Uma criança sul-africana de nove anos de idade, que foi diagnosticada soropositiva já no primeiro mês de idade e que recebeu um tratamento anti-HIV ao longo de 40 semanas, mantém o vírus controlado sem a necessidade de antirretrovirais há oito anos e meio, de acordo com o que os cientistas relataram na 9th IAS Conference on HIV Science (IAS 2017), em Paris, e publicado no Aidsmap.

Esta criança sul-africana é agora o terceiro exemplo de uma criança que iniciou o tratamento do HIV logo após o nascimento, interrompeu o tratamento depois de meses ou anos e mostrou conseguir controlar a infecção pelo HIV por um período prolongado, sem a necessidade de medicamentos antirretrovirais.

A criança francesa continua a controlar o HIV, mesmo sem tratamento antirretroviral há onze anos. A Bebê do Mississippi controlou o HIV por 27 meses.

Os outros dois casos de crianças que atualmente estão controlando a infecção sem a necessidade de antirretrovirais são: uma criança francesa, diagnosticada aos três meses de idade e tratada por mais ou menos 5 ou 7 anos, e a “Bebê do Mississippi”, tal como ficou conhecida, que começou a receber tratamento 30 horas após o nascimento e nele permaneceu por 18 meses, antes de interrompê-lo. A criança francesa continua a controlar o HIV, mesmo sem tratamento antirretroviral há onze anos. A Bebê do Mississippi controlou o HIV por 27 meses, antes do reaparecimento do vírus.

A criança sul-africana apresentada na IAS 2017 foi tratada por um curto período após o nascimento, como participante do estudo CHER, que comparou duas estratégias de tratamento precoce para bebês com HIV na África austral. A criança foi diagnosticada no primeiro mês de idade e iniciou o tratamento aos dois meses de idade com Lopinavir, Ritonavir, Zidovudina (AZT) e Lamivudina por 40 semanas. Depois, interrompeu o tratamento no primeiro ano de idade. A criança tinha uma carga viral indetectável, abaixo de 20 cópias/ml, no momento da interrupção do tratamento.

Depois disso, a criança foi testada a cada três meses até seus quatro anos de idade, para verificar a sua contagem de células CD4. Análises das amostras de sangue armazenadas mostram que a criança manteve sua carga viral indetectável durante todo esse período. O teste feito aos 9 anos de idade mostram que o HIV ainda se mantém indetectável e que o número de células que contêm o DNA do HIV, o reservatório viral, não mudou desde a interrupção do tratamento.

A criança exibe uma resposta de célula CD4 específica para o HIV

A criança exibe uma resposta de célula CD4 específica para o HIV, indicando que seu sistema imunológico é capaz de montar uma resposta contra o vírus, enquanto não possui resposta de células CD8 contra o HIV. Isso pode significar que níveis muito baixos de vírus estão presentes, mas não podem ser detectados pelos métodos atualmente disponíveis. Nenhum vírus competente de replicação foi isolado usando dois métodos diferentes para cultivar vírus de células potencialmente infectadas.

“Nós acreditamos que podem haver outros fatores, além do tratamento inicial, que contribuíram para a remissão do HIV nesta criança”

Pesquisadores da África do Sul e dos Estados Unidos ainda estão tentando explicar como a criança é capaz de controlar o HIV. Eles são cautelosos em não descrever o caso como uma cura — em vez disso, dizem que a infecção pelo HIV na criança está em remissão, controlada por fatores que ainda precisam ser entendidos. “Nós acreditamos que podem haver outros fatores, além do tratamento inicial, que contribuíram para a remissão do HIV nesta criança”, disse a Dra. Caroline Tiemessen do laboratório do Centro de HIV e DSTs do Instituto Nacional de Doenças Transmissíveis, em Joanesburgo, o qual está estudando o sistema imunológico desta criança.

Um grande estudo chamado IMPAACT P1115 está testando a hipótese de que a terapia antirretroviral em recém-nascidos infectados pelo HIV iniciada dentro de 48 horas do nascimento pode permitir o controle a longo prazo da replicação do HIV, mesmo após o tratamento ser interrompido, possivelmente levando à remissão do HIV. O IMPAACT P1115 começou em 2014 e inscreveu 42 crianças infectadas pelo HIV. As primeiras crianças podem tornar-se elegíveis para o tratamento antirretroviral no final de 2017.


Referência: Violari A et al. Viral and host characteristics of a child with perinatal HIV-1 following a prolonged period after ART cessation in the CHER trial. 9th IAS Conference on HIV Science, Paris, 23-26 July, 2017, abstract TuPDB0106.
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Um pequeno vislumbre de como o HIV viaja através do corpo foi simulado pela primeira vez em supercomputadores dos Estados Unidos. Depois de dois anos trabalhando, os supercomputadores da Universidade de Illinois conseguiram modelar o comportamento de 64 milhões de átomos do HIV e, enfim, capturar 1,2 microssegundos da vida de um capsídeo do vírus — uma pequena gaiola de proteína que transporta o HIV para dentro do núcleo de uma célula humana.

A simulação foi realizada no supercomputador Titan, do Departamento de Energia, enquanto a análise dos dados foi feita pelo supercomputador Blue Waters, no National Center for Supercomputing Applications. Este método de estudo de grandes sistemas biológicos com simulações de dinâmica molecular, chamado de “microscopia computacional”, foi desenvolvido e liderado por Juan Perilla e pelo falecido Klaus Schulten.

A simulação com o HIV revelou várias características do capsídeo, com diferentes partes da proteína que oscilam em diferentes frequências. Segundo Perilla, é provável que o capsídeo compartilhe informações com seus semelhantes, ajudando-os a navegar pelo seu ambiente. O estudo também descobriu que íons fluem dentro e fora dos poros do capsídeo e se mantêm em diferentes polos: negativo, no interior, e positivo, no exterior — isso é o que mantém a estrutura do capsídeo unida.

Estes segredos da estrutura da capsídeo podem ajudar a expor as suas vulnerabilidades. Por isso, os pesquisadores acreditam que a simulação ajudará os cientistas a descobrir uma maneira de quebrar essa estrutura do HIV, fazendo-a explodir antes que possa infectar uma célula humana e, assim, levando à cura. A pesquisa foi publicada na Nature Communications.

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Depois de analisar a carga viral de 16.101 pessoas ao longo de sete anos, pesquisadores ingleses concluíram que uma proporção substancial das pessoas que vivem com HIV e que estão fazendo tratamento antirretroviral não vão experimentar rebote viral durante suas vidas.

O estudo, U.K. Collaborative HIV Cohort, publicado no Lancet, incluiu participantes que iniciaram a terapia antirretroviral e que atingiram carga viral indetectável, definida por uma quantidade inferior à 50 cópias/mL de sangue, dentro de 9 meses após o início do tratamento. O rebote viral foi definido como a primeira carga viral única com mais de 200 cópias/mL ou pela interrupção do tratamento com mais de 1 mês de duração. O objetivo dos pesquisadores era calcular a média de tempo, após o início do tratamento antirretroviral, que os pacientes levam para sofrer o primeiro rebote viral. O estudo incluiu participantes que iniciaram o tratamento entre 1º de janeiro de 1998 a 31 de maio de 2013.

Durante o estudo, dentre os 16.101 participantes, 4.519 experimentaram rebote viral — dos quais 1.414 (31%) foram interrupções de tratamento e 3.105 (69%) foram rebotes virais únicos com mais de 200 cópias/mL. Destes 3.105 rebotes virais, 1.322 (29%) voltaram a ter carga viral inferior à 50 cópias/mL na medição seguinte, sem necessidade de troca de tratamento antirretroviral. Isto quer dizer que 29% dos rebotes virais são de fato elevações temporárias na carga viral.

Em outras palavras, as taxas de rebote viral foram geralmente baixas e, conforme descobriram os cientistas, elas diminuíram substancialmente ao longo de um período de sete anos. Entre homens que fazem sexo com homens com mais de 45 anos, a taxa estimada de rebote viral é de 1,4% ao ano. Esta porcentagem cai ainda mais quando combinada com o fato de que em 29% das pessoas o rebote viral é temporário.

Em entrevista ao Infectious Disease Special Edition, o Dr. Andrew Phillips, um dos autores do estudo e professor de epidemiologia do University College London, disse que “este trabalho sugere que uma proporção substancial de pessoas que fazem tratamento para o HIV e que são suficientemente aderentes aos medicamentos podem manter o vírus suprimido por toda suas vidas.”

O Dr. Phillips e seus colegas observaram que esses dados são promissores para pacientes com HIV que mantém adesão ao tratamento antirretroviral e que fazem os testes para acompanhamento do estado de saúde. “Nossas descobertas apoiam a estratégia de encorajar o teste de HIV em pessoas que podem ter adquirido o HIV e iniciar a terapia nas pessoas diagnosticadas com o vírus, para benefícios pessoais e de saúde pública”, disse o Dr. Phillips.

Depois de inaugurar uma campanha pela cura da aids até 2020, a amfAR, Fundação para a Pesquisa da Aids, lança agora a websérie Vozes Épicas, que traz histórias pessoais e inspiracionais de soropositivos que explicam como o HIV impacta suas vidas e o que a cura significaria para eles. O objetivo dos vídeos é conscientizar a população de que os desafios para o fim do HIV/aids continuam e, ao mesmo tempo, inspirar a geração Millenium e a comunidade LGBT a apoiarem as pesquisas para a cura da aids.

Os vídeos trazem depoimentos de pessoas com diferentes perfis que vivem com HIV/aids: Hydeia Broadbent, ativista que nasceu com HIV/aids; Mykki Blanco, rapper e artista; Ken Williams, palestrante e fundador do blog Ken Like Barbie; Ongina (Ryan Palao), ator; Teo Drake, homem trans que vive com HIV há bastante tempo. Todos os vídeos (em inglês) estão disponíveis aqui.