É curioso o quanto a gestação, o parto e o próprio nascimento estão tão ligados à Medicina como sua grande orientadora e salvadora. Como pai, agora, e como alguém que vive com HIV, nunca estive tanto em contato com médicos quanto nos últimos nove meses, ao lado de minha grávida mulher, com visitas, ao longo da gravidez, cada vez mais frequentes aos especialistas, ginecologistas, obstetras, neonatologistas e tantos outros. Todos eles, num crescente de uma orquestra, culminando juntos no ato sublime do parto, o nascimento de meu filho, regido por estes tantos profissionais, excelentes em suas especialidades e, ali, concentrados cada qual em seu instrumento, girando dançantes ao redor do palco principal: a vagina, deitada sobre a maca central, bem iluminada pelos focos de luzes do estéril centro cirúrgico.

Foi ali, naquele centro iluminado, sob os gritos rítmicos de força da protagonista do espetáculo, que emergiu a pequenina cabeça cheia de cabelos de meu filho, meu bebê. Mais um grito da mãe, estridente como em uma ópera, para que o mais jovem integrante daquele coro adentrasse, sem choro, mas arrancando lágrimas de boa parte da emocionada plateia. Com o cordão umbilical ainda pulsando ritmadamente, meu filho repousou no colo de sua mãe, em seu primeiro contato com o mundo, e mamou, ainda com rastros do sangue materno por cima de sua pele. De olhos tão abertos, ele nos olhou, profundamente, piscando suavemente e com satisfação a cada deglutição da mamada.

No ato final, veio a placenta, trazendo consigo um resto considerável de sangue e, também, os cumprimentos dos médicos, entre si e comigo, enquanto até fotografavam todos os ali presentes, incluindo os atores principais, entretidos profundamente em seu primeiro enlace mundano. Fez-se um silêncio, e, com um esticar dos braços e seu dedinhos, meu filho repousou a pequena palma de sua mão sobre meu dedo indicador, apartando-o, com toda sua força, envolvendo quase todo meu dedo, em sua mais profunda confiança, num reflexo comum da nossa espécie, chamado de “preensão palmar”. Senti amor e senti o seu amor, enquanto uma das enfermeiras sacava mais uma foto daquele momento tão precioso.

No fim, é como se uma das primeiras demonstrações de amor que podemos experimentar decorresse totalmente de um reflexo ancestral, físico e, no fundo, genético. É como se fôssemos programados para sentir tal amor diante de tamanha confiança e dependência, por um lado, e, por outro, como se a importância do mundo em que estamos, vivemos e experimentamos não pudesse ser colocada em segunda instância. Vivemos aqui, no mundo físico, que é tão importante para nossa existência.

Com aquele agarrar dos dedos de meu filho, tão pequenos envolvendo meu dedo indicador, percebi que o amor é algo deste mundo. O genético é divino e o divino é genético. É coisa real que faz parte desse mundo. Um amor e, também, parte de um instinto de sobrevivência.

A porta se fechou com a despedida da médica, antes de todos nos deixarem a sós, meu filho, minha esposa e eu, no quarto do hospital. O recém nascido dormia no pequeno berço ao lado de sua mãe, desfalecida de cansaço pelo épico trabalho de parto — um processo tão natural e intrínseco da sobrevivência da nossa espécie, inteiramente realizado dentro de um hospital, com uma recepção que se começa quase como um atendimento de emergência.

Lembrei da última vez que visitara um pronto-socorro. Era janeiro de 2011 e eu acabara de começar o tratamento antirretroviral, com Kaletra a Biovir, seguindo a recomendação do meu então médico infectologista, Dr. O. Adentrei o pronto-socorro com as mãos sobre a boca. Os vômitos incessantes, decorrentes do efeito colateral que sofria, para além da incurável diarreia, me deixavam ainda mais fraco e, também, preocupado com a possível perda da próxima dose dos medicamentos, quem sabe, desengolidos na próxima vomição. O infectologista enfatizara, talvez até demais, da importância da adesão e de não perder uma única dose da terapia, sob o risco de comprometer seriamente todo o tratamento. Ele enfatizara também sobre os efeitos colaterais, que naquela altura eu experimentava os piores e, inclusive, em decorrência destes mesmos efeitos, da possibilidade de ter de ir ao hospital, onde finalmente eu estava. O médico ainda disse que, nesse caso, eu deveria lhe telefonar — mas ele nunca atendeu.

Foi na sala de espera daquele hospital, em 2011, já depois de passar pela triagem, que sentou-se ao meu lado uma jovem mulher, bem jovem, de traços orientais, com os mesmos sintomas que eu experimentava: vômitos incessantes. Sua tia e irmã a acompanhavam, quando a conversa entre elas começou.

“— E agora, tia?”, disse a jovem. “O que eu faço?! Minha mãe vai me matar!”

“— Não é hora de pensar nisso”, disse a tia, “mas no filho ou filha que você vai ter.”

A jovem acabava de descobrir que estava grávida e, emotiva, lamentava seu descuido com a camisinha. Em silêncio ao seu lado, ressentindo o desconforto abdominal causado pelo Kaletra e Biovir, me identifiquei com essa parte da sua lamúria. E me ocorreu ali, por acaso, que, caso a jovem não optasse pelo aborto — uma opção que me parece tão justa quanto a PEP, a profilaxia exposição — seu diagnóstico, de gravidez, trazia outra coisa parecida com o meu, de soropositivo: ambos são, para sempre, eternos. Não são?

O que ainda eu não sabia ainda é que, tivesse optado por prosseguir com sua gravidez, essa mesma jovem visitaria considerável quantidade de médicos em grande frequência, terminando esse processo, assim como eu experimentei agora, na orquestra médica  na sala de parto do centro cirúrgico. Por que a Medicina está tão presente em nossas vidas?

Foi no caminho de volta para casa que desdenhei do diagnóstico da jovem oriental. “Mal sabe ela do meu diagnóstico!”, pensei comigo, considerando que a sua gravidez, embora possivelmente grave para alguém tão jovem quanto ela, em nada se compararia ao meu então recente diagnóstico, de soropositivo para o HIV. Nada poderia ser mais sério do que o que eu experimentava. O pesar no coração da jovem só poderia ser exagero, de alguém tão inexperiente diante das gravidades da vida, mesmo grávida, num paralelo que parecia não poder concorrer com o vírus, muito embora possam haver semelhanças.

A primeira semelhança entre o HIV e a gravidez, me parece, está na concepção. Foi William Harvey, um médico britânico que ficou famoso por ser o primeiro a descrever a circulação sanguínea e a presumir a existência dos vasos sanguíneos capilares, que usou essa palavra, pela primeira vez, para se referir à reprodução humana. Sem compreender bem o nosso sistema reprodutor, como era comum à sua época, Harvey concluiu que o bebê era concebido pelo útero materno, da mesma forma que o cérebro concebe uma ideia ou um conceito. (Pelo menos, é isso o que dizia o livro que repousou algumas semanas ao lado da cabeceira de minha cama.) O fato é que a concepção da infecção pelo HIV requer uma das mesmas premissas da concepção de um bebê: o sexo sem camisinha.

A voluptuosidade do sêmen, em contato com a umidade da parede vaginal, também deve ter sua parcela. Parece razoável concluir que, quanto mais sêmen, maior a chance de gravidez e, também, maior a chance de infecção pelo HIV, muito embora os médicos e sanitaristas enfatizem, provavelmente corretamente, que o fluído pré-ejaculatório é suficiente para os dois, ou para qualquer um deles: é possível engravidar e/ou se infectar com apenas um pouco de sêmen.

Não obstante, há campanhas para prevenção do HIV, mas não há para prevenção da gravidez — pelo menos, não no Brasil, diferentemente de outros países. Se as maternidades continuam cheias, o que vi com meus próprios olhos, não temos uma clara falha nas campanhas de prevenção ao HIV pelo uso da camisinha? Bebês continuam a vir ao mundo, sem que a antiga vergonha pela concepção recaia tanto sobre seus pais, concentrando-se, agora, possivelmente, naqueles que concebem a infecção pelo HIV. Se não há mais pecado no sexo para ter filhos, haveria no sexo sem camisinha com quem vive com HIV, mesmo sob tratamento antirretroviral e com carga viral indetectável, intransmissível?

As grávidas da era vitoriana, e até mais recentemente no Brasil, que ocultavam a gestação debaixo de vestidos recheados de tantos panos, protegendo-se daqueles que lhes apontariam o dedo clamando vergonha pelo seu ato pecaminoso, parecem ter dado lugar aos soropositivos de hoje, ocultos sob o silêncio ou sob pseudônimos, que escondem a condição sorológica e concebem filhos tal como soronegativos — assim como eu fiz, revelando a poucas pessoas a minha sorologia.

“– Sua vida nunca mais será a mesma”, me disse o Dr. Esper, assim que lhe enviei a foto do mão de meu filho em preensão palmar.

O médico nunca havia me dito isso, sequer em relação do diagnóstico positivo, sequer em relação ao tratamento antirretroviral. Apesar dos paralelos e semelhanças, o HIV não mudou minha a vida. A paternidade sim.

Anúncios

“Um número crescente de pacientes com HIV vivem agora o suficiente para acabar sofrendo com cânceres ‘incidentais’, observados na população em geral” — é assim que começa o artigo que li no Cancer Therapy Advisor, nos últimos dias, depois de saber que o companheiro de um médico pediatra que visitamos com meu filho, homossexual e soropositivo, faleceu em decorrência de um câncer no fígado. Essa notícia levanta a questão: afinal, enquanto ficamos mais velhos e continuamos com HIV, corremos mais riscos em relação à outras questões de saúde? Quem é o responsável por essas intercorrências de saúde: o HIV, os antirretrovirais ou a inflamação crônica, baixa porém persistente, decorrente do HIV e não resolvida por esses medicamentos?

É verdade, e o artigo que li o confirma, não sofremos mais com os cânceres tipicamente definidores de aids, que assolavam as pessoas com HIV no começo da epidemia. São três estes principais cânceres, típicos de sistemas imunes totalmente devastados: sarcoma de Kaposi, linfoma agressivo de células B e câncer invasivo do colo do útero — estes eram vistos com grande frequência quando a aids foi observada pela primeira vez. O declínio significativo destes cânceres, chamados de “cânceres relacionados à aids” é atribuído à terapia antirretroviral combinada de três medicamentos, que foi desenvolvida em meados dos anos 90 e que segue sendo aprimorada ainda nos dias de hoje.

“É uma história complexa”, disse Robert Yarchoan, chefe da divisão de malignidade de HIV e Aids no National Cancer Institute, em Bethesda, Maryland, e coautor de uma recente revisão de cânceres associados ao HIV no The New England Journal of Medicine. “Com a queda dramática nos casos de câncer que definem a aids, vários de meus colegas pensaram que o câncer estaria desaparecendo como um problema em pacientes com HIV.” No entanto, embora o número de casos de cânceres associados à aids tenha se mantido relativamente estável nos Estados Unidos por duas décadas, ele disse que a incidência de outros tipos de cânceres está aumentando, uma vez que as pessoas que vivem com HIV agora vivem mais — mais tempo de vida e mais tempo com HIV, com antirretrovirais e com inflamação crônica.

A proporção de indivíduos infectados pelo HIV que desenvolvem complicações relacionadas ao câncer ou morrem de câncer permanece indeterminada, mas, de acordo com um estudo francês, esta é atualmente a principal causa de morte entre pessoas com HIV. Mesmo assim, por alguma razão, muitos médicos evitam oferecer terapias convencionais para tratar o câncer desses pacientes. Segundo o Dr. Yarchoan, esta disparidade na oferta de tratamento, é uma realidade que lentamente vem ganhando reconhecimento na comunidade médica.

 

Foto de 1987, por Alon Reininger, intitulada “Ken Meeks, Paciente com Aids”

 

Se no começo da epidemia de aids é verdade que muitos pacientes estivessem frágeis demais para suportar a intensidade da quimioterapia, o fato é que, hoje, com os antirretrovirais, este não é mais o caso. “Muitos pacientes com câncer e HIV podem tolerar a quimioterapia tão bem quanto indivíduos não infectados”, disse o Dr. Yarchoan.

Richard Ambinder, PhD, diretor da divisão de neoplasias hematológicas no Hospital Johns Hopkins, em Baltimore, Maryland, concorda com essa afirmação. “Não tratar pacientes infectados pelo HIV que desenvolvem câncer com quimioterapia é um problema real”, disse ele. “O HIV deve ser visto como uma doença crônica, que, tal como o diabetes, traz outras doenças que precisam ser abordadas, mas não devem impedir o tratamento do câncer”.

Em fevereiro, a National Comprehensive Cancer Network (NCCN) adotou medidas para remediar essa “disparidade no tratamento do câncer”, publicando as primeiras diretrizes de tratamento para pessoas vivendo com HIV que depois foram diagnosticadas com câncer. De acordo com os dados mais recentes, estima-se que, em 2010, 7760 pacientes com câncer e HIV foram 2 a 3 vezes menos propensos a receber cuidados apropriados para o câncer. Por isso, as diretrizes do NCCN exigem que os médicos tratem esses pacientes com as mesmas terapias contra o câncer oferecidas a indivíduos soronegativos. Eles também pedem aos médicos trabalhem com oncologistas e especialistas em HIV para gerenciar interações medicamentosas potencialmente tóxicas entre fármacos contra o câncer e os antirretrovirais antes de iniciar a terapia.

“Tratar as pessoas que vivem com o HIV para o câncer é uma preocupação relativamente nova”, escreveu Robert Carlson, diretor executivo da NCCN, em uma declaração publicada em 2011. “É tanto um testemunho do sucesso dos tratamentos para o HIV nos últimos anos e um lembrete que a busca por resultados mais saudáveis ainda ​​está em andamento.”

Entre os cânceres mais comuns que não definem aids em indivíduos infectados com HIV estão o de pulmão, fígado, anal e linfoma de Hodgkin. Destes, o câncer de pulmão ocorre não só em frequência crescente, em comparação com a população em geral, mas também está frequentemente presente numa em uma fase mais avançada da doença. Este maior risco do câncer de pulmão em pessoas com HIV não é compreendido. “Não sabemos se a infecção pelo HIV aumenta o risco de câncer de pulmão ou se altas taxas de tabagismo ou outras exposições aumentam o risco, ou ambos”, disse o Dr. Ambinder.

 

Oncovírus

 

Muitos cânceres associados ao HIV, incluindo aqueles rotulados como cânceres definidores de aids, se desenvolvem com a ajuda de oncovírus — vírus que têm a capacidade de alterar as células infectadas induzindo o desenvolvimento de algum tumor. Alguns oncovírus, mas nem todos, podem ser transmitidos sexualmente.

Segundo Ambinder, o sarcoma de Kaposi, por exemplo, requer a coinfecção com um vírus da família do herpes associado ao sarcoma de Kaposi, descoberto em 1994. Embora este vírus possa ser transmitido principalmente através da saliva, a razão dos homens que fazem sexo com outros homens constituírem o grupo mais alta prevalência desta enfermidade ainda não é compreendida. “É como fumar”, disse o Dr. Ambinder. “Muitas pessoas fumam, mas a maioria dos fumantes não tem câncer de pulmão”.

“A questão é: depois de um indivíduo com infecção pelo HIV ser tratado com medicação antirretroviral e alcançar a supressão viral ele fica totalmente saudável?”, pergunta Jeffrey Martin, epidemiologista e médico da Universidade da Califórnia, na Escola de Medicina de São Francisco. “Nós não sabemos a resposta ainda.” O que os pesquisadores sabem, disse ele, é que, ao medir biomarcadores específicos no sangue de indivíduos infectados pelo HIV e aqueles sem essa infecção, “as pessoas infectadas pelo HIV têm muito mais anormalidades químicas”, especialmente relacionadas à inflamação. Em geral, as pessoas infectadas pelo HIV também têm mais oncovírus do que a população sem HIV, principalmente os oncovírus que são sexualmente transmissíveis. “Se e como essas anormalidades químicas se traduzem em doença é o que os pesquisadores estão tentando entender.”

 

CD4

 

Mesmo as contagens de CD4, um marcador sanguíneo da força imune, considerado o mais forte preditor da progressão do HIV, podem ser um fator em alguns, mas não em todos os cânceres que não definem a aids, explica Martin. Embora, é verdade, quanto maior o dano causado pelo HIV nessas células imunológicas, mais provável é que um câncer se desenvolva, o fato é que esta diferença de risco ainda é pequena e nada parecida com a dizimação observada nos cânceres que há muitos anos definiam a aids. “Pode ser que uma baixa contagem de CD4 há seis anos seja o impulso para o desenvolvimento de um câncer de pulmão seis anos depois”, disse ele. Por outro lado, “baixos números de CD4 se podem se traduzir em sarcoma de Kaposi em meses.”

Surpreendentemente, talvez, as pessoas que vivem com HIV não viram um aumento, até agora, na incidência dos cânceres mais comuns: câncer de mama, próstata e cólon. O Dr. Martin sugeriu que a razão para isso pode estar nas diferenças biológicas entre esses e outros tipos de câncer. “O HIV não é um estimulante geral para centenas de diferentes tipos de câncer”, disse ele. O Dr. Yarchoan, no entanto, sugeriu outro motivo: “minha opinião é que o controle imunológico pode não ser tão importante no desenvolvimento inicial desses cânceres”.

O ponto principal, segundo o Dr. Yarchoan, é que soropositivos são hoje menos acompanhados em relação ao câncer do que a população em geral, provavelmente porque os médicos estão se concentrando mais no HIV e acreditam que o câncer é uma ameaça distante nesse grupo de pessoas, ao qual estamos incluídos. Agora, com o aumento da nossa expectativa de vida, isso precisar mudar.

A Nota Informativa Nº 03/2018, do Departamento de Vigilância, Prevenção e Controle das IST, do HIV/Aids e das Hepatites Virais (DIAHV), da Secretaria de Vigilância em Saúde (SVS) e do Ministério da Saúde (MS), publicada nessa terça-feira (10), apresenta as recomendações de substituição de esquemas de terapia antirretroviral contendo inibidores da transcriptase reversa não-nucleosídeos ou inibidores de protease para esquemas com Dolutegravir para tratamento de pessoas vivendo com HIV, maiores de 12 anos de idade com supressão viral.

As recomendações para a substituição levam em consideração que as pessoas que estão com carga viral indetectável e bem, não precisam e não devem fazer a substituição do seu esquema atual. Entretanto, aquelas que estejam com carga viral indetectável, mas às custas de eventos adversos e toxidades indesejáveis com o seu esquema atual, podem se beneficiar da troca.

A substituição, portanto, somente deverá ocorrer nas situações em que há vantagens relativas na diminuição de eventos adversos, na melhoria da adesão da pessoa, menor interações medicamentosas ou possibilidade de uso em determinadas comorbidades em relação ao seu esquema atual de TARV.

As recomendações e os critérios necessários para a substituição de esquemas de TARV por esquemas com Dolutegravir são as seguintes:

  1. Pessoa vivendo com HIV maior de 12 anos de idade;
  2. Avaliação individualizada e criteriosa da necessidade e dos benefícios envolvidos na substituição, uma vez que pode expor a pessoa vivendo com HIV a eventos adversos desnecessários;
  3. Pessoa vivendo com HIV em tratamento antirretroviral com supressão viral (CV indetectável) nos últimos seis meses;
  4. Pessoa vivendo com HIV em uso de esquemas com Efavirenz ou Nevirapina, sem falha virológica prévia;
    • pessoa vivendo com HIV em uso de primeiro esquema (sem uso prévio) de tratamento antirretroviral contendo Efavirenz ou Nevirapina;
  5. Pessoa vivendo com HIV em uso de esquemas com Atazanavir/Ritonavir ou Darunavir/Ritonavir ou
    • Lopinavir/Ritonavir, sem falha virológica prévia;pessoa vivendo com HIV em uso de primeiro esquema (sem uso prévio) de TARV contendo IP/r; ou
    • pessoa vivendo com HIV em uso de esquema atual com IP/r, que tenham realizado a troca do efavirenz ou nevirapina para IP/r por intolerância e/ou eventos adversos (não por falha virológica).

Fonte: Departamento de Vigilância, Prevenção e Controle das IST, do HIV/Aids e das Hepatites Virais

Quem depende do Biovir e do Raltegravir para lutar contra o HIV está em alerta. A quantidade atual dos dois medicamentos está insuficiente. A infectologista Mylva Fosi, do Programa Municipal de DST/Aids, afirmou, na manhã desta sexta-feira, durante a reunião ordinária do Fórum de ONGs Aids de São Paulo, que a previsão é de que o estoque dure apenas até o dia 10 de maio.

O diretor do Programa Municipal de DST/Aids, Artur Kalichman, afirmou que já entrou em contato com o Ministério da Saúde alertando que o estoque está muito curto. A justificativa é de que um dos componentes químicos destes medicamentos são fornecidos por fábricas na China que passaram por problemas técnicos. “A expectativa é de que vamos receber o Biovir antes deste fatídico dia 10”, afirma. Quanto ao Raltegravir, a previsão é de que, no máximo, até dia 27 de abril seus componentes já estejam no Brasil.

Segundo Mylva, a quantidade de Biovir tem sido sinônimo de problema há algum tempo. Ela relembrou que o prazo entre o remédio chegar na Furp (Fundação para o Remédio Popular), o almoxarifado central, e estar disponível para o paciente, leva um tempo. Por isso, ainda está sendo cogitado o fracionamento do Biovir.

Até a normalização do estoque, as novas terapias também acabam sendo atingidas pelo problema. A orientação é de não podem ser iniciados novos tratamentos com esses remédios que estão em falta, sendo necessária a indicação de uma outra terapia.

 

Boa Notícia

Pacientes que tomam o antirretroviral Abacavir relatam muitas reações alérgicas ao medicamento. Esses efeitos colaterais se tornaram um impasse porque o Abacavir é uma alternativa ao AZT e ao Tenofovir .

Mylva explicou que, hoje, já se consegue prever a reação alérgica através de um exame, que não se encontrava disponível para os pacientes brasileiros. A boa notícia é que esse procedimento acaba de ser incluído no contrato de genotipagem e, agora, pode ser realizado no laboratório de genoma, antes mesmo de o paciente iniciar a medicação. “Assim, ele se torna um recurso de diagnóstico a mais que pode facilitar o manejo de outras drogas e trazer opções de terapias aos pacientes”, explica a infectologista.

 

Enfraquecimento do Movimento Social

“O movimento está se perdendo porque não tem ideias consolidadas”, disse Carla Diana, da Articulação Nacional de Luta Contra Aids. Ela ressaltou que é importante fortalecer o movimento não apenas enquanto corpo, mas enquanto fonte de iniciativas e ideias. “É importante lembrar que este espaço é um local de participação política. Ás vezes se torna um espaço para preencher cadeira. Quando algum membro representa o Fórum em um evento externo, é a voz dessas organizações que está em pauta” completa.

Rodrigo Pinheiro, presidente do Foaesp também argumentou afirmando que é preciso ter o cuidado de ir para esses eventos representando um grupo, porque alguns mas acabam levando pautas individuais.

Para tanto, Margarete Preto, do Projeto Bem-me-Quer sugeriu que uma saída possível seja a articulação prévia aos eventos para que os ativistas possam se organizar e se posicionar, levando pautas mais pertinentes nos encontros nacionais e também até governo.

“Independente de esquerda ou direita a briga político-partidária é um lugar perigoso. Ela faz com que as principais pautas se percam. Alguns problemas são de outras gestões, de outros governos. A gente tem a prática do que é viver com aids e temos a possibilidade de mudar e seguir em frente”, finalizou Cláudio Pereira, do Grupo de Incentivo à vida.

 

Próximos Desafios

Também foi destaque na reunião, a aposentadoria de pessoas vivendo com HIV. Ficou estipulado que cada uma das ONGs do Fórum fará levantamento para saber como estão sendo feitas as chamadas para perícia no INSS, já que muitas pessoas estão sendo desaposentadas.

Neste cenário de desafios, Artur Kalichman expôs sobre o número de mortes por aids em São Paulo. “Não era para mais ninguém ter aids, muito menos morrer da doença. Hoje, morrer de aids representa uma falha.”

No últimos 10 anos, os casos de aids começaram a cair entre gays brancos. No entanto, entres gays negros, os índices continuaram a subir. A vulnerabilidade também fica evidente no número de mortes por aids neste mesmo período. Enquanto o índice caiu para aqueles que são brancos, o número de mortes permaneceu estável para a população negra.

Em São Paulo, estima-se que 218 mil pessoas vivem com HIV. Desse total, 184 mil já foram diagnosticadas, mas apenas 117mil estão com carga viral suprimida. Isso significa que o desafio maior é saber porque as pessoas que já sabem que estão infectadas, não estão sendo atingidas e se mantendo na rede de saúde.

Além disso, Artur relembrou a importância de se trabalhar com o público heterossexual. 81% das pessoas que morreram de aids nos últimos 10 anos eram heterossexuais. Essa informação pode ser explicada pela falsa premissa de que somente homossexuais contraem HIV, tornando a doença ainda mais estigmatizante.

 

Por Um Brasil Sem Hepatites

A reunião também foi oportunidade para o lançamento oficial a Revista Por Um Brasil sem Hepatites, produzida pelo Projeto Bem-Me-Quer em parceria com a Agência de Cooperação Internacional – Coalition Plus da França.

A revista contém um conjunto de informações sobre a resposta governamental no combate a Hepatite C em três municípios do estado de São Paulo (Santos, Sorocaba e a capital), além de dados epidemiológicos, cartografia social de usuários dos serviços de saúde, articulação política e ativismo internacional.

O objetivo do projeto é que todas essas ações e estratégias possam ser um modelo norteador para que outras Secretarias de Saúde e outras ONGs de todo Brasil aprimorem suas estratégias de atenção a esse agravo e qualificar a resposta.

Fonte: Agência de Notícias da Aids

“Quando escrevi o texto Recorte o seu HIV percebi que este soou um tanto otimista para alguns leitores. Entretanto, sustentar uma visão otimista desvinculada da realidade nunca foi minha intenção. Sou partidário do realismo, sem poliana, como disse um leitor. Convencer os outros também nunca foi minha pretensão. Penso que recortar o HIV do seu espaço e tempo é medida concreta, realista e necessária.

Olhar para ele com os olhos do passado é um erro, mas, ainda assim, é uma opção pessoal. Não é a minha escolha particular. Mas pode ser a sua. Afinal, é você quem decide como interpretar essa questão íntima. Contudo, me senti em débito com aqueles que leram o texto. Afinal, se o vírus e a contaminação não foram capazes de impedir uma análise “otimista”, então o que seria? O Dólar. Minha resposta é: o Dólar. Mas por que?

Vou tentar percorrer um caminho de reflexão lógica — e, ao mesmo tempo, me manter calmo para não passar mal do estômago. Se você estivesse aqui, acho que me apoiaria em você para entrar nesse percurso escuro, porque vou lhe apontar uma monstruosidade horrenda, abjeta, vil e repugnante. Algo que eu tenho medo, que drena quase todas as minhas esperanças, porque é apenas a unha desse animal fétido e asqueroso. Então me ajude. Me dê licença, vou apertar a sua mão e pode doer. Sigamos.

Você já deve ter ouvido falar da CROI. É uma das mais importantes conferências do mundo sobre o HIV. Ocorre uma vez por ano e tem enorme repercussão mundial na área. Profissionais das melhores universidades do mundo e pesquisadores das mais importantes farmacêuticas são convocados para palestrar nesse evento. Recentemente, na CROI 2018, que ocorreu no mês de março, em Boston, houve a apresentação de uma pesquisa desenvolvida em Harvard: trata-se de um estudo absolutamente inédito e que chegou a um estágio em direção à cura que nenhum outro estudo chegou. Gerou um inédito precedente científico. Com uma combinação de dois anticorpos monoclonais amplamente neutralizantes, o PGT121 e o Agonist GS-9620, os quais conseguiram a supressão viral sem utilização de antirretrovirais, só com os anticorpos, e por longo prazo, em um grupo de macacos Reshus infectados com o s-HIV, similar ao HIV humano. Isso nunca foi alcançado antes. Os estudos foram conduzidos em Harvard sob a liderança do médico Dan Barouch. Essa pesquisa, aliás, está em andamento.

A questão é que, uma das empresas que lidera o aporte financeiro para essa pesquisa e várias outras, é a Gilead Sciences, uma das maiores empresas do mundo que desenvolve medicamentos para tratar a infecção pelo HIV. Obviamente, pelo porte empresarial, trata-se de uma S/A, de capital aberto, isto é, uma empresa que possui ações na bolsa de valores, principalmente na bolsa Nasdaq, em Nova York, a maior bolsa de valores do mundo.

Pois bem. Apenas para se ter uma ideia, essa empresa faturou, em um ano comum, 14 bilhões de dólares com a venda de medicamentos antirretrovirais no planeta. Vamos lembrar, para não vulgarizar os números, que 1 bilhão equivale a 999 milhões de dólares, mais 1. A Gilead arrecadou 14 bilhões de dólares em 12 meses. Isso só é possível graças à estratégia da empresa, que consiste em financiar grupos de pesquisas, geralmente ligados à universidades, e comprar os direitos sobre a pesquisa. Em seguida, realizam os registros desses domínios científicos formalizando as patentes dos medicamentos. E vem fazendo isso há anos, assim como suas concorrentes.

Porém, ocorreu um caso emblemático na história recente dessa empresa. Durante anos ela investiu milhões de dólares em pesquisas para o desenvolvimento de medicamentos contra a Hepatite C. Investiu muito e arrecadou uma fortuna gigantesca. O modelo de financiar pesquisas e registrar patentes foi tão bem-sucedido que, após alguns anos, conseguiram um feito inédito contra a Hepatite C: desenvolveram um medicamento que promoveu a sua cura. Sim. A cura. A Gilead Sciences conseguiu esse feito maravilhoso para todos os seres humanos — uma conquista notável, meritória, honrosa e que recebeu elogios de todo o mundo. Exceto do mercado financeiro.

Com a cura, os pacientes passaram a ficar independentes dos medicamentos para essa enfermidade que, até então, era crônica e demandava medicamentos de uso contínuo. Assim, apesar dos bilhões arrecadados nos primeiros anos, o gráfico de arrecadação passou a diminuir à medida em que os pacientes se curavam; com os anos, menos pacientes passaram a comprar o medicamento. Esse gráfico do declínio no lucro está, nesse ano, em uma curva descendente se comparado com os anos em que a doença era crônica.

E os investidores da empresa, que compram suas ações na bolsa de valores, perceberam que a Gilead Sciences diminuiu o lucro sobre esse medicamento à medida que os anos passaram. O mercado consumidor do medicamento reduziu à proporção em que as pessoas se curaram. Basicamente, do ponto de vista puramente financeiro, a ação da empresa passou a valer menos na bolsa de valores, pois ela já não lucra tanto quanto na época em que a doença era crônica e a venda dos medicamentos contínua.

Dessa forma, para o mercado financeiro, a cura não foi o melhor negócio para a empresa, embora tenha gerado um inestimável benefício para a vida dos pacientes e para a humanidade. Diante disso, a questão que se coloca é: em nosso mundo, vale mais o bem que se realiza para a humanidade ou os dólares que se arrecadam? Infelizmente, a resposta é até dispensável, de tão óbvia. Estamos começando a ver a primeira imagem, ainda fosca, daquela anomalia bizarra, abjeta e repugnante que mencionei no começo, quando pedi a sua mão porque estava com medo. O cheiro de enxofre é forte e a náusea já me toma conta. Mas, sigamos.

Ver a especulação financeira em risco é algo tão perturbador para o mercado que uma importante corretora de valores, com milhares de investidores nos EUA, e que emite análises semanais do mercado cambial americano e mundial — a Motley Fool — publicou, em 8 de março desse ano, um artigo sobre a Gilead Sciences afirmando que: “as vezes a cura é pior do que a infecção”. Segundo o autor, de grande influência no mercado americano, esse aforismo poderia ser aplicado à Gilead Sciences por ter encontrado e disponibilizado a cura da Hepatite C. Ao que parece, para o analista, ao invés de curar as pessoas, a saída poderia ser manter o ser humano enfermo e poder lucrar com isso, ano após ano, morte após morte. E o que isso tem a ver conosco?

Como sabemos, o HIV ainda não tem cura. Nem funcional, nem esterilizante. No entanto, não há como negar que o caminho é promissor. Há várias frentes de pesquisa sendo desenvolvidas no mundo, em diferentes universidades. E a Gilead Sciences patrocina grande parte deles. Em tempo: você leu sobre o excelente congresso que ocorre em abril de 2018, na USP, sobre patogênese do HIV? O folder está no blog. Tenha a curiosidade de verificar quem são os patrocinadores do evento, no site do evento. Voltando. Como disse acima, essa empresa financia parte daquele estudo sobre os anticorpos neutralizantes, que parece ser um dos mais promissores até hoje. Além de muitos outros pelo mundo.

Ocorre que a situação do HIV hoje lembra muito ao mercado financeiro o episódio da cura da Hepatite C. E sob o aspecto puramente financeiro e mercantil, a cura do HCV (Hepatite C) não foi bem vista no mundo financeiro. O mercado está atento aos movimentos dessa importante farmacêutica mundial. Tanto que, em outro artigo, citando expressamente o resultado inédito das pesquisas com anticorpos monoclonais divulgadas no CROI 2018, a agência Motley Fool novamente pressionou a Gilead Sciences perante os investidores. Apresentou aos clientes uma análise de investimentos intitulada: “Estaria a Gilead tentando se colocar fora do mercado?”. E, no início do texto, o mais assustador: “Você acha que a Gilead Sciences aprendeu a lição sobre a Hepatite C, em que curar pacientes está fazendo com que a receita da empresa diminua à medida que cada tratamento bem-sucedido resulta em um mercado menor de pacientes para trabalhar. Mas está de volta com uma cura potencial para o HIV.” Só um pouco. Vou ali vomitar e já retorno.

Atualmente, no mundo, duas grandes empresas lideram e rivalizam, dólar a dólar, o mercado de antirretrovirais para o tratamento do HIV. São elas: GlaxoSmithKline (GSK) e a Gilead Sciences. Esporadicamente alguma outra empresa disputa no chão lamacento alguma moeda caída desse duopólio. No entanto, se efetivamente não houver nada no subterrâneo; se não existir um esgoto fétido ligando essas duas grandes empresas, temos que agradecer a existência de uma concorrência no mercado. O fato de não existir apenas uma empresa no domínio, muda completamente o cenário para nós, desde que isso seja real. E tudo indica que é.

Na verdade, essa disputa gera uma verdadeira corrida para quem consegue o medicamento mais rentável. Ocorre que este medicamento, nos dias atuais, para vender mais, precisa ser mais eficiente, com menos efeitos e com melhor posologia. E esse caminho vai se estreitando, porque as patentes vão vencendo, os genéricos entram no mercado, diluem os lucros, até que a disputa esteja com medicações extremamente eficazes e busquem a cura, etapa que estamos atualmente. Quem lançar primeiro, fatura mais.

Graças a essa disputa, que ocorre par e passo entre as empresas, temos, todos os anos, vários medicamentos novos e mais eficazes sendo aprovados nos EUA pelo FDA (Food and Drug Administration), e que acabam chegando aos pacientes do Brasil, ainda que com considerável atraso. Confira-se, por exemplo, a disputa de mercado que existe entre os mais recentes medicamentos para pacientes naïve (virgens de tratamento) entre a GSK e a Gilead. O medicamento Juluca vs. Bictegrvir. O Juluca é da GSK. O Bic é da Gilead. Esses medicamentos são absolutamente revolucionários do ponto de vista da toxicidade a longo prazo. Praticamente são atóxicos e sem efeitos, para a grande maioria.

Mas, como eu disse, para isso ser real, ou seja, para que a disputa conduza à cura, deve haver efetivamente a concorrência. É preciso que exista duas ou mais empresas rivais. Nesse ambiente de adversários reais, ainda que haja uma eventual tentativa de acordo para atrasar a cura ou o lançamento de uma nova medicação, a trapaça não é improvável. Afinal, representa lucro. Mas, para todo esse raciocínio fazer sentido, não pode haver uma única empresa. Não pode haver acordo subterrâneo. Não pode haver fraude. E, nesse contexto, reitero, não tenho medo do vírus. Tenho medo do Dólar.

Um grande abraço.
Allpe”