Opposites Attract

O estudo australiano Opposites Attract, “Opostos se Atraem” em português, é um estudo “global voltado exclusivamente para explorar uma série de questões importantes relacionadas à transmissão do HIV e à carga viral em casais de homens homossexuais sorodiscordantes. Pesquisas anteriores em casais heterossexuais mostraram que, quando o parceiro soropositivo está em tratamento contra o HIV e tem carga viral indetectável, o risco de transmissão do HIV para o parceiro soronegativo é reduzido em 96%. Agora, a próxima pergunta é: até que ponto esta importante constatação se aplica aos homens gays?”

A pesquisa acompanha a ideia de dois estudos anteriores, o HPTN 052, que acompanhou aproximadamente 1750 casais sorodiscordantes heterossexuais ao longo de 78 semanas, e o Partner, que acompanhou 767 casais sorodiscordantes, alguns dos quais homossexuais, entre setembro de 2010 e novembro de 2013. O HPTN 052 divulgou seus resultados em 2011. O Partner divulgou a análise preliminar de seus resultados em março de 2014. Em ambos os estudos, o casal sorodiscordante tinha o hábito de não usar camisinha consistentemente e o parceiro soropositivo estava sob tratamento antirretroviral. Durante o estudo Partner, os casais tiveram aproximadamente 44 mil atos sexuais sem preservativo. Isso incluiu 13.728 atos de sexo vaginal receptivo, 14.295 atos de sexo vaginal insertivo, 7.738 atos de sexo anal receptivo e 11.749 atos de sexo anal insertivo. Em ambos os estudos, entre os participantes do estudo com carga viral indetectável, não ocorreu qualquer transmissão do HIV.

Agora, chegou a vez do estudo australiano, Opposites Attract. Ele segue em andamento, mas seus dados preliminares foram divulgados ontem, durante a Conference on Retroviruses and Opportunistic Infections (CROI) de 2015. De acordo com ativistas e jornalistas presentes na apresentação, os casais inscritos, homossexuais e sorodiscordantes, praticaram até o momento 6 mil atos de sexo anal desprotegido — em mais 2 mil destes atos os parceiros positivos teriam sido os insertivos. Não ocorreram transmissões do HIV.

“Estes resultados são muito interessantes e parecem espelhar as conclusões de outros estudos internacionais importantes com casais heterossexuais, que forneceram uma forte evidência de que o tratamento como prevenção funciona”, disse o professor Andrew Grulich, pesquisador-chefe do estudo. “Essencialmente, o que estamos vendo entre os casais gays inscritos no Opposites Attract é que a transmissão do HIV é bastante improvável quando a carga viral de alguém é indetectável. Nenhum homem soronegativo no estudo contraiu o HIV de seu parceiro positivo.”

A análise estatística do HPTN 052 e do Partner concluiu que o risco de transmissão do HIV a partir de um parceiro soropositivo, em tratamento e indetectável pode ser reduzida em 96%. A análise estatística do Opposites Attract não foi concluída e, embora os resultados preliminares sejam promissores, os pesquisadores alertam que são necessárias mais evidências para entender melhor o risco envolvido em fazer sexo sem preservativo quando um parceiro soropositivo tem carga viral indetectável.

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Brasil Post

Foi em março de 1985 que a Food and Drug Administration (FDA) licenciou, nos Estados Unidos, o primeiro teste de anticorpos para o HIV, o Elisa. Faz 30 anos. O nome vem do termo em inglês enzyme-linked immunosorbent assay, ou imunoensaio absorvente ligado à enzima, um procedimento que detecta anticorpos ou antígenos numa amostra. No Brasil, esse teste também é chamado de “sorologia para o HIV” ou, mais simplesmente, é o teste de HIV.

No começo da epidemia, antes do desenvolvimento do Elisa para o HIV, o diagnóstico de aids se dava pelo aparecimento de doenças típicas de sistemas imunes deprimidos, senão totalmente devastados, como as lesões na pele causadas por sarcoma de Kaposi. Sem um teste que identificasse a presença do vírus no organismo, ninguém sabia se estava contaminado, se poderia transmitir a doença e se desenvolveria ou não a aids. O alívio que o teste proporciona para quem recebe resultado negativo, claro, nunca foi o mesmo de quem — assim como eu — leu “positivo” no papel do laboratório. Mas naquela época era pior. Receber o diagnóstico nos anos 80, que levava cerca de uma semana para ficar pronto, era uma sentença de morte certa e provavelmente muito sofrida.

“Fazer ou não fazer o teste era uma decisão torturante. A maioria das pessoas entendia que não havia nada que os médicos pudessem fazer para quem era diagnosticado positivo.”

“Fazer ou não fazer o teste era uma decisão torturante, uma vez que a maioria das pessoas entendia que não havia nada que os médicos pudessem fazer para quem era diagnosticado positivo”, lembra Laura Pinsky, assistente social cofundadora do primeiro local de testagem num campus universitário do mundo, em 1985, na Universidade de Columbia, em Nova Iorque, e ainda hoje dirigente da organização Gay Health Advocacy Project (GHAP). Num artigo publicado na Poz Magazine sobre o aniversário do Elisa, ela lembra que a única alternativa que poderia ser oferecida aos diagnosticados positivos era o Bactrim, um antibiótico eficaz contra pneumonia, doença oportunista que tirava a vida de muitos soropositivos. Sem grandes perspectivas de tratamento, muitos preferiam não saber sua condição sorológica para o HIV e, mesmo com o surgimento do Elisa, não faziam o teste.

O surgimento do Elisa permitiu identificar os estoques em bancos de sangue que eram positivos para o HIV e, assim, reduzir o número de infecções decorrentes de transfusões sanguíneas. Foi um passo muito importante porque, naquela altura, 9 mil pessoas haviam contraído o vírus por transfusão de sangue nos Estados Unidos. Entre 1980 e 2001, o Brasil teve 2178 casos notificados de transmissão de HIV por meio de transfusão. Se você também tem mais ou menos a mesma idade que o Elisa, deve se lembrar de Herbert de Souza, o Betinho, hemofílico, contaminado por transfusão. Ele lutava por um tratamento digno para os soropositivos. Faleceu em 1997, por complicações decorrentes da aids.

Em 2014 foram registrados no País apenas dois casos de transmissão por transfusão de sangue. Esse número decresceu acompanhando a melhora na precisão do Elisa. Hoje, um resultado positivo ou negativo num teste de HIV é um resultado seguro, desde que seja respeitado o período chamado de “janela imunológica”. Esse período diz respeito ao tempo entre o contágio, quando o vírus entra no organismo e estabelece a infecção, e o resultado diagnóstico seguro. Uma vez que o Elisa é um teste que detecta anticorpos e antígenos, é preciso que o organismo já tenha reagido à presença do vírus, produzindo os anticorpos contra ele, ou que o antígeno, que nada mais é que um pedacinho do vírus, seja encontrado. Conforme explica meu médico, o infectologista Dr. Esper Kallás, hoje o período da janela imunológica para o teste de HIV é de 30 dias, contados a partir da última relação sexual sem camisinha. (Então, se esqueceu da camisinha no Carnaval, você deve fazer ou repetir o teste de HIV no dia 18 de março.)

Esse período só é maior para quem fez profilaxia pós-exposição (PEP), uma alternativa de prevenção ao HIV após uma possível exposição ao vírus, adotada em casos de estupro, acidentes médicos e laboratoriais com material contaminado ou em alguns casos de falha no uso da camisinha. Consiste no uso de antirretrovirais que devem ser iniciados em até 72 horas a contar da possível exposição e mantidos rigorosamente ao longo de um mês. Nesse caso, os 30 dias da janela imunológica devem ser contados a partir do término da PEP.

“Não adianta aceitar como definitivo o resultado de um teste feito logo após a relação desprotegida”

“Não adianta aceitar como definitivo o resultado de um teste feito logo após a relação desprotegida”, afirma o Dr. Esper. “A quantidade de vírus pode ser insuficiente para apresentar um resultado preciso.” Uma pessoa só pode ser considerada soropositiva ou soronegativa se fizer o teste de HIV respeitando a janela imunológica. Se você fizer o teste antes disso, não é possível ter certeza se tem ou não HIV. Se fizer depois, pode estar plenamente seguro quanto ao resultado — desde que não tenha transado novamente sem camisinha! “Hoje, casos de falsos positivo e negativo são extremamente raros. Representam, em média, menos que 0,1% dos testes, em ambos os casos. Essa taxa é um pouco maior em situações de gravidez, infecção positiva para sífilis ou nos raríssimos casos de doenças reumatológicas e imunes.”

Aids cake

Diferentemente das primeiras décadas de aids, hoje quem recebe um diagnóstico positivo tem uma perspectiva de tratamento muito boa. Claro, não é a mesma coisa do que não ter o vírus. “Ainda há diferenças importantes entre alguém com HIV bem controlado e alguém sem HIV — se não houvesse diferença, nós não estaríamos buscando a cura”, explica o Dr. Joel Gallant, médico que cuida de pacientes com HIV em Santa Fé, Novo México, nos Estados Unidos, e tem um blog em que responde à perguntas de pacientes soropositivos. “Mesmo com o HIV bem controlado, você tem uma condição de saúde que é onerosa de ser tratada, que aumenta a inflamação crônica e a ativação imune. Você ainda tem DNA viral integrado no seu próprio genoma.”

Qualquer pessoa sã que vive com HIV gostaria de viver sem o HIV. Mas é possível, sim, viver muito bem com o vírus, normalmente, de maneira saudável e tomando apenas um comprimido por dia. Esse avanço é resultado da terapia antirretroviral combinada, o “coquetel”, uma das maiores conquistas da medicina na atualidade. “Com o tratamento antirretroviral, que veio em 1996, houve uma revolução. Passamos a ver o controle da multiplicação do vírus e o sistema imune se recuperando. O que parecia ser inexorável, cedeu. As longas filas de macas de pacientes com aids nos prontos-socorros foram reduzindo drasticamente. A qualidade de vida das pessoas que viviam com o vírus voltou”, conta o Dr. Esper.

Com o tratamento, a quantidade de vírus no sangue — chamada de “carga viral” –, que pode chegar aos milhões no começo da infecção, cai para um nível indetectável. Enquanto for mantido o tratamento, o vírus não consegue se multiplicar e morre, persistindo apenas de maneira dormente, inativa, escondido no material genético das células de memória do sistema imune. É o meu caso e de 78% das pessoas que fazem tratamento para o HIV no Brasil: temos carga viral indetectável.

“Do ponto de vista do prognóstico e expectativa de vida, pessoas com carga viral indetectável e contagem normal de CD4 têm mais em comum com soronegativos do que com pessoas com uma infecção não tratada de HIV”

“Do ponto de vista do prognóstico e expectativa de vida, pessoas com carga viral indetectável e contagem normal de CD4 têm mais em comum com soronegativos do que com pessoas com uma infecção não tratada de HIV”, afirma o Dr. Gallant. Sem a presença do vírus no sangue e nos fluídos corporais, o organismo pode restaurar a saúde, restabelecendo as células CD4 do sistema de defesa, as mais afetadas pela infecção do HIV. Nos últimos anos, a expectativa de vida de quem vive com HIV e faz tratamento praticamente se igualou à de pessoas soronegativas. Adultos infectados pelo HIV e que cuidam da saúde têm doenças relacionadas ao envelhecimento em idades semelhantes aos adultos não infectados. Nada disso seria possível sem que as pessoas tomassem consciência da sua saúde, fazendo o teste de HIV.

Hoje, não é preciso mais temer tanto o teste. Pelo menos, não tanto quanto no começo da epidemia. O teste rápido, nacionalizado no Brasil em 2008, permite obter o resultado em minutos. Em breve, o teste rápido por fluído oral, que pode ser feito em casa, deve chegar nas farmácias de todo o País. É preciso ter consciência que fazer o teste é bom para a sua saúde e ajuda a controlar a epidemia no mundo.

Atitude Abril


Beneficiados por incentivo do NIH conseguem matar células infectadas pelo HIV trazidas dos esconderijos

Um dos principais obstáculos para a cura das pessoas infectadas pelo HIV é a forma como o vírus se esconde num reservatório formado principalmente por células imunes e dormentes, chamadas de células T CD4+ de memória. Uma potencial abordagem para curar a infecção pelo HIV é despertar essas células T CD4+ latentes para que elas comecem a produzir as proteínas do HIV. Isto iria alertar ao sistema imune que estas células são infectadas, e, em teoria, gerar uma resposta imune que as mataria. Tem sido pouco claro, no entanto, se os mecanismos imunológicos típicos para matar células infectadas com vírus iriam eliminar as células T CD4+ infectadas com HIV despertadas do reservatório.

Para responder à esta pergunta, o Dr. Robert F. Siliciano, PhD do Instituto Médico Howard Hughes e da Escola de Medicina da Universidade Johns Hopkins, e seus colegas, beneficiados por apoio do NIH, extraíram células imunes e HIV dos reservatórios virais de 25 pessoas infectadas para estudá-las no laboratório e em ratos geneticamente modificados. Dez dessas pessoas tinham começado a terapia antirretroviral precocemente (dentro de 3 meses da infecção) e 15 tinham começado tarde (3 meses ou mais após a infecção). No grupo precoce, os cientistas descobriram que a maioria das células T CD4+ infectadas pelo HIV nos reservatórios virais foram sensíveis à detecção por células T assassinas, as células do sistema imunológico que procuram e destroem células infectadas. Em contraste, quase todo o HIV que infectou as células T CD4+ nos reservatórios do grupo tardio tinham desenvolvido mutações que permitiram que as células T CD4+ infectadas escapassem à detecção das células T assassinas, que normalmente dominam a resposta imunitária à infecção pelo HIV.

Apesar disso, os cientistas descobriram que a maioria das pessoas infectadas pelo HIV no grupo tardio também tiveram outras células T assassinas que reconheceram partes do HIV que não tinham sofrido mutação, mas estas células foram ineficazes em destruir seus alvos. Para aumentar a capacidade de morte destas células, os investigadores estimularam-na com uma mistura de fragmentos de proteína de HIV antes de expô-las à partes não mutadas do vírus. As células impulsionadas eficazmente mataram as células infectadas pelo HIV, tanto no laboratório quanto nos ratos geneticamente modificados para ter sistemas imunes humanos. Isto sugere que uma vacina terapêutica que estimula uma resposta semelhante de célula T para o HIV pode vir a ser parte de uma estratégia para a cura de infecção crônica pelo HIV.


I’m Positive é uma narrativa interativa, intercalada com pequenos e peculiares jogos, com objetivo educacional. Você joga como se fosse um jovem, que descobriu através de uma ex-parceira que ele pode ser soropositivo. Em seguida, você é apresentado à uma séria de alternativas, entre fazer o teste, seguir com o tratamento ou ignorar as circunstâncias. Ao longo do jogo, o jogador aprende questões pertinentes a respeito do HIV, equívocos, testagem, tratamento, revelação da condição sorológca e as consequências de não aderir ao tratamento.

Os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), nos Estados Unidos, estão realizando um estudo sobre a eficácia do jogo, que foi vencedor do prêmio CDC & HHS Games for Health Game Jam 2014. O jogo funciona em Windows, Mac, Linux, iOS e Android e em breve deve ser distribuído.

Joel Gallant
Dr. Joel Gallant

Ser indetectável muda a maneira como falamos sobre a condição sorológica para o HIV? Uma pessoa que vive com HIV e é indetectável pode parar de se preocupar com transmitir o vírus? Num post de Mathew Rodriguez para o The Body, ele lembra que o Dr. Joel Gallant, um médico que cuida de pacientes com HIV no Southwest Care Center, em Santa Fé, Novo México, tem respondido à essas perguntas. Em seu blog, exclusivamente voltado à pessoas que vivem com HIV, um de seus leitores perguntou: “Doutor, li num post anterior que ‘indetectável é o novo negativo’. Você concorda com essa afirmação?”

“Até certo ponto, sim. Do ponto de vista da transmissibilidade, ter uma carga viral indetectável é próximo de ser negativo. E do ponto de vista do prognóstico e expectativa de vida, pessoas com carga viral indetectável e contagem normal de CD4 têm mais em comum com soronegativos do que com pessoas com uma infecção não tratada de HIV.

Mas ainda há diferenças importantes entre alguém com HIV bem controlado e alguém sem HIV — se não houvesse diferença, nós não estaríamos buscando a cura. Mesmo com o HIV bem controlado, você tem uma condição de saúde que é onerosa de ser tratada, que aumenta a inflamação crônica e a ativação imune. Você ainda tem DNA viral integrado no seu próprio genoma. Eu entendo o sentimento que essa afirmativa traz. Mas, mesmo assim, eu não diria que ‘indetectável é o novo negativo.'”
Dr. Joel Gallant

A modelo sul-africana Candice Swanepoel e a marca Mother Denim anunciaram o lançamento de uma coleção que terá parte do lucro revertido para a mothers2mothers, uma ONG que luta pela prevenção da transmissão vertical do HIV. Inspirada nos anos 90, fotografada por Russell James, conhecido como o principal fotógrafo da Victoria’s Secrect, a coleção chega nas lojas em fevereiro.