Carta de um leitor: O que me assusta?

“Quando escrevi o texto Recorte o seu HIV percebi que este soou um tanto otimista para alguns leitores. Entretanto, sustentar uma visão otimista desvinculada da realidade nunca foi minha intenção. Sou partidário do realismo, sem poliana, como disse um leitor. Convencer os outros também nunca foi minha pretensão. Penso que recortar o HIV do seu espaço e tempo é medida concreta, realista e necessária.

Olhar para ele com os olhos do passado é um erro, mas, ainda assim, é uma opção pessoal. Não é a minha escolha particular. Mas pode ser a sua. Afinal, é você quem decide como interpretar essa questão íntima. Contudo, me senti em débito com aqueles que leram o texto. Afinal, se o vírus e a contaminação não foram capazes de impedir uma análise “otimista”, então o que seria? O Dólar. Minha resposta é: o Dólar. Mas por que?

Vou tentar percorrer um caminho de reflexão lógica — e, ao mesmo tempo, me manter calmo para não passar mal do estômago. Se você estivesse aqui, acho que me apoiaria em você para entrar nesse percurso escuro, porque vou lhe apontar uma monstruosidade horrenda, abjeta, vil e repugnante. Algo que eu tenho medo, que drena quase todas as minhas esperanças, porque é apenas a unha desse animal fétido e asqueroso. Então me ajude. Me dê licença, vou apertar a sua mão e pode doer. Sigamos.

Você já deve ter ouvido falar da CROI. É uma das mais importantes conferências do mundo sobre o HIV. Ocorre uma vez por ano e tem enorme repercussão mundial na área. Profissionais das melhores universidades do mundo e pesquisadores das mais importantes farmacêuticas são convocados para palestrar nesse evento. Recentemente, na CROI 2018, que ocorreu no mês de março, em Boston, houve a apresentação de uma pesquisa desenvolvida em Harvard: trata-se de um estudo absolutamente inédito e que chegou a um estágio em direção à cura que nenhum outro estudo chegou. Gerou um inédito precedente científico. Com uma combinação de dois anticorpos monoclonais amplamente neutralizantes, o PGT121 e o Agonist GS-9620, os quais conseguiram a supressão viral sem utilização de antirretrovirais, só com os anticorpos, e por longo prazo, em um grupo de macacos Reshus infectados com o s-HIV, similar ao HIV humano. Isso nunca foi alcançado antes. Os estudos foram conduzidos em Harvard sob a liderança do médico Dan Barouch. Essa pesquisa, aliás, está em andamento.

A questão é que, uma das empresas que lidera o aporte financeiro para essa pesquisa e várias outras, é a Gilead Sciences, uma das maiores empresas do mundo que desenvolve medicamentos para tratar a infecção pelo HIV. Obviamente, pelo porte empresarial, trata-se de uma S/A, de capital aberto, isto é, uma empresa que possui ações na bolsa de valores, principalmente na bolsa Nasdaq, em Nova York, a maior bolsa de valores do mundo.

Pois bem. Apenas para se ter uma ideia, essa empresa faturou, em um ano comum, 14 bilhões de dólares com a venda de medicamentos antirretrovirais no planeta. Vamos lembrar, para não vulgarizar os números, que 1 bilhão equivale a 999 milhões de dólares, mais 1. A Gilead arrecadou 14 bilhões de dólares em 12 meses. Isso só é possível graças à estratégia da empresa, que consiste em financiar grupos de pesquisas, geralmente ligados à universidades, e comprar os direitos sobre a pesquisa. Em seguida, realizam os registros desses domínios científicos formalizando as patentes dos medicamentos. E vem fazendo isso há anos, assim como suas concorrentes.

Porém, ocorreu um caso emblemático na história recente dessa empresa. Durante anos ela investiu milhões de dólares em pesquisas para o desenvolvimento de medicamentos contra a Hepatite C. Investiu muito e arrecadou uma fortuna gigantesca. O modelo de financiar pesquisas e registrar patentes foi tão bem-sucedido que, após alguns anos, conseguiram um feito inédito contra a Hepatite C: desenvolveram um medicamento que promoveu a sua cura. Sim. A cura. A Gilead Sciences conseguiu esse feito maravilhoso para todos os seres humanos — uma conquista notável, meritória, honrosa e que recebeu elogios de todo o mundo. Exceto do mercado financeiro.

Com a cura, os pacientes passaram a ficar independentes dos medicamentos para essa enfermidade que, até então, era crônica e demandava medicamentos de uso contínuo. Assim, apesar dos bilhões arrecadados nos primeiros anos, o gráfico de arrecadação passou a diminuir à medida em que os pacientes se curavam; com os anos, menos pacientes passaram a comprar o medicamento. Esse gráfico do declínio no lucro está, nesse ano, em uma curva descendente se comparado com os anos em que a doença era crônica.

E os investidores da empresa, que compram suas ações na bolsa de valores, perceberam que a Gilead Sciences diminuiu o lucro sobre esse medicamento à medida que os anos passaram. O mercado consumidor do medicamento reduziu à proporção em que as pessoas se curaram. Basicamente, do ponto de vista puramente financeiro, a ação da empresa passou a valer menos na bolsa de valores, pois ela já não lucra tanto quanto na época em que a doença era crônica e a venda dos medicamentos contínua.

Dessa forma, para o mercado financeiro, a cura não foi o melhor negócio para a empresa, embora tenha gerado um inestimável benefício para a vida dos pacientes e para a humanidade. Diante disso, a questão que se coloca é: em nosso mundo, vale mais o bem que se realiza para a humanidade ou os dólares que se arrecadam? Infelizmente, a resposta é até dispensável, de tão óbvia. Estamos começando a ver a primeira imagem, ainda fosca, daquela anomalia bizarra, abjeta e repugnante que mencionei no começo, quando pedi a sua mão porque estava com medo. O cheiro de enxofre é forte e a náusea já me toma conta. Mas, sigamos.

Ver a especulação financeira em risco é algo tão perturbador para o mercado que uma importante corretora de valores, com milhares de investidores nos EUA, e que emite análises semanais do mercado cambial americano e mundial — a Motley Fool — publicou, em 8 de março desse ano, um artigo sobre a Gilead Sciences afirmando que: “as vezes a cura é pior do que a infecção”. Segundo o autor, de grande influência no mercado americano, esse aforismo poderia ser aplicado à Gilead Sciences por ter encontrado e disponibilizado a cura da Hepatite C. Ao que parece, para o analista, ao invés de curar as pessoas, a saída poderia ser manter o ser humano enfermo e poder lucrar com isso, ano após ano, morte após morte. E o que isso tem a ver conosco?

Como sabemos, o HIV ainda não tem cura. Nem funcional, nem esterilizante. No entanto, não há como negar que o caminho é promissor. Há várias frentes de pesquisa sendo desenvolvidas no mundo, em diferentes universidades. E a Gilead Sciences patrocina grande parte deles. Em tempo: você leu sobre o excelente congresso que ocorre em abril de 2018, na USP, sobre patogênese do HIV? O folder está no blog. Tenha a curiosidade de verificar quem são os patrocinadores do evento, no site do evento. Voltando. Como disse acima, essa empresa financia parte daquele estudo sobre os anticorpos neutralizantes, que parece ser um dos mais promissores até hoje. Além de muitos outros pelo mundo.

Ocorre que a situação do HIV hoje lembra muito ao mercado financeiro o episódio da cura da Hepatite C. E sob o aspecto puramente financeiro e mercantil, a cura do HCV (Hepatite C) não foi bem vista no mundo financeiro. O mercado está atento aos movimentos dessa importante farmacêutica mundial. Tanto que, em outro artigo, citando expressamente o resultado inédito das pesquisas com anticorpos monoclonais divulgadas no CROI 2018, a agência Motley Fool novamente pressionou a Gilead Sciences perante os investidores. Apresentou aos clientes uma análise de investimentos intitulada: “Estaria a Gilead tentando se colocar fora do mercado?”. E, no início do texto, o mais assustador: “Você acha que a Gilead Sciences aprendeu a lição sobre a Hepatite C, em que curar pacientes está fazendo com que a receita da empresa diminua à medida que cada tratamento bem-sucedido resulta em um mercado menor de pacientes para trabalhar. Mas está de volta com uma cura potencial para o HIV.” Só um pouco. Vou ali vomitar e já retorno.

Atualmente, no mundo, duas grandes empresas lideram e rivalizam, dólar a dólar, o mercado de antirretrovirais para o tratamento do HIV. São elas: GlaxoSmithKline (GSK) e a Gilead Sciences. Esporadicamente alguma outra empresa disputa no chão lamacento alguma moeda caída desse duopólio. No entanto, se efetivamente não houver nada no subterrâneo; se não existir um esgoto fétido ligando essas duas grandes empresas, temos que agradecer a existência de uma concorrência no mercado. O fato de não existir apenas uma empresa no domínio, muda completamente o cenário para nós, desde que isso seja real. E tudo indica que é.

Na verdade, essa disputa gera uma verdadeira corrida para quem consegue o medicamento mais rentável. Ocorre que este medicamento, nos dias atuais, para vender mais, precisa ser mais eficiente, com menos efeitos e com melhor posologia. E esse caminho vai se estreitando, porque as patentes vão vencendo, os genéricos entram no mercado, diluem os lucros, até que a disputa esteja com medicações extremamente eficazes e busquem a cura, etapa que estamos atualmente. Quem lançar primeiro, fatura mais.

Graças a essa disputa, que ocorre par e passo entre as empresas, temos, todos os anos, vários medicamentos novos e mais eficazes sendo aprovados nos EUA pelo FDA (Food and Drug Administration), e que acabam chegando aos pacientes do Brasil, ainda que com considerável atraso. Confira-se, por exemplo, a disputa de mercado que existe entre os mais recentes medicamentos para pacientes naïve (virgens de tratamento) entre a GSK e a Gilead. O medicamento Juluca vs. Bictegrvir. O Juluca é da GSK. O Bic é da Gilead. Esses medicamentos são absolutamente revolucionários do ponto de vista da toxicidade a longo prazo. Praticamente são atóxicos e sem efeitos, para a grande maioria.

Mas, como eu disse, para isso ser real, ou seja, para que a disputa conduza à cura, deve haver efetivamente a concorrência. É preciso que exista duas ou mais empresas rivais. Nesse ambiente de adversários reais, ainda que haja uma eventual tentativa de acordo para atrasar a cura ou o lançamento de uma nova medicação, a trapaça não é improvável. Afinal, representa lucro. Mas, para todo esse raciocínio fazer sentido, não pode haver uma única empresa. Não pode haver acordo subterrâneo. Não pode haver fraude. E, nesse contexto, reitero, não tenho medo do vírus. Tenho medo do Dólar.

Um grande abraço.
Allpe”

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Paulo Roberto
Visitante

Rapaz, que texto! Parabéns pela palavras…são coerentes e reais. Pena estarmos sendo tratados como matéria prima para essas empresas farmacêuticas, sempre atrás do dólar. Vou vomitar ali e volto já!

Wellington
Visitante

Rapaz,realmente o dólar pode ser um entrave na cura

Positivo SC
Membro
Concordo com tudo que você falou. O que me ocorre é que, com o tempo, quebra de patentes vão acontecendo. Nessa perspectiva, mesmo que essas quebras atrasem o ritmo da pulverização da cura, em algum momento uma das duas empresas vai descobrir como eliminar o vírus do organismo. Aí se eles forem espertos, vão se ligar de faturar o máximo possível em cima disso num curto período, pois é muito provável que em seguida vai haver uma quebra de patente ou coisa assim e a cura vai ser algo “comum”. Por exemplo, a hepatite: descobriram a cura, não comercializaram. Sentaram… Ler mais »
caio
Visitante

A quebra de patente possui uma gama de diretrizes, a cura em si como o próprio texto bem construído explana é a realidade, em si, a cura é por tempo indeterminado apenas uma composição para vários estudos…

Rodrigo
Visitante

Se a cura da Hepatite C, a longo prazo, significa redução dos ganhos da empresa, imagine o que ocorreu com a concorrência, que não desenvolveu o medicamento e dependia da cronicidade da doença?

Verdes Olhos
Visitante

Olha, apesar do tom um pouco pessimista do texto, eu não pude deixar de fazer um raciocínio contrário: se o mercado de ações já fala (com receio, é verdade) a respeito de uma cura do vírus, proporcionada pela Gilead Sciences, acredito que isso seja motivo para acreditarmos que eles realmente estão próximos de curar pessoas. Até porque os agentes do mercado não fazem nada à toa, muito possivelmente têm informações que não chegam até nós via CROI, muito menos via releases de imprensa.
Em resumo: acho que se especuladores estão preocupados, é porque pode vir coisa boa. Torçamos.

Allpiste
Visitante

Dizem até que no mercado antecipa as coisas. Que assim seja!

Verdes Olhos
Visitante

Exatamente!

André
Visitante

Outro dia em uma postagem um leitor perguntava se alguém conhecia um site que comercializava antirretrovirais. Dando uma pesquisada na net encontrei a EUROCLINIX, que vende medicamentos legalmente (com receitas e tudo conforme as leis). Verifiquei que comercializam e entregam vários medicamentos para tratamento de doenças sexualmente transmissíveis (herpes, gonorréia, por exemplo) e sob encomenda o TRUVADA, bastando a pessoa informar o e-mail no site e aguardar o contato da empresa. Peço licença ao proprietário deste blog para informar o link do site, que segue abaixo, para quem se interessar e verificar a segurança e idoneidade da mesma::

LINK: https://track.healthtrader.com/track.php?c=cmlkPTc5NDMxNSZhaWQ9NDQ1MDc0Njk

Alex
Visitante
Este ano fará 3 anos que tenho o vírus, hoje ocorreu o “baile anual da Amfar”, nenhum post do JS sobre, referência sobre o assunto no Brasil. Por quê? Presumo que nada de “interessante” deve ter havido. Mas durante esse tempo que tenho estado com o vírus, já ouvi várias vezes a tão falada descoberta da “cura em 2020”, pela própria Amfar, que depois, estranhamente foi tratada com um não é bem assim, falando que esse prazo seria a expectativa para achar um caminho para a cura (mas no caminho não já estamos há algum tempo?), o ano já se… Ler mais »
caio
Visitante

faço uso da sua mesa reflexão, exceto alguns pontos referente a cura

Paraense
Visitante

Por isso já não espero cura alguma pois seremos vistos apenas como mero consumidores dos produtos dessas empresas. Como poderei acreditar num tratamento mensal se isso implica em queda no faturamento de quem produz a medicação ???.

caio
Visitante

exato, compartilho da mesma opinião…cruel porém é a realidade

Arthur
Visitante

É possível pedir ao meu infecto a troca do meu esquema (Dolutegravir + Tenofovir + Lamivudina) por algum desses dois citados na matéria (Juluca e Bictegravir)? E vale a pena essa troca ou não muda muita coisa em relação a toxicidade?

Life
Membro
Arthur, A composição do Juluca é dolutegravir + rilpivirine, é só deve ter tomado por quem está indetectável a pelo menos 6 meses. O seu esquema atual já contém Dolutegravir. Já o BIKTARVY (nome correto) é composto de bictegravir, emtricitabine e tenofovir alafenamide, e pode ser utilizado para que irá iniciar o tratamento. Foi publicado um estudo ano passado comparando a eficácia dos dois – você pode ler aqui http://www.catie.ca/en/treatmentupdate/treatmentupdate-222/anti-hiv-agents/bictegravir-vs-dolutegravir Não tome apenas o estudo como única base de decisão, converse com seu médico. Eu conversei com meu médico sobre efetuar a troca, atualmente uso Genvoya. Ela me orientou não… Ler mais »
Allpiste
Visitante

Você está no Brasil? Importa o Genvoya? Conseguiu o caminho da importação com seu infectologista ?
Obrigado. Allpe
Allpiste@outlook.com

Allpiste
Visitante

Boa tarde. Você está no brasil Life? Suas colocações são pertinentes. Gostaria de trocar informações com você sobre medicamentos e caminho para importação.
obrigado.
Allpe -AJ
Allpiste@outlook.com