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Glaxo
Se o Dolutegravir da Glaxo for capaz de tratar o HIV com um regime de dois medicamentos, em vez de uma combinação de três medicamentos, seria um divisor de águas, disse Andrew Witty, CEO da farmacêutica. Foto por Luke MacGregor/Reuters.

A GlaxoSmithKline está direcionando o futuro do seu negócio de HIV em uma aposta audaciosa: derrubar a estratégia de tratamento atual, que há décadas transformou uma doença fatal em uma condição crônica.

O tratamento contra o HIV pouco mudou desde meados dos anos 1990.

O tratamento contra o HIV, o vírus que causa a aids, pouco mudou desde meados dos anos 1990, quando a introdução de uma nova classe de medicamentos melhorou dramaticamente a terapia contra o HIV. Os médicos descobriram que a combinação de um novo tipo de medicamento antirretroviral com dois medicamentos de uma classe mais antiga impediam o vírus de desenvolver resistência.

Desde então, o regime de três medicamentos manteve-se a abordagem padrão, com os esforços no desenvolvimento de drogas focados em sempre fazer combinações triplas mais poderosas.

Tomar menos medicamentos vai resultar em menos efeitos colaterais.

Mas os executivos da Glaxo querem mudar isso. Eles esperam que a mais recente pílula contra o HIV, da empresa sediada no Reino Unido, seja poderosa o suficiente para suprimir o vírus com a ajuda de apenas uma outra droga. Segundo o presidente-executivo Andrew Witty, este seria um “divisor de águas”, uma vez que tomar menos medicamentos vai resultar em menos efeitos colaterais. Agora, a ViiV Healthcare, empresa de propriedade majoritária da Glaxo e em que a Pfizer americana e a Shionogi & Co. japonesa detém participações minoritárias, está começando o longo processo de prová-lo.

Até agora, não há casos relatados de resistência viral sob o Dolutegravir em pacientes novos no tratamento.

O medicamento em questão, o Dolutegravir, é de uma classe de medicamentos conhecidos como inibidores de integrase, que reduzem rapidamente o nível de vírus no sangue. Ele já está aprovado para uso como parte de terapia tripla tradicional e, até agora, não há casos relatados de resistência viral sob o Dolutegravir em pacientes novos no tratamento. Isso faz dele o único entre os inibidores da integrase, de acordo com David Hardy, médico especialista em HIV e porta-voz do grupo ativista HIV Medicines Association.

Enquanto o perfil de Dolutegravir sugere que ele poderia suprimir o HIV sem a ajuda de qualquer outro medicamento, a Glaxo está seguindo uma abordagem passo a passo de precaução para confirmar sua promessa, disse uma porta-voz da empresa.

O benefício mais importante de um regime de duas drogas é que ele resultaria em menos efeitos colaterais. Tais efeitos incluem náuseas, diarreia, problemas renais e ósseos — as razões mais comuns para os pacientes alterarem seu regime de tratamento. Além disso, poderia aliviar o fardo financeiro do tratamento.

Mudar apenas um quarto dos pacientes para Dolutegravir mais Lamivudina iria abater mais de US$ 3 bilhões do custo do tratamento.

Rochelle Walensky, professora associada de medicina na Harvard Medical School, estima que mudar apenas um quarto dos pacientes atualmente em terapia tripla para Dolutegravir mais Lamivudina (3TC) — um fármaco mais antigo e genérico contra o HIV — iria abater mais de US$ 3 bilhões do custo do tratamento de HIV ao longo de um período de cinco anos. A redução de custos é menos evidente se as duas medicações parte do esquema ainda estiverem sob proteção de patente.

A Glaxo está colocando “enorme foco e prioridade” no desenvolvimento de regimes de dois medicamentos, disse Witty. De acordo com a análise do UBS, a oportunidade é significativa: se a terapia dupla tornar-se a estratégia que os médicos preferem, a Glaxo poderia pegar uma fatia muito maior do mercado e ultrapassar a Gilead Sciences, se tornando a mais importante no tratamento do HIV dentro de três anos.

Durante o ano passado, a Glaxo começou vários grandes estudos clínicos que visam mostrar que a combinação de Dolutegravir com apenas um outro medicamento contra o HIV funciona tão bem em suprimir o vírus como a terapia tripla tradicional.

Dentre o conjunto de estudos, está o teste do Dolutegravir ao lado de Rilpivirina, um medicamento feito pela Janssen Pharmaceuticals, parte da Johnson & Johnson. Em outro, testa-se a combinação do Dolutegravir com Lamivudina, o medicamento genérico utilizado na análise do Dr. Walensky.

Ele também planeja iniciar um estudo de fase final para avaliar a combinação de uma versão injetável de Dolutegravir com Rilpivirina. Um estudo anterior demonstrou que esta combinação é tão eficaz quanto um regime de três drogas, quando o vírus já foi suprimido por um período inicial de terapia tripla.

Os ensaios só devem começar a dar resultados no próximo ano, mas um pequeno estudo liderado por Pedro Cahn, um médico argentino, já traz motivo para otimismo. Em 48 semanas de estudo, o Dolutegravir com Lamivudina suprimiu os níveis de HIV em 18 dos 20 pacientes não tratados previamente.

Mesmo se os grandes estudos clínicos da Glaxo tiverem sucesso, eles poderiam enfrentar outro desafio: a inércia. No ano passado, a Gilead lançou uma série de terapias triplas usando um novo fármaco para o HIV, chamado TAF, que pode ser administrado em uma dose muito menor do que o seu antecessor, causando menos danos para os rins.

Christoph Wyen, especialista em HIV do Hospital Universitário de Cologne, na Alemanha, disse que o advento destas terapias triplas menos tóxicas reduz o incentivo para os médicos mudarem o regime de seus pacientes para esquemas mais simples. Ele disse que a terapia dupla pode decolar mais rapidamente em pacientes mais velhos, que são mais propensos a ter complicações de saúde relacionadas com a idade.

Ambas Gilead e Glaxo têm posições fortes no mercado do HIV, com TAF e Dolutegravir, respectivamente. Mas a Gilead está desenvolvendo um novo inibidor da integrase que, se comprovado igual ao Dolutegravir, poderia dar uma vantagem importante no mercado da terapia tripla.

O pior cenário para a Glaxo seria se as suas terapias duplas falharem e se o inibidor de integrase da Gilead for bem sucedido — o qual tem previsão de lançamento para 2018 –, roubando a quota de mercado do Dolutegravir. Isso poderia colocar o negócio da Glaxo relacionado ao HIV em declínio depois de 2018, de acordo com a UBS, embora Witty diga que essa desvantagem seja limitada, uma vez que o Dolutegravir já estará bem estabelecido na época em que chegar seu concorrente da Gilead.

“Não é uma conclusão precipitada dizer que [a terapia dupla] vai funcionar”, disse Hardy. “Eu assisti o desenvolvimento do Dolutegravir o suficiente para entender por que eles estão tentando fazer isso.”

Por Denise Roland em 28 de agosto de 2016 para The Wall Street Journal

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O que fazer quando você descobre que precisa se relacionar com um vírus durante toda a sua vida? “Agora que eu sei” existe para mostrar como jovens da atualidade encaram a convivência com o HIV/aids, mostrando que obstáculos podem ser superados em busca de um bem estar físico, emocional e social. “Agora que eu sei” contribui para desconstruir o conjunto de tabus, preconceitos e metáforas falaciosas que ainda rondam a doença.

“Agora que eu sei”

um filme de Fabiano Cafure
com Pedro Scharth, Salvador Correa Jr. e Rafaela Queiroz

Agora que eu sei_cartaz oficial

Idealização e Roteiro: Thiago Fraga

Direção: Fabiano Cafure

Assistente de direção: Simone Mendes

Produção executiva: Thiago Fraga

Direção de arte: Adi Junior e Fabiano Cafure

Arte gráfica: Larissa Seibel

Som direto/Trilha original: Raquel Lazaro

Assistente de produção: Fabíola Cerbella

Imagens: Fabiano Cafure e Simone Mendes

Montagem: Fabiano Cafure


Por Zachary Zane

The_Advocate_Magazine

“Isso não é mais uma sentença de morte” não foi o que me disseram durante a aula de educação sexual da sétima série. “É a pior doença sexualmente transmissível e você não vai quer contraí-la” — é o que me foi dito. Foi assim que começou o meu medo patológico de contrair o HIV. Mesmo antes de ter minha primeira relação sexual com um homem, eu já estava com medo do HIV.

Eu não acho que e exista outro médico na história da humanidade que teve de lidar com um obsessivo (e mal sexualmente ativo) jovem de 17 anos de idade. Quando pedi pelo meu quarto teste de HIV, o médico me disse que, uma vez que só tinha feito sexo vaginal sem proteção com uma única mulher, literalmente, as chances de eu ter HIV eram mínimas. Ele me disse que seria um caso diferente se eu tivesse feito sexo anal ou se estivesse tendo relações sexuais com homens.

Em seguida, aos 18 anos, comecei a ter relações sexuais com homens (depois de duas semanas na faculdade), mas só foi quase quatro anos mais tarde, na semana antes de me formar na faculdade, que eu tive a primeira relação sexual com penetração com um homem. Foi sem camisinha e eu estava bêbado. Só assim eu consegui transar com um homem. Isto foi em maio de 2013, antes mesmo de eu saber o que era PrEP.

Mais tarde, naquela mesma semana, eu tomei 20 miligramas de Zolpidem [fármaco hipnótico, do grupo das imidazopiridinas, não-benzodiazepínico, de rápida ação e curta meia-vida, utilizado para tratamento de insônia] e convidei o mesmo rapaz para vir até minha casa. Tivemos relações sexuais novamente. Mais uma vez, sem proteção. Durante o mês seguinte, eu me apavorei com medo de ser positivo. Então, finalmente fui fazer o teste. E o resultado veio negativo.

O pânico do HIV estava tomando conta da vida de Zachary Zane — até que ele tomou uma atitude.

“Eu não conseguia parar de pensar sobre HIV durante o sexo.”

Depois de me assumir como bissexual e abraçar totalmente este rótulo, comecei a usar preservativos. Mas a possibilidade de contrair HIV me parecia ainda mais real: quando abracei o rótulo bi, eu não conseguia mais parar de pensar sobre HIV durante o sexo e temia ser uma “ponte” de HIV para mulheres — uma ponte que é muito possivelmente um mito, ao qual fui condicionado a temer. Então, os preservativos pareciam ser a opção lógica.

Mas com os preservativos veio a disfunção erétil. Quase todas as vezes. Era frustrante, vergonhoso. Comecei a me odiar por ser incapaz de manter uma ereção. Isto levou a uma ciclo vicioso: eu não conseguia ter uma ereção com praticamente ninguém, pelo menos nas primeiras vezes que tentava ter relações sexuais.

Tentei de tudo para acabar com minha disfunção erétil. Terapia, respiração, exercícios de liberação de estresse, beta-bloqueadores para ajudar os nervos e até mesmo Viagra (100 miligramas, pois eu não estava de brincadeira). Nada funcionou. Isso me levou a assumir mais a posição de passivo, a qual, como todos sabemos, nos coloca em maior risco de contrair HIV. Foi aí que o meu medo de contrair o HIV atingiu seu pico.

Depois de uma consulta com meu terapeuta, solicitei ao meu médico que me prescrevesse PrEP. Porém, tornei-me obsessivo em tomar Truvada, sempre preocupado que tivesse perdido uma dose (mesmo que nunca tivesse perdido uma dose). Comprei aqueles recipientes plásticos de comprimido que os avós usam para se certificar de que tomaram seus remédios no dia correto. Eu os colocava lá dentro, para ter certeza de que não tinha perdido um único dia. Depois, comprei um recipiente de pílula portátil, que pode ser preso ao chaveiro, assim eu poderia carregar o Truvada comigo o tempo todo.

Os Centros de Controle de Doenças recomendam usar preservativos mesmo quando em PrEP, pois eles protegem de outras doenças sexualmente transmissíveis. Mas eu estava preocupado mesmo era com o HIV.

“O CDC recomenda usar preservativos mesmo quando em PrEP, pois eles protegem de outras doenças sexualmente transmissíveis. Mas eu estava preocupado mesmo era com o HIV.”

Exigia que homens soronegativos também em PrEP usassem preservativos. Eles ficavam confusos com a minha insistência, especialmente pelo fato de eu ser soronegativo e estar em PrEP, com adesão à minha medicação diária. Quando um homem não queria fazer sexo comigo porque eu queria que ele usasse camisinha, eu recusava. O Centers for Disease Control and Prevention (CDC) recomenda usar preservativos mesmo quando em PrEP, pois eles protegem de outras doenças sexualmente transmissíveis. Mas eu estava preocupado mesmo era com o HIV. Sem transar, alguns parceiros ficavam decepcionados.

Eu também não transava com homens soropositivos mesmo se eles alegassem ser indetectáveis e usassem camisinha. Meu raciocínio: os preservativos poderiam romper, homens indetectáveis pode ter blips virais e o Truvada da PrEP garante apenas 90 a 99% de eficácia. Ah!, e o cara poderia estar mentindo. Apesar de saber que estava sendo neurótico, eu não conseguia parar, mesmo depois de ler toda a literatura acadêmica e aprender que é muito mais provável que eu fosse atingido por um raio durante o sexo do que adquirir o HIV de sexo com camisinha com um homem indetectável enquanto estou em PrEP.

Boston Night

Foi no Natal do ano passado, numa noite em que eu estava entediado, sem o ânimo de costume para pedir comida chinesa e assistir um filme, que fui para a casa de um cara que conheci no Grindr. Fiz minha pergunta habitual sobre condição sorológica e preservativos. Ele disse que era soronegativo e que poderíamos usar camisinha. Nós acabamos subindo para a cobertura de sua casa, que ficava na zona sul de Boston e, por um milagre, eu tive uma ereção. Mas eu não tinha levado os preservativos comigo e, uma vez que estávamos lá em cima quando tudo esquentou, decidi ceder e fazer sexo bareback, sem camisinha.

Fiz e foi incrível, até descobrir que na verdade ele era soropositivo. Eu estava sob PrEP, protegido. Mas, ainda assim, me apavorei. Falei com um especialista em doenças infecciosas do Massachusetts General Hospital. Fiz o teste de HIV exatamente 10 dias e 14 dias após a exposição. (Como diz a diretriz: espere 10 a 14 dias após a exposição).

“Embora eu soubesse que as chances de ter adquirido HIV fossem quase nulas, eu não conseguia afastar a ideia de que eu era soropositivo.”

Fiquei angustiado por duas semanas consecutivas. Não conseguia trabalhar. Não conseguia pensar. Estava furioso comigo mesmo. E, embora eu soubesse que, estatisticamente, as chances de ter adquirido HIV fossem quase nulas, eu não conseguia afastar a ideia de que eu era soropositivo. Embora eu soubesse que o HIV é administrável, que você pode viver uma vida saudável e normal com HIV, disse a mim mesmo que isso era o que os médicos diziam para os soropositivos só para fazê-los se sentirem melhor.

Claro, meus resultados deram negativo. O Truvada fez o que deveria fazer. Ou ele era indetectável. Ou talvez eu tive sorte.

nightclub

Oito meses se passaram e eu não tinha tido qualquer relação sexual desprotegida com um homem e nem com uma mulher. Também rejeitei homens soropositivos, mesmo se eles alegassem ser indetectáveis. Estava em Provincetown para o verão, onde há muitos homens e sexo por toda parte, quando recebi um diagnóstico de uma terrível candidíase oral. Meu médico, depois de pedir testes para HIV e outras DSTs (todos negativos), sugere que eu saia um pouco da PrEP para poder tratar a candidíase. (Após consulta com outros médicos, descobri que era improvável que o Truvada estivesse causando as minha aftas, mas, naquela altura, dei ouvidos ao meu médico).

O que aconteceu em seguida foi causado por algum karma. Os quatro homens seguintes que conheci em casas noturnas eram soropositivos. Uma vez que os conheci na vida real, não perguntei sobre suas condições sorológicas até estar com eles na cama. Todos foram honestos sobre isso, dizendo que eles eram soropositivos e indetectáveis.

“Por algum motivo, decidi: dane-se!”

Então, por algum motivo, que eu não sei exatamente qual, decidi: dane-se! Vou fazer sexo anal. Talvez eu estivesse cansado de ter a paranoia do HIV me consumindo. Talvez eu estivesse bêbado demais. Talvez eu estivesse pensando com a cabeça errada. Mas, por alguma razão, eu aceitei. Com o primeiro cara, usamos preservativos — e eu não consegui manter minha ereção. Na primeira vez, transamos por pouco tempo. Na segunda vez, consegui manter minha ereção por um pouco mais tempo. Na terceira e quarta, eu já não tinha problemas em manter a ereção durante todo o sexo com preservativo.

Os problemas de disfunção erétil que tive por anos pareciam estar indo embora para sempre. Também parecia ter superado meu medo de contrair HIV, curiosamente, através da terapia de exposição ao próprio vírus.

“Não podemos deixar que o medo do HIV arruine nossas vidas.”

O HIV não é mais uma sentença de morte. Isso é um fato. Devemos nos envolver em práticas de sexo seguro para diminuir nossas chances de propagação e contaminação pelo HIV — isso também é um fato. Mas não podemos deixar que o medo do HIV arruine nossas vidas. Meu medo patológico do HIV foi uma fonte insidiosa de estresse na minha vida e nos meus relacionamentos. Eu não saberia dizer quantas noites passei em claro, na cama, convencido de que eu tinha contraído HIV. Eu não poderia te dizer quantas vezes me arrependi de não ter feito sexo ou de quantas vezes perdi meu tesão por causa de pensamentos relacionados ao HIV. Eu não saberia dizer quantas vezes eu chorei porque estava irritado comigo mesmo por não conseguir ter uma ereção com um homem que realmente gostei.

O medo de contrair HIV em minha vida durou muito tempo e eu não quero mais sofrer com ele. Precisamos nos proteger, mas também precisamos viver nossas vidas, sem medo. Enfrentamos tanto estigma e perseguição por sermos homens gays e bi que não devemos acrescentar o HIV à esta lista. Vamos ser inteligentes, vamos controlar esse medo.

Por Zachary Zane em 22 de agosto de 2016 para Advocate


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Desde o início da epidemia de HIV/aids, há especulações a respeito da razão da doença ter se espalhado muito mais na África do que em outros países do mundo. Agora, cientistas do Centro Alemão de Pesquisas sobre Infecção, pela primeira vez, confirmaram uma razão para isso: em um estudo de coorte realizado na Tanzânia, descobriram que a infecção pelo nemátodo filarial Wuchereria bancrofti aumenta o risco de infecção pelo HIV em duas a três vezes. O estudo foi recentemente publicado no Lancet. “Os adolescentes e adultos jovens são particularmente mais afetados: eles apresentam um aumento de aproximadamente três vezes do risco de infecção pelo HIV quando já infectados pelo Wuchereria bancrofti”, explica o Dr. Inge Kroidl, do Departamento de Doenças Infecciosas e Medicina Tropical do Centro Médico da Universidade de Munique (LMU). Os pesquisadores conduziram este estudo de coorte ao longo de 5 anos, juntamente com cientistas do Hospital Universitário de Bonn, assim como com instituições parceiras africanas na Tanzânia.

Infecções com o verme Wuchereria bancrofti causam filariose linfática. Para ver: a prole worms. Créditos: Achim Hoerauf/Uniklinik Bonn
Infecções peloo verme Wuchereria bancrofti causam filariose linfática. Nesta foto: a prole dos vermes. Créditos: Achim Hoerauf/Uniklinik Bonn

 

Wuchereria bancrofti: um verme que causa graves consequências

Infecções com a lombriga filiforme Wuchereria bancrofti causam filariose linfática, uma doença dos vasos linfáticos que, na pior das hipóteses, leva à elefantíase. Imagens de membros deformados parecidos com os elefantes não são incomuns nestas regiões endêmicas da África. As combinações de medicamentos usados para tratar essas infecções nas comunidades africanas só são eficazes contra microfilárias, uma prole vermes que entra na corrente sanguínea e de lá são transmitidos por mais vetores, mosquitos. Em contraste, os vermes adultos frequentemente residem no sistema linfático dos hospedeiros e podem sobreviver durante muitos anos. Infecções por lombriga filiforme nos participantes do estudo publicado no Lancet foram diagnosticados através de um teste de antígeno filarial.

 

Estudo confirma ligação entre a infecção filarial e o risco de infecção pelo HIV

Este estudo foi desenhado para identificar fatores de risco para a infecção pelo HIV na população comum do sudoeste da Tanzânia. Um subgrupo de 1.055 pessoas foi posteriormente testado para infecção por lombriga filiforme (filariose). Ao longo do período de estudo, foram descritos um total de 32 novas infecções pelo HIV. Pessoas com filariose, em comparação com aqueles que não têm filariose, apresentaram um risco aumentado 3,2 vezes maior de infecção pelo HIV, na faixa etária de 14 a 25 anos de idade, e um risco aumentado em 2,4 vezes, no grupo etário de 25 a 45 anos. Aqueles com mais de 45 anos mostraram um risco aumentado em 1,2 vez.

“Agora, depois desta teoria antiga ter sido confirmada, o trabalho é está apenas começando”, explica o Prof. Michael Hoelscher, diretor do Instituto Tropical em Munique e quem começou os estudos de coorte, em 2006. Outros estudos estão sendo planejados em conjunto com pesquisadores do Hospital Universitário de Bonn. “O que é importante agora é encontrar terapias que também eliminem rapidamente os vermes W. bancrofti adutos”, enfatiza o Prof. Achim Hoerauf, cuja carreira tem girado em torno de pesquisa sobre filariose e que se esforça para desenvolver novos medicamentos para tratar estes vermes.

“Os resultados deste estudo são interessantes, também do ponto de vista imunológico. Eles podem nos ajudar a compreender melhor os fatores que facilitam a infecção e, consequentemente, ajudar a encontrar abordagens preventivas e terapêuticas”, diz o professor Hans-Georg Kraeusslich, Director de Virologia na Universidade de Heidelberg e coordenador da área de pesquisa DZIF “HIV”.

 

Financiamento da pesquisa de longo prazo na África

O financiamento da Comissão Europeia tem tornado possíveis esses estudos. Há dez anos, juntamente com o Ministério da Saúde da Tanzânia, a Comissão Europeia iniciou reforços no potencial de pesquisa do sistema de saúde da Tanzânia. O Ministério Federal da Educação e Pesquisa (BMBF) também contribuiu para esta evolução, dedicando-se a reforçar ainda mais a pesquisa em saúde na África, em 2011. Entre outras coisas, cinco redes de pesquisa para inovação em saúde na África subsaariana têm um orçamento total de financiamento de cerca de € 50.000.000 a partir deste ano. TAKE-OFF, uma das cinco redes, é dedicada à pesquisa de filariose. Nesta rede, o Prof. Hoerauf e o Dr. Kroidl vão continuar a sua pesquisa na luta contra a filariose, com colaboradores em três países africanos. Klaus Rudischhauser, diretor-geral adjunto da Direção Geral para a Cooperação e Desenvolvimento Internacional compartilhou seu entusiasmo: “Este sucesso demonstrou claramente como o financiamento a longo prazo pode contribuir para o desenvolvimento de novas intervenções para doenças graves, como o HIV.”

Por German Center for Infection Research em em 3 de agosto de 2016 para EurekAlert!

Referência: Kroidl I, Saathof E, Maganga L, et al. Effect of Wuchereria bancrofti infection on HIV incidence in southwest Tanzania: a prospective cohort study. Lancet 2016; published online August 2, 2016. http://dx.doi.org/10.1016/S0140-6736(16)31252-1


vaxreport

Sete anos atrás, um grande estudo de eficácia feito na Tailândia, conhecido como RV144, nos trouxe a primeira — e, até agora, a única — evidência clínica de proteção contra o HIV induzida por uma vacina. As duas vacinas candidatas testaram aquilo que é referido como uma combinação de indução e reforço, que pareceu reduzir o risco de infecção pelo HIV em cerca de 31%. Este nível de eficácia não foi alto o suficiente para o licenciamento da vacina na Tailândia, mas fez trouxe um ponto de virada no campo das vacinas contra o HIV, marcado por duas décadas de decepções.

Desde então, os cientistas têm feito inúmeras análises e estudos de acompanhamento para tentar determinar quais tipos de respostas imunológicas induzidas pelas vacinas candidatas no RV144 podem ter levado à modesta eficácia observada — uma caça pelos chamados correlatos de imunidade. Os pesquisadores também têm experimentado modificar as novas candidatas à vacinas e a repetição das vacinações, numa tentativa de reforçar e melhorar a durabilidade das respostas imunes e, assim, melhorar a eficácia deste regimes ou de similares. Isso inclui testes com vacinas candidatas em países ou regiões onde a prevalência de HIV é mais alta, como a África subsaariana, ou em populações específicas em maior risco de contrair o HIV, como homens que fazem sexo com homens ou homens e mulheres heterossexuais sob alto risco.

Estas análises pós-estudo têm sido extremamente úteis na determinação de quais respostas imunes contribuíram para a eficácia modesta observada no RV144. A Pox-Protein Public Private Partnership (ou P5), constituída por representantes do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas (NIAID), Bill & Melinda Gates Foundation (BMGF), Conselho Sul-Africano de Pesquisa Médica, HIV Vaccine Trials Network (HVTN), Sanofi Pasteur, GlaxoSmithKline e o US Military HIV Research Program se uniram, em 2010, para testar em estudos futuros as variantes do regime usado no RV144, bem como para aprender mais sobre a proteção induzida pela vacina naquele estudo inicial.

Agora, o P5 está se preparando para um estudo de eficácia de uma vacina contra a aids em larga escala na África do Sul — o primeiro desde que os resultados do RV144 foram publicados. Este estudo vai testar um regime de vacinação de indução e reforço modificado e tem previsão de lançamento para novembro deste ano. O ensaio de Fase IIb/III, conhecido como HVTN 702, vai inscrever 5.400 homens não infectados pelo HIV e mulheres com idades entre 18 a 35, sob  risco de infecção pelo HIV, em 15 locais de pesquisa clínica. NIAID e BMGF vão financiar o estudo de US$ 130 milhões, que está sendo realizado pela HVTN.

 

Decodificação da proteção

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Uma vacina pode induzir muitos tipos diferentes de respostas imunes, incluindo anticorpos (proteínas em forma de Y que tipicamente se ligam ao vírus e o impedem de infectar as células) e respostas imunes celulares (CD4 e CD8, células T que orquestram a morte de células infectadas pelo vírus), assim como a resposta imune inata do corpo. O regime testado no RV144 pareceu induzir anticorpos, mas não dos tipos que se ligam ao vírus e o neutralizam. Em vez disso, os anticorpos induzidos em alguns receptores da vacina RV144 pareceram trancar as células infectadas pelo HIV e prendê-las até que outros componentes do sistema imunológico possam começar a matança. Este processo é referido como citotoxicidade celular dependente de anticorpo (veja o artigo More Surprises Stem from RV144, da edição de janeiro de 2010 da VAX).

A partir desses resultados iniciais, os pesquisadores passaram a identificar o que eles chamaram de “correlatos de risco” associados a este regime de vacinação. Esses estudos revelaram que um tipo de resposta de anticorpos estava correlacionada com risco reduzido de infecção pelo HIV, enquanto outra estava correlacionada com um maior risco de infecção (veja o artigo More Surprises Stem from RV144, de setembro de 2011 da VAX).

Mas os dados mais relevantes para apoiar um outro grande estudo de eficácia vieram de um estudo de I//II patrocinado pelo P5, conhecido como HVTN 100, que está em andamento na África do Sul. Este estudo, que envolve cerca de 250 homens e mulheres não infectados pelo HIV, está avaliando a segurança e a imunogenicidade do mesmo regime de vacinação de indução e reforço que serão testados no HVTN 702. Os vetores virais não-infecciosos com proteína do HIV que são candidatos são semelhantes aos testado no RV144, mas são baseados no subtipo C do HIV, que é predominante na África do Sul. No RV144, os candidatos foram baseados no subtipo B/E, que é o sorotipo mais prevalente na Tailândia. Uma análise interina mostrou que o esquema de vacinação no HVTN 100 induziu respostas imunes similares àquelas observadas no estudo RV144. Isso ajudou a convencer os patrocinadores do estudo a seguir adiante com o HVTN 702.

 

Um regime modificado

Além das vacinas candidatas serem baseadas em um subtipo diferente de HIV, existem algumas outras diferenças significativas entre o regime de vacina do HVTN 702 e o que foi testado no RV144. Um deles é o esquema de aplicação da vacina. No RV144, seis vacinas foram administradas sequencialmente ao longo de seis meses. No HVTN 702, cinco vacinações serão feitas: três no 6º mês e mais duas no 12º mês. A esperança é que isto estenda o efeito protetor inicial observado no RV144, o qual mostrou uma protecção de 60% no primeiro ano.

Um novo adjuvante também está sendo testado no HVTN 702. Embora os pesquisadores não saibam exatamente como eles funcionam, os adjuvantes ajudam a aumentar as respostas imunológicas induzidas por vacinas. O RV144 utilizou um adjuvante de alúmen, que consiste em sais de alumínio insolúveis, enquanto o HVTN 702 irá utilizar o MF9, um óleo biodegradável, que é utilizado em vacinas contra a gripe na Europa.

Os pesquisadores esperam que os resultados do estudo HVTN 702, que são esperados para 2020, venham a fornecer uma resposta clara sobre a possibilidade destes candidatos à vacinas protegerem contra a infecção pelo HIV.

Por Mary Rushton em agosto de 2016 para VAX Report


box turtle bulletin

Desde os primeiros dias da epidemia de aids, a resposta americana contra a doença mortal era cronicamente lenta e lamentavelmente subfinanciada. Grande parte da resistência ao aumento do financiamento vinha de uma hostilidade declarada a dois principais grupos de risco: homens homossexuais e usuários de drogas injetáveis. Se havia qualquer simpatia em relação aos doentes, esta era reservada quase exclusivamente aos hemofílicos, infectados por produtos derivados de sangue contaminado. Eles eram considerados as únicas vítimas “inocentes” da doença, sendo o adolescente Ryan White, do estado de Indiana, seu símbolo mais proeminente. Em 1990, o primeiro tratamentos mais significativo, o AZT, se tornou disponível (em 19 de março), mas seu custo de US$ 10.000 por ano (mais de US$ 21.000 em valores atuais) mantinham-no fora do alcance de quase todos, a não ser dos pacientes mais ricos.

Terry Beirn, da amfAR, exortando ao presidente Bush que apoiasse o Ryan White Care Act.
Terry Beirn, da amfAR, exortando ao presidente Bush que apoiasse o Ryan White Care Act.

Em audiências realizadas no início de 1990, o Comitê de Orçamento da Câmara ouviu depoimentos em Los Angeles e São Francisco a respeito dos desafios diante da epidemia. Mervyn Silverman, da American Foundation for Aids Research (amfAR), advertiu que até um milhão de americanos soropositivos estavam em risco de adoecer com aids avançada. Outros diziam que era altura de tratar a aids como qualquer outro desastre natural. Na primavera, membros da Câmara e do Senado estavam se preparando para criar uma importante legislação que ajudaria a financiar o tratamento. A lei iria levar subsídios aos estados, para fornecer testes, aconselhamento e tratamento de baixo custo e iniciado cedo para as pessoas com HIV que não tinham outros meios para pagar por eles. Também forneceria subsídios adicionais para centros urbanos, onde os sistemas de saúde já estavam sobrecarregados pela epidemia, incluindo cuidados médicos para mulheres soropositivas grávidas.

Ryan White e sua mãe, Jeanne, em 1985.
O jovem Ryan White e sua mãe, Jeanne, em 1985.

Diferentes versões da legislação passaram pela Câmara e Senado, cada uma muito diferente em suas especificidades. Quando a versão final foi definida, seguiu para aprovação. Durante o debate, a Casa Branca de Bush sinalizou sua oposição à lei, dizendo que “a abordagem deste projeto de lei, lidando com uma doença de maneira específica, estabelece um precedente perigoso, convidando o tratamento de outras doenças a ter um regime semelhante”. O projeto tinha sido intitulado Ryan White Care Act, em homenagem ao adolescente que morrera no mês anterior. Sua mãe, Jeanne Branco, testemunhou no Capitólio, em favor do projeto de lei.

O intolerante Jesse Helms, da Carolina do Norte, liderou a oposição no Senado, mas seu obstrucionismo foi frustrado quando o projeto de lei chegou no plenário do Senado com 66 apoiadores, um número mais do que suficiente para encerrar o debate. Ambas as casas votaram esmagadoramente pela aprovação final do projeto de lei, entre 31 de julho e 4 de agosto. Pressentindo que qualquer veto da Casa Branca seria rapidamente derrubado, o então presidente George H.W. Bush assinou a lei silenciosamente, no sábado, 18 de agosto.

Por Jim Burroway em 18 de agosto de 2016 para Box Turtle Bulletin


Fapesp

Para se reproduzir no organismo, um vírus passa por um processo de adsorção (ligação) das suas partículas às células infectadas, conectando-se a receptores da membrana celular.

Com o objetivo de impedir essa ligação e, consequentemente, a infecção, pesquisadores do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM) desenvolveram uma estratégia que utiliza nanopartículas carregadas de grupos químicos capazes de atrair os vírus, ligando-se a eles e ocupando as vias de adsorção que seriam utilizadas nos receptores celulares.

Dessa forma, o vírus, já com sua superfície ocupada pelos grupos químicos carregados pelas nanopartículas, fica incapacitado de realizar ligações com as células do organismo. A estratégia inovadora de inativação viral foi desenvolvida no âmbito da pesquisa “Funcionalização de nanopartículas: aumentando a interação biológica”, realizada com o apoio da FAPESP e coordenada por Mateus Borba Cardoso.

“Esse mecanismo de inibição viral impede que o vírus chegue até as células.”

Trata-se do primeiro estudo que demonstra inativação viral baseada em química de superfície de nanopartículas funcionalizadas. “Esse mecanismo de inibição viral se dá por meio da modificação de nanopartículas em laboratório, atribuindo-se funções à sua superfície pela adição de grupos químicos capazes de atrair as partículas virais e se conectar a elas. Esse efeito estérico, relacionado ao fato de cada átomo dentro de uma molécula ocupar uma determinada quantidade de espaço na superfície, impede que o vírus chegue até o alvo, as células, e se ligue a ele, porque já está ‘ocupado’ pela nanopartícula”, explica Cardoso.

Os pesquisadores sintetizaram nanopartículas de sílica, componente químico de diversos minerais, com propriedades superficiais distintas e avaliaram sua biocompatibilidade com dois tipos de vírus. A eficácia antiviral foi avaliada em testes in vitro, com os vírus HIV e VSV-G – que causa estomatite vesicular – infectando células do tipo HEK 293, uma cultura celular originalmente composta de células de um rim pertencente a um embrião humano. As partículas virais foram preparadas para expressar uma proteína fluorescente que muda a coloração das células infectadas, permitindo que os pesquisadores “sigam” a infecção.

Resultados alcançados no Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais podem levar a método para detecção de HIV e eliminação de diversos vírus em bolsas de sangue (Ilustração: Mateus Borba Cardoso)

A inovação segue a mesma estratégia já adotada pelos pesquisadores na funcionalização de nanopartículas que levam medicamentos quimioterápicos em altas concentrações até as células cancerígenas, evitando que as saudáveis sejam atingidas e minimizando os efeitos adversos da quimioterapia (leia mais em agencia.fapesp.br/23210).

As nanopartículas de sílica foram escolhidas mais uma vez por conta da sua porosidade, que permite uma boa funcionalização de sua superfície por meio da adição de grupos químicos em seus poros. Depois de sintetizadas, essas partículas passam por reações necessárias para que sua superfície seja funcionalizada de acordo com as afinidades químicas dos vírus. Grupos químicos específicos foram inseridos na superfície das partículas para que as proteínas virais sejam naturalmente atraídas por elas.

Após esse processo, os pesquisadores deram início à caracterização das nanopartículas, realizando medições de tamanho e checando se a funcionalização estava correta. Para isso, utilizam um arsenal de técnicas, desde microscopia a análises do potencial zeta – a carga superficial das partículas. De posse das informações sobre a carga foi possível correlacioná-la aos dados já conhecidos do envelope viral, a composição química do que está na superfície do vírus, aumentando as chances de as nanopartículas serem ancoradas em determinadas regiões dele.

Também foi utilizada a técnica de espalhamento de raios X a baixos ângulos (SAXS, na sigla em inglês). Por meio de radiação gerada pelo acelerador de partículas do Laboratório Nacional de Luz Síncrotron (LNLS), integrante do CNPEM, os pesquisadores utilizam a técnica para enxergar e estudar a forma e a organização espacial de objetos em proporções nanométricas – no caso, as nanopartículas de sílica funcionalizadas.

“Quando existe muita atração, provocada na superfície das nanopartículas, a preferência do vírus é de se ligar a elas, não às células.”

“As nanopartículas devidamente funcionalizadas e as partículas virais passaram, então, por um tempo de incubação para que interagissem umas com as outras em função das propriedades de superfície de ambas. Quando existe muita atração, provocada pelos grupos químicos presentes na superfície das nanopartículas, a preferência do vírus é de se ligar a elas, não às células”, conta Cardoso.

Após a funcionalização das nanopartículas, os estudos sobre sua carga e outras propriedades e o período de incubação, os pesquisadores realizaram os testes in vitro infectando as células HEK 293 com os vírus HIV e VSV-G preparados para expressar a proteína fluorescente. Por meio de microscopia de fluorescência foi possível acompanhar a infecção e também as células que não foram atingidas por ela. Utilizando citometria de fluxo, tecnologia capaz de analisar simultaneamente diversos parâmetros de células ou partículas em suspensão, os pesquisadores puderam contar as células positivas e negativas frente à exposição ao vírus: as nanopartículas chegaram a reduzir a infecção viral em até 50%, demonstrando a eficiência da estratégia.

“Esse resultado poderia chegar a 100% se aumentássemos a quantidade de nanopartículas.”

“Esse resultado poderia chegar a 100% se aumentássemos a quantidade de nanopartículas funcionalizadas no período de incubação, mas os testes são realizados em uma faixa otimizada de inativação viral, para que possam ser observados os efeitos nas células atingidas pelos vírus, realçando as diferenças para fins de comparação”, diz o pesquisador. Os testes também permitiram verificar que durante o processo a morfologia celular foi mantida, sem que as nanopartículas a influenciassem.

De acordo com Cardoso, a estratégia poderia ser utilizada, por exemplo, na detecção e eliminação de vírus em bolsas de sangue antes de transfusões. Para isso, conta o pesquisador, estão sendo estudadas nanopartículas magnéticas que, uma vez dentro do meio sanguíneo contido na bolsa, se ligariam aos vírus, inativando-os e sendo posteriormente separadas do sangue por um ímã, levando consigo as partículas virais. A afinidade entre os grupos químicos carregados pelas nanopartículas e as partículas virais também poderia servir ao desenvolvimento de novas técnicas de detecção do HIV e de outros vírus.

Os resultados da pesquisa foram publicados no periódico científico Applied Materials & Interfaces. O artigo Viral Inhibition Mechanism Mediated by Surface-Modified Silica Nanoparticles é assinado por Juliana Martins de Souza e Silva, Talita Diniz Melo Hanchuk, Murilo Izidoro Santos, Jörg Kobarg e Marcio Chaim Bajgelman, além de Cardoso, e pode ser acessado em pubs.acs.org/doi/abs/10.1021/acsami.6b03342.

Publicado em 17 de agosto de 2016 por Agência FAPESP


hivjustice

No começo de 2016, em de um exame de rotina, um oficial militar de Moscou descobriu ser soropositivo. Mais tarde, sua esposa, Natalia, que já havia sido diagnosticada há vários anos, admitiu que tinha medo de revelar sua própria condição sorológica para o HIV, por medo de represálias violentas de seu marido. O oficial foi então à polícia e iniciou um processo penal contra Natalia — e a investigação continua. A mídia — assim como em muitos países, nossa única fonte de informação em casos como esse — ainda não divulgou muitas informações a respeito do caso. Portanto, não sabemos há quanto tempo Natalia teve de esconder seu status sorológico do marido, por medo de violência.

Esse não é o único caso de processo contra uma mulher por uma transmissão do HIV, em 2016. Em janeiro, Nadezhda, de 24 anos, que vive em Amur Oblast, no extremo leste russo, foi considerada culpada das alegações de ter transmitido o HIV a três homens, sob 1ª parte do artigo 122, e a 3ª parte do artigo 122 do Código Penal Russo: “infectar outros com HIV, sabendo da presença dessa doença.” Ela foi sentenciada a quatro anos em uma colônia penal. Nadezhda recorreu do veredito, mas a bancada de juízes manteve sua sentença.

O nome de Nadezhda foi divulgado no comunicado publicado pela Assessoria de Imprensa da Procuradoria.

Mais recentemente, no verão de 2016, uma mulher de 33 anos que vive em Bryansk, a 379 quilômetros de Moscou, foi processada pela alegação de haver infectado seu parceiro com HIV. Contra ela, a corte aceitou a evidência de que ela estava registrada em um centro de tratamento de aids desde 2007, uma vez que que ela conheceu o homem em 2014. Contudo, a corte foi relativamente branda em sua sentença, com uma pena suspensa de três anos, seguida de três anos de liberdade condicional. Além disso, coerente com as melhores práticas, o nome dela não foi divulgado na mídia, diferente do nome de Nadezhda, o qual foi divulgado no comunicado publicado pela Assessoria de Imprensa da Procuradoria.

No mês passado, na Aids 2016, em Durban, o HIV Justice Network revelou novos dados, mostrando que a Rússia lidera o índice de criminalização do HIV. Encontramos relatos de pelo menos 115 detenções, processos e/ou condenações na Rússia durante um período de 30 meses – de abril de 2013 a outubro de 2015.

Coletamos onze histórias da mídia russa sobre mulheres condenadas sob o artigo 122. Desde 2007, ao menos três mulheres foram sentenciadas a mais de quatro anos na prisão por alegada transmissão do HIV a um ou mais parceiros. Outra mulher recebeu uma sentença de um ano e sete meses em uma prisão e mais duas mulheres tiveram suas penas suspensas de um e três anos. Em um caso, a corte deu a uma mulher de 20 anos 6 meses de liberdade condicional. Os vereditos finais dos três casos são desconhecidos.

Uma mulher foi condenada a um ano e três meses por potencial exposição ao HIV: o parceiro dela não foi infectado.

Não são só as alegações de transmissão do HIV que estão sendo criminalizadas. Também soubemos de um caso, em 2013, de uma mulher da cidade de Kungur, em Perm Oblast, que foi condenada a um ano e três meses em uma colônia penal por conta de potencial exposição ao HIV: o parceiro dela não foi infectado.

mulher

A maior preocupação é que, em todos os casos acima, as evidências de conhecimento prévio da condição de soropositivo para o HIV vieram de relatórios médicos. Na Rússia, toda pessoa recém diagnosticada precisa assinar um termo indicando que está ciente de sua possível responsabilidade penal sob o artigo 122, que diz respeito à exposição e transmissão do HIV. Esse termo é anexado ao prontuário do paciente, pronto para qualquer requisição legal.

A promotoria pública não investigou adequadamente a ligação causal entre acusados e acusadores.

Além disso, nos casos de alegação da transmissão do HIV, a promotoria pública não investigou adequadamente a ligação causal entre acusados e acusadores, uma vez que não existe um teste capaz de precisar o momento e a direção da transmissão com certeza absoluta. É possível, por exemplo, que alguns dos acusadores do sexo masculino tenham sido infectados antes de ter relações com suas parceiras e, depois, foram diagnosticados soropositivos para o HIV.

O artigo 122 foi introduzido no Código Penal, em particular, com o intuito de proteger as mulheres da infecção por HIV. Todavia, está claro em nossa pesquisa que, na Rússia, a lei está sendo aplicada contra as mulheres. Há muitas razões pelas quais as mulheres se tornam vulneráveis quando a criminalização do HIV se junta à desigualdade de gêneros e à violência. Estas incluem, mas não estão limitadas ao seguinte:

  • Muitas vezes, as mulheres não tomam decisões sobre quando ter relações sexuais, com quem e se usam ou não camisinha.
  • Muitas mulheres são financeiramente dependentes de seus parceiros, o que aumenta a desigualdade em seus relacionamentos.
  • Infelizmente, há muitas evidências de agressão por parte do parceiro quando uma mulher revela seu status soropositivo para o HIV.
  • O medo da repressão impede as mulheres de fazerem o teste, de saber seu status e obter tratamento, uma vez que muitas leis são usadas precisamente contra aquelas que sabem de seus diagnósticos.

Há esperança de que a luz lançada sobre o que está acontecendo na Rússia ajude a mobilizar pessoas em torno desses processos legais injustos. Enquanto novos casos continuarem a emergir, nós continuaremos a reporta-­los no website HIV Justice Network.

Por Evgenia Maron em 4 de agosto de 2016 para HIV Justice Network