Vacina induz anticorpos que neutralizam dezenas de cepas de HIV

Um regime experimental de vacinas, baseado na estrutura de um local vulnerável no HIV, induziu, em animais — camundongos, porquinhos-da-índia e macacos –, anticorpos que neutralizaram dezenas de cepas de HIV de todo o mundo. Os resultados foram relatados  no dia 4 de junho na revista Nature, por pesquisadores do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas (NIAID) dos Estados Unidos, parte do National Institutes of Health (NIH), e seus colegas.

Peter D. Kwong, Ph.D., chefe da Seção de Biologia Estrutural do Centro de Pesquisas de Vacinas do NIAID, e o Dr. Mascola, diretor deste Centro, lideraram o estudo. “Os cientistas do NIH usaram seu conhecimento detalhado da estrutura do HIV para encontrar um local incomum de vulnerabilidade ao vírus e projetar uma vacina nova e potencialmente poderosa”, disse Anthony S. Fauci, diretor do NIAID. “Este elegante estudo é potencialmente importante, mais um passo adiante na busca contínua para desenvolver uma vacina segura e eficaz contra o HIV.”

O estudo se utiliza de uma das duas abordagens que o NIAID está buscando para desenvolver uma vacina contra o HIV. Em uma abordagem, os cientistas primeiro identificam anticorpos potentes contra o HIV que podem neutralizar muitas cepas do vírus e, então, tentam extrair esses anticorpos com uma vacina baseada na estrutura da proteína de superfície do HIV onde os anticorpos se ligam. Em outras palavras, os cientistas começam com a parte mais promissora da resposta imune e trabalham para desenvolver uma vacina que a induza. Este método foi usado para projetar a vacina descrita neste estudo.

A outra abordagem, empírica para o desenvolvimento de vacinas contra o HIV, começa avaliando, em pessoas através de estudos clínicos, as vacinas candidatas mais encorajadoras em termos de eficácia. Em seguida, os cientistas tentam basear-se nos resultados de estudos bem-sucedidos, examinando, por exemplo, amostras de sangue e outras amostras clínicas dos participantes do estudo que receberam a vacina para identificar as partes mais promissoras da resposta imune. Posteriormente, os pesquisadores usam essa informação para melhorar as abordagens de vacinação para estudos futuros. Este método foi utilizado para desenvolver o regime de vacinação contra o HIV testado no estudo clínico RV144 e os regimes de vacina contra o HIV atualmente em estudo no HVTN 702 e Imbokodo.

Nos últimos anos, pesquisadores descobriram muitos anticorpos naturais que podem impedir que múltiplas cepas de HIV infectem células humanas, em laboratório. Cerca de metade das pessoas que vivem com o HIV produzem os chamados anticorpos “amplamente neutralizantes”, mas geralmente apenas após vários anos de infecção — muito tempo depois de o vírus já ter se estabelecido no organismo. Os cientistas identificaram e caracterizaram os locais no HIV onde se conecta cada anticorpo amplamente neutralizante. Agora, laboratórios em todo o mundo estão desenvolvendo candidatas à vacina contra o HIV com base na estrutura desses locais, com o objetivo de persuadir o sistema imunológico de pessoas soronegativas a produzir anticorpos protetores após a vacinação.

Este diagrama ilustra a localização do peptídeo de fusão (em vermelho) no pico do HIV (em verde), que se projeta para fora da membrana viral (em cinza). O diagrama também mostra como um anticorpo amplamente neutralizante (em amarelo) se liga ao peptídeo de fusão.

A  vacina experimental descrita nesse estudo é baseada em um local do HIV chamado peptídeo de fusão do HIV, identificado por cientistas do NIAID em 2016. O peptídeo de fusão, uma pequena sequência de aminoácidos, faz parte da superfície do HIV a qual o vírus usa para entrar nas células humanas. De acordo com os cientistas, o local do peptídeo de fusão é particularmente promissor para uso como vacina porque sua estrutura é a mesma na maioria das cepas do HIV e, também, porque o sistema imunológico claramente o “enxerga” e monta uma forte resposta imunológica contra ele. O peptídeo de fusão não possui açúcares que obscurecem a visão do sistema imunológico.

Para fazer a vacina, os pesquisadores projetaram muitos imunogénio diferentes — proteínas projetadas para ativar uma resposta imune. Estes foram concebidos utilizando a estrutura conhecida do peptídeos de fusão. Os cientistas primeiro avaliaram os imunogénio utilizando uma coleção de anticorpos que têm como alvo o local do peptídeos de fusão e, depois, testaram em ratinhos quais os imunogénio provocaram mais eficazmente anticorpos neutralizantes. O melhor imunogénio consistia em oito aminoácidos do peptídeo de fusão, ligados a um transportador que provocava uma forte resposta imunitária. Para melhorar seus resultados, os cientistas associaram esse imunogénio a uma réplica do pico do HIV.

Então, os pesquisadores diferentes combinações de injeções da proteína em camundongos e analisaram os anticorpos gerados pelos esquemas vacinais. Os anticorpos ligados ao peptídeo de fusão do HIV e neutralizaram até 31% dos vírus de um painel globalmente representativo de 208 cepas de HIV. Com base em suas análises, os cientistas ajustaram o regime vacinal e testaram-no em porquinhos-da-índia e em macacos. Esses testes também produziram anticorpos que neutralizaram uma fração substancial de cepas de HIV, fornecendo evidências iniciais de que o regime de vacinas pode funcionar em várias espécies.

Agora, os cientistas estão trabalhando para melhorar o regime vacinal, incluindo torná-lo mais potente e capaz de alcançar resultados mais consistentes com menos injeções. Os pesquisadores também estão isolando mais anticorpos amplamente neutralizantes gerados pela vacina em macacos e vão avaliar esses anticorpos por sua capacidade de proteger os animais de uma versão símia do HIV. Os cientistas do NIAID usarão suas descobertas para otimizar a vacina e fabricarão uma versão adequada para testes de segurança em voluntários humanos, em um estudo clínico cuidadosamente planejado e monitorado. Os testes preliminares em humanos, utilizando este novo regime de vacinação, está previsto para começar no segundo semestre de 2019.

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AndréJulianoJoão Paulo JPAllpistetefyalmeida Recent comment authors

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EuPositivoSC
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EuPositivoSC

Eita! Que coisa boa!

Paulo Roberto
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Paulo Roberto

Essa é uma vacina para eliminar/curar infectados ou uma forma de prevenir a população de adquirir o vírus?!

Diego
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Diego

para prevenir Paulo.

Rômulo Monteiro
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Rômulo Monteiro

Deu a entender que é para prevenir.

Rômulo Monteiro
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Rômulo Monteiro

Um dos “modos” me lembrou uma “terapia super experimental” contra o cancer, onde pegaram anti-corpos que são eficazes contra o tumor, multiplicaram aos bilhões e injetaram na pessoa… com 2 semanas os tumores da pessoa foram eliminados !

https://www.msn.com/pt-pt/noticias/sociedade/tratamento-experimental-cura-mulher-com-cancro-da-mama-em-estado-avan%C3%A7ado/ar-AAydHaH

Diego
Visitante
Diego

Tomara que esteja enganado, mas penso que o dia que descobrirem uma vacina que previna o HIV, cairão drasticamente os esforços e investimentos nas pesquisas de uma cura dos soropositivos. Isso de certa forma me entristece e tira esperanças.

Fernando Brian
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Fernando Brian

Acho que no caso do hív quando você cria uma vacina que imuniza automaticamente você já consegue viabilizar os meios para combater o vírus, talvez o combate possa ser diferente da vacina mais e uma idéia né

Paulo Roberto
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Paulo Roberto

Pior que penso desse jeito! Mas, penso também que as farmacêuticas irão perder bilhões de dólares na fabricação dos antirretrovirais, então, terão que correr atrás de uma forma de recompensar…. Ou seja, buscarão alternativas…

Diego
Visitante
Diego

Amigo eu já penso que as farmacêuticas vao faturar muito mais pelo seguinte. Os ARVs segundo comentam tem prazo de validade, um dia eles tem que ser substituídos por outros de tecnologia deferente que eliminem resistência e reduzam efeitos colaterais, dessa forma elas vao continuar faturando em cima dos que já são infectados. De outro lado penso que uma vacina preventiva vai ser distribuída no mundo inteiro, pra todos os soronegativos. Eh muita vacina! Sem contar que todos os dias milhares nascem e precisarão ser imunizados. Acho que eh de interesse das farmacêuticas descobrirem uma vacina pra imunizar e ao… Ler mais »

Paulo Roberto
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Paulo Roberto

http://somosmaispositivos.blogspot.com/2018/06/china-aprova-albuvirtide-primeiro.html?m=1. Olha essa matéria! A China tá correndo atrás… As outras vão ter q correr tbm

Diego
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Diego

Show de bola Paulo! Só não entendi quando ele diz que a droga de longa duração vai ser usado junto com o ARV..

Diego
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Diego

Paulo trazendo notícia fresquinha e boa pra noiz!!! Valeu Paulo!

Diego
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Diego
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Diego

“Há aplicações da técnica que buscam trocar só uma letra na sequência de DNA, ou cortar fora uma sequência maior sem substituí-la por outra, “correta”. Nesses casos, as tropas celulares de defesa não são convocadas pelo p53. ” . Essa aplicação não sei se trata do caso do HiV, se pro HIv. Só eh feito corte usando a técnica criador cas9, sem .substituicao do gene removido. Se for o caso, , a engenhoca continuaria funcionando para o caso da cura do HIV sem a possibilidade de causar tumores como diz na matéria.

Beto
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Beto

Diego,

Entendo sua preocupaçao, mas o mais importante nessa historia é livrar o mundo desse virus que ja fez tantas vitimas. A verdade é que a gente se apega demais a esse corpo, a essa mente, a essa vida. Mas todos nos iremos desse corpo e dessa mente, mais cedo ou mais tarde. A terra gira, o mundo evolui, novos medicamentos ja estao no horizonte proximo, bola pra frente! Um abraço.

Diego
Visitante
Diego

Beto concordo com você. Acho seu pensamento bacana, tento canalizar na minha cabeça também que isso aqui eh só uma passagem. Mas eliminar o vírus deveria ser um esforço em prol de todos, infectados ou não, como tem sido feito e liderados por institutos acomo Anfar.. Meu receio eh que uma vacina para prevenir antes de uma descoberta da cura possa tirar a esperança de uma.minoria ficar livre do vírus também, devido uma possível visão dos governantes de que não seja mais necessário investir em uma possivel cura ..

Tiago Silva
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Tiago Silva

Vi a preocupação do Diego quanto a cura, mas não penso que vão se desinteressar por nós não. Creio que logo teremos pelo menos uma injeção por mês pra continuarmos indetectáveis sem os ARVs. Pra mim já estaria ótimo sinceramente. Não todos os soropositivos, porém uma grande maioria procurou o HIV por comportamentos de alto risco, logo veio a consequência. Não morrer e tem uma vida regrada pra vivermos bem está de bom tamanho. Se o cara não teve consciência sem HIV, que se sacrifique e conscientize com o HIV. Se não vai pelo amor, tem que ir pela dor.

SAR
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SAR

Tiago Silva, Discordo plenamente. Me desculpe, não sei, exatamente, o tempo que fostes diagnosticado, porém, vejo um sentimento de culpa enorme no seu comentário. Não sou psicólogo, mas sinto uma autoflagelação nas suas palavras. Meu caro, não fui eu e nem você que criamos esse maldito vírus. Ele surgiu e a sociedade teve que aprender a se readequar a um novo estilo de vida, ou seja, com prevenção. Viver com HIV não é um castigo Divino, é algo que todos os seres humanos estão sujeitos. Por isso, penso que se tem algum vilão nessa história, esse papel é do HIV.… Ler mais »

Henrique
Visitante
Henrique

Pessoal me ajudem, no domingo troquei de esquema do 3×1 para o Dolutegravir + lamivudina e Tenofovir, pois bem, no segundo dia comecei a ter uma diarreia e uma leve dor de cabeça. Suspeito que seja pela troca da medicação. Alguém passou por isso? Se sim, os efeitos passaram? Não quero retornar para o 3×1 e gostaria de manter com o dolutegravir.

Beto
Visitante
Beto

Henrique,

Dores de cabeça e diarreia sao efeitos muito relatados com DTG. Fique tranquilo, persista que vai passar. Boa sorte e abraço!

Tomm
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Tomm

Henrique, iniciei com DTG, em janeiro. Dor de cabeça somente nos primeiros dois dias.. e mais nada…

Caio PE
Visitante
Caio PE

o DTG é MUITO superior ao 3×1.

Allpiste
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Allpiste

Pessoal, bom dia. Vou tecer alguns comentários, porque vi a preocupação nos posts. A questão é a seguinte, conforme já conversei com meu médico. Não existe uma vacina que sirva para uma coisa (prevenção) e não sirva para outra (tratamento). Se a vacina impede a infecção de modo eficaz, ela impede que o vírus se instale na célula, ou elimina ele, quando fora, mas tudo a partir de um estímulo que a vacina dá ao organismo a produzir, por si só, anticorpos que neutralizam o vírus. Dessa forma, para um paciente indetectável, a aplicação da vacina irá produzir nele a… Ler mais »

Diego
Visitante
Diego

Show de bola essa informação. Eu não conversei com meu médico sobre isso, obrigado. Eh porque nas respostas a e nos artigos a gente ao vê falar em prevenção e testes clínicos em soronegativos , por isso achei que essas vacinas não almejassem soropositivos. Obrigado meu amigo.

Pensante
Visitante
Pensante

Exato allpe… é sim um tratamento para os positivos! Gostaria q essa porcentagem de 30% aumentasse.. mais algumas cepas jah foram neutralizadas ou seja jah eh um presságio de que vira um tratamento eficaz pelo menos para quem ter esse tipo de cepas que foram neutralizadas.

tefy
Membro
tefy

Oi Allpiste… fiquei feliz com o seu comentário, eu nem tô sabendo dessa vacina ainda… mas se vc conversou com o seu médico… eu confio… tomo antirretrovirais desde 2003. Esta indetectavel desde então… acho que posso ter esperança um pouco. Estou muito triste hj… fui buscar meus remédios, e o BIOVIR esta em falta. Eu não queria trocar de medicação… esse está tão bom sem efeito colateral nenhum … alguem sabe pq esta em falta? Ha esperanca de voltar a ter no Sus? Esfoi com medo… me ajudem com informações

Diego
Visitante
Diego

Alpiste vc usa Skype? Queria conversar com alguém sobre novidades sobre cura , vc teria interesse?

Allpiste
Membro
Allpiste

Salve. Não uso, mas vc pode me escrever no allpiste@outlook.com
Sempre respondo rápido.
Um abraço.

Phoenix
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Phoenix
Diego
Visitante
Diego

Tinha visto amigo. Mais uma pra torcemos. Tenho lido reportagens de cientistas entusiasmados , dizendo que houve uma explosão de novas pesquisas nos últimos anos que vislumbram resultados promissores. Muitos tem alguma sinalização já em 2018 como o kick And kill, em fases iniciais.

rec/pe
Visitante
rec/pe

gente, gostaria de tirar uma dúvida com vocês. no meu último check-up (feito antes de ontem), vi que minhas células cd4 caíram consideravelmente (de 648 para 424). não só elas, meu leucograma acusou leucopenia (uma diminuição dos leucocitos de forma geral). que eu saiba/sinta não estou com nenhuma outra doença que possa ter causado isso. meu exame de carga viral ainda não saiu mas estou preocupado que não esteja mais indetectável ou pior, tenha criado alguma resistencia ao medicamento, o DTG (descobri a sorologia há um ano e em agosto já estava intecet.). fico temeroso pois esqueci de tomar o… Ler mais »

EuPositivoSC
Membro
EuPositivoSC

Oi, tudo bem? Espero que sim.
Olha, essa desregulação no nível de cd4 é normal, é um índice que varia dia-a-dia, então fique tranquilo. Pode ter sido por uma inflamação não aparente, uma infecção sem dor, algo que exigiu energia do seu sistema imunológico e acabou refletindo na contagem.
Eu sei, a gente se preocupa, mas não há de ser nada sério 👍🏻

Gustavo Campos
Membro
Gustavo Campos

Excelente!

Diego
Visitante
Diego

Galera, quem se interessar em conversar sobre CURA e tiver novidades, atualizações e puder compartilhar me adicionem no skype digs1218@outlook.com. Valeu!

João Paulo
Membro
João Paulo

Esta semana conversei com o meu infectologista (consulta) e ele me falou que já em 2019 (ano que vem) estará no mercado uma vacina que substituirá os comprimidos, com imunização inicial de 30 dias. Ele acredita que em breve terá imunização de 6 meses. Achei fantástico a possibilidade de não precisar tomar o medicamento diariamente.

Diego
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Diego

que maravilha. Seria muito bom.

Diego
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Allpiste
Membro
Allpiste

João você saberia o nome da vacina? Não seria o cabotegravir, que é arv e não vacina?

Allpiste
Membro
Allpiste

Bom dia Diego. Esse estudo que você menciona não está nem em fase I. Ainda estão em análise em modelos de ratos… 

“In studies it showed efficacy in eliminating latently infected cells in a humanised mouse model, as well as in all genetically divergent global HIV-1 strains”……….

Mas….esperança sempre.

Diego
Visitante
Diego

Verdade amigo, o que desanima eh a eternidade desses protocolos. Tinha que existir testes mais rápidos pra avaliar a segurança e eficácia dessas novas medicações.

João Paulo
Membro
João Paulo

Isso. Me expressei mal. ARV na forma injetável

Juliano
Visitante

Masturbação mútua com um soropositivo indetectável pode ser perigoso? Ou não há riso?

André
Visitante
André

Muuuuuuuuito perigoso, suas unhas e seus dedos podem pegar HIV…use camisinha em todos os dedos, ridículo!!!

Allpiste
Membro
Allpiste

Já ouviu falar em u=u? No Brasil, i=i? Se não ouviu, procure se informar.