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Transmissão iatrogênica pode ter alimentado disseminação do HIV


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A associação de vírus transmitidos pelo sangue com procedimentos intravenosos entre os moradores de Kinshasa, na República Democrática do Congo, pode sugerir que a rápida disseminação do HIV nesta região, durante a metade do século XX, foi impulsionada pela transmissão iatrogênica [aquela que origina doenças e patologias a partir do tratamento de outras], de acordo com um estudo publicado recentemente.

“Estimativas genéticas indicam que a epidemia cresceu mais lentamente antes de 1950.”

“Análises evolutivas das sequências de genes virais mostram que o HIV-1 floresceu e diversificou na capital do Congo Belga [nome do território administrado pelo Reino da Bélgica na África a partir de 1908], que foi o principal centro comercial da África central”, explica a Dra. Catherine Hogan, da Universidade de Sherbrooke, no Canadá, e seus colegas. “Estimativas genéticas da história da transmissão do grupo M do HIV-1 na África Central indicam que a epidemia cresceu mais lentamente antes de 1950 e foi, em seguida, transferida para crescimento exponencial, muito mais rápido em algum momento entre 1952 e 1968. Os fatores que impulsionaram o surgimento e a propagação do HIV-1 em direção a epidemia que se espalhou em Kinshasa permanecem desconhecidos.”

LocationDRCongo

Pesquisas anteriores já haviam proposto transmissões iatrogênicas como um fator importante para o surgimento do HIV-1 em Kinshasa, escreveram os pesquisadores, mas a doença de alta mortalidade tornou difícil confirmar esta hipótese. Para contornar este problema, Hogan e seus colegas escolheram analisar a prevalência da hepatite C e HTLV-1, dois vírus transmitidos pelo sangue, com maior capacidade de sobrevivência, e que poderiam agir como um auxiliador para a infecção pelo HIV. De julho a agosto de 2012, eles recrutaram moradores de Kinshasa com 70 anos ou mais e que tinham vivido na cidade por pelo menos 30 anos. Os participantes forneceram amostras médicas e preencheram questionários, fornecendo história demográfica e médica, com foco em doenças e condições tropicais anteriores, as quais requereram injeções intravenosas. As amostras coletadas foram submetidas a testes sorológicos, amplificação, sequenciamento e reconstrução filogenética, realizados para delinear a história genética do HCV.

A análise final incluiu 839 participantes, com idades de 70 a 90 anos (idade média de 75 anos). Os participantes relataram que vivem em Kinshasa por uma média de 58 anos (variação de 30 a 92), e 74% recordaram receber injeções intravenosas pelo menos uma vez na vida.

Os pesquisadores escreveram que 25,9% dos participantes testaram positivo para o HCV, e 3,1% foram positivos para HTLV-1. Dos 118 pacientes com HCV a partir do qual foram obtidos produtos de amplificação, os subtipos 4r (n=38) e 4k (n=47) foram os mais prevalentes. A terapia intramuscular intramuscular para tratar tuberculose, com injeções intravenosas, antes de 1960, em uma clínica específica de venerologia da era colonial do Congo e injeções intravenosas em um hospital específico foram identificados como fatores de risco independentes para o subtipo 4r, enquanto os tratamentos antimaláricos e injeções intravenosas em outro hospital foram associadas com o subtipo 4k. O subtipo 1b do HTLV-1 foi mais comumente encontrado entre os participantes que forneceram sequências, com fatores de risco notáveis de infecção pelo HTLV-1 em transfusões e injeções intravenosas em dois hospitais específicos. Além disso, a análise da sequência viral mostrou um grande aumento de infecções de ambos os subtipos de HCV começando na década de 1950.

Apesar de algumas limitações e da perda de indivíduos diretamente afetados, os pesquisadores escreveram que as associações encontradas entre os participantes com HCV se alinham diretamente com aquelas encontradas entre os participantes com HTLV-1, e vice-versa. Como tal, estes resultados podem ser a primeira evidência empírica que apoia a hipótese de que o surgimento do HIV-1 se deu através da transmissão iatrogênica do vírus, transmitidas pelo sangue.

“A transmissão iatrogênica e o histórico da África Central parece ter sido um fator contribuinte.”

“O estabelecimento do grupo M do HIV-1 como parte da pandemia global, único entre as demais cepas de HIV, sem dúvida, é resultado de múltiplos fatores causais cujas contribuições relativas podem nunca ser totalmente resolvidas”, escreveram os pesquisadores. “No entanto, a transmissão iatrogênica e o histórico no centro da África Central parece ter sido um fator contribuinte.”

As conclusões de Hogan e seus colegas se encaixam bem na atual compreensão das origens do HIV-1, que são em grande parte baseadas em padrões de evolução recolhidos a partir de dados de sequenciamento, de acordo com Simon D. W. Geada, DPhil e Samuel Kwofie, PhD, ambos do departamento de medicina veterinária da Universidade de Cambridge. Em um editorial, eles escreveram que as reduções de transmissão iatrogênica devem ser prosseguidas a par de esforços contra a transmissão sexual, uma vez que essa rota continua a ser uma fonte de novas infecções em vários países.

“Em uma era de crescente mobilidade da população, que levou a disseminação de HIV da África para o resto do mundo, temos de assumir a responsabilidade compartilhada para o desenvolvimento dos serviços de saúde e estratégias de prevenção adequadas”, escreveram eles. “Com as discussões atuais sobre a vacinação para proteger contra o vírus Ebola, a iatrogenia deve continuar a ser uma preocupação na agenda da saúde global.”

Por Dave Muoio em 21 de janeiro de 2016 para o Healio

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Jovem paulistano nascido em 1984, que descobriu ser portador do HIV em outubro de 2010. É colaborador do HuffPost Brasil e autor do blog Diário de um Jovem Soropositivo.

15 comentários

  1. Max diz

    Olá faço uso de Lamivudina + Tenofovir + Ritonavir + atazanavir há dois anos. Precisei há dois meses e meio começar a tomar ansiolítico por um início de depressão + ansiedade (o citalopram). Quando acabou a primeira receita pensei q acabava por ali e parei mas os sintomas voltaram. Voltei no psiquiatra que disse q é um tratamento q pode durar de 6 meses a 1 ano e q não deveria parar. Voltei a tomar mas estou agora tendo um cansaço EXTREMO. Só consigo levantar pra ir ao trabalho e comer. Vivo agora sempre com muito sono. Fim de semana eu só durmo (só levanto pra comer e volto a dormir). Li que existe algo chamado de interação medicamentosa. Que quem faz uso de ritonavir tem q tomar com precaução ansiolíticos. Alguém já passou por isso? de usar essa combinação e ter que tomar ansiolítico?

    • Paulo Roberto diz

      Max, o melhor é procurar o médico que te receitou este medicamento e solicitar a substituição.
      Se eu fosse você, tentaria a terapia alternativa. Usei FLORAL DE BACH (RESCUE) e comigo deu certo.

      • Gil diz

        Olá Paulo Roberto, querido e dedicado amigo:
        Permita-me lembrar que Florais de Bach não são técnicas reconhecidas pelo Conselho Federal de Medicina, sem eficácia comprovada até hoje, ante tanta pesquisa. Desculpe discordar. Abraço ao Amigão!!

        • Paulo Roberto diz

          Oi, Gil, amigão… Bem sei que várias técnicas não são reconhecidas pelo Conselho Federal de Medicina. Mas os Florais funcionaram comigo, e por isso eu indiquei.
          Saí da depressão com o uso de florais e fazendo acupuntura.
          A autohemoterapia, por exemplo, não é reconhecida também. Mas foi o que me ajudou a melhorar minha imunidade.
          Grande abraço
          Paulo Roberto

    • Gil diz

      Olá Max.
      Antes de pensar em trocar sua combinação de TARV, pense em falar com seu médico e, até sugiro que ouças um outro, para trocar de medicação para ansiedade e depressão.
      Gastar uma combinação de TARV com poucos efeitos e continuar com o citalopram (que a enorme maioria dos médicos já abandonou), é muito arriscado. Muitos pacientes que usaram citá relatam sonolência, torpor, falta de ânimo…
      existem muitas medicações relativamente baratas e eficazes. A medicação é um auxiliar, lembre-se, do tratamento antidepressivo. Procure um psicoterapeuta (psicólogo clínico), pois não é fácil superar esta situação somente com remédio… na verdade, apenas redução sintoma, mas não trabalha a causa, podendo voltar a ficar depressivo e ansioso.
      A própria depressão joga o cara pra cama, é remédios como citalopram em muitos casos levam mais de um mês pra iniciar um sutil efeito. Pensa nessas dicas, vamos em frente.

      • Max diz

        Obrigado Gil e Paulo Roberto. É isso que já me planejei. Falar com outro psiquiatra e relatar o uso dessa medicação com a infecto que vou essa semana.
        Não quero mudar minha combinação de TARV. Já estou acostumado com ela e só gostaria de mudar quando surgir a injeção trimestral. Já tive acompanhamento com um psicólogo e já tenho as diretrizes pra enfrentar a depressão. Já estava até bem, fazendo ciclismo, academia, saindo mais, mas realmente falta serotonina no meu cérebro que acredito que o remédio possa “contribuir” juntamente com essa nova visão de vida pra cima que tenho.
        Mas realmente esse remédio (citalopram) tem me feito ter falta de ânimo pra não fazer nada, na semana só me levanto pra ir ao trabalho e já contando as horas pra voltar pra casa para dormir. Esse fim de semana mesmo cheguei a dormir mais de 14 horas (tanto no sábado quanto no domingo).

    • FG-PR diz

      Max tomo essa combinação a 2 anos e não sinto absolutamente nada. Acredito que esse desanimo pode estar relacionado à parte psicológica, eu desde que descobri minha condição falei pra mim mesmo que esse vírus não mudaria minha vida e venho vivendo como sempre vivi.
      Essa combinação é muito boa eu não trocaria.

    • wolf diz

      Olá, Max. Também fui diagnosticado com depressão e ansiedade e faço uso do escitalopram + ansiolítico, só que no meu caso eu utilizo o 3×1. Já Estou indo para o 3º mês com o antidepressivo + ansiolítico e está tudo ok. Às vezes me sinto bem sonolento e desanimado, mas isso é também sintoma da depressão em si e possíveis efeitos colaterais do ansiolítico, independente de interações medicamentosas. O importante é o seu psiquiatra saber da sua sorologia, medicações que utiliza e o seu infecto também tomar conhecimento dos psicotrópicos que vem utilizando. No meu caso, os dois sabem de tudo e, a minha infecto solicitou relatórios mensais da minha evolução no tratamento da depressão/ansiedade. Então é isso, os dois profissionais precisam saber de ambos diagnósticos e das medicações que utiliza.
      Qualquer coisa, estou por aqui.
      Melhoras e um forte abraço.

  2. Yuri diz

    Alguém poderia me indicar um infectologista no Rio de Janeiro, capital. Obrigado

  3. Ponce41 diz

    Max, acho que vc deveria informar ao seu infecto toda medicacao, principalmente aqueles medicamentos que exigem receita ou de uso controlado. Na minha opinião, em se tratando de medicamentos ou a combinação deles para tratar outra enfermidade junto com HIV, ninguém é mais capacitado do que um infecto para orientá-lo. Lógico que ler e se informar ajuda, mas a palavra final tem que ser de um especialista.. Boa sorte e melhoras

    • Max diz

      Obrigado Ponce41: farei isso.
      Quando tive contato com o infecto antes ele me recomendou procurar a psiquiatria para eles receitarem alguma medicação, e por isso, acreditava que o infecto não teria muito conhecimento sobre ansíolitico, que isso era mais de conhecimento da psiquiatria.
      Mas vou ao meu infecto e a outra para ter posicionamentos diversos.

  4. Alex diz

    Pessoal, em março vou fazer novos exames de cd4 e cv e ir na consulta ao médico infectologista novamente, ele já me adiantou que vai passar novos exames para eu fazer após 6 meses.

    Depois disso, qual é a média de frequência? 6 meses mesmo ou vou ficar fazendo apenas uma vez por ano?

    Obrigado.

    • vivendopositivo diz

      CV e CD4 a cada 6, todos os outros a cada 3. Isso se for particular, pelo SUS pelo menos aqui, só fazem todos a cada 6 meses.

  5. Soldado... diz

    Alguém poderia me indicar um infectologista em curitiba/ PR.
    Desde já agradeço.

  6. Positif diz

    Já que todo mundo está procurando um infecto, eu gostaria da indicação de algum em Brasília. Obrigado.

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