Autor: Jovem Soropositivo

Meus dez anos com HIV

Foi em maio de 2011 que escrevi, pela primeira vez, sobre Timothy Ray Brown, então conhecido tão somente como o “Paciente de Berlim”. Naquela altura, fazia pouco tempo de sua cura, e pouco tempo de meu diagnóstico. Me ocorreu, por muitos anos, que a cura de Timothy viesse a ser a nossa cura, também. Me ocorreu que isso ocorreria em seu tempo de vida. O mesmo pensamento ocorrera a Timothy, sei disso, pois o próprio me confessara tal coisa durante nossos breves encontros em Lisboa, em janeiro de 2016, quando o conheci. Disse ele que era coisa da “culpa do sobrevivente” que carregava: uma vontade de que todos pudessem experimentar o livramento alcançado por ele, que todos tivessem o HIV extirpado de seus corpos, na inegavelmente mais desejosa cura esterilizante, até então unicamente experimentada por Timothy Ray Brown. Mas Timothy se foi, recentemente falecido, e não estamos próximos à cura esterilizante do HIV. Timothy não a viu ser difundida, como ele tanto desejava e, por isso, generosamente entregava repetidamente seu corpo à ciência, ainda em …

Avalie isto:

Descanse em paz, Timothy

Ontem, 30 de setembro, foi-se embora Timothy Ray Brown, o “Paciente de Berlim”, o primeiro e por muito tempo único homem curado do HIV no mundo. Conheci Timothy em Lisboa, em 2016, onde nos encontramos por dois dias, para um jantar e, depois, uma cerveja. Seu marido o acompanhava e foi ele que, ontem, enviou por WhatsApp a última imagem de Timothy: magro, fraco e muito sorridente, abraçado com um boneco do personagem Yoda. A leucemia que, por fim, o levou à cura — graças à perspicácia do Dr. Gero Hütter, que transplantou sua medula com um doador naturalmente imune ao HIV — foi a mesma que levou sua vida, ao retornar no começo deste ano, de forma bastante agressiva. Nesse ínterim, Timothy cedeu sua vida e seu corpo à ciência, para que pudéssemos nós, soropositivos, nos beneficiarmos de todo o aprendizado que seu caso oferecia e, quem sabe, também alcançarmos a cura. Obrigado, Timothy. Descanse em paz.

Avalie isto:

Paralelos entre a gravidez, o parto e a vida com HIV

Não é curioso o quanto o HIV e o parto, o próprio nascimento, estão tão próximos da medicina, dos remédios e dos médicos, como os grandes salvadores? Me pergunto se é assim noutras áreas, também. À parte ao começo do meu tratamento antirretroviral, quando visitava médicos com considerável frequência e, também, do início do meu acompanhamento com o Dr. Esper Kallás e na altura da troca de medicamentos sugerida por ele, nunca visitei consultórios médicos com tanta frequência quanto nos últimos nove meses e, mais ainda, nas últimas semanas. Agora, seguia para o hospital, em uma situação de emergência, com a recomendação da médica obstetra. Lembrei da última vez que visitara um pronto-socorro. Era janeiro de 2011, e eu acabara de começar o tratamento antirretroviral, com Kaletra a Biovir, seguindo a recomendação do meu então médico infectologista, Dr. O. Eu seguia para hospital sem qualquer ânimo. Adentrei o pronto-socorro com as mãos sobre a boca. Os vômitos incessantes, decorrentes do efeito colateral que sofria, para além da incurável diarreia, me deixavam ainda mais fraco e, …

Avalie isto:

Venezuela sem antirretrovirais

A ANAIDS – Articulação Nacional de Luta contra a Aids, manifesta o seu apoio aos cidadãos e às cidadãs da Venezuela em virtude da crise humanitária que esse país vem passando e pede ao governo medidas para o acolhimento dessas pessoas. A carta foi dirigida às instituições listadas abaixo: UNAIDS – Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids; OPAS – Organização Pan-Americana da Saúde; ACNUR – Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados; GNP+ Rede Global de Pessoas Vivendo com HIV/Aids; Ministério da Saúde do Brasil – Departamento de Vigilância, Prevenção e Controle das ISTs, do HIV/AIDS e das Hepatites Virais; e Governo de Roraima.   Prezados Senhores e Senhoras, A ANAIDS, Articulação Nacional de Luta Contra a Aids, colegiado que reúne os Fóruns de ONGs/AIDS dos Estados do Brasil, Redes e Movimentos de Pessoas Vivendo com HIV/Aids, está extremamente preocupada com a situação da República da Venezuela, notadamente no que se refere ao acesso à saúde e em especial à assistência e prevenção do HIV/Aids. Além das notícias publicadas cotidianamente, chama-nos a atenção a …

Avalie isto:

Temos nosso próprio tempo

Me lembro daquela música da banda Legião Urbana, que escutei tanto durante a adolescência, com um refrão que dizia: “temos nosso próprio tempo”. Talvez, tenhamos mesmo. Tempo Perdido é uma música que fala sobre as diferentes perspectivas de tempo, e do tempo que se perdeu. Desde o meu próprio diagnóstico, que se deu em 2010, me pergunto se Renato Russo, que faleceu em 1996 em decorrência de complicações relacionadas à aids, não teria composto essa música depois de seu próprio diagnóstico, ciente que o tempo com HIV poderia ser diferente — em seu caso, foi mais curto. Mas como estaria ele hoje se ainda estivesse vivo e vivendo com HIV? Aparentemente, a maioria das más perspectivas que ainda recaem sobre a saúde de quem vive hoje com HIV, mesmo sob tratamento antirretroviral e carga viral indetectável, pesa sobre aqueles que foram diagnosticados há mais tempo, nos primeiros anos da epidemia e durante o advento dos primeiros antirretrovirais — os antigos antirretrovirais. Um estudo canadense observou pessoas com HIV com mais de 50 anos e concluiu …

Avalie isto:

Tratamento contra câncer de pulmão pode reduzir reservatório de HIV

Nivolumab, um medicamento para tratamento de câncer de pulmão, pode induzir o esgotamento do reservatório de HIV, de acordo com uma carta publicada nos Anais de Oncologia e noticiada no Infectious Disease Advisor. A Dra. Amélie Guihot, do Hôpital Pitié Salpêtrière, em Paris, e colegas descreveram o caso de um fumante de 51 anos, que vive com HIV desde 1995 e que foi diagnosticado com câncer de pulmão em estágio IIIa em maio de 2015. Menos de seis meses após o término da quimioterapia, o paciente sofreu uma recaída e foi tratado com Nivolumab, como segunda linha de tratamento contra o câncer, em dezembro de 2016. Sua carga viral sanguínea do HIV já era indetectável, sob Emtricitabina, Tenofovir e Dolutegravir. Os autores observaram então um aumento progressivo e modesto da carga viral do HIV, até 101 cópias/mL, no 45º dia, seguido de uma diminuição para 31 cópias/mL, no 120º dia. Também observaram um leve aumento na ativação das células T, entre o 14º e 15º dias, com diminuições foram observadas nas células T PD1 + …

Avalie isto:

São Paulo tem tratamento inédito para prevenção do HIV

A Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo iniciou na semana passada a distribuição do medicamento Truvada no SUS (Sistema Único de Saúde). O item passa a ser fornecido como terapia pré-exposição (PrEP) para prevenção do HIV às pessoas com maior chance de exposição. A iniciativa prevê, nos dois meses iniciais, a oferta do Truvada a 1.110 pessoas em 14 serviços municipais e estaduais (confira abaixo), localizados nas cidades de São Paulo, São Bernardo, Campinas, Santos, Piracicaba, Ribeirão Preto e São José do Rio Preto. Esses locais foram definidos em conjunto com o Ministério da Saúde, e a expectativa é que a medida seja ampliada gradativamente para demais localidades do Estado. O medicamento é indicado a homens que fazem sexo com homens, mulheres transexuais, travestis, profissionais do sexo que tenham tido relações sexuais sem uso de preservativo nos últimos seis meses e/ou episódios recorrentes de Infecções Sexualmente Transmissíveis (IST) e/ ou tenham usado repetidamente medicamentos de profilaxia pós-exposição (PEP). Também poderão receber o remédio casais sorodiscordantes para o HIV (quando um parceiro tem o …

Avalie isto:

Febre Amarela

Tive que atravessar um monte de pessoas no posto de saúde onde retiro meus medicamentos. A fila era longa e até já deixava de ser fila, com todos circundando o segurança para ouvi-lo falar. “— A quota de hoje acabou!”, gritou ele. “— Mas não era até às 18h?”, perguntou um homem. “— Era, sim. Mas vocês têm que entender: a demanda tem sido muito alta. Hoje, as vacinas acabaram às 15:00h. Agora, só amanhã”, concluiu o segurança, impedindo a entrada das pessoas. “— Eu vou na farmácia”, anunciei. O segurança me deixou passar e indicou o caminho que eu já sabia seguir, em direção ao fundo, contornando o prédio, passando a porta à direita. Embora a fila na entrada do posto de saúde estivesse cheia de pessoas, na espera da farmácia não havia ninguém. A febre amarela é uma doença hemorrágica viral grave transmitida por mosquitos. Não há tratamento antiviral. No entanto, existe uma vacina altamente eficaz, que começou a ser indicada, em outubro do ano passado, pelo Governo de São Paulo, em três …

Avalie isto:

120 Batimentos Por Minuto

A história se passa na França, no início dos anos 1990, quando o grupo ativista Act Up  intensifica seus esforços para que a sociedade reconheça a importância da prevenção e do tratamento em relação a aids. Recém-chegado ao grupo, Nathan (Arnaud Valois) logo fica impressionado com a dedicação de Sean (Nahuel Pérez Biscayart) junto ao grupo, e os dois iniciam um relacionamento sorodiscordante, apesar do estado de saúde delicado de Sean. Resumidamente, essa é sinopse de 120 Batimentos Por Minuto, filme que foi destaque no Festival de Cannes, onde foi vencedor do Grande Prêmio do Júri, além de Melhor Filme pela crítica e Melhor Filme LGBT. O diretor do filme, Robin Campillo, nasceu no Marrocos em 1962, trouxe sua própria experiência para o filme: em 1983, ele foi estudar em Paris, na altura do começo da epidemia de aids. Ele dirigiu seu primeiro longa-metragem em 2004 e o segundo em 2015, vencendo o prêmio de Melhor Filme na Mostra Horizonte no Festival de Veneza. A maturidade de seu terceiro filme chamou atenção da crítica e …

Avalie isto: