Comecei este blog em 8 de março de 2011, há oito anos. Primeiro, escrevendo porque precisava eu mesmo de ajuda, no momento do meu próprio diagnóstico, seguido dos traumáticos efeitos colaterais comuns aos antirretrovirais da época, e, depois, cada vez mais familiarizado com o assunto e percebendo satisfação em poder ajudar os outros, outras, muitos nas mesmas condições de incertezas após um diagnóstico positivo para o HIV em que um dia me encontrei.

Comecei este blog sozinho, escrevendo para o silêncio, até ganhar milhares de leitores e seguidores diários. Foram vocês, leitores, que mantiveram vivo este espaço, durante todos estes anos — e, por isso, agradeço imensamente a vocês!

Durante estes anos todos, questionei a mim mesmo, algumas vezes, sobre o destino final deste espaço: Quando é que se encerraria? Seria em pouco tempo após o diagnóstico ou no dia em que a cura for descoberta? Haveria assunto até o dia da cura? Ou, depois, dela, continuaria eu a escrever, quem sabe, sobre o pós-cura?

Confesso que, nos meus pensamentos, quase sempre me ative à ideia de escrever até o dia da cura. Imaginei, inclusive, como seria o dia em ela chegasse. Imaginei o anúncio no jornal, a distribuição de pequenas seringas, injetáveis, que proporcionariam a cura a todos os soropositivos — jovens e velhos, de qualquer sexo e identidade de gênero, infectados há anos ou pouco tempo, com qualquer contagem de CD4 e tamanho de reservatório viral. No meu ideal, é assim que seria a cura.

Também imaginei uma enorme festa de celebração, num estádio, com câmeras digitalmente conectadas ao vivo a outros estádios do mundo, onde os mais de 37 milhões de ex-soropositivos do mundo estariam espalhados, celebrando juntos o épico fim da epidemia e a cura da nossa doença. Helicópteros das principais emissoras sobrevoariam nossa festa, noticiando-a nos principais jornais — gerando críticas já na manhã seguinte, acusando-nos de estimular o sexo sem camisinha e o comportamento desajustado com os bons costumes da sociedade; mas nós não ligaríamos a mínima para isso! A música mais animada tocaria nas caixas de som enquanto todos dançariam noite afora. No telão,  imagens históricas da epidemia: os primeiros soropositivos diagnosticados nos Estados Unidos, a luta pelo acesso ao tratamento, o desenvolvimento das pesquisas e, finalmente, a chegada da cura. Os principais nomes dessa história seriam ovacionados, com suas fotos exibidas na tela ou convidados a subir ao palco, sob uma salva de palmas jamais antes vista. Imaginei que encerraria o blog neste dia, que ainda não veio — mas é certo que vai chegar.

Talvez, hoje encerre o blog cedo demais. Talvez, tarde demais. Mas, decerto, o faço no momento em que a ajuda que este blog um dia ofereceu, e quiçá ainda ofereça, mais pode ser compilada num livro, ou algum outro tipo de conteúdo estático, sem a necessidade de atualização e monitoramento, num meio como este. Ademais, me parece, a dinâmica hoje não está mais em blogs, mas em grupos de WhatsApp, que sequer existiam em 2011, quando tudo começou neste blog. É em grupos assim, que hoje são mais compartilhada e lidas as notícias sobre os avanços científicos, muitos deles administrados por (ex-)leitores daqui. (Se você administra um grupo de soropositivos no WhatsApp, compartilhe-o nos comentários!) Talvez, blog seja coisa de quem já não cumpre mais o título de Jovem, ainda Soropositivo, mas sem mais se preocupar em nada com sua condição.

Um bom tempo se passou, desde o início desse blog. O HIV mudou. Muitos leitores mudaram. Eu mudei. Experimentei a superação do meu diagnóstico, o fim dos efeitos colaterais que sofria, os novos tratamentos, li muito sobre os avanços da tecnologia, comecei e terminei namoros, fui aceito e fui rejeitado, contei e não contei ter HIV, trabalhei, viajei, me assustei, me acalmei, sonhei e acordei, festejei e descansei, fiquei feliz e fiquei triste, fiz e perdi amigos, casei e, há quase um ano, tive um filho. E comecei a escrever sobre outras coisas.


Em 30 dias, este blog chega ao seu fim. A página será mantida em funcionamento apenas para a publicação do legado, na forma de livro ou algum outro tipo de conteúdo estático.

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