Cânceres Associados ao HIV: Uma Mudança de Paradigma?

“Um número crescente de pacientes com HIV vivem agora o suficiente para acabar sofrendo com cânceres ‘incidentais’, observados na população em geral” — é assim que começa o artigo que li no Cancer Therapy Advisor, nos últimos dias, depois de saber que o companheiro de um médico pediatra que visitamos com meu filho, homossexual e soropositivo, faleceu em decorrência de um câncer no fígado. Essa notícia levanta a questão: afinal, enquanto ficamos mais velhos e continuamos com HIV, corremos mais riscos em relação à outras questões de saúde? Quem é o responsável por essas intercorrências de saúde: o HIV, os antirretrovirais ou a inflamação crônica, baixa porém persistente, decorrente do HIV e não resolvida por esses medicamentos?

É verdade, e o artigo que li o confirma, não sofremos mais com os cânceres tipicamente definidores de aids, que assolavam as pessoas com HIV no começo da epidemia. São três estes principais cânceres, típicos de sistemas imunes totalmente devastados: sarcoma de Kaposi, linfoma agressivo de células B e câncer invasivo do colo do útero — estes eram vistos com grande frequência quando a aids foi observada pela primeira vez. O declínio significativo destes cânceres, chamados de “cânceres relacionados à aids” é atribuído à terapia antirretroviral combinada de três medicamentos, que foi desenvolvida em meados dos anos 90 e que segue sendo aprimorada ainda nos dias de hoje.

“É uma história complexa”, disse Robert Yarchoan, chefe da divisão de malignidade de HIV e Aids no National Cancer Institute, em Bethesda, Maryland, e coautor de uma recente revisão de cânceres associados ao HIV no The New England Journal of Medicine. “Com a queda dramática nos casos de câncer que definem a aids, vários de meus colegas pensaram que o câncer estaria desaparecendo como um problema em pacientes com HIV.” No entanto, embora o número de casos de cânceres associados à aids tenha se mantido relativamente estável nos Estados Unidos por duas décadas, ele disse que a incidência de outros tipos de cânceres está aumentando, uma vez que as pessoas que vivem com HIV agora vivem mais — mais tempo de vida e mais tempo com HIV, com antirretrovirais e com inflamação crônica.

A proporção de indivíduos infectados pelo HIV que desenvolvem complicações relacionadas ao câncer ou morrem de câncer permanece indeterminada, mas, de acordo com um estudo francês, esta é atualmente a principal causa de morte entre pessoas com HIV. Mesmo assim, por alguma razão, muitos médicos evitam oferecer terapias convencionais para tratar o câncer desses pacientes. Segundo o Dr. Yarchoan, esta disparidade na oferta de tratamento, é uma realidade que lentamente vem ganhando reconhecimento na comunidade médica.

 

Foto de 1987, por Alon Reininger, intitulada “Ken Meeks, Paciente com Aids”

 

Se no começo da epidemia de aids é verdade que muitos pacientes estivessem frágeis demais para suportar a intensidade da quimioterapia, o fato é que, hoje, com os antirretrovirais, este não é mais o caso. “Muitos pacientes com câncer e HIV podem tolerar a quimioterapia tão bem quanto indivíduos não infectados”, disse o Dr. Yarchoan.

Richard Ambinder, PhD, diretor da divisão de neoplasias hematológicas no Hospital Johns Hopkins, em Baltimore, Maryland, concorda com essa afirmação. “Não tratar pacientes infectados pelo HIV que desenvolvem câncer com quimioterapia é um problema real”, disse ele. “O HIV deve ser visto como uma doença crônica, que, tal como o diabetes, traz outras doenças que precisam ser abordadas, mas não devem impedir o tratamento do câncer”.

Em fevereiro, a National Comprehensive Cancer Network (NCCN) adotou medidas para remediar essa “disparidade no tratamento do câncer”, publicando as primeiras diretrizes de tratamento para pessoas vivendo com HIV que depois foram diagnosticadas com câncer. De acordo com os dados mais recentes, estima-se que, em 2010, 7760 pacientes com câncer e HIV foram 2 a 3 vezes menos propensos a receber cuidados apropriados para o câncer. Por isso, as diretrizes do NCCN exigem que os médicos tratem esses pacientes com as mesmas terapias contra o câncer oferecidas a indivíduos soronegativos. Eles também pedem aos médicos trabalhem com oncologistas e especialistas em HIV para gerenciar interações medicamentosas potencialmente tóxicas entre fármacos contra o câncer e os antirretrovirais antes de iniciar a terapia.

“Tratar as pessoas que vivem com o HIV para o câncer é uma preocupação relativamente nova”, escreveu Robert Carlson, diretor executivo da NCCN, em uma declaração publicada em 2011. “É tanto um testemunho do sucesso dos tratamentos para o HIV nos últimos anos e um lembrete que a busca por resultados mais saudáveis ainda ​​está em andamento.”

Entre os cânceres mais comuns que não definem aids em indivíduos infectados com HIV estão o de pulmão, fígado, anal e linfoma de Hodgkin. Destes, o câncer de pulmão ocorre não só em frequência crescente, em comparação com a população em geral, mas também está frequentemente presente numa em uma fase mais avançada da doença. Este maior risco do câncer de pulmão em pessoas com HIV não é compreendido. “Não sabemos se a infecção pelo HIV aumenta o risco de câncer de pulmão ou se altas taxas de tabagismo ou outras exposições aumentam o risco, ou ambos”, disse o Dr. Ambinder.

 

Oncovírus

 

Muitos cânceres associados ao HIV, incluindo aqueles rotulados como cânceres definidores de aids, se desenvolvem com a ajuda de oncovírus — vírus que têm a capacidade de alterar as células infectadas induzindo o desenvolvimento de algum tumor. Alguns oncovírus, mas nem todos, podem ser transmitidos sexualmente.

Segundo Ambinder, o sarcoma de Kaposi, por exemplo, requer a coinfecção com um vírus da família do herpes associado ao sarcoma de Kaposi, descoberto em 1994. Embora este vírus possa ser transmitido principalmente através da saliva, a razão dos homens que fazem sexo com outros homens constituírem o grupo mais alta prevalência desta enfermidade ainda não é compreendida. “É como fumar”, disse o Dr. Ambinder. “Muitas pessoas fumam, mas a maioria dos fumantes não tem câncer de pulmão”.

“A questão é: depois de um indivíduo com infecção pelo HIV ser tratado com medicação antirretroviral e alcançar a supressão viral ele fica totalmente saudável?”, pergunta Jeffrey Martin, epidemiologista e médico da Universidade da Califórnia, na Escola de Medicina de São Francisco. “Nós não sabemos a resposta ainda.” O que os pesquisadores sabem, disse ele, é que, ao medir biomarcadores específicos no sangue de indivíduos infectados pelo HIV e aqueles sem essa infecção, “as pessoas infectadas pelo HIV têm muito mais anormalidades químicas”, especialmente relacionadas à inflamação. Em geral, as pessoas infectadas pelo HIV também têm mais oncovírus do que a população sem HIV, principalmente os oncovírus que são sexualmente transmissíveis. “Se e como essas anormalidades químicas se traduzem em doença é o que os pesquisadores estão tentando entender.”

 

CD4

 

Mesmo as contagens de CD4, um marcador sanguíneo da força imune, considerado o mais forte preditor da progressão do HIV, podem ser um fator em alguns, mas não em todos os cânceres que não definem a aids, explica Martin. Embora, é verdade, quanto maior o dano causado pelo HIV nessas células imunológicas, mais provável é que um câncer se desenvolva, o fato é que esta diferença de risco ainda é pequena e nada parecida com a dizimação observada nos cânceres que há muitos anos definiam a aids. “Pode ser que uma baixa contagem de CD4 há seis anos seja o impulso para o desenvolvimento de um câncer de pulmão seis anos depois”, disse ele. Por outro lado, “baixos números de CD4 se podem se traduzir em sarcoma de Kaposi em meses.”

Surpreendentemente, talvez, as pessoas que vivem com HIV não viram um aumento, até agora, na incidência dos cânceres mais comuns: câncer de mama, próstata e cólon. O Dr. Martin sugeriu que a razão para isso pode estar nas diferenças biológicas entre esses e outros tipos de câncer. “O HIV não é um estimulante geral para centenas de diferentes tipos de câncer”, disse ele. O Dr. Yarchoan, no entanto, sugeriu outro motivo: “minha opinião é que o controle imunológico pode não ser tão importante no desenvolvimento inicial desses cânceres”.

O ponto principal, segundo o Dr. Yarchoan, é que soropositivos são hoje menos acompanhados em relação ao câncer do que a população em geral, provavelmente porque os médicos estão se concentrando mais no HIV e acreditam que o câncer é uma ameaça distante nesse grupo de pessoas, ao qual estamos incluídos. Agora, com o aumento da nossa expectativa de vida, isso precisar mudar.

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Positivo SC
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Positivo SC

Interessante o artigo.
Sei que vou morrer de alguma coisa qualquer que não esteja relacionada ao HIV, me nego a não seguir o tratamento e a não ter boa preocupação com meus hábitos de vida. Morro atropelado, morro com um asteroide caindo na minha cabeça, mas não por conta do HIV hahaha. E o artigo mostra bem isso: soropositivos vivendo mais, logo, mais expostos aos cânceres não como consequência do vírus, mas da vida em sí. A ciência está nos dando a chance de sofrer como qualquer outro mortal soronegativo. OBA!
hahaha

Contraditório? Contraditório! Mas ainda assim, comemorável 😉

Allpiste
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Allpiste

A questão principal, e alvo de nossa atenção, é a investigação sobre se pacientes com hiv estão, ou não, mais sujeitos aos cânceres.

Positivo SC
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Positivo SC

Entendi. Mas uma das teorias fala do adoecimento de pessoas pelo simples fato de serem pessoas, humanos, e foi nesse sentido que desenvolvi meu comentário 😉

caio
Visitante
caio

Sua interpretação está equivocada releia novamente

Chloe
Membro
Chloe

Alguns médicos me disseram para não me preocupar tanto com Câncer no sentido meio senso comum que se diz “Ficar procurando doença é plausível de achar”.

Sinceramente esse é o maior bullshit ever. E acho quem pensa assim realmente não se preocupa com sua saúde. Se temos dispositivos e exames com muita acurácia para detectar doenças, porque não utiliza-los ?

Sinceramente, eu prefiro morrer com a lança na mão, do que achar uma doença em estado avançado e não ter o que fazer.

Sorocaba
Visitante
Sorocaba

… me fez sentir melhor. carreguei de energia positiva. penso o mesmo … mas as vezes e somente as vezes eu fico triste. Thank’s brother.

Roger76
Membro
Roger76

O que o médico de vocês falam, pensam sobre essa incidência de canceres em soropositivos? Esses canceres acomete em qualquer fase da doença mesmo fazendo uso dos antirretrovirais? o que entendi do artigo é que temos que ficar atentos com tudo o que ocorre. De início estava preocupado com os efeitos colaterais a longo prazo e agora mais essa … enfim vida que segue.

Cara
Visitante
Cara

Saindo um pouco do tema do post: Cadê aquela onda de otimismo tão grande sobre a cura ? A amfar fez um grande alarde com perspectivas promissoras , estabeleceu até data (2020) e nos últimos encontros e reuniões não vimos nenhum comentário ou uma luz no fim do túnel. A chama apagou?

caio
Visitante
caio

saiu um artigo não lembro onde vou procurar desprezando totalmente essa noticia, pois não há possibilidades de cura devido a capacidade do vírus de se camuflar e alterar conforme necessidade, em si, o que busca e a supressão viral com medicamentos cada vez mais avançados,
lembrando que todos os artigos divulgados nenhum conduz a cura e sim a supressão.

Allpiste
Membro
Allpiste

Um dia vou escrever, com calma, o que penso sobre os discursos da cura. No Brasil, na a verdade, desde 1996 anunciam a cura. Alguém já procurou as várias capas de Super Interessante anunciando a cura? No cenário internacional, mesmo fenômeno. Contagem regressiva é uma piada. Amfar anunciando a cura para 2020 como se a ciência fosse regida por contagem regressiva. Uma falta de responsabilidade sem tamanho. Quem está de fora do problema e acompanha à distância por não ser infectado, deixa de se cuidar porque, afinal, já estamos a 1% da cura (como disse a revista há muitos anos)… Ler mais »

André
Visitante
André

Interessante o artigo. Basicamente, os pesquisadores estão buscando compreender qual o papel do HIV no desenvolvimento de alguns tipos de câncer. Só não ficou muito claro, quais anormalidades químicas seriam essas (?), se relacionadas às medicações ou à infecção em si.

Rodrigo
Visitante
Rodrigo

As informações ainda são inconclusivas, mas, aparentemente, há uma incidência maior de cânceres não relacionados à aids em portadores de HIV em comparação com os não soropositivos. Resta desvendar se há uma relação direta entre ser portador e ter mais propensão à doença.

caio
Visitante
caio

Pelo compreendi mesmo que talvez equivocadamente o simples fato de já ser portador de HIV já contribui com a propensão a certos tipos de câncer talvez usado como exemplo o sarcoma de Kaposi ( que sendo alguns artigos em em pessoas soropositivas é fatal) também vale frisar a medicação pode influenciar em algum inflamação no figado ou rim que se não acompanhado também pode acarretar em algum câncer

Rodrigo
Visitante
Rodrigo

Caio, me parece que os indícios são mesmo esses. Mas os pesquisadores são cautelosos em dar uma sentença definitiva sobre o assunto.

Henrique souza
Membro
Henrique souza

Morrer de câncer ou de aids, eis a questão

caio
Visitante
caio

tanto faz um dia chega para todo mundo mesmo

Sorocaba
Visitante
Sorocaba

kkkkkkkk dae vc atravessa a rua e morre atropelado por um fusca kkkkk

Fábio Soares
Visitante
Fábio Soares

Que ótima notícia! Então estão estudando mais a fundo a relação do soro+ viver mais e as causas /consequências disso. Esse estudo é importante para os cientistas bolarem estratégias para melhorar a nossa qualidade de vida. E não para nos deixar desanimados ou negativados. Vamos ser mais otimistas gnt. Não devemos nos preocupar com o destido. O que terá de acontecer vai acontecer. Seja você morrer por câncer ou morrer por um acidente aéreo. O fato é que todos nós, soro+ ou soro- iremos morrer. Importante destaque é a relação dos oncovirus com os soro+. Então não ache que porque… Ler mais »

caio
Visitante
caio

Concordo, entretanto o artigo não explana apenas a transmissão via sexua, existem outras particularidades a serem observadas…um ponto que você mencionou é importante ” não se preocupar”, pois mesmo que atualmente a qualidade de vida de um soropositivo seja mais “promissora”, ela não é o suficiente devido aos vários aspectos que envolvem o vírus, então se preocupar com qualquer outro fato é suicídio mental, o importante e atualmente estar ciente da real condição de um soropositivo

Aninha
Visitante
Aninha

Sou muito otimista em relação a viver com HIV nos dias de hoje e sou muito grata à toda essa evolução que os antirretrovirais têm sofrido ao longo dos anos. Mas tenho que confessar que uma matéria como essa me deixou um pouco preocupada. Onde está a cura? Será que essas pessoas que tiveram câncer em decorrência do HIV são as pessoas que experimentaram os primeiros antirretrovirais? Que eram muito mais tóxicos… ou até quem sabe essas pessoas que têm essa incidência maior de desenvolver o câncer fumam, bebem muito, não se alimentam bem e não fazem atividade física? Conheço… Ler mais »

Carla
Membro
Carla

Amada, concordo plenamente! por menos matérias desanimadoras. A cura está aí, se Deus quiser.

caio
Visitante
caio

Aninha embora eu não tenha toda essa vitalidade que você possui, concordo com seu comentário, porem não acredito que virá uma cura..talvez tratamentos mais avançados e quem sabe até em um futuro distante um medicamento uma vez ao ano, já a cura em si…

Sorocaba
Visitante
Sorocaba

gente acabou de morrer um amigo meu… novo com 30 anos de câncer fulminante. ..ele nao tinha HIV …. malhava …. filho de professor de educação física…… bem casado com sua esposa e filhos…. nao bebia …. nao fumava….crente da congregação. Era jovem livre e forte. Minha mae disse q viu ele na igreja chorando e magro. Enfim …. morreu. Entenderam?!

maxwell
Visitante
maxwell

Como vc sabe que ele não tinha HIV? As pessoas não saem por aí dizendo que é portador. Por acaso as pessoas sabem de vc?

Bruninho
Visitante
Bruninho

Gente, venho compartilhar uma noticia boa, pelo menos pra mim. Faço tratamento vai fazer 2 anos em dezembro. Comecei com o 3×1 Dai hoje acabava meu remedio e minha medica estava doente, então ela deixou na recepçao em um envelope lacrado a receita. Corri no HU pra tirar os remedios. E nem li na hora a prescricao da medicacao e dei pra o farmaceutico e ele ficou la digitando no pc. Dai eu perguntei ‘ olha, eu vi uma nota do ministerio da saúde, que agora, quem tem problemas com efavirez pode trocar pra o doulutegravir, como eu faço?’ Dai… Ler mais »

Soropositivo
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Olá! Em primeiro lugar parabéns pelo blog sempre tão informativo e bem escrito. Quero rapidamente compartilhar que sou soropositivo há 15 anos e mesmo depois de iniciar o tratamento com TARV fui diagnosticado com Kaposi. Na verdade, ao que tudo indica, o Kaposi se desenvolveu antes de iniciar o uso da medicação e quando comecei o esquema ele estagnou sua evolução. Porém a como a lesão (sim, era apenas uma) não regrediu espontaneamente acabei optando por fazer o tratamento com radioterapia. Vou deixar o link do meu blog onde conto um pouco mais dessa história. Abraços a todos e muita… Ler mais »

Roger76
Membro
Roger76

Olá Soropositivo, obrigado por compartilhar aqui sua vivência com o HIV… vou ler o seu blog e gostaria de manter um contato com você por e-mail.