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Paralelos entre a gravidez, o parto e a vida com HIV

Não é curioso o quanto o HIV e o parto, o próprio nascimento, estão tão próximos da medicina, dos remédios e dos médicos, como os grandes salvadores? Me pergunto se é assim noutras áreas, também. À parte ao começo do meu tratamento antirretroviral, quando visitava médicos com considerável frequência e, também, do início do meu acompanhamento com o Dr. Esper Kallás e na altura da troca de medicamentos sugerida por ele, nunca visitei consultórios médicos com tanta frequência quanto nos últimos nove meses e, mais ainda, nas últimas semanas. Agora, seguia para o hospital, em uma situação de emergência, com a recomendação da médica obstetra.

Lembrei da última vez que visitara um pronto-socorro. Era janeiro de 2011, e eu acabara de começar o tratamento antirretroviral, com Kaletra a Biovir, seguindo a recomendação do meu então médico infectologista, Dr. O. Eu seguia para hospital sem qualquer ânimo. Adentrei o pronto-socorro com as mãos sobre a boca. Os vômitos incessantes, decorrentes do efeito colateral que sofria, para além da incurável diarreia, me deixavam ainda mais fraco e, também, preocupado com a possível perda da próxima dose dos medicamentos, quem sabe, desengolidos na próxima vomição. O infectologista enfatizara, talvez até demais, da importância da adesão e de não perder uma única dose da terapia, sob o risco de comprometer seriamente todo o tratamento. Ele enfatizara também sobre os efeitos colaterais, que naquela altura eu experimentava os piores e, inclusive, em decorrência destes mesmos efeitos, da possibilidade de ter de ir ao hospital, onde então eu estava. O médico ainda disse que, nesse caso, eu deveria lhe telefonar; mas ele nunca atendeu.

Foi na sala de espera desse hospital, já depois de passar pela triagem, que sentou-se ao meu lado uma jovem mulher, bem jovem, de traços orientais, com os mesmos sintomas que eu experimentava: vômitos incessantes. Sua tia e irmã a acompanhavam. Foi quando a conversa entre elas começou.

“— E agora, tia?”, disse a jovem. “O que eu faço?! Minha mãe vai me matar!”

“— Não é hora de pensar nisso”, disse a tia, “mas no filho ou filha que você vai ter.”

A jovem acabava de descobrir que estava grávida e, emotiva, lamentava seu descuido com a camisinha. Em silêncio ao seu lado, ressentindo o desconforto abdominal causado pelo Kaletra e Biovir, me identifiquei com a sua lamúria. E me ocorreu ali que, caso a jovem não optasse pelo aborto — uma opção que me parece tão justa quanto a PEP, a profilaxia pós-exposição — seu diagnóstico, de gravidez, trazia algo parecido com o meu, de soropositivo: ambos são, para sempre, eternos. Não são?

Foi no caminho de volta para casa que desdenhei do diagnóstico da jovem oriental. “Mal sabe ela do meu diagnóstico!”, pensei comigo, considerando a gravidez, embora possivelmente grave para alguém tão jovem quanto ela, em nada se compararia ao meu então recente diagnóstico, de soropositivo para o HIV. Nada poderia ser mais sério do que o que eu experimentava. O pesar no coração da jovem só poderia ser exagero, de alguém tão inexperiente diante das gravidades da vida, mesmo grávida, num paralelo que parecia não poder concorrer com o vírus, embora possam ser vistas semelhanças.

A primeira semelhança entre o HIV e a gravidez, me parece, está na concepção. Foi William Harvey, um médico britânico que ficou famoso por ser o primeiro a descrever a circulação sanguínea e a presumir a existência dos vasos sanguíneos capilares. Sem compreender bem o sistema reprodutor humano, como era comum à sua época, Harvey concluiu que o bebê era concebido pelo útero materno, da mesma forma que o cérebro concebe uma ideia ou um conceito. (Pelo menos, é isso o que diz o último livro que repousa ao lado da cabeceira de minha cama.)

O fato é que a concepção da infecção pelo HIV requer uma das mesmas premissas da concepção de um bebê: o sexo desprotegido, sem camisinha.

A voluptuosidade do sêmen, em contato com a umidade da parede vaginal, também deve ter sua parcela. Parece razoável concluir que, quanto mais sêmen, maior a chance de gravidez e, também, maior a chance de infecção pelo HIV, muito embora os médicos e sanitaristas enfatizem, provavelmente corretamente, que o fluído pré-ejaculatório é suficiente para os dois, ou para qualquer um deles: é possível engravidar e/ou se infectar com apenas um pouco de sêmen.

Não obstante, há campanhas para prevenção do HIV, mas não há para prevenção da gravidez. Pelo menos, não no Brasil, diferentemente de outros países. Entretanto, se as maternidades continuam cheias não temos uma clara falha nas campanhas de prevenção ao HIV pelo uso da camisinha? Bebês continuam a vir ao mundo, sem que a antiga vergonha pela concepção recaia tanto sobre seus pais, concentrando-se, agora, provavelmente mais, naqueles que concebem a infecção pelo HIV. Em outras palavras, parece não haver mais pecado no sexo para ter filhos, mas parece haver culpa no sexo sem camisinha com quem vive com HIV — mesmo sob tratamento antirretroviral e com carga viral indetectável, intransmissível.

As grávidas da era vitoriana, e até mais recentemente no Brasil, que ocultavam a gestação debaixo de vestidos recheados de tanto pano daqueles que lhes apontariam o dedo, clamando vergonha pelo seu ato pecaminoso, parecem ter dado lugar aos soropositivos de hoje, ocultos sob o silêncio ou sob pseudônimos, que escondem a condição sorológica daqueles que apontariam o dedo para dentro do quarto daquele hotel, no meio de uma ilha no Atlântico, não tão longe da costa marroquina.

Era nossa primeira noite ali, quando J., soronegativa, levantou-se da cama e foi até o banheiro, de onde eu ainda podia espreitar todo o seu corpo nu. Era possível ver meu sêmen escorrendo por entre suas pernas, gotejando pelo chão. Seus cabelos ruivos, desajeitados. Foi quando ela sorriu para mim. Mais tarde, me diria ela, o filho ali concebido vinha com o desejo de que fosse nascido tal como a mim, com a sua certeza de que o meu nascimento me fez, pelo menos em parte, ser quem eu sou.

Eu nasci em julho de 1984, num pequeno apartamento que ficava no alto de uma montanha da cidade, na Praça do Por do Sol, famosa por sua ampla vista de São Paulo. Por opção de meus pais, recém saídos da sua juventude em meio ao movimento hippie, meu parto se deu em casa, com acompanhamento de um médico obstetra — por acaso, um discípulo de Osho Rajneesh, místico oriental bastante conhecido no começo dos anos 80.

Assim que vim ao mundo, eles contam que apagaram as luzes para que a minha chegada, a transição para fora do útero de minha mãe, fosse a mais tranquila ou a menos traumática possível. Dizem que não chorei. Que nasci sereno e silencioso. O obstetra, quando me agarrou nos braços e deitou os olhos sobre mim, teria dito em voz alta que nascia ali mais um médico. Então, voltado-se para meus pais, profetizou: “Este menino tem a cura nas mãos!”

Mas, é claro, eu não me recordo de nada disso. (Tampouco tenho a cura nas mãos.) Minha primeira memória se deu na praia, algures do litoral norte do estado de São Paulo, para onde meus pais decidiram que nos mudaríamos pouco depois de meu nascimento. Era uma pequena casa térrea, com aquele típico piso feito de lajotas de cerâmica partida, vermelhas, amarelas e pretas. A arquitetura ainda tinha alguns traços coloniais. Ao redor do quintal não havia muro, mas uma cerca viva que nos separava da rua de terra, a qual sempre alagava com as chuvas de verão. O jardim tinha a atmosfera típica do litoral paulista, com um gramado úmido, contornado por largas folhas de quase todas as variedades de verde, tendendo para o mais escuro, que fazia tudo aquilo mais parecer uma floresta. Quando chovia, um cheiro forte de terra molhada.

Me lembro que passava horas a brincar com os arbustos de Dormideira, aquela planta que fecha sozinha suas pequenas folhas diante do mínimo relar dos dedos, como se fosse mágica. Também me divertia espremendo os brotos das flores Maria-sem-Vergonha, num canteiro que circundava a varanda, fazendo suas sementes saltarem para fora, como pequenas molas. Foi nesse canteiro que meu carrinho de rolimã um dia caiu e, depois de agarrá-lo, virei-me para trás e avistei meu pai e minha mãe, abraçados e sorridentes, olhando orgulhosamente para seu único filho — eu ainda não sabia, mas esta seria a única imagem que teria dos dois juntos.

Nos dias de calor, meu pai montava a piscina de lona azul com estampa de peixes e a enchia de água e de brinquedos; quando a desarmávamos, era fácil encontrar ali debaixo pequenos tatus-bola, correndo de volta para seus esconderijos. À noite, os adultos sentavam-se na sala diante da televisão, que ficava sobre um móvel feito de bambu e palha, com tampo de vidro. Me lembro quando o apresentador do telejornal, de cabelos brancos, disse ser certo que a Terra um dia iria acabar, definitivamente engolida pelo sol. Era a morte certa. Também foi ali que escutei, pela primeira vez, vez as palavras “drogas” e “aids” embora ainda não soubesse nada sobre os seus significados. Só muito depois eu aprenderia que, naquela altura, por volta 1986, a doença estava começando a tomar a forma consistente de uma pandemia que começava a preocupar todos os países do mundo. O gráfico já mostrava que a maioria das pessoas que eram diagnosticadas, morriam. Mal se sabia que esse gráfico ainda ia crescer muito, acumulando 39 milhões de mortes e 78 milhões de infectados — e que eu estaria entre eles.

Durante o dia, quase sempre íamos à praia, em uma Brasília marrom, curva a curva pela rodovia Rio Santos. Meu pai já não nos acompanhava. Lembro apenas de ver os cabelos de minha mãe remexendo ao vento enquanto ela conduzia o veículo, cantarolando as letras de música popular brasileira que tocavam nas fitas cassetes, as quais eu poderia recitar de cor até hoje. Vez em quando, ela virava-se rapidamente para trás, somente para me ver, ou então me observava pelo retrovisor central. Tinha sempre tanta maternidade em seus olhos, tanto amor, que uma gota a mais talvez fosse demasiado; mas não era.

Por alguma razão, todo esse cenário da época na praia incorporou-se em mim como o único lugar que eu gostaria de estar quando as coisas vão mal, ou mesmo quando estão bem. “É só fechar os olhos e imaginar que está praia”, explicou meu avô, hoje falecido, enquanto nos ajudava com a mudança, carregando as caixas pela calçada da cidade. Ele apontou para o alto, à copa daquela árvore que remexia com o vento na rua. “Ouça”, sugeriu ele, “não é igual ao barulho do mar?”

Segui seu conselho, mas, quando abri os olhos, não vi nada além de prédios acinzentados no horizonte, por detrás da enorme janela de vidro. A nova casa era um apartamento, que ficava num pequeno e antigo edifício num bairro central de São Paulo. Não havia mais jardim, nem cheiro de terra úmida. Mas meu pai estava lá, de volta, embora muito diferente — mais gordo e chamava por outro nome. Era ele quem me levava para passear pelo centro da cidade, depois de me advertir para ter cuidado com a antiga porta de grade do elevador, tão velho. Ao meu lado, ele quase sempre falava do futuro: dizia que era importante viajar, conhecer lugares, falar outras línguas e tocar algum instrumento musical. Dizia que eu poderia ser o que quisesse, ter sucesso em qualquer profissão que viesse a escolher. Dizia tudo isso com tanta convicção que quase me convencia que eu poderia me tornar rei, assim como na novela que assistíamos todos juntos, logo depois do jantar. (Foi logo depois do término dessa novela, aliás, que Cazuza faleceu, aos 32 anos de idade, por conta de um choque séptico causado pela aids. Houve notícia no telejornal. Um ano depois, foi a vez de Freddie Mercury, vocalista da banda britânica Queen, morto em virtude de uma pneumonia decorrente da aids — “Ele morreu em paz”, disse um amigo próximo em entrevista à televisão.)

Foi em algum momento por volta dessa época, ou talvez mais tarde, que eu fechei os olhos, possivelmente tentando voltar à praia, em meio ao meu crescimento, da infância à adolescência. O tempo começou a passar doutra maneira e, quando mal me dei conta, acabei por esquecer de abrir os olhos novamente. Talvez, seja coisa da juventude, da escola, das festas, do álcool e do primeiro cigarro de maconha. Coisa de desobedecer aos pais, de ir mal na escola por uma causa rebelde qualquer. Quem sabe, culpa da crise financeira, que assolou o país em meio ao governo do então presidente Fernando Collor e atingiu minha família exatamente quando minha irmã acabara de nascer. Ficamos totalmente sem dinheiro e, meu pai, o novo pai, cada vez mais impaciente, cada vez mais bravo. Tantas broncas, castigos e palmadas que faziam saltar imensas lágrimas dos olhos azuis da minha irmã e, às vezes, dos meus. Quando desmedido, levou-a a se esconder por horas debaixo da cama, cheia de medo. Quando excessivo, levou-me a fugir de casa, correndo pela avenida movimentada no meio daquela noite de chuva torrencial de verão. Fui para casa de meu primeiro pai, aquele da praia, que disse preferir que eu não o tivesse feito. “Sua casa não é aqui”, disse ele.

Trainspotting, 1996.

É possível que eu nunca mais tenha voltado de fato. Se voltei, não me recordo ao certo. Acho que voltei em parte. O que sei é que, quando dei conta de mim, guiava aquele carro prateado na rodovia Rio-Santos, saindo de alguma festa de música eletrônica em São Paulo. Longe de casa, longe dos planos que um dia meus pais tiveram e especialmente longe do futuro que meu novo pai um dia vislumbrou par mim.

Girei o botão do volume, mas não era possível aumentá-lo mais. Mirei meu reflexo no retrovisor, e percebi minhas olheiras como as de Renton, o protagonista de Trainspotting, filme que marcou a minha geração. Sorri. E fechei os olhos por mais um breve instante. Aspirei o ar das redondezas da primeira casa onde morei, relembrando tudo o que se passara até ali. Do recente passeio pelos coffee shops de Amsterdã, adentrando pelo Distrito da Luz Vermelha, onde a jovem prostituta do leste europeu dizia-me para relaxar. Das festas que duravam dias, sempre escondidas no interior do Estado, em uma espécie de transe coletivo, ao som de música eletrônica com gotas de produtos ilegais. Os finais de semana no porão da casa de C., a colega de faculdade, com ela, sempre sem camisinha. O ménage à trois e as outras mulheres que eu não saberia o nome. Noites a fio, pelos clubes noturnos de São Paulo, onde eu era conhecido por dançar, sempre de olhos fechados. Sempre.

A curva que o carro adentrava começava a perder o rumo, desalinhando-se do eixo central do para-brisas e fugindo do meu campo de visão. Pisei nos freios, e as rodas imediatamente travaram, enquanto carro continuava a deslizar. Tentei corrigir a direção, sem sucesso. A lâmina de água que escorria por cima do asfalto, oriunda da umidade que perspirava da floresta que circundava a rodovia, fez o carro girar sem controle. Uma volta, duas voltas. Então, a roda traseira chocou-se contra guard rail, fazendo enorme estrondo. O veículo capotou uma, duas, três vezes, rolando ribanceira abaixo, até a beirada da densa mata tropical. Finalmente, o carro parou, amortecido pelo lamaceiro do brejo, talvez um mangue, tombado no acostamento da rodovia, com os pneus virados para as estrelas e uma das rodas partida ao meio.

Não tenho certeza quando é que abri os olhos. Talvez, tenha aberto um bocado na altura do diagnóstico, mas, assim como as grávidas em trabalho de parto, a verdade é que não consigo mais me recordar com total precisão daquele momento. É dito que a dor ajuda a apagar a memória e é bem possível que isso seja mesmo verdade. Talvez, tenha aberto mais os olhos durante a viagem à Índia, mas não no templo de Osho, onde o teste de HIV é compulsório e as pessoas com HIV não podem entrar. Talvez tenha aberto os olhos em alguns outros momentos, pontuais, mas aquele em que tenho certeza de ter os olhos abertos, bem abertos, foi quando J. sentou-se diante de mim, semanas depois da volta da viagem àquela ilha do Atlântico.

“— Estou grávida”, disse ela, fazendo-me crer que nada do que escrevi até aqui é sequer importante. “E quero que o parto do nosso bebê seja como foi o seu.”

É surpreendente o quanto a questão do nascimento está regulada pela medicina. O que antes era parto, passou a chamar-se parto normal, natural e, hoje, humanizado. Não é incomum, especialmente no Brasil, onde as taxas de cesáreas bate recorde mundial, chegando a mais de 80% na rede privada em São Paulo e, em alguns hospitais, a 99%, que presuma-se pela cesárea como a alternativa obviamente preferida pela mãe. “Tragam as máquinas!”, grita o médico do hospital em O Milagre do Parto, um sketch humorístico do grupo britânico Monty Python, parte do filme O Sentido da Vida (1983), como se a tecnologia médica fosse a única e venerável salvação para o parto — se é justo que seja venerável, ainda assim precisa ser a única? Será que não existem alternativas de parto, menos tecnocráticas e que podem servir melhor à mãe, ao bebê e ao pai?

Questionada pela comunidade internacional, as autoridades médicas brasileiras sempre se defendeu dizendo que as mulheres brasileiras preferem cesarianas, com data e hora marcada para o nascimento. Entretanto, um estudo de 2001 mostrou que essa informação não estava correta. Entre 1.136 mulheres entrevistadas em todo o Brasil, 70 a 80% disseram que prefeririam o parto vaginal e não houve diferença significativa nas preferências entre pacientes do sistema público e privado. Enquanto isso, a maioria dos hospitais brasileiros ainda não permite que os pais participem dos partos ou entrem nas salas de parto. A depilação compulsória nas mulheres é comum, bem como a episiotomia, um procedimento que implica num corte de bisturi entre a vagina e o ânus, com o suposto objetivo preventivo contra laceração, e a aplicação de oxitocina sintética, para acelerar ou iniciar as contrações e, assim, induzir mais rapidamente ao trabalho de parto.

Da mesma forma, a nossa vida como soropositivos, do nascimento da nossa nova identidade no momento do diagnóstico, até o fim de nossos dias, parece estar totalmente regulada pelos médicos. Assim que diagnosticados, recebemos  a recomendação de iniciar imediatamente o tratamento antirretroviral. Temos visitas ao consultório médico prevista a cada três, quatro ou, no máximo, seis meses, acompanhada de exames laboratoriais de CD4, CD8 e carga viral. Temos protocolos que regulam o tratamento antirretroviral a novos diagnosticados, crianças, adultos ou idosos, mulheres gestantes ou não.

Quanto mais cedo iniciado o tratamento, melhor.

Em estudos prospectivos, muitos desses procedimentos se mostraram desnecessários e até prejudiciais para a maioria das situações. Com mais tempo para o parto ocorrer em seu tempo, a dilatação acontece e não resulta em laceração, o que descarta a necessidade da episiotomia para ev

Nesse cenário, o ritual do parto e o seu simbolismo, para mãe, para o bebê e para o pai, parecem perder espaço para o ritual médico, que ganha os centro das atenções.

 

Davis-Floyd, Robbie E.. Birth as an American Rite of Passage: Second Edition, With a New Preface (p. xix). University of California Press. Edição do Kindle.

 

Como podemos ter certeza que, em relação ao HIV, não estamos sendo induzidos a algo equivalente à cesárea?

“É medicina baseada em evidências”, disse a obstetra, fazendo-me relembrar das consultas com o Dr. Esper. “Sabemos hoje que o parto normal, natural, é mais saudável para mãe e para o bebê, e que o ideal é que a cesárea siga a recomendação da OMS e seja feita somente quando necessária, geralmente em 15% dos casos.

Era com essa fala em mente, que seguíamos para consultório da obstetriz. A complicação anunciada pela médica, depois de repetidos testes feitos em casa com um aparelho de medição de glicemia, desenhava o padrão de uma diabetes gestacional grave, para a qual a única saída, nessas circunstâncias, seria a indução ao parto. Os meses de preparo para um parto normal, natural, tal como fora o meu, terminavam agora de forma abrupta, num susto, na inesperada intervenção médica, contrária ao desejo da mãe e à própria vontade do bebê, que conta nas luas o seu tempo de vir ao mundo.

“— O bebê está ótimo: cheio de vitalidade!”, disse a obstetriz, depois de examinar. “Também não há sinal de aumento no líquido amniótico, um sintoma típico da diabetes gestacional”, prosseguiu ela. “Isso quer dizer que podemos esperar mais um ou dois dias”, concluiu”, arrancado nossos suspiros de alívio, enquanto preenchia os pedidos para exames complementares: todos eles para

“— O bebê está ótimo: cheio de vitalidade!”, disse a obstetriz, depois de examinar. “Também não há sinal de aumento no líquido amniótico, um sintoma típico da diabetes gestacional.”

Se o nosso nascimento, o modo como vimos ao mundo determinam tanto as nossas vidas, isso quer dizer que meu filho terá

fazendo nascer em mim o imediato sentimento e o reconhecimento de que toda essa história, tudo o que escrevi até aqui e por todo o blog, pouquíssimo importa

Este post foi publicado em: Diário

por

Jovem paulistano nascido em 1984, que descobriu ser portador do HIV em outubro de 2010. É colaborador do HuffPost Brasil e autor do blog Diário de um Jovem Soropositivo.

2 comentários

  1. yello diz

    Recebi a notificação de matéria nova no meu e-mail, achei até que tinha voltado. Como faz falta esse blog.

  2. Luciana diz

    Olá. Entendi que és a favor do aborto assim como da PEP. Entendi certo ? T

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