada, por exemplo, nós éramos cinco: um presidente e quatro diretores — claro, além dos vários voluntários. Hoje, mudou-se um pouco o estatuto e temos um grupo um pouco maior: um total de 18 pessoas, todos voluntários, sem ganhar nada pelo trabalho na Associação e, por isso, têm de ter seus próprios trabalhos. Então, é uma organização frágil, que mal dava conta de fazer o que tinha de fazer para a Parada acontecer. Por isso, incluir mais um evento, voltado somente ao HIV, nunca tinha sido possível.

Parada do Orgulho GLBT de São Paulo de 2014 (Foto: Ben Tavener / Brazil Photo Press).

E o que mudou?

O que mudou é que eu, voltando para a organização da Parada, disse: “eu gostaria muito de fazer isso”. Para mim é fundamental que a Associação faça alguma coisa e resgate esses vinte anos em que não trouxe diretamente essa discussão. Você falou em mea culpa… é isso! Temos que aproveitar essas milhares de pessoas na rua para isso também. Eu fui convidado para voltar para a Parada recentemente, em julho de 2017, e, agora, vamos fazer esse evento: o 1º Encontro de Saúde/Prevenção IST/Aids entre Jovens LGBT, já na semana que vem, dia 28 de novembro. Esse evento vai passar a fazer parte do calendário anual da Associação.

Teve alguma razão pessoal para essa sua motivação?

Eu acho que foi a preocupação e, também, uma vontade que eu trago há vinte anos de fazer alguma coisa nesse sentido. Mas a verdade é que, até agora, eu não achava que tinha forças e nem legitimidade para, sozinho, fazer isso. Eu sempre tive negócios voltado para o público gay: tenho hoje uma sauna gay, que este ano está fazendo dezenove anos de existência, e, durante esse tempo, nunca houve lá dentro mais do que três campanhas de prevenção ao HIV. Como empresário, eu nunca fiz isso. Claro, sempre ofereci preservativos e gel lubrificante para os clientes, mas nunca fiz uma campanha propriamente dita, com cartazes de divulgação e conscientização sobre o assunto.

Como funciona essa distribuição de preservativos dentro da sauna?

Hoje, a Secretaria Municipal de Saúde me fornece os preservativos e géis lubrificantes gratuitamente, que estão dispostos em vários pontos do estabelecimento. Se o cara está com tesão e quer transar, é muito fácil ele pegar a camisinha e usá-la. Mas antes, até doze ou treze anos atrás, não era assim: o programa municipal ainda não tinha esse serviço. Então, eu mesmo é que comprava os preservativos e os distribuía na sauna, sem custo adicional para os clientes. Hoje é maravilhoso termos essa parceria com a Secretaria, mas não é a mesma coisa que uma campanha: cartazes e folders com explicações, informações e referências. Campanhas assim fizeram muita falta.

Algo próximo disso aconteceu quando o Dr. Ricardo Vasconcelos veio nos procurar: ele precisava de 500 voluntário para participar de um estudo sobre PrEP e deixou vários folhetos lá na sauna. Sei que muitos clientes meus foram participar desse estudo. E, agora, o Dr. Ricardo será um dos palestrantes desse 1º Encontro de Saúde.

O que você acha da profilaxia pré-exposição (PrEP) e das outras alternativas de prevenção, como a profilaxia pós-exposição (PEP) e o tratamento como prevenção (TasP)?

Eu considero isso um marco. Com tantas opções de prevenção, uma pessoa bem informada só se infecta se quiser! Hoje, uma pessoa pode se prevenir antes, durante ou depois — quer coisa melhor? Mas quantas pessoas não sabem que essas alternativas existem? Falta informar as pessoas que essas alternativas existem! E é aí que mora o problema: as campanhas atuais não alcançam todo mundo.

Por que a Parada resolveu falar sobre isso para os jovens? Porque eles são difíceis de serem alcançados, eles são fluídos. Ontem, a novidade era o Facebook, hoje são os grupos de WhatsApp — os pais deles estão no Facebook, mas não no grupo de WhatsApp. Existem muitos grupos voltados para sexo e fetiches, conheço vários deles. Por exemplo, alguém que gosta de bareback ou leather cria um grupo e esse grupo bomba, com mil mensagens, duas mil mensagens. Mas aí um dos participantes cria um subgrupo, com um fetiche mais específico, por exemplo, de bareback com homens que usam barba ou sexo com militares. Em uma semana, o grupo anterior começa a minguar e perder seus participantes, que migraram para os novos subgrupos de WhatsApp, com novos temas e fetiches. E assim por diante.

Como vamos fazer campanha para pessoas que estão em grupos tão segmentados? As pessoas precisam entender que essa é a realidade, isso existe, e que é um problema a educação e informação chegar neles. Precisamos pensar em como fazer isso. Pensando bem, nestes mais de trinta anos de epidemia, deveríamos ter feito muito mais campanhas, discussões e eventos tentando atingir os mais diferentes grupos, canais e tipos de pessoas.

Além deste 1º Encontro de Saúde/Prevenção IST/Aids entre Jovens LGBT, quais outras iniciativas dentro desse assunto a Parada do Orgulho GLBT de São Paulo planeja fazer?

Uma coisa muito legal que vai acontecer em março de 2018 é um Encontro dos Organizadores de Paradas do Brasil. Juntos, vamos tentar criar uma força motivadora para tornemos o segmento mais forte. Nossa ideia é conhecer mais profundamente o movimento de Paradas, trocar experiências e saber um pouco das particularidades e especificidades de cada Parada. Além disso, esperamos que propostas e experiências legais, tal como este Encontro sobre Saúde/Prevenção, sejam levadas e adotadas em todas as Paradas do Brasil. Há sete anos, havia cerca 400 paradas no País. Hoje eu não tenho ideia de quantas existam — são muitas!

Quando você entrou na organização da Parada, qual era o tamanho do evento? Quantas pessoas participaram?

Eu participei como diretor da Associação na 4ª Parada, em 1999, até a 5ª Parada, no ano 2000. A 4ª Parada foi  um marco no Movimento: foi a “Parada dos 100 mil”, que a gente também chama de a “Parada da Virada”. Foi quando a Associação conseguiu levar 100 mil pessoas para a rua. A partir de então, a imprensa, a sociedade e o Estado começaram a olhar e a falar: “quem é esse grupo que consegue levar 100 mil pessoas à rua?” Até então, o Movimento existia mas era muito pequeno e muito dividido. O Movimento só ganhou a importância que tem hoje quando levou 100 mil pessoas à rua.

A partir daí, as pessoas perceberam que este era um grupo organizado. E eu estava justamente nessa Parada da Virada. Foi uma revolução! Na época, a diretoria da Associação tinha como presidente o Beto de Jesus — que, justiça seja feita, montou um grupo muito forte, dinâmico e bastante diversificado. Por exemplo, ele convidou o jornalista Fernando Estima para ser o assessor de imprensa da Associação. Também convidou a mim e ao atual diretor do Museu da Diversidade Franco Reinaldo — ambos empresários com negócios voltado para o público LGBT. Convidou o arquiteto Renato Baldin, o Nélson Matias e o Reinaldo Damião — militantes do movimento LGBT —, bem como o Ideraldo Beltrame e a Fátima Tassinari, além de outros colaboradores. Criou-se ali uma sinergia bem legal e, de repente, estávamos todos empenhados em ajudar, trabalhar e construir pautas, agenda e eventos para que o Movimento se fortalecesse e para que a Parada acontecesse. Foram dois anos incríveis!

Com cada vez mais pessoas participando da Parada…

Pois é, na 5ª Parada o público já foi de  200 mil pessoas. Foi um crescimento geométrico. Na 6ª Parada foram 500 mil pessoas. Foi uma coisa louca, o público cresceu ano a ano, até chegar nos milhões que temos hoje. Mas o que importa é que o Movimento LGBT se consolidou, a Associação da Parada se fortaleceu e tudo o que a Parada faz ganha uma enorme repercussão. Agora, esperamos que essa repercussão aconteça com o Encontro de Saúde/Prevenção para Jovens LGBT.

O que te motivou a entrar na organização da Parada?

Acho que foram as questões do Movimento LGBT. O Movimento LGBT não quer ser diferente, não quer ser especial: apenas queremos direitos iguais e que as nossas diferenças sejam respeitadas. Por que não ter uma lei de herança entre casais que funcione tal como funciona com casais heterossexuais? A adoção, por exemplo: por que um casal gay não pode adotar uma criança tal como um casal hétero? Por que eu e meu parceiro não podemos ter os mesmos direitos  de um casal convencional? Por que não podemos, por exemplo, partilhar um plano de saúde ou de previdência? Hoje já conseguimos muitos destes direitos, mas naquela época ainda não era assim. Percebemos que, quanto mais gente o Movimento levasse para as ruas, maior seria a força para negociar e barganhar esses direitos. Era preciso nos tornarmos visíveis, porque, até então, o público LGBT era invisível para as leis e para a sociedade.

Quando você percebeu que era gay?

Eu acho que tinha 11 anos de idade. Foi quando eu percebi que gostava de caras, que os homens me atraíam. Era a época da minissaia, em 1969. Lembro que os meus amiguinhos ficavam loucos vendo as pernas da professora de matemática. E eu achava mais interessante o tesão deles vendo as pernas da professora do que a professora em si. Era aquela molecada, todos com 11 ou 12 anos de idade, descobrindo a sexualidade, ficando de pau duro toda hora… E eu achava eles mais atraentes de pau duro do que a professora! [Risos] Isso tudo no interior de São Paulo, imagina? Sou nascido em Pirajú, perto de Ourinhos.

Eu vim de uma família muito religiosa, então, até os 19 anos eu fiquei bem quietinho, estudava a Bíblia, fui ser missionário, etc. Durante esse tempo, a minha sexualidade ficou adormecida. Até que vim para São Paulo, trabalhar como missionário aqui. Foi quando passei a ter contatos com a cidade e, claro, foram várias descobertas. Acabei me afastando da vida religiosa.

Foi nessa época que você “saiu do armário”?

Não podemos esquecer que estamos falando do final dos anos 70, começo dos 80: o Brasil estava em plena ditadura militar. Havia muita repressão, inclusive em São Paulo. Então, não tinha muito como “sair do armário” — eu tinha assumido a minha sexualidade para mim, mas não publicamente. Minha família nunca me questionou sobre a minha sexualidade. Eu comecei a namorar muito cedo, viajávamos bastante para o interior, na casa dos meus pais, e dormíamos no quarto. Ninguém nunca perguntou nem questionou nada!

Quais você acha que foram os principais avanços nos direitos LGBT, daquela época até os dias de hoje? 

Tiveram muitos avanços, mas eu acho que ainda falta bastante coisa. O que a gente vê hoje em dia é que nem toda família aceita um jovem que é parte da população LGBT. Então, muitos deles saem de casa cedo demais, o que faz com que a educação e a escola sejam interrompidas. O ideal seria que as pessoas aceitassem as diferenças e pudessem conviver com elas.

Outra coisa que aconteceu nestes vinte anos: as religiões fundamentalistas aumentaram muito, tanto em número de pessoas quanto em sua representatividade. Elas se organizaram e hoje ocupam cargos no legislativo municipal, estadual e no Congresso Nacional. Sabemos da visão equivocada que eles têm da homossexualidade e da falta de respeito às diferença.

Houveram várias conquistas, mas a força contrária, reacionária, também cresceu. Para mim, não seria nenhuma novidade que essas forças reacionários no ano que vem, nas eleições de 2018, se essas pessoas conseguirem ocupar altos cargos no Executivo — vide a prefeitura do Rio de Janeiro, com o Marcelo Crivella (PRB). Outro exemplo é o Jair Bolsonaro (PSC), que não é evangélico mas é apoiado por eles, que é um dos líderes nas pesquisas de intenção de voto para presidente.

O que você está dizendo é que, ao mesmo tempo em que houveram várias vitórias em relação aos direitos LGBT, também se cresceu a resistência a estes direitos?

Sim, é a lei da ação e reação. Isso faz parte: na medida em que a pauta progressista avança, a reacionária não fica quieta e se mobiliza também. A própria fala do Bolsonaro, quando ele fala a respeito de mulheres, gays e lésbicas, é sempre em tom muito pejorativo. Não há o mínimo de respeito nas falas dele. Ele é truculento. Além disso, vemos agora essa volta da censura nas peças de teatro e em exposições onde há nus. Há uma onda conservadora avançando — devagar, mas muito preocupante.

Você acha que a Parada corre algum risco?

Não sei se chegaria a tanto. Censura, não. Acho que a Parada pode ser verbalmente atacada. Seus recursos podem ser cortados, suprimidos. Mas o principal são as conquistas que alcançamos ao longo dos anos: será que elas podem regredir? Claro que podem! De vinte anos para cá, os governos sempre foram de esquerda ou de centro-esquerda, então a pauta era mais progressista, mais social, de direitos para as minorias. Durante esse tempo, embora estivesse afastado da Associação, eu percebia que existia parceira: haviam canais que foram sendo aberto com os parceiros institucionais. Mas, agora, este ano, temos o exemplo da Parada do Rio de Janeiro, que não recebeu apoio e nem verba institucional — foi por muito pouco que o evento não deixou de acontecer!

Quem são os principais apoiadores da Parada de São Paulo?

O evento faz parte do calendário oficial da cidade São Paulo — portanto, é um evento da cidade. Durante a semana da Parada, São Paulo fica lotada de turistas! Há vários anos as pesquisas mostram que o comércio vende muito mais na época da Parada. Tanto as lojas da Rua 25 de março, com seu comércio mais popular, como as lojas da Rua Oscar Freire, com comércio de luxo, batem recordes de venda. A ocupação de hotéis e pousadas é de 100%. Então, é muito interessante para a cidade ter um evento como esse. Há muitos anos, a Prefeitura de São Paulo apoia a Parada, não diretamente com dinheiro, mas na infraestrutura do evento: segurança, gradeamento e palco, por exemplo.

O Governo do Estado nos ajuda também. A Feira da Diversidade que a Parada fez no ano passado recebeu apoio do Governo Estadual para a montagem e estrutura do evento. Foi dele a ajuda na escolha dos locais, como teatros e auditórios, para vários eventos, como o Prêmio da Diversidade, o Ciclo de Debates e os Jogos da Diversidade.

O que é que você acha que precisa mudar no País em relação aos direitos LGBT? 

Em relação aos direitos LGBT, a questão do nome social das travestis e transexuais: quem pautou essa mudança na lei foi a Coordenadoria  da Diversidade Sexual da  Cidade de São Paulo. Isso foi legal, sensacional, mas isso aconteceu à partir de demandas do movimento LGBT. Sobre a criminalização da homofobia: essa agenda deveria também incluir a implantação de políticas públicas para educação e trabalho da população LGBT. São muitas as demandas!

Qual você acha que é o cenário ideal para as minorias, como as pessoas LGBT e para quem vive com HIV?

Acho que precisamos falar, discutir e rediscutir assuntos como saúde, cuidados e prevenção. Incessantemente.

A Folha de S.Paulo publicou neste sábado, 11 de novembro de 2017, uma notícia sobre a epidemia de HIV entre mulheres na República Democrática do Congo. Na versão impressa do jornal, a notícia tem como manchete a fala da entrevistada: “‘Meu marido não me contou que tinha Aids'”, enquanto na versão online: “Maioria entre pessoas com HIV em país africano, mulheres esperam cura”.

Na versão impressa, o lead (aquele texto logo abaixo da manchete que responde resumidamente às principais questões da notícia) é parecido com a manchete da versão online: “Maioria entre infectados, mulheres da Rep. Democrática do Congo sonham com a cura do vírus HIV contra estigmatização”. A versão online não tem o mesmo tem lead na página da notícia: este aparece no link do álbum de fotos, com sete fotografias, intitulado: “Aids na República Democrática do Congo”.

Página A19 da Folha de S.Paulo em 11 de novembro de 2017.

Apesar destas diferenças, o conteúdo da notícia em ambas as versões, impressa e online, é o mesmo: começa com a história de Madeleine Mwiza, uma congolesa cujos três filhos morreram de aids, antes que ela própria viesse a receber seu diagnóstico positivo para o HIV. Quando isso aconteceu, em 2003, Mwiza foi espancada e expulsa de casa pelo marido — quem, conforme ela descobriu depois, também era soropositivo e por anos não revelara sua condição para a esposa. Mwiza pediu então apoio do pastor da igreja adventista de sua comunidade, para que este pudesse convencer seu marido a aceitá-la de volta. Na sua fé, o casamento é algo para a vida inteira.

A história de Mwiza é a mesma de muitas outras mulheres da República Democrática do Congo. Segundo a notícia, a prevalência do HIV nas mulheres congolesas é o dobro daquela observada entre os homens, com mais mortes decorrentes do vírus entre as mulheres soropositivas do que entre homens. A matéria ainda faz referência aos dados do Programa das Nações Unidas sobre HIV/Aids, o Unaids, que estima haver 210 mil mulheres com HIV no país, num total de 290 a 450 mil soropositivos.

Apesar dessa referência ao Unaids, o jornal não seguiu as recomendações que constam no constam em seu Guia de Terminologia, publicado neste ano, durante o durante o 11º Congresso de HIV/Aids, em Curitiba, e que tem o objetivo encorajar o uso de palavras cientificamente precisas e que promovam direitos humanos universais e a dignidade do indivíduo. O lead da notícia na versão impressa do jornal, por exemplo, inclui o termo “vírus HIV”, que é redundante, uma vez que a sigla HIV já inclui a palavra vírus — para quem não sabe, HIV quer dizer vírus da imunodeficiência humana. Mais grave, há ainda o termo “vírus da aids”, que é incorreto. Além disso, lê-se “coquetel” por duas vezes ao longo da notícia, muito embora o Unaids indique o desuso dessa nomenclatura. Por diversas vezes, a palavra “aids” é utilizada erroneamente como sinônimo de infecção pelo HIV — de fato, a própria entrevistada, Mwiza, se refere à aids dessa forma, mas não seria interessante que o jornal explicasse a diferença?

Mas não são essas as imprecisões que mais incomodam. “É muito comum que uma pessoa, fora da vivência de uma pessoa que vive com HIV ou que é vulnerável ao HIV, faça interpretações superficiais sobre determinada situação que envolva este vírus”, comentou Ricardo Vasconcelos, coordenador do SEAP HIV, um ambulatório do Hospital das Clínicas da FMUSP especializado em HIV. “Algo como: ‘é só usar camisinha que a pessoa estará protegida do HIV’ — quando sabemos que não é bem assim.”

A notícia diz que o maior choque de Mwiza foi “descobrir que contraíra o vírus da Aids de seu primeiro e único parceiro sexual. O marido escondia os medicamentos e havia quatro anos tomava os antirretrovirais secretamente.” Apesar de apontar o marido como a origem da infecção da entrevistada, a reportagem não esclarece ao certo como esta conclusão foi alcançada. Cientificamente, a única maneira de se comprovar a origem de uma infecção pelo HIV é através do sequenciamento genético do vírus, neste caso, do HIV que está no corpo de Mwiza e também daquele que está no corpo do marido. Uma vez que esse tipo de análise científica costuma ser restrita a estudos científicos, é improvável que este tenha sido o caso da entrevistada. Então, é possível que a conclusão a respeito da origem dessa transmissão seja pessoal de Mwiza, a partir do conhecimento que somente ela pode ter, a respeito de sua própria vida sexual e das possíveis exposições de risco ao HIV que ela possa ter sofrido — se é esse o caso, infelizmente nesse ponto a notícia carece de aspas.

Diante do cenário de abuso de seu marido, em meio à uma sociedade patriarcal que traz graves prejuízos às mulheres, especialmente às soropositivas, podemos sim presumir e até ter convicção de que a infecção de Mwiza veio de seu marido. Entretanto, diante deste mesmo cenário social, não seria justo também indagar à entrevistada se por acaso ela foi violentada, estuprada por algum outro homem além de seu marido, antes de apontá-lo como culpado? Essa pergunta parece não ter sido feita à entrevistada e, se foi, não parece ter interessado a jornalista em publicá-la. Entretanto, trata-se de uma pergunta que se torna um pouco mais importante, quando levamos em consideração outra informação que temos a respeito do marido: a de que ele faz tratamento antirretroviral — afinal, ele mantém adesão à esta terapia e tem carga viral indetectável?

Perguntas assim podem parecer irrelevantes dentro do contexto geral da história de Mwiza, que, no fim das contas, foi infectada dentro de uma situação social de abuso, violência e machismo, seja este oriundo do marido, da sociedade na qual ela está inserida ou dos dois. Mesmo assim, surge aí uma imprecisão que pode ser perigosa. Primeiro, porque não esclarece a respeito de uma transmissão que supostamente ocorreu sob tratamento antirretroviral a partir de uma pessoa que vive com HIV, fato que, por si só, seria cientificamente digno de nota e de análise mais detalhada. Em segundo, porque pode servir de argumento contra outra mulher, tal como Mwiza, soropositiva e oprimida pelo marido, mas que opta por não revelar sua condição ao seu parceiro, por receio da violência que possa vir a sofrer diante dessa revelação. Supondo que esta mulher faça tratamento antirretroviral e mantenha sua carga viral indetectável, ela estará cuidando da sua saúde e não estará expondo seu marido ao risco de infecção pelo HIV, tampouco aos filhos que os dois possam vir a ter. Com o tratamento antirretroviral adequado, a transmissão vertical, da mãe para o feto, pode ser totalmente evitada, além da transmissão por via sexual entre parceiros. Quem tem HIV, faz tratamento antirretroviral e tem carga viral indetectável não transmite o HIV — uma afirmativa que recentemente também foi endossada pelos Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos, o CDC.

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É muito comum que mulheres em situação como a de Mwiza não tenham controle sobre a decisão a respeito da gestação, com falta de acesso à alternativas anticoncepcionais e dificuldade na negociação a respeito do uso da camisinha com seu parceiro. (Pela reportagem da Folha, não sabemos ao certo se este é caso dela, mas podemos presumir que sim, uma vez que, com 21 anos de idade, Mwiza já era mãe de cinco.)

Uma situação de uso do preservativo que depende apenas da decisão do homem, sem levar em consideração a vontade da mulher nesta relação, aumenta muito a vulnerabilidade à infecção pelo HIV. Isso é terrível e é um claro cenário de opressão. “Nos seus 36 anos de existência, a epidemia de HIV sempre caminhou pelos círculos da exclusão e da opressão”, explicou Ricardo Vasconcelos. “Essa matéria mostra um aspecto da epidemia africana, onde o vírus se entranhou entre mulheres heterossexuais por causa da dinâmica social baseada em relações de poder entre homens e mulheres. Algo semelhante acontece no Brasil também: a exclusão dos gays, pessoas trans, negros e periféricos os colocou na trilha do vírus, tornando-os mais susceptíveis à novas infecções.”

É importante mostrar a realidade dessas pessoas, tal como a Folha de S.Paulo fez ao contar a história de Mwiza. Mas também é interessante informar sobre as alternativas que já existem e que já poderiam estar trabalhando na redução da vulnerabilidade destas pessoas, possivelmente evitando totalmente a infecção pelo HIV, neste caso, em milhares de mulheres congolesas.

A primeira destas alternativas é a própria terapia antirretroviral: ao evitar a transmissão do HIV, ela permite total sigilo a respeito da condição sorológica e, por isso, pode também servir como proteção contra o estigma que a revelação dessa condição possa vir a trazer. Este sigilo pode proteger alguém do abuso e da violência, senão salvar uma vida, especialmente dentro do cenário social como este em que Mwiza está inserida. Há relatos, por exemplo, de mulheres com HIV que mantém segredo sobre sua condição sorológica para poder amamentar seu bebê. Nesse sentido, associar o sigilo do soropositivo unicamente à responsabilidade pela transmissão do HIV, tal como sugere a manchete do jornal, é tratar o assunto de maneira incompleta. Além de não mencionar a possibilidade do tratamento como prevenção (ou TasP, do inglês treatment as prevention), a notícia da Folha de S.Paulo sequer fala sobre a principal alternativa de prevenção: a camisinha! Afinal, por que Mwiza e seu marido não usavam o preservativo? No contexto de vida da entrevistada, qual é o seu poder de negociação do uso dessa estratégia de prevenção? Essa é uma questão importante que não foi levantada pela reportagem.

Não é de surpreender que o jornal não tenha abordado também outras estratégias, como a profilaxia pós-exposição (PEP), os microbicidas anti-HIV anais ou vaginais que têm sido estudados em diversos países africanos e a profilaxia pré-exposição (PrEP), recém aprovada no Brasil. Por acaso, a PrEP não parece ser ainda uma alternativa disponível na República Democrática do Congo — pelo menos, o site PrEPWatch.org não traz qualquer informação a respeito de estudos ou da oferta de PrEP nesse país. Mas ela tem sido avaliada ou já está disponível em outros países do mesmo continente, como Nigéria, Uganda, Quênia, Zâmbia, Malawi, Namíbia, Botswana, Zimbábue, África do Sul e Lesoto. Diferentemente da cura do HIV, a PrEP já existe — ela é real e não apenas um sonho distante. Por ser um advento recente, dos últimos anos, é improvável que a PrEP pudesse ter evitado a infecção de Mwiza, que se deu antes de 2003, mas trata-se de uma estratégia de prevenção que ainda pode evitar a infecção de milhares de outras mulheres, as quais também são assunto da notícia — nesse sentido, não seria interessante falar sobre a PrEP? 

É natural que Mwiza sonhe com a cura do HIV. Eu também sonho, mesmo sem sofrer com o vírus nada perto daquilo que ela conta sofrer. Mas entendo que existem alternativas que podem minimizar, bastante, o sofrimento e o incômodo que a vida com o HIV pode trazer e me questiono a razão destas alternativas já não estarem à disposição de pessoas mais vulneráveis, incluindo as mulheres como Mwiza. Não apresentá-las a estas alternativas é muito cruel — assim como também é cruel retratá-las no jornal como nada além de sonhadoras, aguardando a cura como se esta fosse a grande salvadora, sem sequer mencionar as tantas possibilidades que já existem e que poderiam lhes ajudar.

“Nesse exemplo, esperar pela cura é esperar pelo fim da exclusão e da opressão, como se fosse o vírus o causador delas”, disse Ricardo Vasconcelos, que também participou de importantes estudos sobre a PrEP, como o iPrEX e o PrEP Brasil. “Contra o vírus, já sabemos o que fazer. Mas, para essas questões sociais, insistimos em fingir que elas se resolverão quando não houver mais HIV.” As alternativas que já existem não resolvem o problema social e nem o estigma contra quem vive com HIV — elas não são a solução destes problemas —, mas podem sim ajudar muitas pessoas a experimentar uma vida com mais qualidade, enquanto aguardamos pela cura do HIV. Essas alternativas não são tão perfeitas quanto a cura poderá ser, mas elas têm as suas vantagens e podem nos ajudar hoje. Vamos aproveitá-las — e vamos falar mais sobre elas, Folha de S.Paulo.

Desde 2016, os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) americano publicam a “Dear Colleague Letters”, em apoio ao Dia Nacional de Conscientização sobre HIV/Aids entre Gays nos Estados Unidos. Estas cartas são enviadas por e-mail para parceiros da comunidade e postadas no site do CDC.

Neste ano, o CDC divulgou uma carta que destacou as últimas estatísticas relacionadas especialmente ao HIV entre homens gays e bissexuais. Mas também incluiu uma nota que diz respeito a todas as pessoas afetadas pela epidemia: o reconhecimento mais veemente do CDC, até hoje, da campanha: “Indetectável = Intransmissível”. Este é o endosso mais forte de uma das maiores autoridades de saúde pública do mundo em relação a não transmissibilidade sexual do HIV a partir das pessoas que vivem com vírus, fazem tratamento antirretroviral e têm carga viral indetectável.

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Caro colega,

Hoje [27 de setembro] é o Dia Nacional de Conscientização sobre HIV/Aids entre Gays. Neste dia, nos juntamos para tomar medidas de prevenção contra o HIV entre homens gays e bissexuais e garantir que todos os homens gays e bissexuais que vivem com HIV recebam os cuidados necessários para se manterem saudáveis. Homens gays e bissexuais são severamente afetados pelo HIV. Mais de 26.000 homens gays e bissexuais receberam diagnóstico positivo para o HIV em 2015, o que representa dois terços de todos os novos diagnósticos nos Estados Unidos. Os diagnósticos aumentaram entre homens homossexuais e bissexuais hispânicos e latinos de 2010 a 2014.

No entanto, tendências recentes sugerem que os esforços de prevenção estão diminuindo a propagação do HIV entre alguns homens gays e bissexuais. Entre 2010 a 2014, os diagnósticos de HIV caíram entre homens gays e bissexuais brancos e permaneceram estáveis ​​entre homens gays e bissexuais afro-americanos, depois de anos de crescimento da epidemia entre estes grupos.

Os avanços científicos mostram que a terapia antirretroviral preserva a saúde das pessoas que vivem com HIV. Também temos fortes evidências da eficácia de prevenção da terapia antirretroviral. Quando o tratamento antirretroviral resulta em supressão viral, definida como menos de 200 cópias/ml ou níveis indetectáveis, evita-se a transmissão sexual do HIV. Através de três estudos diferentes, incluindo milhares de casais e milhares de atos de sexo sem preservativo ou profilaxia pré-exposição (PrEP), não foram observadas transmissões do HIV para um parceiro soronegativo quando a pessoa soropositiva tinha carga viral suprimida. Isso significa que as pessoas que tomam antirretrovirais diariamente, como prescrito, e conseguem manter sua carga viral indetectável não apresentam risco efetivo de transmissão sexual do vírus para um parceiro soronegativo.

No entanto, de acordo com o recente Relatório Semanal de Morbidade e Mortalidade, muitos homens gays e bissexuais que vivem com HIV não estão recebendo os cuidados e o tratamento de que precisam. Entre homens gays e bissexuais que vivem com HIV, 61% alcançaram a supressão viral, o que é mais do que nos anos anteriores, mas ainda bem abaixo de onde queremos chegar. É necessário mais trabalho para fechar essa lacuna e superar as barreiras que dificultam a obtenção de cuidado de saúde e tratamento contra o HIV entre alguns homens gays e bissexuais, incluindo homens afro-americanos, hispânicos e latinos. Por exemplo, fatores socioeconômicos, como menores níveis de renda e educação, e fatores culturais, como o estigma e a discriminação, podem dificultar o acesso de alguns homens gays e bissexuais que procuram receber serviços de prevenção e tratamento contra o HIV.

Algumas das atividades do Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) para reduzir as novas infecções pelo HIV entre homens gays e bissexuais, aumentar os testes, melhorar os resultados do tratamento e reduzir as disparidades relacionadas ao HIV incluem:

  • Financiar departamentos de saúde e organizações comunitárias para apoiar os serviços de prevenção do HIV para homens gays e bissexuais. Por exemplo, nos acordos de cooperação atuais, o CDC concedeu pelo menos US$ 330 milhões anuais para os departamentos de saúde para a prevenção do HIV entre as populações mais afetadas e está concedendo cerca de US$ 11 milhões por ano às organizações comunitárias para fornecer testes de HIV para jovens homens gays e bissexuais negros e jovens negros transgêneros.
  • Apoiar abordagens biomédicas para a prevenção do HIV, como a PrEP e profilaxia pós-exposição (PEP).
  • Apoiar projetos para identificar estratégias de prevenção promissoras, como Project PrIDE, que está ajudando os departamentos de saúde a implementar projetos de demonstração PrEP, e o Data to Care para homens negros gays e bissexuais.
  • Levar mensagens de prevenção e tratamento do HIV aos homens gays e bissexuais através da Act Against Aids. Por exemplo, a campanha Doing It, que incentiva todos os adultos a fazerem o teste de HIV, inclui muita informação específica para homens gays e bissexuais. Start Talking. Stop HIV é outra campanha que ajuda os homens gays e bissexuais a se comunicar sobre a prevenção do HIV e sobre o tratamento do HIV. A HIV Treatment Works, por sua vez, fornece recursos para ajudar as pessoas a viverem bem com o HIV.

O CDC encoraja as partes públicas e privadas interessadas a implementar intervenções que aumentem a retenção no tratamento do HIV e na supressão da carga viral. Além disso, parceiros, como departamentos de saúde, organizações comunitárias e outros, podem ajudar a diminuir o estigma e a discriminação — usando os recursos da campanha Let’s Stop HIV Together, da Act Against Aids, por exemplo — e ampliar o alcance de seus serviços de prevenção e testagem do HIV entre homens gays e bissexuais. Saiba mais sobre como o CDC pode ajudar seu programa de prevenção.

Agradecemos as suas contribuições para os esforços de prevenção do HIV para homens gays e bissexuais. Com a sua ajuda, demos grandes passos ao longo das últimas décadas. Embora ainda haja muito trabalho a fazer, hoje temos poderosas ferramentas de prevenção e tratamento que podem reduzir drasticamente as infecções pelo HIV entre homens gays e bissexuais e nos aproximar de um futuro sem HIV.

Atenciosamente,

Dra. Eugene McCray
Diretora
Divisão de Prevenção do HIV/Aids
National Center for HIV/Aids, Viral Hepatitis, STD, and TB Prevention
Centros de Controle e Prevenção de Doenças

&

Dr. Jonathan H. Mermin
Diretor
National Center for HIV/AIDS, Viral Hepatitis, STD, and TB Prevention
Centros de Controle e Prevenção de Doenças


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