Em algum dia logo depois do Ano Novo, sonhei que voltava à casa onde passei a minha infância, para uma breve visita. Precisava ir lá agora, já adulto, buscar uma carta que, por alguma razão desconhecida, havia sido endereçada para mim ainda naquele tão antigo endereço. Como é comum em muitos sonhos, pelo menos nos meus, não me recordo de tudo: não sei, por exemplo, quem é que escreveu a carta e muito menos como é que fiquei sabendo que esta carta estava lá — mas isto também não é o mais importante.

casa

O fato é que, quando me dei por mim, já caminhava naquela rua, próxima à praça arredondada que tinha a enorme figueira ao canto. Cumprimentei o mesmo guarda da rua, que não havia envelhecido em nada, e cheguei diante do portão da casa, o qual já não era mais o mesmo: em seu lugar havia uma recepção moderna, que mais parecia com a entrada de um escritório, com um balcão de pedra escura e, atrás dele, uma secretária, sentada diante da tela de um computador e com monitores de segurança que vigiavam a casa. Ela sorriu.

“– Vim buscar uma carta”, expliquei. “Eu morava aqui quando era pequeno e, não sei porquê, alguém ainda mantinha este como o meu endereço.”

“– Só um instante, por favor”, respondeu educadamente a secretária.

sonho

Enquanto aguardava, recuei do balcão. Queria observar a casa onde passei tanto tempo de minha vida. Sabia que era natural que ela estivesse diferente, reformada por seus donos subsequentes, mas a verdade é que a casa não estava tão mudada assim. Afora a recepção moderna e, percebia agora, as novas janelas, menores que as anteriores, tão grandes, tudo permanecia igual! As paredes continuavam das mesmas cores, o jardim permanecia o mesmo, como se as plantas sequer tivessem crescido. Lá atrás, a mesma árvore balançava com o vento. No segundo andar, o quarto de paredes de vidro — uma antiga varanda, que fora coberta por vidraças provavelmente ainda pelo donos anteriores aos meus pais — permanecia, tal e qual, ainda um quarto de brinquedos. De longe, pude perceber o vulto de duas crianças que saltitavam lá dentro, assim como eu fazia quando era pequeno, ao lado de meus irmãos.

bowie

Minha nostalgia foi interrompida pelo novo dono da casa, que veio à porta chamado pela recepcionista. Era um homem jovem, negro de cabelos rastafari e com uma tatuagem no rosto bastante parecida com a capa do disco Aladdin Sane, de David Bowie. O homem sorriu com simpatia, mas não me convidou para entrar na casa. Ele apenas me entregou a carta, me cumprimentou com um forte aperto de mãos e, então, disse:

“– A vida é assim, Jovem.”

Saí de lá sem saber ao certo ao que é que ele se referia — talvez, pensei, às coisas que sempre mudam. Quando dobrei a esquina da rua da antiga casa, acordei do sonho. De olhos abertos, ainda deitado na cama, pensei que 2016 foi o primeiro ano em que não me recordei do meu diagnóstico no dia de seu aniversário. No último ano, o dia 18 de outubro foi como qualquer outro dia. O primeiro dia, desde o meu diagnóstico, a seis anos atrás, em que não fiz as contas do tempo do meu diagnóstico.

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Matthieu Ricard
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