Aproveitando o Dia das Bruxas, o Projeto Boa Sorte lançou um vídeo sobre as lendas urbanas que envolvem o HIV. Algumas delas, sejam verdades ou não, fazem crescer o estigma sobre o HIV de forma desnecessária.

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Gaëtan Dugas, um comissário de bordo homossexual, virou lenda na história do HIV/aids quando se tornou conhecido como o “Paciente Zero” — o primeiro caso de aids nos Estados Unidos. Contudo, um estudo publicado na revista Nature mostrou que ele era apenas uma dentre as milhares de pessoas infectadas pelo HIV na década de 1970. O estudo também mostrou que Nova York era um centro de propagação do vírus.

A aids só começou a ser conhecida em 1981, quando seus sintomas incomuns começaram a aparecer em homens homossexuais. Mas agora os pesquisadores conseguiram olhar mais para trás no tempo, através da análise de amostras de sangue ainda armazenadas de estudos de hepatites feitos na década de 1970, algumas delas contendo HIV. A equipe da Universidade do Arizona desenvolveu um novo método para reconstruir o código genético do vírus nestes pacientes.

“Podemos estimar a data mais precisas da origem da epidemia nos Estados Unidos para cerca de 1970 ou 1971.”

Após uma triagem de 2.000 amostras de sangue de Nova York e São Francisco, os pesquisadores foram capazes de obter oito códigos genéticos completos do HIV. Isso deu aos cientistas a informação que eles precisavam para construir a árvore genealógica do HIV e identificar o momento em que o vírus chegou aos Estados Unidos. O Dr, Michael Worobey, um dos pesquisadores, disse: “As amostras contêm tanta diversidade genética que não poderiam ter se originado no final da década de 1970. Podemos estimar a data mais precisa da origem da epidemia nos Estados Unidos para cerca de 1970 ou 1971.”

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Gaëtan Dugas

“Gaëtan Dugas é um dos pacientes mais demonizados da história.”

Os pesquisadores também analisaram o código genético do vírus da imunodeficiência humana a partir do sangue de Dugas. Assim como um teste de paternidade que deu negativo, os resultados mostraram que o vírus em seu sangue não foi o “pai” da epidemia de HIV/aids americana. O Dr. Richard McKay, um historiador de ciência na Universidade de Cambridge, disse: “Gaëtan Dugas é um dos pacientes mais demonizados da história e é apenas um dentre uma longa lista de indivíduos e grupos sociais vilipendiados pela falsa crença de terem sido responsáveis por epidemias e com intenção maliciosa.”

Dugas, funcionário da Air Canada, foi rotulado como “Paciente O” (a letra, não o número) pelos Centros de Controle e Prevenção de Doenças, porque ele era um caso de aids “Out-of-California” — isto é, de fora da Califórnia. Ao longo do tempo, o “O” tornou-se um zero e o termo Paciente Zero nasceu. Ele ainda é usado até hoje para descrever o primeiro caso de um surto, tal como aconteceu com o ebola na África Ocidental. Dugas morreu em 1984, mas permaneceu identificado como o Paciente Zero no livro And the Band Played On, de Randy Shilts. O estudo também descobriu o papel fundamental de Nova York na propagação da infecção.

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Nova York

A origem da pandemia se deu em Kinshasa, na República Democrática do Congo, em 1920 — a cidade onde começou a pandemia global. De lá se espalhou para o Caribe e para os Estados Unidos, por volta de 1970.

“Nova York parece ter sido o ponto a partir do qual o vírus se espalhou.”

Segundo o Dr. Worobey: “Em Nova York, o vírus encontrou uma população que era como palha seca, fazendo com que a epidemia queimasse mais quente e mais rápido, infectando pessoas suficientes para chamar a atenção do mundo pela primeira vez. Assim como Kinshasa foi um momento decisivo para o vírus se tornar uma pandemia, Nova York parece ter sido o ponto de virada a partir do qual o vírus se espalhou para a costa oeste dos Estados Unidos e, então, para a Europa Ocidental, Austrália, Japão, América do Sul e todos os demais lugares.”

O Prof. Oliver Pybus, da Universidade de Oxford, comentou: “Estes novos dados ajudam a confirmar o quadro das origens do HIV nos Estados Unidos e trazem um ponto muito interessante sobre o Paciente Zero, que se tornou sinônimo da origem da aids. Embora esta narrativa seja atrativa, ela não tem qualquer base científica e é realmente lamentável que esta pessoa tenha sido identificada dessa maneira.”

Em 26 de outubro de 2016 por James Gallagher para BBC


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Uma nova pesquisa, liderada pela Universidade de Liverpool, visa melhorar a administração e a disponibilidade de medicamentos terapêuticos para pacientes com HIV através do uso da nanotecnologia. A Pesquisa conduzida pelo programa colaborativo de pesquisa em nanomedicina, liderado pelo farmacologista e professor Andrew Owen e pelo professor e químico de materiais Steve Rannard, examinou o uso da nanotecnologia para melhorar a aplicação de medicamentos em pacientes com HIV.

Nanotecnologia é a manipulação da matéria em escala atômica, molecular e supramolecular. Nanomedicina é a aplicação da nanotecnologia na prevenção e no tratamento de doenças no corpo humano. Essa disciplina em evolução tem o potencial de mudar radicalmente a Ciência Médica e já tem tido impacto sobre uma série de terapias utilizadas clinicamente e em diagnósticos em todo o mundo.

 

Principal pesquisa

Atualmente, o tratamento de HIV requer dose oral diária de medicamentos antirretrovirais. A dosagem vitalícia traz complicações significativas, que surgem em decorrência do incômodo sentido por muitos pacientes, entre populações com condições variáveis, que levam à falta de adesão às terapias.

Uma avaliação recente entre grupos de pacientes com HIV mostrou que existe vontade de mudar para alternativas de nanomedicina, se esta mostrar benefícios. Os esforços de pesquisa da equipe de Liverpool têm-se centrado no desenvolvimento de novas terapias orais, usando a tecnologia Solid Drug Nanoparticle (SDN), a qual pode melhorar a absorção da droga no corpo, reduzindo tanto a dose quanto custo por dose, permitindo assim que os atuais orçamentos de saúde possam tratar mais pacientes.

 

Pouco disponível

Atualmente, não existem nanoterapias orais disponíveis clinicamente para populações com HIV e medicamentos pediátricos convencionais contra o HIV são pouco disponíveis. A pesquisa examinou uma formulação pediátrica comum, que utiliza altas concentrações de etanol para solubilizar o Lopinavir, um antirretroviral pouco solúvel.

Através da utilização de uma nova abordagem de nanomedicina desenvolvida em Liverpool, os pesquisadores foram capazes de gerar um meio de dispersas medicamentos em água e, assim, tornado desnecessário o uso de álcool na medicina pediátrica.

A pesquisa, financiada pelo Engineering and Physical Sciences Research Council do Reino Unido, está agora em testes em humanos, enquanto o estudo pré-clínico foi publicado na revista Nature Communications.

 

Ampla aplicabilidade

Segundo o professor Owen, “os frutos da nossa pesquisa interdisciplinar estão começando a ser colhidos. Nossa abordagem tem potencial de superar os desafios da atual terapia antirretroviral, que incluem a administração de altas doses necessárias para atingir concentrações eficazes no corpo, bem como melhorar as formulações para crianças que vivem com HIV.”

O professor Rannard acrescentou: “A ampla aplicabilidade da nossa estratégia tem implicações para programas de desenvolvimento de terapias múltiplas e estamos ativamente engajados na criação de opções de nanomedicina para impactar uma variedade de necessidades clínicas.”

Em 21 de outubro de 2016 pelo ScienceDaily

FonteMateriais da Universidade de LiverpoolReferência: Marco Giardiello, Neill J. Liptrott, Tom O. McDonald, Darren Moss, Marco Siccardi, Phil Martin, Darren Smith, Rohan Gurjar, Steve P. Rannard, Andrew Owen. Accelerated oral nanomedicine discovery from miniaturized screening to clinical production exemplified by paediatric HIV nanotherapies. Nature Communications, 2016; 7: 13184 DOI:10.1038/NCOMMS13184


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Um pequeno dispositivo que permite que uma equipe médica manipule geneticamente o sangue de um paciente, capaz de levar novos tratamentos contra o câncer, HIV e outras doenças, eliminaria a necessidade das salas esterilizadas, que custam milhões de dólares, tornando a terapia genética mais viável, mesmo para os países mais pobres.

A chamada terapia genética portátil, desenvolvida por cientistas no Fred Hutchinson Cancer Research Center, conseguiu levar células estaminais do sangue modificadas que eram tão boas — ou até melhor — do que aquelas fabricados em salas esterilizadas, altamente regulamentadas, além de exigir menos da metade da equipe, de acordo com um estudo publicado na Nature Communications. O estudo observou que células adaptadas também tiveram sucesso em repovoar o sistema sanguíneo, quando testadas em dois modelos animais diferentes. Ainda não foi testado em humanos.

O dispositivo portátil sugere uma solução para um dos desafios mais complicados da terapia genética: como tornar estes tratamentos emergentes, de alta tecnologia, acessíveis e disponíveis, para além dos poucos centros de pesquisa especializados no mundo?

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A Dra. Jennifer Adair em frente ao dispositivo portátil que ela começou a desenvolver desde 2014.

“Terapias genéticas não estão mais restritas a um número muito pequeno de instalações altamente sofisticadas.”

“Tínhamos que pensar sobre como construir infraestrutura e instalações de milhões de dólares para salas esterilizadas em clínicas no mundo todo — o que não é viável — ou teríamos que pensar em simplificar esse processo, para o que eu originalmente concebi neste pequeno dispositivo”, disse a Dra. Jennifer Adair, pesquisadora do Fred Hutch e principal autora do estudo. “Esta foi a primeira prova de que a ‘terapia genética portátil’  poderia funcionar. Terapias genéticas e terapias celulares que envolvem células geneticamente modificadas não estão mais restritas a um número muito pequeno de instalações altamente sofisticadas.”

Até agora, nenhuma terapia genética foi aprovada para uso nos Estados Unidos. Contudo, milhares de pacientes sofrem de pelo menos 15 ou 20 doenças, herdadas ou infecciosas, e cânceres que estão sendo tratados com terapias experimentais, muitas das quais estão demonstrando sucesso. Uma vez que o complexo processo requer equipamentos de alta tecnologia e pessoal altamente treinado, tais estudos ainda são limitados a cerca de uma dúzia centros de pesquisa espalhados por oito países — Estados Unidos, França, Alemanha, Itália, Espanha, Reino Unido, China e Austrália.

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Dr. Hans-Peter Kiem.

O sistema semi-automatizado desenvolvido pela equipe de Adair, que usou instrumentação da Miltenyi Biotec, reduziu o espaço necessário para produzir células modificadas: de 46m² para menos de 1m² e a equipe de 5 ou 10 pessoas para apenas um ou dois, de acordo com o oncologista e autor sênior do estudo Dr. Hans-Peter Kiem, pesquisador de terapia genética no Fred Hutch e na Universidade de Washington. O novo dispositivo faz todo o trabalho em menos da metade do tempo. “É revolucionário”, disse Kiem. “Vai mudar a nossa forma de produzir terapia genética e terá um grande impacto sobre transplantes, células-tronco e provavelmente também em imunoterapia para pacientes com doenças genéticas, HIV e câncer.”

 

Uma ideia se formando

Em 2008, Kiem contratou Adair para executar um estudo clínico de terapia genética para tratar glioblastoma, a forma mais letal de câncer no cérebro. O estudo exigia que fossem extraídas células estaminais do sangue de um paciente para inserção de um gene especial com “resistência”, concebido em laboratório para proteger as células do sangue dos danos causados pelos fármacos quimioterápicos. Infundidas de novo no paciente, as células resistentes iriam  se multiplicar e, então, permitir que os pacientes com glioblastoma recebessem doses mais elevadas de quimioterapia para matar o câncer.

A terapia genética baseada em células estaminais envolve a remoção de sangue ou da medula óssea de pacientes, que separa as células estaminais — que dão origem à todas as células do sangue e do sistema imunológico do corpo — usando um vírus desativado para transferir instruções genéticas para o tratamento ou prevenção de uma doença para as células. (Os cientistas também estão investigando a utilização de alvos de nucleases, como CRISPR para editar genes, mas a maioria das terapias genéticas atualmente testadas em seres humanos dependem de vetores virais.) Depois de serem infundidas de volta no paciente, as células estaminais propagam novas células que transportam a modificação.

“Quando é que vamos ser capazes de fazer isso por mais de um paciente com câncer por semana?”

Para Adair, a ideia da terapia genética portátil surgiu em 2009. Ela estava a caminho de casa em um táxi à 1 hora da manhã, depois de ter aplicado células geneticamente modificadas no primeiro paciente do recente estudo de câncer no cérebro. Adair passara a maior parte dos últimos quatro dias em uma sala esterilizada estritamente regulamentada, onde cada pausa para ir ao banheiro  significava ter que se lavar e vestir novamente a roupa esterilizada. A maratona de 96 horas de trabalho quase constante e sob a pressão do tempo a deixou física e mentalmente exausta. “Quando é que vamos ser capazes de fazer isso por mais de um paciente com câncer por semana?”, ela lembra-se de pensar. “Me pareceu angustiante.”

Cinco anos depois, a terapia genética baseada em células-tronco do sangue, embora ainda em fase experimental, estava explodindo. Os pacientes daquele estudo em fase inicial sobre câncer no cérebro estavam vivendo meses ou até anos mais do que a maioria das pessoas com glioblastoma costumam sobreviver. Adair estava conduzindo estudos clínicos adicionais, incluindo um para uma rara doença no sangue chamada anemia de Fanconi, quando Kiem conseguiu apoio para pesquisar a terapia celular e genética para curar o HIV, o vírus que causa a aids — algo antes considerado inimaginável.

“Se nós curarmos o HIV em um paciente em os Estados Unidos, como vamos fazer esta mesma cura chegar aos países que mais precisam dela?”

Foi em uma conferência de 2014 sobre a cura do HIV que Adair teve sua segunda epifania, desta vez a respeito dos custos. Mais de 25 milhões das cerca de 36,7 milhões de pessoas no mundo que vivem com HIV estão na África subsaariana, segundo a Organização Mundial de Saúde. Nenhum país daquele continente poderia financiar as salas esterilizadas multimilionárias ou arcar com os custos altíssimos de qualquer terapia que podem sair delas. Adair lembra de estar sentada na conferência e pensando: “Se nós curarmos o HIV em um paciente nos Estados Unidos, como vamos fazer esta mesma cura chegar aos países que mais precisam dela?”

 

“Por que não agora?”

Adair não era a única pessoa que fazia estas perguntas. Mais recentemente, em julho, pesquisadores e ativistas na Conferência Internacional de Aids em Durban, África do Sul lembraram o tratamento antirretroviral, que salva tantas vidas ao suprimir o HIV, chegou à África subsaariana vários anos após estes medicamentos estarem disponíveis nos países desenvolvidos. Os ativistas estão preocupados que a mesma coisa viesse a acontecer com a cura no futuro.

“A cura do HIV ainda está em sua infância.”

“A cura do HIV ainda está em sua infância. Por enquanto, ela é restrita principalmente aos países do hemisfério norte e de alta renda”, disse a Dra. Paula Munderi do Medical Research Council e Uganda Virus Research Institute, em um simpósio sobre a pesquisa global da cura do HIV. “Meu apelo hoje é que os países de baixa renda — África, em particular, que tem a maior parte dos pacientes — não podem ser deixados de fora da agenda de pesquisa.”

Adair tinha ouvido outros pesquisadores de terapia genética que indeferiram perguntas sobre a acessibilidade, dizendo: “Primeiro, temos de mostrar resultados com a terapia genética, para então vamos nos preocuparmos com isso.” Mas ela não estava de acordo. “Por que não agora?”, ela lembra-se de pensar. “Será que existe uma maneira mais simplificada de fazermos isso?”

Quando Adair tornou-se chefe de seu próprio laboratório, em 2014, com incentivo de Kiem, ela usou o financiamento do Fred Hutch para trabalhar na busca por uma maneira de fazer essas terapias ainda experimentais se tornarem disponíveis e acessíveis onde quer que eles sejam necessárias.

 

“Quero que esse dispositivo faça tudo”

No estudo clínico de câncer do cérebro, Adair utilizou a primeira geração do dispositivo feita pela Miltenyi Biotec para separar as células estaminais a partir de outras células sanguíneas. Esse processo envolvia a adição de esferas de metal específicas na medula óssea retirada de pacientes para, em seguida, usando um ímã, retirar dali as células-tronco.

Mas quando começou a trabalhar em um estudo clínico sobre anemia de Fanconi, uma desordem genética rara que leva à insuficiência da medula óssea, ela precisava de algo mais rápido. Esses pacientes têm um número pequeno de células-tronco e são muito suscetíveis aos danos causados pela exposição ao oxigénio ambiente. Para limitar o seu tempo de exposição, Adair tinha que encontrar uma maneira de acelerar o processo de separação e modificação das células.

Por acaso, a Miltenyi tinha acabado de enviar o modelo da máquina de segunda geração, que era automatizada, acelerava o processo com as esferas de ímã e era capaz de processar os volumes exatos de medula óssea necessários para o estudo. Trabalhando com Tim Waters, da Miltenyi, Adair dirigiu a reprogramação do dispositivo para ver se ele poderia ir ao encontro das suas necessidades. Quando os testes iniciais funcionaram, o Fred Hutch comprou a nova máquina e obteve aprovação federal para usá-la no estudo sobre anemia da Fanconi, tratando o primeiro paciente em 2014.

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O tempo todo ela pensava: “eu quero que esse dispositivo faça tudo”. A máquina da Miltenyi, chamada de CliniMACS Prodigy, era pequena o suficiente. E era um sistema fechado: o que significa que não tem exposição ao ar ambiente. Pode ser automatizada. Sua interface era semelhante à uma máquina de aférese, um outro dispositivo clínico que separa o sangue em seus componentes e que equipes hospitalares em muitos países em desenvolvimento já estão treinadas para usar.

Adair compartilhou sua grande visão com Waters, um dos coautores do artigo da Nature Communications. Ela sugeriu que eles reconfigurassem e reprogramassem o dispositivo para fazer todas as etapas, incluindo as etapas feitas em ambiente esterilizado, as quais incluem adicionar o vetor viral e remover dos reagentes residuais para, em seguida, desenvolver componentes específicos para cada doença, os quais estariam disponíveis em kits, mantidos em congeladores de farmácia. Incluído em cada kit descartável estaria a tubagem para transportar as células de sangue do paciente, a partir de um saco estéril para dentro da máquina. Uma enfermeira precisaria então prender o saco na máquina, adicionar os reagentes químicos do kit para puxar para fora as células estaminais, nutrientes para suportar o crescimento das células e o vetor viral modificado para fazer a transferência de genes para cada doença. Em seguida, tubos descartáveis adicionais levariam as células modificadas a um segundo saco estéril, o qual seria usado para ir direto para a via intravenosa do paciente.

Reconfigurar o dispositivo significava cálculos tediosos, testes mecânicos e reaprender os princípios da física que ela tinha esquecido da faculdade — coisas que Adair disse nunca ter imaginado fazer. “Quando me deparei com este projeto”, disse ela, “eu estava tão motivada pelo problema que estava abordando — especificamente, dos lugares no mundo que ainda não têm qualquer acesso a este tipo de terapia — que fiquei animada. Por sua vez, outras pessoas ficaram animadas.”

 

Próximos passos

O dispositivo em si custa cerca de US$ 150.000,00 para compra — um investimento único que seria usado para milhares de pacientes. Cada kit individual custaria cerca de US$ 26.000, segundo Adair.

Embora não seja barato, esse custo único, se comparado ao tratamento todo de várias doenças, é favorável. Veja o HIV, por exemplo: o tratamento vitalício com medicamentos antirretrovirais para suprimir o vírus está orçado em cerca de US$ 600.000. A terapia genética portátil também custa menos do que o tratamento de terapia genética em instituições de pesquisa atualmente — entre US$ 38.000 e US$ 55.000, além da sala esterilizada e de outros custos de infraestrutura, de acordo com Adair. O novo dispositivo também poderia ser usado nos Estados Unidos ou na Europa, o que poderia ajudar a reduzir os custos, uma vez que requer menos infraestrutura e menor pessoal.

Adair e sua equipe, que inclui outros pesquisadores e cientistas do Fred Hutch e da Washington State University, passaram os últimos 18 meses desenvolvendo o dispositivo, comparando os produtos produzidos aos fabricados em salas esterilizadas e testando as células modificadas em modelos animais, pré-requisitos fundamentais para a obtenção de licença da US Food and Drug Administration para então testar os produtos em seres humanos. Ela está esperando para enviar um dos dispositivos para uma clínica que não está em um centro de pesquisa de alta tecnologia, a fim de testar sua facilidade de uso.

“Estamos facilitando mais pessoas a serem capazes de explorar estes processos.”

“Há provavelmente mil modificações que ainda poderiam melhorar a eficiência do dispositivo”, disse ela. “Mas, ao criar uma plataforma que não requer que você esteja em uma das instituições acadêmicas especializada em terapia genética, estamos facilitando mais pessoas a serem capazes de explorar estes processos e, potencialmente, incorporar suas próprias mudanças.”

Em 20 de outubro de 2016 por Mary Engel para o Fred Hutch News Service


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Começou nessa quinta-feira (20) e vai até 2 de novembro, em São Paulo, a 40ª Mostra Internacional de Cinema. Durante duas semanas, serão exibidos 322 títulos em 35 endereços, entre cinemas, espaços culturais e museus espalhados pela capital paulista, incluindo projeções gratuitas e ao ar livre. A seleção faz um apanhado do que o cinema contemporâneo mundial tem produzido, além de apresentar tendências, temáticas, narrativas e estéticas. A 40ª Mostra é composta por seis seções: Homenagens, Apresentações Especiais, Foco Polônia, Competição Novos Diretores, Mostra Brasil e Perspectiva Internacional.

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A programação completa pode ser acompanhada no site do evento. Aqui, selecionamos alguns destaques relacionados aos temas LGBTs (lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais), direitos humanos ou que estão ligados, de alguma forma, à sexualidade.

EU, OLGA HEPNAROVÁ (2016)
icone_ingressoOlga Hepnarová era uma jovem, lésbica e solitária, de uma família emocionalmente distante, e que não conseguiu desempenhar o papel que a sociedade desejava dela. Seu comportamento paranoico e sua incapacidade de se conectar a outras pessoas levaram-na ao limite quando ela tinha apenas 22 anos de idade.

República Tcheca, Polônia, Eslováquia, França | PB | 105 min | Ficção Direção: Petr Kazda, Tomás Weinreb Elenco: Michalina Olszanska, Martin Pechlát, Klára Melísková, Marika Soposká, Juraj Nvota Classificação: 16 anos

  • Dia 21, sexta-feira, 21h30 – Cinemark Cidade São Paulo (Shopping Cidade São Paulo – Av. Paulista, 1230 – Bela Vista)
  • Dia 22, sábado, 17h20 – Espaço Itaú de Cinema – Frei Caneca 2 (Rua Frei Caneca, 569)
  • Dia 25, terça-feira, 17h40 – Cinesala (Rua Fradique Coutinho, 361)
  • Dia 02, quarta-feira, 13:30 – Espaço Itaú de Cinema – Frei Caneca 1 (Av. Paulista, 2.073)

 

DIVINAS DIVAS (2016)
icone_ingressoRogéria, Jane Di Castro, Divina Valéria, Camille K, Fujika de Halliday, Eloína dos Leopardos, Marquesa e Brigitte Búzios são personagens icônicos da primeira geração de artistas travestis do Brasil que desafiaram a moral de um país no auge da ditadura militar, nos anos 1960 e 1970, em apresentações no Teatro Rival produzidas por Américo Leal, avô de Leandra Leal. O documentário relembra os 50 anos de carreira no palco, e a luta pelos direitos humanos e pelas liberdades individuais no Brasil de ontem e de hoje.

Brasil | 2016 | cor | 110min | Documentário Direção: Leandra Leal Classificação: 14 anos

  • Dia 28, sexta-feira, 21h – Espaço Itaú de Cinema – Frei Caneca 1 (Av. Paulista, 2.073)
  • Dia 30, domingo, 16h15 – Cinearte 1 (Av. Paulista, 2.073)
  • Dia 01, terça-feira, 13h55 – Espaço Itaú de Cinema – Augusta Anexo 4 (Rua Augusta, 1475)

 

A CIDADE DO FUTURO (2016)

icone_ingressoA Cidade do Futuro é o segundo longa-metragem da dupla de diretores, o novo longa se passa em Serra do Ramalho, cidade do oeste baiano, no Vale do São Francisco. A cidade foi criada em fins dos anos 1970, no governo militar, como forma de acolher as famílias desapropriadas por conta da criação da hidrelétrica de Sobradinho. Na época foi chamada de “cidade do futuro”. Além da peculiar característica histórica que o lugar carrega, o filme se debruça sobre a vida de jovens do lugar. Na trama, Mila, Gilmar e Igor vão desafiar os padrões sociais formando uma família não tradicional.

Brasil | cor | 75 min. | Ficção Direção: Cláudio Marques, Marília Hughes Elenco: Milla Suzart, Gilmar Araujo, Igor Santos

  • Dia 25, terça-feira, 20h20 – Espaço Itaú de Cinema – Frei Caneca 2 (Rua Frei Caneca, 569)
  • Dia 26, quarta-feira, 18h40 – Cinearte 1 (Av. Paulista, 2.073)
  • Dia 29, sábado, 17:10 – Espaço Itaú de Cinema – Frei Caneca 6 (Rua Frei Caneca, 569)

 

NUNCA VAS A ESTAR SOLO (2016)

icone_ingressoJuan é um introvertido gerente de uma fábrica de manequins que vive sozinho com Pablo, seu filho gay de 18 anos. Quando o rapaz é vítima de um violento ataque homofóbico que o deixa hospitalizado, seu pai percebe o quão distantes e estranhos um do outro eles se tornaram. A falta de testemunhas e as exorbitantes contas do hospital forçam Juan a deixar a tranquila estabilidade de sua vida para reposicionar-se em um mundo preconceituoso.

Chile | cor | 82 min. | Ficção Direção: Alex Anwandter Elenco: Sergio Hernández, Andrew Bargsted, Jaime Leiva, Edgardo Bruna, Babriela Hernández Classificação: 16 anos

  • Dia 20, quinta-feira, 20h – Reserva Cultural 2 (Av. Paulista, 900)
  • Dia 21, sexta-feira, 15h30 – Espaço Itaú de Cinema – Frei Caneca 6 (Rua Frei Caneca, 569)
  • Dia 22, sábado, 19h20 – Cinesesc (Rua Augusta, 2075)
  • Dia 24, segunda-feira, 18h – Espaço Itaú de Cinema – Augusta Anexo 4 (Rua Augusta, 1475)
  • Dia 29, sábado, 14h – Cine Caixa Belas Artes – Sala 1 Vila Lobos (Rua da Consolação, 2423)

 

OS DECENTES (2016)

icone_ingressoUma empregada, que trabalha em um condomínio fechado na periferia de Buenos Aires, embarca em uma jornada de liberação sexual e mental depois que adentra os portões de segurança máxima e se depara com um clube de swing naturista.

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Áustria, Coreia do Sul, Argentina | cor | 100 min. | Ficção Direção: Lukas Valenta Rinner Elenco: Iride Mockert, Martin Shanly, Andrea Strenitz, Mariano Sayavedra Classificação: 16 anos

  • Dia 22, sábado, 21h25 – Espaço Itaú de Cinema – Frei Caneca 3 (Rua Frei Caneca, 569)
  • Dia 23, domingo, 15h20 – Espaço Itaú de Cinema – Frei Caneca 5 (Rua Frei Caneca, 569)
  • Dia 28, sexta-feira, 14h – Reserva Cultural 2 (Av. Paulista, 900)
  • Dia 01, terça-feira, 17h – Circuito Spcine Lima Barreto – CCSP (Av. São João, 2073)

 

A GLÓRIA E A GRAÇA (2016)

icone_ingressoGraça é uma mãe solteira de dois filhos. Quando descobre estar com um aneurisma cerebral impossível de ser operado, ela resolve ir atrás do irmão, Luiz Carlos, que não vê há 15 anos, por conta de uma briga. Quando se encontram, Graça é surpreendida ao se deparar com Glória – uma linda travesti, que deixou de ser Luiz Carlos há alguns anos e agora diz viver uma vida completa, como dona de um restaurante em Santa Teresa. Aos poucos, sensibilizada pelas circunstâncias, Glória aceita se aproximar da família, conhece os sobrinhos, retoma a amizade com Graça, e percebe que talvez, para se sentir verdadeiramente completa, ela precise ser mãe.

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Brasil | cor | 97 min. | Ficção Direção: Flávio Ramos Tambellini Elenco: Carolina Ferraz, Sandra Corveloni, Sofia Marques, Vicente Demori, Cesar Mello, Carol Marra Classificação: 16 anos

  • Dia 25, terça-feira, 22h – Espaço Itaú de Cinema – Augusta 1 (Rua Augusta, 1475)
  • Dia 26, quarta-feira, 17h45 – Cinearte 2 (Av. Paulista, 2073)
  • Dia 01, terça-feira, 19h – Cinemark Cidade São Paulo (Av. Paulista, 1230)

 

SEXO, PREGAÇÕES E POLÍTICA (2016)

icone_ingressoO Brasil cria e vende uma imagem de sociedade em que a sexualidade é liberada e a diversidade respeitada. No entanto, esse mesmo Brasil se revela um país conservador, onde mulheres morrem em decorrência da proibição do aborto e onde há mais assassinatos de homossexuais e transexuais no mundo. Das vítimas até a esfera politica, o filme propõe um olhar afiado sobre o paradoxo da liberdade sexual.

Brasil | cor | 72 min. | Documentário Direção: Aude Chevalier-Beaumel, Michael Gimenez Classificação: Livre

  • Dia 26, quarta-feira, 21h45 – Cinearte 1 (Av. Paulista, 2073)
  • Dia 31, segunda-feira, 18h30 – Cinearte 2 (Av. Paulista, 2073)
  • Dia 02, quarta-feira, 14h – Reserva Cultural 2 (Av. Paulista, 900)
Em 18 de outubro de 2016 pela Redação da Agência de Notícias da Aids


Por Shaun Barcavage

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Com todas as notícias e pesquisas relacionadas à PrEP nos dias de hoje, não é difícil que homens homossexuais esqueçam a camisinha para prevenir o HIV. Por isso, estou aqui para lembrar: não vamos deixar de usar os preservativos! Eles ainda têm um papel a desempenhar na protecção da saúde sexual de homens gays — uma vez que eles são capazes de proteger contra várias DSTs, além do HIV.

Em testes de laboratório, preservativos usados perfeitamente de acordo com as instruções apresentam 99,5% de eficácia contra o HIV, com apenas as falha mecânicas (isto é, estourar a camisinha) resultando em infecções. Porém, uma vez que nós somos humanos e tendemos a não praticar relações sexuais em estilo laboratório, o quão bem eles realmente funcionam, no mundo real, para prevenir o HIV em homens homossexuais? Essa é uma pergunta que eu ouço de vez em quando em meu consultório e posso dizer que a eficácia é diferente para homens homossexuais do que para as pessoas que fazem sexo pênis-vaginal. Aqui está o que as pesquisas nos dizem.

Em primeiro lugar, uma nota rápida a respeito da origem dos dados apresentados neste artigo. Em 2015, o Dr. Dawn Smith e seus colegas nos Centros de Controle e Prevenção de Doenças publicaram um artigo no JAIDS analisando os dados da eficácia dos preservativos para homens que fazem sexo com homens. Em sua amostra, eles incluíram dados de dois grandes estudos: VAX 004 (4.492 homens) e EXPLORE (3.233 homens). Estes estudos foram conduzidos no final dos anos 90 e início dos anos 2000 (ou seja: antes da PrEP). Ambos os estudos incluíram homens soronegativos que relataram ter relações sexuais com um parceiro soropositivo.

É importante notar que esta pesquisa tem suas limitações — por exemplo: os dados recolhidos frequentemente usaram de relatos dos próprios participantes a respeito da frequência e consistência do uso adequado dos preservativos.

Camisinha

Eficácia dos preservativos para homens que dizem “sempre” usar preservativos

A eficácia estimada de uso de preservativos para homens gays com parceiros soropositivos é de 70% — apenas para aqueles que reportam “sempre” usar preservativos. Esta é uma proteção contra o HIV muito boa (embora não seja perfeita) e certamente é uma proteção menos robusta do que a oferecida pela PrEP, quando tomada diariamente. Esta estimativa é ligeiramente menor do que a eficácia relatada para heterossexuais que sempre usam preservativos (80%).

 

Eficácia dos preservativos para homens que dizem “às vezes” usar preservativos

Aqui é que está a má notícia. Entre os milhares de homens dos dois estudos, apenas 16,4% relataram “sempre” fazer uso do preservativo com todos seus parceiros sexuais ao longo de um ano, ou mais, pelo tempo que durou o estudo. E isso é muito comum. Muitas vezes, as pessoas decidem usar ou não usar a camisinha com base em uma variedade de influências externas. Por exemplo: algumas pessoas decidem parar de usar preservativos com parceiros de longo prazo. Ou há momentos em que as pessoas simplesmente esquecem, não têm acesso aos preservativos ou não pensam sobre isso, se estão bêbadas ou drogadas.

Neste estudo, o uso inconsistente do preservativo (usar “às vezes”) com parceiros soropositivos ofereceu “proteção mínima ou nula” contra o HIV. As pessoas que participaram do estudo que relataram fazer sexo anal receptivo e insertivo “às vezes” usando preservativos tiveram uma taxa de eficácia estimada em 8%. Isso é muito baixo.

 

Mas e se eu sou apenas ativo ou apenas passivo?

Os pesquisadores consideraram isso em suas análises, uma vez que o risco de transmissão do HIV costuma ser maior para quem é passivo do que para quem é ativo. (Em outras palavras: se você é soronegativo, você está mais propenso a contrair o HIV se deixar um homem soropositivo gozar dentro de você do que se você gozar dentro de um homem soropositivo.)

Eficácia do preservativo se você for ativo:

  • Usando preservativo sempre: 72% de eficácia.
  • Usando preservativo às vezes: 8% de eficácia.

Eficácia do preservativo se você for passivo:

  • Usando preservativo sempre: 63% de eficácia.
  • Usando preservativo às vezes: não é maior do que nunca usar camisinha.

No fim das contas, a diferença na eficácia do preservativo para ativo e passivo (72% em comparação a 63%) não é estatisticamente significativa.

 

Risco de transmissão do HIV com uso do preservativo

Além de observar a “eficácia”, você também pode olhar para os dados sobre o risco de transmissão do HIV. Em outras palavras: sem levar em conta o relato do tipo de uso do preservativo e/ou o tipo de sexo, quão bem funcionam os preservativos?

Aqui estão as taxas de incidência do HIV (por 100 pessoas-ano). Você pode ver que “sempre” usar a camisinha vem com o menor risco de infecção pelo HIV para todos os tipos de sexo.

Risco para passivos:

Estudo EXPLORE Estudo VAX 004
Sempre usa camisinha 16,2 11,9
Às vezes usa camisinha 12,5 12,5
Sempre usa camisinha 2,3 4,4

Risco para ativos:

Estudo EXPLORE Estudo VAX 004
Sempre usa camisinha 7,1 6,0
Às vezes usa camisinha 7,7 6,5
Sempre usa camisinha 1,6 2,7

Risco para quem é ativo e passivo:

Estudo EXPLORE Estudo VAX 004
Sempre usa camisinha 9,6 6,7
Às vezes usa camisinha 7,4 7,3
Sempre usa camisinha 1,4 2.7

 

Conclusão

Embora a porcentagem média de protecção seja de 70%, os preservativos continuam a oferecer grande proteção contra o HIV. Se você usá-los — corretamente e estrategicamente — a porcentagem de protecção pode ser ainda maior. Para se ter uma ideia, os Centros de Controle e Prevenção de Doenças afirma que a eficácia da vacina contra a gripe desta temporada é de 59%. Embora esta não seja a proteção perfeita, a vacinação para a proteção da saúde, especialmente para os grupos de risco, ainda é fortemente incentivada. Portanto, não devemos desistir dos preservativos tão facilmente. Eles têm nos servido muito bem há anos! E não é imprudente confiar em apenas uma fonte de proteção.

A camisinha é uma ferramenta fácil de encontrar, financeiramente acessível e que também oferecem o benefício adicional de reduzir o risco de outras DSTs. A PrEP nos oferece excelente proteção contra o HIV, mas, por sua vez, quando os preservativos são combinados com outros métodos de prevenção ao HIV — como a PrEP ou o tratamento como prevenção (TasP, do inglês treatment as prevention) — eles funcionam ainda melhor.

 

Por Shaun Barcavage em 17 de outubro de 2016 para BETA
shaun-final-150x150Shaun Barcavage é enfermeiro especializado em saúde sexual dos homens homossexuais no Magnet, uma clínica de saúde sexual da San Francisco AIDS Foundation, em Strut. Leia mais artigos de Shaun no blog BETA.
Fonte: Smith D. K. and others. Condom effectiveness for HIV prevention by consistency of use among men who have sex with men in the United States. JAIDS, 2015.


science

“Fascinante.” “Impressionante.” “Pioneiro.”  “Incrível demais para ser real.” Essas são algumas das reações que os pesquisadores estão tendo diante de um provocativo e surpreendente estudo realizado em macacos, que sugere que um anticorpo monoclonal utilizado para tratar uma doença inflamatória do intestino em humanos pode levar a uma cura “funcional” da infecção pelo vírus da aids.

As terapias de tratamento para o HIV melhoraram a ponto das combinações de medicamentos antirretrovirais rotineiramente derrubarem o vírus de forma tão eficaz que os testes comuns não são capazes de detectá-lo no sangue. Há algum tempo os  pesquisadores têm buscado estratégias que permitam que as pessoas parem de tomar seus antirretrovirais sem deixar o vírus se recuperar — o que seria uma cura funcional, em vez de uma cura completa, uma vez que os pacientes ainda abrigariam o vírus, que integra seus genes no DNA das células do hospedeiro. No entanto, salvo algumas notáveis exceções, quase todo mundo que para de tomar os antirretrovirais sofre com o retorno do vírus, de volta para níveis elevados dentro de apenas algumas semanas. Por isso, para manter o vírus sob controle, as pessoas infectadas pelo HIV devem tomar antirretrovirais por toda a vida.

Partículas de HIV (em rosa) brotando de uma célula imunológica (em azul).

“Os resultados são muito impressionantes”

Uma equipe liderada pelo imunologista Aftab Ansari da Emory University School of Medicine, em Atlanta, contou a Science que infectou oito macacos com SIV, a versão símia do HIV, tratou-os com antirretrovirais e, em seguida, aplicou neles um anticorpo semelhante a um medicamento aprovado para tratar doença de Crohn e colite ulcerativa, o qual se dirige ao receptor da superfície das células imunes conhecido como α4ß7. Mais de 9 meses depois dos tratamentos antirretrovirais e com anticorpos serem interrompidos, todos os oito animais tinham níveis baixos ou indetectáveis de SIV no sangue. Em sete animais infectados com SIV que receberam um anticorpo placebo, o vírus voltou para níveis elevados dentro de 2 semanas da interrupção do tratamento antirretroviral. “Os resultados nos surpreenderam, eles são muito impressionantes”, diz o coautor do estudo Anthony Fauci, imunologista que dirige o U.S. National Institute of Allergy and Infectious Diseases (NIAID), em Bethesda, Maryland.

Ansari salienta que os animais tratados com anti-α4ß7 permanecem infectados. “Eles não estão curados — longe disso”, diz Ansari. Além disso, ele e Fauci não sabem como o tratamento funcionou. “Nos fez pensar sem parar: ‘Que diabos está acontecendo?'”, conta Ansari. “É de fato um quebra-cabeça.”

Ele, Fauci e outros pesquisadores da aids se interessaram pela α4ß7 porque ela se encontra na superfície das células CD4, as células do sistema imunológico que são o alvo principal do HIV. A proteína ajuda as células CD4 a se alojarem no intestino, onde se reúnem em grande número. Infelizmente, a α4ß7 também liga-se à proteína de superfície do HIV, o que torna as células CD4 muito mais susceptíveis à infecção e explica porque o vírus destrói estas células no intestino no início da infecção. Ansari e Fauci também ficaram interessados pelos resultados de um estudo anterior que eles conduziram em macacos, o qual mostrou que o anticorpo α4ß7 poderia impedir a infecção pelo SIV. Eles propuseram um mecanismo simples de proteção: o anticorpo reduzia a tendência das células CD4 se acumularem no intestino, diminuindo o número de alvos para qualquer vírus da aids que estivesse por lá.

Estranhamente, os macacos do novo experimento tinham níveis mais elevados de células CD4 cravejadas de α4ß7 em suas entranhas. Uma nova tomografia computadorizada de emissão de pósitrons, que é capaz de mostrar o vírus nos macacos, revelou que os animais tratados com anti-α4ß7 tinham níveis mais elevados de SIV em algumas partes do corpo, tal como o intestino delgado, do que os animais de controle. Os macacos tratados de fato mostraram sinais de respostas imunes que poderiam ter ajudado a controlar o SIV, mas nenhum destes sinais foi particularmente forte.

Este macaco infectado com SIV mostra muito menos vírus (vermelho-amarelo) após o tratamento com um anticorpo para α4ß7 (à direita).
Este macaco infectado com SIV mostra muito menos vírus (vermelho-amarelo) após o tratamento com um anticorpo para α4ß7 (à direita).

“Tudo o que deveria acontecer não aconteceu, mas o que aconteceu foi interessante”

“Tudo o que deveria acontecer não aconteceu, mas o que aconteceu foi interessante”, diz Steven Deeks, médico que realiza estudos para a cura do HIV na Universidade da Califórnia, em São Francisco. “O sistema imunológico é incognoscível, dinâmico, complicado e sempre nos surpreende.”

Apesar da falta de conhecimento sobre o mecanismo, o imunologista Rafick-Pierre Sekaly, da Case Western Reserve University, em Cleveland, Ohio, prediz que o sucesso do estudo irá desencadear um bando de novos estudos. “Esse estudo vai orientar a pesquisa em uma direção completamente nova”, diz ele. Sharon Lewin, uma das principais pesquisadoras da cura do HIV no Peter Doherty Institute for Infection and Immunity, em Melbourne, na Austrália, diz que o trabalho “tem dados muito convincentes” e que é “uma descoberta realmente impressionante”. Mas Lewin acrescenta uma palavra de cautela ecoada por muitos, incluindo os autores do estudo: “Não sabemos se é uma peculiaridade dos macacos”, diz ela.

É possível, também, que o anti-α4ß7 tenha funcionado porque o projeto experimental fez pender a balança em direção ao sucesso, de uma forma que não reflete uma infecção típica pelo HIV. Ansari e a equipe de Fauci iniciaram os macacos nos antirretrovirais 5 semanas após a infecção, o que é muito mais cedo do que a maioria das pessoas iniciam o tratamento. Louis Picker, imunologista que desenvolve vacinas contra a aids na Oregon Health & Science University, em Beaverton, também se pergunta se o SIV utilizado pode ter sido enfraquecido, uma vez que suas próprias experiências com a mesma estirpe produziram níveis mais elevados de vírus no sangue nos animais não tratados.

Picker suspeita que alguma resposta imune ainda indefinida explique o controle viral. “O que esta experiência parece estar fazendo é cutucando o equilíbrio viral e imunológico em favor do hospedeiro, em vez do vírus”, diz ele. “Suspeito que se você tomasse um anticorpo para o CD4 e fizesse a mesma experiência, você veria a mesma coisa.”

“Em breve nós vamos descobrir se tudo isso é um monte de bobagens ou se realmente funciona”

Mas Picker admite que nenhum outro grupo ainda publicou resultados semelhantes. E, talvez o mais importante, ao contrário do anticorpo monoclonal do CD4, o α4ß7 já tem uma versão humana, chamada Vedolizumab, e já aprovada para utilização clínica. De fato, o NIAID já iniciou estudos em pessoas infectadas pelo HIV, há 3 semanas. O estudo, que espera inscrever 20 pessoas, é uma avaliação de segurança, na qual os participantes vão interromper os antirretrovirais e, em seguida, os pesquisadores vão monitorar de perto para ver se os seus níveis de HIV aumentam ou permanecem suprimidos. “Muito em breve nós vamos descobrir se tudo isso é um monte de bobagens ou se realmente funciona”, diz Fauci.

Por Jon Cohen em 13 de outubro de 2016 para Science


cns_manifesto

A Comissão Intersetorial de Orçamento e Financiamento do Conselho Nacional de Saúde (CNS) apresentou, nesta quinta-feira (06/10), um estudo que comprova a perda de R$ 434 bilhões ao SUS, caso seja aprovada a PEC 241. A reunião ocorreu no Plenário da Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados. A proposta que congela os investimentos em saúde e educação pelos próximos 20 anos está prevista para ser votada no Plenário da Casa na próxima segunda-feira (10).

Se aprovada a PEC 241, a partir de 2017 os recursos destinados à saúde terão como base de cálculo 15% da Receita Corrente Líquida (RCL), estimada em R$ 758 bilhões no Projeto de Lei Orçamentária. Isso representará o valor de R$ 113,74 bilhões, que ficará congelado até 2036. A partir de 2018, a correção será somente pela variação anual da inflação, calculada pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). As perdas deste valor congelado em 2018 até 2036 totalizam R$ 438 bilhões, de acordo com as projeções baseadas nos cálculos do Grupo Técnico Institucional de Discussão de Financiamento do SUS, que compõem o estudo apresentado pela COFIN.

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“Todo ganho que houver quando a economia voltar a crescer não virá para a saúde.”

Para o CNS, o congelamento significa uma ameaça ao bem estar das famílias e dos trabalhadores. “Os níveis de necessidade da população em relação à saúde, atendidos em 2017, terão de ser mantidos até 2036, o que é impossível. A cada ano os habitantes terão menos recursos do que tinham antes, porque a população não vai parar de crescer e, com isso, os custos do setor da saúde também aumentarão, enquanto o investimento estará congelado por duas décadas”, avalia o consultor da COFIN, Francisco Funcia. “Sem falar que todo ganho que houver com o aumento da receita quando a economia voltar a crescer, não será nem proporcionalmente dividido com a saúde. Não virá nada para a saúde”, completa.

A PEC 241 estabelece um teto para as despesas primárias (que atendem as necessidades da população) e não inclui as despesas financeiras, como os juros, por exemplo, que continuarão sem nenhum limite. O CNS entende que existem outras alternativas para equacionar as contas públicas, que não prejudiquem a população, entre elas a tributação sobre grandes fortunas, a revisão da renúncia fiscal (que está projetada acima de R$ 300 bilhões para os próximos anos), aumentar a tributação sobre tabaco, álcool e motocicletas (que geram demandas de saúde e despesas no setor) e a correção da tabela do Imposto de Renda , de modo a tributar os que estão no topo da pirâmide social.

“50 mil pessoas recebem por ano R$ 4,2 milhões e tem 66% dessa renda não tributada, enquanto quem ganha até dez salários mínimos tem 20% da renda não tributada.”

“O Conselho não esta fechando os olhos para as contas públicas, já apresentamos em 2015 alternativas para isso. Atualmente, 50 mil pessoas declarantes de imposto que estão no topo da pirâmide recebem por ano R$ 4,2 milhões e tem 66% dessa renda não tributada, enquanto quem ganha até dez salários mínimos tem 20% da renda não tributada. Essa injustiça que alivia a tributação dos mais ricos também precisa ser enfrentada como solução, nem que seja provisória. Este é o princípio de uma sociedade e de bem estar que se pretende construir, ou então vamos para a barbárie”, afirma Funcia.

Por Viviane Claudino em 7 de outubro de 2016 para a Assessoria CNS


planalto

O secretário de Acompanhamento Econômico do Ministério da Fazenda, Mansueto Almeida, explicou que a proposta que cria um limite para a expansão dos gastos públicos protege o orçamento da saúde e da educação. “Essas duas áreas terão tratamento prioritário”, observou.

Almeida reforçou que, com a atual redação da PEC, as duas áreas não perderão verbas. “Não existe teto para a saúde e para a educação, existe só um valor mínimo a ser aplicado. Espero que os deputados e senadores, no futuro, venham a aprovar orçamentos para a saúde e para a educação superiores a esse mínimo”, afirmou.

Mansueto Almeida demonstra, em vídeo, os impactos da medida e a importância dela para as contas públicas Reprodução/Portal Planalto
Mansueto Almeida demonstra, em vídeo, os impactos da medida e a importância dela para as contas públicas (Reprodução/Portal Planalto)

O texto da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 241 permite organizar as contas públicas. Com a aprovação dela, o Orçamento poderá crescer apenas o equivalente à inflação do ano anterior. Isso, na prática, significa um avanço real zero. Ou seja, em algum momento, o País deixará de ter déficit primário.

Mansueto ponderou que a nova regra não tem qualquer impacto na educação para 2017, o primeiro ano de vigência da PEC. “O gasto da educação vai seguir a regra constitucional que determina que 18% de tudo o que o governo arrecada tem de ser aplicado em educação. Nos anos seguintes, o valor mínimo a ser aplicado será corrigido pela inflação”, explicou.

No caso da saúde, informou o secretário, o orçamento da área aumentará. A regra atual determina que 13,7% da arrecadação deveria ser aplicada na área. Com a PEC, o percentual de 15%, que estava previsto anteriormente para ser atingido em 2020, vira realidade no próximo ano. Assim, o valor mínimo a ser investido em saúde vai crescer R$ 10 bilhões. O secretário ressaltou, porém, que, a partir de 2018, os pisos para educação e saúde passam a ser corrigidos pela inflação do ano anterior.

Em 10 de outubro de 2016 pelo Portal do Planalto