Destaques da CROI 2018

Historicamente, a CROI, Conference on Retroviruses and Opportunistic Infections, se concentra em estudos científicos básicos e pesquisas em fase inicial — e foi assim em 2018 também. Mas, neste ano, a conferência ampliou seu escopo para incluir estudos sobre diferentes estratégias que podem ter algum impacto no contexto da vida das pessoas. Alguns dos principais destaques foram:

Anel de Dapivirina: as mulheres usam quando sabem que funciona

Trata-se de um anel vaginal de silicone que contém o antirretroviral Dapivirina, liberado lentamente ao longo do tempo. Ele foi projetado para ser usado por mulheres ao longo de um mês. Há dois anos, na CROI 2016, os resultados dos estudos Aspire e do Ring Study mostraram que o anel vaginal de Dapivirina é seguro e capaz de reduzir o risco de infecção pelo HIV em cerca de 30% entre as mulheres incluídas no estudo.

Na CROI 2018, dados provisórios dos estudos de extensão, Hope e Dream, mostraram que o anel reduziu o risco em 50%. Nesses estudos, todas as participantes receberam o anel de Dapivirina para usar mensalmente, por até 12 meses. Não houve grupo controlado por placebo e todas as participantes foram informadas sobre os dados de segurança e eficácia do produto.

Jared Baeten, que se apresentou na CROI em nome da equipe de estudo da Hope, observou que os dados do anel são semelhantes aos dados de estudo PrEP OLE: as pessoas se mostraram mais aderentes ao tratamento quando conheciam os resultados positivos dos estudos anteriores. Os dados finais do Hope e do Dream, incluindo as conclusões sobre o bom funcionamento das pessoas que utilizam os aneis de forma consistente, estarão disponíveis entre o final de 2018 a início de 2019.

Vaginas: incríveis e importantes para o HIV

O microbioma vaginal é o grupo natural de bactérias que vive nas vaginas das mulheres e, dependendo da proporção de diferentes bactérias presentes em um determinado momento, as mantém saudáveis, pode nos deixá-las desconfortáveis ​​ou mesmo colocá-las em risco. A relação entre o microbioma vaginal e a aquisição do HIV tem sido um foco em várias conferências sobre HIV. E também foi assunto na CROI.

Nichole Klatt, da Universidade de Washington, apresentou dados sobre o que acontece quando há um desequilíbrio entre bactérias boas e más, uma condição conhecida como disbiose do microbioma vaginal. Quando os pesquisadores examinaram as bactérias vaginais e os diferentes antirretrovirais em estudos de laboratório, in vitro, eles descobriram que microbiomas com um desequilíbrio em relação às bactérias ruins mostraram alguma degradação do Tenofovir e da Dapivirina tópicos. Em outras palavras: pode ser que mulheres com tais desequilíbrios que são aderentes a um microbicida vaginal ou ao anel de Dapivirina possam ainda ter níveis mais baixos do medicamento em seu tecido genital do que o necessário para ter eficácia.

É incrivelmente importante entender como o microbioma afeta o risco de HIV e a saúde vaginal, incluindo a presença de prevenção baseada em antirretrovirais aplicado topicamente. Também é extremamente importante lembrar que esses dados não dizem nada sobre como a PrEP oral, baseada em Tenofovir, funciona em mulheres: a PrEP oral chega às células do trato genital de maneiras completamente diferentes da PrEP tópica. A boa notícia é que, até o momento, dados de estudos em humanos tanto da PrEP oral quanto do anel vaginal de Dapivirina não mostraram nenhuma diferença em termos de efeito em mulheres com vaginose bacteriana. Dados adicionais continuarão a esclarecer essa importante e contínua história. Enquanto isso, o que se sabe é que a PrEP oral funciona perfeitamente bem para as mulheres e que, até agora, não foi encontrada qualquer diferença nos níveis de proteção nos estudos em anel ligados à disbiose.

Mulheres grávidas precisam de prevenção ao HIV

Uma apresentação de Renee Heffron, da Universidade de Washington, trouxe mais evidências de que mulheres grávidas e em pós-parto correm maior risco de infecção pelo HIV. Ela e seus colegas analisaram dados de dois estudos com mais de 2.700 casais sorodiscordantes. Eles descobriram que as mulheres que estavam grávidas ou no pós-parto tinham 3 a 4 vezes mais chances de adquirir o HIV. Nesse estudo, acontecerem 82 transmissões de HIV, equivalentes a 1,62% do total, já excluindo as transmissões que não estavam geneticamente ligadas ao parceiro principal. Todos os parceiros principais das mulheres grávidas deste estudo não estavam sob tratamento antirretroviral. As implicações para o cuidado e a prevenção incluem aconselhamento, mais testes, tratamento para parceiros do sexo masculino e opções de prevenção controladas por mulheres, como a PrEP oral.

Cresce o uso de PrEP, mas as disparidades persistem

O acesso à PrEP foi abordado durante todo o programa da CROI, na medida em que mais dados sobre os programas e o uso da PrEP continuam a se acumular. Resultados de São Francisco e Austrália mostraram um aumento significativo no uso da PrEP e na redução de novas infecções, principalmente entre homens que fazem sexo com homens. Entretanto, em ambos os estudos, as disparidades raciais e étnicas no acesso à PrEP continuam praticamente inalteradas. Uma nova análise dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos, também apresentada no CROI, descobriu que dois terços dos que poderiam se beneficiar da PrEP são afro-americanos ou latinos e, ainda assim, as prescrições de PrEP para essas populações continuam teimosamente baixas. Lacunas no acesso foram observadas em todos os grupos raciais, mas foram mais severas entre as populações não caucasianas.

Indetectável = Intransmissível

Uma reunião da CROI conhecida por anualmente se concentrar em ciência básica abordou, desta vez, a campanha Indetectável = Intransmissível e o seu papel na redução do estigma. Pela primeira vez, houve uma sessão plenária sobre saúde mental, na qual o apresentador Robert Remien, do Centro de HIV para Estudos Clínicos e Comportamentais, da Universidade de Columbia, pediu mais serviços de saúde mental para atingir as metas de 90-90-90.

Produtos que estão a caminho

A CROI deste ano também incluiu uma apresentação sobre outro anel vaginal sem antirretroviral, projetado, para prevenir a infecção por HIV, HSV-2 e HPV e o antirretroviral de ação prolongada da Merck, MK-8591, para prevenir HIV. Dados de estudos em animais se mostraram favoráveis e ambos os produtos estão sendo considerados para o desenvolvimento clínico.

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Fábio+Soares
Visitante

Resumindo: nada de concreto. Nada a favor dos tratamentos para positivos e nada de novo. Um lixo!

Life
Membro

O artigo nem de perto abordou todos os destaques do evento. Não sei o que aconteceu mas quem o escreveu está mal informado.

Teve muita coisa bacana no CROI deste ano, leia neste link https://blogs.jwatch.org/hiv-id-observations/index.php/really-rapid-review-croi-2018-boston/2018/03/11/

Richard
Membro

interessante a parte do TRL7 no seu link. o resto é atualização de estudos de ARVs, resistência, novos ARVs e hora de começar o tratamento…. fora o TRL7, nao sei o q você achou bacana

Positivo SC
Membro

Ah, de repente o que vc não considera bacana seja interessante para outras pessoas. O que importa é que tem novidade e estudo atirando para todos os lados. Uma hora, algum deles atende tuas expectativas, outras, não, mas enquanto houver gente atirando, tá ótimo! Uma hora acertam a cura.

Richard
Membro

talvez você esteja certo. mas note que atualização de estudos de ARVs, resistência, novos ARVs e hora de começar o tratamento não são destaques. São avanços corriqueiros, comuns divulgados em todas as conferências… como eu disse, fora o TRL7, são só pequenos que nao trazem nada de novo de fato. por isso, difícil achar isso bacana. mas, enfim, como eu disse, talvez você esteja certo e tem gente que acha bacana.

Life
Membro
Vários resultados de estudos mencionados neste artigo são de grande importância para aqueles que virão a necessitar de tratamentos alternativos, como para que os cientistas tenham conhecimento adicional sobre o virus. Além disso o CROI trata de outras doenças também, os resultados sobre TB com medicamento no evento são pra lá de bacana, como por exemplo o estudo sobre a TB que o medicamento em estudo previne TB em HIV+ em um mês que comparado a atuais medicamentos levam 9 meses. Realmente o estudo sobre TLR7 é o grande destaque, é o primeiro estudo que mostra de forma efetivas resultados… Ler mais »
Rômulo Monteiro
Visitante

Nossa que radical ! kkkkk…

Antigamente eram poucos estudos e possibilidades… agora que tem um monte simultâneo o cara fala que é “um lixo”…

Henrique
Visitante

Eh meus amigos, se as coisas continuarem nesse passo (devagar quase parando), a cura em 2020 nao vem. Podemos esperar ai ate 2040 e olhe la. Infelizmente é tudo mto devagar quase parando, sao mtas fases, mtas falhas, mas um dia chegamos la. Só Espero estar vivo.

Life
Membro

Desanima não, cada fase, falha, traz muito conhecimento. A quantidade de estudos em andamento é absurda, são inúmeras frentes em paralelo.

Estamos cada vez mais perto.

telma
Visitante

Eu ja estarei mortinha quando vier a cura da aids , sei que so deus sabe mais pelo que sinto tomando anos de antiretrovirais diversos ,sinto meu corpo desfragmentando aos poucos . Não estou aqui pra desistimular ninguem nem deixar ninguem depre mais a realidade do que sinto atualmente tendo hiv a mais de 29 anos

Wellington
Visitante

Telma me manda um email que eu possa falar contigo.

Rômulo Monteiro
Visitante

Não vou dizer que esta errada pois é lógico o que vc passa após todos estes anos com várias TARVs diferentes mas o segredo é a mente ! Se conseguir manter a mente saudável, vc vai tão longe quanto um soronegativo.

telma
Visitante
Romulo a minha mente sempre foi boa e positiva ninguem que pegou o virus antes dos anos 90 tomando quase 20 comprimidos por dia que tive-se a mente ruim estaria vivo ate hoje , O que acontece que nenhum ser humano e nenhum cientista pode prever o que acontecerá depois de 30 anos tomando remedios diarios tao fortes e potentes que sao metabolizados pelos rins e figado e intestino , Nao importa se for dolutegravir ou outros mais velhos os mais novos sao mais perigosos ainda pelo fato de nao serem testados a mais de 30 anos em seres humanos… Ler mais »
Rômulo Monteiro
Visitante
Bem… não sou médico para contra-argumentar mas se meus exames não indicam nada enquanto sinto “os”rins ou intestino” e “não estão funcionando bem”, creio eu que é problema na mente. Ai precisa procurar outro especialista para ajudar além do infecto. Lembrando que argumentam que com DTG + 2em1 podemos viver tanto quando um soronegativo, se vc foi mudando de medicação ao longo dos 29 anos, não foi alterado para o pior, né ? A intenção é achar uma combinação que combata seu virus com o menor efeito colateral possível. Não estou no seu lugar para entender sua situação obviamente mas… Ler mais »
Anderson
Visitante

Boa noite,

Não creio muito na cura mas sim em tratamento mais avançado.

Positivo+
Visitante

Alguém pode tirar minha dúvida?

Tomo o 2×1 há 4 meses, já estou indetectável, não sinto nada de efeito colateral , e meu corpo está como eu sempre quis ( malhado e com pouca gordura), ou seja, está tudo maravilhoso. Minha dúvida eh: será sempre assim , tudo maravilhoso ?

Allpiste
Visitante

Bem vindo à nova geração de medicamentos. Dolutegravir está na frente no Brasil. Bictegravir, que é da mesma família, está no topo nos EUA, juntamente com Juluca. Se aqui adotarem o taf no lugar do fumarato de tenofovir, para composição 2×1, estaremos com um dos melhores esquemas do mundo. Mas já temos algo excelente no esquema 2×1.