Paralelos entre a gravidez, o parto e a minha vida com HIV

É curioso o quanto a gestação, o parto e o próprio nascimento estão tão ligados à Medicina como sua grande orientadora e salvadora. Como pai, agora, e como alguém que vive com HIV, nunca estive tanto em contato com médicos quanto nos últimos nove meses, ao lado de minha grávida mulher, com visitas, ao longo da gravidez, cada vez mais frequentes aos especialistas, ginecologistas, obstetras, neonatologistas e tantos outros. Todos eles, num crescente de uma orquestra, culminando juntos no ato sublime do parto, o nascimento de meu filho, regido por estes tantos profissionais, excelentes em suas especialidades e, ali, concentrados cada qual em seu instrumento, girando dançantes ao redor do palco principal: a vagina, deitada sobre a maca central, bem iluminada pelos focos de luzes do estéril centro cirúrgico.

Foi ali, naquele centro iluminado, sob os gritos rítmicos de força da protagonista do espetáculo, que emergiu a pequenina cabeça cheia de cabelos de meu filho, meu bebê. Mais um grito da mãe, estridente como em uma ópera, para que o mais jovem integrante daquele coro adentrasse, sem choro, mas arrancando lágrimas de boa parte da emocionada plateia. Com o cordão umbilical ainda pulsando ritmadamente, meu filho repousou no colo de sua mãe, em seu primeiro contato com o mundo, e mamou, ainda com rastros do sangue materno por cima de sua pele. De olhos tão abertos, ele nos olhou, profundamente, piscando suavemente e com satisfação a cada deglutição da mamada.

No ato final, veio a placenta, trazendo consigo um resto considerável de sangue e, também, os cumprimentos dos médicos, entre si e comigo, enquanto até fotografavam todos os ali presentes, incluindo os atores principais, entretidos profundamente em seu primeiro enlace mundano. Fez-se um silêncio, e, com um esticar dos braços e seu dedinhos, meu filho repousou a pequena palma de sua mão sobre meu dedo indicador, apartando-o, com toda sua força, envolvendo quase todo meu dedo, em sua mais profunda confiança, num reflexo comum da nossa espécie, chamado de “preensão palmar”. Senti amor e senti o seu amor, enquanto uma das enfermeiras sacava mais uma foto daquele momento tão precioso.

No fim, é como se uma das primeiras demonstrações de amor que podemos experimentar decorresse totalmente de um reflexo ancestral, físico e, no fundo, genético. É como se fôssemos programados para sentir tal amor diante de tamanha confiança e dependência, por um lado, e, por outro, como se a importância do mundo em que estamos, vivemos e experimentamos não pudesse ser colocada em segunda instância. Vivemos aqui, no mundo físico, que é tão importante para nossa existência.

Com aquele agarrar dos dedos de meu filho, tão pequenos envolvendo meu dedo indicador, percebi que o amor é algo deste mundo. O genético é divino e o divino é genético. É coisa real que faz parte desse mundo. Um amor e, também, parte de um instinto de sobrevivência.

A porta se fechou com a despedida da médica, antes de todos nos deixarem a sós, meu filho, minha esposa e eu, no quarto do hospital. O recém nascido dormia no pequeno berço ao lado de sua mãe, desfalecida de cansaço pelo épico trabalho de parto — um processo tão natural e intrínseco da sobrevivência da nossa espécie, inteiramente realizado dentro de um hospital, com uma recepção que se começa quase como um atendimento de emergência.

Lembrei da última vez que visitara um pronto-socorro. Era janeiro de 2011 e eu acabara de começar o tratamento antirretroviral, com Kaletra a Biovir, seguindo a recomendação do meu então médico infectologista, Dr. O. Adentrei o pronto-socorro com as mãos sobre a boca. Os vômitos incessantes, decorrentes do efeito colateral que sofria, para além da incurável diarreia, me deixavam ainda mais fraco e, também, preocupado com a possível perda da próxima dose dos medicamentos, quem sabe, desengolidos na próxima vomição. O infectologista enfatizara, talvez até demais, da importância da adesão e de não perder uma única dose da terapia, sob o risco de comprometer seriamente todo o tratamento. Ele enfatizara também sobre os efeitos colaterais, que naquela altura eu experimentava os piores e, inclusive, em decorrência destes mesmos efeitos, da possibilidade de ter de ir ao hospital, onde finalmente eu estava. O médico ainda disse que, nesse caso, eu deveria lhe telefonar — mas ele nunca atendeu.

Foi na sala de espera daquele hospital, em 2011, já depois de passar pela triagem, que sentou-se ao meu lado uma jovem mulher, bem jovem, de traços orientais, com os mesmos sintomas que eu experimentava: vômitos incessantes. Sua tia e irmã a acompanhavam, quando a conversa entre elas começou.

“— E agora, tia?”, disse a jovem. “O que eu faço?! Minha mãe vai me matar!”

“— Não é hora de pensar nisso”, disse a tia, “mas no filho ou filha que você vai ter.”

A jovem acabava de descobrir que estava grávida e, emotiva, lamentava seu descuido com a camisinha. Em silêncio ao seu lado, ressentindo o desconforto abdominal causado pelo Kaletra e Biovir, me identifiquei com essa parte da sua lamúria. E me ocorreu ali, por acaso, que, caso a jovem não optasse pelo aborto — uma opção que me parece tão justa quanto a PEP, a profilaxia exposição — seu diagnóstico, de gravidez, trazia outra coisa parecida com o meu, de soropositivo: ambos são, para sempre, eternos. Não são?

O que ainda eu não sabia ainda é que, tivesse optado por prosseguir com sua gravidez, essa mesma jovem visitaria considerável quantidade de médicos em grande frequência, terminando esse processo, assim como eu experimentei agora, na orquestra médica  na sala de parto do centro cirúrgico. Por que a Medicina está tão presente em nossas vidas?

Foi no caminho de volta para casa que desdenhei do diagnóstico da jovem oriental. “Mal sabe ela do meu diagnóstico!”, pensei comigo, considerando que a sua gravidez, embora possivelmente grave para alguém tão jovem quanto ela, em nada se compararia ao meu então recente diagnóstico, de soropositivo para o HIV. Nada poderia ser mais sério do que o que eu experimentava. O pesar no coração da jovem só poderia ser exagero, de alguém tão inexperiente diante das gravidades da vida, mesmo grávida, num paralelo que parecia não poder concorrer com o vírus, muito embora possam haver semelhanças.

A primeira semelhança entre o HIV e a gravidez, me parece, está na concepção. Foi William Harvey, um médico britânico que ficou famoso por ser o primeiro a descrever a circulação sanguínea e a presumir a existência dos vasos sanguíneos capilares, que usou essa palavra, pela primeira vez, para se referir à reprodução humana. Sem compreender bem o nosso sistema reprodutor, como era comum à sua época, Harvey concluiu que o bebê era concebido pelo útero materno, da mesma forma que o cérebro concebe uma ideia ou um conceito. (Pelo menos, é isso o que dizia o livro que repousou algumas semanas ao lado da cabeceira de minha cama.) O fato é que a concepção da infecção pelo HIV requer uma das mesmas premissas da concepção de um bebê: o sexo sem camisinha.

A voluptuosidade do sêmen, em contato com a umidade da parede vaginal, também deve ter sua parcela. Parece razoável concluir que, quanto mais sêmen, maior a chance de gravidez e, também, maior a chance de infecção pelo HIV, muito embora os médicos e sanitaristas enfatizem, provavelmente corretamente, que o fluído pré-ejaculatório é suficiente para os dois, ou para qualquer um deles: é possível engravidar e/ou se infectar com apenas um pouco de sêmen.

Não obstante, há campanhas para prevenção do HIV, mas não há para prevenção da gravidez — pelo menos, não no Brasil, diferentemente de outros países. Se as maternidades continuam cheias, o que vi com meus próprios olhos, não temos uma clara falha nas campanhas de prevenção ao HIV pelo uso da camisinha? Bebês continuam a vir ao mundo, sem que a antiga vergonha pela concepção recaia tanto sobre seus pais, concentrando-se, agora, possivelmente, naqueles que concebem a infecção pelo HIV. Se não há mais pecado no sexo para ter filhos, haveria no sexo sem camisinha com quem vive com HIV, mesmo sob tratamento antirretroviral e com carga viral indetectável, intransmissível?

As grávidas da era vitoriana, e até mais recentemente no Brasil, que ocultavam a gestação debaixo de vestidos recheados de tantos panos, protegendo-se daqueles que lhes apontariam o dedo clamando vergonha pelo seu ato pecaminoso, parecem ter dado lugar aos soropositivos de hoje, ocultos sob o silêncio ou sob pseudônimos, que escondem a condição sorológica e concebem filhos tal como soronegativos — assim como eu fiz, revelando a poucas pessoas a minha sorologia.

“– Sua vida nunca mais será a mesma”, me disse o Dr. Esper, assim que lhe enviei a foto do mão de meu filho em preensão palmar.

O médico nunca havia me dito isso, sequer em relação do diagnóstico positivo, sequer em relação ao tratamento antirretroviral. Apesar dos paralelos e semelhanças, o HIV não mudou minha a vida. A paternidade sim.

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Ney
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Ney

JS parabéns pelo filho que a sua família seja abençoado de felicidades e saúde. Obrigado pelo relato da experiência. Vida longa a todos nós soropositivo é soro negativo rs

Arthur
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Arthur

Pessoal me tirem uma dúvida que está me atormentando. Algum tempo após o meu diagnóstico comecei um relacionamento com uma pessoa sorodiscordante e desde o início deixei bem claro sobre minha sorologia é inclusive ele me acompanha nas consultas e todo o meu tratamento. Os meus últimos 3 exames de CV vieram indetectável. Acontece que de uns tempos pra cá decidimos abandonar o uso do preservativo, depois que meu infecto explicou sobre a questão do I=I Porém eu sempre ejaculei fora, com receio de infectar o meu parceiro. Acontece que dois dias atrás aconteceu d no calor do momento eu… Ler mais »

Fperon
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Fperon

A chance é praticamente nula mas aconselho que não façam isso pois vira um tormento e vai que um dia vc acorda com a carga detectável e não sabe, não vale o risco.

maxwell
Visitante
maxwell

Eu acho assim: que sendo indetectável a chance de contaminação é nula. E mesmo que vc ficasse em um determinado momento detectável a quantidade do vírus seria tão insignificante que acredito que o organismo de seu companheiro combateria sem maiores problemas. Acho eu, que a transmissão deve se dar quando a pessoa tenha muito vírus andando solto pelo corpo pra o outro contrair sem contar que a imunidade da pessoa deva está baixa para tal.

Caio PE
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Caio PE

Seisso tem até 72.h mande ele buscar a PEP.

Chloe
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Chloe

Cara, I=I já existe há um tempo na literatura médica, não há nada disso de acordar com carga detectável que nem o @Fperon e nem acho necessário usar a PEP.

Se fosse usar tal método não faria sentido nenhum falar que I=I, era melhor continuar com preservativo.

Esse é um comentário recorrente, talvez fosse necessário, ter um FAQ.

Mesmo sabendo que I=I que levei um tempo para suspender a camisinha e olha que eu sou 15 anos indetectável. E depois que você suspende com parceiro estável, você nem liga mais.

Verdes Olhos
Membro
Verdes Olhos

Exatamente, não tem nada de “um dia acordar com a carga detectável”. Às vezes o preconceito vem das pessoas que estão na mesma situação.
Cada vez mais e mais estudos afirmam com clareza: INDETECTÁVEL = INTRANSMISSÍVEL.

Vamos gozar sem culpa e sem medo!

maxwell
Visitante
maxwell

Meus parabéns Jovem. Muita Felicidade a vc e sua esposa.

Roger76
Membro
Roger76

Olá J.S. Parabéns a você e sua esposa pelo nascimento do seu filho. Que benção! Tudo vem no seu tempo certo e com a evolução da Medicina e da Ciência tudo é possível. Grato por partilhar de sua experiência com todos aqui deste blog.

Lua
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Lua

Coisa linda JS!!! Que vc é sua família seja muito feliz. Bjs

Paraense
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Paraense

Parabéns JS !!!. Bem-vindo ao clube e toda a felicidade do mundo a esse novo ser.✌

Guilherme
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Guilherme

Parabéns JS, que Deus abençoe sua linda família! Obrigado por compartilhar essa felicidade tão grande em sua vida

Mariah
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Mariah

Que lindo!! Parabéns papai!!

Renato Pstv
Visitante
Renato Pstv

Chorei horrores aqui. Kkkkkk
Parabéns, meu querido. Deus abençoe.

Lara
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Lara

Parabéns JS!!! Que Deus abençoe você e sua família sempre. Obrigada por compartilhar esse momento mágico conosco.

Binhomaiss
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Binhomaiss

Jotinha sempre que reflito sobre este seu momento eu penso em toda sua trajetória que nos conta aqui, desde o primeiro post. Fico imensamente feliz que tudo não para de ficar mais lindo a cada.
Felicidades e muita saúde para a vc, esposa e bebê.
Obrigado pelo excelente trabalho no blog e inspiração.

Bru
Visitante
Bru

Que coisa mais linda de se ler 💜 Eu e meu marido somos discordantes. Tivemos uma filha antes de sabermos o diagnóstico dele e graças a Deus não houve transmissão. Temos um certo receio de ter outro filho mesmo com todos os estudos apontando para uma impossibilidade de transmissão, mas ler esse depoimento lindo faz com que a vontade aumente e a coragem tambem. Primeira vez que comento aqui na página pois o texto me tocou muito. Toda a felicidade do mundo pra você e sua família, JS. Como seu médico disse, seu filho sim, vai mudar a sua vida.

FSP
Visitante
FSP

Jovem, você se tornou pai de forma natural? Sem Inseminação e limpeza do Sêmen?