CytoDyn

A CytoDyn Inc., uma empresa de biotecnologia focada no desenvolvimento de novas terapias para combater o vírus da imunodeficiência humana, o HIV, anunciou agora que o primeiro grupo de pacientes que recebem semanalmente doses de Pro 140 em monoterapia atingiram um ano de carga viral indetectável, num estudo de extensão.

A Fase 2B do estudo com o Pro 140 foi concluída em janeiro de 2015. Após o período inicial de tratamento de 13 semanas, os pacientes com supressão da carga viral poderiam continuar a receber semanalmente o Pro 140 em monoterapia, num estudo de extensão. Os pacientes incluídos neste estudo estão infectados com cepas de HIV que utilizam o receptor CCR5. O Pro 140 é um anticorpo monoclonal que tem com grande afinidade com seu alvo, o CCR5, e potencialmente bloqueia a infecção pelo HIV. Esses pacientes substituíram a terapia antirretroviral diária por injeções subcutâneas semanais (uma dose de 350mg) de Pro 140 em monoterapia durante o estudo experimental e de extensão.

“Todos os pacientes disseram ter experimentado uma melhora na qualidade de vida.”

O Dr. Jacob P. Lalezari, principal pesquisador da Quest Clinical Research e quem cuidou de todos os pacientes no estudo de Fase 2B original da CytoDyn e continua a tratar aqueles que participaram dos estudos de extensão que estão em andamento, comentou: “Todos os pacientes que estão atualmente nesses estudos de extensão disseram ter experimentado uma melhora na qualidade de vida, incluindo melhor sono, maior nível de energia, ou a ausência de outros efeitos colaterais comuns da terapia antirretroviral.”

“Temos o prazer de ver o Pro 140 fornecer aos pacientes com HIV uma terapia quase atóxica há mais de um ano.”

O Dr. Nader Pourhassan, presidente e CEO da CytoDyn, comentou: “Temos o prazer de ver o Pro 140 fornecer aos pacientes com HIV uma terapia quase atóxica há mais de um ano. Em nossas conversas com a Food and Drug Administration (FDA), temos sido incentivados a avançar com a avaliação clínica do Pro 140, em um esforço para levá-lo ao mercado o mais rapidamente possível. Apesar de estarmos satisfeitos por ter iniciado a inscrição para a Fase 3 (um estudo de 25 semanas com 300 indivíduos), a empresa irá agora solicitar uma reunião com a FDA para discutir um outro estudo clínico de Fase 3 de longa duração com o Pro 140 em monoterapia.”

Sobre a CytoDyn

A CytoDyn é uma empresa de biotecnologia focada no desenvolvimento clínico e na comercialização de potenciais anticorpos monoclonais humanizados para o tratamento e prevenção da infecção pelo vírus da imunodeficiência humana, o HIV. A empresa possui um dos principais anticorpos monoclonais em desenvolvimento para a infecção pelo HIV, o Pro 140, que terminou a Fase 2 dos estudos clínicos, com atividade antiviral demonstrada em seres humanos, e está atualmente na Fase 3. O Pro 140 bloqueia o receptor CCR5, utilizado pelo HIV para infectar as células T, impedindo assim a entrada deste vírus. Resultados de estudos clínicos realizados até agora indicam que o Pro 140 não afeta negativamente as funções imunológicas normais que são mediadas pelo CCR5. Os resultados de seis estudos, em Fase 1 e Fase 2, têm mostrado que o Pro 140 pode reduzir significativamente a carga viral em pessoas infectadas com o HIV. A recente Fase 2B do estudo clínico demonstrou que o Pro 140 pode impedir o escape viral em pacientes ao longo de várias semanas de interrupção de tratamento medicamentoso convencional. A CytoDyn pretende continuar a desenvolver o Pro 140 como um agente antiviral terapêutico para pessoas infectadas com HIV.

Sobre o Pro 140

pro140

O Pro 140 pertence a uma nova classe de terapias para o HIV/aids — os inibidores de entrada — que se destinam a proteger as células saudáveis ​​da infecção viral. O Pro 140 é um anticorpo monoclonal IgG4 completamente humanizado e dirigido contra o CCR5, o portal molecular utilizado pelo HIV para adentrar as células T. O Pro 140 bloqueia a cepa predominante de HIV, o subtipo R5, de entrar nas células T. Ele faz isso mascarando o receptor CCR5. É importante salientar que o Pro 140 parece não interferir com a função normal do CCR5 na mediação de respostas imunes. O Pro 140 não têm atividade agonista em relação ao CCR5, mas apresenta atividade antagonista ao CCL5, que é um mediador central em doenças inflamatórias. O Pro 140 tem sido estudado em sete estudos clínicos, todos demonstrando sua eficácia em reduzir significativamente ou controlar a carga viral do HIV em humanos. O Pro 140 foi designado como um produto candidato à aprovação rápida pela FDA.

Publicado em 21 de setembro de 2015 pela CytoDyn

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Na maioria dos anos desse século, o equinócio (a data que marca a entrada da primavera no hemisfério sul e do outono no hemisfério norte) acontece no dia 22 de setembro. Mas este ano foi diferente. O equinócio se deu neste dia 23, mais precisamente às 5 horas e 21 minutos da manhã, pelo horário de Brasília.

equinocio

Dizem que a primavera e o outono representam o prenúncio da mudança, uma vez que as estações seguintes, o verão e o inverno, são tão opostas — ou, pelo menos, é assim que lembramos delas. Em tempos de aquecimento global, se não tanto pela mudança de temperatura, decerto pela mudança na duração dos dias e das noites, a qual inevitavelmente se altera em virtude do alinhamento do eixo do nosso planeta em relação ao Sol.

Foi na primavera de 2010 que fui diagnosticado positivo para o HIV, naquele 18 de outubro, às 9 horas da manhã. Foi o dia em que mais chorei, de tanto medo da doença e certo de que a minha vida iria mudar muito em decorrência do vírus. Naquele mesmo ano, pouco antes da primavera, a pesquisadora australiana Asha Persson teve publicado seu estudo a respeito de relacionamentos heterossexuais sorodiscordantes, reunindo entrevistas com pessoas soropositivas e seus parceiros soronegativos em face à declaração da Swiss Federal Aids Commission — a qual, em 2008, divulgou um comunicado afirmando que pessoas com HIV que estão em tratamento e têm a carga viral indetectável não são infecciosas.

A declaração suíça provocou um debate internacional acirrado, com opiniões tão díspares quanto verão e inverno. Uma das principais preocupações era a de que encorajasse aqueles que estivessem em tratamento antirretroviral a ter relações sexuais sem camisinha. Entretanto, não foi isso que o estudo conduzido por Asha revelou. Ao contrário, naquela altura, as pessoas que estavam num relacionamento com um parceiro de diferente condição sorológica para o HIV expressaram ceticismo ou incerteza a respeito da ideia de que o tratamento antirretroviral pudesse funcionar como prevenção da transmissão do vírus, tornando seu portador uma pessoa não-infecciosa. A maioria dos entrevistados por Asha não via qualquer relevância da mensagem suíça para suas próprias vidas. Suas decisões a respeito do sexo não estavam baseadas em cálculos de risco, mas em emoções.

primavera

F oi mesmo a partir de emoção que a segunda mulher para quem contei ser portador do vírus reagiu à notícia. R., uma linda jovem francesa, habitante de Paris, que conheci em uma viagem de trabalho. As circunstâncias do nosso relacionamento — que logo se tornou um relacionamento à distância — me fizeram concluir que o momento ideal, ou o único possível, para contar da sorologia positiva era mesmo por Skype. E, por acaso, isso se deu numa tarde de primavera, quando me sentei diante do computador, conectado além-mar com a bela jovem, e fiz a revelação.

“– R., tenho algo importante a te dizer”, anunciei. “Eu sou soropositivo.”

A lenta conexão de internet congelava alguns de seus movimentos em frente à câmera do computador. Mas não tive dúvida que seu queixo caído por vários instantes não era resultado de uma falha na ligação. Era susto, mesmo.

“– Isso é muito sério…”, suspirou ela, antes de se levantar e desligar a chamada, explicando que precisava refletir um pouco.

Foram algumas longas horas para que R. reaparecesse. Ao fim do dia, ela me contatou novamente, pronta para dar o seu veredito.

“– Fui ao parque, caminhei e voltei. Hora alguma pensei em não ficar com você. Ao contrário, pensei no que poderia fazer para que tudo desse certo.”

Sua afirmativa tão positiva me encheu de ânimo. Com ela, a viagem de R. ao Brasil estava confirmada e, melhor ainda, para as festas de final de ano, em pleno verão. Entretanto, até a sua chegada ainda restavam alguns meses e, também, algumas dúvidas a respeito de como o relacionamento poderia se desdobrar. Ela pensava, por exemplo, que a única saída seria aderir ao celibato e manter comigo um relacionamento amoroso sem sexo, simplesmente porque presumiu que era assim que haveria de ser. Foi com o passar dos dias que R., conversando com seus conterrâneos, descobriu que transar era algo permitido aos portadores de HIV. Um dos amigos a quem resolveu consultar era um jovem médico parisiense, residente em infectologia — e quem deu a ela a explicação mais objetiva de todas.

“– Ele disse: ‘Tem HIV, e daí? É só usar camisinha. E você já ia usar camisinha de qualquer forma, não ia?’”, contou ela, fazendo-me concluir que, tamanha simplicidade na resposta, só poderia ser exatamente o que eu gostaria de ouvir quando eu conto que tenho HIV. “Mas ainda tenho algumas dúvidas…”, ponderou R. “E sexo oral? E se a camisinha estourar durante a penetração?”, prosseguiu, antes de concluir: “Se é preciso sempre usar camisinha, como fazemos para ter filhos?!”

Depois de quase desmaiar diante da pronta sugestão de ter filhos, recomendei a R. que conversasse com meu médico, o Dr. Esper, quando chegasse ao Brasil. Foi com muita simpatia que o doutor abriu seu consultório, já trancafiado em virtude do recesso de final de ano. Atravessamos sua clínica vazia e de luzes apagadas até chegar à sua sala, onde o médico conversou a sós com R. por toda uma hora. Ela me contaria depois que ali aprendeu um pouco sobre o tratamento como prevenção — ou TasP, do inglês treatment as prevention —, algo que ela desconhecia por completo.

Aidsmap

O estudo de Asha foi repetido cinco anos depois e, agora, publicado. A pesquisadora entrevistou 38 pessoas que estavam em um relacionamento sorodiscordante: 25 casais em que apenas um dos parceiros foi entrevistado e 13 casais em que foram entrevistados ambos os parceiros, bem como 16 casais homossexuais, sete casais heterossexuais e dois casais que incluíam pessoas transexuais. Entre os 25 parceiros soropositivos, 20 estavam tomando o coquetel antirretroviral e tinham carga viral indetectável, enquanto três estavam prestes a começar.

Assim como a cinco anos atrás, os entrevistados afirmaram desconhecer o termo TasP — mas não o seu significado. Quase todos os entrevistados voluntários disseram que a carga viral indetectável, sua ou de seu parceiro, era muito importante para um relacionamento sorodiscordante. As implicações disso é que variaram entre cada entrevistado. Muitos dos casais homossexuais enquadraram o tratamento antirretroviral como uma “camada extra de proteção”, ao lado do uso contínuo de preservativo. Esses casais congratularam a maior sensação de segurança proporcionada pelo tratamento antirretroviral, mas disseram preferir não lastrear a segurança sexual somente nisso.

“Seja de 4 ou 0,5 por cento, ainda há um risco. E, se há algum risco, não faz sentido corrê-lo, uma vez que as implicações são muito grandes. O impacto emocional do meu parceiro ao saber que foi ele quem transmitiu o HIV seria demasiadamente terrível de suportar.”

Alguns outros casais disseram já manter relações sexuais sem preservativo muito antes de saber sobre os benefícios do tratamento como prevenção. Mas aprender sobre isso parece ter trazido mais tranquilidade e uma validação de suas escolhas.

“Essa nova informação mais ou menos confirmou o que vínhamos fazendo, pois eu ainda sou soronegativo.”

Para um outro grupo de casais, as informações sobre carga viral indetectável e o baixo risco de transmissão do HIV nessas condições lhes deu “permissão” para ter relações sexuais sem preservativo.

“Depois que o estudo saiu, ficamos realmente aliviados. E nos sentimos capazes de ir em frente. Afinal, estes são os fatos. Se ele toma a medicação todos os dias, eu estou disposta a correr o risco, porque sei que ele está fazendo todo o possível para me manter segura.”

Em geral, o estudo de Asha observou que o tratamento como prevenção diminuiu ansiedades a respeito da transmissão — como uma mulher soropositiva tão bem explicou:

“Ajuda você a conseguir relaxar e desfrutar da vida sexual. Desfrutar do seu relacionamento com seu parceiro. É algo a menos para se preocupar.”

Muitos dos entrevistados afirmaram não estar preocupados com a transmissão do HIV. E muitos dos soronegativos se mostraram particularmente contentes ​​em poder refutar a ideia de que estar em um relacionamento sorodiscordante representaria estar sob o risco de ser contaminado por seu parceiro. Para esses casais, a sorologia positiva não deveria definir o relacionamento.

“Posso de fato amar quem eu amo, ao invés de me limitar a: ‘Você é positivo ou não?’ Os relacionamentos podem simplesmente acontecer e evoluir, de uma maneira que, a certa altura depois do meu diagnóstico, eu pensei que não fosse possível.”

Segundo a Dra. Asha, o tratamento como prevenção está mudando a percepção do HIV como algo extremamente infeccioso. Com isso, “pode gradualmente ajudar a normalizar e legitimar as relações sorodiscordantes, como algo que pode funcionar, ao invés de ser problematizada como uma anomalia que necessita de contínuo gerenciamento de risco sexual.” Um produto farmacêutico — ou a maneira como esse produto é percebido —, segundo ela, pode ter um impacto sobre o estigma.

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Mas e aqueles que não fazem o tratamento antirretroviral ou, por alguma razão, não têm carga viral indetectável? Muitos sociólogos têm sido críticos diante do aumento do uso de produtos farmacêuticos como forma de gerir problemas com causas sociais complexas, como depressão, obesidade e disfunção sexual. O remédio como a única solução para atingir um comportamento e uma aparência “normais” pode ser visto como uma forma de controle social, de pressão pelo uso de medicamentos, como a única maneira de manter seus corpos e organismos em consonância com os padrões socialmente esperados.

“Não há hipótese alguma neste mundo que me faça ficar com um homem soropositivo que não esteja em tratamento. Vou me sentir muito mais confortável quando ele estiver em uso de medicação, pois isso resolve uma série de preocupações.”

As entrevistas revelaram que alguns soronegativos pressionam seus parceiros soropositivos para que iniciem o tratamento  antirretroviral e mantenham a carga viral indetectável. Será que isso é bom? — e esta não é uma pergunta retórica. A incontestável melhora na qualidade de vida oferecida pelos antirretrovirais talvez também venha acompanhada de efeito colateral: o estigma por aqueles que não estão indetectáveis. Mas se o impacto social constasse na bula dos remédios, nada mais justo que seus benefícios também estivessem ali: a evolução dos pontos de vista das pessoas entrevistadas desde o última estudo de Asha, a cinco atrás, a respeito da sorodiscordância. A pesquisadora acredita que as mudanças de paradigma são prováveis, senão inevitáveis: o fim da sorodivisão, e, com isso, o fim do drama do soropositivo. Será que isso é realmente possível?

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O hábito não deveria fazer o monge. Por outro lado, disse Aristóteles que somos aquilo que fazemos repetidas vezes — o hábito.

Todos os dias, antes de me deitar, abro aquele armário que fica atrás do espelho do banheiro. Ali dentro, um pequeno frasco branco com um discreto rótulo, onde sequer consta a palavra “aids”, contém remédios suficientes para trinta dias. Dele, retiro uma única cápsula, que contém os três antirretrovirais necessários para me manter vivo e saudável. Levo essa cápsula à boca e a seguro com os lábios, sem deixar que minha saliva a atinja, para que não sinta seu gosto ruim. Sigo em direção ao quarto, onde me aguarda o copo de água filtrada sobre o criado-mudo. Então, por pura diversão e descontração típicas de um hábito tão arraigado, toco a ponta da língua na base da cápsula, forçando-a a fazer um pequeno loop, girando 180 graus em seu eixo vertical, antes de atingir a superfície da língua para, finalmente, ser deglutida, arrastada goela abaixo pela água.

Essa habilidade não foi algo que ganhei do dia para a noite, mas ao longo do mesmo gradiente que o outono e a primavera trazem antes do inverno e verão. Em outras palavras, uma habilidade que se ganha aos poucos e sem perceber — afinal, muitas vezes, não fosse alguém a nos lembrar, sequer perceberíamos a mudança de estação, não é mesmo? Será que isso também nos inebria de perceber o estigma, por mais discreto que este possa ser hoje? Será que nos habituamos à discriminação como se esta fosse normal para um soropositivo, tal e qual engolir as pílulas diárias?

Minha orgulhosa resposta seria que não. Até o fim de meu breve relacionamento com R. — que por razões da vida um dia terminou —, diria nunca ter notado qualquer sinal de sorodivisão. R. sempre foi muito amável, mostrava-se disposta a aprender sobre o meu mundo de soropositivo e dirimir qualquer receio restante que guardasse a respeito do HIV. Para mim, era o melhor que me parecia possível ser, dada a minha condição sorológica. O único passo adiante seria a ausência total de sorodivisão: um relacionamento com alguém não tivesse qualquer receio prévio da minha sorologia positiva. Parecia até utópico alguém para quem a questão da sorologia fosse completamente indiferente — será que existe alguém assim?

Conheci M. pouco depois de meu diagnóstico, há cinco anos. E não foi no outono e nem na primavera que a reencontrei, mas num frio dia de inverno de 2015. Naquela mesma noite, em sua casa, revelei ser soropositivo — com a mesma naturalidade que as minhas peripécias com as cápsulas de medicamento.

“– M., eu tenho HIV”, avisei, sentando em seu sofá enquanto bebíamos uma cerveja, já esperando uma série de perguntas, olhos arregalados e alguma cara de espanto. Entretanto, não foi o que se sucedeu.

“– Ah é?”, respondeu, M., dando de ombros e com uma expressão como se nada disso importasse. “Quer dormir aqui?”


Caltech

Proteínas conhecidas como anticorpos amplamente neutralizantes (bNAbs, do inglês broadly neutralizing antibodies) são uma chave promissora na prevenção da infecção pelo HIV, o vírus que causa a aids. Os bNAbs foram encontrados em amostras de sangue de alguns pacientes com HIV, aqueles cujo sistema imune pode controlar a infecção naturalmente. Estes anticorpos podem proteger as células saudáveis do paciente através do reconhecimento de uma proteína chamada envelope viral, presente na superfície de todas as cepas de HIV, e então inibir ou neutralizar os efeitos do vírus. Agora, pesquisadores da Caltech descobriram que um bNAb em particular pode ser capaz de reconhecer esta proteína específica, ao mesmo tempo em que assume diferentes configurações durante a infecção — tornando mais fácil de detectar e neutralizar o vírus em um paciente infectado.

A pesquisa, do laboratório de Pamela Bjorkman, professora de biologia, foi publicada em 10 de setembro na edição da revista Cell.

O processo de infecção pelo HIV começa quando o vírus entra em contacto com as células imunes humanas, chamadas células T, que transportam na sua superfície uma proteína particular, a CD4. Proteínas de três partes na superfície do vírus, chamadas de envelopes virais, reconhecem e se ligam às proteínas CD4. Os envelopes fechados abrem-se quando se ligam à CD4. Em seguida, a configuração aberta desencadeia a fusão do vírus com a célula alvo, permitindo que o HIV deposite seu material genético no interior da célula hospedeira, forçando-a a se tornar uma fábrica de produção de novos vírus, os quais podem infectar outras células.

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Os bNAbs reconhecem o envelope da superfície do HIV — a maioria dos bNAbs conhecidos só reconhecem os envelopes em configuração fechada. Embora o único alvo dos anticorpos neutralizantes seja o envelope viral, cada bNAb funciona reconhecendo apenas um alvo específico nesta proteína, ou epítopo. Alguns alvos permitem que a neutralização do vírus seja mais eficaz e, por isso, algumas bNAbs são mais eficazes contra o HIV do que outras. Em 2014, Bjorkman e seus colaboradores da Universidade Rockefeller reportaram a caracterização inicial de um potente bNAb, chamado 8ANC195, no sangue de pacientes com HIV cujo sistema imunológico é capaz de naturalmente controlar suas infecções. Eles descobriram que este anticorpo era capaz de neutralizar o HIV por alvejar um epítopo diferente do que qualquer outro bNAb anteriormente identificado.

No trabalho descrito na recente edição da revista Cell, eles pesquisaram como as funções dos 8ANC195 e suas propriedades únicas poderiam ser benéficas para as terapias contra o HIV.

“Observamos exatamente como o anticorpo reconhece o vírus.”

“No laboratório de Pamela, usamos cristalografia de raios-X e microscopia eletrônica para estudar interações proteicas num nível molecular”, diz Louise Scharf, um estudante de pós-doutorado no laboratório de Bjorkman e o primeiro autor da pesquisa. “Primeiramente fomos capazes de definir o local de ligação deste anticorpo em uma subunidade do envelope viral do HIV. Agora, neste estudo, nós identificamos a estrutura tridimensional desse anticorpo em relação com todo o envelope e observamos, em detalhe, exatamente como o anticorpo reconhece o vírus.”

Eles descobriram que, embora a maioria dos bNAbs reconheça o envelope viral em sua configuração fechada, o 8ANC195 pode reconhecer a proteína viral tanto em configuração fechada como também em configuração parcialmente aberta. “Acreditamos que é uma vantagem o anticorpo poder reconhecer essas diferentes formas”, diz Scharf.

A forma mais comum de infecção pelo HIV se dá quando um vírus no sangue se liga a uma célula T e infecta esta célula. Nessas circunstâncias, o envelope viral do vírus flutuante livre estaria predominantemente na configuração fechada, até que fosse feito o contato com a célula hospedeira. A maioria dos bNAbs poderia neutralizar o vírus. No entanto, o HIV também consegue se proliferar a partir de uma célula diretamente para outra. Nesse caso, uma vez que o anticorpo já está ligado à célula hospedeira, o envelope está numa configuração aberta. Ainda assim, o 8ANC195 poderia reconhecê-lo e se ligar a ele.

“A administração de uma combinação destes anticorpos pode reduzir bastante a quantidade de vírus que consegue escapar e infectar o hospedeiro.”

Uma potencial aplicação médica deste anticorpo está nas chamadas terapias de combinação, nas quais é dado ao paciente uma mistura de vários anticorpos que funcionam de várias maneiras distintas, a fim de combater logo o vírus, uma vez que ele muta e evolui muito rapidamente. “Nossos colaboradores no Rockefeller estudaram isso extensivamente em modelos animais, mostrando que a administração de uma combinação destes anticorpos pode reduzir bastante a quantidade de vírus que consegue escapar e infectar o hospedeiro”, diz Scharf. “Assim, o 8ANC195 é mais um anticorpo que se pode utilizar terapeuticamente. Ele tem como alvo um epítopo diferente dos demais anticorpos potentes e tem a vantagem de ser capaz de reconhecer múltiplas configurações do envelope viral.”

A ideia da terapia com bNAbs pode não estar longe de se tornar uma realidade clínica. Scharf diz que os mesmos colaboradores da Universidade Rockefeller já estão testando bNAbs como tratamento humano em um ensaio clínico. Embora o ensaio inicial não inclua o 8ANC195, este anticorpo pode ser incluído, num futuro próximo, em um estudo de terapia de combinação, segundo Scharf.

Além disso, a disponibilidade de informações mais completas sobre como o 8ANC195 se liga ao envelope viral permitirá aos pesquisadores, Scharf, Bjorkman e seus colegas, começar a trabalhar na engenharia do anticorpo, tornando-o ainda mais potente e capaz de reconhecer mais cepas de HIV.

“Além de apoiar o uso do 8ANC195 em aplicações terapêuticas, nosso estudo da estrutura do 8ANC195 revelou uma nova e inesperada configuração do envelope viral do HIV que é relevante para a compreensão do mecanismo pelo qual o HIV entra nas células hospedeiras e os bNAbs inibem esse processo”, diz Bjorkman.

Estes resultados foram publicados num artigo de jornal intitulado “Anticorpo amplamente neutralizante 8ANC195 reconhece envelopes fechados e abertos do HIV-1”. Além de Scharf e Bjorkman, os outros coautores da Caltech no estudo incluem: Haoqing Wang, estudante de graduação; Han Gao, técnico de pesquisa; Songye Chen, cientista de pesquisa; e Alasdair W. McDowall, diretor de recursos do Beckman Institute. O financiamento deste trabalho foi feito pelo Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas dos National Institutes of Health; pela Fundação Bill e Melinda Gates; e pela American Cancer Society. Cristalografia e microscopia de elétrons foram feitas no Observatório Molecular da Caltech, apoiado pela Fundação Gordon e Betty Moore.

Por Jessica Stoller-Conrad em 11 de setembro de 2015 para Caltech


Por Liz Highleyman para o Aidsmap em 8 de setembro de 2015

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Receptores de estrogênio sobre as células podem desempenhar um papel na latência e na reativação do HIV. Drogas que alvejam estes receptores podem potencialmente ser usadas tanto para promover a reativação de genes virais integrados como também mantê-los em silêncio, de acordo com a pesquisa apresentada na 8ª Conferência Internacional de Aids em Patogênese, Tratamento e Prevenção do HIV (IAS 2015) e no simpósio Rumo à Cura do HIV, que precedeu a conferência, em julho, em Vancouver.

O HIV integra o seu material genético (conhecido como provírus) em células T CD4 e outras células hospedeiras humanas, onde pode permanecer dormente por décadas. Este “reservatório” de células infectadas de forma latente em repouso torna o HIV muito difícil de curar: enquanto a terapia antirretroviral pode manter o vírus sob controle a longo prazo, mesmo uma pequena quantidade restante de células infectadas pode reacender a replicação viral se o tratamento for interrompido.

Os pesquisadores têm explorado uma ampla variedade de estratégias para curar o HIV, algo que a maioria dos especialistas agora acredita que virá a ser mais como uma remissão a longo prazo, ao invés vez da erradicação completa do vírus. Algumas dessas abordagens envolvem, antes de mais nada, prevenir o HIV de estabelecer sua latência ou de manter sua latência de forma permanente, enquanto outras envolvem a inversão da latência ou a reativação as células dos reservatórios, a fim de expulsar o vírus e torná-lo suscetível ao sistema imune ou às drogas antirretrovirais.

Jonathan Karn, da Case Western Reserve University School of Medicine, apresentou os resultados de um estudo de laboratório que explorou os efeitos do estrogênio e de agonistas do receptor de estrogênio (ativadores) e antagonistas (inibidores) em provírus de HIV em vários tipos de células.

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Jonathan Karn na IAS 2015. Foto de Marcus Rose/IAS 2015.

A pesquisa foi motivada pelo rastreio de uma biblioteca de sequências de ganchos de RNA — moléculas de RNA artificiais que podem ser utilizadas para desligar ou silenciar a expressão de um gene — procurando aqueles que parecem desempenhar um papel na manutenção da latência em promover a transcrição do HIV.

Um dos mais promissores era o receptor de estrogênio ESR-1, o que levou os pesquisadores a avaliar como os antagonistas de ESR-1, tais como o tamoxifeno e o dietilestilbestrol, afetam a latência e os reservatórios de HIV, em um estudo de laboratório.

Eles descobriram que os antagonistas de ESR-1, tais como Tamoxifeno e Fulvestrant, dois medicamentos contra o câncer de mama, discretamente reforçavam a reativação do provírus quando usado por si mesmos. Estes agentes também sensibilizavam células infectadas de forma latente para responder a doses mais baixas de ativadores de provírus conhecidos, incluindo o Vorinostat, um inibidor de HDAC. Gossipol, um composto de plantas de algodão modulador de SRC-3 e que bloqueia o ESR-1 também induziu expressão de provírus latente.

Quando células T em repouso obtidas de pessoas soropositivas em tratamento antirretroviral supressivo foram tratadas apenas com Tamoxifeno ou Fulvestrant, houve um aumento modesto na expressão do HIV. Adicionar Vorinostat sinergicamente a estes antagonistas de ESR-1  aumentou a reativação proviral.

Em contraste, os agonistas de ESR-1, tal como Dietilestilbestrol, inibiram a reativação de provírus de HIV em células latentes. Expor as células T de repouso a concentrações normais fisiológicas de estradiol — uma forma natural de estrogênio — inibiu a reativação de provírus em mulheres, mas não em homens.

“O estradiol em níveis de pico do ciclo menstrual é um potente inibidor da reativação viral.”

“Antagonistas de ESR são medicamentos bem estabelecidos e podem ser considerados como componentes de estudos clínicos com o objetivo de induzir a reativação proviral”, concluíram os pesquisadores. “O estradiol em níveis de pico do ciclo menstrual é um potente inibidor da reativação viral, sugerindo diferenças importantes entre homens e mulheres na replicação viral e nos tamanhos dos reservatórios”, disseram eles. “O projeto de regimes para a reativação proviral precisa levar em conta o estrogênio, e talvez outros hormônios, como fatores de confusão que afetam sua potência.”

Estes resultados podem ajudar a explicar algumas diferenças já observadas relacionadas ao gênero, como no estudo francês publicado na edição de 24 de agosto da revista Aids, que mostrou que os níveis de DNA de HIV intracelulares — uma medida do reservatório viral — são significativamente mais baixos em mulheres, comparados aos homens em tratamento antirretroviral supressivo de longo prazo.

Um estudo patrocinado pela amfAR está observando as diferenças específicas de gênero nos tamanhos dos reservatório de HIV, a reativação viral e inflamação residual entre homens e mulheres com supressão viral completa sob antirretroviral, que irá informar a inclusão das mulheres nos estudos de estratégias de cura e erradicação do HIV.


Referêncais:
Karn J et al. Estrogen blocks HIV re-emergence from latency and points to gender-specific differences in HIV reservoirs. 8th International AIDS Society Conference on HIV Pathogenesis, Treatment, and Prevention (IAS 2015), Vancouver, abstract TUAA0205LB, 2015.
Cuzin L et al. Levels of intracellular HIV-DNA in patients with suppressive antiretroviral therapy. AIDS 29:1665-1671, August 24, 2015.


O regime de Kim Jong-un na Coreia do Norte anunciou recentemente ter desenvolvido uma cura para o HIV, câncer, diabetes e uma série de outros males e doenças graves. É bom demais para ser verdade?

Kim Jong-un, o líder supremo norte-coreano, aplaude durante a segunda reunião do Exército do Povo Coreano, em foto sem data liberada pela Agência de Notícias da Coreia do Norte.
Kim Jong-un, o líder supremo norte-coreano, aplaude durante a segunda reunião do Exército do Povo Coreano, em foto sem data liberada pela Agência de Notícias da Coreia do Norte.

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Kim Jong-un, o líder supremo da Coreia do Norte, fez uma surpreendente descoberta médica — ou pelo menos é o que diz a mídia estatal do país. Em uma tacada só, Kim venceu o HIV, ebola, diabetes, alguns tipos de câncer e toda uma série de outras condições médicas, com um novo medicamento revolucionário.

A injeção, chamada de Kumdang-2, é feita a partir de ginseng, infuso com metais de terras raras — embora os elementos exatos utilizados não tenham sido divulgados. Nas palavras do Dr. Jon Sung Hun, citado pela Agência de Notícias Central Coreana, “Os pesquisadores inseriram elementos de terras raras em ginseng, aplicando fertilizantes micro-elementares de metais terras raras nos campos de ginseng.”

Kumdang-2

A nova droga tem um site bem abrangente, disponível em inglês e russo, no qual cita um estudo realizado em pacientes com aids na África. De acordo com o estudo, depois de ter sido administrada a dose máxima de Kumdang-2, 56% dos pacientes foram completamente curados da aids e os outros 44% foram “consideravelmente curados”.

O ginseng, claro, tem sido usado medicinalmente há séculos, principalmente na Ásia. No entanto, faltam provas em torno da sua eficácia para o tratamento da disfunção erétil ou diabetes, para as quais a sua utilização é frequentemente indicada. A probabilidade de que o ginseng seja capaz de tratar condições tão diversas como artrite e a epilepsia é praticamente zero.

Elementos de terras raras, por sua vez, podem ser extremamente prejudiciais. O grupo de dezessete elementos, que na verdade não são tão raros, tem causado preocupação nos últimos anos, especialmente na China, devido à sua tendência de se acumular no sangue, cérebro e ossos daqueles que os ingerem. Um estudo de 2005 publicado no Journal of Rare Earths descobriu que altos níveis de elementos de terras raras estavam associados a uma diminuição da função hepática.

Surpreendentemente, o Kumdang-2 não está limitado ao reino eremita; o site anuncia um distribuidor europeu em Moscou e outro na Austrália. Mas esteja avisado: não apenas é um tratamento quase certamente inútil, como também não é barato. As instruções de dosagem são incrivelmente obtusas e discorrem em mais de 2.500 palavras, mas conseguimos deduzir que, teoricamente, para prevenir o HIV seria preciso algo entre 40 a 56 injeções — ao custo de US$ 50 por injeção. As injeções são um pouco mais baratas se adquiridas em embalagens de 3 ou 5 unidades.

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Os editores do Health24 tentaram entrar em contato com os fornecedores, sem sucesso, o que sugere que seu mercado na Europa ainda não está particularmente bem estabelecido.

Aqueles que não estão familiarizados com a Coreia do Norte podem achar este tipo de declaração bastante surpreendente, mas afirmações bizarras são comuns no curso da dinastia governante do país. Por exemplo, é comumente aceito que os três últimos líderes do regime, Kim Jong-un, Kim Jong-il e Kim Il-sung, nunca defecaram ou urinaram, uma vez que desenvolveram uma fisiologia superior.

O presidente anterior do país, Kim Jong-il, em particular, era propenso a algumas proclamações bastante incríveis, muitas das quais foram “comunicadas” pela mesma agência de notícias que divulgou a notícia da cura do HIV/aids. Algumas das melhores são:

  1. Kim Jong-il poderia controlar o tempo com seu humor.
  2. Apesar de nunca ter jogado golfe, Kim Jong-il um dia pegou um taco e alcançou um recorde mundial de 38 under-par, incluindo 11 hole in one. Em seguida, ele imediatamente se aposentou do golfe.
  3. Seu nascimento causou um arco-íris duplo e uma nova estrela foi criada no céu.
  4. Ele escreveu 1.500 livros durante seus três anos na universidade, bem como seis óperas.
Por Harry Phillips para o Health24 em 11 de setembro de 2015


logo-nature-methodsEstudo recebido em 21 de junho de 2014 | Aceito em 07 de fevereiro de 2015 | Publicado em 09 de março 2015 | corrigido em 11 de junho de 2015 | Erratum (setembro de 2015)
Resultados da tomografia de um macaco cronicamente infectado, antes e 5 semanas depois de iniciar a terapia antirretroviral.

A detecção da localização e da dinâmica virais no contexto da infecção pelo HIV controlado continua a ser um desafio, limitado a sangue e biópsias. Nós desenvolvemos um método para capturar a replicação viral do vírus da imunodeficiência símia (SIV) no corpo inteiro, usando o exame immunoPET (tomografia por emissão de pósitrons com alvo em anticorpos). A administração de politereftalato de etileno modificado e um anticorpo específico contra a Gp120 do SIV conduziu a sinais facilmente detectáveis ​​nos tratos gastrointestinais e respiratórios, tecidos linfóides e órgãos reprodutivos dos macacos virêmicos.

Os sinais virais foram menores em macacos tratados com antirretrovirais — avirêmicos — mas detectáveis no cólon, linfonodos seletos, intestino delgado, conchas nasais, trato genital e pulmão. Em controladores de elite, o vírus foi detectado principalmente em focos no intestino delgado, aglumas áreas linfóides e do trato reprodutor masculino, tal como confirmado pelos exames de transcrição reversa quantitativa PCR (qRT-PCR) e histoquímica imune. Este método em tempo real e in vivo de imagem viral tem amplas aplicações para o estudo da patogenia do vírus da imunodeficiência, no desenvolvimento medicamentos de vacinas e potencialmente para e pesquisa médica translacional.

Autores: Philip J Santangelo, Kenneth A Rogers, Chiara Zurla, Emmeline L Blanchard, Sanjeev Gumber, Karen Strait, Fawn Connor-Stroud, David M Schuster, Praveen K Amancha, Jung Joo Hong, Siddappa N Byrareddy, James A Hoxie, Brani Vidakovic, Aftab A Ansari, Eric Hunter & Francois Villinger

Foi em 13 de julho de 1985 que Freddie Mercury e os demais integrantes do Queen — o guitarrista Brian May, o baterista Roger Taylor e o baixista John Deacon — subiram no palco do Wembley Stadium, em Londres. Um público de 72 mil pessoas cantou junto com o vocalista todas as músicas da banda “como se tivessem esperado o dia todo por isso”, escreveu Mikal Gilmore para a revista Rolling Stone.

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“Queen começou e terminou com Freddie Mercury. Ele encarnou a identidade da banda, seus triunfos e fracassos. E era a psique, com cuja perda a banda não poderia sobreviver”, afirmou Gilmore. Neste sábado, 5 de setembro, Freddie faria 69 anos — não tivesse sido levado pela aids, em 24 de novembro de 1991, vítima de broncopneumonia decorrente da doença. Na noite em que Freddie morreu, o músico e amigo Dave Clarke estava ao seu lado, fazendo vigília na cabeceira da cama, logo depois de Mary Austin, ex-namorada de Freddie e sua amiga mais próxima. Também estavam na casa Joe Fanelli, seu amigo, Peter Freestone, seu assistente, e Jim Hutton, seu parceiro. Para o jornal britânico Daily Mail, em 26 de novembro de 1991, Clarke contou que Freddie “apenas adormeceu”.

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“Quando ele foi diagnosticado, apenas um punhado de pessoas sabiam. No começo, nem mesmo a banda sabia. Sua família não sabia.”

“Deixamos Freddie o mais confortável que podíamos”, disse Clarke, numa entrevista concedida em 2011. “Seu quarto tinha uma sala adjacente e uma vista para seu belo jardim. Ele se sentia grato por tudo e por seus amigos.” Clarke e Mercury eram amigos desde que se conheceram, em 1976, depois de um show do Queen no Hyde Park, em Londres. “Freddie me confidenciou muita coisa. Quando ele foi diagnosticado, apenas um punhado de pessoas sabiam. No começo, nem mesmo a banda sabia. Sua família não sabia” — o que não impedia os tabloides de especular, na medida em que sua aparência começou a ser abatida pela aids.

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The Miracle, o 13º álbum do Queen, foi concluído no início de 1989 e o vocalista queria começar a gravar outro disco de imediato — mas, para isso, era preciso justificar aos seus colegas de banda o porquê de tanta pressa. “Ele apenas nos convidou até a sua casa para uma reunião”, contou o baterista, Roger Taylor. Freddie então disse a seus companheiros de banda: “Vocês provavelmente sabem qual é o meu problema. Bem, é isso. Eu não quero que isso faça qualquer diferença. Eu não quero que as pessoas saibam disso. Eu não quero falar sobre isso. Eu só quero trabalhar até cair. E eu gostaria que vocês me apoiassem.” Brian May conta que essa foi a única conversa que tiveram sobre o tema. E que todos ficaram ao lado de Freddie, respeitando o seu sigilo: “Mentimos descaradamente para proteger sua privacidade.”

A banda se deu conta que estava diante de seu último projeto. “Fomos muito conscientes em direção ao fim”, disse Brian. “Por incrível que pareça, havia montes de alegria. Freddie estava com dor, mas dentro do estúdio havia uma espécie de proteção e ele conseguia ser feliz e desfrutar daquilo que gostava e fazia de melhor. Quando não conseguia mais ficar em pé, ele se apoiava contra uma mesa, tomava vodka e dizia: ‘Eu vou cantar até sangrar!'”, conta Brian. “Às vezes, Freddie não era capaz de vocalizar [o que ele queria dizer], e acho que Roger e eu meio que vocalizávamos por ele, escrevendo algumas das letras. Afinal, ele estava quase além do ponto de conseguir colocar seus pensamentos em palavras. Músicas como ‘The Show Must Go On’, no meu caso, e ‘Days of Our Lives’, no caso de Roger, foram presentes que demos para Freddie.” Nessa altura, a gravadora Hollywood Records propôs um videoclipe. Freddie entrou Limestone Studios em 30 de maio de 1991 — a última vez em que esteve na frente de uma câmera.

“Trabalhar o ajudava a ter coragem para enfrentar a doença.”

Depois de Innuendo, Freddie ainda queria continuar a gravar e, se possível, terminar mais um álbum. “Freddie me disse: ‘Escreva para mim… Continue me mandando letras. Eu vou cantar'”, recorda Brian. Essa gravações foram lançadas em 1995, no disco Made in Heaven. “Ele continuou porque era isso o que gostava”, conta Mary Austin. “Trabalhar o ajudava a ter coragem para enfrentar a doença.” Jim Hutton, parceiro de Freddie que esteve com ele no final de sua vida, concordou: “Sem a música, ele não teria sobrevivido.”

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Foi em setembro de 1991, depois de ter gravado o quanto podia, que Freddie Mercury se resguardou em sua casa em Kensington, no distrito do oeste de Londres. Segundo Peter Freestone, ele continuou cauteloso com relação a seus pais e não contou para eles sobre a sua sorologia positiva. “Ele queria protegê-los de coisas que eles não entenderiam ou não aceitariam.” Anos mais tarde, no entanto, sua mãe revelou: “Ele não queria nos machucar, mas nós sabíamos o tempo todo.”

“Freddie tentou de tudo. Ele recebia novos medicamentos especiais, transportados dos Estados Unidos pelo avião [supersônico] Concorde”, contou Clarke. “No fim, quando percebeu que não havia mais alegria, ele decidiu suspender os medicamentos.” Nos últimos dias, já com crises de cegueira, Freddie virou as costas para a maioria das pessoas que queriam visitá-lo. Não queria que vissem a maneira como seu corpo havia se degenerado. Freddie só revelou publicamente sua sorologia positiva um dia antes de morrer, na tarde de 23 de novembro de 1991, quando emitiu uma declaração admitindo sua condição:

“Seguindo as tantas conjecturas da imprensa, gostaria de confirmar que eu testei positivo para o HIV e tenho aids. Senti que era correto manter essas informações privadas, a fim de proteger a privacidade das pessoas à minha volta. No entanto, chegou a hora de meus amigos e fãs ao redor do mundo conhecerem a verdade. Espero que todos se juntem a mim, meus médicos e a todos aqueles de todo o mundo na luta contra esta terrível doença.”

Os amigos próximos disseram que o cantor parecia mais tranquilo depois de sua confissão. Na noite seguinte, Freddie se foi, aos 45 anos de idade.

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“Sempre acreditávamos que haveria uma cura, que ficaríamos bem. Precisava ser assim: tínhamos que manter o pensamento positivo.”

“Freddie amava a vida. Ele viveu em plenitude”, contou Clarke, que acredita que, se Freddie tivesse resistido por mais doze meses, provavelmente teria sobrevivido, graças ao advento da Zalcitabina (ddC), em 1992, o terceiro fármaco aprovado para o tratamento contra o HIV, depois da Didanosina (ddI) e da Zidovudina (AZT). “Sempre acreditávamos que haveria uma cura, que ficaríamos bem. Precisava ser assim: tínhamos que manter o pensamento positivo.” Ao Daily Mail, Clarke também disse acreditar que a próxima geração é a geração que vai vencer o vírus.

“Ele queria viver. Se estivesse por perto ainda hoje, eu tenho certeza que ele estaria se cuidando. E poderia ter dado ainda muito mais para para o mundo.”

“Freddie era maior que a vida. Era muito gentil e carinhoso. Sinto realmente muita falta do seu entusiasmo. Ele tinha um incrível senso de humor e sempre me fazia rir. Ele não levava a vida tão a sério e levantava seu ânimo. Ele queria viver. Se estivesse por perto ainda hoje, eu tenho certeza que ele estaria se cuidando. Freddie era muito orgulhoso. Adorava correr riscos — o que é minha filosofia também. Seu legado vai continuar para sempre. Suas canções e suas gravações são atemporais. Ele era um criador, um revolucionário extraordinário. Ele teria continuado. O que o motivava era a sua obra. Freddie sentia muita dor, mas nunca reclamou uma única vez. Não fazia drama. Não estava triste. Foi muito corajoso. E poderia ter dado ainda muito mais para para o mundo.”


Por Annabelle Liang para Associated Press em 31 de agosto de 2015

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Nesta segunda-feira, dia 31 de agosto, Singapura afirmou ter suspendido a proibição, que vigorava há duas décadas, para pessoas infectadas pelo HIV entrarem no país, mas vai limitar sua estadia para um máximo de três meses. O Ministério da Saúde de Singapura disse que a proibição foi suspensa em 1º de abril, “dado o contexto atual de mais de 5 mil residentes de Singapura vivendo com o HIV e a disponibilidade de tratamento eficaz para a doença.”

“A lista negra de estrangeiros soropositivos foi recomendada no final de 1980, quando a doença era nova, fatal e nenhum tratamento eficaz estava disponível.”

A restrição de três meses é aparentemente destinada a impedir a estadia de longa duração por parte de estrangeiros, incluindo aqueles que procuram trabalhar na nação insular ou acompanhar uma criança estudando em Singapura. “A política de repatriação e a lista negra permanente de estrangeiros soropositivos foi recomendada no final de 1980, quando a doença era nova, fatal e nenhum tratamento eficaz estava disponível”, disse um porta-voz do ministério em uma resposta por e-mail para a Associated Press. Pelas leis de Singapura, o porta-voz não pode ser identificado.

Enquanto uma visita de curta duração “representa um risco adicional muito baixo de transmissão do HIV para a população local”, a proibição de longo prazo permanece como “um risco para a saúde pública que não é insignificante”, disse o porta-voz. Países como Austrália e Nova Zelândia têm restrições semelhantes para visitantes de longo prazo com HIV. Visitantes de curto prazo que vão a Singapura devem obter um Passe de Visita Social, que é válido por duas a quatro semanas, e pode, posteriormente, ser renovado por até três meses. Os portadores desse passe não são autorizados a trabalhar na cidade-estado.

O HIV, o vírus da imunodeficiência humana, ataca o sistema imunológico, tornando mais difícil para o organismo combater infecções. A síndrome da imunodeficiência adquirida (aids, na sigla em inglês) é a etapa final da infecção pelo HIV. Embora não exista cura, os tratamentos, tais como terapia antirretroviral, têm ajudado indivíduos a melhorar seus sistemas imunes, retardando a propagação do vírus.

“Precisamos de um ambiente de apoio que não discrimina uma pessoa porque ele ou ela está infectado pelo HIV.”

Roy Chan, presidente do grupo voluntário local Action for Aids, disse que sua organização saudou a iniciativa como um passo em direção a mais compreensão e aceitação das pessoas infectadas pelo HIV. “Embora as coisas tenham melhorado um pouco, não podemos esquecer que muitos ainda estão sendo convidados a deixar seus empregos e são condenados ao ostracismo por amigos e familiares, por causa da infecção pelo HIV. Muitos ainda sofrem sozinhos e têm problemas em garantir postos de trabalho e seguro de saúde”, disse Chan. “Precisamos de um ambiente de apoio que não discrimina uma pessoa porque ele ou ela está infectado pelo HIV. A revogação da proibição de entrada a curto prazo é um exemplo do que precisamos fazer”, disse ele à Associated Press.

De acordo com dados mais recentes do Ministério da Saúde de Singapura, 6.685 residentes daquele país foram infectados pelo HIV em 2014, em uma população de 5,3 milhões, dos quais 1.737 morreram. O HIV pode ser transmitido através do sangue, gravidez e em relações sexuais com um parceiro infectado. Ele não pode ser transmitido pelo contato social.