Canadá reconhece que indetectável é intransmissível

[mks_dropcap style=”letter” size=”52″ bg_color=”#ffffff” txt_color=”#000000″]O[/mks_dropcap] potencial de transmissão sexual do HIV quando uma pessoa que vive com HIV faz tratamento antirretroviral e mantém sua carga viral indetectável é “insignificante”, confirmou a Agência de Saúde Pública do Canadá, em uma revisão feita para o Departamento de Justiça do país. Além disso, as autoridades canadenses afirmaram que risco de transmissão do HIV, a partir de uma pessoa em tratamento antirretroviral mas sem carga viral indetectável, é “baixo” — seguindo a definição de carga viral indetectável representa uma contagem inferior à 200 cópias/ml.

As expectativa das autoridades canadenses é que essas afirmações, baseadas em evidências científicas, ajudem a reduzir a criminalização da não divulgação da condição sorológica generalizada no Canadá. Lá, as pessoas podem ser processadas por não revelarem o seu estado soropositivo quando se envolvem em atividades sexuais que representam alguma “possibilidade realista” de transmissão do HIV.

Para isso, a Agência de Saúde Pública do Canadá realizou uma revisão sistemática, a fim de identificar as revisões de estudos que contém dados que permitissem calcular o risco absoluto de transmissão sexual do HIV entre parceiros sexuais sorodiscordantes. Foram incluídos estudos publicados até abril de 2017. Como os autores reconhecem, isso significa que alguns dos dados recentes mais importantes, parte final dos estudos Parter 2 e Opposites Attract, não estão incluídos. Todavia, uma vez que não ocorreu qualquer caso de transmissão do HIV a partir de pessoas com cargas virais indetectáveis ​​nesses estudos, adicionar os dados destes estudos simplesmente acrescentaria que apontam na mesma conclusão. Diante disso, as autoridades canadenses diferenciaram alguns cenários possíveis:

[mks_dropcap style=”letter” size=”52″ bg_color=”#ffffff” txt_color=”#000000″]N[/mks_dropcap]o primeiro deles, o parceiro sexual soropositivo faz tratamento antirretroviral e tem sua carga viral suprimida, indetectável. Nesse caso, baseando a estimativa nos dados mais antigos dos estudos Partner e Opposites Attract, nos quais pessoas com cargas virais abaixo de 200 cópias/ml foram monitoradas a cada seis meses e, no fim das contas, apresentaram zero transmissão do HIV. Se os dados mais recentes do Partner 2 e Opposites Attract fossem incluídos, o intervalo de confiança seria ainda maior, mas, mesmo assim, a estimativa pontual de 0,00 não mudaria. Por isso, os autores descrevem o risco de transmissão nestas circunstâncias como “insignificante” — mesmo sem uso do preservativo.

O segundo cenário diz respeito ao parceiro sexual soropositivo que faz tratamento antirretroviral e apresenta níveis variados de carga viral. Diante de situações assim já foram observadas algumas transmissões do HIV em estudos científicos: foram 23 transmissões, comprovadas geneticamente, em 10.511 pessoas-ano de acompanhamento. A incidência estimada de 0,22 transmissões por 100 pessoas-ano é quase insignificante. Entretanto, as pessoas nessas coortes geralmente apresentavam altos níveis de adesão ao tratamento e altos níveis de supressão da carga viral, o que quer dizer que o potencial de risco de transmissão, nesses casos, pode ter sido subestimado.

O terceiro e cenário diz respeito ao parceiro sexual soropositivo que faz tratamento antirretroviral, tem níveis variados de carga viral e usa preservativos. Para calcular este risco, as autoridades se basearam em uma revisão sistemática feita em 2012, que modelou o efeito combinado da terapia antirretroviral e dos preservativos, em conjunto, para derivar os riscos por ato. Foi observada uma variação de 0,003 transmissões por mil atos para o sexo vaginal insertivo e 0,11 transmissões por mil atos  para sexo anal receptivo. Estes riscos foram descritos como “baixo”.

A quarta situação diz respeito ao sexo com uso de preservativos com um parceiro soropositivo que não faz tratamento antirretroviral. Aqui, as autoridades apontaram para as conclusões de uma revisão da Cochrane Collaboration, de 2012, que ainda fornece as melhores evidências sobre essa questão: ela constatou que entre casais sorodiscordantes que relataram “sempre” usar preservativos, havia 1,14 transmissões de HIV por 100 pessoas-ano. As autoridades canadenses descrevem esse risco como “baixo”.

[mks_dropcap style=”letter” size=”52″ bg_color=”#ffffff” txt_color=”#000000″]O[/mks_dropcap] Departamento de Justiça do Canadá compreendeu as conclusões das autoridades médicas e declarou: “A lei criminal não deve ser aplicada a pessoas vivendo com HIV que tenham praticado atividade sexual sem revelar sua condição, desde que tenham sua carga viral suprimida (ou seja, com menos de 200 cópias/ml de sangue), uma vez que não há uma possibilidade realista de transmissão do HIV nessas circunstâncias.”

Publicado por

Jovem Soropositivo

Jovem paulistano nascido em 1984, que descobriu ser portador do HIV em outubro de 2010. É colaborador do HuffPost Brasil e autor do blog Diário de um Jovem Soropositivo.

24 comentários em “Canadá reconhece que indetectável é intransmissível”

  1. Eu nunca tinha ouvido falar desse segundo cenário. Como assim faz o tratamento e tem carga viral variável? Por recontaminação? Por causa dos blips? Agora eu fiquei preocupado. 0,22 é pouco, mas é algo. Minha parceira não vai querer mais fazer sem tomar prep se ela ler isso.

        1. Você tem R$ 4.000 por mês pra comprar um remédio? Você já viu a simplicidade da maioria das pessoas do teu CTA? Vai ser um caos social se interromperem a política de acesso e cuidado…

    1. Carga variável é o caso de quem faz tratamento antirretroviral e nem sempre tem resultado indetectável. Pode ser por má adesão, resistência…

  2. Alguém aki que faz tratamento , já teve candidíase ? Qual remédio vc tomou? Não teve reação adversa com os outros medicamentos?

    Eu tomo o 2×1
    Dolutegravir, tenoforvir e lamividina

  3. Enquanto isso no Brasil as declarações do novo Ministro da Saúde são lastimaveis. Medo do que nos espera…

    1. Eu vi as declarações do novo ministro. O que eles pensam que somos? Sou qualquer coisa, menos um idiota que verá esse retrocesso passivamente. Posso até morrer, mas levarei alguns importantes comigo. Não se deixa pra morrer 1 milhão de pessoas assim!

  4. Quanto a posição do Sr. Ministro eu nem me preocupo, porque informação todos têm. Basta a população querer se informar e colocar em prática. Ele só não pode retirar da escola, o direito de falar sobre sexualidade e prevenção.
    Ter hiv não foi a pior coisa que me aconteceu. Se a pessoa, assim como eu sabia/sei que é importante o uso do preservativo por N motivos e mesmo assim não se cuida, então não venha reclamar das campanhas de prevenção. Informação todos têm, acesso a preservativos também. Pois as pessoas têm dinheiro pra comprar cachaça porque não tem 2 reais pra comprar um preservativo?
    Não podemos culpar os órgãos públicos por tudo aquilo que nos acontece de ruim.

    1. O problema é ficarmos sem medicamento. Ou quererem nos submeter a terapias antigas com mais efeitos colaterais.
      Como boa parte dos soropositivos são homossexuais, conhece uma forma melhor de se livrar da gente sem parecer assassinato pela sociedade?

      1. Não há o que temer em curto prazo. Bolsonaro não está acima de todos. Ele vai cair e não vai demorar.
        Além do mais eles têm coisas mais importantes pra se preocupar. Ao invés de tomar medidas como essa que vc citou que acabaria sendo uma medida anti popular e que geraria um desconforto muito grande com outros países e entidades não governamentais

    2. Países europeus começaram a diminuir o número de casos de HIV com uma mudança na educação e na cultura, trabalhando temas sensíveis desde os anos iniciais da escola, com outras instituições envolvidas. Comunicação não é apenas uma propaganda institucional, um cartaz no posto de saúde. Comunicação é fazer as pessoas conversarem sobre o tema, se apropriarem do debate, mudarem hábitos, ter informações atuais e locais para troca de experiência, ou seja, um ambiente propício para a educação, cultura, ciência.
      Saber “que é importante o uso do preservativo” é pouco. Não foi assim que os países desenvolvidos estão dando a virada contra o vírus, e é assim que o Brasil está retrocedendo.

  5. Só falta o Canada aceitar soropositivos que aplicam para visto de trabalho e cidadania, algo que hoje é negado para aqueles que são soropositivo.

      1. Sol
        Já aceitam 100%?
        Pergunto pois até o começo deste ano ainda eram barrados os brasileiros soropositivos, mesmo com alta pontuação no express entry. Foi por esse motivo que acabei indo atrás da cidadania europeia e segunda-feira estou vazando para a Itália, de mala e cuia. Meu marido sonha com o Canadá, ele é negativo, eu positivo, e essa sua fala me deixou feliz, pois quero muito levá-lo para o Canadá como residente. Podes dar mais informações sobre isso? Há relatos de aprovados nos processos de seleção deles? Sei que não faz muito tempo que reprovavam todos os positivos 😕

      2. Oi novamente ! Não é que mudou mesmo? Achei esse fórum falando sobre o aumento no limite de gastos de saúde , acho que é provável que estejam mais flexíveis. Vou me informar mais 🎈🎈🎈 Eu amo a Europa, mas queria muito levar a gente pro Canadá, descobri minha sorologia bem quando decidimos aplicar pro express entry, pós ielts, pós validação de diplomas, pós tudo. Fiquei animado

        https://www.canadavisa.com/canada-immigration-discussion-board/threads/hiv-positive-and-worried-about-my-chances-of-being-selected.576601/

        1. Eles ainda barram, não é totalmente certo.

          Os medicamentos custam bem mais que 19k cad. Depende do esquema que o paciente faz, eles consultam os preços normais as vezes em vez de genérico.

          Foi o que um advogado de imigração me disse em 2017. Ja moro na Alemanha, eu acabei perdendo interesse pelo Canadá.

  6. Oi, desde 2015 sempre tomei o 3×1. Agora vou mudar p o dolutegravir. Vi alguns comentarios sobre o melhor horario p tomar. Pela manha seria o melhor horario? O 3×1 eu sempre tomava a noite.

    1. Oi amigo,realmente,o melhor horario para tomar o dolutegravir,é pela manha,pq um dos poucos efeitos colaterais dele é a insônia. Eu faço o uso do esquema com o dolutegravir á 2 anos,e nunca senti nenhum efeito colateral,tomo todos os dias as 6hs da manha,mesmo com o estomago vazio.

      1. Oi Luiz Gustavo, e sobre o consumo concomitante c alcool. Sabe se tem alguma contra indicação ou efeito indesejado? Qdo usava o 3×1 sempre tomava minha cervejinha no findi e nunca senti nada.

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