“Esse texto é para todos os soropositivos que, assim como eu, sofreram muito com a notícia do diagnóstico e que não conseguiram imaginar êxito em suas vidas, principalmente no ramo amoroso.

Sempre gostei de namorar mais do que de ficar com um monte de gente. (Claro que tive momentos de loucura — quem não teve?) Pois bem, descobri ser soropositivo depois que meu namorado me traiu e transmitiu o vírus para mim, em 2013, quando eu tinha 18 para 19 anos de idade. Estávamos juntos há um ano quando isso aconteceu e, assim como muita gente, confiei no meu companheiro e fazia sexo sem camisinha. Até que me veio a notícia.

Terminei meu relacionamento e passei pela pior fase da minha vida. O primeiro pensamento é o de que vamos morrer, seguido de ‘como vou contar pra meus pais?’ Contei para minha mãe no mesmo dia — eu morava com ela. Uma semana depois, contraí uma dengue forte e fiquei muito fraco. Minhas plaquetas caíram e passei muito mal. De madrugada, escutava minha mãe chorando de seu quarto, ao lado minha irmã, dizendo ‘vamos perder o G., vamos perdê-lo!’. Foi o pior ano da minha vida. Tudo o que minha mãe, irmã e amigos faziam por mim eu sentia que era por medo. Me sentia uma bomba relógio, prestes a explodir a qualquer momento.

Depois do susto, eu passei a me questionar muito sobre como seria a minha vida amorosa, pois meu maior sonho sempre foi o de casar e constituir uma família. ‘Quem nesse mundo vai ser capaz de aceitar se relacionar com uma pessoa soropositiva?’ — questionava a mim mesmo, todas as noites. Eu já estava acostumando com a ideia de nunca conseguir um pessoa para ter um relacionamento sério, pois toda vez que eu estivesse conhecendo alguém e a coisa estivesse caminhando para algo mais sério, eu teria que jogar a real e dizer sobre minha condição. Logo, me batia o desespero porque era óbvio que ninguém iria escolher aceitar viver com alguém assim, correndo o risco de ser infectado.

Resolvi então cuidar de mim mesmo, focando na minha saúde e deixando o resto por conta de Deus. Afinal, nada acontece por acaso: se eu estava passando por aquela aprovação, desistir é que eu não podia, apesar de ter cogitado a hipótese algumas vezes de literalmente desistir de tudo.

No ano de 2014 me voltei apenas para o meu amadurecimento, minha faculdade, meu estágio e minha saúde. Entrei na academia, praticava esportes, tomava meus remédios corretamente e ia em todas as consultas. Me tornei indetectável, o me trouxe grande alegria — era quase uma cura: a sensação de saber que havia pouquíssimos HIV no meu corpo fazia me sentir assim, quase curado. Depois de estudar muito sobre o assunto, descobri que um soropositivo indetectável por mais de seis meses não transmite o vírus, mesmo fazendo o sexo sem camisinha. Então, entendi que as pessoas apenas tinham medo do que elas não conheciam.

Em 2015, me envolvi com um rapaz e, quando me dei conta, percebi que era a hora de abrir o jogo. Se ele realmente gostasse de mim, não deixaria eu ir embora por um simples preconceito, não é? Infelizmente a informação sobre o HIV é escassa e as pessoas acham que essa é uma sentença de morte, assim como era nos anos 80 e começo dos anos 90. Pois bem, resolvi abrir o jogo: escrevendo uma carta contando sobre tudo. Tirei coragem da onde não tinha, mas eu sabia que não podia fazer diferente. Que eu deveria ser sincero com a pessoa que eu estava prestes a começar um relacionamento sério — até porque a confiança é a base de tudo e isso eu tinha que ter ao meu favor.

Meu companheiro aceitou muito bem, completamente diferente do que eu esperava. Depois de expressar seus medos com suas perguntas, ele me respondeu dizendo que eu era maior que tudo isso, assim como o sentimento que ele tinha por mim. Tivemos um relacionamento feliz e o HIV nunca foi um problema. Partia dele as vezes que o sexo foi sem camisinha. Claro, sempre pedia pra ele fazer exame de sangue, para evitar qualquer surpresa desagradável.

Foi então que, no final de 2015, o relacionamento não deu mais certo. Ele era mais novo que eu e disse que tinha muita coisa para viver e descobrir ainda. Mas, para mim, o medo de ficar sozinho já não existia mais. Eu sabia do que era capaz e do quão especial eu era. Não deixaria uma quantia insignificativa de um vírus adormecido mudar minha vida de novo. Fiquei solteiro por um ano, conhecendo pessoas diferentes e, ao mesmo tempo, testando situações diferentes.

Dessa vez, eu queria contar sobre minha condição antes de a pessoa começar a ter um sentimento por mim, para que então ninguém aceitasse o suposto risco porque gosta de mim, mas sim porque o vírus realmente não significasse nada. De três pessoas quem eu contei, as três se sentiram ainda mais atraídas. Dois eram meus amigos. Depois que eu abri o jogo pra eles, simplesmente ambos queriam algo a mais, inclusive sexo. O terceiro foi alguém que conheci e poucos dias depois já contei sobre mim e ele disse que isso nada importava.

Eu já não precisava ter alguém para me sentir seguro. Escolhi permanecer solteiro e viver uma vida normal, feliz. Mas, alguns meses depois, eu conheci outro rapaz muito especial. Para minha surpresa, novamente senti medo de me abrir, pois não queria perdê-lo por nada. Ele estava começando a sua vida homossexual, era de uma cidade bem do interior — motivos que me levaram a pensar que ele não iria conseguir aceitar.

Contei, fazendo questão de explicar todos os detalhes sobre ser indetectável e sobre não haver risco de transmissão. Ele chorou muito, junto comigo. Quando se recompôs, pediu um tempo para pensar, botar a cabeça no lugar. Era uma quarta feira, 5 horas da tarde. Fui embora triste para casa, pois sabia que ele não iria voltar a me procurar. Às 23 horas ele me ligou, pedindo para eu fazer minha mochila, dizendo que passaria na minha casa dentro de 10 minutos. Quando entrei no carro, ele me disse que era realmente um susto pra ele. Disse que realmente tinha medo, mas que não iria deixar isso me levar embora — nem naquele dia, nem nunca. Apesar do medo ser grande, o amor que ele sentia por mim era muito maior.

Hoje, somos casados, no papel. Moramos juntos há um ano e todas as noites, às 22 horas, o celular dele toca — é o despertador que ele deixa ativado para me lembrar todos os dias do horário de tomar remédio (não que algum dia eu tenha esquecido). Acho que é o jeito dele de mostrar o quanto ele se importa e é presente. Vamos às consultas juntos e durmo tranquilo, agradecendo todas as noites a Deus por ter a vida que tenho.

Dizem que o amor sempre vence. Comigo não seria diferente. E também não precisa ser diferente com você, que acabou de receber o diagnóstico. Espero que esse texto te ajude e que as coisas absurdas que você está pensando, assim como eu estava em 2013, vão embora — assim como foram embora para mim, quando encontrei esse blog.”

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Por muito tempo, fazer pesquisas científicas sobre os possíveis benefícios médicos da maconha era praticamente impossível. Ainda classificada pela Drug Enforcement Administration (DEA) dos Estados Unidos sob sua categoria mais restrita de substâncias controladas, a Schedule I — ao lado de drogas como heroína, ácido lisérgico (LSD), ecstasy e peyote –, a maconha vem sendo mantida longe das mãos de médicos e cientistas, por conta do difícil acesso ao financiamento e autorizações legais federais que para pesquisa, limitados justamente por conta dessa classificação. Mesmo nos estados americanos onde a maconha já foi legalizada para uso medicinal ou recreativo, os estudos com a planta ainda estão sujeitos à aprovação de vários órgãos e as amostras devem ser adquiridas no único laboratório aprovado pelo governo federal para dispensar maconha para pesquisa.

Mesmo com estes obstáculos, um crescente número de pesquisadores têm investigado as propriedades medicinais da cannabis, que já se mostrou promissora no tratamento de víciostranstorno de estresse pós-traumático, dores crônicas, doenças cerebrais e uma série de outras condições médicas — e, agora, há uma cautelosa expectativa de que a maconha também possa ser útil no tratamento do HIV, ajudando a bloquear a entrada do HIV nas células, reduzir a inflamação crônica e prevenir distúrbios neurocognitivos que podem ocorrer como resultado da infecção pelo HIV.

Robert L. Cook

Pelo menos, é isso o que diz uma reportagem da Vice, em uma entrevista com o pesquisador Robert L. Cook, professor de epidemiologia da Universidade da Flórida, que recentemente anunciou um estudo com 400 voluntários para examinar os efeitos da maconha em pessoas que vivem com o HIV. O estudo terá a duração de cinco anos, custará 3,2 milhões de dólares e provavelmente será o maior estudo sobre o assunto, não apenas avaliando o impacto da maconha nos cérebros dos pacientes soropositivos, mas também verificando se a droga é capaz de ajudar a suprimir o vírus. Além disso, o estudo vai precisar a quantidade de maconha consumida ou inalada pelos voluntários, bem como a quantidade de THC e cannabinoides presentes nestas doses.

Vice: Como você começou a se interessar pelo efeito da maconha nas pessoas que vivem com HIV?
Robert L Cook: Sou um médico e vejo pacientes com HIV o tempo todo. E estava pesquisando sobre o tipo de maconha que eu poderia recomendar: meus pacientes deveriam inalar, ingeri-la ou eu deveria sugerir um tipo específico da erva? Não há dados, por exemplo, sobre os motivos que levam um certo tipo de maconha a ter um melhor resultado para a saúde de alguém que vive com HIV do que outro, e é por isso que eu desenvolvi esse estudo. No estudo, poderemos comparar aqueles que usam diariamente a maconha com aqueles que a utilizam ocasionalmente. Vamos fazer testes de toxicologia de urina para tentar especificar exatamente a composição da maconha. Idealmente, até o final do estudo, poderemos dizer: “Uau! Parece que a maioria das pessoas que usam a maconha estão fazendo isso para tratar uma dor em comum ou por conta de outro determinado padrão”. Ou, quem sabe, porque a maioria das pessoas que estão usando maconha querem algo para ajudá-las contra o estresse e a estão utilizando seguindo certo padrão.

Ao mesmo tempo, você também está interessado nos efeitos do THC sobre o vírus e seus sintomas, certo?
Eu vi alguns dados muito interessantes que analisaram a quantidade de vírus no sangue das pessoas antes de serem tratadas com antirretrovirais. Essa pesquisa mostrou que aqueles que usavam maconha tinham uma quantidade menor de vírus em seu sangue em comparação com aqueles que não usavam maconha. Se de fato houver uma quantidade menor de vírus, isso é muito bom. Mas eu não vi nenhum estudo clínico que analisasse os efeitos diretos do THC sobre o HIV. Também não temos muitas pesquisas comparando o THC, sozinho, ou o THC junto com o canabidiol (CBD) em pessoas com HIV. Também vamos medir a resposta inflamatória à maconha de maneira muito mais cuidadosamente controlada do que em estudos anteriores. Medir a adesão aos medicamentos também é importante. Uma das razões pelas quais a maconha pode afetar o HIV é comportamental: o cenário estereotipado diz que alguém que usa maconha se torna menos motivado — sentam-se no sofá, assistem TV e não tomam os medicamentos quando deveriam. Não tenho certeza de que isso seja verdade, mas estaremos examinando isso também.

Você pode contar mais sobre como o THC, o composto químico da cannabis, funciona a nível celular?
O THC quase exclusivamente atinge receptores CB1, receptores canabinóides localizados em todo o corpo. Isso faz com que as pessoas sintam o efeito da droga, fiquem desequilibradas e tenham sua memória de curto prazo afetada. Além do cérebro, os receptores CB1 estão também em muitas das nossas células imunológicas. Existem 100 canabinóides diferentes na maconha, e aqueles que visam este receptor parecem reprimir a inflamação. Por isso, a indústria farmacêutica está buscando criar análogos sintéticos de THC ou CBD para atingir esses receptores. Entretanto, eu não vi pesquisas comparando diretamente o THC e o CBD nestes efeitos clínicos. Embora eu acredite que o THC seja provavelmente mais provável pelas experiências recreativas associadas à droga e o CB2 à reprimir a inflamação, é difícil saber o que isso representa em termos de alívio da dor. O que eu quero dizer é: se as pessoas se sentem melhor, é porque a dor delas é de fato diminuída ou porque estão se sentindo bem com a droga e não se importam tanto com a dor?

Algumas pessoas estão entusiasmadas com o fato de que os compostos da maconha são capazes de fazer algo que os antirretrovirais não conseguem: atravessar a barreira hematoencefálica — e, no caminho, ainda reduzir a inflamação crônica.
Apesar de conseguirmos controlar o vírus através dos antirretrovirais, as pessoas com HIV ainda envelhecem um pouco mais rapidamente, ainda sofrem com doença cardíaca quatro a cinco anos antes do soronegativos e muitas pessoas acreditam que tudo isso é decorrente da inflamação crônica. Portanto, um produto que ajuda a controlar a inflamação, certamente pode ajudar as pessoas a viver vidas mais longas e mais felizes.

O estudo de Robert L. Cook vem num momento em que o uso da maconha medicinal atinge seu máximo histórico nos Estados Unidos: mais de 70% dos americanos se dizem a favor do uso da cannabis para diminuir os efeitos de diversas condições médicas crônicas. Uma reportagem da HIV Plus Magazine afirma que muitos soropositivos usam a maconha com o intuito de aliviar sintomas decorrentes do HIV e efeitos colaterais associados ao tratamento antirretroviral, como náuseas, perda de apetite, depressão, perda de peso e dor neuropática — e também lembra que a cannabis pode ter efeito direto contra o vírus, como já teria sido documentado em estudos anteriores.

Uma pesquisa conduzida em macacos, financiada pelos Institutos Nacionais de Saúde e pelo Instituto Nacional de Abuso de Drogas dos Estudos Unidos e publicado na Aids Research and Human Retroviruses, em 2014, sugere que o THC consiga diminuir o dano do HIV no intestino, o que acontece especialmente durante a fase da infecção aguda. Cinco meses depois, pesquisadores do Centro de Ciências de Saúde da Universidade Estadual da Louisiana descobriram que o THC produziu uma diminuição generalizada na carga viral e na inflamação tecidual nestes macacos, com subsequente aumento da produção de células T CD4 e CD8.

Outro estudo, de 2012, conduzido na Escola de Medicina Mount Sinai da cidade de Nova York, sugere que a cannabis é capaz de interagir com receptores localizados em diversas células, incluindo macrófagos e células CD4, inclusive bloqueando o processo de sinalização entre HIV o e a CXCR4, um dos principais tipos de receptores que permitem que o HIV entre e infecte uma célula. Outra descoberta se refere aos compostos antiinflamatórios do THC, capazes de reduzir a replicação viral e a inflamação no cérebro.

O Centro de Referência e Treinamento-DST/AIDS-SP (CRT-DST/AIDS) é uma unidade de referência normativa, de avaliação e de coordenação do Programa Estadual para Prevenção, Controle, Diagnóstico e Tratamento de Doenças Sexualmente Transmissíveis (DST) e da Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (AIDS) no Estado de São Paulo.

A Secretaria de Estado da Saúde, por meio do Centro de Referência e Treinamento DST/Aids-SP, lança nota técnica “Indetectável igual a Intransmissível”. A nota informa gestores, profissionais da saúde, sociedade civil e população geral, que as pessoas vivendo com HIV/aids com carga viral indetectável há pelo menos seis meses e boa adesão ao tratamento tem um risco insignificante de transmitir o vírus pela via sexual.

Esta afirmação se baseia em recentes estudos com resultados sólidos e conclusivos – HPTN 052, e Partner, de 2016, e Opposites Attract, de 2017 –, os quais têm levado à atualização da mensagem sobre transmissibilidade por parte de autoridades como o Centro de Controle de Doenças (CDC) dos Estados Unidos e a Sociedade Internacional de Aids (IAS), da Suíça. Infecções sexualmente transmissíveis (IST) e possíveis pequenos aumentos transitórios na carga viral (conhecidos clinicamente como “blips”) não influenciam a transmissibilidade nestes casos, de acordo com os estudos. Considera-se carga viral indetectável a quantidade de vírus inferior a 40 cópias por ml de sangue.

“Pessoas que vivem com o HIV, se tomarem seus medicamentos e tiverem carga viral indetectável, não transmitirão HIV para seus parceiros sexuais”

Esta novidade traz impacto positivo na vida das pessoas vivendo com HIV/aids sob vários aspectos. “Pessoas que vivem com o HIV podem sentir-se confiantes de que, se tomarem seus medicamentos adequadamente e tiverem carga viral indetectável, não transmitirão HIV para seus parceiros sexuais”, declara Artur Kalichman, coordenador do Programa Estadual DST/Aids-SP. A notícia traz impacto positivo na adesão ao tratamento e, em especial, as pessoas vivendo com HIV/aids sorodiscordantes que desejam ter filhos. “Será possível também realizar planejamento familiar com mais tranquilidade”, comenta.

“Uma correta percepção do nível de transmissibilidade tem efeitos positivos sobre a sorofobia”

Para Maria Clara Gianna, coordenadora adjunta do Programa Estadual DST/Aids-SP, os profissionais de saúde e de comunicação em saúde devem fornecer orientação atualizada e acurada às pessoas vivendo com HIV/aids e seus(suas) parceiros(as) sobre o risco de transmissão neste cenário. “Uma correta percepção do nível de transmissibilidade tem potenciais efeitos positivos sobre a sorofobia (estigma) e sorofobia internalizada (autoestigma), direitos sexuais e reprodutivos, testagem, vinculação aos serviços de saúde e adesão ao tratamento”, observa.

As pessoas vivendo com HIV/aids e seus(suas) parceiros(as) devem receber também aconselhamento sobre fatores que influenciam a opção entre o uso deste método de prevenção ao HIV isoladamente ou a sua associação a outros métodos de gerenciamento de risco e de prevenção, como preservativo e uso de profilaxia pós-exposição (PEP) ou profilaxia pré-exposição (PrEP) pelo parceiro HIV-negativo. “Esses fatores incluem acordos de confiança do casal, adesão ao antirretroviral e decisões sobre o gerenciamento de risco para IST e gravidez.

Em qualquer situação, deve ser respeitada a autonomia da pessoa vivendo com HIV/aids e de seu(sua) parceiro(a) e deve ser garantido o acesso a diagnóstico e tratamento de IST, outros métodos de prevenção ao HIV, métodos anticoncepcionais e acompanhamento pré-natal”, comenta Rosa de Alencar, coordenadora adjunta do Programa Estadual DST/Aids-SP. Para as pessoas que, por qualquer razão, não estejam com a carga viral indetectável, deve ser reforçado que o preservativo é um método eficaz de prevenção e que estará em breve disponível a profilaxia pré-exposição (PrEP) para uso pelo parceiro HIV negativo.


*Nota Técnica 02/2017/CRT-PE-DST/AIDS/SES-SP. Informações adicionais: www.crt.saude.sp.gov.br | Disque DST/Aids: 0800 16 25 50

Hoje, a prevenção do HIV vai muito além da camisinha: existem alternativas muito mais flexíveis e eficazes que podem servir ao estilo de vida de cada um! Para falar sobre isso, preparamos, em parceria com a Parada do Orgulho LGBT de São Paulo e com o canal Para Tudo da drag queen Lorelay Fox, uma série de vídeos sobre prevenção à infecções sexualmente transmissíveis (ISTs), HIV e aids. Nesse vídeo, Lorelay Fox conversa com o médico infectologista Dr. Ricardo Vasconcelos sobre PrEP, PEP, tratamento como prevenção, carga viral indetectável e camisinha — juntas, estas estratégias compõem a prevenção combinada. Sem tabus e sem preconceitos, fica mais fácil lidar com o HIV.

Estrelando: Lorelay Fox | Direção: André Canto | Roteiro: André Canto, Jovem Soropositivo e Ricardo Vasconcelos | Parceiros: Projeto Boa Sorte e Menino Gay

Foi por estes dias que aconteceu o acidente. A casa de minha mãe, agora em obras, foi a casa onde cresci — pelo menos, por boa parte da minha vida. A poucas quadras dali fica o laboratório de exames, que acabou por ser aquele em que fiz tantos exames desde do diagnóstico, como carga viral e contagem de CD4.

“— Acho que seus livros estão ali”, apontou minha mãe.

Avistei meu nome na lateral de uma das caixas de papelão marrom, empilhadas ali, na garagem, sob o eco das marteladas dos pedreiros no andar de cima. Entre as caixas, restos oriundos da reforma, como dois vidros do antigo box do banheiro — para alcançar a minha caixa, era preciso tirá-los dali. Então, agarrei na lateral da primeira porta vidro: com seu peso, as veias de meu antebraço logo saltaram — e me lembrei que fora naquela casa, anos atrás, em 2011, pouco depois do meu diagnóstico, que acontecera aquela conversa com meu pai.

“— Fez exames?”, perguntou ele, logo depois de me cumprimentar, percebendo o pequeno band-aid arredondado colado sobre a veia do meu antebraço.

“— Sim, acabei de sair daquele laboratório próximo daqui”, respondi.

“— E você avisou que tem HIV para a enfermeira que foi coletar o seu sangue?”

“— Não avisei. Não é preciso avisar”, respondi, seguindo o que acabara de aprender com meu novo médico infectologista.

Naquela altura, em 2011, eu acabava de deixar de me consultar com o Dr. O., o primeiro infectologista que visitei logo depois do diagnóstico e quem, por acaso, me deu a instrução de que era importante manter luvas de borracha ou cirúrgicas na casa, para em caso de qualquer acidente perfurocortante comigo, um soropositivo, a pessoa que fizesse o meu curativo pudesse estar protegida. Mas foi meu novo médico, o Dr. Esper Kallás, quem disse que isso não era necessário: um acidente caseiro, pequeno, não costuma trazer risco de transmissão, enquanto um acidente mais grave, com mais sangue, naturalmente implicaria na procura por um serviço de emergência médica, com profissionais habilitados e preparados para evitar a infecção.

“— Quem disse que não?”, questionou meu pai.

“— Meu novo médico infectologista, o Dr. Esper.”

“— E qual a justificativa dele para não precisar avisar?”

“— Todo profissional de saúde deve estar preparado para seguir os protocolos que são suficientes para evitar a transmissão”, expliquei.

“— Mas e no caso de um acidente? Por exemplo, se você desmaia, cai e a seringa com seu sangue fere o profissional. Se você não avisa antes, a culpa é sua”, argumentou ele, como bom advogado que é.

“— Nesse caso, o enfermeiro faria aquilo que se chama profilaxia pós-exposição, a PEP”, respondi.

“— E é 100% seguro que a PEP funciona?”, retrucou meu pai.

“— Em Ciência, nada é 100%. Nem camisinha”, respondi, parafraseando aquilo que acabara de aprender com o doutor.

“— Eu sei. É por isso que você também deve avisar às mulheres com quem sair”, respondeu meu pai. “E também aos enfermeiros que atenderem você.”

“— Meu médico diz que avisar é uma opção e não uma obrigação.”

“— Seu médico está errado!”, enfatizou meu pai, elevando o tom de voz. “Se um acidente acontece, as consequências são graves. Você sempre precisa avisar que tem HIV, para quem quer que seja!”

“— Não entendo…”, questionei. “Como é que posso sempre avisar?”

“— Se você sofre um acidente em casa, com sangue, quem estiver do seu lado precisa estar avisado que você tem HIV.”

“— Mas que acidente tão grave pode acontecer em casa?”

Eu relembrava dessa conversa quando terminei de apoiar a primeira porta de vidro do box, do outro lado da garagem; faltava ainda mais uma. Agarrei-a, percebendo que esta parecia ser ainda mais pesada que a anterior.

“— Além de um acidente em casa, pode acontecer um acidente na rua”, continuou meu pai, ainda naquela conversa no ano de 2011. “Atropelado, por exemplo…”

“— Mas então o que é que você está sugerindo?”, interrompi, percebendo um simultâneo esboço de protesto de minha mãe. “Acha que devo usar um aviso no braço, como aquela braçadeira que os judeus eram obrigados a usar durante o nazismo?”

Os olhos de meu pai se arregalaram, num susto. Ele então olhou para os lados, depois para baixo. Desconversou. E nós nunca mais voltamos a falar sobre isso. Tampouco sofri eu um acidente que suscitasse novamente esse assunto — até agora. Acontece que o vidro temperado, utilizado na fabricação das portas de box de chuveiro, não deve ser acomodado contra uma parede, ou com um apoio na sua parte inferior e superior, tal como estava naquela garagem. O transporte também não deveria ser feito tal como eu fazia, ali, sem luvas e sem proteção em torno de toda a vidraça. Foi sem cumprir estas recomendações que  escutei aquele estrondo.

BOOOM!, como se fosse um explosão.

O ruído das marteladas no andar de cima foi interrompido. Com o silêncio, percebi um zunido no ouvido esquerdo. Quando abri os olhos, avistei os pedreiros à minha frente, de olhos arregalados.

“— Você se cortou? Você se cortou?”, perguntava minha mãe, assustada.

“— Não sei!”, respondi, com os sentidos ainda anestesiados pela adrenalina.

Olhei para minhas mãos, ainda fechadas, com a musculatura travada com força, ainda tentando agarrar algo que não estava mais ali. Precisei de um pouco de força para abri-las, lentamente, enquanto mais restos de vidro escorriam um a um para o chão. Olhei para os lados e percebi que, apesar dos cacos mais concentrados à minha volta, a explosão também levara estilhaços por toda a garagem.

“— Você está bem?”, perguntei para minha mãe, que estava atrás de mim.

“— Sim, estou. E você?! Se cortou?”

Virei as palmas das mãos para cima e notei dois pequenos cortes, por onde uma gota de sangue escorria a partir de um deles e, no outro, o pequeno estilhaço preso na pele estancava o sangue. Procurei mais e avistei outro pequeno corte, igualmente com pouco sangue. E senti um incômodo na parte das costas, próximo às omoplatas, para onde era impossível eu mesmo olhar.

“— Acho que só um pouco”, respondi.

Foi então que meu pai chegou. De olhos arregalados ao lado dos pedreiros, veio em minha direção e me ajudou a tirar a blusa — um procedimento que, aprendi ali, seria a recomendação inicial para acidentes com vidro. Sem a camiseta, percebi mais um pequeno estilhaço preso em minha pele na altura do ombro.

“— Vamos para o banheiro”, disse meu pai, me ajudando a caminhar por cima dos cacos.

“— Você teve sorte!”, disse um pedreiro. “Teve poucos e pequenos cortes. Um colega saiu dessa com oitenta pontos no braço!”

Com a ajuda de meus pais, subi as escadas. Minha mãe agarrou a caixa de primeiros socorros e uma pinça. Com a mão esquerda ainda trêmula, consegui tirar o primeiro caco, pequeno, do centro da palma direita. Logo depois, mais outro, na altura do pulso e, por fim, aquele que estava no braço.

“— Ainda sinto alguma coisa nas costas”, reclamei.

Foi então que, sem luvas, meu pai agarrou um punhado de algodão, embebeu-o no álcool e limpou a ferida. Em seguida, arremessou o algodão com um dos lados avermelhado pelo sangue na pia à minha frente. Com a ajuda de minha mãe, tirou dali o último estilhaço de vidro, preso nas costas. Sempre sem luvas.

“— Agora é bom você tomar uma ducha”, sugeriu ele.

Virei-me de costas, terminando de me despir antes de entrar no chuveiro, quando escutei-o dizer para minha mãe:

“— Venha, vamos desinfetar as mãos com álcool.”

Almir Nascimento

Almir Nascimento tem 59 anos de idade. Foi dono do bar e restaurante Paparazzi, antes de integrar a organização da Parada do Orgulho GLBT de São Paulo em 1999 e 2000, anos em que o Movimento Gay da cidade ganhou bastante notoriedade. Entre 2009 a 2013, foi presidente da Associação Brasileira de Turismo GLS. Há 19 anos é proprietário da da sauna Wild Thermas Club. Desde julho, voltou a integrar a Associação da Parada do Orgulho GLBT de São Paulo e é um dos organizadores do 1º Encontro de Saúde/Prevenção IST/Aids entre Jovens LGBT, no dia 28 de novembro — a primeira vez que a Parada Gay de São Paulo vai falar sobre a prevenção ao HIV.

Conheci Almir em uma reunião que aconteceu em setembro deste ano, no bairro dos Jardins, em São Paulo, depois de ter sido convidado para colaborar com a iniciativa da Parada do Orgulho GLBT em uma campanha sobre a prevenção do HIV. Quando cheguei, ele já estava na sala, sentado de costas para a janela, vestindo uma camisa social xadrez e calça jeans, quando se levantou para me cumprimentar, com um aperto de mão firme e um olhar sorridente. Almir parece ser daquelas pessoas que escuta mais do que fala. Pelo menos, foi assim naquela reunião, na qual ele ouviu atentamente aos que estavam ali presentes — entre eles, o youtuber Gabriel Estrëla, do Projeto Boa Sorte, e o médico infectologista Ricardo Vasconcelos, coordenador de um ambulatório do Hospital das Clínicas da FMUSP especializado em HIV, que participou dos estudos iPrEX e PrEP Brasil. No pouco que falou naquele dia, Almir reconheceu que era hora de incluir o HIV e a aids na pauta da Parada Gay, algo que não foi feito até hoje. Conversei novamente com Almir nos últimos dias, quando tomamos um café num bairro da região central de São Paulo.

Jovem Soropositivo — A Parada do Orgulho GLBT de São Paulo nunca abordou oficialmente o tema do HIV e da aids. Por que essa mudança agora?

Almir Nascimento — O índice da epidemia está explodindo, novamente, especialmente entre os jovens homens gays. Não era para estarmos ainda falando de aumento do número de casos, de campanhas que ainda precisam ser feitas. Já era altura da epidemia estar controlada. Mas parece que estamos sempre patinando, patinando… Se a Parada tivesse feito isso há vinte anos, o quanto ela já não poderia ter conseguido? Se a gente já tivesse feito um trabalho para os jovens que hoje estão se infectando e que não têm informação sobre o HIV, o quanto a gente não poderia ter ajudado? Enfim, a Parada optou por outro caminho, foram outras conquistas. Mas eu acho que a Parada pode fazer alguma coisa, sim.

Você diz isso num tom de mea culpa?

É mea culpa da minha parte, não da Parada e nem da Associação. Dentro da comunidade gay, sempre foi falado da epidemia de HIV. Muitos associados e muitas pessoas próximas viviam e vivem com HIV. Então, sempre se falou sobre isso dentro da comunidade.

Mesmo assim, é verdade, a Parada nunca teve um evento dela própria voltado para a prevenção e conscientização sobre o HIV. O que tivemos foram vários parceiros, incluindo as ONGs que trabalham com HIV e aids, como Fórum ONG/Aids, Pela Vidda, GIV e GAPA, que foram parceiros da Associação. Então, quando chegava a época da Parada, os parceiros procuravam a Associação para fazer alguma ação. A Parada acreditava e acredita nesses parceiros, que faziam e fazem importantes ações de prevenção durante os eventos.

Mas a Parada nunca assumiu para si essa função, porque, embora muita gente imagine que sejamos uma baita organização, a verdade é que somos um pequeno grupo que faz um evento para milhões de pessoas. Durante a 4ª Parada, por exemplo, nós éramos cinco: um presidente e quatro diretores — claro, além dos vários voluntários. Hoje, mudou-se um pouco o estatuto e temos um grupo um pouco maior: um total de 18 pessoas, todos voluntários, sem ganhar nada pelo trabalho na Associação e, por isso, têm de ter seus próprios trabalhos. Então, é uma organização frágil, que mal dava conta de fazer o que tinha de fazer para a Parada acontecer. Por isso, incluir mais um evento, voltado somente ao HIV, nunca tinha sido possível.

Parada do Orgulho GLBT de São Paulo de 2014 (Foto: Ben Tavener / Brazil Photo Press).

E o que mudou?

O que mudou é que eu, voltando para a organização da Parada, disse: “eu gostaria muito de fazer isso”. Para mim é fundamental que a Associação faça alguma coisa e resgate esses vinte anos em que não trouxe diretamente essa discussão. Você falou em mea culpa… é isso! Temos que aproveitar essas milhares de pessoas na rua para isso também. Eu fui convidado para voltar para a Parada recentemente, em julho de 2017, e, agora, vamos fazer esse evento: o 1º Encontro de Saúde/Prevenção IST/Aids entre Jovens LGBT, já na semana que vem, dia 28 de novembro. Esse evento vai passar a fazer parte do calendário anual da Associação.

Teve alguma razão pessoal para essa sua motivação?

Eu acho que foi a preocupação e, também, uma vontade que eu trago há vinte anos de fazer alguma coisa nesse sentido. Mas a verdade é que, até agora, eu não achava que tinha forças e nem legitimidade para, sozinho, fazer isso. Eu sempre tive negócios voltado para o público gay: tenho hoje uma sauna gay, que este ano está fazendo dezenove anos de existência, e, durante esse tempo, nunca houve lá dentro mais do que três campanhas de prevenção ao HIV. Como empresário, eu nunca fiz isso. Claro, sempre ofereci preservativos e gel lubrificante para os clientes, mas nunca fiz uma campanha propriamente dita, com cartazes de divulgação e conscientização sobre o assunto.

Como funciona essa distribuição de preservativos dentro da sauna?

Hoje, a Secretaria Municipal de Saúde me fornece os preservativos e géis lubrificantes gratuitamente, que estão dispostos em vários pontos do estabelecimento. Se o cara está com tesão e quer transar, é muito fácil ele pegar a camisinha e usá-la. Mas antes, até doze ou treze anos atrás, não era assim: o programa municipal ainda não tinha esse serviço. Então, eu mesmo é que comprava os preservativos e os distribuía na sauna, sem custo adicional para os clientes. Hoje é maravilhoso termos essa parceria com a Secretaria, mas não é a mesma coisa que uma campanha: cartazes e folders com explicações, informações e referências. Campanhas assim fizeram muita falta.

Algo próximo disso aconteceu quando o Dr. Ricardo Vasconcelos veio nos procurar: ele precisava de 500 voluntário para participar de um estudo sobre PrEP e deixou vários folhetos lá na sauna. Sei que muitos clientes meus foram participar desse estudo. E, agora, o Dr. Ricardo será um dos palestrantes desse 1º Encontro de Saúde.

O que você acha da profilaxia pré-exposição (PrEP) e das outras alternativas de prevenção, como a profilaxia pós-exposição (PEP) e o tratamento como prevenção (TasP)?

Eu considero isso um marco. Com tantas opções de prevenção, uma pessoa bem informada só se infecta se quiser! Hoje, uma pessoa pode se prevenir antes, durante ou depois — quer coisa melhor? Mas quantas pessoas não sabem que essas alternativas existem? Falta informar as pessoas que essas alternativas existem! E é aí que mora o problema: as campanhas atuais não alcançam todo mundo.

Por que a Parada resolveu falar sobre isso para os jovens? Porque eles são difíceis de serem alcançados, eles são fluídos. Ontem, a novidade era o Facebook, hoje são os grupos de WhatsApp — os pais deles estão no Facebook, mas não no grupo de WhatsApp. Existem muitos grupos voltados para sexo e fetiches, conheço vários deles. Por exemplo, alguém que gosta de bareback ou leather cria um grupo e esse grupo bomba, com mil mensagens, duas mil mensagens. Mas aí um dos participantes cria um subgrupo, com um fetiche mais específico, por exemplo, de bareback com homens que usam barba ou sexo com militares. Em uma semana, o grupo anterior começa a minguar e perder seus participantes, que migraram para os novos subgrupos de WhatsApp, com novos temas e fetiches. E assim por diante.

Como vamos fazer campanha para pessoas que estão em grupos tão segmentados? As pessoas precisam entender que essa é a realidade, isso existe, e que é um problema a educação e informação chegar neles. Precisamos pensar em como fazer isso. Pensando bem, nestes mais de trinta anos de epidemia, deveríamos ter feito muito mais campanhas, discussões e eventos tentando atingir os mais diferentes grupos, canais e tipos de pessoas.

Além deste 1º Encontro de Saúde/Prevenção IST/Aids entre Jovens LGBT, quais outras iniciativas dentro desse assunto a Parada do Orgulho GLBT de São Paulo planeja fazer?

Uma coisa muito legal que vai acontecer em março de 2018 é um Encontro dos Organizadores de Paradas do Brasil. Juntos, vamos tentar criar uma força motivadora para tornemos o segmento mais forte. Nossa ideia é conhecer mais profundamente o movimento de Paradas, trocar experiências e saber um pouco das particularidades e especificidades de cada Parada. Além disso, esperamos que propostas e experiências legais, tal como este Encontro sobre Saúde/Prevenção, sejam levadas e adotadas em todas as Paradas do Brasil. Há sete anos, havia cerca 400 paradas no País. Hoje eu não tenho ideia de quantas existam — são muitas!

Quando você entrou na organização da Parada, qual era o tamanho do evento? Quantas pessoas participaram?

Eu participei como diretor da Associação na 4ª Parada, em 1999, até a 5ª Parada, no ano 2000. A 4ª Parada foi  um marco no Movimento: foi a “Parada dos 100 mil”, que a gente também chama de a “Parada da Virada”. Foi quando a Associação conseguiu levar 100 mil pessoas para a rua. A partir de então, a imprensa, a sociedade e o Estado começaram a olhar e a falar: “quem é esse grupo que consegue levar 100 mil pessoas à rua?” Até então, o Movimento existia mas era muito pequeno e muito dividido. O Movimento só ganhou a importância que tem hoje quando levou 100 mil pessoas à rua.

A partir daí, as pessoas perceberam que este era um grupo organizado. E eu estava justamente nessa Parada da Virada. Foi uma revolução! Na época, a diretoria da Associação tinha como presidente o Beto de Jesus — que, justiça seja feita, montou um grupo muito forte, dinâmico e bastante diversificado. Por exemplo, ele convidou o jornalista Fernando Estima para ser o assessor de imprensa da Associação. Também convidou a mim e ao atual diretor do Museu da Diversidade Franco Reinaldo — ambos empresários com negócios voltado para o público LGBT. Convidou o arquiteto Renato Baldin, o Nélson Matias e o Reinaldo Damião — militantes do movimento LGBT —, bem como o Ideraldo Beltrame e a Fátima Tassinari, além de outros colaboradores. Criou-se ali uma sinergia bem legal e, de repente, estávamos todos empenhados em ajudar, trabalhar e construir pautas, agenda e eventos para que o Movimento se fortalecesse e para que a Parada acontecesse. Foram dois anos incríveis!

Com cada vez mais pessoas participando da Parada…

Pois é, na 5ª Parada o público já foi de  200 mil pessoas. Foi um crescimento geométrico. Na 6ª Parada foram 500 mil pessoas. Foi uma coisa louca, o público cresceu ano a ano, até chegar nos milhões que temos hoje. Mas o que importa é que o Movimento LGBT se consolidou, a Associação da Parada se fortaleceu e tudo o que a Parada faz ganha uma enorme repercussão. Agora, esperamos que essa repercussão aconteça com o Encontro de Saúde/Prevenção para Jovens LGBT.

O que te motivou a entrar na organização da Parada?

Acho que foram as questões do Movimento LGBT. O Movimento LGBT não quer ser diferente, não quer ser especial: apenas queremos direitos iguais e que as nossas diferenças sejam respeitadas. Por que não ter uma lei de herança entre casais que funcione tal como funciona com casais heterossexuais? A adoção, por exemplo: por que um casal gay não pode adotar uma criança tal como um casal hétero? Por que eu e meu parceiro não podemos ter os mesmos direitos  de um casal convencional? Por que não podemos, por exemplo, partilhar um plano de saúde ou de previdência? Hoje já conseguimos muitos destes direitos, mas naquela época ainda não era assim. Percebemos que, quanto mais gente o Movimento levasse para as ruas, maior seria a força para negociar e barganhar esses direitos. Era preciso nos tornarmos visíveis, porque, até então, o público LGBT era invisível para as leis e para a sociedade.

Quando você percebeu que era gay?

Eu acho que tinha 11 anos de idade. Foi quando eu percebi que gostava de caras, que os homens me atraíam. Era a época da minissaia, em 1969. Lembro que os meus amiguinhos ficavam loucos vendo as pernas da professora de matemática. E eu achava mais interessante o tesão deles vendo as pernas da professora do que a professora em si. Era aquela molecada, todos com 11 ou 12 anos de idade, descobrindo a sexualidade, ficando de pau duro toda hora… E eu achava eles mais atraentes de pau duro do que a professora! [Risos] Isso tudo no interior de São Paulo, imagina? Sou nascido em Pirajú, perto de Ourinhos.

Eu vim de uma família muito religiosa, então, até os 19 anos eu fiquei bem quietinho, estudava a Bíblia, fui ser missionário, etc. Durante esse tempo, a minha sexualidade ficou adormecida. Até que vim para São Paulo, trabalhar como missionário aqui. Foi quando passei a ter contatos com a cidade e, claro, foram várias descobertas. Acabei me afastando da vida religiosa.

Foi nessa época que você “saiu do armário”?

Não podemos esquecer que estamos falando do final dos anos 70, começo dos 80: o Brasil estava em plena ditadura militar. Havia muita repressão, inclusive em São Paulo. Então, não tinha muito como “sair do armário” — eu tinha assumido a minha sexualidade para mim, mas não publicamente. Minha família nunca me questionou sobre a minha sexualidade. Eu comecei a namorar muito cedo, viajávamos bastante para o interior, na casa dos meus pais, e dormíamos no quarto. Ninguém nunca perguntou nem questionou nada!

Quais você acha que foram os principais avanços nos direitos LGBT, daquela época até os dias de hoje? 

Tiveram muitos avanços, mas eu acho que ainda falta bastante coisa. O que a gente vê hoje em dia é que nem toda família aceita um jovem que é parte da população LGBT. Então, muitos deles saem de casa cedo demais, o que faz com que a educação e a escola sejam interrompidas. O ideal seria que as pessoas aceitassem as diferenças e pudessem conviver com elas.

Outra coisa que aconteceu nestes vinte anos: as religiões fundamentalistas aumentaram muito, tanto em número de pessoas quanto em sua representatividade. Elas se organizaram e hoje ocupam cargos no legislativo municipal, estadual e no Congresso Nacional. Sabemos da visão equivocada que eles têm da homossexualidade e da falta de respeito às diferença.

Houveram várias conquistas, mas a força contrária, reacionária, também cresceu. Para mim, não seria nenhuma novidade que essas forças reacionários no ano que vem, nas eleições de 2018, se essas pessoas conseguirem ocupar altos cargos no Executivo — vide a prefeitura do Rio de Janeiro, com o Marcelo Crivella (PRB). Outro exemplo é o Jair Bolsonaro (PSC), que não é evangélico mas é apoiado por eles, que é um dos líderes nas pesquisas de intenção de voto para presidente.

O que você está dizendo é que, ao mesmo tempo em que houveram várias vitórias em relação aos direitos LGBT, também se cresceu a resistência a estes direitos?

Sim, é a lei da ação e reação. Isso faz parte: na medida em que a pauta progressista avança, a reacionária não fica quieta e se mobiliza também. A própria fala do Bolsonaro, quando ele fala a respeito de mulheres, gays e lésbicas, é sempre em tom muito pejorativo. Não há o mínimo de respeito nas falas dele. Ele é truculento. Além disso, vemos agora essa volta da censura nas peças de teatro e em exposições onde há nus. Há uma onda conservadora avançando — devagar, mas muito preocupante.

Você acha que a Parada corre algum risco?

Não sei se chegaria a tanto. Censura, não. Acho que a Parada pode ser verbalmente atacada. Seus recursos podem ser cortados, suprimidos. Mas o principal são as conquistas que alcançamos ao longo dos anos: será que elas podem regredir? Claro que podem! De vinte anos para cá, os governos sempre foram de esquerda ou de centro-esquerda, então a pauta era mais progressista, mais social, de direitos para as minorias. Durante esse tempo, embora estivesse afastado da Associação, eu percebia que existia parceira: haviam canais que foram sendo aberto com os parceiros institucionais. Mas, agora, este ano, temos o exemplo da Parada do Rio de Janeiro, que não recebeu apoio e nem verba institucional — foi por muito pouco que o evento não deixou de acontecer!

Quem são os principais apoiadores da Parada de São Paulo?

O evento faz parte do calendário oficial da cidade São Paulo — portanto, é um evento da cidade. Durante a semana da Parada, São Paulo fica lotada de turistas! Há vários anos as pesquisas mostram que o comércio vende muito mais na época da Parada. Tanto as lojas da Rua 25 de março, com seu comércio mais popular, como as lojas da Rua Oscar Freire, com comércio de luxo, batem recordes de venda. A ocupação de hotéis e pousadas é de 100%. Então, é muito interessante para a cidade ter um evento como esse. Há muitos anos, a Prefeitura de São Paulo apoia a Parada, não diretamente com dinheiro, mas na infraestrutura do evento: segurança, gradeamento e palco, por exemplo.

O Governo do Estado nos ajuda também. A Feira da Diversidade que a Parada fez no ano passado recebeu apoio do Governo Estadual para a montagem e estrutura do evento. Foi dele a ajuda na escolha dos locais, como teatros e auditórios, para vários eventos, como o Prêmio da Diversidade, o Ciclo de Debates e os Jogos da Diversidade.

O que é que você acha que precisa mudar no País em relação aos direitos LGBT? 

Em relação aos direitos LGBT, a questão do nome social das travestis e transexuais: quem pautou essa mudança na lei foi a Coordenadoria  da Diversidade Sexual da  Cidade de São Paulo. Isso foi legal, sensacional, mas isso aconteceu à partir de demandas do movimento LGBT. Sobre a criminalização da homofobia: essa agenda deveria também incluir a implantação de políticas públicas para educação e trabalho da população LGBT. São muitas as demandas!

Qual você acha que é o cenário ideal para as minorias, como as pessoas LGBT e para quem vive com HIV?

Acho que precisamos falar, discutir e rediscutir assuntos como saúde, cuidados e prevenção. Incessantemente.

Ontem, 21 de novembro de 2017, a Food and Drug Administration (FDA) americana aprovou o primeiro regime de tratamento completo com apenas dois antirretrovirais, em vez dos três ou mais medicamentos que costumam por padrão compor as terapias para quem vive com HIV. Esse novo tratamento é composto por Dolutegravir e Rilpivirina, vendido nos Estados Unidos num único comprimido de dose fixa com nome comercial Juluca, produzido pela ViiV Healthcare e pela Janssen, subsidiária da Johnson & Johnson. Esse novo medicamento poderá ser usado por pessoas que vivem com HIV-1 e que já têm carga viral indetectável em seu regime estável há pelo menos seis meses, sem histórico de falhas no tratamento e sem problemas associados à resistência viral com os componentes do Juluca.

“Limitar o número de medicamentos em qualquer regime de tratamento do HIV pode ajudar a reduzir a toxicidade para os pacientes”, disse a Dra. Debra Birnkrant, diretora da Divisão de Produtos Antivirais no Centro de Avaliação e Pesquisa de Medicamentos da FDA. Menos antirretrovirais significa menos toxicidade, pelo menos na teoria. Pesquisas futuras devem indicar se o regime de dois antirretrovirais realmente confere uma vantagem de segurança a longo prazo em relação aos regimes atuais que incluem três ou mais antirretrovirais, em particular no que diz respeito à saúde dos ossos e dos rins.

A segurança e a eficácia do Juluca em adultos foram avaliadas em dois estudos clínicos, Sword 1 e 2, divulgados em fevereiro de 2017 durante a Conference on Retroviruses and Opportunistic Infections (CROI), em Seattle. Esses estudos incluíram 1.024 participantes cujo vírus já estava suprimido por seus atuais medicamentos contra o HIV. Os participantes foram então aleatoriamente designados para continuar com seu tratamento atual contra o HIV ou para mudar para o Juluca. Os resultados mostraram que o novo medicamento foi eficaz em manter o vírus suprimido. Nesses estudos, os efeitos colaterais mais comuns entre aqueles que tomaram Juluca foram diarreia e dor de cabeça, cada um deles relatado por 2% dos participantes.

 

Inevitavelmente, a cura do HIV vai precisar envolver uma vacina capaz de melhorar a habilidade natural do organismo para controlar o vírus. Pelo menos, é isso o que foi discutido no seminário Steps, durante a 16ª Conferência Europeia sobre Aids (EACS 2017) em Milão, Itália, de acordo com o Aidsmap. Giulio Maria Corbelli, membro do European Aids Treatment Group (EATG) disse que “a pesquisa da cura nos lembra da importância do envolvimento do paciente, desde as primeiras fases do desenvolvimento de tratamento e prevenção.”

 

A cura do HIV: um objetivo elusivo

Giulia Marchetti, da Universidade de Milão, abriu o seminário com uma apresentação geral sobre as vacinas contra o HIV, especialmente as vacinas terapêuticas. Ela chamou a atenção para um paradoxo desconfortável na cura do HIV: por um lado, existem casos como o da “Bebê do Mississippi” e dos “Pacientes de Boston”, em que, respectivamente, a jovem paciente foi tratada poucas horas depois da infecção inicial e nos quais os pacientes com câncer tiveram seu sistema imunológico aparentemente todo substituído. Em ambos os casos, apesar dos repetidos estudos que não conseguiram encontrar o menor vestígio de DNA do HIV no meio das células, o vírus, mesmo assim, voltou.

Timothy Ray Brown

Por outro lado, temos o caso de Timothy Ray Brown, o “Paciente de Berlim” — com quem conversei pessoalmente em Lisboa. Já faz uma década desde o procedimento que levou Timothy à cura e, até agora, não há qualquer sinal do HIV em seu organismo. Também temos, ainda segundo Giulia Marchetti, o caso dos controladores de elite: os raros soropositivos que são capazes de controlar a carga viral do HIV mesmo sem tomar antirretrovirais. Por fim, há ainda os casos dos “controladores pós-tratamento”, como os dos pacientes da coorte Visconti, entre outros relatados na Alemanha e na França, que sugerem que algumas pessoas que recebem o tratamento cedo podem, posteriormente, serem capazes de passar por longos períodos sem tratamento e sem retorno da carga viral do HIV — estes foram casos espontâneos e ainda não sabemos exatamente porque é que isso acontece com algumas pessoas e não com outras.

Apesar destes casos pontuais de sucesso, as tentativas de induzir o controle viral sem ajuda da terapia antirretroviral não têm sido inteiramente bem sucedidas. Em um estudo com uma vacina terapêutica espanhola, os cientistas conseguiram manter alguns pacientes fora dos antirretrovirais por um longo período de tempo e sem rebote do HIV. Mas estudos semelhantes tiveram resultados decepcionantes. Outros estudos, ainda in vitro ou em animais, tiveram resultados mais animadores, com vacinas e medicamentos indicando que pelo menos a supressão viral por longos períodos pode ser possível, senão a cura completa do HIV.

 

Como sabemos qual estratégia é que vai funcionar?

É quase impossível prever antecipadamente qual abordagem contra HIV realmente vai funcionar. O Dr. Felipe Garcia, do Hospital da Universidade de Barcelona, um dos pesquisadores colaboradores da Aliança Europeia de Vacinas contra o HIV, disse que o problema das vacinas contra o HIV é que “aquilo que protege não é capaz de controlar e aquilo que controla não é capaz de proteger”.

O que ele quer dizer com isso é que, por um lado, os chamados anticorpos amplamente neutralizantes e as vacinas que os geram — as vacinas de células B — podem bloquear completamente a infecção pelo HIV nas células, mas tendem a perder a eficácia rapidamente, uma vez que o HIV é capaz de mutar o suficiente para desenvolver resistência a estas estratégias. Mesmo assim, uma destas ferramentas, chamada Pro 140, levou à supressão da carga viral por mais de um ano. Experiências com combinações de anticorpos amplamente neutralizantes que já existem, incluindo algumas com design inovador, mostraram maior eficácia em estudos em humanos e em macacos. Entretanto, estes anticorpos foram injetados passivamente, funcionando tal como medicamentos, sem induzir o corpo a produzir estes anticorpos por conta própria, tal como uma vacina faz.

As vacinas que estimulam uma resposta imune das células contra o HIV — as vacinas de células T — poderiam, potencialmente, gerar uma resposta imune muito mais duradoura contra HIV. No entanto, até agora, essa resposta se mostrou muito fraca e estreita, pelo menos nos estudos em humanos, sem produzir mais do que uma ligeira redução na carga viral — geralmente, uma redução de três a dez vezes (0,5 a 1log) no tamanho do reservatório de células latentemente infectadas pelo HIV. Um estudo com uma vacina em macacos levou à reduções de carga viral muito mais significativas e até à uma aparente cura em cerca de metade dos macacos — o problema é que esta vacina parece ser complicada de se adaptar em humanos.

Garcia citou um modelo matemático que sugere que uma resposta imune teria que produzir uma redução contínua de dez mil vezes nas células infectadas (4 logs) para produzir uma remissão que dure toda uma vida. Ele acrescentou que um problema fundamental nos estudos de vacinas contra o HIV é o fato de que ainda não temos correlatos reais de imunidade: estudos que previram a eficácia de outras vacinas no passado não têm funcionado no caso das vacinas contra o HIV. “Só depois que uma resposta imune é validada por um estudo”, disse Garcia, “é que podemos tirar uma conclusão.”

Estes correlatos de eficácia ou imunidade emergiram em estudos clínicos de grande escala, disse ele. No caso das vacinas contra o HIV, isto é um problema, uma vez que estes estudos são muito caros: o estudo RV144, o único estudo de fase III sobre eficácia, envolveu 16 mil participantes e custou 100 milhões de euros. Foram necessários múltiplos estudos para encontrar uma vacina eficaz contra o HIV e estima-se que mais de 35 mil voluntários por ano sejam necessários nos testes de vacinas contra o HIV de fase I a III, em todo o mundo, para atingir seu objetivo final.

Foi preciso encontrar um jeito mais fácil de selecionar quais das novas vacinas são as melhores candidatas para desenvolvimento, explicou Garcia, e as vacinas terapêuticas trouxeram essa solução, com estudos que não necessitaram de muitas pessoas. Mesmo assim, em um estudo que ele participou da pesquisa, o RISVAC02, foram selecionados 3056 voluntários, dos quais apenas 41 eram candidatos elegíveis e, destes, só 30 foram matriculados no estudo. Outra alternativa tem sido utilizar uma vasta gama de proteínas diferentes num único estudo, caso uma delas mostre eficácia. Em um estudo de vacinas de células dendríticas, no qual Garcia foi o pesquisador principal, avaliou-se a atividade de mais de 50 mil moléculas.

 

Estratégias combinadas

A possibilidade de combinar estratégias tem sido uma tarefa formidável para os pesquisadores de vacinas, que têm mais chances de ver sua vacina ser bem sucedida. Dentre as estratégias recentemente estudadas, estão:

O Dr. Felipe Garcia tem mais interesse nesta última. “As células dendríticas são a primeira linha de defesa contra a infecção. Elas capturam moléculas estranhas e as apresentam para as células do sistema imunológico como antígenos. É preciso acompanhar estas células dendríticas, porque se estas células não alertam o corpo sobre a infecção, o corpo não sabe disso”, disse ele. “O problema com o HIV é que ele desenvolveu a habilidade de se ligar à célula dendrítica, que então os transporta para dentro dos gânglios linfáticos como um Cavalo de Troia. Isso significa que, se desenvolvermos uma vacina que se associe às células dendríticas, podemos gerar uma forte resposta imune celular nos gânglios linfáticos, que é exatamente onde é preciso que ela aconteça.”

Além de fazer parte da Aliança Europeia de Vacinas contra o HIV — um consórcio que reúne 39 parceiros de onze países europeus, quatro da África subsaariana e um dos Estados Unidos que apoia o estudo de diversas estratégias de vacinas preventivas, que incluam vetores virais melhorados, versões modificadas de proteínas do envelope do HIV e vacinas de células dendríticas —, Garcia também é o principal pesquisador no consórcio HIVACAR, que envolve três diferentes estratégias de vacinas terapêuticas que serão usadas em pessoas soropositivas, separadamente e em combinação. A primeira se concentra no desenvolvimento de antígenos direcionados não apenas contra as partes estáveis do vírus, mas também contra o perfil genético do HIV de cada indivíduo — trata-se de uma vacina verdadeiramente individualizada. A segunda etapa é a injeção de anticorpos amplamente neutralizantes. E a terceira inclui moléculas de RNA mensageiro, um procedimento já utilizado em medicamentos experimentais contra o câncer, injetadas após os antígenos e anticorpos contra o HIV. Essa sequência visa sensibilizar as células dendríticas para os antígenos do HIV e estimular ainda mais uma resposta imune que, esperara-se, possa matar as células infectadas pelo HIV dentro dos reservatórios, aonde outras estratégias não conseguiram chegar.

Gânglios linfáticos.

Estas vacinas serão aplicadas intranodicamente — isto é, injetadas nos gânglios linfáticos — com a esperança de que a vacinação direta no local de integração e replicação do HIV inicie uma resposta imune mais forte contra HIV e, espera-se, reduza a replicação do vírus até o ponto em que os indivíduos possam ser retirados da terapia antirretroviral. Os protocolos da HIVACAR estão em estudos de fase I e II, avaliando sua segurança e imunogenicidade, com resultados esperados para 2021.

 

Outras abordagens

O seminário também contou com detalhes sobre o estudo River, parte do consórcio britânico CHERUB. Este estudo reúne combinações de inoculações iniciais com vacinas baseadas em vetores com doses subsequentes de medicamentos denominados inibidores de HDAC para verificar se as duas estratégias funcionam melhor juntas. Os inibidores de HDAC, que despertaram as células dormentes do reservatório de HIV, estavam entre os primeiros fármacos experimentados como agentes de cura do HIV. No entanto, embora eles tenham se mostrado capazes de reverter a latência viral, não produziram uma diminuição útil no tamanho do reservatório de HIV. Espera-se que, ao estimular o sistema imunológico para reconhecer o vírus que é produzido pelas células despertadas do reservatório, essa diminuição do reservatório seja alcançada. O River inlcui 50 voluntários de seis regiões da Inglaterra e deve anunciar seus resultados no próximo ano.

O seminário também trouxe uma atualização sobre a coorte ICISTEM, que reúne pacientes soropositivos com câncer que receberam transplantes de medula óssea — uma abordagem de cura semelhante à de Timothy Ray Brown e dos pacientes de Boston. O ICISTEM conseguiu coletar dados de 23 pacientes, 11 dos quais morreram. Seis pacientes dos 12 restantes foram acompanhados ao longo de dois anos: em cinco deles, as células-tronco da medula óssea transplantada sem HIV substituiu rapidamente as células cancerosas e infectadas pelo HIV. Testes ultrassensíveis não encontraram RNA do HIV no sangue desses pacientes e a carga viral deles se aproxima de zero. Outros testes também não encontraran DNA de HIV nas células do reservatório.

Os pacientes ICISTEM foram curados? Nós ainda não sabemos. Embora os pesquisadores não tenham conseguido encontrar uma única cópia do DNA do HIV em um milhão de células do reservatório destes pacientes, o verdadeiro teste será tirá-los da terapia antirretroviral, o que ainda não foi feito.

 

Envolvendo a comunidade

Fred Verdult é uma pessoa vivendo com HIV que vive na Holanda e que usou sua experiência em publicidade e marketing para fazer uma série de pesquisas de opinião dentro da comunidade de pessoas com HIV, especialmente sobre a pesquisa de cura do HIV e o seu potencial. Ele descobriu que 72% dos seus entrevistados, num grupo de 457 pessoas com HIV, acreditam que uma cura para o HIV seria “muito importante” e apenas 6% achavam que não seria importante.

Quando os entrevistados foram perguntados sobre qual seria a maior desvantagem de viver com o HIV, 91% responderam que era o risco dos possíveis efeitos adversos prejudiciais à saúde no futuro, como efeitos colaterais decorrentes do longo uso da terapia antirretroviral ou problemas de saúde devido à inflamação crônica. 66% disseram se incomodar com os efeitos colaterais dos medicamentos, e outros 66% disseram sofrer com ansiedade sobre o risco de infectar alguém.

Verdult disse que a questão de quando interromper o tratamento é um importante problema ético na pesquisa da cura do HIV — um dilema que já está sendo considerado pelo ICISTEM. Outro dilema é o seguinte: quando a cura chegar, quem devem ser os primeiros beneficiados com ela? Eticamente, se fosse preciso escolher quais pessoas deveriam se beneficiar primeiro da cura do HIV, deveríamos logicamente chamar primeiro as pessoas cronicamente infectadas que sofreram mais que a maioria, por anos de imunossupressão e de terapia subótima contra o HIV — primeiro a entrar, primeiro a sair. No entanto, pelo que se sabe hoje, estas provavelmente serão as pessoas mais difíceis de curar, portanto, com a exceção dos pacientes com câncer, a pesquisa da cura concentrou-se nas pessoas infectadas mais recentemente, com sistemas imunes ainda intactos. Isso pode levar a cura que beneficie antes os últimos infectados — últimos a entrar, primeiros a sair. Será que é justo?

Por fim, há ainda a questão do tratamento como prevenção e da profilaxia pré-exposição (PrEP), que podem trazer grande redução na incidência de HIV no mundo todo — tal como já tem sido observado em São Francisco, por exemplo. Se essa tendência se mantiver, será que o interesse científico e dos financiadores das pesquisas da cura vai diminuir?

São Francisco, na Califórnia, onde foram documentados os primeiros casos de HIV da história da epidemia, registrou 223 novos diagnósticos de HIV em 2016 — o menor índice jamais registrado na cidade. Enquanto isso, a cobertura de tratamento antirretroviral e as taxas de carga viral indetectável em quem estava sob tratamento batiam recorde. A notícia foi publicada por diversos veículos de imprensa nos Estados Unidos.

É isso o que a Dra. Susan Scheer, PhD, diretora da Seção de Epidemiologia do HIV no Departamento de Saúde Pública de São Francisco, e seus colegas averiguaram em sua análise dos dados epidêmicos da cidade. Os pesquisadores atribuíram o sucesso no controle da epidemia na cidade ao progresso de uma série de programas de prevenção e de tratamento de HIV, partes da campanha Getting to Zero San Francisco, iniciativa da qual diferentes organizações acadêmicas, comunitárias e de saúde pública fazem parte. O objetivo é zerar o número de novas infecções pelo HIV, zerar as mortes associadas ao HIV e zerar o estigma e discriminação contra quem vive com HIV em São Francisco.

A campanha foi lançada em 2010, quando incluiu a oferta de terapia antirretroviral independentemente da contagem de células CD4. Em 2011, aumentou a cobertura do teste de HIV e criou programas específicos para pacientes com HIV que haviam abandonado o tratamento. Em 2012, iniciou a oferta de tratamento no mesmo dia no diagnóstico. Em 2013, expandiu o acesso à profilaxia pré-exposição (PrEP) em grupos de alta prevalência.

A análise feita pelos pesquisadores mostra que o número total de novos diagnósticos de HIV diminuiu de 473 em 2009 para 329 em 2014. Os dados mais recentes divulgados pelo departamento de saúde da cidade revelaram ainda menos diagnósticos em 2016: apenas 223. De acordo com os pesquisadores, o declínio nos novos diagnósticos de HIV em São Francisco reflete uma tendência geral nos Estados Unidos. No entanto, a proporção de novos diagnósticos aumentou entre homens asiáticos, naturais das ilhas do Pacífico, latinos e entre homens que fazem sexo com homens. A ligação ao tratamento em 3 meses aumentou de 85,8% em 2009 para 91,8% em 2014, enquanto iniciação do tratamento no prazo de 1 ano após o diagnóstico aumentou de 63,2% para 90,7%, a supressão viral dentro de 1 ano do diagnóstico aumentou de 49,2% para 82,3% e a proporção de pacientes que desenvolveram aids em 3 meses diminuiu de 26,9% para 16,4%.