Talvez seja importante esclarecer que a contraindicação do uso de Dolutegravir por mulheres grávidas, divulgada em Nota Informativa pelo Ministério da Saúde, acompanha uma recomendação mundial — também publicada pela Agência Europeia de Medicamentos e a US Food and Drug Administration.

Essa recomendação vem depois de um relatório de Botswana, na África, onde se observou uma frequência mais alta de malformações congênitas em bebês nascidos de mães que engravidaram enquanto tomavam Dolutegravir. A incidência de defeitos do tubo neural, como “espinha bífida”, mostrou-se mais comum em bebês nascidos destas mães. Um defeito do tubo neural ocorre quando a medula espinhal, o cérebro e as estruturas relacionadas não se formam adequadamente. A espinha bífida, caracterizada pela medula espinhal mal formada, é o defeito mais comum do tubo neural.

O estudo foi bastante abrangente e analisou bebês nascidos de 11.558 mães em tratamento antirretroviral; destas, 426 tomavam Dolutegravir durante a gravidez e quatro delas, o que representa 0,9% do total, tiveram bebês que apresentaram algum defeito no tubo neural. Em comparação, o risco de defeitos do tubo neural mostrou-se de 0,1% em mulheres que estavam tomando outros esquemas antirretrovirais. Essa variação aparentemente pequena em porcentagem parece ser significativa o suficiente para os alertas emitidos no mundo todo — ao meu ver, um bom sinal de cautela e atenção das autoridades de saúde pública para conosco, pelo menos, no que diz respeito ao HIV.

O estudo continuará até fevereiro de 2019, portanto, mais informações sobre o risco não estarão disponíveis por aproximadamente um ano. O que também já se sabe é que o risco de defeitos do tubo neural do tipo relatado no estudo do Botswana é mais elevado no momento da concepção até o primeiro trimestre da gravidez.

Agora, a Organização Mundial da Saúde (OMS), está realizando uma revisão das suas orientações e diz que uma atualização será emitida nos próximos meses. A declaração da OMS observa que o risco de defeitos do tubo neural é aumentado pela deficiência de ácido fólico e reitera sua recomendação de que todas as mulheres tomem um suplemento diário de ácido fólico antes da concepção e durante a gravidez, para ajudar a prevenir defeitos do tubo neural. A fabricante do Dolutegravir, a ViiV Healthcare, subsidiária da GlaxoSmithKline, afirma que os estudos de toxicologia animal que levaram ao licenciamento do Dolutegravir não mostraram evidências de resultados adversos no desenvolvimento de bebês ratos ou coelhos.

Em nenhum sentido o alerta acima se transcreve para homens e mulheres não grávidas que fazem uso do Dolutegravir. Ao contrário, para essas pessoas, o uso desse antirretroviral continua a ser encorajado pelas autoridades médicas. “O Dolutegravir oferece muitos benefícios, incluindo ser melhor tolerado por pacientes e apresentar melhores resultados, como supressão viral mais rápida”, lembra o Plano de Emergência do Presidente dos Estados Unidos para o Alívio da Aids, o PEPFAR. “O PEPFAR encoraja os países a continuar com a sua transição para o Dolutegravir.”

A bula do medicamento distribuído no Brasil, fabricado pela GlaxoSmithKline com o nome comercial Tivicay, indica seu uso para maiores de 12 anos e aponta três efeitos colaterais “muito comuns”, que ocorrem em 10% das pessoas que tomam Dolutegravir: dor de cabeça, náusea e diarreia. É uma lista tão pequena quanto o tamanho do comprimido, parecido com um AAS infantil, e corretamente atualiza conforme casos recentes documentados: efeitos “incomuns” de depressão e pensamentos suicidas, que podem acometer entre 0,1% a 1% das pessoas. Se perguntar a mim, diria que esta é uma das bulas mais amenas dentre todos os antirretrovirais que tomei. E, agora, é o antirretroviral que passarei a tomar.

Em algumas horas, ainda hoje, antes da hora de dormir, me despeço para sempre do Efavirenz, antirretroviral que tomei todo o santo dia, ao longo dos últimos sete anos da minha vida — desde a nossa  psicodélica primeira noite juntos, que se deu em 4 de maio de 2011. Ainda me lembro daquela noite, quando a textura do lençol e os ruídos do travesseiro chamavam toda a atenção dos meus sentidos entorpecidos pelos efeitos neuropsiquiátricos comuns do Efavirenz, especialmente no início do seu tratamento.

Naquele primeira noite, sonhei com cores vibrantes, tão realistas, e com um estranho personagem que urrava comigo, transformando a trama noturna num pesadelo. Ainda me recordo das suas feições, que traziam uma expressão de intensa angústia. Mais intensa do que eu poderia aguentar. O personagem estava vestido de médico e me alertava de erros para os quais eu deveria corrigir; contudo, quando eu os fazia, alteravam-se as condições de tempo e espaço e tudo voltava ao seu início, de modo que era impossível corrigir um caso sem com isso afetar o outro. Tudo era como deveria ser: uma vida cheia de erros, que nem deveriam ser tão graves, não fosse o peso daquele sentimento de responsabilidade imputado em mim pelo personagem. Ele deixava claro que tudo era uma última chance, sem qualquer chance para erro.

Acordei assustado, no meio da madrugada, com os gritos de um dos pacientes. E decidi que não assistiria mais ao seriado House logo antes de dormir. Mas, de olhos abertos, ainda uma surpresa: meu mundo real estava inteiramente colorido, mesmo em pleno quarto escuro — algo rápido, por poucos instantes apenas, tempo suficiente para que meu cérebro percebesse que ali não era mais espaço para alucinações.

Esses fortes efeitos colaterais do Efavirenz provavelmente se deram comigo em tanta intensidade por conta de minha saúde debilitada. Meu início com ele se dava quatro meses depois do meu diagnóstico positivo para o HIV, tempo em que me consultei com o taciturno Dr. O., o primeiro infectologista que visitei. “Você vai tomar Kaletra e Biovir”, determinou o médico, sem espaço para qualquer indagação minha ou alternativas. Recém diagnosticado, presumi que era mesmo assim que deveria de ser. Os efeitos colaterais subsequentes, diarreias e vômitos que me acometeram todos os dias, diversas vezes ao dia, fizeram-me perder quinze quilos em poucos meses, deixando-me abatido, fraco e, de acordo com os exames de sangue, anêmico. Foi quando adentrei, na tarde de 3 de maio de 2011, no que apelidei de “Restaurante Positivo”.

“— Boa noite, senhor. Gostaria de fazer o pedido?”

“— Deixe-me ver. O que você sugere?”

“— Senhor, hoje estão muito bons: Efavirenz, Atazanavir, Lopinavir ou Kaletra.”

“— Não, Kaletra não! Já experimentei e não gostei. Gostaria, inclusive, de reclamar com o chef., adverti.

“— Pois não, senhor.”

“— Diga a ele que me deu muita indigestão! Dor de barriga, se é que você me entende…”

“— Oh! Senhor, sinto muito…”

“— E esse Efavirenz?”

“— É muito recomendado, tem ótimos efeitos medicinais e apenas um colateral mais comum, que é um lapso de concentração após sua ingestão.”

“— Mas passa?”

“— Melhor que Kaletra, senhor.”

“— Ótimo! E o… ‘Atazana-vírus’?”

“— Atazanavir, muito indicado também. Ele também têm AZT nos ingredientes, tal qual o Biovir, mas o preparo é mais cuidadoso. Garanto que o senhor não terá aquele problema… Eh… Intestinal.”

“— Sei… Nenhum outro efeito?”

“— Ele é como aqueles chicletes coloridos, senhor.”

“— Como assim?”

“— Aqueles que as crianças comem e ficam com língua azul, sabe?”

“— Sei…”

“— Pois então, o Liponavir deixa nossos clientes com icterícia: olhos amarelados! É a última moda aqui no restaurante.”

“— Humm… Muito bem. Mas acho que prefiro começar pelo Efavirenz.”

“— Muito bem, senhor. Ótima escolha. Sugiro apenas que o senhor não volte guiando.”

“— Não tem problema, estou de táxi.”

“— Perfeito, senhor. Algum acompanhamento?”

“— O de sempre!”

“— Biovir! Perfeito, senhor.”

“— Obrigado! E qual é o seu nome mesmo?”

Foi mais ou menos assim que decorreu minha primeira consulta com o Dr. Esper Kallás, médico infectologista com quem me consulto desde então. Ele me advertiu dos efeitos indesejáveis do Efavirenz, mas também lembrou que a diarreia decorrente do Kaletra muito provavelmente deveria sumir em pouco tempo — o que eu não imaginava é que esse tempo seria mesmo tão curto.

Vinte a quatro horas depois do fim do tratamento com Kaletra e a minha primeira dose de Efavirenz, a diarreia cessou totalmente! Meu apetite voltou. Na manhã seguinte, quando tomava café da manhã, percebi que algo em mim coisa havia mudado: a cada mordida e ingestão dos alimentos, era nítido que minha digestão voltava ao normal, tal como era antes de começar com Kaletra. Em dois dias de Efavirenz, não havia mais sinal da diarreia, o efeito colateral que me acompanhara diariamente ao longo dos quatro longos meses anteriores.

Um sorriso involuntário se estampou em meu rosto, de orelha à orelha. No almoço, corri para o restaurante, desejoso de tudo aquilo que havia sido totalmente privado de comer naqueles meses: as fibras e gorduras, que tanto prejudicam um sistema digestivo diarreico. Debrucei-me sobre o buffet de saladas e carnes e repeti o prato duas vezes, sem uma única gota de diarreia depois.

No fim das contas, os efeitos colaterais severos e desagradáveis do Kaletra sumiram como num passe de mágica — graças à troca de remédios proposta pelo Dr. Esper. Por que teria o infectologista anterior insistido por tanto tempo em meu tratamento com Kaletra, se havia outra alternativa? Por que não me dera outra opção, assim como fez o Dr. Esper? Essa são perguntas cujas respostas me escapam até hoje.

O que sei é que o Efavirenz me trouxe de volta a felicidade, ou, pelo menos, a disposição para poder senti-la. Desde o diagnóstico eu não enxergava a beleza na cidade de São Paulo, algo que finalmente foi possível naquele dia de maio de 2011, típico de outono, com sol dourado e brisa fresca, tão parecido com o dia de hoje. Devo confessar que, ao longo da primeira semana de Efavirenz, minha visão ainda embaralhou um bocado, aqui e ali. Também me deixou um pouco mais confuso que o habitual, tal como previsto pelo doutor.

“— O Efavirenz vai deixar você meio… ‘balão’”, dissera o Dr. Esper, há sete anos, antes de prescrever meu então novo antirretroviral. “Esse remédio pode influenciar na concentração”, explicou o médico.

Ao longo daquela primeira semana, lembro que perdi as duas chaves de casa. Por dois dias, esqueci completamente em que dia eu estava, da semana e do mês. E não adiantava olhar no celular: no segundo seguinte, lá estava a dúvida novamente. Cheguei a ir ao dentista às 10:40h quando meu horário era 14:40h, mesmo logo depois de ligar para confirmar. Esqueci meu próprio número de telefone, da minha mãe e da minha namorada à época. Andei aos tropeços dentro de casa, sem o mínimo equilíbrio, logo depois de tomar minha dose de antirretroviral. Todos os dias, até as 13:30h, era a mesma coisa: uma enorme confusão!

Tudo isso, confesso, não poderia ser mais divertido. Não depois de meu histórico com Kaletra e Biovir, e os tantos meses de diarreias consecutivas, vômitos e as fezes incontidas defecadas nas calças. Diante disso, sofrer com a viagem quase psicodélica do Efavirenz era um agrado! Aos poucos, também aprendi a contornar os lapsos de concentração, a começar por um enorme copo de café preto pela manhã, puro e forte, hábito que mantenho até os dias de hoje.

O Efavirenz me acompanhou ao retorno da minha disposição, à retomada da minha saúde, términos de namoro, férias e viagens, trabalhos e demissões. Foi com ele que me casei — ou, melhor dizendo, estava com ele quando me casei –, perdi parentes e ganhei um filho, a grande alegria de me tornar pai. Então, é com certa comoção que o Efavirenz vai embora. Foi um prazer, Efa! E seja bem vindo, Dolutegravir. Em uma vida de soropositivo permeada pelo sentimento de eternidade da infecção pelo vírus, pequenas mudanças como essa trazem grande impacto. Ou, talvez, não mais tão grande assim.

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O Departamento de Vigilância, Prevenção e Controle das Infecções Sexualmente Transmissíveis, do HIV/Aids e das Hepatites Virais do Ministério da Saúde publicou nesta sexta-feira (18), a Nota Informativa nº 10/2018 contraindicando a prescrição do medicamento Dolutegravir para mulheres vivendo com HIV em idade fértil que pretendam engravidar. A recomendação segue a declaração emitida pela Organização Mundial da Saúde (OMS), quanto ao potencial risco de segurança do uso do antirretroviral dolutegravir naquelas mulheres no momento da concepção.

A declaração da OMS foi emitida após divulgação de resultados preliminares de estudo Tsepamo, conduzido em Botswana, que encontrou malformação congênita (defeitos de tubo neural) em crianças nascidas de mulheres que engravidaram enquanto tomavam o Dolutegravir.

Para as mulheres que vivem com HIV em início de tratamento antirretroviral e que pretendem engravidar, a recomendação é usar preferencialmente esquema contendo o medicamento Efavirenz. A nota recomenda ainda que mulheres que tiverem confirmação de gravidez durante o tratamento antirretroviral com o Dolutegravir, devem buscar imediatamente consulta para substituição desse antirretroviral no seu esquema de tratamento.

Já para as mulheres que vivem com HIV em idade fértil e que tem indicação para o Dolutegravir e não querem engravidar devem ter assegurado o uso de método contraceptivo eficaz, preferencialmente métodos que não dependam de adesão, como DIU e implantes anticoncepcionais. Já para as mulheres que não desejam usar contraceptivos, a recomendação é a substituição por esquemas sem o Dolutegravir. Ressalta-se que a terapia antirretroviral não deve ser interrompida sem consultar o médico, uma vez que isso pode causar danos para mulher e seu bebê.

As recomendações sobre o uso do Dolutegravir por mulheres em idade fértil já foram incluídas no Protocolodo Clínico e Diretrizes Terapeuticas (PCDT) para Manejo da Infecção pelo HIV em Adultos e também de no PCDT para Prevenção da Transmissão Vertical.


Da Assessoria de Imprensa do Departamento de Vigilância, Prevenção e Controle das IST, do HIV/Aids e das Hepatites Virais do ministério da Saúde

A Inovio Pharmaceuticals, uma empresa de biotecnologia avançada, focada na descoberta, desenvolvimento e comercialização de imunoterapias de DNA para tratamento de câncer e doenças infecciosas, divulgou, no último dia 15 de maio, um comunicado de imprensa a respeito do último resultado da sua vacina contra o HIV: a PENNVAX®-GP, que consiste em uma combinação de quatro antígenos do HIV projetados para gerar respostas de anticorpos e células T e agir contra várias cepas do vírus.

Segundo o comunicado,  a vacina apresentou respostas imunológicas “duráveis ​​e robustas” ao longo de 12 meses de acompanhamento, em um estudo clínico de fase 1. Anteriormente, a Inovio relatou que a PENNVAX-GP apresentara os maiores níveis de taxa de resposta imunológica, celular e humoral, já demonstradas em um estudo em humanos por uma vacina contra o HIV.

Os dados foram apresentados em uma sessão plenária na Reunião do Grupo de Trabalho da HIV Vaccine Trials Network (HVTN), em 14 de maio de 2017, em Washington, DC, no Estados Unidos, pelo copresidente do protocolo do estudo HVTN 098, Dr. Stephen De Rosa, professor associado de pesquisa em Medicina Laboratorial da Universidade de Washington e do Fred Hutchinson Cancer Research Center. O estudo HVTN 098 é o primeiro estudo clínico da PENNVAX-GP. Trata-se de um estudo multicêntrico, randomizado e controlado por placebo que envolveu 94 indivíduos (85 vacinas e 9 placebos) a fim de caracterizar e otimizar um esquema de quatro doses da vacina PENNVAX-GP, através de administração intradérmica ou intramuscular, em combinação com um ativador imunológico codificado por DNA, chamado IL-12.

Análises imunológicas mais abrangentes demonstraram que a PENNVAX-GP juntamente com o IL-12 geraram taxas de resposta de anticorpos de células T CD4 específicas contra o HIV e de ligação próximas a 100%, quando administradas com dispositivos intramusculares ou intradérmicos.

26 de 27, ou 96%, dos participantes que receberam a PENNVAX-GP e o IL-12 através da via intramuscular apresentaram resposta de células T CD4. 96% dos participantes que receberam a vacina por via intradérmica também apresentaram respostas de células T CD4 anti-HIV, embora as vacinadas pela administração intradérmica tivesse um quinto da dose tota,l em comparação com as vacinas por via intramuscular.

Durante um ano completo de estudo, as respostas imunes foram mantidas na maioria dos indivíduos, evidenciado pela durabilidade das células T ativadas, bem como pela magnitude das taxas de resposta. A porcentagem de pacientes que tiveram respostas de células T CD8 imediatamente após a última dose permaneceu a mesma ou até aumentou ligeiramente durante o último período de acompanhamento de 6 meses, demonstrando claramente respostas duradouras de memória geradas pela vacina.

“Estamos realmente satisfeitos em ver esses dados de resposta imunológica robustos e duráveis, que estão entre as maiores respostas já vistas em uma vacina contra o HIV e são notavelmente consistentes com nossos dados recentes relatados de nossos testes clínicos com Ebola, Zika e MERS, em termos de demonstrar quase 100% de taxas de resposta de vacinas com um perfil de segurança muito favorável”, disse o Dr. J. Joseph Kim, presidente e CEO da Inovio. “Além disso, nosso dispositivo de liberação de vacina intradérmica mais moderno e mais tolerável mostrou que podemos obter respostas imunes muito altas com uma dose muito menor. Estamos ansiosos para avançar ainda mais a PENNVAX-GP no desenvolvimento clínico em estágio avançado com nossos parceiros e colaboradores.”

O desenvolvimento da vacina PENNVAX-GP foi financiado por um contrato pelo Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas dos Estados Unidos (NIAID), com um aporte de 25 milhões de dólares ao longo de cinco anos. Além disso, a Inovio e seus colaboradores receberam uma concessão adicional de 16 milhões de dólares durante o desenvolvimento pré-clínico, premiado pelo programa Aids Vaccine Development, em 2015, também pelo NIAID.

Em resumo, a vacina apresentou boas respostas em estudo em humanos em fase inicial. O próximo passo, provavelmente, deve incluir mais voluntários e a experimentação de dosagens para soropositivos e soronegativos, avaliando a possibilidade de prevenir a infecção em quem não tem HIV e tratar aqueles que já tem HIV.

Cientistas já sabiam que a infecção pelo HIV causa redução do volume e da espessura cortical em algumas regiões do cérebro, mas não sabiam claramente quando essa redução tem início e qual é o papel da terapia antirretroviral na interrupção ou desaceleração dessa redução.

Para responder a essas perguntas, pesquisadores do Montreal Neurological Institute and Hospital da Universidade McGill, em colaboração com pesquisadores da Universidade de Washington St. Louis e Universidade de Yale, analisaram dados de ressonância magnética de 65 pacientes da Universidade da Califórnia em São Francisco, que haviam adquirido a infecção pelo HIV menos um ano antes do estudo. Eles compararam os dados desta ressonância magnética com a de 19 participantes soronegativos e 16 pacientes soropositivos que haviam adquirido a infecção pelo HIV há pelo menos três anos. O estudo foi publicado em 24 de abril de 2018 no jornal Clinical Infectious Diseases.

Os pesquisadores descobriram que, quanto maior a duração da infecção não tratada, maior a perda de volume e o afinamento cortical em várias regiões do cérebro. Uma vez iniciado o tratamento com a terapia antirretroviral, as alterações de volume nestas regiões cessaram e a espessura cortical aumentou ligeiramente no lobo frontal e temporal.

O lobo frontal está localizado na parte da frente do cérebro, atrás da testa, e desempenha um papel importante no movimento voluntário, como caminhar. A função do lobo frontal também envolve a capacidade de projetar consequências futuras resultantes das ações atuais, a escolha entre ações boas ou más, melhores ou piores, e a anulação e supressão de respostas socialmente inaceitáveis. Por sua vez, os lobos temporais estão na região acima das orelhas, com a função de processar os estímulos auditivos e visuais, por associação, permitindo ao indivíduo reconhecer a língua e som daquilo que está ouvindo. O lobo temporal também é responsável pela formação da memória de longo prazo.

A fileira de cima mostra atrofia cerebral, enquanto a fileira de baixo mostra o afinamento cortical no cérebro de uma pessoa com HIV.

Com a recuperação dos lobos frontal e temporais observada no estudo, assim que os pacientes iniciaram o tratamento antirretroviral, os autores concluem que é importante reforçar a necessidade da detecção precoce do HIV, fazendo o teste de HIV com frequência para identificar qualquer infecção em seu início, e o tratamento imediato com antirretrovirais logo após o diagnóstico positivo, a fim de evitar danos neurológicos.

“Houve poucos estudos longitudinais de neuroimagem estrutural na infecção precoce pelo HIV e nenhum deles usou métodos de análise tão sensíveis em uma amostra relativamente grande”, diz Ryan Sanford, candidato a PhD no Montreal Neurological Institute and Hospital no laboratório de Louis Collins e principal autor do estudo. “Essas descobertas neurológicas reforçam o início precoce do tratamento e enviam uma mensagem esperançosa para as pessoas que vivem com o HIV de que iniciar e aderir à terapia antirretroviral pode proteger o cérebro de novas lesões.”

A infecção pelo HIV pode levar à perda de memória e, ao longo da vida, até à demência, além de problemas de equilíbrio e visão, entre outros sintomas, mas o diagnóstico precoce e a terapia antirretroviral podem prevenir esses sintomas antes que eles ocorram ou interromper a sua progressão em pacientes que não receberam tratamento rápido o suficiente. “A lesão ocorre principalmente durante uma infecção não tratada”, explica Collins.

De 10 a 20 de maio, o Itaú Cultural, em São Paulo, apresenta a quinta edição de Todos os Gêneros: Mostra de Arte e Diversidade, que neste ano, tem como tema a vida soropositiva.

Para tratar do assunto – e de outras questões ligadas ao corpo, à afetividade, à sexualidade e à diversidade –, o evento contará com mostra de curtas-metragens, mesas de debate, apresentações teatrais, performances, além de um show com o cantor pernambucano Almério, uma festa, o Cabaré Todos os Gêneros, e o lançamento do livro Tente Entender o que Tento Dizer – Poesia HIV/Aids, organizado pelo escritor, jornalista e ativista de direitos humanos Ramon Nunes Mello. Confira abaixo a programação completa do evento.

Show, festa e lançamento de livro
16/05/2018 Quarta-feira – 18h: Lançamento do livro “Tente Entender o que Tento Dizer – Poesia HIV/Aids”

Organizado por Ramon Nunes Mello, o livro reúne uma seleção da produção poética contemporânea, cujos autores são de gerações, gêneros e sorologias diferentes. Os poetas foram convidados a escrever sobre o HIV/aids, de forma direta ou indireta. Entre os autores presentes no livro estão Silviano Santiago, Marília Garcia, Chacal, Micheliny Verunschk, Victor Heringer, Angélica Freitas, Fabricio Corsaletti, Italomori, Amara Moira e Armando Freitas Filho.

com interpretação em Libras | duração aproximada: 60 minutos | Foyer da Sala Vermelha (piso 3) |  livre para todos os públicos

18/05/2018 Sexta-feira – 20h: Almério

O cantor pernambucano Almério apresenta músicas dos seus dois primeiros CDs, além de versões de sucessos que dialogam com os temas: diversidade, afetividade, respeito por si mesmo e pelo próximo. O show contará com a participação especial de Evi Hadu.

com interpretação em Libras | duração aproximada: 75 minutos | Sala Itaú Cultural (piso térreo) – 224 pessoas | classificação indicativa: 12 anos

19/05/2018 Sábado – 23h: Cabaré Todos os Gêneros com Casa Florescer, Coletivo Amem e Kiara Felippe

O Teatro de Contêiner, sede da Cia. Mungunzá, será palco para o Cabaré Todos os Gêneros. A festa terá discotecagem de Kiara Felippe, com participação do Coletivo Amem. As conviventes da Casa Florescer também marcam presença, com trechos do espetáculo Divas Florescer.

duração aproximada: 180 minutos | Teatro de Contêiner Mungunzá (Rua dos Gusmões, 43, Santa Ifigênia, São Paulo/SP) | classificação indicativa: 18 anos
Espetáculos de teatro

Assim como as demais atividades promovidas pelo evento, a programação teatral de Todos os Gêneros: Mostra de Arte e Diversidade trata da soropositividade, ao mesmo tempo que explora outras questões ligadas ao corpo, à sexualidade, à afetividade e à diversidade.

No total, serão apresentadas quatro peças: Lembro Todo Dia de Você, musical realizado pelo Núcleo Experimental; Desmesura, do Teatro Kunyn; O Bebê de Tarlatana Rosa, do grupo Rainha Kong; e L, o Musical, do coletivo Criaturas Alaranjadas Núcleo de Criação Continuada. Todos os espetáculos contam com interpretação em Libras (Língua Brasileira de Sinais).


11/05/2018 Sexta-feira e 12/05/2018 Sábado – 20h: Lembro Todo Dia de Você

O musical apresenta um retrato realista e contemporâneo do HIV por meio da história de Thiago, jovem que se vê soropositivo aos 20 anos de idade e inicia uma jornada de autoconhecimento, encarando questões decisivas de sua vida – como o abandono paterno e a descoberta da sexualidade. Realizado pelo Núcleo Experimental, o espetáculo traz canções originais que passeiam por diferentes gêneros — do pop ao bolero.

Elenco e músicos: Anna Toledo, Bruna Guerin, Davi Tápias, Fabio Augusto Barreto, Fabio Redkowicz, Gabriel Malo, Pier Marchi, Zé Henrique de Paula | Regência: Rafa Miranda | Clarineta e sax: Flá- vio Rubens | Violoncelo: Felipe Parisi | Piano: Fernanda Maia | Baixo: Clara Bastos/ Pedro Macedo | Bateria: Abner Paul | Ficha técnica: Texto: Fernanda Maia | Colaboração: Herbert Bianchi e Zé Henrique de Paula | Música: Rafa Miranda | Letras: Fernanda Maia | Direção: Zé Henrique de Paula | Direção musical: Fernanda Maia | Assistência de direção e preparação de atores: Inês Aranha | Preparação vocal: Fernanda Maia e Rafa Miranda | Figurinos: Zé Henrique de Paula | Assistência de figurinos: Danilo Rosa | Iluminação: Fran Barros | Coreografia: Gabriel Malo | Projeto sonoro: João Baracho | Cenografia: Bruno Anselmo | Assistência de cenografia: Carolina Caminata | Cenotécnica: Vanderlei Leonarchik | Serralheria: Gildo Batista Reis de Santana e Pedro Roselino Filho | Pintura: Luciano Filardo | Contrarregra frente: Gilmar Alves | Design gráfico e vídeos: Laerte Késsimos | Fisioterapia: PhysioArt Studio Fisioterapia | Otorrinolaringologia: Reinaldo Yazaki | Operação de luz: Tulio Pezzoni | Operação de som: Ki Somerlate| Produção: Claudia Miranda, Laura Sciuli, Louise Bonassi e Mariana Mello | Assistência de produção: Julia Maia | Fotos e redes sociais: Giovana Cirne| Realização: Núcleo Experimental
com interpretação em Libras | duração aproximada: 120 minutos | Sala Itaú Cultural (piso térreo) – 224 lugares | classificação indicativa: 16 anos

13/05/2018 Domingo – 19h: Desmesura

Inspirada livremente na trajetória do dramaturgo argentino Raúl Damonte Botana, ou Copi, morto em 1987, de complicações decorrentes da aids, a peça do Teatro Kunyn aborda a soropositividade e a transexualidade. No espetáculo, o artista é apresentado em seus últimos momentos, tendo delírios nos quais a época em que viveu é confrontada com os dias de hoje.

Criação: Teatro Kunyn | Dramaturgia: Ronaldo Serruya | Atuação: Luiz Gustavo Jahjah, Paulo Arcuri e Ronaldo Serruya | Direção: Lubi | Direção de produção: Fernando Gimenes | Direção de arte e figurinos: Yumi Sakate | Dramaturgue: Renata Pimentel | Iluminação: Wagner Antônio | Assistente de iluminação: Dimitri Luppi Slavov | Operação de luz e som: Alexandre Silva | Cenografia: Lubi e Yumi Sakate | Cenotécnico: Josué Torres | Costureiras: Cirlandia Maria Simon, Noeme Costa e Oficina da Malonna | Perucas: Nina Fur | Confecção do bolo: Flavia Vidal | Confecção do boneco: Big Air | Música Inicial: Lovejoy – Aeromoças e Tenistas Russas | Designer gráfico e assessor de mídias sociais: Jonatas Marques
com interpretação em Libras | duração aproximada: 60 minutos | Sala Itaú Cultural (piso térreo) – 224 lugares | classificação indicativa: 18 anos

16/05/2018 Quarta-feira – 20h: O Bebê de Tarlatana Rosa

Baseada no conto homônimo de João do Rio, a peça do grupo Rainha Kong é ambientada no Carnaval carioca do início do século XX e levanta questões de gênero e sexualidade.

Direção: RAINHA KONG | Dramaturgia: Criação coletiva sobre texto de João do Rio | Iluminação: Vitinho Rodrigues | Elenco: Aleph Naldi, Helena Agalenéa, Vitinho Rodrigues, Jaoa de Mello | Orientação: Grácia Navarro | Colaborador: René Guerra | Visualidades: Helo Cardoso, Divina Núbia e RAINHA KONG | Apoio teórico: Cassiano Sydow, Isa Kopelman | Arte: Aleph Naldi | Material fotográfico e fílmico: Natt Fejfar, Normélia Rodrigues, Karen Mezza e Thomas BF
com interpretação em Libras | duração aproximada: 50 minutos | Sala Multiúso (piso 2) | classificação indicativa: 16 anos

19/05/2018 Sábado – 20h 20/05/2018 Domingo – 19h: L, O Musical

Com canções de Adriana Calcanhotto, Cássia Eller, Sandra de Sá, Maria Bethânia e Zélia Duncan, entre outras artistas da música brasileira, o espetáculo do coletivo Criaturas Alaranjadas Núcleo de Criação Continuada tem como foco o universo do amor lésbico. Na trama, uma autora de novelas celebra com suas amigas o sucesso de seu último trabalho, que trata de um triângulo amoroso formado por mulheres. A chegada de notícias inesperadas, no entanto, muda o destino de todas elas.

Direção geral e dramaturgia: Sérgio Maggio | Direção musical: Luís Filipe de Lima | Diretor assistente e de palco: Jones de Abreu | Diretora de movimento: Ana Paula Bouzas | Artistas-criadoras: Elisa Lucinda, Luiza Guimarães, Luísa Caetano, Gabriela Correa e Tainá Baldez | Musicistas: Marlene Souza Lima (violão e guitarra), Alana Alberg (baixo), Geórgia Camara (bateria) e Luísa Toller (teclado) | Iluminador: Aurélio de Simoni | Figurinista: Carol Lobato | Cenógrafa: Maria Carmem de Souza | Visagista: Luma Le Roy | Design e operação de som: Branco Ferreira | Operador de luz: Rodrigo Pivetti | Camareira: Regina Sacramento | Contrarregra: Thomas Marcondes | Microfonista: Jeff Almeida | Filmagem e edição vídeos léa secret: Wallace Lino e Edgar Ramos | Fotografias: Claudia Ferrari, Diego Bresani, Patrícia Lino e Sérgio Martins | Direção de produção: Ana Paula Martins | Concepção e coordenação de produção: Criaturas Alaranjadas Núcleo de Criação Continuada
com interpretação em Libras | duração aproximada: 110 minutos | Sala Multiúso (piso 2) | classificação indicativa: 16 anos
Mesas de debate (com performances)

Seguindo o tema da Mostra deste ano, vida soropositiva, as sete primeiras mesas tratam do HIV e da aids sob diferentes recortes e perspectivas. Em três delas haverá a apresentação de uma performance: Cura, em Sorofobia, Onde se Esconde o Preconceito; Sangue, em Negritude & Hiv/Aids: o Corpo Negro, a Militância e a Epidemia; e Poema Maldito, em Visibilidade ou Não: Modos de Ocupar o Mundo.


10/05/2018 Quinta-feira – 20h: Performance Cura + Sorofobia, Onde se Esconde o Preconceito com Micaela Cyrino [performance Cura], Carué Contreiras e Gabriela Calazans [mesa] | mediação Salvador Corrêa

Além de ser um problema de saúde pública, a epidemia de HIV e aids é um desafio social. De forma silenciosa, reproduzem-se o preconceito e a discriminação contra a pessoa vivendo com HIV: a sorofobia ou a aidsfobia. Quais são as ferramentas possíveis para entender o processo pelo qual 830 mil brasileiros são mantidos no anonimato? Como tratar uma violência que, ao isolar e afastar do teste e do tratamento, mata? Antes do debate, o público poderá assistir à performance Cura, com Micaela Cyrino, artista visual que nasceu com o HIV e, ainda na adolescência, tornou-se ativista na luta para defender os direitos das pessoas que vivem com esse vírus. Na performance ela propõe expor corpos negros femininos e a epidemia de aids.

Carué Contreiras vive com HIV/aids. É ativista, médico pediatra e sanitarista. Gabriela Calazans é psicóloga, especialista em saúde coletiva, mestre em psicologia social pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP) e doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP).Salvador Corrêa é psicólogo, mestre em saúde pública pela Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca, da Fundação Oswaldo Cruz (Ensp/Fiocruz), e coordenador na Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids (Abia).

com interpretação em Libras | duração aproximada: 140 minutos | Sala Itaú Cultural (piso térreo) – 224 lugares | classificação indicativa: 16 anos

12/05/2018 Sábado – 16h: O Diário Virtual: Youtubers e o HIV/Aids com Daniel Fernandes, Gabriel Comicholi e Vinicius Borges (Doutor Maravilha) | mediação Roseli Tardelli

Desde o início dessa epidemia, o relato de quem vive com HIV/aids tem sido registrado em livros como busca de compartilhar a experiência em primeira pessoa. Recentemente, os depoimentos vêm se popularizando nas redes sociais, em especial no YouTube. Como os jovens que utilizam essas ferramentas podem colaborar nesse diálogo ao falar abertamente sobre sexo e mostrar a realidade de quem vive com o vírus?

Daniel Fernandes tem 33 anos, é portador de HIV, fotógrafo e youtuber no canal Prosa Positiva.Gabriel Comicholi t em 21 anos, é ator e inaugurou um canal no YouTube (HDiário) quando se descobriu soropositivo. Roseli Tardelli é jornalista com mestrado pela Universidade de Navarra (Espanha). Foi a primeira mulher a apresentar o programa Roda Vida, na TV Cultura. Em 1994, depois da morte de seu irmão, Sérgio Tardelli, em consequência da aids, passou a se dedicar a ações de comunicação e cultura ligadas ao tema HIV/aids. Criou a Agência de Notícias da Aids há 12 anos e a Agência Sida, em Moçambique (África), em 2009. Lançou, em 2015, o projeto Lá em Casa, local de reabilitação e convivência para pessoas vivendo com HIV/aids. Vinicius Borges (Doutor Maravilha) é médico infectologista, criador do canal Doutor Maravilha: Saúde para População LGBTQI e ativista dos direitos humanos.

com interpretação em Libras | duração aproximada: 120 minutos | Sala Vermelha (piso 3) – 70 pessoas | classificação indicativa: 14 anos

13/05/2018 Domingo – 16h: Desconstruindo o HIV com curadoria do projeto [SSEX BBOX] e participação de Diego Callisto, Mayo Julieta Villarreal Villalobos e Rafaelx Amaral

A mesa vai questionar “verdades científicas” e discutir com o público várias questões que envolvem a epidemia de HIV: quem é a população-chave? É possível desconstruir a necessidade de atribuir o risco a segmentos a partir de um recorte de gênero, raça e classe? Existe lobby na indústria farmacêutica?

[SSEX BBOX] é um projeto que procura dar visibilidade às questões de gênero e sexualidade em São Paulo, São Francisco (Estados Unidos), Berlim (Alemanha) e Barcelona (Espanha). Através de sensibilizações e debates, o objetivo é reduzir o isolamento, facilitar a educação, estimular a criação de comunidades e questionar antigos conhecimentos sobre sexualidade e gênero. Diego Callisto é soropositivo e fez especialização em epidemiologia e bioestatística em Berkeley (Estados Unidos). Atualmente trabalha com pesquisas relacionadas às vulnerabilidades de segmentos populacionais no contexto da epidemia de HIV e de outras infecções sexualmente transmissíveis (ISTs). Mayo Julieta Villarreal Villalobos é psicanalista, médica psicossomaticista e pesquisadora. Formada no Instituto Superior de Ciências Médicas de Santiago de Cuba, é especialista em medicina familiar e comunitária no Hospital Geral de La Palma, nas Ilhas Canárias (Espanha), e especialista em gestão de conflitos e psicossociopatologia. Rafaelx Amaral é ativista e graduando de ciências sociais na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), onde desenvolve pesquisa em antropologia da saúde sobre HIV/aids.

com interpretação em Libras | duração aproximada: 120 minutos | Sala Vermelha (piso 3) – 70 pessoas | livre para todos os públicos

16/05/2018 Quarta-feira – 16h: Literatura Pós-Coquetel: Novas Narrativas do HIV/Aids com Alexandre Nunes de Sousa, Amara Moira e Ramon Mello | mediação Nathan Fernandes

Partindo do conceito de “literatura pós-coquetel”, pesquisadores, poetas, escritores e jornalistas refletem sobre a relação do vírus HIV com a linguagem na construção de novas narrativas em torno dessa epidemia. Com os avanços das medicações antirretrovirais e a melhoria da qualidade de vida de quem vive com o vírus, já existe uma literatura de HIV/aids diferente do tempo em que viver com HIV era sinônimo de sentença de morte?

Alexandre Nunes de Sousa é professor de comunicação e cultura na Universidade Federal do Cariri (UFCA), no Ceará. Doutorando em cultura e sociedade pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), integra os grupos de pesquisa CuS – Cultura e Sexualidade, da UFBA, e Cult.com – Políticas de Comunicação e de Cultura, da Universidade Estadual do Ceará (Uece). Atualmente estuda as relações entre arte, ativismo, luto e espaço público. Amara Moira é travesti, feminista e doutora em teoria e crítica literária pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), além de autora do livro autobiográfico E Se Eu Fosse Puta (hoo editora, 2016). Nathan Fernandes é jornalista, editor da revista Galileu. Autor da reportagem “O vírus do preconceito” – reconhecida como referência pelo Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids (Unaids) –, recebeu em 2016 o Prêmio Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos. Ramon Mello, natural de Araruama (RJ), é poeta, escritor, jornalista e ativista dos direitos humanos. Mestre em literatura brasileira pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), é autor dos livros de poemas Vinis Mofados (Língua Geral, 2009) Poemas Tirados de Notícias de Jornal (Móbile Editorial, 2011) e Há um Mar no Fundo de Cada Sonho (Verso Brasil, 2016).

duração aproximada: 120 minutos | Sala Vermelha (piso 3) – 70 pessoas | classificação indicativa: 14 anos

17/05/2018 Quinta-feira – 20h: Performance Sangue + Negritude & Hiv/Aids: o Corpo Negro, a Militância e a Epidemia com Flip Couto [performance Sangue e mesa], Aline Ferreira, Carlos Henrique de Oliveira, e Micaela Cyrino [mesa] | mediação Ozzy Cerqueira

No Brasil, hoje, uma pessoa negra e infectada pelo HIV tem 2,4 vezes mais probabilidade de morrer de aids do que uma pessoa branca. Os dados alarmantes nos levam a pensar que o “racismo institucional” e a falta de acesso aos serviços públicos de saúde necessitam ser combatidos. O mito da democracia racial colabora para encobrir a discussão do HIV/aids e a negritude? Antes da mesa, acontece a performance de dança Sangue, dirigida e encenada por Flip Couto. Com participação do público, o espetáculo discute a construção de um corpo negro, homoafetivo e soropositivo, tendo como ponto de partida os bailes black dos anos 1970, festas de bairros, reuniões familiares e vários outros encontros presentes no cotidiano das cidades.

Aline Ferreira é estudante de psicologia, integra o grupo de pesquisa Viver+, da faculdade de educação física da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), compõe o coletivo Loka de Efavirenz e é secretária de articulação política da Rede Nacional de Adolescentes e Jovens Vivendo com HIV/Aids (RNAJVHA). Carlos Henrique de Oliveira é escritor, ativista do movimento negro e integrante do coletivo Loka de Efavirenz. Flip Couto é dançarino, performer e produtor. Integrante da Cia. Discípulos do Ritmo, da Cia. Sansacroma e do Coletivo Amem, está ligado à cultura hip-hop desde 1999. Micaela Cyrino estudou artes visuais na Faculdade Santa Marcelina, em São Paulo. Em 2015, foi selecionada para a residência artística no Centro de Arte Contemporânea de Quito (Equador), onde concebeu a performance Cura. Ozzy Cerqueira é advogado da Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids (Abia), ativista dos direitos humanos e estudante de doutorado de saúde global na Universidade de São Paulo (USP).

com interpretação em Libras | duração aproximada: 150 minutos | Sala Multiúso (piso 2) – 100 pessoas | classificação indicativa: 18 anos

18/05/2018 Sexta-feira – 16h: Novos Rumos do Tratamento do Hiv/Aids e as políticas públicas para PVHA com Bruna Benevides, Marcia Rachid e Ricardo Vasconcelos | mediação Diogo Sponchiato

Pensando a militância como espaço de reivindicação de políticas públicas para pessoas que vivem com HIV/aids, é fundamental o diálogo médico com o ativismo, possibilitando a convergência de discussões fundamentais que se alteram desde o início dessa epidemia. O debate vai abordar questões como o surgimento de novos tratamentos, as políticas públicas de saúde propostas pela comunidade científica e como o atendimento ao portador do vírus HIV pode ser cada vez mais democrático, humanizado e acolhedor.

Bruna Benevides é presidenta do Conselho LGBT de Niterói e secretária de articulação política da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra) e da Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Intersexos (ABGLT). Diogo Sponchiato é jornalista, redator-chefe da marca Saúde, na Editora Abril, que engloba revista, site, livros e pesquisas. Foi um dos contemplados no Prêmio Especialistas da Comunicação na categoria Saúde em 2017. Marcia Rachid é mestre em doenças infecciosas e parasitárias pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), especialista em alergia e imunologia clínica pelo Instituto de Pós-Graduação Médica Carlos Chagas (Rio de Janeiro) e membro do Comitê Técnico Assessor para Manejo da Infecção pelo HIV em Adultos, do Departamento de DST/Aids/Hepatites Virais do Ministério da Saúde. Ricardo Vasconcelos é médico infectologista formado pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) e trabalha desde 2007 atendendo pessoas que vivem com o HIV. É coordenador do SEAP HIV (São Paulo), ambulatório do Hospital das Clínicas especializado nesse vírus.

com interpretação em Libras | duração aproximada: 120 minutos | Sala Multiúso (piso 2) – 100 pessoas | classificação indicativa: 14 anos

19/05/2018 Sábado – 16h: Visibilidade ou Não: Modos de Ocupar o Mundo + Performance Musical Poema Maldito com Mirella Façanha, Neon Cunha, Rafael Bolacha [mesa] e Luís Capucho [pocket show] | mediação Marcio Caparica

De acordo com a legislação brasileira, quem está soropositivo tem direito a sigilo, e ninguém pode expor a situação sorológica de uma pessoa. Entendendo tanto o desejo dessa visibilidade quanto o modo pessoal e intransferível de se colocar no mundo, quais são os desdobramentos, as implicações e os embates sociais dessas escolhas? Após o debate, será apresentada o pocket show Poema Maldito, com Luís Capucho. Acompanhado por Vitor Wutzki (baixo) e Felipe Mourad (bateria), ele apresenta composições que falam de forma líricae pessoal de masculinidade, homossexualidade e HIV.

Marcio Caparica é o editor-chefe do blog e podcast Lado Bi, que desde 2013 se dedica a esclarecer questões de cultura e cidadania LGBT. Mirella Façanha é atriz afro-indígena, graduada pela Universidade de Brasília (UnB) e pela Escola de Arte Dramática da Universidade de São Paulo (EAD/USP). No seu trabalho de pesquisa explora a presença política do seu corpo em cena pelo ponto de vista racial. Neon Cunha é ativista independente, mulher negra, ameríndia, feminista interseccional e transgênera. Publicitária e colaboradora no desenvolvimento de coleções na marca Isaac Silva. Tem atuado junto à Marcha das Mulheres Negras de São Paulo, palestras, rodas de conversas e debates. Rafael Bolacha é ator, bailarino e produtor. Autor do livro Uma Vida Positiva e gestor do projeto de mesmo nome, em que aborda a temática HIV/aids em variados segmentos culturais, é também produtor e apresentador do Chá dos 5, canal no YouTube sobre o universo LGBT, com cerca de 40 mil seguidores.

com interpretação em Libras | duração aproximada: 170 minutos | Sala Vermelha (piso 3) – 70 pessoas | classificação indicativa: 14 anos

20/05/2018 Domingo – 15h: Encontro com o Espectador – Edição Todos os Gêneros com L, o Musical e Teatrojornal

Edição extraordinária da série Encontro com o Espectador, apresentada pelos editores do site Teatrojornal. As artistas de L, o Musical conversam com os jornalistas, num bate-papo aberto ao público.

com interpretação em Libras | duração aproximada: 120 minutos | Sala Vermelha (piso 3) – 70 pessoas | classificação indicativa: 14 anos
Mostra de Curtas
Dia 14 às 19h

Bailão (Marcelo Caetano, 2009, 16 min)
O documentário se passa no centro de São Paulo onde a urgência da vida é retratada através das histórias das pessoas que frequentam clubes noturnos e outros locais voltados para o público gay masculino.

O Pacote (Rafael Aidar, 2013, 18min30s)
Em uma nova escola, os jovens Leandro e Jefferson percebem uma ligação instantânea, mas não se trata de uma amizade comum. Jeff tem algo a dizer. Se eles querem ficar juntos, Leandro deverá lidar com algo irreversível. Algo que faz parte do pacote.

Na Esquina da Minha Rua Favorita com a Tua (Alice Name-Bomtempo, 2017, 17min57s)
O filme conta a história de Helena e Tainá, que se conheceram em uma ida casual ao cinema.

Dandara (Flávia Ayer e Fred Bottrel, 2017, 14 min)
O assassinato brutal da travesti Dandara Kataryne poderia se limitar a uma estatística no país que mais mata travestis e transexuais, mas o caso ganhou repercussão com a viralização de vídeos gravados pelos próprios agressores.

O Chá do General (Bob Yang, 2016, 22 min)
Um general aposentado chinês recebe a inesperada visita de seu neto, e a história se desenrola a partir desse reencontro.


Dia 15 às 19h

Jessy (Paula Lice, Rodrigo Luna e Ronei Jorge, 2013, 15 min)
Jéssica Cristopherry: assim se chamavam todas as personagens da infância de Paula Lice. Atriz, dramaturga e mulher, Paula conta com o apoio de suas madrinhas para resgatar Jéssica e realizar o desejo de ser transformista.

Diva (Clara Bastos, 2016, 18 min)
Camila se aproxima das drag queens que habitam a pensão de Bella.

Afronte (Bruno Victor e Marcus Azevedo, 2017, 15min40s)
Ficção e documentário se misturam para contar a história de Victor Hugo, jovem negro, gay e morador da periferia do Distrito Federal. Seu relato se mistura aos depoimentos de outros jovens, revelando diferentes formas de resistência.

Parente (Aldemar Matias, 2011, 20 min)
Rodado entre 2010 e 2011 nas aldeias indígenas Ticuna, em Belém do Solimões (Tabatinga/ AM), e Ianomâmi, em Pixanahabi (Alto Alegre/RR), o filme mostra o primeiro contato de populações indígenas com testes rápidos de HIV e sífilis.

Entre os Ombros (Carolina Castilho, 2016, 19min07s)
Dani, adolescente intersexual, é pressionada por sua mãe para realizar um tratamento de redesignação sexual.

COM LEGENDAS DESCRITIVAS | duração aproximada: 90 minutos | Sala Itaú Cultural (piso térreo) – 224 pessoas | classificação indicativa: 14 anos

A entrada é gratuita. A distribuição de ingressos para o público preferencial é feita duas horas antes do espetáculo, com direito a um acompanhante (os ingressos são liberados apenas na presença do preferencial e do acompanhante). Para o público não preferencial, a distribuição é feita uma hora antes do espetáculo e apenas um ingresso por pessoa.

Cientistas do Centro de Pesquisa do Câncer no Fred Hutchinson conseguiram reduzir o tamanho do reservatório de HIV, depois de transplantar células-tronco sanguíneas editadas geneticamente para resistir à infecção pelo HIV. O estudo foi publicado na revista PLOS Pathogens. Presume-se que reduzir ou eliminar os reservatórios persistentes seja um passo fundamental para curar o HIV — ou, pelo menos, para usar um termo emprestado do câncer, conduzir o vírus à remissão, para que os medicamentos antirretrovirais diários não sejam mais necessários.

Dr. Chris Peterson

“O número de células infectadas de forma latente, que chamamos de reservatório viral, foi reduzido”, disseram o Dr. Chris Peterson, principal cientista autor do estudo e parte da equipe do laboratório de transplante de células-tronco e, também, Dr. Hans-Peter Kiem, especialista em terapia genética e autor sênior do estudo. “Pegamos amostras de diferentes tecidos e medimos o RNA e o DNA virais. Ambos se mostraram significativamente menores em animais transplantados em relação aos controles”.

4% do total de glóbulos brancos do sangue foram editados, o que ainda não foi o suficiente para induzir a remissão, segundo Peterson. O próximo passo será ajustar as técnicas de edição de modo que mais células sejam editadas e, depois, se multipliquem, aumentando a porcentagem e indo mais fundo no reservatório.

Acredita-se que encolher o reservatório seja fundamental, porque o HIV se integra ao DNA de algumas das células mais duradouras do corpo, aquelas que vivem mais tempo, onde este entra em estado de dormência, podendo acordar a qualquer momento de interrupção do tratamento antirretroviral e, assim, produzir novos vírus. Inicialmente, os cientistas pensavam que os coquetéis de medicamentos antirretrovirais, que em 1996 transformaram o HIV, antes uma sentença de morte, em uma doença crônica, curariam o HIV se fossem tomados por tempo suficiente. Infelizmente, não foi isso o que aconteceu. Sozinhos, os antirretrovirais não são capazes de limpar os reservatórios virais. Ao interromper a medicação diária, o HIV pode voltar em menos de duas semanas.

Outras equipes de pesquisa vêm publicando resultados que mostram algumas reduções de reservatórios em estudos com animais: o Dr. Louis Picker e seus colegas do Instituto de Vacinas e Terapia Genética da Oregon Health & Science University, usando uma vacina; Dr. Dan Barouch e sua equipe no Centro de Virologia e Pesquisa de Vacinas no Beth Israel Deaconess Medical Center-Harvard Medical School, usando uma droga que “chuta” as células dormentes para fora do reservatório com um poderoso anticorpo; e o Dr. Mirko Paiardini e seus colegas da Emory University, que reduziram a inflamação como um meio de permitir que o sistema imunológico combata melhor o vírus.

Peterson usou uma técnica de edição genética apelidada de “dedo de zinco” ou “nuclease do dedo de zinco” para interromper um receptor usado como um portal pela maioria das cepas de HIV (neste caso, assim como em outros estudos com animais, um híbrido de HIV e sua versão símia: o SHIV). As células-tronco modificadas foram então devolvidas para repovoar o sistema imunológico, no que é conhecido como um transplante autólogo, usando as células-tronco do próprio paciente em vez de um doador.

No passado, Peterson havia mostrado que as células editadas por transplante autólogo eram seguras e se multiplicariam em animais saudáveis ​​e não infectados, uma descoberta pela qual ele foi agraciado pela International AIDS Society e pela Agência Nacional Francesa para Pesquisa em Aids com o Prêmio Jovem Pesquisador, em 2015.

O trabalho de Peterson faz parte do projeto defeatHIV sediado no Fred Hutchinson, um consórcio liderado por Kiem e pelo virologista Keith Jerome, financiado, em 2011 e 2016, pelos Institutos Nacionais de Saúde americano. Na primeira rodada de financiamento, o  defeatHIV se concentrou no transplante autólogo usando células-tronco geneticamente modificadas como uma maneira mais segura e escalável de curar o HIV, com base no único caso conhecido de cura pelo HIV até hoje: Timothy Ray Brown — com quem eu conversei durante um congresso em Lisboa.

Timothy Ray Brown
Timothy Ray Brown

Timothy Ray Brown foi por muito tempo conhecido apenas como o “Paciente de Berlim”, o único homem no mundo até hoje considerado curado do vírus da aids.

Timothy foi diagnosticado positivo para o HIV em 1995, um ano antes do surgimento do coquetel antirretroviral, quando ainda vivia em Berlim, na Alemanha. Em 2006, foi diagnosticado com outra doença, em nada relacionada com o HIV: leucemia mielóide aguda, enquanto ainda morava em Berlim. Seu médico hematologista, Dr. Gero Hütter, colocou-o em quimioterapia logo no dia seguinte. Timothy desenvolveu pneumonia e teve de interromper a quimio em decorrência de sepse, uma reação inflamatória do organismo que pode levar à morte. Foram colocados tubos em seu coração.

Apesar de tudo isso, Timothy sobreviveu, e o câncer parecia estar em remissão — pelo menos, até 2007, quando ele foi novamente diagnosticado com leucemia. As novas tentativas de quimioterapia não foram bem sucedidas e um transplante de medula óssea se mostrou a última e viável opção. O Dr. Gero Hütter teve então uma ideia inovadora: procurar, dentre os doadores compatíveis, algum que fosse portador de uma mutação genética chamada CCR5delta32, comum em apenas 1% da população europeia. A principal característica daqueles que são homozigotos — isto é, quando os alelos que se aglomeram e codificam uma determinada característica genética são iguais — é que suas células CD4 do sistema imune, as mais afetadas pelo HIV, não possuem o conector CCR5, a principal porta de entrada usada pela grande maioria das cepas do vírus da aids para estabelecer a infecção. Sem esse conector, o vírus não consegue entrar nas células, e as pessoas com essa mutação acabam por ser naturalmente imunes ao HIV. A ideia do Dr. Gero era a de que o transplante de medula óssea com um doador que possuísse essa característica não só curasse a leucemia de Timothy, mas também o tornasse imune ao HIV. Por sorte, esse doador foi encontrado. E, três meses depois do procedimento, já não havia mais qualquer sinal do vírus no organismo do Paciente de Berlim.

Receptor CCR5

Porém, o mesmo não poderia ser dito sobre sua leucemia, que retornou em 2008 — depois de meses de extensos testes para que pudessem confirmar a veracidade de sua cura para o HIV. Nestes testes, examinaram seu cérebro, linfonodos, intestino, coluna vertebral e “qualquer lugar que pudessem pensar em enfiar uma agulha para retirar sangue ou tecido”, contou Brown, mais tarde naquele mesmo dia. No meio de tantos exames, os médicos acidentalmente deixam uma bolha de ar em seu cérebro, deixando-o completamente paralisado e delirando. Timothy perdeu a visão, teve que reaprender a andar e a falar. Por um ano, entrou e saiu do hospital diversas vezes.

Quando as complicações foram controladas, o mesmo doador de células-tronco voou novamente até Berlim, e o transplante de medula óssea foi repetido. “Graças a Deus, eu tive um doador muito generoso”, contou Brown, que foi curado da leucemia e, até hoje, nove anos depois do procedimento, continua sem qualquer sinal do HIV em seu organismo. Timothy viria a aprender só depois, em uma conferência sobre terapia genética em St. Louis, na Washington University, que sua chance de sobrevivência beirou os 5%.

Os pesquisadores têm certeza de que as células resistentes ao HIV do doador desempenharam um papel na cura de Timothy. Em pelo menos outros dois casos, pessoas com câncer e HIV que se submeteram a transplantes sem doadores resistentes ao HIV recaíram depois de ficar sem HIV por meses. Entretanto, eles têm menos certeza sobre o papel desempenhado pelo resto do processo de transplante. Por fim, restam dúvidas sobre o “condicionamento” intensivo pré-transplante de Timothy, um regime de quimioterapia e radiação que destrói o sistema imunológico para dar espaço às células transplantadas, e a doença do enxerto contra o hospedeiro que ele desenvolveu após o segundo transplante.

“Mesmo para um paciente com câncer, ele passou por um tratamento extraordinariamente intensivo, com dois transplantes e a quimioterapia”, disse Peterson. “Ele passou por muita coisa.” O objetivo do defeatHIV é não colocar ninguém que seja saudável através de um tratamento tão duro, algo que o próprio Timothy reconhece como impossível.

Embora seja necessário algum condicionamento para criar espaço para o crescimento de novas células-tronco, Peterson está usando para isso uma maneira muito menos agressiva. Além disso, o transplante autólogo evita a doença potencialmente letal do enxerto contra o hospedeiro, que pode surgir quando um sistema imunológico do doador vê e ataca seu novo hospedeiro como sendo estrangeiro.

Por outro lado, diminuir esse risco letal pode representar diminuição nas chances de sucesso na cura do HIV. Afinal, sabe-se que se sabe que, no caso da leucemia, durante a doença do enxerto contra o hospedeiro as células do sistema imunológico do doador atacam e matam células de leucemia não atacadas pela quimioterapia ou pela radiação. Por essa razão, Peterson e outros pesquisadores acreditam que um segundo passo, para além de tornar as células-tronco resistentes ao HIV, pode ser necessário.

Próximos passos

Em um estudo publicado em dezembro, também no PLOS Pathogens, Peterson e colaboradores da Universidade da Califórnia em Los Angeles modificaram células-tronco adicionando um receptor de antígeno quimérico, ou CAR, programado para matar células infectadas pelo HIV, num processo semelhante a um tipo de terapia genética que está sendo testada contra o câncer.

A maioria das terapias contra o câncer ainda experimentais reprograma geneticamente as células T de um paciente. Os pesquisadores da cura do HIV no Fred Hutchinson estão trabalhando para reprogramar as células-tronco que dão origem às células T.

Por que células-tronco? “Uma breve longa história: elas vão persistir durante a vida do indivíduo”, explicou Peterson. No estudo publicado em dezembro, os pesquisadores notaram que as células-tronco pareciam produzir células T anti-HIV sempre que necessário. “O interessante é que podemos ver que as células CAR vêm e vão enquanto o vírus vem e vai”, disse ele. “Quando colocamos os animais em terapia antirretroviral, as células CAR diminuem. Quando os tiramos, elas voltam. Elas agem como sentinelas, indo dormir e acordando de volta sempre que necessário.”

Idealmente, o tratamento combinaria as modificações do gene CCR5 e células CAR. “Acreditamos que, ao permitir que uma célula editada sem CCR5 e resistente a infecções  procure células infectadas usando uma molécula CAR, podemos melhorar ainda mais a capacidade de reduzir ou eliminar reservatórios”, disse Peterson. “Seria uma abordagem mais ativa do que passiva”.

Peterson e seus colegas, juntamente com colaboradores da Universidade da Califórnia em Los Angeles, continuam a aperfeiçoar técnicas para aumentar a proporção de células editadas por genes, bem como planejam um estudo combinando sobre mutação protetora de CCR5 com células CAR.

Enquanto isso, o City of Hope Medical Center na Califórnia e a Sangamo Therapeutics, abriram um pequeno estudo clínico em humanos, testando um transplante autólogo de CCR5, que é semelhante aos estudos em animais de Peterson, mas usando um regime de condicionamento diferente. “Estamos entusiasmados para ver onde isso vai dar”, disse Peterson.

É curioso o quanto a gestação, o parto e o próprio nascimento estão tão ligados à Medicina como sua grande orientadora e salvadora. Como pai, agora, e como alguém que vive com HIV, nunca estive tanto em contato com médicos quanto nos últimos nove meses, ao lado de minha grávida mulher, com visitas, ao longo da gravidez, cada vez mais frequentes aos especialistas, ginecologistas, obstetras, neonatologistas e tantos outros. Todos eles, num crescente de uma orquestra, culminando juntos no ato sublime do parto, o nascimento de meu filho, regido por estes tantos profissionais, excelentes em suas especialidades e, ali, concentrados cada qual em seu instrumento, girando dançantes ao redor do palco principal: a vagina, deitada sobre a maca central, bem iluminada pelos focos de luzes do estéril centro cirúrgico.

Foi ali, naquele centro iluminado, sob os gritos rítmicos de força da protagonista do espetáculo, que emergiu a pequenina cabeça cheia de cabelos de meu filho, meu bebê. Mais um grito da mãe, estridente como em uma ópera, para que o mais jovem integrante daquele coro adentrasse, sem choro, mas arrancando lágrimas de boa parte da emocionada plateia. Com o cordão umbilical ainda pulsando ritmadamente, meu filho repousou no colo de sua mãe, em seu primeiro contato com o mundo, e mamou, ainda com rastros do sangue materno por cima de sua pele. De olhos tão abertos, ele nos olhou, profundamente, piscando suavemente e com satisfação a cada deglutição da mamada.

No ato final, veio a placenta, trazendo consigo um resto considerável de sangue e, também, os cumprimentos dos médicos, entre si e comigo, enquanto até fotografavam todos os ali presentes, incluindo os atores principais, entretidos profundamente em seu primeiro enlace mundano. Fez-se um silêncio, e, com um esticar dos braços e seu dedinhos, meu filho repousou a pequena palma de sua mão sobre meu dedo indicador, apartando-o, com toda sua força, envolvendo quase todo meu dedo, em sua mais profunda confiança, num reflexo comum da nossa espécie, chamado de “preensão palmar”. Senti amor e senti o seu amor, enquanto uma das enfermeiras sacava mais uma foto daquele momento tão precioso.

No fim, é como se uma das primeiras demonstrações de amor que podemos experimentar decorresse totalmente de um reflexo ancestral, físico e, no fundo, genético. É como se fôssemos programados para sentir tal amor diante de tamanha confiança e dependência, por um lado, e, por outro, como se a importância do mundo em que estamos, vivemos e experimentamos não pudesse ser colocada em segunda instância. Vivemos aqui, no mundo físico, que é tão importante para nossa existência.

Com aquele agarrar dos dedos de meu filho, tão pequenos envolvendo meu dedo indicador, percebi que o amor é algo deste mundo. O genético é divino e o divino é genético. É coisa real que faz parte desse mundo. Um amor e, também, parte de um instinto de sobrevivência.

A porta se fechou com a despedida da médica, antes de todos nos deixarem a sós, meu filho, minha esposa e eu, no quarto do hospital. O recém nascido dormia no pequeno berço ao lado de sua mãe, desfalecida de cansaço pelo épico trabalho de parto — um processo tão natural e intrínseco da sobrevivência da nossa espécie, inteiramente realizado dentro de um hospital, com uma recepção que se começa quase como um atendimento de emergência.

Lembrei da última vez que visitara um pronto-socorro. Era janeiro de 2011 e eu acabara de começar o tratamento antirretroviral, com Kaletra a Biovir, seguindo a recomendação do meu então médico infectologista, Dr. O. Adentrei o pronto-socorro com as mãos sobre a boca. Os vômitos incessantes, decorrentes do efeito colateral que sofria, para além da incurável diarreia, me deixavam ainda mais fraco e, também, preocupado com a possível perda da próxima dose dos medicamentos, quem sabe, desengolidos na próxima vomição. O infectologista enfatizara, talvez até demais, da importância da adesão e de não perder uma única dose da terapia, sob o risco de comprometer seriamente todo o tratamento. Ele enfatizara também sobre os efeitos colaterais, que naquela altura eu experimentava os piores e, inclusive, em decorrência destes mesmos efeitos, da possibilidade de ter de ir ao hospital, onde finalmente eu estava. O médico ainda disse que, nesse caso, eu deveria lhe telefonar — mas ele nunca atendeu.

Foi na sala de espera daquele hospital, em 2011, já depois de passar pela triagem, que sentou-se ao meu lado uma jovem mulher, bem jovem, de traços orientais, com os mesmos sintomas que eu experimentava: vômitos incessantes. Sua tia e irmã a acompanhavam, quando a conversa entre elas começou.

“— E agora, tia?”, disse a jovem. “O que eu faço?! Minha mãe vai me matar!”

“— Não é hora de pensar nisso”, disse a tia, “mas no filho ou filha que você vai ter.”

A jovem acabava de descobrir que estava grávida e, emotiva, lamentava seu descuido com a camisinha. Em silêncio ao seu lado, ressentindo o desconforto abdominal causado pelo Kaletra e Biovir, me identifiquei com essa parte da sua lamúria. E me ocorreu ali, por acaso, que, caso a jovem não optasse pelo aborto — uma opção que me parece tão justa quanto a PEP, a profilaxia exposição — seu diagnóstico, de gravidez, trazia outra coisa parecida com o meu, de soropositivo: ambos são, para sempre, eternos. Não são?

O que ainda eu não sabia ainda é que, tivesse optado por prosseguir com sua gravidez, essa mesma jovem visitaria considerável quantidade de médicos em grande frequência, terminando esse processo, assim como eu experimentei agora, na orquestra médica  na sala de parto do centro cirúrgico. Por que a Medicina está tão presente em nossas vidas?

Foi no caminho de volta para casa que desdenhei do diagnóstico da jovem oriental. “Mal sabe ela do meu diagnóstico!”, pensei comigo, considerando que a sua gravidez, embora possivelmente grave para alguém tão jovem quanto ela, em nada se compararia ao meu então recente diagnóstico, de soropositivo para o HIV. Nada poderia ser mais sério do que o que eu experimentava. O pesar no coração da jovem só poderia ser exagero, de alguém tão inexperiente diante das gravidades da vida, mesmo grávida, num paralelo que parecia não poder concorrer com o vírus, muito embora possam haver semelhanças.

A primeira semelhança entre o HIV e a gravidez, me parece, está na concepção. Foi William Harvey, um médico britânico que ficou famoso por ser o primeiro a descrever a circulação sanguínea e a presumir a existência dos vasos sanguíneos capilares, que usou essa palavra, pela primeira vez, para se referir à reprodução humana. Sem compreender bem o nosso sistema reprodutor, como era comum à sua época, Harvey concluiu que o bebê era concebido pelo útero materno, da mesma forma que o cérebro concebe uma ideia ou um conceito. (Pelo menos, é isso o que dizia o livro que repousou algumas semanas ao lado da cabeceira de minha cama.) O fato é que a concepção da infecção pelo HIV requer uma das mesmas premissas da concepção de um bebê: o sexo sem camisinha.

A voluptuosidade do sêmen, em contato com a umidade da parede vaginal, também deve ter sua parcela. Parece razoável concluir que, quanto mais sêmen, maior a chance de gravidez e, também, maior a chance de infecção pelo HIV, muito embora os médicos e sanitaristas enfatizem, provavelmente corretamente, que o fluído pré-ejaculatório é suficiente para os dois, ou para qualquer um deles: é possível engravidar e/ou se infectar com apenas um pouco de sêmen.

Não obstante, há campanhas para prevenção do HIV, mas não há para prevenção da gravidez — pelo menos, não no Brasil, diferentemente de outros países. Se as maternidades continuam cheias, o que vi com meus próprios olhos, não temos uma clara falha nas campanhas de prevenção ao HIV pelo uso da camisinha? Bebês continuam a vir ao mundo, sem que a antiga vergonha pela concepção recaia tanto sobre seus pais, concentrando-se, agora, possivelmente, naqueles que concebem a infecção pelo HIV. Se não há mais pecado no sexo para ter filhos, haveria no sexo sem camisinha com quem vive com HIV, mesmo sob tratamento antirretroviral e com carga viral indetectável, intransmissível?

As grávidas da era vitoriana, e até mais recentemente no Brasil, que ocultavam a gestação debaixo de vestidos recheados de tantos panos, protegendo-se daqueles que lhes apontariam o dedo clamando vergonha pelo seu ato pecaminoso, parecem ter dado lugar aos soropositivos de hoje, ocultos sob o silêncio ou sob pseudônimos, que escondem a condição sorológica e concebem filhos tal como soronegativos — assim como eu fiz, revelando a poucas pessoas a minha sorologia.

“– Sua vida nunca mais será a mesma”, me disse o Dr. Esper, assim que lhe enviei a foto do mão de meu filho em preensão palmar.

O médico nunca havia me dito isso, sequer em relação do diagnóstico positivo, sequer em relação ao tratamento antirretroviral. Apesar dos paralelos e semelhanças, o HIV não mudou minha a vida. A paternidade sim.

“Um número crescente de pacientes com HIV vivem agora o suficiente para acabar sofrendo com cânceres ‘incidentais’, observados na população em geral” — é assim que começa o artigo que li no Cancer Therapy Advisor, nos últimos dias, depois de saber que o companheiro de um médico pediatra que visitamos com meu filho, homossexual e soropositivo, faleceu em decorrência de um câncer no fígado. Essa notícia levanta a questão: afinal, enquanto ficamos mais velhos e continuamos com HIV, corremos mais riscos em relação à outras questões de saúde? Quem é o responsável por essas intercorrências de saúde: o HIV, os antirretrovirais ou a inflamação crônica, baixa porém persistente, decorrente do HIV e não resolvida por esses medicamentos?

É verdade, e o artigo que li o confirma, não sofremos mais com os cânceres tipicamente definidores de aids, que assolavam as pessoas com HIV no começo da epidemia. São três estes principais cânceres, típicos de sistemas imunes totalmente devastados: sarcoma de Kaposi, linfoma agressivo de células B e câncer invasivo do colo do útero — estes eram vistos com grande frequência quando a aids foi observada pela primeira vez. O declínio significativo destes cânceres, chamados de “cânceres relacionados à aids” é atribuído à terapia antirretroviral combinada de três medicamentos, que foi desenvolvida em meados dos anos 90 e que segue sendo aprimorada ainda nos dias de hoje.

“É uma história complexa”, disse Robert Yarchoan, chefe da divisão de malignidade de HIV e Aids no National Cancer Institute, em Bethesda, Maryland, e coautor de uma recente revisão de cânceres associados ao HIV no The New England Journal of Medicine. “Com a queda dramática nos casos de câncer que definem a aids, vários de meus colegas pensaram que o câncer estaria desaparecendo como um problema em pacientes com HIV.” No entanto, embora o número de casos de cânceres associados à aids tenha se mantido relativamente estável nos Estados Unidos por duas décadas, ele disse que a incidência de outros tipos de cânceres está aumentando, uma vez que as pessoas que vivem com HIV agora vivem mais — mais tempo de vida e mais tempo com HIV, com antirretrovirais e com inflamação crônica.

A proporção de indivíduos infectados pelo HIV que desenvolvem complicações relacionadas ao câncer ou morrem de câncer permanece indeterminada, mas, de acordo com um estudo francês, esta é atualmente a principal causa de morte entre pessoas com HIV. Mesmo assim, por alguma razão, muitos médicos evitam oferecer terapias convencionais para tratar o câncer desses pacientes. Segundo o Dr. Yarchoan, esta disparidade na oferta de tratamento, é uma realidade que lentamente vem ganhando reconhecimento na comunidade médica.

 

Foto de 1987, por Alon Reininger, intitulada “Ken Meeks, Paciente com Aids”

 

Se no começo da epidemia de aids é verdade que muitos pacientes estivessem frágeis demais para suportar a intensidade da quimioterapia, o fato é que, hoje, com os antirretrovirais, este não é mais o caso. “Muitos pacientes com câncer e HIV podem tolerar a quimioterapia tão bem quanto indivíduos não infectados”, disse o Dr. Yarchoan.

Richard Ambinder, PhD, diretor da divisão de neoplasias hematológicas no Hospital Johns Hopkins, em Baltimore, Maryland, concorda com essa afirmação. “Não tratar pacientes infectados pelo HIV que desenvolvem câncer com quimioterapia é um problema real”, disse ele. “O HIV deve ser visto como uma doença crônica, que, tal como o diabetes, traz outras doenças que precisam ser abordadas, mas não devem impedir o tratamento do câncer”.

Em fevereiro, a National Comprehensive Cancer Network (NCCN) adotou medidas para remediar essa “disparidade no tratamento do câncer”, publicando as primeiras diretrizes de tratamento para pessoas vivendo com HIV que depois foram diagnosticadas com câncer. De acordo com os dados mais recentes, estima-se que, em 2010, 7760 pacientes com câncer e HIV foram 2 a 3 vezes menos propensos a receber cuidados apropriados para o câncer. Por isso, as diretrizes do NCCN exigem que os médicos tratem esses pacientes com as mesmas terapias contra o câncer oferecidas a indivíduos soronegativos. Eles também pedem aos médicos trabalhem com oncologistas e especialistas em HIV para gerenciar interações medicamentosas potencialmente tóxicas entre fármacos contra o câncer e os antirretrovirais antes de iniciar a terapia.

“Tratar as pessoas que vivem com o HIV para o câncer é uma preocupação relativamente nova”, escreveu Robert Carlson, diretor executivo da NCCN, em uma declaração publicada em 2011. “É tanto um testemunho do sucesso dos tratamentos para o HIV nos últimos anos e um lembrete que a busca por resultados mais saudáveis ainda ​​está em andamento.”

Entre os cânceres mais comuns que não definem aids em indivíduos infectados com HIV estão o de pulmão, fígado, anal e linfoma de Hodgkin. Destes, o câncer de pulmão ocorre não só em frequência crescente, em comparação com a população em geral, mas também está frequentemente presente numa em uma fase mais avançada da doença. Este maior risco do câncer de pulmão em pessoas com HIV não é compreendido. “Não sabemos se a infecção pelo HIV aumenta o risco de câncer de pulmão ou se altas taxas de tabagismo ou outras exposições aumentam o risco, ou ambos”, disse o Dr. Ambinder.

 

Oncovírus

 

Muitos cânceres associados ao HIV, incluindo aqueles rotulados como cânceres definidores de aids, se desenvolvem com a ajuda de oncovírus — vírus que têm a capacidade de alterar as células infectadas induzindo o desenvolvimento de algum tumor. Alguns oncovírus, mas nem todos, podem ser transmitidos sexualmente.

Segundo Ambinder, o sarcoma de Kaposi, por exemplo, requer a coinfecção com um vírus da família do herpes associado ao sarcoma de Kaposi, descoberto em 1994. Embora este vírus possa ser transmitido principalmente através da saliva, a razão dos homens que fazem sexo com outros homens constituírem o grupo mais alta prevalência desta enfermidade ainda não é compreendida. “É como fumar”, disse o Dr. Ambinder. “Muitas pessoas fumam, mas a maioria dos fumantes não tem câncer de pulmão”.

“A questão é: depois de um indivíduo com infecção pelo HIV ser tratado com medicação antirretroviral e alcançar a supressão viral ele fica totalmente saudável?”, pergunta Jeffrey Martin, epidemiologista e médico da Universidade da Califórnia, na Escola de Medicina de São Francisco. “Nós não sabemos a resposta ainda.” O que os pesquisadores sabem, disse ele, é que, ao medir biomarcadores específicos no sangue de indivíduos infectados pelo HIV e aqueles sem essa infecção, “as pessoas infectadas pelo HIV têm muito mais anormalidades químicas”, especialmente relacionadas à inflamação. Em geral, as pessoas infectadas pelo HIV também têm mais oncovírus do que a população sem HIV, principalmente os oncovírus que são sexualmente transmissíveis. “Se e como essas anormalidades químicas se traduzem em doença é o que os pesquisadores estão tentando entender.”

 

CD4

 

Mesmo as contagens de CD4, um marcador sanguíneo da força imune, considerado o mais forte preditor da progressão do HIV, podem ser um fator em alguns, mas não em todos os cânceres que não definem a aids, explica Martin. Embora, é verdade, quanto maior o dano causado pelo HIV nessas células imunológicas, mais provável é que um câncer se desenvolva, o fato é que esta diferença de risco ainda é pequena e nada parecida com a dizimação observada nos cânceres que há muitos anos definiam a aids. “Pode ser que uma baixa contagem de CD4 há seis anos seja o impulso para o desenvolvimento de um câncer de pulmão seis anos depois”, disse ele. Por outro lado, “baixos números de CD4 se podem se traduzir em sarcoma de Kaposi em meses.”

Surpreendentemente, talvez, as pessoas que vivem com HIV não viram um aumento, até agora, na incidência dos cânceres mais comuns: câncer de mama, próstata e cólon. O Dr. Martin sugeriu que a razão para isso pode estar nas diferenças biológicas entre esses e outros tipos de câncer. “O HIV não é um estimulante geral para centenas de diferentes tipos de câncer”, disse ele. O Dr. Yarchoan, no entanto, sugeriu outro motivo: “minha opinião é que o controle imunológico pode não ser tão importante no desenvolvimento inicial desses cânceres”.

O ponto principal, segundo o Dr. Yarchoan, é que soropositivos são hoje menos acompanhados em relação ao câncer do que a população em geral, provavelmente porque os médicos estão se concentrando mais no HIV e acreditam que o câncer é uma ameaça distante nesse grupo de pessoas, ao qual estamos incluídos. Agora, com o aumento da nossa expectativa de vida, isso precisar mudar.

A Nota Informativa Nº 03/2018, do Departamento de Vigilância, Prevenção e Controle das IST, do HIV/Aids e das Hepatites Virais (DIAHV), da Secretaria de Vigilância em Saúde (SVS) e do Ministério da Saúde (MS), publicada nessa terça-feira (10), apresenta as recomendações de substituição de esquemas de terapia antirretroviral contendo inibidores da transcriptase reversa não-nucleosídeos ou inibidores de protease para esquemas com Dolutegravir para tratamento de pessoas vivendo com HIV, maiores de 12 anos de idade com supressão viral.

As recomendações para a substituição levam em consideração que as pessoas que estão com carga viral indetectável e bem, não precisam e não devem fazer a substituição do seu esquema atual. Entretanto, aquelas que estejam com carga viral indetectável, mas às custas de eventos adversos e toxidades indesejáveis com o seu esquema atual, podem se beneficiar da troca.

A substituição, portanto, somente deverá ocorrer nas situações em que há vantagens relativas na diminuição de eventos adversos, na melhoria da adesão da pessoa, menor interações medicamentosas ou possibilidade de uso em determinadas comorbidades em relação ao seu esquema atual de TARV.

As recomendações e os critérios necessários para a substituição de esquemas de TARV por esquemas com Dolutegravir são as seguintes:

  1. Pessoa vivendo com HIV maior de 12 anos de idade;
  2. Avaliação individualizada e criteriosa da necessidade e dos benefícios envolvidos na substituição, uma vez que pode expor a pessoa vivendo com HIV a eventos adversos desnecessários;
  3. Pessoa vivendo com HIV em tratamento antirretroviral com supressão viral (CV indetectável) nos últimos seis meses;
  4. Pessoa vivendo com HIV em uso de esquemas com Efavirenz ou Nevirapina, sem falha virológica prévia;
    • pessoa vivendo com HIV em uso de primeiro esquema (sem uso prévio) de tratamento antirretroviral contendo Efavirenz ou Nevirapina;
  5. Pessoa vivendo com HIV em uso de esquemas com Atazanavir/Ritonavir ou Darunavir/Ritonavir ou
    • Lopinavir/Ritonavir, sem falha virológica prévia;pessoa vivendo com HIV em uso de primeiro esquema (sem uso prévio) de TARV contendo IP/r; ou
    • pessoa vivendo com HIV em uso de esquema atual com IP/r, que tenham realizado a troca do efavirenz ou nevirapina para IP/r por intolerância e/ou eventos adversos (não por falha virológica).

Fonte: Departamento de Vigilância, Prevenção e Controle das IST, do HIV/Aids e das Hepatites Virais