Carta de uma leitora: não estamos juntos à toa

“Em 2017, meu esposo e eu vivíamos mais um ano de nossas vidas. Estávamos casados há 5 anos e pensávamos que era altura de engravidar. No meu exame anual de rotina, todos os resultados vieram okay e, assim, iniciamos nosso projeto.

No meio do ano, meu esposo recebeu uma proposta para mudar de emprego. Era uma ótima oportunidade e ficamos muito animados com ela: 2018 tinha tudo para ser o nosso ano! Emprego novo, a possível chegada do bebê e, agora, a possibilidade de uma casa própria. Depois de um processo seletivo bastante longo e estressante, cheio de etapas e expectativas, chegou a ótima notícia: ele havia sido aprovado. Iniciou-se então um período de treinamentos, muitas viagens e muito estudo para esse novo momento. Meu esposo estava muito confiante, pois a nova empresa era realmente incrível.

Foi quando meu esposo começou a não se sentir muito bem, possivelmente, pensamos, por conta de toda a correria que a seleção do novo trabalho exigira. Resolvemos viajar num final de semana. Busquei-o no aeroporto, logo percebendo que ele provavelmente ficaria gripado. Acabei dirigindo o carro durante toda a viagem. Ele não estava bem, com um febre que até cedia com medicação, porém sempre voltada.

Resolvemos ir ao hospital. O médico diagnosticou uma inflamação na garganta, receitou uma injeção e, então, nos liberou. No domingo, retornamos para nossa cidade. Meu marido ainda não se recuperara e, por isso, fomos direto para emergência. A febre de meu marido já se prolongava por dois dias. Feitos todos os exames, indicaram um antibiótico e aconselharam a consultar com uma infectologista, sob a suspeita de ser mononucleose. Agendei consulta com a médica que havia disponibilidade mais próxima, o que acabou por ser somente na semana seguinte — uma semana difícil, na qual meu esposo não conseguiu comer nada, com a garganta quase fechada e momentos de febre tão intensa que chegava a delirar.

Finalmente, chegou o dia da consulta com a infectologista. A médica não acreditava que poderia ser mononucleose. Indicou um antibiótico mais forte e solicitou mais exames. Os remédios funcionaram e, dois dias depois, meu esposo já estava melhor. Na semana seguinte, retornamos ao seu consultório com os resultados  dos exames, todos ótimos. Aliviados, voltamos à nossa vida normal. Já era início de 2018 e tínhamos um ano novo pela frente!

Mas nossa alegria não durou muito. Um mês depois, meus esposo começou a não se sentir tão bem. Sentia uma forte dor nas costas, que parecia dor muscular, porém concentrada num único ponto. Surgiram também algumas lesões em sua pele, na área das costas, diagnosticadas na emergência do hospital com herpes zóster, para a qual ele foi medicado e aconselhado a procurar novamente um infectologista. Na consulta, a médica solicitou vários exames, para tentarmos descobrir o que estava acontecendo. Era mal estar atrás de mal estar, mês após mês e, por isso, precisávamos investigar a razão de sua imunidade estar tão baixa — seria devido ao estresse do novo emprego?

Foi na primeira semana de março desse ano, de 2018, que recebemos o diagnóstico positivo para o HIV. E nossa vida desmoronou. Não perdemos apenas o chão, perdemos também a consciência de tudo. Me lembro de vê-lo sentado na beira da cama, chorando desesperadamente. Ao seu lado, eu juntava todos os cacos dentro de mim, para conseguir segurar sua mão e dizer que concentraríamos toda a nossa energia no tratamento contra esse vírus.

Inexistimos durante uma semana, o tempo do diagnóstico até a próxima consulta. Usamos  nossas últimas forças para ir trabalhar e parecermos normais para a nossa família. Quando um estava destruído, o outro assumia os cuidados da casa e da nossa alimentação, um dia de cada vez e com muita conversa para digerir tudo isso. Durante esse período, o que mais nos ajudou foi esse blog, o Diário de um Jovem Soropositivo, que nos trouxe mais do que esclarecimento: trouxe a esperança que uma nova vida era possível.

Eu também fiz o teste de HIV, um resultado que seria bem decisivo para nós. Lembro daquela terça-feira, quando acessei o site do laboratório, logo depois de chegar do trabalho. Meu esposo estava sentado no sofá e eu na frente do computador. Li em voz alta: “não reagente” e meu esposo começou a  saltar e pular de alegria. E eu? Bom, eu fiquei ali, olhando para o computador, em silêncio. Ele me questionou: eu não estava feliz? Claro que esta era uma ótima notícia, mas como eu ficaria feliz sabendo do resultado dele? A dor dele era a minha também.

Escrevo esse relato seis meses após todos esses acontecimentos, tempo em que vivemos um misto de gratidão e sensação de começar uma nova vida. Meu esposo faz seu tratamento antirretroviral direitinho, parou de consumir bebidas alcoólicas e tenta cuidar-se ao máximo para não ficar nem resfriado. Eu tento ajudar, cuidando da agenda de exames e da marcação de consultas. Fazemos questão de manter em nossas vidas um grande respeito pela doença. Isso nos mantém atentos aos cuidados com a medicação e exames. De resto, a vida segue normalmente.

Hoje posso dizer que 2018 foi realmente o nosso ano. Posso dizer que o diagnóstico não é uma sentença: foi a melhor coisa que poderia ter nos acontecido, pois, de alguma forma, nos trouxe a certeza de que podemos realizar todos os nossos sonhos. Meu esposo segue muito bem na nova empresa. Esse mês, assinaremos o contrato de compra da nossa tão sonhada casa própria. E iniciei novamente os exames para tentar engravidar.

Independentemente do diagnóstico, há altos e baixos na vida de todas as pessoas. Podemos tentar tornar o nosso mundo, e o mundo dos outros ao nosso redor, o melhor possível. Não estamos juntos, aqui, à toa.”

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Roger76
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Roger76

Que relato emocionante!!!. Como mencionado este blog e os depoimentos de outras pessoas me ajudou a superar e voltar a viver de forma positiva.

Felicidades a você e seu esposo.
Esperamos que muito em breve você volte aqui compartilhar com a notícia da vinda do seu bebê.

Bia
Visitante
Bia

Obrigada Roger76!

Roger
Visitante
Roger

Eu fui ao fundo do poço (um poço de ressaca moral, de desânimo, de auto flagelação) e voltei. Depois eu fui de novo. E voltei. E continuo, indo e voltando, desde 2011, qdo recebi meu diagnóstico. Eu percebi que minha vida ia ser um vai e vem de emoções entre arrependimento e superação, mas que vida não é não é mesmo ? Então, a gente levanta, e enfrenta o mundo, dia após dia, assim como todo mundo faz. Porque no final das contas, é tudo igual pra nós e pra todos. Mas ainda eu teimo em pensar, que nós somos… Ler mais »

luquinha
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luquinha

É sempre assim uma febre que não passa , e nós pelo menos foi assim comigo ,pensamos varias coisas menos hiv e como se os nossos pecados fossem lançados no lago do esquecimento , Pergunto porque Infectologista não pediu logo o exame já que a primeira medica não pediu , posso falar ele teve sorte pois diariamente morre pessoas com diagnosticos tardio , isso e uma realidade e sabemos isso . Respondendo a pergunta do amigo no post anterior , acredito que a mulher que eu amo tenha me deixado , devido a minha sorológia , pois já havia me… Ler mais »

Fernandes
Membro
Fernandes

É isso aí, bola pra frente, tudo passa.

Paulo Roberto
Visitante
Paulo Roberto

Confesso que vc me emocionou… Fiquei feliz em saber que existem pessoas como vc, que, independente do seu resultado, preocupou-se com o outro. Dejeso toda felicidade do mundo, e, que, tenhas um filho lindo e forte como vcs!

Bia
Visitante
Bia

Obrigada Paulo, toda a felicidade do mundo para todos nós!

MorenoLitoralSC
Visitante
MorenoLitoralSC

Descobri hj a pouco, com um exame de farmácia. Action. Deu uma linha forte bem bordô/vermelha e na linha teste muito fraquinha quase imperceptível. Mas estava lá…
Reunido forças para prosseguir. No entanto chorei uns 15 minutos. E agra me sinto bem. Triste mas não tanto igual eu imaginava.o sentimento anterior de dúvida e tensão era mais horrível, esse sentimento que ficou é tranquilo. Suportavel. A mente só pensa em estratégias agora de como coexistir com essa nova condição.

Anderson
Visitante
Anderson

MorenoLitoralSC,
Bom dia!
A pior angústia que pode existir é a incerteza, e você fez muito bem em fazer o teste. Porém eu sugiro que procures um médico infectologista para que ele solicite mais exames clínicos e confirmatórios a você, assim como, a prescrição do tratamento antirretroviral. Não basta apenas saber, é muito importante fazer o tratamento corretamente. Fazendo isso, terás uma vida tranquila. Sucesso a você!
Forte abraço!

SAR
Membro
SAR

MorenoLitoralSC,
Bom dia!
Realmente, uma das piores angústias é a incerteza. Você fez muito bem em fazer o teste. Porém sugiro que agora procure um (a) infectologista para que sejam solicitados exames confirmatórios e exames clínicos e, assim, você possa começar o tratamento antirretroviral. É importante saber, mas a meu ver, o mais importante é fazer o tratamento corretamente. Seguindo esses passos, tenho certeza que terás uma vida saudável e tranquila. Sucesso para você.
Forte abraço!

40taourso
Visitante
40taourso

agora vc tem q procurar um infecto para tirar a prova e fazer mais exames q confirmam esse positivo. força ae rapaz. ah quase 2 anos isso aconteceu comigo. agora eu e mais amigos vivemos bem sem doenças. e nem eh difícil tomar o remédio. A nova medicacao eh boa e tem quase nehum efeito colateral. precisando estamos aqui.

+SC
Membro
+SC

Olá! Você está vivendo um momento que vários aqui passaram. Seja a pessoa mesmo ou como no caso da Bia, que doou seu sentimento ao marido dela. Eu também descobri minha sorologia em casa, com meu pai, trancado no quarto de visitas usando o Action. Naquele momento tudo acabou, absolutamente tudo. Vivi os dias mais loucos da minha vida, eu estava tão arrasado psicologicamente que meus pensamentos me sabotavam ao ponto de me deixar em estado de loucura .Mas… trago boas notícias. Você vai conseguir encontrar seu rumo novamente. O HIV é uma pedra no meio do caminho, que quando… Ler mais »

Rodsc
Membro
Rodsc

Entra em contato cmg por e-mail brother, pra trocar uma ideia. saraurodrigo@gmail.com

Cara
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Cara

Que belo depoimento. Parabéns por ser uma esposa companheira e amiga. Por ter aceitado a sorologia do seu marido e recomeçar a vida. E principalmente por não tê-lo abandonado. A única diferença é que a partir de hoje ele terá de tomar a medicação e se cuidará ainda mais. Que tenham filhos e formem uma linda família. Vivam intensamente cada segundo. Felicidades e Positividade !

40taourso
Visitante
40taourso

vc me emicionou …. lendo fiquei com vontade de estar com vcs no dia do diagnóstico e segurar as mãos de vcs dois e dizer: tudo vai dar certo. Deu certo pra mim tb. Esse blog eh mágico … informa , traz esperança e felicidade.

Bia
Visitante
Bia

O blog nos traz conhecimento e isso nos abre os olhos para outra possibilidades. Obrigada pelo carinho!

Pedro
Visitante
Pedro

Oi pessoal, espero que estejam bem!

Eu já faço tratamento a 3 anos e agora vou começara trabalhar em janeiro (até então só estudava). Eu gostaria de ver com vocês como conciliam o trabalho com o tratamento, consultas, retiradas de medicamentos, etc., já que em geral as farmácias dos CTAs abrem em horário comercial (que a gente trabalha).

Se alguém puder dar dicas, orientações, etc., eu agradeço!
Abraços!

Cara Positivo
Visitante
Cara Positivo

Eu sempre pego no horário do almoço os remedios e como faço consulta pelo convenio médico eu marco a consulta para depois do horario de trabalho.
Ao menos onde eu moro (Belém – PA) os testes de CD4 pelo SUS podem ser feitos em qualquer horario no Laboratório Central do estado.

Paraense
Visitante
Paraense

Pede pra alguém ir retirar os teus medicamentos

Roger
Visitante
Roger

As consultas , quando te dão atestado, usam CID de infecção, não exatamente o de HIV, um CId genérico. As farmacias geralmente abrem no horário do almoço, é sempre jogo rápido pra pegar =)

33bhte
Visitante
33bhte

Olá Pedro!
Graças a Deus não interferiu na minha rotina. Trabalho, estudo e malho….
Optei por fazer o controle através do meu plano de saúde , e escolhi, um infecto que atendesse entre 18 hs e 20 hs. Os exames realizo na parte da manhã ou no sábado. Os medicamentos busco tb na parte da manhã (entre 7hs e 8 hs (CTA mais vazio).
Até mais…

Ayelen
Visitante
Ayelen

Que história de vida emocionante! Você é uma mulher guerreira, tua atitude mostrou que o verdadeiro amor supera tudo e juntos vocês são mais fortes. Desejo sorte e que consigam realizar esse sonho de ter vosso filho.
Comigo foi bem diferente meu noivado chegou ao fim! E pra ser cinsera ainda doi, mas aos poucos vou recolhendo os cacos da minha vida e este blog realmente tem me ajudado muito!

Bia
Visitante
Bia

Com certeza dói, mas você não está só. Obrigada pelas palavras!

Carla
Membro

Amada, minha história é exatamente como a sua , talvez só um detalhe seja diferente. Vc poderia me passar seu e-mail para trocar uma ideia?

Bia
Visitante
Bia

Oi Carla, meu e-mail é fbia002018@gmail.com

kiss
Visitante
kiss

São histórias como essas que nos dão forças para prosseguir….Sempre acho que quando há cumplicidade não é um diagnóstico que vai mudar o sonho de ser feliz! Até porque conviver sozinho(a) para enfrentar essa realidade é um pouco mais complicado…Poder dividir o fardo é algo excepcional! A vida continua, o tempo não para. O segredo é ser audacioso e ter vontade de viver….realizar sonhos, tornar a vida de alguém um pouco melhor, tudo isso é possível…. Lembro do meu diagnóstico há 10 anos, eu só pensava em morrer e mais nada. Abri mão de muita coisa, abandonei o trabalho, me… Ler mais »

Carol Fernanda
Visitante
Carol Fernanda

Bela estória, sucinta, otimista e politicamente correta.
Trás o que agrada a maioria em resumo, o amor venceu!
Não isenta o sujeito de ser no no mínimo infiel e expor a saúde da mulher a essa desgraça de infecção que obriga e torna a pessoa dependente de drogas fortíssimas com efeitos ainda pouco conhecidos.
Deus me livre.

Alessandro
Visitante
Alessandro

Drogas fortíssimas e efeitos poucos conhecidos? De onde você saiu ? Aqui a maioria esmagadora faz tratamento, hj eu mesmo faço tratamento com uma medicação que eu não sinto praticamente nada !

Bia
Visitante
Bia

Oi Carol Fernanda, não há pouco conhecimento atualmente quando o assunto é HIV. Existem muitos estudos que não só trouxeram a evolução dos medicamentos como a certeza que, com o tratamento, a vida segue normal. Acho triste falar em traição, pois cria a figura de vítima. No meu caso, mantive relação por 4 anos com uma pessoa que não sabia que tinha HIV e não contraí. Não sou vítima, tomei decisões no início da minha relação por livre e espontânea vontade e está tudo certo. Acredito que o que venceu foi a certeza que o diagnóstico nos trouxe a clareza… Ler mais »

Carol Fernanda
Visitante
Carol Fernanda

Olá Bia, obrigado pelas palavras, parabéns pela coragem e força.

Desejo muita saúde e felicidades, q o casal realize seus sonhos e alcance seus objetivos!

Felipe
Visitante
Felipe

Soube de uma notícia de um colega que faleceu devido a complicações ao HIV. Eu fico me perguntando: O que leva alguém há ainda falecer devido a isso? Será que apenas tomar os medicamentos é suficiente?

SAR
Membro
SAR

Felipe, Tomar os medicamentos é fundamental e fazer o tratamento corretamente é essencial. Acredito que a falta de comprometimento com o tratamento e o desconhecimento da sorologia são os agravantes. Como vc deve ter lido, nos comentários acima, há pessoas vivendo com o HIV há 10 anos e, aqui mesmo, já vi relatos de pessoas vivendo com HIV há 30 anos. Não esqueçamos que a 30 anos a medicação antirretroviral não era tão potente quanto as atuais e os efeitos colaterais eram diversos. Então acredito que uma boa adesão ao tratamento, uma boa alimentação e prática de atividades físicas é… Ler mais »

SAR
Membro
SAR

Correção.
* Não esqueçamos que há 30 anos a medicação…😊

Hloddoviko
Visitante
Hloddoviko

Bia, realmente emocionante a sua história. Eu, quando tive o meu diagnóstico positivo, não contei a ninguém e foi uma barra, muito difícil mesmo, sem alguém com quem desabafar e mesmo chorar junto. Este site foi muito importante para eu aprender sobre o assunto e também entender que o fato de ser HIV positivo não era uma sentença de morte e que poderia continuar a vida com os meus sonhos e planos. Com o passar do tempo a gente se acostuma e não fica mais pensando e nos recriminando. Não podemos mudar o passado mais sim o presente e o… Ler mais »

IGG
Visitante
IGG

Nossa, que bacana, Bia! Seu marido é um homem de muita sorte por ter uma companheira tão amorosa e compreensiva, tudo de melhor para vocês!

E você expôs em ter relações sexuais com ele sem preservativo nesse anos de casados? HIV é uma loucura, uma pequena e rápida exposição e a pessoa se infecta, outros tem exposições recorrentes e não pegam o vírus…