Em uma entrevista antiga, Jair Bolsonaro (PSL) afirma que o Estado não deve custear os medicamentos antirretrovirais para os portadores de HIV. “Não é problema meu”, disse ele. “O Estado deve tratar de doentes infortúnios e não de vagabundos que se drogam ou adquirem aids por vadiagem.”

O candidato defende que não se deve usar dinheiro público para tratar quem contrai doenças em atos sexuais, classificando a população gay como grupo de risco. Nas palavras do próprio Bolsonaro, “uma pessoa que vive na vida mundana depois vai querer cobrar do poder público um tratamento que é caro” — é isso o que publicou a Carta Capital e, em texto semelhante, um post anterior deste blog.

Jair Messias Bolsonaro

O que acontecerá conosco, soropositivos, Bolsonaro sendo eleito presidente, se essas afirmações forem levadas a cabo? Para ilustrar a reposta, há pelo menos dois países que podem servir de exemplo: Rússia e Venezuela.

A oferta russa ao tratamento antirretroviral é bastante limitada e sobrevive num cenário de forte machismo e homofobia institucionalizados, fazendo a epidemia de HIV crescer 10% ao ano no país. Por sua vez, a Venezuela vive praticamente uma total falta de medicamentos antirretrovirais. “Ficar na Venezuela é morrer de aids”, conta um rapaz de 31 anos de idade, que trabalha recepção do Serviço de Infectologia do Hospital Geral do Oeste (HGO), para o El País.

Carlos Pérez, chefe do Serviço de Infectologia deste mesmo hospital, explica que a Venezuela atravessa a pior crise na área e em particular na nossa patologia. O médico administra um grupo de WhatsApp com seus pacientes no qual mensagens angustiadas são frequentes.

“A cada semana morrem dois pacientes meus. Estão chegando já na fase de aids e os recém diagnosticados estão muito imunossuprimidos. Isso levou a um aumento significativo das mortes por HIV. Nos últimos meses, temos tratado a crise discriminando os pacientes que estão melhor, distribuindo doses para uma semana de tratamento, usando os medicamentos deixados pelos pacientes que morrem ou receitando o esquema incompleto, embora tenhamos consciência de que isso favorece a aparição de um HIV resistente. A situação é tão grave que eu recomendei que os pacientes emigrem ou, se tiverem a possibilidade de que lhes tragam medicamentos do exterior, que façam isso, mas é algo insustentável para muitas famílias”, diz Pérez, que há 20 anos trata pacientes com HIV.

Corredor de hospital na Venezuela.

Nesse sentido, ou, no tocante à saúde, usando o linguajar do presidenciável Jair Bolsonaro, a verdade é que, sendo cumprida a afirmação do candidato pesselista, decerto nos aproximaremos da situação na Venezuela, país que ele tanto critica — e, ao meu ver, critica com razão.

A Venezuela vive uma ditadura de esquerda, atualmente sob o governo de Nicolás Maduro, presidente daquele país desde 2013, sucedendo o autoritário Hugo Chávez, que alterou a constituição do país para permitir sua reeleição e, no ano 2000, passou a governar através de decretos, sem a necessidade de aprovação da Assembleia Nacional. Chávez morreu em 2013, em decorrência de um câncer, mas teria milagrosamente voltado na forma de um passarinho para visitar o novo presidente Maduro.

Em 2017, Maduro foi reeleito, em eleições questionadas internacionalmente — mas, mesmo assim, parabenizadas no Brasil pelo Partido dos Trabalhadores, o PT. Nem poderia ser diferente, uma vez que a campanha teve o apoio do próprio Lula, que gravou um vídeo elogiando o colega venezuelano. Assim que Maduro foi eleito, o PT publicou uma nota.

“Venezuela: mais uma vez, exemplo de democracia e participação cidadã!”, diz a carta de apoio, datada de 16 de outubro de 2017. “O Partido dos Trabalhadores saúda o presidente Nicolás Maduro e seu partido, o PSUV, pela contundente vitória eleitoral nas eleições regionais deste domingo, 15 de outubro de 2017”, diz a nota assinada pela presidente do PT Gleisi Hoffmann e pela sindicalista Mônica Valente. O mesmo comunicado ainda afirma que o dia da eleição regional venezuelana seria lembrado “como o dia de uma vitoriosa jornada de democracia, onde mais de 60% do eleitorado atendeu à convocação democrática e compareceu, de maneira cívica e pacífica, manifestando seu apoio à paz, à democracia e à soberania na Venezuela.”

Todavia, o link original desta publicação do PT, bem como outros links com manifestações de apoio à Venezuela foram tirados do ar pelo próprio partido, no último dia 11 de outubro. De acordo com o próprio secretário de Comunicação do PT, Carlos Árabe, o bloqueio do acesso ao link foi feito por causa de mensagens de WhatsApp que estariam usando o comunicado como pretexto para distorcer a posição do PT sobre a Venezuela e disseminar notícias falsas. Árabe disse que o link havia sido bloqueado e que a nota continuaria no site, mas que o partido estudava uma maneira de recolocá-la no ar. “Não nos interessa manter bloqueado”, afirmou ele ao UOL.

Se isso é parte do caso das fake news disparadas por WhatsApp, é importante lembrar que ambas as campanhas, tanto de Bolsonaro como de Haddad, fizeram uso da ferramenta. Dados de um serviço de disparo de mensagens em massa a que a reportagem do UOL teve acesso trazem novos indícios sobre o esquema revelado na semana passada pela Folha de S.Paulo. Os dados revelam que, na tarde de 18 de outubro, foram apagados os registros de envio de mensagens disparadas pela campanha de Bolsonaro, horas depois da publicação da reportagem da Folha. A reportagem do UOL apurou que as campanhas de  Bolsonaro e Haddad fizeram uso da mesma plataforma digital. Apesar dos dados, as duas campanhas negam ter cometido irregularidades.

Voltando às declarações de apoio à Venezuela, é importante lembrar que este não foi o único apoio petista à uma ditadura. Ainda este ano, em 2018, “uma verdadeira insurreição” aconteceu na Nicarágua, conforme descreve o próprio site do PSTU, partido de esquerda. Os protestos naquele país teriam sido contra a reforma da previdência exigida pelo FMI, mas acabaram se transformando em um amplo movimento para derrubar a ditadura de Daniel Ortega.

Manifestantes enfrentam seguidores de Daniel Ortega na Nicarágua.

Ortega é o atual presidente da Nicarágua, no poder desde 2007. Antes, fora eleito entre 1985 e 1990. É membro da Frente Sandinista de Libertação Nacional, partido socialista fundado em 1961 no país. Diante dos protestos, Ortega os considerou ilegais e exigiu uma “limpeza das ruas, custe o que custar!” — lembrando bastante, convenhamos, a recente fala do presidenciável Bolsonaro, que sugeriu varrer os “vermelhos” para fora do Brasil.

Pelo menos 300 pessoas morreram na “limpeza” de Ortega e, mesmo assim, este presidente ganhou apoio do PT, que acusou os manifestantes nicaraguenses de fazerem parte de uma “contraofensiva neoliberal”. Dilma Rousseff, Monica Valente, Evo Morales e Nicolás Maduro encabeçaram a defesa a Ortega, dizendo: “Depois de tantos eventos, sofremos uma contraofensiva imperialista, liberal, multifacetada, com guerra econômica, mídia, golpes judiciais e parlamentares, como ocorre na Nicarágua e ocorreu na Venezuela”.

Entretanto, a verdade é que muito mais pessoas morreram na Colômbia, estima-se, em decorrência dos conflitos entre o Estado e as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, as Farc. Em 50 anos de guerrilha, até o cessar-fogo, foram mais de 200 mil mortos.

Soldados das Farc

As Farc foram consideradas uma organização terrorista não somente pelo governo da Colômbia, mas também pelos Estados Unidos, Canadá e União Europeia. Em 2008, o então presidente venezuelano Hugo Chávez rejeitou publicamente esta classificação e apelou à Colômbia por um reconhecimento diplomático das guerrilhas como uma  “força beligerante”, argumentando que, dessa forma, elas estariam obrigadas a renunciar às táticas de sequestro e atos de terror, que notoriamente praticavam, encorajando-as a finalmente respeitarem as Convenções de Genebra.

Então, em agosto de 2017, ex-combatentes das Farc, depois da assinatura do acordo de paz com o governo colombiano, evento conhecido como o “Acordo de Havana”, fundaram o partido político Fuerza Alternativa Revolucionária del Común, cuja sigla também é FARC.

Menos de um ano depois, em abril de 2018, as Farc enviaram uma carta de solidariedade a Lula, por conta de sua prisão. A carta foi orgulhosamente publicada no site do PT, onde ainda permanece e, naturalmente, fomenta algumas as teorias (possivelmente) conspiratórias a respeito da maneira como entraram no Brasil os armamentos encontrados pelo Ministério da Justiça e pelo governo do Rio de Janeiro nas mãos de criminosos no estado — há indicações de que as armas vieram das Farc.

Fernando Haddad

O candidato do partido político orgulhoso da solidariedade das Farc e envolto em mensagens apoio ao ditador Maduro, na Venezuela, e a Ortega, na Nicarágua, é Fernando Haddad, do PT.

Haddad nasceu em 25 de janeiro de 1963, em São Paulo, mas só entrou na política em 1983, quando filiou-se ao Partido dos Trabalhadores. Depois que se formou bacharel em Direito pela USP, em 1985, Haddad especializou-se em Direito Civil, concluiu um mestrado em Economia e doutorado em Filosofia. Com este currículo, Haddad tornou-se professor ainda na mesma instituição, onde lecionava Teoria Política Contemporânea. Haddad ficou bastante conhecido como prefeito de São Paulo, em 2012, quando venceu o candidato tucano José Serra (PSDB).

Serra, aliás, merece um parênteses: quando ministro da Saúde, comprou uma verdadeira briga com a indústria farmacêutica, ameaçando quebrar patentes de remédios e utilizar as fábricas estatais de medicamentos para a produção de genéricos. Este foi grande feito da era FHC, que trouxe um impacto indiscutível no tratamento antirretroviral e na qualidade de vida de quem vive com o HIV. Essa política de saúde pública foi mantida nas gestões de Lula e Dilma e transformou o Brasil em referência mundial em tratamento e prevenção ao HIV.

Findo seu trabalho como prefeito de São Paulo, Haddad tentou reeleição, mas perdeu já no primeiro turno para João Doria (PSDB), e entrou no ranking dos prefeitos de capitais com pior avaliação no País. Apesar disso, é inegável que sua carreira política também teve feitos importantes.

De acordo com o site oficial do candidato, enquanto Ministro da Educação ao longo de sete anos, entre 2004 e 2012, Haddad criou programas nacionalmente reconhecidos. O novo FIES é um deles: permitiu que o financiamento estudantil, dividindo o programa em diferentes modalidades, chegasse a juros zero, de acordo com a renda familiar de cada aluno. Outro programa foi o Caminho da Escola: iniciativa na área de logística dos estudantes, que inclui não apenas ônibus, mas o transporte aquático em regiões ribeirinhas e até bicicletas, para facilitar o acesso dos estudantes às escolas.

No campo político, a verdade é que não se pode dizer o mesmo de seu oponente, Jair Bolsonaro, que tem apenas dois projetos aprovados em 26 anos de Congresso. Haddad não estava errado quando, no programa Roda Viva, nos lembrou que seu adversário “nunca nem administrou um boteco!”

De um lado, temos Jair Bolsonaro, do PSL, um candidato que apoia abertamente o regime militar, a tortura e ainda reúne incontáveis discursos, gravados, com conteúdos homofóbicos, preconceituosos, racistas, machistas e que incentivam a violência — sem falar da vontade declarada do candidato de abolir o tratamento antirretroviral universal e gratuito no Brasil. De outro lado, temos Fernando Haddad, do PT, partido que afirma rejeitar a ditadura e defender a democracia e, de fato, que nunca instaurou um regime comunista no Brasil, mesmo em doze anos de governo, muito embora apoie e se solidarize com regimes ditatoriais e autoritários no mundo, sem falar de organizações terroristas.

É impossível sequer considerar voto ao primeiro candidato, Bolsonaro, diante de suas falas e promessas. Bolsonaro “inspira medo”, já apontou Joaquim Barbosa, ex-ministro do Supremo Tribunal Federal, o STF. Além disso, seu plano de governo é vago e sequer pode ser aprofundado publicamente pela imprensa, vista sua total ausência nos debates televisivos — exceto, é verdade, nas sabatinas durante o começo da campanha: em uma delas, na GloboNews, o candidato mostrou evidente despreparo e, inclusive, uma limitação, talvez cognitiva, em compreender aquilo que lhe é perguntado. Além disso, Bolsonaro é apontado como um candidato desastroso para a economia brasileira. É rechaçado diversos editoriais em jornais do mundo todo, setores da sociedade, incluindo economistas, publicitários, intelectuais, policiais, entre outros, além de artistas como Roger Waters e Caetano Veloso, como o pior candidato que poderíamos ter no Brasil. Bolsonaro é inclusive criticado pela própria extrema direita, na França.

Enfim, não votar em Bolsonaro me parece a escolha natural. Mas isso é suficiente para votar em seu oponente, Fernando Haddad? Não seria justo considerar que um candidato com tamanha quantidade de votos, como é o caso Bolsonaro e já foi o de Lula, de fato desperte no povo que mais necessita os pontos fundamentais para que tenha o seu voto? Estaria a maioria dos eleitores enxergando algo positivo em Bolsonaro que eu sou incapaz de enxergar? Enquanto Bolsonaro apoia deliberadamente o autoritarismo e a ditadura, o partido de Haddad não estaria apoiando regimes semelhantes, mas de maneira talvez mais discreta?

Foi na busca por estas respostas que escrevi esse post, procurando e encontrando os argumentos contra o PT, que fundamentam a onda bolsonarista. E devo dizer que compreendo, sim, muitos desses argumentos — quem sabe, assim como fez Fernando Gabeira. Todavia, a verdade é que não consegui fazer o oposto: os argumentos simplesmente a favor de Bolsonaro carecem bastante de fundamentação.

Eleitores de Bolsonaro, conversando nas ruas, parecem defender seu candidato dizendo que ele não fará aquilo que diz em seus discursos ofensivos. É curioso: é como se os  eleitores de Bolsonaro tentassem nos convencer de que seu candidato não fará aquilo que promete! Esses eleitores também dizem que ele é o único candidato capaz de evitar que o PT transforme o Brasil em uma Venezuela, sustentando seu argumento no amontoado de evidências listadas ao longo do texto acima, mas fechando os olhos, ao que me parece, para os pontos em comum que os dois partidos e seus candidatos carregam.

Tanto Haddad como Bolsonaro apresentaram a proposta de uma constituinte, que alteraria a nossa Constituição mesmo em meio à crise política que vivemos no País, tal como fez Hugo Chávez. Diante de questionamentos da imprensa e da opinião pública no Brasil sobre o tema, os dois candidatos recuaram sobre esse ponto e retiraram-no de suas pautas.

Permaneceu então outro ponto em comum: a regulação da imprensa. Haddad a defende em seu plano de governo. Bolsonaro, por sua vez, embora não defenda a regulação da imprensa diretamente pelo Estado, sugeriu algo parecido ao afirmar que cortará a verba da imprensa que dele discordar: “Sem mentiras, sem fake news, sem Folha de São Paulo. Nós ganharemos esta guerra. Queremos a imprensa livre, mas com responsabilidade. A Folha de São Paulo é o maior fake news do Brasil. Vocês não terão mais verba publicitária do governo. Imprensa livre, parabéns; imprensa vendida, meus pêsames”, disse ele.

Em muitos pontos, são muito parecidos esses dois candidatos! — frase esta que os bolsonaristas provavelmente responderiam apontando em direção à corrupção. Todavia, é preciso reconhecer a Lava Jato já atingiu 14 partidos políticos: para além do PT, PMDB e PSDB, foram alvos da Lava Jato políticos do PTC, PSB, SD, PR, PPS, PP, DEM, PC do B, PRB, PTB e PSD. Além disso, de acordo com um levantamento, dos cinco partidos com maior número de congressistas sob investigação, dois são de direita (PP, com 35 parlamentares, e PR, com 19), um é de esquerda (PT, com 32) e dois são de centro: PMDB (também com 32) e PSDB (26). Em ordem decrescente, portanto, o PP, que já abrigou Bolsonaro, segue em primeiro lugar, PMDB e o PT de Haddad logo atrás, praticamente empatados, e PSDB em seguida. (Esse levantamento é importante, mas devemos ter em mente que investigar é diferente de condenar e, acima, temos a quantidade de investigados.)

O argumento que Bolsonaro mais usa para se provar incorruptível é a fala de Joaquim Barbosa, ex-ministro do STF, que teria dito que “só Bolsonaro não foi comprado pelo PT no esquema de corrupção conhecido como Mensalão”. Barbosa, porém, corrigiu Bolsonaro, lembrando que ele “não era líder nem presidente de partido” e “não fazia parte do processo do Mensalão”. Nesse sentido, Barbosa não poderia tê-lo absolvido, exonerado e sequer julgado, pois “só se julga quem é parte no processo”. O ex-ministro do STF conclui que “é falso, portanto, o que ele vem dizendo por aí”.

Talvez pior, Bolsonaro e Haddad são os únicos dos candidatos à presidência que não assinaram compromisso de apoio às chamadas “Novas Medidas contra a Corrupção”, um pacote de projetos para melhorar o enfrentamento à criminalidade, inclusive a de colarinho branco, lançado por entidades do movimento “Unidos Contra a Corrupção”. Além disso, embora não se enquadrem na Lei da Ficha Limpa, tanto Bolsonaro quanto Haddad respondem a ações penais ou de improbidade administrativa.

Bolsonaro é réu em duas ações penais no STF: os crimes imputados a ele são de incitação ao crime, injúria e apologia ao crime. Por sua vez, Haddad é réu em ação cível de improbidade administrativa: segundo promotores do Ministério Público de São Paulo, o MP-SP, houve irregularidades na construção de um trecho de 12 km de ciclovia na capital paulista, com a utilização de um tipo de contrato que dispensaria licitação, superfaturamento e deficiências na execução do serviço.

Pela primeira vez desde a redemocratização, elegeremos um presidente que é réu. Entretanto, quem for eleito não mais terá seu processo solucionado pela justiça, uma vez que a Constituição determina que processos contra presidentes da república sejam suspensos durante o mandato. Em outras palavras, seremos governados por alguém que não saberemos se é culpado ou inocente do crime ou irregularidade do qual é acusado.

Portanto, diante desse cenário, em quem votar? Ou, melhor dizendo, em quem não votar? No que diz respeito a nós, soropositivos, temos o risco de, com Bolsonaro no poder, termos uma saúde venezuelana no Brasil, sem antirretrovirais. Bolsonaro é ameaça de morrermos de aids, enquanto, com Haddad, não temos esse prenúncio.

O pior de Haddad parece ser o histórico de seu partido, o PT, envolvido em escândalos de corrupção e apoiador de regimes ditatoriais, através de notas de apoio do partido. Mas Haddad tem dado sinais de que quer se distanciar disso. Primeiro, reconhecendo que Venezuela e Nicarágua não são democracias. Depois, recuando sobre pontos polêmicos em seu plano de governo, chegando inclusive a alterar esse plano, retirando dali o nome de Lula, condenado e preso na Lava Jato. Haddad não planeja mais controlar o judiciário, como antes tinha dito, é mais enfático na defesa dos homossexuais e, agora, pondera o termo “golpista”, entre outros pontos que, de certa forma, o distancia dos dogmas de seu partido.

Nesse Haddad, ainda que timidamente contrário aos erros do PT, me sinto mais à vontade em votar, embora com muitas reticências. Desde o primeiro turno me mantive tendente ao voto nulo ou à abstenção. Me parecia o mais coerente a se fazer, do ponto de vista ético e político, embora contrário ao meu instinto de sobrevivência, pois preciso dos antirretrovirais para sobreviver. Para piorar, a onda de Bolsonaro tem motivado ataques contra homossexuais — se antes esses ataques já ocorriam, a verdade é que agora eles vêm com gritos de apoio ao candidato pesselista. Não é à toa que chamou a atenção da Ku Klux Klan: Bolsonaro endossa, sim, os discursos fascista e nazista.

O pior de Bolsonaro continua sendo Bolsonaro, indiferentemente de seu partido. O pior de Haddad, me parece, é seu partido e não a sua pessoa. Por isso, às vésperas da eleição é que decido meu voto, decido por não anular ou abster e, sim, votar em Haddad. Assim como Marina Silva e quase como Ciro Gomes, farei voto crítico em Fernando Haddad. Vou votar 13.

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Um dos destaques da Conferência de Outono da British HIV Association, a BHIVA, foi a possível segunda cura do HIV por esterilização, tal como aquela alcançada pelo “Paciente de Berlim”, Timothy Ray Brown.

O caso envolve um homem soropositivo que foi submetido a um transplante bem sucedido de células estaminais alogênicas a partir de um dador não homozigoto para delta-32 de CCR5, a mutação genética natural que impede a infecção pelo HIV. Sua terapia antirretroviral foi interrompida 15 meses após o transplante, depois de aprovação ética, e, nos 12 meses seguintes, o HIV permaneceu indetectável em todos os métodos diagnósticos, incluindo análises de crescimento do DNA pro-viral e o DNA total e integrado do HIV nas células CD4. Mais detalhes serão apresentados a uma futura conferência médica. Por enquanto, isso é tudo o que sabemos!

Uma criança soronegativa recebeu um transplante de fígado de sua mãe soropositiva e, até agora, não tem qualquer evidência de infecção por HIV, além de uma resposta muito fraca de anticorpos contra o vírus, apesar de extensivos testes de HIV.

Pesquisadores sul-africanos publicaram na revista Aids a respeito do caso e disseram que não conseguem esclarecer se a criança eliminou o HIV ou se o vírus está profundamente oculto no organismo da criança, possivelmente apenas no fígado. Este é o primeiro caso relatado de um transplante a partir de um doador soropositivo para um receptor soronegativo e levanta a questão: é possível nesse caso evitar a transmissão do HIV com profilaxia?

A mãe da criança foi diagnosticada com HIV aproximadamente seis meses antes de engravidar e iniciou o tratamento antirretroviral com um regime de Efavirenz, Tenofovir e Lamivudina, seis semanas antes da concepção. Seu filho recebeu profilaxia com Nevirapina durante seis semanas após o nascimento e subsequentemente testou  negativo para o HIV.

Foi então que, aos seus sete meses de idade, a criança foi encaminhada para o Centro Médico Wits Donald Gordon, em Johannesburgo, África do Sul, onde foi diagnosticada com atresia biliar, uma doença hepática infantil na qual os dutos biliares são estreitados ou bloqueados, impedindo a bile de drenar do fígado e, assim, levando a danos nesse órgão. A única solução apontada foi um transplante de fígado.

O tempo médio de espera para um transplante de fígado pediátrico no Centro Médico Wits Donald Gordon é de 49 dias. Mas após 181 dias ainda não havia fígado disponível para o transplante. A criança foi então internada, com um sangramento que oferecia risco de vida. Nesse momento, a equipe médica decidiu por uma nova alternativa: sugerir que sua mãe fosse a doadora de fígado, nesse caso, de parte de seu fígado. O procedimento precisou de aprovação ética — e essa aprovação chegou quando a criança tinha 13 meses de idade.

Um medicamento chamado Metilprednisona foi administrado como imunossupressor durante a operação e, depois da cirurgia, corticosteroides orais foram administrados por seis meses após o transplante, para evitar a rejeição de órgãos. Outro medicamento, chamado Tacrolimus, também foi prescrito e ainda está sendo tomado pela criança, também para evitar a rejeição do fígado transplantado. Para prevenir a transmissão do HIV, foi prescrito um regime de Raltegravir, Lamivudina e Abacavir, iniciado no dia anterior ao transplante.

Para monitorar o status da infecção pelo HIV da criança, foram realizados testes de anticorpos contra o HIV, DNA do HIV e RNA do HIV. A criança testou negativo em todos eles, antes do transplante. Depois da cirurgia, a criança testou positivo para anticorpos contra o HIV, em 43 dias após o transplante, e continuou com testando positivo até o 379º dia, embora os anticorpos tenham caído rapidamente para níveis quase indetectáveis, indicando falta de replicação do HIV para estimular respostas de anticorpos.

Nenhum DNA ou RNA do HIV foi detectado no plasma sanguíneo. Um teste Western Blot realizado 225 dias após o transplante e deu resultado indeterminado. O ensaio mostrou que os anticorpos para as proteínas do núcleo do HIV, p24, p40, p55 e p65, eram detectáveis, porém, nenhum anticorpo para as proteínas do envelope foi detectado. Nenhum DNA pró-viral pode ser detectado em células mononucleares do sangue periférico ou leucócitos amostrados no 225º dia, sugerindo que nenhuma célula infectada pelo HIV persiste no organismo da criança ou, talvez, que tão poucas células foram infectadas que elas se mantém indetectáveis ​​nas amostras de sangue coletadas.

Os pesquisadores dizem que há diversas explicações possíveis para estes resultados. Uma destas explicações é a de que, embora seja verdade que um reservatório de HIV possa ter sido estabelecido após o transplante, ele é indetectável pelos testes atuais.

Outra possibilidade é que a infecção esteja confinada às células do fígado doado transplantado e que nenhuma célula receptora tenha sido infectada. Neste cenário, as respostas de anticorpos estão sendo produzidas por células B maternas no tecido hepático do doador, para antígenos produzidos pelas células hepáticas doadoras.

Uma terceira possibilidade é que a criança esteja montando uma resposta de anticorpos ao antígeno do HIV produzido pelas células hepáticas maternas. Nos dois cenários em que o fígado materno é a fonte do antígeno, a resposta de anticorpos em declínio sugere que a produção de antígeno é insuficiente para manter um alto nível de anticorpos.

Os investigadores do estudo dizem que a única maneira de determinar se a criança ainda está infectada pelo HIV pode ser parar o tratamento antirretroviral e monitorar a recuperação da carga viral. No entanto, é necessária mais discussão sobre a ética dessa abordagem.

Os especialistas em fígado Jurgen Rockstroh e Francisco Gonzalez-Scarano dizem que é provavelmente ético interromper o tratamento antirretroviral em algum momento, “uma vez que não se pode justificar uma vida toda de terapia antirretroviral sem a prova de sua necessidade”. Também dizem que o caso não traz evidências suficientes para que a doação de órgãos a partir de soropositivos torne-se corriqueira. Ao invés disso, o caso traz informação sobre como a transmissão do HIV pode ser evitada em circunstâncias como esta.

Por hora, a criança deve permanecer em terapia antirretroviral contínua por dois anos. Os pesquisadores esperam realizar mais transplantes, agora com amostragem e monitoramento mais intensivos.

Um grupo de pesquisadores utilizou, pela primeira vez, infusões de anticorpos para produzir uma supressão prolongada da carga viral do HIV sem terapia antirretroviral.

No pequeno estudo, nove de um total de onze pessoas com HIV que receberam três infusões de dois anticorpos amplamente neutralizantes (bNAbs), foram capazes de interromper sua terapia antirretroviral por uma média de cinco meses. No final do estudo, duas dessas pessoas ainda estavam fora do tratamento e mantendo a indetectabilidade viral (uma delas com alguns blips) mais de sete meses após a última infusão de anticorpos. Os outros sete mantiveram cargas virais indetectáveis ​​por períodos entre 10 e 21 semanas (média de 14 semanas) e permaneceram fora dos antirretrovirais por uma média de 16 semanas.

Duas pessoas, no entanto, tinham cargas virais que reapareceram rapidamente após a última infusão de anticorpos e quase imediatamente reiniciaram os antirretrovirais. Descobriu-se que ambos tinham resistência preexistente a um dos dois anticorpos usados ​​e que isso não havia sido detectado quando eles foram originalmente selecionados para o estudo.

Em um segundo estudo, os mesmos anticorpos foram administrados em sete pessoas que ainda não estavam tomando o tratamento para o HIV. Quatro destes sete responderam, dois a apenas uma dose dos anticorpos. Suas cargas virais reduziram em média 2,2 logs (uma redução de cerca de 200 vezes) por uma média de cerca de três meses. Isto não foi suficiente para produzir indetectabilidade viral persistente em três das quatro pessoas, mas uma pessoa iniciou o estudo com a carga viral mais baixa (menos de 1000 cópias/ml) manteve uma carga viral inferior a 20 cópias/ml durante oito semanas.

Estes estudos são os mais bem sucedidos em uma série usando bNAbs como candidatos a drogas antirretrovirais. Os dois anticorpos escolhidos para estes estudos atuaram como inibidores de entrada, ligando-se e bloqueando diferentes partes da proteína gp120, que o HIV usa para se ligar às células.

Esses anticorpos se desenvolvem naturalmente em algumas pessoas com infecção crônica pelo HIV, mas o HIV desenvolve facilmente a resistência a eles individualmente e, até agora, os estudos que utilizam os anticorpos isoladamente não tiveram nenhum efeito. Os dois anticorpos estudados, chamados 3BNC117 e 10-1074, foram escolhidos por seus perfis de resistência superiores e persistência no corpo.

O resultado destes estudos é a primeira demonstração de que a terapia dupla de anticorpos pode funcionar como uma alternativa à terapia antirretroviral.

Dentre os principais candidatos à presidência, quase nenhum deles cita HIV ou aids em seu plano de governo registrado no Tribunal Superior Eleitoral, o TSE. Esse é o caso de Fernando Haddad (PT), Geraldo Alckmin (PSDB), Jair Bolsonaro (PSL) e Marina Silva (Rede): nenhum deles menciona especificamente sobre a epidemia de HIV e aids no Brasil, seu controle, tratamento ou o atendimento às pessoas que vivem com HIV. A única exceção entre principais candidatos à presidência é Ciro Gomes (PDT).

Dentre os demais candidatos, com menor intenção de voto de acordo com as pesquisas, Alvaro Dias (Podemos), Cabo Daciolo (Patriota), Eymael (DC), Henrique Meirelles (MDB), João Amoedo (Novo), João Goulart Filho (PPL) e Vera Lúcia (PSTU) também não apresentam qualquer proposta específica para HIV e aids e pessoas que vivem com HIV em seus planos de governo. O único candidato com menor intenção de voto que em seu plano de governo apresenta propostas específicas é Guilherme Boulos (PSOL).

Guilherme Boulos, da coligação Sem Medo de Mudar o Brasil, fala sobre HIV ou aids nas páginas 66, 73, 74 e 92 de seu plano de governo, ao mesmo tempo em que fala sobre a inclusão de pessoas trans:

As pessoas trans são as principais vítimas dos crimes de ódio (e o Brasil é o país onde mais são assassinadas a cada ano por sua identidade de gênero), constituem o grupo mais vulnerável à epidemia de HIV/aids, e também sofrem, como nenhum outro grupo social, a exclusão e a discriminação no acesso à educação, à saúde, ao emprego e à moradia. Todas essas formas de opressão são naturalizadas pela maioria da sociedade, que não as percebe, porque as próprias pessoas trans não são percebidas.

Boulos lembra da invisibilidade legal sofrida pelas pessoas trans: o Estado que não lhes reconhece oficialmente e, assim, lhes nega o direito de ser quem são. Nomeadamente, a impossibilidade de usar legalmente o nome pelo qual são chamadas, que identifica as pessoas trans, e de ter seu gênero registrado nos documentos, produz constrangimento, problemas na vida quotidiana, negação de direitos fundamentais e constante humilhação. Ademais, a identidade de gênero das pessoas trans ainda é tratada como doença ou patologia, tal como aconteceu no passado com a homossexualidade.

Diante dessa realidade, o governo de Boulos e Sônia propõe:

  • apoiar a aprovação, no Congresso Nacional, do PL-5002/2013 (Lei João Nery), dos deputados Jean Wyllys (PSOL-RJ) e Érika Kokay (PT-DF), que despatologiza a transexualidade e reconhece o direito das pessoas trans à identidade de gênero e à autonomia para decidir sobre seus corpos.
  • desenvolver uma política nacional para prevenir a discriminação e o preconceito contra as pessoas trans na infância e na adolescência, com ênfase na educação formal e em campanhas de difusão dirigidas às famílias;
  • criar um programa de acolhimento, moradia e inclusão social para as pessoas trans expulsas do lar familiar e/ou em situação de rua;
  • promover a inclusão de mulheres trans na lei 13.104/2015 (Lei do Feminicídio) e desenvolver uma política nacional de prevenção da violência e dos crimes de ódio contra a população LGBTI;
  • reestruturar o processo transexualizador, em adequação ao CID-11, garantindo o cuidado das pessoas trans numa perspectiva não patologizante e de saúde integral, em sintonia com o projeto de Lei João Nery;
  • ampliar o número de ambulatórios voltados para a população trans, garantindo sua presença em todas as cidades com mais de 300 mil habitantes, com disponibilidade de Tratamento Fora de Domicílio (TFD) para pessoas que residem em municípios que ainda não contem com o serviço;
  • articular uma rede de atenção e cuidado à população intersexual, garantindo sua autonomia para tomar decisões sobre seus corpos, orientação das famílias e proteção dos seus direitos.

Em relação aos serviços do SUS, Boulos alerta que as políticas de prevenção da epidemia de HIV e aids focadas na população LGBTI foram em muitos casos desmanteladas, segundo ele, por pressão dos fundamentalistas religiosos, o que teve um impacto direto nas estatísticas de transmissão do vírus, cuja incidência na população mais pobre e na população LGBTI cresceu. Boulos também reconhece que existem dificuldades na provisão dos medicamentos antirretrovirais. Além disso, aponta inúmeros problemas enfrentados por pessoas trans e homossexuais no SUS, para os quais ele propõe:

  • criar uma linha de cuidado à saúde integral das mulheres lésbicas e bissexuais e trabalhar junto às universidades para promover uma melhor formação dos profissionais da saúde nessa área, enfrentando também a violência ginecológica e obstétrica sofrida por mulheres lésbicas ou bissexuais e homens trans;
  • implementar uma política de atenção integral à saúde de trabalhadores/as sexuais;
  • Realizar campanhas de prevenção ao suicídio de pessoas LGBTI e fortalecer a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS);
  • promover a completa despatologização das identidades LGBTI, assim como o fim das “comunidades terapêuticas” e da pseudociência, das intervenções corporais indevidas em pessoas intersexo, das internações forçadas e dos tratamentos anticientíficos para a mal chamada “cura gay”;
  • criar plano de políticas públicas e metas para redução da transmissão do vírus do HIV, recuperando e reforçando campanhas e políticas específicas para a população LGBTI, negra, campesina e indígena, e da mortalidade por aids e coinfecções como tuberculose e pneumonia;
  • acabar com a proibição de doar sangue para os homens que fazem sexo com homens, apoiando a aprovação, no Congresso Nacional, do PL-6297/2016, do deputado federal Jean Wyllys (PSOL-RJ).

Para enfrentarmos esse cenário, Boulos defende que o Estado atue na melhoria das condições de vida da população, na garantia do direito à saúde e na consolidação do SUS enquanto um sistema de saúde público, universal e gratuito. Ele alerta que os recursos destinados à saúde pública, no Brasil, representam metade da média do gasto em países com sistemas universais semelhantes. Boulos é contra a privatização da gestão, que não resolveu o problema da eficiência na utilização dos recursos públicos.

Ciro Gomes, em seu plano de governo, fala sobre HIV na página 36, subitem 6.8, em que afirma que o programa de controle de HIV/aids no Brasil é um caso de sucesso que deve ser mantido, e também na página 51, quando fala da maior vulnerabilidade das pessoas LGBTI à epidemia de HIV.

Em relação à saúde como um todo, Ciro defende aprimorar o SUS para melhorar o atendimento na saúde:

Ao completar 30 anos de sua criação, o SUS precisa ser fortalecido
 e aperfeiçoado, em busca de melhores resultados para a população brasileira. É necessário aprimorar a organização, supervisão, avaliação e controle do Sistema, eliminando também, como na Educação, o subfinanciamento causado pela Emenda
 do Teto de Gastos. Só assim será possível ampliar a qualidade e a resolutividade
da atenção primária, que ainda hoje é objeto de insatisfação da população.

Ciro defende a redução da espera para os atendimentos ambulatoriais, consultas especializadas e realização de exames, bem como a diminuição da espera para as cirurgias eletivas. Para isso, segundo ele, é necessário investir na rede de atendimento, nas campanhas de prevenção e de vacinação, na formação de médicos generalistas, na melhoria dos sistemas de informação, na coordenação entre as diversas esferas de atendimento, incluindo o pacto federativo, e na premiação do bom desempenho. Além disso, planeja criar o “Registro Eletrônico de Saúde”, que registrará o histórico do paciente e facilitará o atendimento do paciente em todas as esferas do SUS.

Além disso, o plano de Ciro inclui:

  • recuperar a cobertura vacinal, atentando para a necessidade premente de evitar uma epidemia de sarampo;
  • criar o “Comitê Nacional de Políticas Públicas LGBT”, com representantes estaduais, assim como uma “Secretaria Nacional de Políticas Públicas para a
    Cidadania da população LGBTI”, incluindo o amparo à seguridade de trabalho, emprego e renda à população LGBT e de ações afirmativas de combate à discriminação institucional de empresas e no ambiente de trabalho;
  • implementar o Plano Nacional de Promoção da Cidadania e Direitos Humanos LGBTI;
  • respeitar o Termo de Compromisso com a Aliança Nacional LGBTI+ e parceiras, tentando cumprir com máximo esforço suas propostas;
  • criar meios para coibir ou obstar os crimes LGBTIfóbicos, definindo suas características, equiparando aos crimes por racismo, injúria e feminicídio, cada qual com sua especificidade;
  • reestruturar, ampliar e fortalecer o Disk Direitos Humanos (Disk 100);
  • combater toda forma de preconceito, seja ele por raça, etnia, sexo, orientação sexual e/ou identidade de gênero no Plano Nacional de Educação;
  • desenvolver plano de ações e metas para diminuir a discriminação nas escolas e a evasão escolar;
  • garantir e ampliar a oferta de tratamentos e serviços de saúde para
que atendam às necessidades especiais da população LGBT no SUS e suas especificidades, assim como o acolhimento dessa população acima dos 60 anos;
  • considerar as transversalidades da população LGBTI e suas vulnerabilidades, tais como: situação de refúgio, conviventes com HIV/aids, LGBTIs negros e negras, em situação de rua, dentre outras, fomentando a ampliação das políticas públicas existentes e criação de políticas públicas de proteção e acolhimento à essas especificidades;
  • fomentar a aprovação de Projetos de Lei em tramitação que visam à equiparação do casamento civil igualitário, assim como a Lei de Identidade de Gênero conhecida como Lei João W. Nery em consonância com as Ações Diretas de Inconstitucionalidade (ADI) de número 4277 e 4275, respectivamente, votadas pelo pleno Supremo Tribunal Federal.

Além de Boulos (PSOL) e Ciro Gomes (PDT), nenhum outro candidato à presidência fala sobre HIV e aids em seu plano de governo. Fernando Haddad (PT), Geraldo Alckmin (PSDB), Jair Bolsonaro (PSL), Marina Silva (Rede), Alvaro Dias (Podemos), Cabo Daciolo (Patriota), Eymael (DC), Henrique Meirelles (MDB), João Amoedo (Novo), João Goulart Filho (PPL) e Vera Lúcia (PSTU) não apresentam qualquer proposta específica para HIV e aids em seus planos de governo.

Vale registrar que o plano de governo de Lula, registrado no TSE antes da negação de sua candidatura, também não apresenta qualquer proposta específica para quem vive com HIV ou para controlar a epidemia no Brasil.

O Diário de um Jovem Soropositivo entrou em contato com todos os candidatos, suas equipes ou partidos, perguntando sobre as políticas públicas de cada um para as pessoas que vivem com HIV e para o controle da epidemia de HIV no País. Até a publicação desse texto, nenhum candidato respondeu aos questionamentos.

Apesar do silêncio de todos estes candidatos, nenhum deles se posicionou publicamente contra as pessoas que vivem com HIV ou contra a oferta universal e gratuita de tratamento antirretroviral — exceto um: Jair Messias Bolsonaro (PSL).

Jair Bolsonaro fala pouco sobre saúde em seu plano de governo, citando genericamente sobre o tema nas páginas, 10, 12, 22, 34, 36, 37, 39, 40, 41 e 80.

Abandonando qualquer questão ideológica, chega-se facilmente à conclusão que a população brasileira deveria ter um atendimento melhor, tendo em vista o montante de recursos destinados à Saúde. Quando analisamos os números em termos relativos, o Brasil apresenta gastos compatíveis com a média da OCDE, grupo composto pelos países mais desenvolvidos. Mesmo quando observamos apenas os gastos do setor público, os números ainda seriam compatíveis com um nível de bem estar muito superior ao que vemos na rede pública. É possível fazer muito mais com os atuais recursos!
 Esse é o nosso compromisso!

Bolsonaro propõe “libertar nossos irmãos cubanos” do Mais Médicos: “suas famílias poderão imigrar para o Brasil”. E, também, mudar o conteúdo e o método de ensino nas escolas, com mais matemática, ciências e português e “sem doutrinação e sexualização precoce”. Não existe plano específico para a população LGBTI no plano de governo de Bolsonaro, entretanto, publicamente, o candidato já afirmou que “filho gay é falta de porrada”.

Em relação ao tratamento universal e gratuito para quem vive com HIV, Bolsonaro já disse em entrevista que quem viveu a “vida mundana”, e daí contraiu uma doença, não pode vir cobrar do poder público por seu tratamento de saúde. Em outras palavras, Bolsonaro é contra o acesso gratuito ao tratamento antirretroviral contra o HIV.

É importante lembrar que uma política semelhante já foi adotada na Rússia, sob o governo de Vladimir Putin. Por conta disso, e epidemia russa de HIV tem crescido 10% ao ano, forçando as pessoas que vivem com HIV no país a organizarem clubes de compras de antirretrovirais, tal como no filme Clube de Compras Dallas (2013). A política discriminatória russa também tem criminalizado a transmissão do HIV, especialmente contra mulheres, mesmo sem qualquer comprovação da transmissão ou da origem da infecção.

Considerando as propostas dos candidatos e, também, suas afirmações e declarações públicas para além de seus planos de governo, minha convicção pessoal é votar contra o candidato do PSL, Jair Bolsonaro — em outras palavras, votar em qualquer outro candidato com alguma chance real de vencê-lo, de acordo com as pesquisa de inteção de voto.

Os incontáveis discursos de Bolsonaro homofóbicos, preconceituosos, racistas, machistas e que incentivam a violência ou o uso de armas são suficientes para meu repúdio à sua candidatura, para não falar da sua defesa ao regime militar, da falta de evidência de sua competência, com apenas dois projetos aprovados em 26 anos de Congresso, e, por fim, da sua evidente limitação em se aprofundar em diversos assuntos que julgo essenciais para um presidente, como economia, saúde e salário mínimo, entre outros, tópicos que Bolsonaro, ao meu ver, sempre se mostra incapaz de responder (talvez, até incapaz de compreender a pergunta) nas entrevistas e sabatinas que participou durante a campanha.

Seu plano de governo é carente de propostas claras, não apresenta um plano prático de como “mudar isso aí”, tal como o candidato tanto gosta de falar. Em seus discursos, suas propostas ocasionalmente apresentadas são geralmente confusas, por exemplo: apesar de se apresentar como um liberal, Bolsonaro indica em suas atitudes ser contra a privatização de estatais e se absteve de votar no ano passado no Projeto de Lei da Terceirização (PL 4330/04). Além disso, já defendeu barreiras alfandegárias, tal como fez Dilma Rousseff em seu mandato, e se manifestou a favor de barreiras migratórias. A visão de mundo de Bolsonaro é militarizada, retrógrada e enviesada.

Bolsonaro parece representar um ódio coletivo contra a insatisfação de muitos brasileiros, a qual para parece vir dos últimos governos do PT e, também, do PSDB, com Fernando Henrique Cardoso. Sendo isso verdade, é natural almejar agora por um presidente de outro partido, diferente da dicotomia que experimentamos há tantos anos, dividindo o Brasil em dois e rivalizando entre “coxinhas” e “mortadelas”, petistas e tucanos. Entendo que é importante a troca de poder e que é saudável que este vá para as mãos de alguém hábil em unir estes lados díspares na sociedade brasileira atual. Contudo, é muito claro que este alguém não é Bolsonaro — e, se fosse, o preço a se pagar por isso, com ele no poder, presumindo-se a partir de todo o discurso do próprio candidato, seria mais terrível do que qualquer outra situação que já experimentamos, com exceção à ditadura.

Votar contra Bolsonaro é votar de acordo com as  pesquisa de intenção de voto, as quais hoje indicam que qualquer um dos demais candidatos com maior intenção é capaz de derrotá-lo no segundo turno. Nesse sentido, votemos em que se alinha às nossas convicções. Para mim, vejo que esse candidato é Ciro Gomes (PDT): é ele que terá o meu voto! E você, em quem vai votar?

 

No próximo dia 22 de setembro de 2018, das 13h às 18h, acontece o evento “Suicídio: Saber, Agir & Prevenir”, organizado pela Rede Nacional de Adolescentes e Jovens Vivendo com HIV/Aids, a RNAJVHA, na Escola Superior de Ciências da Saúde, em Manaus.

A RNAJVHA é um coletivo de pessoas que atua como movimento social, reivindicando direitos e funcionando como um espaço de acolhimento para adolescentes e jovens com sorologia positiva para o HIV. É uma rede nacional que possui bases em vários estados do Brasil. Em Manaus, a RNAJVHA – Amazonas realiza encontros mensais, no segundo domingo de cada mês, buscando fortalecer a juventude que vive com HIV/Aids por meio da informação entre pares, incentivando a adesão ao tratamento, promoção de direitos e quebra do estigma e discriminação, trazendo um novo olhar para a vida da juventude após a descoberta do diagnóstico. E trabalhamos com políticas públicas e controle social da juventude vivendo com HIV/Aids no Estado.

A ideia do evento foi de Felipe Medeiros, um dos coordenadores da RNAJVHA – Amazonas, que movimentou muita coisa pra que isso acontecesse. Na verdade, não existe nenhum estudo que relacione diretamente o suicídio ao diagnóstico positivo para o HIV, mas vimos neste setembro amarelo uma oportunidade de desmistificar o tema e falar sobre a importância do cuidado com a saúde mental. Existem alguns estudos que mostram que uma parcela significativa das pessoas que vivem com HIV possuem algum tipo de transtorno psiquiátrico, diagnosticado ou não. Por isso, hoje em dia, fala-se em atendimento biopsicossocial da pessoa que vive com HIV: uma forma de encarar o tratamento para além de apenas tomar a medicação. Ou seja, oferecendo suporte para cuidado com a saúde mental e meios para que aqueles que não possuem dinheiro possam dar continuidade ao tratamento desta enfermidade.

Neste evento, haverá dois palestrantes de Manaus: Um é um psicólogo que conhece muito bem o tema, o Clovis Coelho. Outra é a Consuelena Lopes. Ela é psicóloga com doutorado em Antropologia Social e já atuou por muito tempo no atendimento de pessoas que vivem com HIV aqui em Manaus, em uma policlínica. Também teremos uma psicóloga da Fiocruz Brasília que vem pra cá apenas pra este evento, a Karine Dutra. Ela já trabalhou muito na construção de políticas públicas diretamente no ministério da saúde.

Hoje em dia existem outras formas de se prevenir o HIV além da camisinha, como a PEP e a PREP, e também existem estudos internacionais que comprovam que pessoas com carga viral indetectável há pelo menos seis meses, e sem nenhuma ist não transmite o vírus do HIV mesmo em relações sexuais desprotegidas. Por isso, para além da camisinha podemos considerar a adesão ao tratamento uma forma eficaz de prevenção ao HIV.

Sobre o HIV e o suicídio, eu penso que ambos os assuntos são envolvidos por tabus. Ainda existem pessoas que, mesmo nos dias de hoje, encaram o HIV como um diagnóstico de morte. Além disso muita gente não sabe exatamente como ocorre a transmissão, imaginando que só de compartilhar talheres, beijar ou abraçar pode se infectar, pois a nossa sociedade não fala abertamente sobre sexo. Da mesma forma, o suicídio envolve alguns temas delicados: evita-se falar de morte, pois achamos que isso pode atrair coisas ruins. As vezes a pessoa com ideação suicida é vista como alguém dramático, fraco, inconveniente. Tudo isto impede um diálogo aberto sobre o tema. E como você mesmo falou, é um tema que precisa da nossa atenção pois é uma das principais causas de morte entre jovens.

Se o suicídio passar a ser encarado como um problema de saúde pública e se forem pensadas estratégias para combatê-lo a partir de estudos sérios, penso que essa triste situação pode ser revertida. Mas pra isso, é preciso que as pessoas lancem um novo olhar sobre o suicídio e os transtornos associados a ele. É isso que buscamos com esse evento.

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RNAJVHA – Amazonas | Coordenadores: Bruno Cortez, Felipe Medeiros, Hadassa Brasil | E-mail para contato: jovenspositivosam@gmail.com

Pesquisadores desenvolveram uma nova maneira de datar as cepas de HIV que estão “hibernando”, o que representa um avanço para a pesquisa de cura do HIV e confirma que as cepas latentes do HIV podem persistir no corpo por décadas.

“Sem identificá-lo, não podemos curá-lo”, disse a Dr. Zabrina Brumme, diretora do laboratório BC Centre for Excellence in HIV/Aids, o BC-CfE, e principal autora do estudo. “Há muito tempo os cientistas sabem que cepas de HIV podem permanecer em hibernação no organismo de um indivíduo vivendo com HIV, reativando muitos anos depois. Nosso estudo confirma que o reservatório latente do HIV é geneticamente diverso e pode conter cepas virais que remontam à transmissão.”

Além do BC-CfE, o estudo foi conduzido junto da Universidade Simon Fraser (SFU), em parceria com a Universidade da Columbia Britânica (UBC) e a Western University. “O BC-CfE tem sido consistentemente um líder nacional e global em pesquisa sobre o HIV e na implementação de estratégias de tratamento como prevenção.

“Ao criar árvores genealógicas de vírus, usando uma técnica chamada filogenética molecular, podemos reconstruir a história evolutiva do HIV dentro de uma pessoa”, disse Brad Jones, um Ph.D. estudante com UBC no BC-CfE e o primeiro autor do estudo. “Em essência, criamos uma ‘máquina do tempo’ altamente calibrada que nos dá um marco de tempo específico para quando cada cepa do HIV dormente apareceu originalmente em uma pessoa.”

As cepas de HIV inativas, que integraram seu DNA ao das células do corpo, podem persistir por anos e são inacessíveis pelos tratamentos antirretrovirais atuais e pelo sistema imunológico. Entretanto, essas cepas podem reativar a qualquer momento e é por isso que, para evitar essa reativação, o tratamento do HIV precisa ser mantido por toda a vida.

“Pesquisas anteriores já haviam revelado que o reservatório do HIV era geneticamente complexo. Com nosso método, podemos agora entender essa complexidade com maior granularidade, identificando exatamente quando cada cepa original do HIV apareceu originalmente em uma pessoa”, disse o Dr. Jeffrey Joy, pesquisador no BC-CfE e coautor do estudo.

“A fim de erradicar o HIV do corpo de uma pessoa, você primeiro precisa conhecer as características do HIV no reservatório latente”, disse o Dr. Art Poon, professor assistente em Patologia e Medicina Laboratorial na Western University e também coautor do estudo. “Estamos fornecendo um método para medir melhor a linha do tempo da latência e evolução do vírus dentro de um indivíduo que vive com o HIV”.

Para “datar” cepas de HIV inativas no reservatório viral, os pesquisadores precisaram comparar essas cepas com aquelas que evoluíram dentro de um indivíduo vivendo com HIV durante toda a história de sua infecção. O BC-CfE é uma das poucas instituições em todo o mundo capazes de tal pesquisa, graças à manutenção de um repositório histórico de amostras de sangue de indivíduos diagnosticados com HIV no BC. Esses espécimes datam de 1996 e foram originalmente coletados para testes de carga viral e resistência a drogas.

Lembra da coorte Visconti? Foi um estudo conduzido em diversas clínicas de saúde na França, publicado em 2013, sobre 14 pessoas, dez homens e quatro mulheres, que iniciaram a terapia antirretroviral logo após o diagnóstico, mas, depois, interromperam o tratamento. E foi aí que veio a surpresa! Ao invés do esperado retorno da carga viral, estes 14 pacientes mantiveram seu controle da carga viral, mesmo na ausência dos antirretrovirais. Isso quer dizer que eles controlaram a carga viral após o tratamento — daí o nome do estudo Virological and Immunological Studies in CONtrollers after Treatment Interruption, Visconti, algo como Estudos Virológicos e Imunológicos em Controladores pós Tratamento.

Uma das conclusões do Viconti foi a de que uma em cada seis pessoas que iniciaram a terapia antirretroviral menos de seis meses após a infecção poderiam ser capaz de controlar suas cargas virais por pelo menos um ano após a interrupção do tratamento. Pessoas assim receberam o nome de “controladores pós-tratamento”.

Contudo, desde o Visconti, pouco avançou-se no estudo de controladores pós-tratamento. Até agora. Um novo estudo, uma colaboração dos Estados Unidos, reuniu dados de 14 estudos científicos contendo, no total, observações sobre mais 600 pessoas soropositivas e descobriu que 67 delas foram capazes de manter ou restabelecer uma carga viral abaixo de 400 cópias/ml por pelo menos 48 semanas após a interrupção da terapia antirretroviral.

Este é o primeiro grande estudo, desde a coorte Visconti, em 2013, a estimar a proporção de pessoas que poderiam ser controladores pós-tratamento. Chamado de Champ, acrônimo de Control of HIV after Antiretroviral Medication Pause, analisou dez ensaios clínicos randomizados e quatro estudos de coorte realizados nos Estados Unidos e  Canadá, com resultados publicados de 2000 a 2017.

A maioria destes estudos foi de interrupção do tratamento, por si só, ou de vacinação terapêutica ou outro tratamento imunológico. Três dos quatro estudos de coorte foram de pessoas tratadas em infecção precoce, enquanto o último estudo de coorte foi com pessoas já sabidamente controladoras virais.

A idade média dos participantes foi de 41 anos, sem diferença entre os tratados em infecção precoce ou crônica. 19% eram mulheres. 69% eram brancos e 25% negros. A definição usada pelo Champ para definir um controlador de pós-tratamento foi a de que a pessoa tinha que ter uma carga viral abaixo de 400 cópias/ml ao longo de, pelo menos, dois terços do tempo e, pelo menos, por 48 semanas após a interrupção da terapia antirretroviral.

Seguindo essa definição, os pesquisadores descobriram que 13% das pessoas que iniciaram o tratamento antirretroviral logo após a infecção foram capazes de alcançar o controle viral pós-tratamento. Esta é uma estimativa muito próxima daquela dos pesquisadores do Visconti, que disseram que 15% das pessoas tratadas na infecção precoce poderiam ser controladoras pós-tratamento.

Mas o Champ não parou por aí. O estudo também procurou por controladores pós-tratamento que não iniciaram a terapia antirretroviral até que estivessem em infecção crônica — e encontrou 25 deles, representando 4% das pessoas que iniciaram o tratamento na fase de infecção crônica. Esta é a primeira vez que um estudo apresenta uma estimativa para a proporção de pessoas que iniciam o tratamento na infecção crônica pelo HIV e que podem vir a ser controladores pós-tratamento.

O tempo médio que as pessoas estavam em terapia antirretroviral antes de interromperem o tratamento foi 89 semanas, equivalente a um ano e nove meses. 75% das pessoas mantiveram controle por pelo menos um ano, 22% destas chegaram a cinco anos. Dois indivíduos tratados precocemente estão controlando sua carga viral há mais de dez anos, sem antirretrovirais. Todos os controladores pós-tratamento observados geralmente mantiveram suas contagens médias de CD4, com apenas um leve declínio de 32 células/mm³ por ano, em média, em comparação uma queda de 221 células/mm³ entre os não-controladores.

Há um detalhe interessante: 42% dos controladores de pós-tratamento que iniciaram a terapia antirretroviral já na infecção crônica vieram de um único estudo, o ACTG 5068. 10% das pessoas neste estudo foram identificadas controladoras pós-tratamento, em comparação com 3% em todos os outros estudos de pessoas iniciando tratamento em infecção crônica.

A característica distintiva deste estudo está no fato dele ter usado a chamada “interrupção de tratamento pulsada”. Isto significa que, depois de parar inicialmente a terapia antirretroviral, as pessoas foram colocadas em duas interrupções curtas de tratamento, de 4 a 6 semanas, com um período de tratamento entre elas, antes que este fosse descontinuado indefinidamente. O resultado foi que 15% tornaram-se controladoras pós-tratamento — uma proporção tão alta quanto aqueles que iniciaram o tratamento no início da infecção.

Esse é um detalhe que sugere (mas não confirma) que as interrupções pulsadas possam ter sido suficientes para permitir que pequenos surtos de carga viral levem, segundo os pesquisadores, ao que eles chamam de “autoimunização” contra o HIV. Mesmo assim, se esta teoria estive correta, o fato é autoimunização só ocorreu em apenas 15% das pessoas. A combinação de fatores que as levou a se tornarem controladoras pós-tratamento, enquanto a maioria das pessoas não, ainda é um mistério.

Enquanto isso, apenas uma pequena proporção de pessoas passará pelas interrupções estruturadas de tratamento, trazendo eventualmente algum luz sobre o assunto. Por enquanto, o fato é que este estudo americano nos confirma que o controle pós-tratamento não é um fenômeno especialmente raro.

“Quero compartilhar com vocês parte da minha história. Quero ajudar alguém que, assim como eu, se deparou com um diagnóstico tão desolador — não só pelo choque que qualquer doença séria e incurável traz ao indivíduo, mas sobretudo por um enfraquecido sistema imunológico, tal como o meu quando da descoberta.

Almejando ser mais didático, vou descrever minha trajetória separando as esferas pessoal e profissional, para tentar dimensionar e, assim, fazê-los compreender a real extensão de tudo o que senti ao ser diagnosticado positivo para o HIV. A exatidão desse sentimento que vem com o diagnóstico não se mensura apenas por aquilo que vivenciamos à época do resultado, mas por tudo aquilo que sempre acreditamos e perseguimos ao longo da nossa trajetória: o impacto (que imaginamos) daquele diagnóstico para o futuro de nossas vidas ou, ao menos, os efeitos dele projetados sobre o nosso futuro.

Inicialmente, friso que cresci em uma cidade pequena, pacata, do interior. Tive uma adolescência permeada de preconceitos e autopreconceitos, intrínsecos, próprios de todo ser humano que se cresce em comunidades pouco desenvolvidas e é educado no seio de uma família religiosa.

Para mim, essa não foi uma história que descreva como ruim, não foi!, mas posso dizer que me fez sofrer o bastante para aceitar a minha sexualidade. Tive que vencer muitos preconceitos próprios, ao ponto da minha primeira relação sexual com o gênero que me atrai ter acontecido somente aos meus 21 anos idade.

Foi a partir daí, registrando esse marco como libertador, que decidi seguir a minha vida assim: me tornado alguém que me fizesse feliz, liberto de todas as neuras, seguindo as minhas crenças pessoais e sempre me adaptando diante do dogma que ainda carregava, desde os tempos de igreja. Hoje, acredito que Deus me ama do jeito que sou, apenas me quer de coração puro, sem maldade, sem buscar o mal ao próximo, sendo uma pessoa justas, assim como ele. Essa é a minha forma de pensar e viver bem minha vida, sem perder a minha fé e com todo respeito à opiniões contrárias. Viva a liberdade de consciência e de crença!

Também segui buscando minha felicidade em outro aspecto importante para mim: o corpo, através daquilo que alguns chamam de ‘culto ao corpo’. Aos 23 anos, em 2008, me tornei um praticante esportista muito dedicado. Viciado: treinava três horas por dia. Tinha o sonho de chegar ao fisiculturismo e até fazia dietas consideradas por alguns como ‘extremas’.

Mas foi saindo da faculdade que recebi um convite de trabalho que muito me auxiliaria à realização do meu sonho profissional, em termos de experiência na carreira que desejava seguir. Não pensei duas vezes e, ao longo de um ano, suspendi a musculação e me concentrei neste outro projeto. Durante esse período, confesso, comecei a me sentir mal por ficar muito magro, de músculos murchos, e com uma barriguinha que nunca antes me acompanhara. Senti a queda na autoestima. E foi exatamente nesse momento que veio o diagnóstico positivo para o HIV.

O diagnóstico me fez pensar em desistir de tudo, como se todos os meus sonhos caíssem por água abaixo. Fiquei desolado, extremamente arrasado. E temeroso diante do futuro do relacionamento que acabava de se iniciar.

Tudo começou em 2016, quando viajei para a praia, em outro Estado. Lá, conheci alguém que me encantou. Ele era incrível! Me cativava com seu jeito de tratar, me olhar… Regressei de viagem com uma daquelas paixonites, sabe? Era como se tivesse retornado à adolescência: continuamos a nos comunicar via WhatsApp e sempre mantendo diálogo como se namorássemos a sério, como se, no dia seguinte, ou a qualquer hora, pudéssemos nos encontrar. Tivemos crises de ciúmes, brigas, discussões de relacionamento — tudo à distância.

Foi em abril de 2017 que combinamos de nos reencontrar pessoalmente. Nessa mesma viagem, noivamos, com direito à aliança em jantar e a oficialização da seriedade da nossa relação. Estava decidido: casaríamos em agosto! Mas começava aí a necessidade de organizar o evento, a vida e o relacionamento e, dentre estes assuntos, o plano de fazermos todos os exames de infecções sexualmente transmissíveis. Foi então que, em meados de 2017, fui até um laboratório na minha cidade e solicitei o tal teste de HIV.

Certo de que não havia nada de errado comigo, com um histórico de apenas dois curtos relacionamentos anteriores, ainda pedi que minha sobrinha buscasse o resultado dos exames para mim. Ocupado com o trabalho, segui meu dia normalmente, até o momento em que recebi a ligação do laboratório: não era possível que entregassem os resultados a qualquer pessoa que não fosse eu, pois a doutora precisava conversar comigo. Disseram que algo estava errado e era preciso repetir o exame.

Abri o computador e descrevi a situação para o Google. Não demorou para descobrir que o argumento do laboratório era um provável indicativo de que o teste de HIV tinha vindo com resultado positivo e, por isso, era preciso confirmá-lo com uma nova amostra de sangue. Era isso, sem dúvida: um resultado positivo.

Passaram-se três dias, inundados de choro, até que eu criasse coragem para repetir o teste de HIV. E não o fiz por conta própria, mas por apoio de minha mãe, que se aproximou e perguntou o que é que se passava. Em meio à lágrimas e choro, contei que precisava refazer um exame e que havia grande chances de eu ser soropositivo.

‘– Filho, se o resultado vier positivo, nós vamos enfrentá-lo e pronto!’, disse ela.

Foi num ambiente reservado do laboratório, para onde fui levado por um atencioso profissional que percebeu a minha aflição, que repeti o teste de HIV. Alguns dias depois, veio a  confirmação: reagente para HIV.

Um susto, sim, mas já começava a suportar a ideia de conviver com o vírus, até então impossível de aceitar. Atribuo isso ao fato de que, naqueles dias entre a última coleta de sangue e o resultado, li bastante, o máximo que consegui, sobre o HIV — grande parte deste conteúdo, sim, aqui no Diário de um Jovem Soropositivo. Talvez, mal saiba seu autor que seu trabalho neste blog salva vidas. A ele, sou eternamente grato. Foi através desta iniciativa que compreendi melhor a vida de um soropositivo e num momento em que tudo era desconhecido. Percebi o quanto somos ignorantes a respeito do assunto! Li relatos fantásticos que muito me confortaram e percebi  também como faltam campanhas educativas acerca do tema em nosso país.

Ao que me parece, a maior dificuldade da vida com HIV é vencer o preconceito, decorrente da falta de conhecimento da população em geral. E falo por experiência própria, momentos em que eu mesmo tive preconceito. Lembro que, certa vez, conversava no trabalho com um rapaz soropositivo assumido e, enquanto ele me relatava um assunto qualquer, a única coisa que se passava pela minha cabeça era: Como que esse cara fez isso consigo mesmo? Como que ele deixou isso acontecer com ele? Por que ele não se cuidou? Era a minha ignorância, decorrente do fato de eu nada saber sobre o HIV.

Agora, saberia meu noivo tudo o que era preciso sobre o HIV? Essa era uma pergunta que eu temia responder e, descobria eu, deveria inclusive ser postergada. Meus exames subsequentes mostram que minha saúde requisitava muita atenção: meu CD4 estava em 76, quando o mínimo esperado é 500.

Reduzi a intensidade de meus treinos na academia. Suspendi as dietas. Continuei sem fumar, sem beber, sem ir à balada. E iniciei imediatamente o tratamento antirretroviral com Dolutegravir, Tenofovir e Lamivudina, além de Bactrim, para evitar infecções e doenças oportunistas. Aqui, noto que praticamente não tive efeitos colaterais — a não ser os psicológicos: todas as noites acordava às 4 horas da manhã, com aquele turbilhão de coisas na mente.

Em novembro de 2017 minha contagem do CD4 subiu para 291. Em Março de 2018 chegou a 325. E, agora, em agosto de 2018, meu CD4 está em 451. Deus é muito bom! Tenho certeza que, em breve, meu CD4 estará muito acima de 500. Tenho fé! Sei que a vida pode sim voltar ao normal.

Mas e o casamento? O teste de HIV dele veio negativo. E o meu positivo, disse ele, jamais seria empecilho. Nosso amor é muito maior, percebo hoje, casado há um ano.

Sou muito feliz no meu casamento. Amo meu parceiro e ele a mim. Temos um casamento muito transparente, sem segredos e, principalmente, com muito respeito. Somos pelo nosso casamento, sempre apoiando um ao outro. Meu marido me estimula e encoraja a retomar minhas metas profissionais. Assim, voltei a estudar para concursos. Tenho uma rotina diária de estudos, com muita dedicação.

Essa é minha nova vida. Nela, percebo que o vírus não pode nos anular. Temos que juntar forças e seguir com nossos projetos e sonhos, ainda que por caminhos diversos daqueles idealizados outrora. É assim! E, para quem acredita, com fé em Deus e a bênção dele nas nossas vidas.”