O novo diretor do CDC

[dropcap]D[/dropcap]r. Robert R. Redfield, um dos principais pesquisadores de HIV e aids nos Estados Unidos do país e especialista no tratamento de dependência em heroína é o principal candidato nomeado para supervisionar os Centros de Controle e Prevenção de Doenças americano, o CDC, órgão famoso desde o começo da epidemia de aids, por ter identificado os primeiros casos da doença, ainda em 1981 — um pedaço da história da aids muito bem retratado no filme And the Band Played On (1993). De acordo com o New York Times, o anúncio formal sobre o candidato pode acontecer na próxima terça-feira. Se Redfield assumir mesmo o cargo, ele entrará depois da Dra. Brenda Fitzgerald, que renunciou em janeiro, em meio a denúncias de que ela mantinha investimentos em empresas de tabaco e de assistência médica, o que representaria conflito de interesse.

Dr. Robert R. Redfield.

Professor da Faculdade de Medicina da Universidade de Maryland, Redfield fundou o Instituto de Virologia Humana, ao lado de Robert Gallo, conhecido por ter sido um descobridores do próprio vírus da imunodeficiência humana — depois de uma controversa disputa com médicos do Instituto Pasteur da França, Dr. Luc Montagnier e Dra. Françoise Barré-Sinoussi — e, depois, por desenvolver o primeiro teste de HIV. Aos 66 anos de idade, Redfield supervisiona um extenso programa de tratamento para mais de 6.000 pacientes com HIV na região de Baltimore-Washington. Seu instituto já recebeu mais de US$ 138 milhões do próprio CDC para combater o HIV e outros problemas de saúde no Quénia, Nigéria, Tanzânia e Zâmbia.

Em seu currículo, ele tem anos de experiência no tratamento de pacientes com aids e de viciados em heroína, sendo um dos proponente de mais longa data do tratamento médico assistido contra o vício. Formado pela Universidade de Georgetown e pela Escola de Medicina de Georgetown, Redfield fez sua residência em medicina interna no Walter Reed Army Medical Center. É membro do Conselho Consultivo Presidencial de HIV/Aids e recentemente concluiu sua participação no conselho consultivo do National Institutes of Health. De acordo com amigos e familiares, Redfield é um católico praticante, cuja fé desempenha um grande papel em sua vida. Ele é casado com uma enfermeira, Joy, quem ele conheceu enquanto fazia o parto de bebês. O casal tem seis filhos e nove netos.

Entretanto, a ficha de Robert Redfield não é totalmente limpa: Redfield já foi acusado de fraude científica pelo Exército dos Estados Unidos, no início dos anos 90, com relação à pesquisa de vacinas contra a aids. Por conta disso, ele acabou sendo exonerado e, desde então, ficou mais evidente a sua proximidade com a organização Americans for a Sound Aids Policy (ASAP), fundada e liderada pelos ativistas antigays de extrema direita Shepherd e Anita Smith, autores do livro “Cristãos na Era da Aids”. A ASAP veio a se tornar o Children’s Aids Fund e, atualmente, Children’s Aids Fund International (CAFI). De acordo com a Poz Magazine, a organização teve um efeito insidioso nos esforços de prevenção ao HIV em todo o mundo, especialmente na África. Redfield foi do conselho da ASAP e, hoje, é do conselho da CAFI.

Os Smiths, suas organizações e seu ativismo ultradireitista são em grande parte desconhecidos do público, atuando mais nos bastidores do Congresso. Eles começaram a chamar a atenção em meados da década de 1980, quando foram um dos 11 beneficiários iniciais do programa “América Responde à Aids”, com uma doação de US$ 300.000 do CDC para trabalho de prevenção do HIV baseadas “fé”. Desde então, os Smiths receberam milhões e milhões para apoiar sua agenda antigay e contra as pessoas vivendo com HIV. Eles foram uma das organizações privadas mais influentes por trás do teste compulsório de HIV na década de 1980 e início dos anos 90, ao lado do próprio Redfield, além de apoiadores da abstinência como política de pública de prevenção ao vírus. Mais recentemente,  têm sido defensores poderosos de restrições antiprostituição, com financiamento do PEPFAR. Eles se opunham ao teste caseiro de HIV em casa, em defesa da notificação compulsória para todos que testassem positivo para o HIV. Shepherd Smith também faz parte do comitê do Conselho Legislativo de Intercâmbio Americano, que criou o estatuto “modelo” de criminalização do HIV no início dos anos 90, pressionando com sucesso os estados americanos a aprová-lo.

Ainda hoje as organizações dos Smiths recebem milhões de dólares em financiamento público. E provavelmente receberão ainda mais com Robert Redfield no controle do CDC.

Publicado por

Jovem Soropositivo

Jovem paulistano nascido em 1984, que descobriu ser portador do HIV em outubro de 2010. É colaborador do HuffPost Brasil e autor do blog Diário de um Jovem Soropositivo.

14 comentários em “O novo diretor do CDC”

  1. Sempre que vou pegar os meus atualmente estão em falta ou podem demorar 15 dias , Nunca tive tanto medo de ficar sem medicamentos como agora .Mesmo estando na terapia de resgate . so deus . Tomem muito cuidado em quem vamos votar .

    1. Telma e Daniel, Isto realmente é muito sério!!!
      Onde moro, região da grande SP, consegui retirar apenas para 01 mês, pois a farmácia recebeu 30% menos de remessa de medicamentos no último mês.
      Torcer para ter sido pontual, não podemos sofrer com a falta de remédios, pagamos impostos exorbitantes.

  2. BUENOS AIRES – Uma fundação argentina pediu ao Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI) que negue o pedido de patente de um medicamento anti-retroviral pela empresa norte-americana Gilead Sciences Inc.

    A droga, conhecida por sua abreviação TAF (Tenofovir Alafenamide fumarate) , é usado para tratar cerca de metade das pessoas infectadas com o HIV na Argentina (cerca de 45.000 pessoas) e tem sido usado por mais de cinco anos.

    É produzido por um laboratório argentino e se uma patente fosse concedida, seu custo aumentaria consideravelmente, segundo a fundação, uma organização não governamental (ONG). No Brasil, o mesmo pedido da Gilead foi rejeitado em 2017.
    “ Não é um medicamento com alto custo de produção, mas se a patente for aprovada, pode aumentar até 1.000% ”
    Lorena Di Giano
    A lei de patente argentina indica que, para uma patente ser concedida, ela deve atender a critérios de inventividade , novidade e aplicação industrial.

    “Nesse caso, as exigências de novidade não são atendidas porque já é um medicamento de domínio público”, diz Lorena Di Giano, diretora executiva da Fundação Grupo Efeito Positivo (FGEP), que apresentou o pedido. em 2 de março .

    “O que eles [Gilead] fizeram foi fazer uma pequena modificação na molécula para ter outros 20 anos de exclusividade”, acrescentou Di Giano.

    “Não é uma droga com alto custo de produção, mas se a patente for aprovada, pode aumentar até 1.000%”, disse Di Giano, explicando que isso ocorreu anteriormente com outras doenças.

    Ela acrescentou que a Gilead também solicitou a patente de um composto contra a hepatite C, que afetaria três empresas argentinas que abastecem o mercado nacional. “Esta incerteza desestimula a fabricação local de medicamentos genéricos.”

    Hernán D’Urso, advogado especialista em propriedade intelectual e consultor da ONG argentina Fundação de Vendas , aponta que o pedido de patente é baseado em uma questão técnica, mas seu público importância para a saúde também é uma consideração. “Pode-se argumentar que este medicamento tem importância pública e, portanto, não deve ser patenteado”, acrescenta.

    Mas Jorge Bermúdez, chefe do departamento de medicamentos e assistência farmacêutica da escola nacional de saúde pública do Brasil, a Fundação Oswaldo Cruz, acredita que a objeção da ONG deve ser apoiada e estendida a outros casos semelhantes.

    “É preciso procurar alternativas para que os preços dos medicamentos diminuam e os monopólios não inibam o acesso aos tratamentos”, diz Bermúdez.
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    Ele acrescenta que as grandes empresas farmacêuticas usam essa estratégia para entrar no mercado e, quando expira, pedem outra com base em pequenas alterações na formulação do fármaco. “Isso impede a redução de preços e concorrência e impossibilita o acesso de pessoas, programas públicos e do setor privado a tratamentos”, diz ele. “São movimentos para perpetuar os monopólios.”

    Roberto de León Sánchez, gerente geral da Gilead Argentina, se recusou a comentar. “As questões de patente são tratadas pela empresa matriz e não localmente, e a Gilead não faz comentários públicos sobre questões de propriedade intelectual e patentes fora de discussões técnicas com o INPI ou as autoridades correspondentes”, ele respondeu por e-mail.

    O INPI também se recusou a comentar, dizendo que esta é uma questão sobre a qual ainda não fez declarações oficiais. “O INPI é responsável pelo processamento e posterior registro, se houver, dos pedidos de patentes, e uma patente só é emitida se atender aos requisitos de patenteabilidade ou não, de acordo com as leis, diretrizes e regulamentos vigentes”, disseram fontes da agência. .

    A Câmara Industrial dos Laboratórios Farmacêuticos Argentinos (CILFA) também não quis comentar. Já se opôs aos pedidos de patentes para outras drogas.

    Bermúdez acredita que os atuais desenvolvimentos políticos no Brasil e na Argentina não favorecem o acesso universal aos tratamentos. “Nos dois países existem governos neoliberais e não sei o que eles discutem ou tramam com as empresas. Os dois países eram muito pró-ativos para o acesso universal, e os programas de Aids da Argentina e do Brasil eram modelos, mas agora eles sofrem ”, diz ele.

  3. Compartilhando…
    22/03/2018, RS, Porto Alegre, bairro Farroupilha, Avenida João Pessoa, 1327, Ambulatório de Dermatologia Sanitária: não havia estoque de 3×1 e recebi o 2×1+Efavirenz.
    Não houve prejuízo algum, pois as fórmulas são as mesmas.

    Compartilhando:
    http://azt.aids.gov.br/

    “INFORME – 16/03/2018

    Prezado (a) Coordenador (a) e Responsável pela Logística dos Medicamentos Antirretrovirais,

    Segue abaixo atualização dos medicamentos que se encontram na lista de atenção:

    1. Tenofovir (TDF) 300mg + Lamivudina (3TC) 300mg + Efavirenz (EFZ) 600mg (TDF+3TC+EFZ ou 3 em 1): conforme posição anterior, a chegada do medicamento ao Aeroporto de Brasília ocorreu no dia 17/2 e o medicamento já está no almoxarifado central do MS. A expectativa é até dia 23/03 todos os estados tenham recebido o medicamento em quantidade suficiente para aproximadamente 4 meses de consumo, conforme quantidades cadastradas na Programação Ascendente do SICLOM. Contamos com o apoio fundamental dos almoxarifados centrais para que a distribuição do 3 em 1 para as unidades locais seja realizada no menor prazo possível. A recomendação de uso excepcional do 2 em 1 e EFZ terá validade até que o 3 em 1 esteja disponível em todas as unidades. Reforçamos a orientação de dispensação do 2 em 1 + Efavirenz para todos os casos em que não houver disponibilidade do 3×1 e que em nenhuma hipótese o paciente deixe de ser atendido. Novas remessas de Efavirenz e 2 em 1 estão ocorrendo para reforçar os estoques.”

  4. Em Recife raramente entregam para mais de 1 mês. Quase sempre a entrega é mensal ! Por isso a necessidade de, uma semana antes, ir buscar a medicação, criando um pequeno estoque em casa.

    1. Caio, como assim criar um estoque?!
      Tipo de qualquer forma n vai usar os 30 comprimidos?!! Ou vc para de usar quando pega uma caixa nova é guarda os da caixa anterior?! Pq se olhar bem de qualquer forma vai dar 30 dias!
      Fiquei confuso mas queria ter um estoque tbm! Me ensina aí tsrsrsrs

      1. A caixa contém 30 comprimidos para 30 dias. Porém, você está autorizado a retirar uma nova caixa a partir de 25 dias após retirar a anterior. Ou seja, você ainda terá 5 comprimidos em casa e já poderá retirar mais 30 comprimidos. Ao longo de 12 meses você criará um estoque de 60 comprimidos em casa. Entendeu?

        1. I’M

          Mas é isso…. esses comprimidos que no casa iriam “sobrar” vc armazena e abre a nova caixa ou vai continuar usando até acabar ela completamente?!!
          E nisso q to confuso! Afffff eu sou lento pra entender as cosias 😪

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