financial times

Faz somente um ano desde que a GlaxoSmithKline estava considerando um spin-off [distribuir quotas de um novo negócio aos acionistas atuais] da sua unidade de HIV, como forma de aumentar o valor para os acionistas descontentes. A opção foi rejeitada e, agora, o negócio, conhecido como ViiV Healthcare, está desempenhando um papel cada vez mais importante nos esforços para levar a farmacêutica britânica ao crescimento econômico.

Na última semana, a GSK relatou ter tido progresso positivo com um novo tratamento de ação prolongada que está em desenvolvimento pela ViiV, enquanto seus medicamentos já existentes seguem expandindo a participação no mercado global de HIV, de US$ 20 bilhões por ano, sobre seus rivais, incluindo a Gilead Sciences. A contribuição da ViiV para os lucros operacionais da GSK aumentou de 16% em 2014 para 29% no ano passado, e foi previsto pela UBS que chegue à quase metade até 2020.

Em parte, isto é reflexo do declínio dos negócios com medicamentos respiratórios da GSK, outrora poderosos, enquanto a onda de crescimento da ViiV acelerou a mudança. As vendas de medicamentos para o HIV aumentaram 54% no ano passado, para £ 2,3 bilhões, em comparação com uma queda de 7% em negócios de produtos farmacêuticos mais amplos. Os lucros operacionais da Viiv subiram 72%, para £ 1,7 bilhão, em comparação com uma queda de 12% em negócios de produtos farmacêuticos mais amplos.

Alexandra Hauber, analista da UBS, diz que a ViiV é “crucial” para a promessa de retomada de crescimento da GSK ao longo dos próximos cinco anos, uma vez que seu medicamento Advair, líder de vendas para tratar asma, agora enfrenta a concorrência dos genéricos. “A principal razão que faz os investidores poderem ter certeza de que a GSK conseguirá cumprir suas metas para 2020 é a ViiV”, diz ela.

Para os críticos de Sir Andrew Witty, executivo-chefe da GSK, a crescente dependência do grupo em um negócio que ele anteriormente estava disposto a se desfazer parcialmente é evidência de confusão estratégica. Seus aliados dizem que a avaliação do futuro da ViiV foi um exercício saudável, o qual chamou a atenção para a carteira oferecida pelo HIV e terminou com todas as partes — direção, conselho e a maioria dos investidores — em acordo de que este era um negócio bom demais para desistir.

As raízes da GSK no mercado de HIV são profundas. Uma das suas empresas predecessoras, Burroughs Wellcome, foi responsável pelo AZT, o primeiro medicamento aprovado pelos reguladores dos Estados Unidos para tratar o HIV, em 1987 — e foco do filme Clube de Compras Dallas (2013), vencedor de três Oscar.

No entanto, a GSK ficou para trás da Gilead na onda seguinte de medicamentos e, entre 2002 e 2013, viu sua fatia de mercado cair de 40% para 11%. Em 2009, a decisão de combinar os ativos relativos ao HIV da GSK com a Pfizer numa joint venture, batizada de ViiV, inicialmente não conseguiu reverter o declínio. Contudo, em 2014, o negócio — 78% detido pela GSK — estava começando a recuperar o espaço perdido e, no ano passado, sua fatia de mercado subiu para 17%.

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A recuperação foi impulsionada pelo Dolutegravir, um inibidor da integrase vendido sob a marca Tivicay e como parte de um comprimido de combinação de três-em-um chamado Triumeq. Estes produtos têm diminuído a vantagem clínica da Gilead, mas mesmo a GSK ficou surpresa com a rapidez com que esse produto decolou. As vendas de Tivicay e Triumeq foram de £ 1,3 bilhão no ano passado e a UBS espera que chegue a £ 4,9 bilhões em 2020 — com uma margem de lucro de 75%, maior do que qualquer outro produto da GSK.

Hauber diz que o potencial poderia ser ainda maior se a ViiV conseguisse tornar o Dolutegravir a espinha dorsal de novas combinações de duas drogas que oferecem alternativas “mais simples e mais seguras” para as formulações atuais de três medicamentos. A mais avançada dessas terapias duplas está em fase final de estudos. “Temos de demonstrar que a estratégia de terapia com dois medicamentos que estamos seguindo pode cumprir sua promessa”, diz Dominique Limet, executivo-chefe da ViiV. “É cedo, mas, se funcionar, será algo transformador.”

Uma oportunidade ainda maior poderia vir de tratamentos de ação prolongada, cujo objetivo é substituir as pílulas diárias por uma injeção administrada uma vez a cada quatro ou oito semanas. O primeiro produto desse tipo — desenvolvido pela ViiV em parceria com a Johnson & Johnson — suprimiu com sucesso o vírus HIV em mais de 90% dos pacientes, em estudos de fase intermédia, detalhados na Conference on Retroviruses and Opportunistic Infections (CROI 2016), em Boston, na terça-feira.

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No entanto, muitos participantes do estudo relataram dor associada com as injeções, levando alguns analistas a questionar como o produto poderia ser adotado em larga escala. “Em poucas palavras: acreditamos que o número de pacientes que irão optar por injeções dolorosas, no lugar de comprimidos diários e indolores, é pequeno e representa um risco limitado para a perspectiva da Gilead”, disse Geoffrey Porges, da Leerink Partners.

A GSK tem procurado ampliar sua linha de pesquisa e desenvolvimento com a aquisição de diversos medicamentos experimentais da Bristol-Myers Squibb em um negócio de US$ 1,5 bilhão, num acordo firmado em dezembro e completado nesta semana.

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E pode haver mais investimentos adiante. A GSK reservou um passivo de £ 2 bilhões em seu balanço para reaver as opções de venda da Pfizer e de seu outro parceiro, a Shionogi, do Japão, para que estas vendam suas participações na Viiv ao grupo britânico. Nesse mês, Sir Andrew deu a entender que a GSK estava ansiosa por um acordo, dizendo que ele era “certamente um comprador” se surgir uma oportunidade de assumir o controle total.

É improvável que a ViiV consiga ter tudo o que quer na corrida para a próxima geração de medicamentos contra o HIV, mas Hauber diz que os investidores ainda vão apreciar bastante ver a “GSK desafiar como nunca a Gilead”.

Tratamento preventivo:

A GlaxoSmithKline tem o objetivo de fazer como a Gilead Sciences e também oferecer um tratamento que possa impedir as pessoas de contrair o vírus HIV. A ViiV Healthcare, unidade do grupo do Reino Unido, publicou esta semana resultados globais encorajadores de um estudo clínico em estágio inicial sobre um medicamento injetável chamado Cabotegravir, que já demonstrou fornecer 100% de proteção contra a infecção pelo HIV em estudos pré-clínicos feitos em animais.

A Gilead tem liderado o caminho dos medicamentos profiláticos contra o HIV, com a sua pílula oral Truvada, provando mais de 90% de eficácia na prevenção da infecção quando tomada diariamente. A ViiV quer produzir uma alternativa mais duradoura, que precisa ser injetada apenas uma vez cada oito ou 12 semanas.

Ainda há muito para a ViiV provar — os dados divulgados nesta semana só fornecem informações sobre a segurança do medicamento —, com um estudo mais amplo planejado para demonstrar sua eficácia. Perguntas sobre o apelo de um tratamento mais durável ser capaz de superar a dor da injeção, com 98% dos participantes do estudo relatando desconforto na picada do Cabotegravir, também permanecem.

O uso da chamada profilaxia pré-exposição, ou “PrEP”, para evitar a infecção pelo HIV, tem causado controvérsia, com os críticos argumentando que irá prejudicar o uso do preservativo e, portanto, aumentar a propagação de outras doenças sexualmente transmissíveis. Mas a Organização Mundial da Saúde e os Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos têm apoiado o uso do Truvada por pessoas sob alto risco de contrair HIV.

Dominique Limet, executivo-chefe da ViiV, disse que tratamentos preventivos podem ter um grande impacto se amplamente adotados em regiões como a África subsaariana, onde o HIV continua a avançar. “Nós já estamos observando o afrouxamento do… sexo seguro”, disse ele. “Temos que trabalhar de mãos dadas com a comunidade médica e organismos de saúde pública [para promover práticas mais seguras].”

Por Andrew Ward para o Financial Times em 25 de fevereiro de 2016

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Aidsmap

Em um grande estudo americano, o ACTG A5257, apresentado ontem na Conference on Retroviruses and Opportunistic Infections (CROI 2016), apenas uma pequena proporção das pessoas soropositivas se reconheciam como não infecciosas depois de três anos de terapia antirretroviral, e um terço dos participantes consideravam que a sua chance de infectar um parceiro ainda era “alta”, embora apenas 10% dos participantes apresentassem carga viral detectável.

O estudo mostrou que não houve correlação entre a verdadeira carga viral de uma pessoa e sua crença sobre quão infecciosas ela de fato era, explicou o Dr. Raphael Landovitz, da Universidade da Califórnia em Los Angeles, durante na conferência.

O ACTG A5257 foi um grande estudo de comparação farmacológica em que 1.809 participantes foram randomizados para receber Raltegravir, Atazanavir ou Darunavir reforçados com Tenofovir/Emtricitabina. Os resultados sobre 96 semanas do estudo foram apresentados na CROI 2014. O estudo incluiu participantes entre 2009 e 2011, os quais foram questionados sobre suas crenças a respeito de sua própria infecciosidade a cada um, dois e três anos após o início da terapia antirretroviral. Portanto, este estudo inclui as respostas fornecidas até 2014.

Um quarto da população estudada era composta por mulheres, com idade média de 37 anos, e a etnia foi distribuída de maneira bastante uniforme, com 34% brancos, 42% afro-americanos e 22% latino-americanos. A carga viral média no início do estudo era de 40.000 cópias/ml, e 30% dos participantes tinham uma carga viral acima de 100.000 cópias/ml. Os participantes foram convidados a responder à pergunta:

“Qual a probabilidade de você transmitir o HIV a alguém hoje, se praticasse sexo desprotegido?”

Os participantes então classificaram o quão infecciosos eles acreditavam ser, em uma escala visual analógica, que ia de “não infeccioso” (zero) até “altamente infeccioso” (100). Em seguida, foram divididos em quatro categorias: aqueles que achavam que não eram infecciosos, aqueles que pensavam que o risco de infectar outra pessoa era “baixo” (pontuação 1-33), “médio” (34-66) ou “alto” ( 67-100).

No início do estudo, 58% pensavam que eram altamente infecciosos e 26% se colocaram na categoria “média”. Enquanto isso, 16% pensavam — até então, erroneamente — que o seu risco de infectar outra pessoa era “baixo” (10%) ou zero (6%).

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Depois de um ano em terapia antirretroviral, uma proporção maior — pouco menos de um terço — pensou que seu risco de infectar alguém era baixo. Mas 38% ainda pensavam que sua infecciosidade era alta. A porcentagem dos que achavam que não eram nada infecciosos tinha aumentado ligeiramente, para 10%. (Aliás, 8,1% deste 10% — apenas oito pessoas — estavam na verdade errados em suas crenças a esse respeito, pois naquela altura tinham uma carga viral detectável, e, assim, eram, até certo ponto, infecciosos).

Esse cenário praticamente não mudou em nada nos dois anos seguintes. Na semana 96, quando 90% dos participantes do estudo tinham de fato alcançado a supressão viral, 36% ainda pensavam que eram altamente infecciosos e 19% se colocavam na categoria de “médio”. A proporção dos que pensavam que sua chance de infectar outras pessoas era baixa tinha subido apenas um ponto, para 33%, e a proporção dos que achavam que não eram infecciosas foi para 12%.

Na semana 144, depois de três anos em tratamento antirretroviral, 34% ainda pensavam que eram altamente infecciosos e uma maioria (52%) achavam que eram muito ou moderadamente infecciosos. A categoria “baixa” aumentou em dois pontos, para 35%, e os que se viam como não-infecciosos subiu dois pontos, para 14%.

Em outras palavras, depois de três anos em terapia antirretroviral, com a qual grande parte dos participantes alcançou carga viral indetectável, a proporção dos que pensavam que eram altamente infecciosos tinha caído pela metade, enquanto a proporção dos que acreditavam que não eram infecciosos tinha praticamente dobrado. No entanto, estes números não refletiam nem de perto as proporções reais dos que estavam de fato infecciosos, pois não tinham qualquer relação com a carga viral real dessas pessoas.

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Na semana 48, jovens com idade inferior a 30 anos se mostraram mais aptos do que a média a considerar a sua infecciosidade como tendo caído. Negros, pessoas com menores habilidades literárias e pessoas que entraram no estudo com uma contagem de células CD4 muito baixa se mostraram menos aptos a considerar sua infecciosidade como tendo caído. Mulheres e hispânicos se mostraram mais propensos a colocar-se na categoria “não infecciosa”, enquanto usuários de drogas e aqueles que no início do estudo se classificaram como altamente infecciosos passaram a reconhecer que eram menos prováveis de transmitir o vírus.

Agora, a equipe do estudo vai analisar mais dados, a fim de descobrir se as crenças das pessoas a respeito de sua infecciosidade teve algum impacto no seu comportamento sexual de risco e nas escolhas de parceiro.

Uma vez que as crenças das pessoas sobre a sua infecciosidade, embora tenha mudado pouco após o início do tratamento, teve pouca relação sua verdadeira infecciosidade, perguntaram ao Dr. Landovitz, durante a conferência, se os pacientes estariam sendo mais cautelosos em virtude das mensagens fornecidas por seus profissionais de saúde, ou se sentiram, devido ao estigma do HIV, que ainda tinham que declarar uma crença determinada a respeito da própria infecciosidade.

Em sua resposta, o Dr. Landovitz comentou que o ACTG A5257 atravessou um período durante o qual, em maio 2011, os resultados do estudo HPTN 052 foram divulgados — o qual confirmou que as pessoas com HIV que estavam em terapia antirretroviral e indetectáveis são quase nada infecciosas. Ainda assim, a divulgação desse estudo parece ter tido pouco impacto sobre os participantes do A5257 ACTG, que terminou bem na época em que um estudo ainda mais convincente, o PARTNER — que também não encontrou qualquer transmissão a partir de uma pessoa com uma carga viral indetectável —, anunciou suas conclusões provisórias. O Dr. Landovitz comentou que, se o ACTG A5257 fosse repetido hoje, ele acredita que as crenças das pessoas sobre sua infecciosidade seria diferente. Quando foi perguntado sobre qual mensagem devemos dar aos pacientes a respeito da carga viral e da infecciosidade, ele disse:

“Não devemos dar-lhes uma mensagem boba, mas falar em absolutos. Pela minha experiência, as pessoas querem informações detalhadas sobre o risco de infectar outras pessoas e, com isso, querem ser capazes de tirar suas próprias conclusões.”

 

Por Gus Cairns em 24 de fevereiro de 2016 para o Aidsmap.

Referências: Landovitz RJ et al. Perception of infectiousness in HIV-infected persons after initiating ART: ACTG A5257. Conference on Retroviruses and Opportunistic Infections, Boston, abstract #55, 2016. Veja um resumo do estudo no site da conferênciaAssista à apresentação do estudo no site da conferência.

TV

Emissora brasileira procura três diferentes perfis de casais jovens sorodiscordantes, preferencialmente do Rio de Janeiro, para websérie:

  1. Um casal sorodiferente heterossexual e jovem (entre 18 e 28 anos). O homem vive com HIV e a mulher, não. Preferencialmente, o homem deve ter sido infectado através de transmissão vertical.
  2. Um casal sorodiferente heterossexual e jovem (entre 18 e 28 anos). A mulher vive com HIV e o homem, não. Ela pode ter contraído o HIV a partir de outro parceiro, através do compartilhamento de seringas, transfusão de sangue ou transmissão vertical.
  3. Um casal sorodiferente heterossexual e jovem com filho(s) (entre 20 e 35 anos).

Se você acredita que se encaixa em algum destes perfis, entre em contato!


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Para as cerca de 37 milhões de pessoas no mundo que estão infectadas com o HIV, os coquetéis de medicamentos antirretrovirais têm há muito tempo mantido o retrovírus e a infecção sob controle. Ainda assim, esses remédios não são a cura. Embora estes tratamentos ataquem a linha de montagem viral e impeçam novas partículas infecciosas de invadir as células do corpo, o próprio HIV ainda está lá, agachado no DNA do genoma do paciente, até que haja uma oportunidade de retorno — digamos, quando um paciente interrompe sua medicação.

Enquanto houver HIV persistente, os pacientes devem continuar tomando os medicamentos, que causam efeitos colaterais, custam dinheiro e oferecem risco de resistência aos medicamentos. É assim que funciona, pelo menos, até agora. Em um novo estudo, cientistas revelam um caminho possível para, literalmente, cortar os vírus escondidos nos filamentos de DNA de uma pessoa.

“Uma estratégia promissora para futuras aplicações clínicas.”

Com uma enzima feita sob medida, através de evolução forçada, os pesquisadores seletiva e seguramente fatiaram sequências de HIV em vários tipos de células: bactérias, linhas de células humanas utilizadas em pesquisa, células colhidas a partir de pacientes com infecção por HIV e em ratos de laboratório “humanizados” com HIV. Embora a estratégia esteja no início de seu desenvolvimento, ainda longe do uso clínico, os dados até agora apontam para uma forma eficaz e segura de ajudar que tratamentos com medicamentos acabem por completo com a infecção pelo HIV. Os autores do estudo relatam que essa é “uma estratégia promissora para futuras aplicações clínicas.”

O método baseia-se em uma enzima que os pesquisadores forçaram a ter como alvo uma sequência altamente conservada, de 34 bases do código genético que flanqueiam o genoma do HIV quando este é interposto ao DNA humano (estas sequências implantadas são chamadas de provírus). Claro, nem todos os provírus de HIV têm estas sequências de 34 bases, mas a maioria dos que atualmente infectam os humanos, tem. A sequência, encontrada na maioria dos subtipos de HIV-1, é provável que ocorra em 82% dos indivíduos infectados com HIV.

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Essa enzima, que tem o HIV como alvo, foi apelidada Brec1 (a partir de broad range recombinase 1). No começo, ela procurou e cortou uma sequência genética completamente diferente. Mas os pesquisadores persuadiram-na a cortar o HIV, fazendo versões mutantes dela. Em seguida, rastrearam as enzimas mutantes de acordo com sua capacidade de cortar sequências relacionadas com a sequência mais conservada do HIV. Em seguida, eles repetiram o processo, mudando gradualmente a sequência alvo até que ela se combinasse com o HIV.

Em cada ciclo, os pesquisadores selecionavam a versão mutante da enzima que chegou cada vez mais perto de cortar a cadeia específica de bases genéticas de provírus de HIV. Após 145 ciclos, eles tinham a Brec1, que cortou a sequência exata de provírus, e nada mais. Uma vez que a Brec1 corta a sequência de HIV, todo o provírus é extraído e destruído. Em seguida, a enzima corrige o buraco deixado no DNA.

Existem outras tesouras genéticas que os pesquisadores podem usar para cortar elementos genéticos específicos, como provírus. Mais notavelmente, há ZFN, TALEN e CRISPR. Mas esses métodos podem acidentalmente cortar sequências genéticas que não são o alvo, uma possibilidade perigosa em seres humanos vivos. Além disso, elas não consertam o buraco deixado no DNA, podendo assim desencadear sistemas de reparo de DNA emergenciais nas células, criando outra desordem celular. Até agora, a Brec1 parece evitar esses dois problemas.

Em testes de laboratório, os pesquisadores descobriram que a Brec1 poderia cortar a sequência de HIV de cada tipo de célula em que eles testaram. A enzima foi eficaz em cortar o HIV, sem quaisquer efeitos colaterais tóxicos ou genéticos.

Eles também relataram sucesso em ratos de laboratório, especificamente os ratinhos “humanizados” — os pesquisadores desenvolveram esses animais para transportar células imunes humanas que podem ser infectadas com o HIV. Com uma dose de Brec1 — entregue através de um vírus inofensivo geneticamente modificado — o HIV nos ratinhos diminuiu ao longo do tempo, até o ponto onde o HIV já não era mais detectável, mesmo embora as células humanas não infectadas tenham persistido nos animais.

“A eliminação completa do vírus pode ser a única maneira de conseguir uma cura genuína.”

Se este mesmo resultado se mantiver em seres humanos, a enzima pode, finalmente, oferecer uma solução para a infecção persistente do HIV em pacientes em tratamento com medicamentos antirretrovirais. “A eliminação completa do vírus em fase de replicação, incluindo os reservatórios virais latentes, pode ser a única maneira de conseguir uma cura genuína”, concluem os autores.

Por  em 23 de fevereiro de 2016 para o ArsTechnica. Referência: Nature Biotechnology, 2015. DOI: 10.1038/nbt.3467 (About DOIs).

Seminario_HIV_e_Direito_USP-1

Data: 29 de fevereiro de 2016

Local: Faculdade de Direito da USP — Largo São Francisco, 95, São Paulo/SP

Objetivo: Promover o diálogo sobre o impacto da desigualdade, da discriminação e da criminalização do HIV no enfrentamento à epidemia de aids, assim como discutir o papel do sistema de justiça na promoção e defesa de direitos humanos e na busca da Zero Discriminação.

Horário Programação
9:00h

Abertura

Conrado Hübner Mendes (USP)

Georgiana Braga-Orillard (Diretora do UNAIDS no Brasil)

9:15h

Mesa 1 – Discriminação e criminalização do HIV

Moderador: Conrado Hübner Mendes (USP)

1) Georgiana Braga-Orillard (UNAIDS): Criminalização do HIV no Brasil e no mundo

2) Nara Santos (UNODC): Drogas, sistema judiciário e vulnerabilidade ao HIV

3) Rodrigo Augusto T. da Silva (Defensoria SP): Discriminação contra pessoas com HIV/aids e desafios da legislação (Lei Federal 12984/14 e Lei Estadual 11.999/02)

10:45h Intervalo
11:00h Mesa 2 – Populações vulneráveis, discriminação e direitos

Moderadora: Sheila Neder (USP)

1) Rafaelly Wiest (ABGLT): Transfobia e direitos da população trans no Brasil

2) Pierre Freitaz (Rede de Adolescentes e Jovens Vivendo com HIV): Juventude, Direitos e HIV

3) Maria Berenice Dias (OAB): O papel da OAB na proteção da diversidade sexual (A confirmar)

Seminario_HIV_e_Direito_USP-2


Public Health England

Exemplos publicados de infecção pelo vírus zika em indivíduos imunodeprimidos ou imunossuprimidos são muito escassos. Apesar do zika ter sido descoberto mais de 60 anos atrás, sabemos surpreendentemente pouco sobre a patogênese e imunologia da infecção pelo vírus zika em seres humanos.

Uma vez que o zika é um flavivírus, é provável que ambas as respostas inatas e adaptativas sejam necessárias para interromper a replicação viral e eliminar o vírus, de modo que as condições médicas ou intervenções que influenciam as respostas imunes inatas e/ou adaptáveis ​​podem alterar o curso da doença clínica, incluindo os sintomas, a gravidade e a duração da infecção.

Provisoriamente, até que dados de casos e grandes estudos controlados observacionais apareçam, (note que estes podem não estar próximos), extrapolar a partir da experiência de infecções causadas por flavivírus similares, como o vírus da dengue, parece razoável.

Mais uma vez, os dados publicados sobre a infecção pelo vírus da dengue em doentes imunocomprometidos vêm de relatos ou de pequenas séries de casos, muitas vezes em populações de pacientes mistos (por exemplo, com variabilidade nas condições subjacentes e intervenções, diferentes graus de imunossupressão, origens étnicas e geográficas diferentes).

A partir dos dados disponíveis, os resultados clínicos gerais sobre a infecção pelo vírus da dengue em pacientes imunocomprometidos parecem ser semelhantes aos da infecção pelo vírus da dengue em pacientes imunocompetentes. Com base na experiência com infecções agudas por vírus de RNA em geral, os pacientes imunocomprometidos podem ter sintomas atípicos, incluindo ausência de febre.

Existe um risco teórico de viremia prolongada de dengue em doentes profundamente imunocomprometidos (usando as definições do Green Book, o qual considera uma contagem de CD4 igual ou superior à 500 células como saudável, entre 499 e 200 células como moderadamente comprometido, e abaixo de 199 células como severamente imunocomprometido), e não é claro se o vírus também pode permanecer em determinados órgãos depois de ser eliminado do sangue. As mesmas teorias podem ser aplicadas ao vírus zika em pacientes imunocomprometidos, na ausência de dados de estudos específicos. Não há dados confiáveis ​​disponíveis a partir de qualquer grupo de pacientes para avaliar a duração da detecção viral por RNA no sangue, sêmen ou outras substâncias.

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Aedes aegypti, mosquito transmissor de dengue e zika.

Conselhos práticos aos pacientes imunocomprometidos

Como os riscos são susceptíveis de variação de acordo com a imunossupressão envolvida, dicas de viagem terão de ser adaptadas para cada indivíduo, com as recomendações mais importantes sendo feitas para pacientes gravemente imunocomprometidos (conforme a lista do Green Book). Sugere-se os seguintes conselhos que podem ser fornecidos aos pacientes por seus médicos:

  • Considerar se viajar para uma área com transmissão ativa do vírus zika é necessário. O seu médico ou especialista pode ser capaz de ajudar a avaliar os potenciais riscos de infecção pelo vírus zika e outras infecções associadas com viagens.
  • Se viajar para uma área de transmissão de vírus zika é inevitável, então você deve adotar e aderir a medidas escrupulosas para evitar a mordida do mosquito. Veja também um folheto sobre como evitar a picada do mosquito.
  • Notificar o seu médico e/ou especialista se, no prazo de duas semanas de voltar de uma área com transmissão ativa de zika, você apresentar quaisquer novos sintomas, particularmente sintomas que podem ser associados com a infecção pelo vírus zika (febre, dor nas articulações, erupção cutânea, conjuntivite, dor de cabeça, dor muscular, dor atrás dos olhos).
  • Há uma preocupação especial sobre a infecção pelo vírus zika em mulheres que estão grávidas ou que estão planejando engravidar, independentemente de problemas imunológicos subjacentes ou não. Contate o seu médico de família ou especialista para informação adicional.
  • A transmissão sexual da infecção pelo vírus zika do homem para a mulher parece ser rara no geral, e pouco se sabe sobre a transmissão sexual do vírus zika em pessoas com problemas imunológicos. Se você tem preocupações sobre o potencial de transmissão sexual do vírus zika, depois de visitar uma área com transmissão ativa deste vírus ou na sequência de uma infecção pelo vírus zika, contate seu médico ou especialista.
Em 17 de fevereiro de 2016 pelo Public Health England

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Texto escrito por Gabriel Estrëla

Desde 2012, no Brasil, é possível ter acesso ao tratamento de profilaxia pós-exposição ao HIV em situações de sexo sem preservativo, ou em caso de acidentes em relação a este. O tratamento já existia desde a década de 90, foi estendido para vítimas de violência sexual em 2011 e para qualquer acidente sexual no ano seguinte. Foi apenas em 2015, no entanto, que o Ministério da Saúde lançou um documento que padroniza a prática médica em relação à PEP: o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT).

O PCDT serve como um referencial para que esse atendimento seja o melhor possível, considerando a realidade brasileira, e, desde seu lançamento, vários centros de saúde já fazem a dispensa de antirretroviral para profilaxia pós-exposição.

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Recentemente, ainda, o Ministério preparou uma plataforma online (também disponível como aplicativo) para que as pessoas acessem mais informações sobre a profilaxia e possam procurar uma unidade de atendimento próximo a elas. Parece um grande avanço, não é?

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Mas, ainda assim, durante o primeiro carnaval em que a PEP vem sendo amplamente difundida, vimos pelas ruas e pelas redes sociais um homem vestido em lycra roxa com uma gigantesca camisinha emoldurando seu rosto. (Sem falar que seu nome, “Homem-Camisinha”, gera resultados de pesquisa no Google que pode constranger os desavisados…) Embora os vídeos sejam bem intencionados, atuais e até eficazes, é um absurdo que o Ministério não faça um esforço maior para que as pessoas conheçam a PEP.

Poderia fazer um artigo inteiro, ainda, sobre o infeliz slogan “a vida continua depois do carnaval” — minha vida também continuou depois do diagnóstico de HIV, e eu passo muito bem, obrigado!

A última coisa que precisamos é voltar a atacar o HIV com preconceito e terrorismo. Vivemos num novo tempo, e já falei sobre isso aqui. Não podemos mais permitir que a camisinha seja nossa única aposta para um sexo seguro (ainda que seja, tecnicamente, a melhor aposta). Vivemos em um país em que 95% da população entende a camisinha como a forma mais eficiente de prevenção e, ainda assim, mais de 60% não a utilizam de forma consistente.

Camisinha

Precisamos fazer mais. Precisamos ir além da camisinha. Recentemente, no Projeto Boa Sorte, começamos a falar sobre a Prevenção Combinada. O conceito é justamente o que promete: combinar vários fatores de prevenção para que possamos ter o sexo mais seguro possível (e não ficarmos dependentes apenas de um invólucro de látex que ninguém nos ensinou realmente a usar).

A PEP é um desses fatores de prevenção. “Ah! Mas é melhor prevenir do que remediar…” Não é simples assim. A PEP também é prevenção… por meio de medicamentos. Se alguém tiver uma situação de risco pode procurar uma unidade de atendimento em até 72 horas, para discutir sobre a necessidade da profilaxia. O médico deve avaliar o tipo de exposição com detalhes (duração da exposição, intensidade da atividade sexual, se houve sangramento, se havia lubrificação natural ou artificial, qual foi a modalidade de sexo, se houve ejaculação… pode perder a vergonha e contar tudo pro médico porque ele tem o dever de ser ético e manter seu sigilo!). Além disso, deve conversar também sobre a sorologia dos envolvidos — se fazem testagem, quando foi a última, se tem alguma outra DST, se já tomou PEP ou, quando disponível, se toma PrEP (a profilaxia pré-exposição). Caso algum dos dois seja HIV positivo, tem ainda de perguntar sobre a adesão ao tratamento, se o faz corretamente, se está indetectável e há quanto tempo.

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Só com todas essas informações em mãos o médico estará apto a conversar sobre PEP com o paciente. E eu disse: conversar. O médico pode aconselhar como for, mas a decisão final ainda é do paciente. Caso decida embarcar na ideia, você deve tomar os antirretrovirais (geralmente Lamivudina e Tenofovir, Atazanavir e Ritonavir — em três comprimidos) durante 28 dias. Os efeitos colaterais costumam ser apenas um amarelado nos olhos, que vai embora com a ingestão de muita água — mas algumas pessoas já relataram enjôos. Durante 3 meses você faz o acompanhamento com o médico, mesmo depois do fim do tratamento, para continuar fazendo testagem.

Em caso de acidente, o médico deve conversar com você sobre a camisinha, ensinar a colocar ela direitinho. Ele também pode conversar com você sobre a camisinha feminina (que você coloca na hora que tá fazendo a maquiagem e vai despreocupada pra festa). E, em caso de não usar camisinha, seja por preferência sua, o médico precisa sim te apresentar outros elementos de prevenção, como o lubrificante (e, em breve, a PrEP), além de insistir que você se teste com frequência.

A PEP é ainda pouco conhecida, mas tem se popularizado cada vez mais. Aos pouquinhos, vai se tornando uma alternativa válida de prevenção e os mitos em volta dela vão desmoronando, um a um. Vamos juntos?

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Gabriel Estrëla é artista, ativista do HIV/aids e idealizador do Projeto Boa Sorte.


Aidsmap

Limites seguros para o consumo de álcool para pessoas que vivem com HIV, especialmente aqueles que não estão sob terapia antirretroviral, podem ser menores do que as recomendações para o resto da população, de acordo com o que sugere um grande estudo feito nos Estados Unidos. Os resultados foram publicados no jornal Drug and Alcohol Dependence.

As descobertas do estudo indicam que apenas um único país — o Reino Unido — recomenda um nível de consumo de álcool para a população em geral que também minimiza os danos do consumo de álcool nas pessoas que vivem com o HIV. Todos os limites de consumo seguro de álcool recomendados por outros países ainda colocam as pessoas com HIV sob maior risco de sofrer com os efeitos nocivos do álcool, em comparação com os seus homólogos sem HIV. O estudo descobriu que beber mais de 14 unidades por semana — equivalente à cerca de uma dose por dia em termos norte-americanos — aumenta o risco de morte para os homens com HIV. O risco aumentado de morte só se tornou evidente para os homens sem HIV em níveis mais elevados de consumo de álcool.

Atualmente, as recomendações sobre o consumo seguro de álcool variam muito de país para país. Recentemente, o Reino Unido publicou uma recomendação de consumo máximo de 14 unidades de álcool por semana, para homens e mulheres, em comparação com o equivalente de 24 unidades por semana para homens nos Estados Unidos (equivalente à 14 bebidas por semana) e 35 unidades por semana na Espanha. A orientação dos Estados Unidos sugere que as mulheres restrinjam a ingestão de álcool para 12 unidades por semana, enquanto a orientação espanhola não recomenda mais de 21 unidades por semana para mulheres.

O alto consumo de álcool aumenta o risco de desenvolvimento de uma ampla gama de tipos de câncer, particularmente câncer de mama em mulheres e câncer de intestino, esôfago, boca e garganta em ambos os sexos. O risco de câncer na boca, garganta e esôfago pode ser ainda maior por conta de tabagismo. O álcool também aumenta o risco absoluto de câncer de fígado. O alto consumo de álcool também aumenta o risco de acidente vascular cerebral e doença cardiovascular, através do aumento da pressão arterial. Há um grande debate a respeito da eventual proteção que uma pequena quantidade de álcool poderia oferecer contra doenças cardíacas.

Em suas novas recomendações, o Reino Unido calculou que, para uma pessoa que bebe 14 unidades ou menos por semana, o risco de morrer de uma condição relacionada ao álcool é de 1 em 100. Em um comunicado para a imprensa emitido pela Science Media Centre, no mês passado, o professor Matt Field do Liverpool University’s UK Centre for Tobacco and Alcohol Studies estabeleceu o risco absoluto de alguns tipos de câncer em níveis mais elevados de consumo de álcool:

“Entre os homens, cerca de 8 em 1.000 não-bebedores ou bebedores que aderem ao limite semanal (de não mais que 14 unidades por semana) estão em risco de desenvolver câncer de fígado. Essa taxa sobe para 11 em 1.000 para os homens que bebem entre 14 e 35 unidades por semana. Mas, para o câncer do esôfago, as taxas são aumentadas para os homens que bebem até mesmo dentro da orientação semanal (13 em 1.000), em comparação com aqueles que se abstêm completamente (6 em ​​1.000), e ainda maior para aqueles que excedem a diretriz (25 por 1.000 em homens que bebem entre 14 e 35 unidades por semana).”

 

O Veterans Aging Cohort Study

O estudo dos Estados Unidos foi concebido para testar se o consumo de álcool está associado a um maior grau de danos na população de soropositivos, em comparação com uma população não infectada com características semelhantes. A população do estudo consistiu de veteranos militares que recebem cuidados de saúde através da Veterans Health Administration, nos Estados Unidos, e que tinham sido inscritos no Veterans Aging Cohort Study (VACS). O estudo envolveu 18.145 pessoas com HIV e 42.228 indivíduos não infectados que relataram qualquer consumo de álcool, num questionário que incluía uma série de perguntas sobre o uso do álcool, como parte da rotina acompanhamento médico. As mulheres do estudo, que constituíam apenas 3% da população do VACS, foram excluídas do estudo e, portanto, tornando mais difícil tirar quaisquer conclusões confiáveis ​​sobre os resultados em mulheres.

Os pesquisadores olharam para a mortalidade e “lesão fisiológica” — marcadores laboratoriais que predizem doenças físicas. Este último foi calculado usando o Índice VACS, um sistema de pontuação que contabiliza hospitalização e morbidade, incluindo fraturas. A pontuação do Índice VACS pareceu sofrer alterações diante do consumo de álcool e uso de drogas, bem como às mudanças na adesão ao tratamento. A pontuação é calculada utilizando as seguintes medidas: hemoglobina, função renal, infecção para hepatite C, carga viral, contagem de CD4 e FIB-4 pontuação calculada com referência a ALT/AST e contagem de plaquetas.

A idade média dos participantes do estudo era de 52,5 anos para os homens que vivem com HIV e 54 anos para os homens não infectados. 31% das pessoas com HIV e 16% daqueles sem HIV tiveram infecção por hepatite C. Aproximadamente três quartos dos homens com HIV (76%) tinham carga viral indetectável.

Embora a maioria das pessoas com HIV que relataram uso de álcool eram bebedores leves ou moderados, que consomem menos de 14 bebidas por semana (81%), os pesquisadores classificaram 24% dos homens com HIV como tendo um nível “não saudável” de consumo de álcool, com base em suas respostas ao questionário, o qual perguntava sobre o número de dias em que o consumo de álcool ocorria, a quantidade de bebida e a frequência de abuso da bebida (seis ou mais bebidas em um dia). Um bebedor do sexo masculino se enquadraria nesta categoria se relatasse beber não mais do que duas a três vezes por semana, ter bebido pelo menos três bebidas em cada ocasião, ou ter relatado nunca consumir seis ou mais bebidas em uma ocasião. Os limites “não saudáveis” para beber eram mais baixos para as mulheres e para as pessoas com idade superior a 65 anos.

Durante um período médio de acompanhamento de 4,8 anos, a taxa de mortalidade foi de 2,7 óbitos por 100 pessoas-ano entre os homens com HIV e 1,8 por 100 pessoas-ano entre os homens sem HIV. Quando as taxas de mortalidade foram plotadas pelo consumo de álcool, os homens que vivem com o HIV com maior gama de consumo, seja pelo número total de bebidas (70 ou mais bebidas por mês), pela pontuação do questionário ou pelo consumo diário, apresentaram taxas de mortalidade quase duas vezes mais altas que aqueles com menor consumo (cerca de 5 mortes por 100 pessoas-ano). A diferença na mortalidade foi muito menos evidente para os homens sem infecção pelo HIV (os quais apresentaram um aumento aproximado de 25% na mortalidade).

A mortalidade em todos os níveis de consumo de álcool foi maior para os homens com HIV do que aqueles sem HIV, e a diferença nas taxas de mortalidade tornou-se maior à medida que o consumo de álcool aumentou.

Um padrão semelhante ficou evidente quando os valores médios do Índice VACS foram comparados com os diferentes níveis de consumo de álcool. O uso do Índice VACS — que se correlaciona com lesão fisiológica — mostrou que não havia nenhum nível de consumo de álcool que se mostrou protetor em homens com HIV, enquanto que beber entre 3 a 29 bebidas por mês oferecia proteção para as pessoas sem infecção pelo HIV.

A análise multivariada ajustada de acordo com raça, tabagismo e hepatite C mostrou que os homens com HIV que bebiam de 30 a 69 drinques por mês tiveram um risco 30% maior de morte, durante o período de acompanhamento do estudo, do que homens que bebiam apenas 1 ou 2 drinques por mês. Homens com HIV que bebiam mais de 70 bebidas por mês apresentaram 50% maior risco de morte. Em comparação, aqueles sem HIV tiveram um risco aumentado de mortalidade somente quando consumiram mais de 70 drinques por mês.

 

Por que o álcool é mais prejudicial para as pessoas com HIV?

Os pesquisadores dizem que as pessoas com HIV provavelmente são mais vulneráveis ​​aos efeitos nocivos do álcool, porque têm maiores níveis de álcool no sangue para cada unidade de exposição — uma explicação apoiada por um estudo separado da coorte VACS, que mostrou que as pessoas com HIV relatam intoxicação mesmo em níveis mais baixos do consumo de álcool, com efeito ainda mais pronunciado em pessoas com carga viral detectável. Os autores desse estudo sugerem que a absorção de álcool pode ser maior em pessoas com infecção pelo HIV não tratada devido à “disfunção da barreira intestinal”, e ao fato do índice de massa corporal ser, em média, menor em pessoas com HIV. Outro estudo descobriu que os níveis de álcool no sangue são mais elevados em infecções por HIV não tratadas. Os pesquisadores concluíram que “indivíduos soropositivos que consomem mais de 30 drinques por mês estão em maior risco de mortalidade, por todas as causas e fragilidade fisiológica.”

 

Implicações para as recomendações sobre consumo de álcool

Trinta doses por mês pode não parecer muito, mas diferentes países têm diferentes formas de calcular o consumo de álcool. Nos Estados Unidos, uma “dose padrão” contém 14g de álcool. Na Austrália, uma “bebida padrão”contém 10g de álcool. No Reino Unido, uma “unidade” de álcool contém 8g de álcool. Em unidades do Reino Unido, 70 drinques por mês é o equivalente a 30 unidades por semana, enquanto 30 drinques por mês — o nível em que o dano se tornou evidente na coorte de veteranos norte-americanos — é o equivalente a 13 unidades por semana — quase o mesmo que o novo limite para consumo mais seguro de álcool recomendado para a população em geral pelo Departamento de Saúde do Reino Unido no mês passado (de 14 unidades).

Em termos práticos, o Reino Unido recomenda beber não mais do que seis copos de vinho, ou seis litros de cerveja, ou 14 pequenas medidas de bebida, a cada semana, distribuídos por vários dias.

Como as pessoas escolhem interpretar estes resultados vai depender de sua atitude diante do risco. Para alguns, a abstinência total pode ser a única maneira confortável de lidar com o risco relacionado ao álcool, mas outros podem concluir que o aumento do risco absoluto de efeitos nocivos do álcool para pessoas com HIV detectado neste estudo é pequeno o suficiente para fazer pouca diferença sobre seus pontos de vista a respeito do consumo de álcool.

A principal limitação deste estudo é que ele olhou para o consumo de álcool apenas em homens. Mais pesquisas são necessárias em uma grande coorte de mulheres com HIV, onde possam ser gravadas informações confiáveis ​​sobre o consumo de álcool. No entanto, o maior dano causado por uma unidade de álcool em mulheres já está bem estabelecido, o que sugere que os resultados para os homens são susceptíveis de serem aplicados às mulheres, embora em níveis mais baixos de consumo de álcool.

Em 10 de fevereiro de 2016 por Aidsmap

Referências: Justice A et al. Risk of mortality and physiologic injury evident with lower alcohol exposure among HIV infected compared with uninfected men. Drug and Alcohol Dependence, advance online publication, February 2016. McGinnis K et al. Number of drinks needed to “feel a buzz” by HIV status and viral load in men. AIDS & Behavior, advance online publication 17 April 2015.


UNAIDS_BRASIL

Durante o mês de junho de 2016, acontecerá em Nova Iorque a Reunião de Alto Nível sobre HIV/Aids, após a qual será emitida uma Declaração Política que delineará as linhas estratégicas da resposta ao HIV nos próximos anos.

Trata-se de uma das maiores oportunidades de incidência política no futuro próximo. As Declarações Políticas sobre HIV/Aids são importantes (ver as Declarações de 2011 2006), pois têm sido historicamente a base para programas mundiais que têm feito a diferença na epidemia do HIV, como a já alcançada meta 15 por 15 (colocar em 15 milhões de pessoas até 2015). A incidência política tem sido chave para a inclusão de metas claras e ambiciosas sobre prevenção, tratamento, direitos humanos e financiamento.

Faça ouvir a sua voz sobre o conteúdo da Declaração Política da Reunião de Alto Nível sobre HIV/aids e participe da pesquisa aqui. O prazo para preencher a pesquisa vai até 18 de fevereiro.

Publicado pelo Unaids Brasil em 12 de fevereiro de 2016