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Graças à terapia antirretroviral, muitas pessoas com HIV podem esperar viver por décadas depois da infecção. Entretanto, os médicos observam que estes pacientes muitas vezes mostram sinais de envelhecimento prematuro. Agora, um estudo publicado em 21 de abril pela Molecular Cell usou um biomarcador de alta precisão para medir o quanto a infecção pelo HIV envelhece as pessoas em nível biológico: uma média de quase 5 anos.

“Não estamos mais tão preocupados com infecções comuns em imunocomprometidos.”

“As questões médicas no tratamento de pessoas com HIV mudaram”, diz Howard Fox, professor no departamento de farmacologia e neurociência experimental do Centro Médico da Universidade de Nebraska e um dos autores desse novo estudo. “Nós não estamos mais tão preocupados com infecções comuns em imunocomprometidos. Agora estamos preocupados com doenças relacionadas ao envelhecimento, como as doenças cardiovasculares, disfunção cognitiva e problemas no fígado.”

A ferramenta usada nesse novo estudo analisa mudanças epigenéticas nas células das pessoas. Alterações epigenéticas afetam o DNA, mas não a sequência de DNA. Uma vez que isso ocorre, elas são passadas de uma geração celular para a próxima, influenciando a forma como os genes são expressos. Em particular, a mudança epigenética utilizada como biomarcador nesta pesquisa foi a metilação, o processo pelo qual pequenos grupos químicos são associados ao DNA. A metilação do DNA pode afetar o modo como os genes são traduzidos em proteínas.

“À medida em que envelhecemos, a metilação ao longo de todo o genoma muda.”

“O que temos visto em estudos anteriores é que, à medida em que envelhecemos, a metilação ao longo de todo o genoma muda”, diz Trey Ideker, professor de genética do departamento de medicina da Universidade da Califórnia em San Diego e outro autor do estudo. “Algumas pessoas chamam de entropia ou de deriva genética. Embora não tenhamos certeza do exato mecanismo pelo qual essas mudanças epigenéticas levam à sintomas de envelhecimento, é uma tendência que podemos medir no interior das células das pessoas.”

Os 137 pacientes incluídos na análise foram inscritos no CHARTER (CNS Antiretroviral Therapy Effects Research), um estudo de longo prazo que visa monitorizar indivíduos infectados pelo HIV que estão sendo tratados com a terapia antirretroviral. Os indivíduos escolhidos não têm outras condições de saúde que poderiam distorcer os resultados. 44 indivíduos soronegativos também foram incluídos na análise inicial para controle. Um grupo independente de 48 indivíduos, tanto de soropositivos como de soronegativos, foi utilizado para confirmar as descobertas.

Além da descoberta de que a infecção pelo HIV levou a um avanço médio no envelhecimento biológico de 4,9 anos, os pesquisadores notaram que essa mudança correlaciona-se com um risco aumentado de mortalidade em 19%.

“Não houve diferença entre as pessoas que foram recentemente infectadas e aqueles com infecção crônica.”

“Propusemo-nos a olhar para os efeitos da infecção pelo HIV na metilação, e fiquei surpreso de encontrar um efeito de forte envelhecimento”, disse Ideker. “Outra coisa que foi surpreendente foi que não houve diferença entre os padrões de metilação entre as pessoas que foram recentemente infectadas [menos de cinco anos] e aqueles com infecção crônica [mais de 12 anos]”, acrescentou Fox.

Os pesquisadores dizem que é possível que medicamentos sejam desenvolvidos para atingir os tipos de mudanças epigenéticas observadas no estudo. Mas as implicações mais imediatas são muito mais simples: observa-se que as pessoas infectadas com HIV devem estar cientes de que estão sob maior risco de doenças relacionadas à idade e devem trabalhar para diminuir esses riscos, fazendo escolhas de estilo de vida saudável em relação à exercícios físicos, dieta, uso de drogas, álcool e tabaco.

Em 21 de abril de 2016 por EurekAlert!

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Cientistas da Escola de Medicina da University of North Carolina (UNC)  e Sanford Burnham Prebys Medical Discovery Institute (SBP) identificaram uma proteína humana que enfraquece a resposta imunológica contra o HIV e outros vírus. Os resultados, publicados no Cell Host & Microbe, têm implicações importantes para melhorar as terapias antivirais contra o HIV, criando vacinas virais eficazes e promovendo uma nova abordagem para o tratamento do câncer.

“Por que o corpo é incapaz de montar uma resposta imune eficaz contra o HIV?”

“Nosso estudo traz uma visão crítica sobre uma questão fundamental na pesquisa do HIV: por que o corpo é incapaz de montar uma resposta imune eficaz contra o HIV para prevenir a transmissão?”, disse Sumit Chanda, Ph.D., professor e diretor do Programa de Imunidade e Patogênese do SBP e do e coautor sênior do estudo. “Esta pesquisa mostra que a proteína NLRX1 é responsável — é necessária para a infecção pelo HIV e funciona reprimindo a resposta imune inata.”

A resposta imune inata funciona através da produção de uma cascata de sinalizadores químicos (interferons e citocinas) que fazem disparar as células T citotóxicas para matar os agentes patogênicos. Cada vez mais evidências sugerem que a montagem de uma resposta inata potente e iniciada cedo, é essencial para o controle da infecção pelo HIV e pode melhorar a eficácia das vacinas.

“Deficiências de NLRX1 reduzem a replicação do HIV.”

“O mais importante é que fomos capazes de mostrar que deficiências de NLRX1 reduzem a replicação do HIV, o que sugere que o desenvolvimento de pequenas moléculas para modular a resposta imune inata poderia inibir a transmissão do vírus e promover imunidade à infecção”, disse Chanda. “Prevemos expandindo nossa pesquisa para identificar inibidores NLRX1.”

 

Como a NLRX1 reduz a imunidade inata contra o HIV

Embora o HIV seja um vírus de RNA de cadeia simples, depois de infectar uma célula imunológica ele é rapidamente transcrito reversamente em DNA, aumentando o nível de DNA encontrado em porções de fluído celular (hialoplasma). Elevado DNA no hialoplasma desencadeia um sensor chamado STING (do inglês, stimulator of interferon genes) que gira em torno da resposta imune inata.

Imagem de microscopia de fluorescência confocal da NLRX1 (em verde) de uma célula HeLa (azul, corante nuclear). (Crédito: Haitao Guo)
Imagem de microscopia de fluorescência confocal da NLRX1 (em verde) de uma célula HeLa (azul, corante nuclear). (Crédito: Haitao Guo)

“Até agora, o mecanismo pelo qual a NLRX1 ajudava a infecção pelo HIV era inexplorado. Nós mostramos que a NLRX1 interage diretamente com STING, essencialmente bloqueando sua capacidade de interagir com uma enzima de ligação chamada TANK-binding kinase 1 (TBK1)” disse Haitao Guo, Ph.D., pesquisador associado sênior pós-doutorado no laboratório de Jenny Ting, Ph.D., um membro do Lineberger Comprehensive Cancer Center da UNC, professor de microbiologia e imunologia na Escola de Medicina da UNC e principal autor do estudo.

“A interacção STING-TBK1 é um passo crítico para a produção de interferons em resposta ao DNA elevado no hialoplasma, e inicia a resposta imune inata. Esta pesquisa expande nossa compreensão sobre o papel das proteínas na replicação viral e na resposta imune inata contra a infecção pelo HIV, e pode ser estendida para os vírus de DNA, tais como o HSV e vaccinia”, completou Guo.

 

Relevância para o câncer

“A nossa descoberta de que a NLRX1 reduz a resposta imune contra o HIV é semelhante à descoberta dos pontos de verificação do sistema imunológico, tais como PD-L1 e CTLA-1, que controlam a resposta imune ao câncer”, disse Ting, coautor sênior do estudo.

Os pontos de controle imunológicos são “freios imunológicos” que impedem a superativação do sistema imune em células saudáveis. As células de tumor muitas vezes tiram proveito destes pontos de controle para escapar à detecção do sistema imunológico. Vários medicamentos aprovados pela FDA que têm como alvo os pontos de controle, chamados inibidores de controle imunológico, estão agora disponíveis para tratar alguns tipos de câncer.

“Inibidores de controle imunológico têm tido um enorme impacto no tratamento do câncer. Um investimento significativo no setor de biotecnologia e farmacêutica está sendo feito para identificar os inibidores STING que podem ser a próxima geração de terapias imuno-oncológicas”, disse Ting. “Este estudo, mostrando que a NLRX1 é um ponto de controle de STING, lança mais luz sobre o tema e vai ajudar a promover esses esforços.”

Em 14 de abril de 2016 por Science Daily

Fonte: O texto acima foi reproduzido a partir de materiais fornecidos pelo Sanford-Burnham Prebys Medical Discovery Institute.
Referências: Haitao Guo, Renate König, Meng Deng, Maximilian Riess, Jinyao Mo, Lu Zhang, Alex Petrucelli, Sunnie M. Yoh, Brice Barefoot, Melissa Samo, Gregory D. Sempowski, Aiping Zhang, Anamaris M. Colberg-Poley, Hui Feng, Stanley M. Lemon, Yong Liu, Yanping Zhang, Haitao Wen, Zhigang Zhang, Blossom Damania, Li-Chung Tsao, Qi Wang, Lishan Su, Joseph A. Duncan, Sumit K. Chanda, Jenny P.-Y. Ting. NLRX1 Sequesters STING to Negatively Regulate the Interferon Response, Thereby Facilitating the Replication of HIV-1 and DNA Viruses. Cell Host & Microbe, 2016; 19 (4): 515 DOI: 10.1016/j.chom.2016.03.001

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Australianos que vivem com HIV e que escolheram não tomar os antirretrovirais porque têm dúvidas sobre os medicamentos para o HIV dizem se sentir excluídos e silenciados dentro de organizações e comunidades para soropositivos, de acordo com um estudo qualitativo publicado online, antes da edição impressa do Medical Anthropology Quarterly.

Em geral, os entrevistados não negaram os benefícios dos antirretrovirais, mas ainda não se sentiam prontos para se comprometer a iniciar um regime de medicação vitalício. Eles estavam cientes de que uma boa adesão é fundamental, mas que isso pode ser um desafio, e que os medicamentos prescritos têm o potencial de fazer mal, assim como bem. Levando em conta estas preocupações e hesitações, a pressão para seguir com o tratamento para benefício da comunidade não se coadunou facilmente entre os entrevistados.

Asha Persson e seus colegas da Universidade de Nova Gales do Sul projetaram um estudo que teve como objetivo compreender os pontos de vista e as experiências de pessoas que não utilizam o tratamento do HIV, em um momento de crescente ênfase e campanhas para início do tratamento. Foram feitas entrevistas qualitativas profundas com 27 pessoas que vivem com HIV e que não estavam tomando o tratamento antirretroviral no momento de suas entrevistas (realizadas entre 2012 e 2014). Enquanto dez dos entrevistados nunca tinham feito o tratamento do HIV, os outros tinham feito anteriormente por um curto período de tempo ou para uma finalidade específica, como gravidez. A amostra incluiu 19 homens homossexuais, quatro mulheres heterossexuais, três homens heterossexuais e um homem bissexual.

Persson examinou as histórias dos entrevistados no contexto do conceito antropológico da “cidadania farmacêutica”. De acordo com este conceito, medicamentos farmacêuticos são vistos com a promessa de permitir ao indivíduo de participar plenamente na sociedade, ou seja, para serem cidadãos mais ativos. Com os medicamentos, pessoas que podem ter sido marginalizadas por conta de má saúde mental, incapacidade física, doença infecciosa ou alguma condição de saúde estigmatizada podem assim ser reintegradas.

Para dar um exemplo de cidadania farmacêutica relacionada com o HIV, um estudo anterior mostrou como uma consciência do impacto do tratamento do HIV na prevenção foi útil para casais em que uma pessoa tem HIV e a outro não. Ansiedades sobre o risco de transmissão do HIV foram recuando, permitindo que os casais a vivessem as suas relações como “normais” e seguras.

Com o tratamento antirretroviral para todas as pessoas diagnosticadas com HIV cada vez mais se tornando norma, pode parecer que o acesso a cuidados médicos não é apenas um direito, mas é também uma obrigação social. A partir disso, os autores perguntaram:

“Quais são as implicações sobre a cidadania e o senso de inclusão para aqueles que decidirem não fazer o tratamento para o HIV? Que tipo de assuntos vêm à tona quando as pessoas com doenças tratáveis, como o HIV, se recusam, desistem ou atrasam a dose recomendada do remédio?”

 

Antirretrovirais fazendo o HIV parecer mais real

Em geral, os entrevistados estavam bem informados sobre os recentes avanços médicos relacionados ao HIV e não poderiam ser retratados como “anti-medicina” ou como “negacionistas”. A maioria estava envolvida em cuidados médicos e mantinha relações construtivas com seus médicos, alguns dos quais concordavam com seus pacientes que iniciar o tratamento do HIV não era necessariamente uma prioridade absoluta naquele momento.

Muitos dos entrevistados estavam relutantes em iniciar o tratamento durante o tempo em que se sentiam saudáveis e normais. Eles temiam que não se sentissem assim se começassem o tratamento. Tal como uma mulher de 46 anos, que tinha sido diagnosticada há 15 anos, explicou:

“Se os meus resultados tenderem para baixo, eu vou ter que tomar os remédios e eu vou tomar os remédios. Vou manter cem por cento de adesão. Eu sei que eles estão lá para salvar nossas vidas e que vão prolongar as nossas vidas. Estou apenas mantendo eles na manga. Não acho que eu preciso estar com eles agora… Quero fazer tudo o que for possível para adiar isso por tanto tempo quanto possível.”

Os entrevistados falaram sobre o significado simbólico do início do tratamento. Para um homem gay, recentemente diagnosticado em seus cinquenta anos:

“Seria marcar uma fase diferente da minha vida vivendo com HIV… a realidade do HIV irreversível.”

Uma mulher disse que um benefício psicológico de não estar sob tratamento era poder se libertar do HIV:

“Uma vez que eu não estou sob os medicamentos, eu meio que esqueço que tenho isso… Eu admito que acho que os remédios vão ser algo que vão me lembrar diariamente do que eu tenho. Então, no momento, eu posso seguir com a vida com bastante facilidade, sem pensar sobre esse tipo de coisa, porque eu não estou sob medicamentos.”

Ao invés de ver o tratamento como ajuda a manter o HIV sob controle, um homem sentiu que a necessidade de iniciar o tratamento significaria uma perda de controle, com o vírus agora ganhando o jogo:

“Não fazer o tratamento… a cada ano que passa, eu acho que é mais um ano em que estou vencendo. Ainda tenho meu sistema imune natural lutando e sobrevivendo, e é isso o que é importante para mim.”

Os autores observam que, embora os medicamentos sejam geralmente entendidos como ajuda para que pessoas se sintam saudáveis e bem, em alguns casos, como estes, fazem com que a doença pareça mais real. Para essas pessoas, o tratamento pode reforçar a sensação de ser diferente e ter um problema de saúde não desejado, em vez de ser visto como algo que poderia fazê-los se sentirem “normais”.

 

Marginalização e silêncio

Quase todos os entrevistados estavam cientes das evidências de que o tratamento do HIV reduz a infecciosidade das pessoas que vivem com HIV e da crescente ênfase das campanhas para o aumento do uso do tratamento do HIV por este motivo.

A partir disso, os participantes descreveram a pressão de pessoas ao seu redor para que “façam a coisa certa” para o bem da comunidade em geral, uma fala que pareceu ambivalente e trouxe ressentimento. Um homem disse que a agenda do tratamento como prevenção estigmatizou as pessoas que vivem com HIV como uma “ameaça para a saúde pública” em necessidade de controle farmacêutico. Outro homem disse:

“Eu acho que dentro dessa mensagem há uma mensagem implícita, da minha perspectiva como alguém que é soropositivo, de que eu sou potencialmente irresponsável.”

Muitos dos entrevistados tinham histórias sobre serem questionados ou difamados por amigos ou membros da família. Um homem de 42 anos que nunca tinha feito tratamento, mas tinha sido diagnosticado há 18 anos e poderia ser descrito como um não-progressor de longo prazo, disse:

“Eu descobri que estava diante de um pouco de resistência e hostilidade quando conversava com pessoas e elas descobriam que eu não uso a medicação e que eu não o faço há período muito longo de tempo. As reações são diversas. Encontrei pessoas que me dizem: ‘Você não tem idéia. Você não sabe nada sobre este vírus, porque você ainda não experimentou isso. Você não passou pelo que passamos. Você não sabe o que está falando.’ É um pouco inquietante porque ninguém merece algo assim. As pessoas não deveriam se sentir culpadas porque estão bem.”

Vários entrevistados disseram não conhecer alguém que tinha HIV e que não estava fazendo tratamento. Eles se sentiram marginalizados e silenciados dentro de grupos de pessoas que vivem com HIV e por organizações de apoio ao HIV.

“Eu não tenho amigos que são soropositivos mas que não estão em tratamento. E não saberia onde encontrá-los, provavelmente porque eles se isolam, assim como eu… Não parece haver qualquer tipo de apoio real para as pessoas que não tomam a medicação, porque quando você menciona isso para as pessoas elas são incrivelmente pró-medicação e colocam você para baixo.”

“Eu não digo abertamente a qualquer pessoa que eu não tomo a medicação… Eu estou me sentindo como uma pessoa marginalizada dentro de um grupo marginalizado.”

Os autores observam que, embora os medicamentos prometam reduzir algum estigma associado ao HIV, os indivíduos que não os tomam encontram-se marginalizados de uma nova maneira, pelas expectativas cada vez mais normativas e “responsabilidades” em torno do tratamento do HIV.

 

A manutenção de um diálogo

Em um artigo relacionado, Christy Newman, uma das coautoras do estudo, comenta que, com o foco crescente sobre os benefícios do tratamento do HIV, há menos oportunidades para as pessoas com HIV expressarem seus medos e preocupações.

“Isso abre questões importantes sobre como as organizações governamentais e ativistas podem manter conversas sobre o uso do tratamento aberto e solidário, reconhecendo que os consumidores têm direito a usar estes medicamentos que previnem e salvam vidas e que tenham dúvidas sobre eles. Precisamos garantir que o crescente foco no tratamento evite contribuir para práticas ou percepções de coerção, que correm o risco de forçar, mesmo aqueles com pequenas dúvidas, à adotar posições mais fortes de recusa ao tratamento e de desconfiança no sistema de saúde.”

Por Roger Pebody em 13 de abril de 2016 para o Aidsmap.

Referências: Persson A et al. On the Margins of Pharmaceutical Citizenship: Not Taking HIV Medication in the “Treatment Revolution” Era. Medical Anthropology Quarterly, 2016. Newman CE. Appreciating doubts about HIV medicine. Journal of the International AIDS Society 18:20717, 2015. (Full text freely available online).

“Olá, Jovem! Tudo certo contigo? Fiquei mexido com a última postagem que tu publicaste, sobre a inflamação crônica e seus efeitos no longo prazo.

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Me parece que, se nossa leitura fosse mais atenta, talvez o que poderíamos tirar da postagem é que: 1) a inflamação crônica não é uma disposição fisiológica devastadora, 2) que atua lentamente e só é perceptível quando o soropositivo chega em sua 6º ou 7º década de vida e, principalmente, 3) que existem meios para retardar, controlar ou até mesmo conviver muito bem com a inflamação persistente — inclusive, até os 88 anos de idade, assim como a Dona Olivetti, que esteve ao seu lado no livro Histórias da Aids, do infectologista Artur Timerman e da jornalista Naiara Magalhães.

Noutras palavras, é basicamente dizer que a inflamação persistente parece ser mais perceptível quando o paciente está próximo da idade em que as pessoas normalmente morrem, o que faz com que essa constatação seja até um pouco engraçada.

“Na mesma medida em que suas células CD4 aumentam, parece que a ansiedade cresce junto com sentimentos de impaciência.”

Contudo, o que mexeu comigo, confesso, foi a reação que percebi entre meus semelhantes, soropositivos. Ao que me parece, um estado de euforia generalizado pela previsão — ou, no máximo, pelo chute — que os cientistas deram de uma possível cura em três anos. Ou melhor, lendo mais atentamente, pela previsão para o começo de testes em humanos dessa abordagem que pode levar à cura. Isso me deixou preocupado porque os soropositivos estão ficando cada vez mais saudáveis, do ponto de vista de sua função imune, mas, na mesma medida em que suas células CD4 aumentam, parece que sua ansiedade cresce junto com seus sentimentos de impaciência. O que é compreensível, afinal, nenhum de nós escolheu ser soropositivo. Mas, talvez, isso seja um sinal de que não só precisamos tomar nossos remédios todos os dias, mas também buscar apoio, tratamento psicológico e, quem sabe, convivência com outros soropositivos.

“Nenhuma pesquisa experimental pode prever o ano em que a cura vai sair.”

Acho que o blog já insistiu muito sobre o estado de incerteza da ciência. O máximo que se pode fazer em um editorial é publicar os avanços e torcer para o melhor acontecer. Além do mais, só podemos contar com o que se publica em nosso tempo. Nenhuma pesquisa experimental pode prever com exatidão o ano em que a cura vai sair. Infelizmente. Às vezes, os homens que fazem ciência acertam, às vezes, não. Por exemplo: grande parte do projeto genoma humano, que teve uma previsão de duração de 15 anos, só foi concluído nos últimos anos do prazo estipulado. Isso porque as novas tecnologias foram viabilizando um crescimento exponencial no sequenciamento de nosso código genético. O que antes era caro e demorado, foi tornando-se mais barato e mais veloz com o passar do tempo. Hoje, se alguém quiser ter seu DNA mapeado vai pagar uma bagatela de 20 mil e poucos dólares, que é quase nada comparado ao orçamento bilionário que foi gasto para se produzir essa tecnologia.

Parece que isso só significa que o estigma continua talvez maior do que o HIV, ou, ainda, que ele causa mais problemas de ansiedade e depressão do que a dose diária de Efavirenz e mais taquicardia emocional do que algum possível estado interno debilitante. Mais impressionante é ver como uma reportagem que diz, basicamente, ‘gente, vai ter uma cura e quero explicar o que acontece com o corpo de vocês enquanto ela não vem’ é recepcionada como se tivéssemos retrocedido no tempo — e, também, como se quiséssemos ficar presos nesse passado, desejosos que o avanço científico se desse em linha reta e contínua, sem qualquer turbulência, trazendo a cura do jeito épico que um dia imaginamos.

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Gostaria muito mesmo de ter podido acompanhar mais de perto o processo de desdobramento da cura da hepatite C, da descoberta do vírus até sua reta final. Gostaria de verificar se isso faz parte de um processo social, no qual a população infectada antevê um avanço científico que vai ter um impacto expressivo na forma de viverem suas vidas, ficando cada vez mais ansiosas a cada passo, a cada descoberta importante que a ciência é capaz de realizar.

Um dia, estava passando o olho pelas notícias e me deparei com uma entrevista com Pamela Anderson, a famosa atriz de seios fartos do seriado Baywatch, infectada pelo vírus da hepatite C por seu ex-marido, Thommy Lee, baterista dos Mötley Crüe, falando como é, aos 50 anos de idade, se ver curada da infecção, a princípio mortal. Impressionante como os processos são similares e de como o relato da atriz sobre a sua cura é a descrição tal qual reside no imaginário de (quase) todo soropositivo. Na entrevista, Pamela diz ter nascido novamente. Em um primeiro momento, nos anos 1990, os médicos haviam dito a ela que viveria uma década e que provavelmente iria morrer de uma fibrose grave no fígado.

Nos anos 2000, os médicos mudaram suas posições e avisaram a atriz que ela iria viver uma vida normal e provavelmente iria morrer de causas naturais. Entre 2013 e 2014, quando saiu o tratamento definitivo, ela se disse livre de um peso. A patogênese dos dois tipos de vírus, da aids e da hepatite, são claramente diferentes, mas é curioso como o processo social no qual o paciente infectado pelo vírus passa se assemelha assustadoramente.

Faço toda essa digressão pra te dizer o quanto eu fiquei mexido pela reação dos leitores do blog, os quais sempre me identifico como semelhantes, soropositivos, tal como eu. É quase como se suas esperanças tivessem sido retiradas à força, e é triste ver alguém sentir isso. Por isso, penso que o apoio farmacológico pode até estar surtindo efeitos, mas o nosso sistema de saúde ainda tem de oferecer um tratamento psicológico muito mais robusto. Realmente gostaria que, enquanto um tratamento definitivo não vem, pudéssemos viver melhor e mais tranquilos. Afinal, já podemos viver assim, não podemos?

Grande abraço,
V.”


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Os antirretrovirais têm adicionado décadas à expectativa de vida das pessoas vivendo com HIV que têm acesso ao tratamento. No entanto, quando comparado com pessoas soronegativas, aqueles que fazem o tratamento contra o vírus ainda têm maior risco de alguns problemas de saúde, normalmente associados ao envelhecimento. As razões por trás deste aumento dos riscos para a saúde ainda não são muito bem compreendidas, mas a comunidade científica está ansiosamente à procura de respostas. Os pesquisadores estão inclinados a apontar o dedo a um fenômeno conhecido como “inflamação crônica” como principal culpado.

Quando você se corta ou contrai uma infecção, o sistema imunológico logo inicia um processo em cascata, que envia para o local atingido um exército diversificado de células que promovem a cura, controlam a infecção e dão origem à inflamação. Entre esses soldados, um batalhão interligado de células CD4 e CD8 (conhecidas como células T “auxiliares” e “assassinas”, respectivamente), anticorpos, fatores de coagulação e citocinas pró-inflamatórias, entre muitos outros.

Em condições normais, células específicas irão desativar este processo inflamatório saudável, assim que o processo de cura ou combate da infecção estiver terminado. Mas, às vezes, a inflamação persiste a longo prazo e pode se tornar contraproducente, causando danos às células e tecidos saudáveis. Em pessoas soronegativas, a inflamação crônica está ligada à uma série de doenças, incluindo cardiovasculares, autoimunes, doenças hepáticas, renais e câncer.

O próprio HIV parece dar origem à inflamação crônica. O vírus também pode conduzir à desregulação do sistema imunológico, o que pode aumentar ainda mais a inflamação. Muitos cientistas acreditam que a inflamação crônica relacionada com o HIV contribui para o aumento do risco de doença cardiovascular, doença neurocognitiva, osteoporose (perda óssea), doença hepática, doença renal, fraqueza e alguns cânceres não relacionados à aids em indivíduos soropositivos. Todas estas condições estão associadas com o envelhecimento. Mas pessoas com HIV tendem a apresentá-las em idades mais jovens do que os seus homólogos soronegativos.

Poucas semanas depois da infecção, o HIV inicia um ataque maciço sobre o intestino, que tem uma elevada concentração de células CD4. Mesmo o tratamento muito precoce contra o vírus pode não ser capaz e reverter completamente este dano, que parece causar inflamação crônica, permitindo que os micróbios nocivos possam infiltrar-se no corpo (em um processo chamado de translocação microbiana), estimulando, assim, mais ativação imune e inflamação crônica.

Enquanto o tratamento do HIV não ajudar a combater a disfunção imune e a inflamação crônica causadas pelo vírus, os antirretrovirais não necessariamente acabam com esses efeitos. Pois, por um lado, ter uma carga viral indetectável não significa que o vírus é totalmente silencioso. A replicação viral de baixo nível ainda pode persistir e em um nível alto o suficiente para solicitar um constante estado de alerta do sistema imune, um estado inflamatório crônico. Por conseguinte, as células imunes superativadas podem conduzir para um estado de esgotamento, semelhante ao que é visto em pessoas mais velhas. O HIV também pode perturbar as células que ligam ou desligam a inflamação, possivelmente comprometendo a habilidade do corpo para regular adequadamente a inflamação.

Pessoas com HIV tendem a ter taxas mais elevadas de outras infecções virais, como a hepatite B ou C vírus (HBV, HCV) e citomegalovírus (CMV, que é da família do herpes), que também podem contribuir para a inflamação crônica e ativação imune. Além disso, o HIV pode causar cicatrizes, tanto no timo quanto nos nódulos linfáticos, o que leva à interferências na capacidade do corpo para combater infecções. O timo é um órgão que fica no peito, responsável pelo fabrico de células T, enquanto os nódulos linfáticos são responsáveis ​​pela coordenação das respostas imunes às infecções.

Os inúmeros problemas graves de saúde a que a inflamação crônica pode dar origem podem soar alarmantes. Mas o Dr. Steven Deeks, professor de medicina na Universidade da Califórnia, São Francisco (UCSF), que é um especialista em inflamação crônica relacionada ao HIV, diz: “É importante ressaltar que o efeito que nós estamos falando não é dramático”, diz ele. “Esse efeito, provavelmente não terá muito impacto na qualidade de vida, na saúde geral das pessoas, de fato, até que as pessoas estejam em sua sexta, sétima décadas de vida, quando então o efeito pode ser muito mais aparente.”

A pesquisa sobre tratamentos para a inflamação crônica:

“Eu acho que o júri ainda está se decidindo sobre a melhor abordagem para direcionar a resposta inflamatória, ou melhor, para orientar a raiz da resposta inflamatória: o próprio HIV, coinfecções e a translocação microbiana”, diz o Dr. Peter Hunt, professor associado de medicina da UCSF, que também estuda inflamação crônica relacionada ao HIV. “Um dos problemas é que nós realmente não temos intervenções bem sucedidas para bloquear essas causas; não temos quaisquer intervenções que desligam a expressão do HIV. “

Vários estudos têm sugerido que os medicamentos para baixar o colesterol, conhecidos como estatinas, podem reduzir a inflamação crônica nas pessoas com HIV e protegê-las contra seus efeitos nocivos. Mas os resultados de um estudo que fornece evidência científica do melhor padrão mostrou que tais benefícios ainda deixam a desejar. Atualmente, os pesquisadores estão recrutando 6.500 participantes em um estudo, chamado REPRIVE, que inclui pessoas com HIV que estão tomando antirretrovirais e que normalmente não seriam prescritas a tomar estatina. Os participantes serão distribuídos aleatoriamente, para receber estatina ou placebo. O estudo deve responder se os efeitos antiinflamatórios das estatinas vai se traduzir em um risco reduzido de doenças, tais como ataque cardíaco ou câncer, em pessoas com HIV. Infelizmente, os resultados não são esperados até 2021.

Outros medicamentos que já  estão mercado e atualmente sob pesquisa como agentes antiinflamatórios para as pessoas com HIV incluem: Micardis (Telmisartan), um medicamento para a pressão arterial, e Vildagliptina (Galvus), para diabetes. Pesquisas já têm demonstrado que a Aspirina não parece ajudar na inflamação relacionada com o HIV.

Os cientistas também estão pesquisando para ver se os probióticos, que promovem as bactérias desejáveis ​​no sistema digestivo, podem afetar o chamado microbioma do corpo de uma forma que ajude a diminuir a inflamação relacionada com o intestino.

Buscando afetar diretamente as vias inflamatórias, os pesquisadores estão olhando para os medicamentos utilizados em doenças inflamatórias, como a artrite reumatóide doença autoimune, e mesmo para alguns tratamentos contra o câncer. Outra pesquisa está examinando as drogas que inibem os principais indicadores de inflamação, chamados biomarcadores, tais como as citocinas interleuken-1 ou -6 (IL-1, IL-6).

Em geral, os especialistas concordam que uma cura para o HIV está a décadas de distância (ao contrário do que diz recentes reportagens erradas). Entretanto, como pesquisadores se esforçam para desenvolver maneiras de diminuir o tamanho do reservatório viral e, por sua vez, possivelmente reduzir a replicação viral de baixo nível, eles podem acabar encontrando os tratamentos que, mesmo quem não curem, acabem amortecendo a inflamação crônica.

Coisas que você pode fazer para combater a inflamação crônica e seus efeitos potencialmente nocivos:

De acordo com Deeks, os danos a longo prazo causados pela inflamação crônica relacionada com o HIV podem ser mais fáceis de evitar quando as pessoas são mais jovens, em vez de reverter os danos quando as pessoas são idosas.

As formas de prevenir tais danos incluem:

  • Tratamento precoce. Uma pesquisa mostrou que os antirretrovirais iniciados logo após a infecção podem reduzir a probabilidade de problemas de saúde ligados à inflamação, tais como ataques cardíacos e certos tipos de câncer.
  • Tome seus antirretrovirais todos os dias. Uma pesquisa recente descobriu que não aderir 100% ao tratamento está relacionado à maior inflamação.
  • Não fume. Fumar é especialmente prejudicial entre pessoas vivendo com HIV (além de ser altamente comum) e pode agravar a inflamação nas artérias.
  • Alimente-se de forma saudável. Uma pesquisa mostrou que a chamada dieta mediterrânea reduz o risco de ataques cardíacos ou AVC.
  • O exercício físico regular reduz o risco de inúmeros problemas de saúde.
  • Reduza a gordura corporal. O tecido gordo pode ser uma fonte de inflamação.
  • Trate coinfecções. A hepatite C agora é curável através de apenas oito semanas de tratamento e a hepatite B é tratável. Ambas as infecções podem causar graves danos ao fígado; e o HIV pode acelerar tais danos.
Por Benjamin Ryan em 5 de abril de 2016 para Poz Magazine