NIH

Uma única infusão de um poderoso anticorpo, chamado VRC01, pode suprimir o nível de HIV no sangue de pessoas infectadas que não estão tomando terapia antirretroviral, de acordo com relatório de cientistas dos Institutos Nacionais de Saúde (NIH) americano, em um artigo publicado na quarta-feira, 23 de dezembro de 2015. Os pesquisadores também descobriram que infundir o anticorpo VRC01 numa veia ou sob a pele é seguro e bem tolerado por pessoas que vivem com HIV, e os anticorpos permanecem no sangue durante um período prolongado.

O estudo clínico de fase 1, conduzido por cientistas do Centro de Pesquisa de Vacinas do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas (NIAID), envolveu 23 pessoas infectadas pelo HIV, 15 dos quais estavam a tomando antirretrovirais e oito dos quais não estavam. Os indivíduos em tratamento receberam duas infusões de VRC01 em 28 dias de intervalo, e aqueles que não estavam em tratamento receberam uma infusão de anticorpos. Os pesquisadores avaliaram se as infusões de anticorpos eram seguras e se reduziram a quantidade de HIV no plasma sanguíneo (carga viral) ou no interior das células do sangue.

VRC01

Os pesquisadores descobriram que, embora as infusões de anticorpos não tenham reduzido a quantidade de HIV nas células do sangue, elas reduziram a carga viral plasmática em mais de 10 vezes em seis nas oito pessoas que não estavam sob tratamento antirretroviral. Nas duas pessoas neste grupo que começaram o estudo com as menores cargas virais, o anticorpo suprimiu o HIV a níveis extremamente baixos em aproximadamente 3 semanas, enquanto o VRC01 se mantivesse presente no sangue em concentrações terapêuticas. Nas outras quatro pessoas cujos níveis de HIV diminuiu, a carga viral caiu substancialmente, mas não chegou a níveis indetectáveis. Nas duas pessoas que não estavam sob tratamento, a carga viral manteve-se estável com a infusão de anticorpos e, posteriormente, descobriu-se que a cepa de HIV predominante em seus corpos haviam se tornado resistente ao VRC01 logo no início. O anticorpo também não parece ter qualquer efeito em pessoas que tomam antirretrovirais e cujo vírus já foi suprimido.

Vários estudos clínicos em curso no NIAID deverão elucidar melhor o papel potencial dos anticorpos anti-HIV para tratar ou prevenir a infecção pelo HIV.

Artigo: RM Lynch, et al. Virologic effects of broadly neutralizing antibody VRC01 administration during chronic HIV-1 infection. Science Translational Medicine DOI: 10.1126/scitranslmed.aad5752 (2015).

 

 

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Bionor

ABionor Pharma ASA, uma empresa biofarmacêutica comprometida em alcançar uma cura funcional para o HIV, anunciou resultados bem sucedidos da Parte B do estudo clínico Reduc. Nesse estudo, a combinação de VaCC-4x e Romidepsin (Istodax®, Celgene), um agente reversor de latência viral, levou ao controle do HIV reativado e à redução no reservatório viral latente, confirmando e ampliando os resultados positivos da análise interina, anunciada em 4 de maio de 2015.

A Parte B do estudo Reduc inscreveu 20 pacientes. Os dados sobre a carga viral foram obtidos de 17 pacientes e 16 pacientes completaram o estudo. A Bionor sediou nesta segunda-feira, 21 de dezembro de 2015, uma conferência telefônica com CEO David Horn Solomon, que apresentou os resultados e as conclusões. Nessa conferência, os principais pontos abordados foram:

  • O reservatório de HIV latente foi significativamente reduzido, em 40%, medido pela quantidade total de DNA de HIV e por um exame de crescimento viral quantitativo (qVOA, do inglês Quantitative Viral Outgrowth Assay)
  • A carga viral manteve-se abaixo do nível de detecção em 11 dos 17 pacientes em terapia antirretroviral combinada, mesmo com a reativação do reservatório. Quatro pacientes tiveram carga viral mensurável, porém baixa e apenas em uma das três infusões de Romidepsin.
  • O efeito farmacodinâmico do Romidepsin, isto é, a reativação do reservatório de HIV latente, foi confirmado pelo aumento dos níveis de acetilação de histonas e de expressão viral.
  • A combinação de VaCC-4x e Romidepsin se mostrou segura e bem tolerada.

Os resultados criam uma base sólida para um maior avanço da VaCC-4x como elemento central de uma cura funcional para o HIV. Conforme comunicado anteriormente, a Bionor espera iniciar o estudo clínico Bioskill assim que o financiamento for assegurado para sua execução e para concluir o escopo completo do estudo. Até esta data, a Bionor entrou com pedidos de estudos clínicos do Bioskill no Reino Unido, Alemanha e Dinamarca.

“A Bionor está no caminho certo para desenvolver uma cura funcional para o HIV.”

O Dr. David Horn Solomon, presidente e CEO, comentou: “Estou muito animado com os resultados anunciados hoje. Os resultados do estudo Reduc transmitem uma mensagem clara e inequívoca de que é altamente importante avançar ainda mais na combinação de VaCC-4x e Romidepsin em estudos clínicos. Estou especialmente animado pela significativa redução no reservatório latente combinado com o fato de que a maioria dos pacientes foi capaz de controlar a carga viral após a ativação da latência. Com base em nosso trabalho pioneiro e na robusta experiência em desenvolvimento clínico, estou confiante de que o estudo internacional Bioskill, controlado e devidamente sustentado, pode confirmar o papel da VaCC-4x como uma vacina terapêutica contra o HIV e que a Bionor está no caminho certo para desenvolver uma cura funcional para o HIV.”

“Embora nenhum paciente ainda esteja curado como consequência do estudo Reduc, este é um passo no caminho para uma cura do HIV.”

O principal pesquisador do estudo Reduc, professor Lars Østergaard, chefe do Departamento de Doenças Infecciosas do Hospital Universitário Aarhus, na Dinamarca, também expressou entusiasmo com o resultado de teste: “Os resultados do estudo Reduc são altamente animadores e confirmam que estamos no caminho certo em direção a uma cura para o HIV. Existem vários pontos altos no estudo, como a diminuição estatisticamente significativa do reservatório viral, medido pelo total de DNA do HIV, e, mais importante, os dados de segurança a curto prazo altamente aceitáveis. Também é muito positivo o fato de vermos coerência com os resultados provisórios, relatados anteriormente em 2015. Embora nenhum paciente ainda esteja curado como consequência do estudo Reduc, este é um passo no caminho para uma cura do HIV. Mais pesquisa e desenvolvimento com base no princípio de ‘chutar e matar’ são urgentemente necessários.”

VACC-4x

Na Parte B do estudo Reduc, a vacina terapêutica VaCC-4x, de propriedade da Bionor, e o agente reversor de latência Romidepsin, foram explorados como um possível regime de tratamento para reduzir o tamanho do reservatório viral latente em pacientes infectados com HIV e em tratamento antirretroviral, que poderia significativamente contribuir para a cura funcional do HIV. Além disso, a capacidade de controlar a carga viral durante uma interrupção do tratamento antirretroviral foi investigada.

O desfecho primário foi o tamanho do reservatório latente, medido em células T CD4+ através de três exames:

  • Total de DNA do HIV (cópias por 106 células T CD4+);
  • Exame de crescimento viral quantitativo (qVOA) (unidades infecciosas por 106 células T CD4+ de memória em repouso);
  • DNA do HIV integrado (cópias por106 células T CD4+).

Os desfechos secundários foram:

  • RNA do HIV-1 (carga viral);
  • Momento de reiniciação após interrupção do tratamento antirretroviral;
  • Outros desfechos virológicos, imunológicos ou sobre segurança e tolerabilidade secundárias.

Tamanho do reservatório viral

Três diferentes exames foram selecionados para medir o efeito no tamanho do reservatório latente, seguindo as discussões em curso na comunidade científica sobre a melhor forma de estimar o verdadeiro tamanho do reservatório e os efeitos dos tratamentos.

Foi observado um resultado consistente na redução do reservatório latente, medido pelo total de DNA do HIV. Uma redução significativa de 40% (p=0,012) foi obtida e, do mesmo modo, uma redução de 40% (p=0,019) no tamanho do reservatório de HIV latente foi medida por qVOA. Na Parte A do estudo Reduc, na qual os pacientes receberam infusões de Romidepsin sem vacinação com VaCC-4x, o tamanho do reservatório latente não foi afetado.

O DNA total do HIV, por sua vez, é o exame mais usado para estimar o tamanho do reservatório (Rouzioux, C & Richman, D, 2013, ‘How to best measure HIV reservoirs?’ Current Opinion in HIV and Aids 8, 170-175). A aplicação do qVOA em situações de estudos clínicos é um desafio, e, neste estudo, dados acima do limite de detecção foram obtidos para os seis pacientes.

Análises de amostras de DNA para o HIV integrado ainda estão em curso, realizadas por um parceiro externo de pesquisa clínica, e serão apresentadas em um comunicado da empresa no primeiro trimestre de 2016. A Bionor espera que estes dados apoiem as conclusões apresentadas neste anúncio, desde que tenha sido previamente demonstrado que os resultados das análises de DNA do HIV integrado e DNA total do HIV estejam positivamente correlacionados (Eriksson et al, 2013, ‘Comparative Analysis of Measures of Viral Reservoirs in HIV-1 Eradication Studies’,PLOS Pathogens, Fevereiro de 2013, volume 9, 2).

Carga viral

A carga viral (RNA do HIV-1) manteve-se abaixo do limite de detecção (20 cópias/ml) em 11 de 17 pacientes durante todo o estudo, enquanto sob terapia antirretroviral, apesar de uma reativação viral documentada em células T CD4+ após as perfusões de Romidepsin. Dos seis pacientes com carga viral detectável, quatro pacientes apresentaram carga viral mensurável mas baixa de HIV no sangue, após uma das três infusões de Romidepsin, de apenas 21-59 cópias/ml. É importante ressaltar que apenas dois dos 17 pacientes tinham carga viral detectável após cada uma das três infusões de Romidepsin.

Na Parte A do estudo Reduc, o Romidepsin induziu a transcrição do HIV-1, resultando num aumento significativo da carga viral, que foi prontamente detectada em cinco de seis pacientes. Comparando-se os resultados da Parte A e da Parte B do estudo Reduc, vemos que a vacinação com VaCC-4x permitiu o controle do vírus reativado. Estes resultados são cruciais para demonstrar que a VaCC-4x é capaz de induzir o sistema imune a controlar o HIV no sangue após o vírus ter sido ‘chutado’ para fora do seu estado latente por um agente de reversão de latência.

Hora de voltar

O tempo médio reiniciação da terapia antirretroviral após a interrupção do tratamento foi de 24,5 dias, que é semelhante ao que seria de esperar sem qualquer intervenção. Os resultados encontram-se alinhados com um consenso na comunidade científica de que uma combinação de mais do que duas classes de compostos diferentes é provavelmente necessária para alcançar um controle viral de longa duração, na ausência da terapia antirretroviral.

A Bionor antecipa que um terceiro agente capaz de reforçar ainda mais a reatividade imunológica é necessário, como parte de um tratamento combinado para além da VaCC-4x e de um agente de reversão de latência. Estas considerações foram previamente descritas na estratégia de desenvolvimento anunciada pela empresa.

Segurança e tolerabilidade

O tratamento com a VaCC-4x e Romidepsin se mostrou seguro e bem tolerado. Todas as reações adversas foram consistentes com os efeitos secundários conhecidos de qualquer Romidepsin (ou seja: fadiga, náuseas e obstipação) ou VaCC-4x administrados com fator estimulante de colônias de granulócitos e macrófagos (GM-CSF, do inglês granulocyte-macrophage colony-stimulating factor) (ou seja: reações cutâneas locais, fadiga e dor de cabeça).

No total, 141 eventos adversos foram registados, dos quais 43 foram considerados eventos adversos relacionados com a VaCC-4x administrada com GM-CSF e 57 para Romidepsin. Quarenta e um eventos adversos eram não-relacionados e 133 dos eventos adversos foram leves (grau 1) e resolveram-se espontaneamente dentro de alguns dias. Houve alguns eventos adversos de grau 2 e não se observou nenhum evento adverso de grau 3 relacionado com o medicamento.

Outros desfechos virológicos e imunológicos secundários

Desfechos virológicos e imunológicos secundários adicionais, como o exame de formação imunoenzimática (ELISPOT, do inglês Enzyme-Linked ImmunoSpot), proliferação, título de anticorpos para para péptidos da VaCC-4x e p24, e mudança no título de anticorpos para C5 ainda estão sendo analisados e serão apresentados no relatório final do estudo.

Plano de desenvolvimento a longo prazo e próximos passos

É animador o fato da abordagem clínica de “chutar e matar” da Bionor  ter reduzido o reservatório latente em 40%, enquanto os pacientes estavam em terapia antirretroviral, e o fato da carga viral ter-se mantido abaixo do nível de detecção na maioria dos pacientes. Enquanto a redução observada no reservatório latente pode não ser suficiente para manter o controle viral a longo prazo, na ausência de antirretrovirais, os novos achados no estudo Reduc são considerados pela empresa, bem como pelos pesquisadores, como um importante avanço clínico na busca por uma cura funcional para o HIV.

Agora, a Bionor está planejando Bioskill, um estudo clínico de Fase 2, randomizado, duplo cego e controlado por placebo, como o próximo passo no desenvolvimento de uma cura funcional para o HIV. O desfecho primário será observar a carga viral sob terapia antirretroviral após cada uma das três infusões Romidepsin em pacientes tratados com VaCC-4x, em comparação com pacientes tratados com placebo. Desfechos virológicos e imunológicos secundários a serem observados incluem medições do tamanho do reservatório latente, contagens de células CD4+ e CD8+, entre outros parâmetros imunológicos. A correlação entre os níveis de anti-C5/anti-gp41 e a capacidade de controlar o vírus no sangue dos pacientes também serão avaliadas. O estudo Bioskill não incluirá interrupção do tratamento antirretroviral.

Como parte de seu programa clínico, a Bionor pretende realizar dois estudos clínicos exploratórios em paralelo ao Bioskill, a fim de selecionar os componentes ideais num regime de associação, incluindo: 1) a avaliação de um terceiro agente apropriado, destinado a melhorar ainda mais a resposta imune em relação ao HIV, e 2) um agente de reversão de latência com uma rota de administração mais conveniente do que o que é atualmente possível com o Romidepsin (que é de perfusão intravenosa).

A empresa espera que a conclusão da prova de conceito do estudo clínico do Bioskill e os dois estudos clínicos exploratórios menores irão fornecer a base para a execução de um estudo clínico subsequente de Fase 2 de um regime triplo para uma cura funcional do HIV, com a VaCC-4x em seu centro. A conclusão bem sucedida deste estudo clínico é esperada pela empresa para levar a iniciação de um programa clínico de Fase 3 e de um produto para aprovação regulatória.

Histórico

O objetivo do estudo Reduc era abordar um dos temas centrais no manejo clínico da infecção pelo HIV, que é o fato de algumas células infectadas pelo HIV permanecerem escondidas em reservatórios latentes. Os reservatórios de HIV não são afetados pela medicação convencional e são invisíveis para o sistema imunológico. Os inibidores de histona desacetilase (HDACi) têm o potencial para ativar (“chutar”) estas células latentes infectadas para fazê-las produzir o vírus. Este “choque” faz com que as células infectadas pelo HIV se tornem visíveis para o sistema imunológico. Então, as respostas imunes geradas pela VaCC-4x podem ser capazes de atacar e eliminar (“matar”) estas células infectadas.

O Reduc (“Segurança e eficácia do inibidor de histona desacetilase Romidepsin e vacina a terapêutica VaCC-4x para a redução do reservatório latente de HIV-1”, NCT02092116) foi um estudo aberto clínico de Fase 1b e 2A para avaliar a segurança e o efeito da terapêutico da imunização contra o HIV usando a VaCC-4x (administrada com GM-CSF como adjuvante) e com a reativação do HIV usando Romidepsin, sobre o reservatório viral em supressão virológica, em adultos infectados pelo HIV em tratamento antirretroviral. O estudo foi conduzido num único centro, no Hospital Universitário Aarhus, na Dinamarca. No total, 26 pacientes foram recrutados a partir de março de 2014, seis dos quais participaram da Parte A e 20 dos quais participaram da Parte B.

A Parte A do Reduc relatou resultados positivos em maio de 2014 e atraiu a atenção significativa em julho de 2014, em uma conferência da Sociedade Internacional de Aids (IAS), em Melbourne, na Austrália. A Parte A foi publicada na revista científica PLoS Pathogens, em setembro de 2015.

Na Parte B do estudo Reduc, 20 pacientes receberam imunizações de VaCC-4x (administrados com GM-CSF como adjuvante). Três semanas após a última imunização, o tratamento com Romidepsin foi iniciado em três doses de 5 mg/m², administrada durante três semanas. Depois de um período de acompanhamento de oito semanas, a interrupção do tratamento antirretroviral de até 16 semanas foi planejada para avaliar a eficácia do regime de tratamento para o controle da carga viral na ausência de antirretrovirais. Os dados sobre a carga viral foram obtidos de 17 pacientes e 16 pacientes completaram o estudo.

A VaCC-4x é uma vacina terapêutica de propriedade da empresa Bionor, que contém quatro análogos sintéticos de péptidos p24 contra o HIV. Em estudos clínicos anteriores, a VaCC-4x demonstrou uma redução significativa da carga viral do HIV e uma resposta imunitária de longo prazo em pacientes infectados. A VaCC-4x foi concebida para induzir uma resposta imunitária baseada na geração de células T capazes de reconhecer e destruir células infectadas pelo HIV.

Em 2012, o mercado global de HIV gerou receita de aproximadamente $12 bilhões, proveniente da venda de terapias antirretrovirais. Pacientes com HIV tratados com antirretrovirais enfrentam uma vida inteira de comprimidos diários, muitas vezes com efeitos colaterais e implicações para a saúde a longo prazo, incluindo doença cardiovascular, no rim, fígado e problemas ósseos.

Sobre a Bionor

A Bionor Pharma é uma empresa biofarmacêutica norueguesa, comprometida em alcançar a cura funcional do HIV através de sua vacina terapêutica, a VaCC-4x, em combinação com outros medicamentos. A empresa acredita que tem potencial de liderar essa busca, com base em resultados clínicos até esta data e pela rápida aprovação da estratégia clínica agora reconhecida. Em dezembro de 2015, a Bionor relatou resultados positivos do estudo clínico Reduc e está atualmente planejando o Bioskill, um estudo de prova de conceito de Fase 2, que pode vir a ser um divisor de águas na pesquisa da cura do HIV. A Bionor mantém plenos direitos de propriedade da VaCC-4x, ou seja, o potencial de valorização de parcerias ou licenciamento permanece com a empresa. A Bionor está sediada em Oslo, na Noruega, e também tem escritórios em Copenhagen, Dinamarca e em Nova York, nos EUA.

Em 21 de dezembro de 2015 pela assessoria de imprensa da Bionor

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“Meu querido desconhecido,

Há muitas expressões que definem o lugar onde você crê que está nesse momento, tentando se manter firme sobre suas pernas, com seu resultado na mão, pensando, talvez pela primeira vez com a devida seriedade, a respeito do que será da sua vida, do seu futuro como soropositivo.

Fundo do poço? Na lama? Fim da linha? Nada disso. Você ainda não sabe, mas a verdade é que está se preparando para realmente começar a viver. O sofrimento vai passar — deixe passar. Para isso, há que se emagrecer muitos sentimentos ruins para sobreviver ao HIV. Há que se dedicar ao conhecimento para combater ignorância e preconceito. Vão ser muitas idas ao médico, aos laboratórios, às farmácias, ao psicólogo, a grupos de apoio. É uma luta diária que, por enquanto, ainda não tem fim.

Mas a primeira guerra a ser travada é consigo mesmo. Nesse momento, não há ninguém que possa lhe fazer mal maior do que seu apego ao fantasma do passado, de si mesmo quando era soronegativo. Você não é mais essa pessoa. Assim como na natureza, os primeiros momentos de qualquer ser vivo são repletos de medo e angústia, e você se sente preso por inúmeras paredes que agora se construíram à sua frente. Lembre-se: ninguém nasce feliz. A felicidade é um conceito que a gente aprende a querer quando descobrimos que ela está ligada à paz de espírito. Mas existe tal coisa?

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Há muitos conselhos práticos que podem ser repassados nesse momento, mas talvez você não ouça nenhum. Contudo, independentemente se você é gay ou não, a verdade é que você está no armário. E ele é escuro, é silencioso, é frio. A solidão é imprescindível para que se reconheça nesse novo ambiente, mas é preciso buscar a luz. Calma: não é a mesma luz que se via há 30 anos, quando as pessoas ainda morriam por doenças oportunistas decorrentes da infecção pelo vírus. Hoje, não há nenhum túnel para se entrar, mas uma estrada para se percorrer. Um passo de cada vez. Um dia após o outro.

Quando fui à primeira consulta com meu infectologista percebi que seu consultório, aqui em São Paulo, está num prédio vizinho do cemitério da Consolação. Foi muito alegórico, pelo menos para mim, ao chegar ali, compreender que eu tinha duas escolhas: enfrentar meu diagnóstico com a ajuda do meu médico ou virar à esquerda e ir parar no campo-santo. Essa parece ser uma escolha lógica, mas eu entendo o desespero que anda lhe nublando essa visão bem clara do quão bom pode ser o futuro. E é por isso que eu lhe peço: exercite-se! Não apenas com duplo-twist-carpados, zumba ou corridinhas no parque, mas trabalhe esse novo ser que agora carrega uma marca, reconstrua a imagem que você tem de si mesmo, redimensione seus planos, dê um novo significado para seus dias.

Parece muito simples no papel e claramente mais difícil no mundo prático — sim, você tem toda razão. No entanto, esse não foi, não é e não será o único desafio da sua vida. Para cada vez que você pensar em se esconder, conte para um amigo; para cada vez que você acreditar não passar de estatística, tente enxergar mais a sua missão vital; para cada momento de raiva que você tiver, entregue-se nos braços de alguém que lhe ama; para todas as chances que você tiver de se perguntar ‘por que eu?’, lembre-se de tudo aquilo que lhe faz especial; para quando você pensar que está sendo difícil, ajude alguém em situação de dificuldade maior que a sua.

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Com tratamento, o HIV não mata — portanto, a inação é que mata. Nesse sentido, o maior perigo não é o vírus que se reproduz no seu corpo, mas sua atitude em relação à vida. É óbvio que você precisa começar seu tratamento e cumpri-lo feliz. Os remédios são amigos. Por enquanto, não há cura — mas um dia haverá. Por hora, concentre-se em ser uma pessoa melhor, principalmente para si mesmo. De resto, as coisas se resolvem e tudo vai ficar bem. Eu prometo.

Com amor,

F.F.”


Sangamo

A Sangamo BioSciences Inc., líder em edição terapêutica de genoma, anunciou a divulgação dos dados da Fase 2 de dois estudos clínicos da companhia que estão curso, (coorte 3* SB-728-1101 e SB-728-MR-1401) de SB-728-T, que estão sendo desenvolvidos para o controle funcional do HIV/aids. Os dados comparativos preliminares sugerem que a aplicação adenoviral de nucleases de dedo de zinco (ZFNs) em células T pode ter efeito imuno-estimulador único, para o controle da infecção aguda e, mais importante, para a redução do reservatório de HIV.

“Os dados preliminares da Fase 2 sugerem superioridade do produto SB-728-T, o qual foi aplicado às células CD4 e CD8 através de adenovírus, administrado em dois dos três indivíduos tratados inicialmente e fora de terapia antirretroviral há mais de um ano”, afirmou o Dr. Dale Ando, vice-presidente de desenvolvimento terapêutico e diretor médico oficial da Sangamo. “O adenovírus utilizado para entregar os ZFNs de modificação de CCR5 em células-T pode atuar como um ‘adjuvante’, proporcionando estimulação imunológica adicional, além do pré-condicionamento oferecido pelo medicamento Cytoxan (ciclofosfamida), e aumentando a expansão das células CD8, uma vez que são infundidas de volta para o indivíduo. Esta expansão pode aumentar a probabilidade de controle da carga viral, mesmo na ausência da terapia antirretroviral, particularmente em indivíduos infectados pelo HIV que apresentam apenas um repertório limitado de atividade anti-HIV.”

“A proporção de indivíduos tratados que estabeleceram controle da carga viral é impressionante e pode refletir a reprogramação do sistema imunológico.”

“A proporção de indivíduos tratados na coorte 3* com adenovírus modificado que responderam e estabeleceram controle da carga viral mesmo na ausência de terapia antirretroviral é muito impressionante e pode refletir a reprogramação do sistema imunológico”, afirmou o codiretor Pierre Rafick Sekaly, Ph.D.,da CHAR Proteomic e Systems Biology Core do Departamento de Patologia da Case Western Reserve University. “Estes dados sugerem que a Sangamo desenvolveu um produto que pode potencialmente proteger o sistema imunológico, restaurando a homeostase das células T e a função das células T CD4, permitindo assim o controle imunológico durável do HIV pelas células T CD8.”

“A infusão de CCR5 modificado levou à restauração da homeostase de células T, reduzindo o reservatório de HIV ao longo do tempo.”

“A observação do controle funcional em alguns indivíduos da coorte 3* complementa a observação da redução significativa do reservatório de HIV na coorte de não-respondedores imunológicos (estudo SB-728-0902). Neste estudo, a infusão de CCR5 modificado em células T levou à restauração da homeostase de células T e a um subconjunto de células T de memória estaminais resistentes ao HIV, que foram efetivamente diluídas, reduzindo o reservatório de HIV ao longo do tempo”, comentou adiante o Dr. Sekaly.

Os dados demonstram que o SB-728-T produzido usando o RNA mensageiro (mRNA) e a entrega adenoviral de ZFNs para modificar o CCR5 das células T CD4 e CD8 foi seguro e bem tolerado, seguindo um regime Cytoxan. O produto que usa mRNA apresentou maior acumulação de células T CD4, CD8 e de células com CCR5 modificado, em três doses comparadas com 2 doses repetidas, com células modificadas persistindo na circulação. No entanto, os dados preliminares sugerem que a entrega adenoviral pode aumentar a expansão de células CD8 em comparação com a entrega do mRNA. Além disso, uma proporção mais elevada de indivíduos infectados com HIV tratados com o SB-728-T adenoviral alcançaram o controle durável da carga viral durante a interrupção de tratamento antirretroviral, do que aqueles tratados com um produto gerado utilizando entrega de mRNA ou a entrega adenoviral apenas de células CD4. Ambos os métodos de entrega alcançaram níveis semelhantes de CCR5 modificado em células T.

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Os dados preliminares destes dois estudos de Fase 2 foram apresentados pelo Dr. Ando no 7º Workshop Internacional sobre Persistência do HIV Durante a Terapia, considerada a oficina de referência sobre reservatórios de HIV e estratégias de erradicação, que aconteceu em Miami, Flórida, entre 8 a 11 de dezembro de 2015. As análises que exploram o potencial do mecanismo de ação do SB-728-T na redução do reservatório de HIV em pacientes soropositivos não-respondedores imunológicos foram resumidas em uma apresentação feita pelo Dr. Sekaly, intitulada “A Resposta Antiinflamatória e a Cura do HIV”.

Estudos anteriores da Sangamo sobre o ZFP Therapeutic®, produzido usando a entrega adenoviral de ZFNs, utilizaram um produto de SB-728-T retirado de células CD8 e aplicado em células T CD4. Relatórios publicados anteriormente sugeriam que os indivíduos que controlam naturalmente a infecção pelo HIV, os chamados “controladores de elite”, ativam suas células CD8 com baixa expressão de CCR5. Por esta razão, o SB-728-T, avaliado em ambos os estudos descritos nesta apresentação, foi fabricado de forma a conter ambas células T CD4 e CD8 modificadas com ZFNs.

Os estudos compararam dois grupos de pacientes que receberam um tratamento de pré-condicionamento com Cytoxan e doses semelhantes de CD4 e células T CD8 modificadas através de ZFNs para interromper a expressão de CCR5, um co-receptor essencial para a entrada do HIV. Um grupo de indivíduos (coorte 3* SB-728-1101) recebeu uma única dose de células que foram modificadas utilizando ZFNs entregues numa formulação adenoviral, enquanto o segundo grupo (SB-728-MR-1401, n=8) recebeu uma dose equivalente total de células modificadas, distribuídas por dois ou três tratamentos, que tinham sido fabricadas utilizando eletroporação de ZFNs entregue com mRNA. Na coorte 3* foram tratadas quatro pessoas (de um total previsto de oito indivíduos) e três indivíduos completaram o protocolo de 16 semanas com interrupção de tratamento. Ambos os métodos geraram níveis semelhantes de CCR5 em decorrência de ZFNs e ambos os tratamentos se mostraram seguros e bem tolerados. O Cytoxan é um medicamento que é utilizado para reduzir transitoriamente o número de células T no corpo, as quais, em seguida à suspensão do uso do fármaco, repovoam rapidamente — e é neste ambiente de “crescimento” que o SB-728-T é infundido.

“A aplicação adenoviral de ZFNs em células T pode ter efeito imuno-estimulador único para o controle da infecção aguda e para a redução do reservatório de HIV.”

“Já demonstramos anteriormente que a entrega de ZFNs para ambas as células T e células estaminais hematopoiéticas usando mRNA e eletroporação resulta em altos níveis de edição de genoma em escala clínica e continuamos a usar esse método para todos as outras aplicações ex vivo”, afirmou Geoff Nichol, vice-presidente executivo de pesquisa e desenvolvimento da Sangamo. “A aplicação adenoviral de ZFNs em células T pode ter efeito imuno-estimulador único para o controle da infecção aguda e, baseado em estudos anteriores, para a redução do reservatório de HIV. Estamos ansiosos para receber dados adicionais de mais cinco indivíduos da coorte 3* em 2016.”

Resumo dos estudos clínicos

Sobre a coorte 3* do SB-728-1101: O SB-728-1101 é um estudo aberto e multicêntrico, projetado principalmente para avaliar a segurança e tolerabilidade do SB-728-T administrado após pré-condicionamento com ciclofosfamida (Cytoxan), sobre o enxerto, carga viral e contagem total de células T no sangue periférico. Os indivíduos da coorte 3* do estudo foram tratados com uma preparação de um máximo de 40 bilhões de células T CD4 e CD8 modificadas com ZFNs. O estudo utiliza um vetor adenoviral para aplicar os ZFNs em células T isoladas. Quatro semanas após a última infusão de SB-728-T, os indivíduos com contagens de CD4 ≥ 500 células/mm³ são submetidos a 16 semanas de interrupção de tratamento antirretroviral. A terapia antirretroviral é reiniciada em indivíduos cuja contagem de células T CD4 cair e/ou naqueles em que a quantidade de RNA do HIV aumenta para certos níveis pré-definidos. Ao final da interrupção de tratamento, indivíduos com uma carga viral detectável sustentada ou diminuição do número de células T CD4 são restabelecidos ao tratamento antirretroviral. Foram selecionados até oito indivíduos para participar do estudo.

Sobre o SB-728-mR-1401: O SB-728-mR-1401 é um estudo aberto e multicêntrico projetado principalmente para avaliar a segurança, tolerabilidade e os efeitos de doses repetidas de SB-728-T, contendo ambas as células CD4 e CD8 após administração de ciclofosfamida para pré-condicionamento, sobre o enxerto, carga viral e contagem total de CD4 e CD8 no sangue periférico. O estudo usou um novo processo de fabricação, usando eletroporação de mRNA que codifica as ZFNs, em vez de um vetor adenoviral, para entregar os ZFNs em células T isoladas. Este processo permite a repetição da administração do produto. Até oito indivíduos foram inscritos em dois grupos. Cada indivíduo recebeu um total de até 40 bilhões de células T modificadas com ZFNs. O primeiro grupo recebeu esta dose em duas infusões de doses iguais de SB-728mR-T, com 14 dias de intervalo após a administração de 1g de ciclofosfamida para pré-condicionamento, e dois dias antes da primeira infusão de SB-728mR-T. O segundo grupo recebeu três infusões de doses iguais de células. Acredita-se que dividir a dose total de células e a administrar sequencialmente dessa maneira pode maximizar o enxerto total de células. Quatro semanas após a última perfusão de SB-728-MR, os indivíduos com contagens de CD4 ≥ 500 células/mm³ foram submetidos a 16 semanas de interrupção de tratamento antirretroviral. A terapia antirretroviral é reiniciada em indivíduos cuja contagem de células T CD4 cair e/ou naqueles em que a quantidade de RNA do HIV aumenta para certos níveis pré-definidos. Ao final da interrupção de tratamento, indivíduos com uma carga viral detectável sustentada ou diminuição do número de células T CD4 são restabelecidos ao tratamento antirretroviral.

Sobre o SB-728-T: O SB-728-T é um medicamento da Sangamo, gerado pela modificação de gene mediada por ZFNs, que codificam o receptor de CCR5 nas próprias células-T de um paciente. A modificação de ZFNs interrompe a expressão do referido co-receptor, essencial para a entrada do HIV, tornando, assim, as células resistentes à infecção pelo HIV. A abordagem baseia-se na observação de que uma mutação de ocorrência natural no gene CCR5, chamada CCR5 delta-32, fornece proteção contra a infecção pelo HIV. Indivíduos nos quais ambas as cópias do gene CCR5 transportam a mutação delta-32 não são, geralmente, susceptíveis a mais comum a cepa de HIV.

Sobre a Sangamo: A Sangamo BioSciences Inc. está focada em Engineering Genetic CuresTM, que é a engenharia genética para a cura de doenças infecciosas monogênicas, implementando o uso de sua proteína de ligação de DNA no genoma, para edição terapêutica e regulação gênica. A companhia possui um programa clínico de Fase 2 para avaliar a segurança e eficácia do ZFP Therapeutics® para o tratamento de HIV/aids (SB-728). Outros programas terapêuticos da Sangamo estão focados em doenças monogênicas e raras. A empresa formou uma parceria estratégica com a Biogen Inc. para hemoglobinopatias, como anemia falciforme e talassemia beta, e com a Shire International GmbH para desenvolver terapias para a doença de Huntington. Também estabeleceu parcerias estratégicas com empresas para aplicações não terapêuticas de sua tecnologia, incluindo a Dow AgroSciences e Sigma-Aldrich Corporation.

Em 11 de dezembro de 2015 pela assessoria de imprensa da Sangamo. Este comunicado de imprensa pode conter declarações prospectivas baseadas nas atuais expectativas da Sangamo. Essas declarações prospectivas incluem, sem limitação, as referências relacionadas com a pesquisa e desenvolvimento de novas aplicações terapêuticas de tecnologias da Sangamo para o tratamento de HIV/aids, incluindo uma cura funcional potencial para HIV/aids. Os resultados reais podem diferir materialmente destas declarações prospectivas devido a uma série de fatores, incluindo incertezas relativas ao início e à conclusão dos estágios dos estudos clínicos, os quais irão validar e apoiar a tolerabilidade e eficácia destes medicamentos, os desafios tecnológicos e a capacidade da Sangamo para desenvolver produtos comercialmente viáveis. A Sangamo não assume qualquer obrigação de atualizar as informações prospectivas contidas neste comunicado de imprensa.

emilio ribas

“O Instituto de Infectologia Emílio Ribas (IIER), fundado em 1880 com o objetivo de combater a epidemia de varíola que assolava o Estado de São Paulo, à época aberto apenas em tempos de surtos, se consolidou ao longo dos anos como o maior serviço de infectologia da América Latina. Serviu de sentinela e fiel combatente às grandes epidemias como difteria, febre tifóide, peste bubônica, gripe espanhola, sarampo e meningite. Atualmente, é considerado referência nacional e internacional em moléstias infecciosas e principal centro de cuidado e atenção ao paciente que convive com o HIV.

Temos vivido momentos angustiantes no que diz respeito à falta de insumos básicos para o bom atendimento dos pacientes.

O Brasil vive um momento crítico do ponto de vista político e econômico. Historicamente, a saúde pública vem sendo sucateada, culminando com piora importante nos últimos anos e tornando-se inaceitável nos últimos meses. O Emílio Ribas também vem sofrendo. Apesar da tentativa de melhorias na qualidade da infraestrutura, temos vivido momentos angustiantes no que diz respeito à falta de insumos básicos para o bom atendimento dos pacientes. Temos como exemplo a irregularidade do abastecimento da farmácia com drogas fundamentais no manejo de doenças graves, a falta frequente de material essencial para realização de procedimentos e o frequente não funcionamento de exames diagnósticos como ressonância e broncospia. Não bastasse, agora corremos o risco de perder especialistas fundamentais no manejo de doentes graves. Profissionais como ortopedista, endocrinologista e nefrologista, que possuem contrato temporário com o Instituto terão seus contratos encerrados no dia 20/12/2015.

O decreto governamental nº 61.466 de 02/09/2015 suspendeu todas as nomeações do Estado.

Na tentativa de contornar o problema foi realizado concurso público em abril de 2015 para que essas especialidades dessem continuidade ao atendimento. No entanto, com o decreto governamental nº 61.466 de 02/09/2015 que suspendeu todas as nomeações do Estado, esses profissionais não puderam ser contratos. Números significativos de pacientes sairão prejudicados com essa medida. Em um ano, a nefrologia atende mais de 180 pacientes e realiza mais de 1.000 sessões de diálise. Tratam-se de doentes críticos, de alta complexidade, com infecções pelo HIV, choque séptico, meningite, leptospirose e outras. Com a endocrinologia temos cerca de 4.500 consultas por ano. São pacientes com comorbidades metabólicas decorrentes de infecções crônicas pelo HIV ou hepatite que são referenciados ao Emílio Ribas pela expertise desses profissionais. Portanto, estamos em uma corrida contra o tempo para tentar reverter essa decisão.

A Associação Nacional dos Médicos Residentes (ANMR) propôs um pacote de solicitações para a melhoria dos hospitais que oferecem residência médica e dos programas de ensino. Na negativa dos órgãos governamentais responsáveis [incluindo a gestão estadual, representada pelo governador Geraldo Alckmin, e a Secretaria Estadual de Saúde, representada pelo Dr. David Uip], a ANMR optou por iniciar paralisação em âmbito nacional. Nós, Residentes do IIER, após ampla discussão em Assembléia Geral do dia 08/12/2015, optamos por não aderir ao movimento nacional por questões ideológicas e pela urgência de nossos problemas. Caminharemos em paralelo buscando priorizar as questões que colocam em risco iminente a assistência e a vida dos pacientes do nosso serviço. Ademais, considerando:

  • O Regimento Interno da Residência Médica do IIER, Capítulo V — Dos Deveres Dos Médicos Residentes, Art. 34o, que diz: ‘O médico residente deve zelar pelo nome do Instituto de Infectologia Emílio Ribas, por seus equipamentos hospitalares e pela unidade de seu Corpo Clínico e demais recursos humanos.’
  • O Art. 24 do Código de Ética Médica (CEM), que diz: É direito do médico: ‘Suspender suas atividades, individual ou coletivamente, quando a instituição pública ou privada para a qual trabalhe não oferecer condições mínimas para o exercício profissional ou não o remunerar condignamente, ressalvadas as situações de urgência e emergência, devendo comunicar imediatamente sua decisão ao Conselho Regional de Medicina’.

Nos sentimos impelidos a nos manifestar. Estabelecemos, portanto, que [a partir de 08/12/015] permaneceremos em Paralisação Geral dos Médicos Residentes até que se cumpra:

  1. Nomeação imediata dos profissionais já aprovados em Concurso Público, para manutenção do quadro atual de médicos.
  2. Elaboração de planos de manutenção preventiva para os aparelhos de diagnóstico por imagem e de endoscopia/broncoscopia. Considerando ainda:
    • O parecer no 20/2002 do Conselho Federal de Medicina, que diz: ‘A deflagração de movimento paredista por médicos residentes que exercem o seu aprendizado em emergência, urgência, UTIs ou atividades afins deve obedecer o recomendado nas normas e princípios éticos citados, e o número de médicos que irá manter essas atividades em funcionamento, em respeito ao art. 35 do CEM…’
    • Art. 35 do CEM, que diz: ‘Deixar de atender em setores de urgência e emergência, quando for de sua obrigação fazê-lo, colocando em risco a vida de pacientes, mesmo respaldado por decisão majoritária da categoria.’

Garantiremos o atendimento aos pacientes nos setores de urgência e emergência.

Garantiremos o atendimento aos pacientes nos setores de urgência e emergência (Pronto Socorro e Unidade de Terapia Intensiva) com escala mínima de 30% do número de residentes de cada setor. [A distribuição de antirretrovirais não será afetada com a greve. Ela tem ocorrido normalmente em nossa farmácia.] Conforme determinação da COREME deste Instituto, tomada no dia 07/12/2015 em Assembléia Geral Extraordinária, estão suspensas todas as atividades da Residência Médica. Contamos com o apoio de toda a população para que esse grave problema da saúde pública seja resolvido. [Na segunda-feira, 14/12/2015, às 14:30h, acontece um abraço coletivo no Emílio Ribas e uma manifestação com faixas e cartazes.] O Emílio Ribas pede socorro! Não mande embora seu médico!”


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O ritmo do envelhecimento das pessoas que vivem com HIV tem sido um importante tópico de discussão entre os pesquisadores de HIV e, assim, uma das principais causas de preocupação para muitos pacientes soropositivos. Relatórios concluindo que a infecção pelo HIV provoca uma aceleração da nossa caducidade levaram a uma crença de que as pessoas que vivem com o vírus são bombas-relógio metabólicas, com risco acrescido de ataques cardíacos, acidentes vasculares cerebrais, fraturas, demência, fraqueza e outros aspectos ruins do envelhecimentos.

Grande parte do trabalho sobre as relações entre a infecção pelo HIV e os resultados adversos vieram de estudos de coorte, onde a confusão pode ser difícil de se evitar ou de levar em conta. Por exemplo: fatores de risco tradicionais, como tabagismo, uso de crack, ferimentos na cabeça e depressão são mais prevalentes entre as pessoas infectadas pelo HIV e, assim, aumentam as taxas de eventos típicos do envelhecimento. Existem métodos estatísticos para corrigir fatores de confusão conhecidos, contudo alguns desses fatores são menos óbvios e, assim, não são capturado nos inquéritos usados nos estudo e em registros médicos.

A identificação destes fatores de confusão pode explicar a razão das taxas de eventos relacionados ao envelhecimento ser maior para infectados pelo HIV, em comparação com populações não infectadas, mas, por outro lado, pode ser menos capaz de explicar qualquer risco aumentado ao longo do tempo, com a idade. Para resolver esse problema, dois estudos publicados este ano analisaram mudanças nas taxas de eventos em relação a grupos etários, para ver se houve um aumento relativo em pessoas com HIV — um resultado esperado se um efeito cumulativo de inflamação mediada pelo HIV estiver presente.

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O primeiro estudo foi uma análise feita na Dinamarca, que incluiu praticamente todos os seus cidadãos soropositivos em uma coorte longitudinal, a qual tem um registro de saúde robusto de todos os dinamarqueses. Mais de 5.800 casos de infectados pelo HIV foram pareados — por ano de nascimento, sexo e data de entrada em seus respectivos registros — com 53.000 controles populacionais.

Como esperado, a população soropositiva apresentou taxas de doenças associadas ao envelhecimento, incluindo a doença cardiovascular, cânceres associados ao HIV ou tabagismo, transtornos neurocognitivos graves, doença renal crônica, doença hepática crônica e fraturas osteoporóticas em maior excesso e relativos. No entanto, globalmente, os riscos padronizados por idade e relativos para doença cardiovascular, câncer e distúrbios cognitivos não se alteram consideravelmente com o tempo após o diagnóstico ou com o início da terapia antirretroviral. Os riscos padronizados por idade e relativos à doença renal aumentaram, mas estabilizaram após o diagnóstico da infecção pelo HIV. Os autores concluíram:

“Os resultados do nosso estudo não sugerem que o envelhecimento acelerado é um grande problema na população infectada pelo HIV.”

Um outro estudo, chamado U.S. Veterans Aging Cohort Study, também olhou para a idade e os principais eventos associados com o envelhecimento (infarto do miocárdio, doença renal em estágio terminal e cânceres não relacionados à aids) entre 30.564 infectados pelo HIV e comparou a 68.123 não-infectados. Mais uma vez, houve um maior risco nos resultados dos participantes soropositivos, mas eles ocorreram em idades semelhantes aos sem HIV.

Conclusão

Ao contrário do que os primeiros estudos feitos a esse respeito e do que a sabedoria convencional sugerem, essas análises de grandes conjuntos de dados não encontraram provas de envelhecimento acelerado nos indivíduos infectados pelo HIV. Condições associadas com o envelhecimento ocorreram em idades semelhantes, para o soropositivos e soronegativos, e, ao longo do tempo, não havia qualquer evidência de aumento significativo do diferencial de risco para essas doenças.

Claramente, as pessoas soropositivas sofrem de doenças cardiovasculares, cânceres e problemas cognitivos, renais e hepáticos mais do que aqueles sem o vírus. No entanto, enquanto o HIV pode também desempenhar um papel nesta disparidade, os dados acumulados sugerem que a preponderância de fatores de risco tradicionais — incluindo os mais óbvios, como o tabagismo, e os menos mensuráveis, tais como estresse — são os atores principais.

A mensagem para os pacientes deve ser que qualquer niilismo sobre a inevitabilidade do envelhecimento acelerado como conseqüência da infecção pelo HIV é equivocado e que muito do destino de cada um continua a residir em suas próprias mãos. Cuidar da sua qualidade de vida e da adesão aos medicamentos para o HIV é o suficiente para poder percorrer um longo caminho.

dwohl_bioPor David Alain Wohl em 2 de dezembro de 2015 para TheBodyPRO.com. David Alain Wohl é professor associado de medicina na Divisão de Doenças Infecciosas da Universidade da Carolina do Norte e líder local da Unidade de Pesquisas Clínicas da Universidade da Carolina do Norte, em Chapel Hill.

A pesquisadora Marta Rangel, da TV Globo, está procurando personagens para um projeto de série que pode vir a ser exibida no Fantástico e que tem o nome provisório de “Segunda Chance”, inspirada em uma produção da BBC.

Para essa série, a pesquisadora busca por pessoas arrependidas, seja de uma escolha ou de alguma atitude no passado e que agora queira pedir desculpas para “zerar” as pendências da vida. É importante esse personagem estar com muita vontade de se livrar da mágoa e desabafar em frente às câmeras — por isso, é preciso mostrar o rosto. A ideia é promover o reencontro e, quem sabe, a reconciliação das partes envolvidas. Por exemplo:

  • Alguém que transmitiu o vírus HIV para o parceiro ou parceira e não fala mais com ele ou ela.
  • Alguém que terminou o relacionamento quando soube que o parceiro ou parceira era portador do vírus HIV. 

Além de pessoas com esse perfil, o programa também busca por alguém que sacaneou um colega de infância e hoje se arrepende do bullying, ou, ainda, pais, filhos e irmãos que não se falam há muito tempo, por causa de alguma uma briga familiar, por exemplo. Você se encaixa nesse perfil? Se você acha que sim, entre em contato com a Marta Rangel, pesquisadora da TV Globo.

Fantástico_2010-2014_(1)Marta Rangel

pesquisatvglobo@gmail.com

O Fantástico, O Show da Vida é um programa de televisão brasileiro que vai ar aos domingos pela TV Globo. Estreou em 5 de agosto de 1973 e é exibido no formato de revista eletrônica. Atualmente, Tadeu Schmidt e Poliana Abritta apresentam o programa, reprisado pelo canal Globo News. O site do programa disponibiliza grande parte do seu conteúdo.

Fonte: Folha de S. Paulo

A Anvisa — Agência Nacional de Vigilância Sanitária, aprovou, no último dia 20 de novembro, a venda do autoteste de HIV em farmácias, drogarias, postos de medicamentos, serviços de saúde e programas de saúde pública de todo o Brasil, atendendo a pedidos do Departamento de DST/Aids e Hepatites Virais do Ministério da Saúde. Segundo a agência, essa é mais uma arma no combate ao HIV.

“O país passa a ser um dos poucos do mundo a adotar esta estratégia, buscando ampliar o acesso ao diagnóstico, o que configura-se em mais um instrumento para auxiliar no controle da infecção no Brasil.”

Um dos principais objetivos da implementação do autoteste é o impacto na redução da transmissão do vírus e a queda do surgimento de novos casos. Segundo a nota da própria agência:

“O conhecimento do estado de saúde permite melhorar a qualidade de vida das pessoas diagnosticadas e reduzir a probabilidade de transmissão do vírus, auxiliando no controle da infecção pelo HIV.”

A ideia é que esse tipo de testagem possa ser feita por usuários leigos e, por isso, o regulamento estabelece que os produtos deverão conter informações claras que indiquem seu uso seguro e eficaz, incluindo ilustrações com fotografias, desenhos ou diagramas que expliquem como proceder para obter a amostra, executar o teste e ler seu resultado. A norma responsabiliza os produtores no esclarecimento quanto à janela imunológica, que é o intervalo de tempo entre a infecção pelo vírus e a produção de anticorpos no sangue, bem como em orientar a conduta do indivíduo após a realização do teste. O resultado obtido no teste, seja este positivo ou negativo, deverá ser confirmado por um serviço de saúde especializado e em testes laboratoriais. O autoteste não poderá ser utilizado, em hipótese alguma, na seleção de doadores em serviços de coleta de sangue. A Anvisa também estabeleceu que os fabricantes dos testes devem disponibilizar um canal de comunicação telefônico de suporte ao usuário, 24 horas por dia e durante os sete dias da semana.

“1ºde dezembro, o Dia Mundial de Luta Contra a Aids, nunca passa sem notícias incríveis, mas também com algumas narrativas insuportáveis. Fico imaginando como seria se eu, naquela tarde de setembro de 2014, quando resolvi fazer o teste, tivesse lido essas reportagens, mal escritas e preconceituosas, sobre como é conviver com o HIV hoje em dia. Muito provavelmente, teria tanto medo que deixaria para fazer o teste em outra hora. Afinal, estava assintomático — o que eu não sabia é que estava com poucas células CD4 e prestes a desenvolver uma doença oportunista.

‘Há coisas que podem ser feitas e, com tratamento, vocês viverão longas vidas.’

Lembro-me da primeira carta que mandei para você, Jovem, falando com tanto sofrimento sobre como era descobrir ser portador do HIV. Nela, contei da reação violenta que tive frente às profissionais de saúde, quando disseram para mim o resultado do teste rápido. Lembro do suor frio percorrendo todo o corpo, da boca seca, da taquicardia e do apoio insuficiente que recebi dos profissionais. Poucos minutos antes do teste, a assistente social havia desejado que ninguém fosse soropositivo para o HIV, mas o que ela esqueceu de dizer foi: ‘se alguém descobrir que é HIV positivo, não se preocupe demais, pois há muitas coisas que podem ser feitas e, com tratamento, vocês viverão longas vidas.’

Essa última frase rescrevi em minha imaginação, como uma reparação pessoal à profissional do CTA, que foi incapaz de solucionar a contradição interna do próprio corpo dos agentes de saúde e que é resolvida, acredito eu, quase sempre de forma singular pelos pacientes, com muita dor e sentimentos de perda e de luto. Razão que faz com que muitas pessoas hoje não sejam testadas e, diante dessa realidade, não acho nem um pouco condenável que as pessoas fujam dos testes de HIV. É como se furassem nossos dedos e não soubessem nos dizer coisas tão simples, como: ‘sua expectativa de vida permanece intacta, você pode ter filhos, pode viajar para países que antigamente não poderia e, se for mulher, num futuro próximo, além de gestar seus filhos, irá poder amamentá-los também.’

Hoje, me pergunto exatamente isso: por que razão esse ótimo prognóstico é deixado de lado? O que faz de todo o dispositivo de saúde incapaz de acolher essas demandas? Ainda estou tentando saber disso. Não é nem um pouco incomum as pessoas relatarem mudanças substantivas em suas vidas, às vezes, até para a melhor, quando descobrem o HIV.

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Ongina, uma drag queen que participou do programa RuPaul’s Drag Race em sua primeira temporada, disse, certa vez, que depois que o medo da morte foi se tornando medo de outras coisas inerentes a estar viva, ela entendeu que poderia usar isso como um ponto de apoio para desatar grande parte das suas neuroses. Hoje, casada com um rapaz, e vivendo a vida menos como drag queen e mais como designer, ela tem se dedicado a ser porta-voz no combate ao estigma. Inclusive, ocupou esse lugar durante algum tempo, acolhida pela marca de cosméticos M·A·C, onde a venda do batom Viva Glam é integralmente convertida para o combate ao estigma e para financiar o tratamento de HIV/aids.

Hoje, grande parte do que eu entendo fazer parte de ser soropositivo vem e veio de pessoas como estas, incríveis, as quais, anonimamente ou não, usam de suas posições com a finalidade de provocar mudanças no quadro das discursividades disponíveis a respeito da epidemia — como bem coloca a série publicada no blog, com o nome de Literatura pós-coquetel. Talvez, essa coisa que a gente chama de ‘ser soropositivo’ para mim tenha ficado mesmo confusa. Afinal, sou soropositivo para hepatite B, tanto quanto para o HIV. Sou igualmente soropositivo para caxumba, rubéola, catapora, meningite e influenza, de acordo com o meu cartão de vacinação, no qual constata que estou imunizado contra essas doenças.

No campo prático, dos reconhecimentos sociais, nesse curto tempo de ser soropositivo para o HIV, vi (ou li) muitas pessoas ocuparem posições, cargos e funções tão distintas quanto possíveis, de modo que ‘ser soropositivo’ é menos alguma coisa com a qual devamos nos identificar integralmente, do que uma contingência experienciada num mundo micro-orgânico. Tenho inclusive deixado de dizer que estou doente, passando a comunicar para os meus amigos e familiares que eu tenho uma ‘condição crônica de saúde’ e que, uma vez medicado e fazendo os acompanhamentos devidos, posso fazer tudo o que alguém não infectado pelo HIV faz. Inclusive, um imunologista, do qual não vou lembrar o nome, uma vez disse que, assim que o paciente atinge níveis indetectáveis de vírus no sangue, recuperando, posteriormente, seu sistema imune, a fisiologia de quem é soropositivo e soronegativo passa a ser muito, mas muito, similar, funcionalmente apresentando capacidades igualmente satisfatórias no combate a outros patógenos.

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No entanto — e acho que é por isso que te escrevo, Jovem — existem dois lugares hoje ocupados no combate ao HIV: um deles é a manutenção do estado de medo e alerta quanto ao aumento das novas infecções pelo HIV, o outro é a garantia, dos que já se encontram infectados, de que, desde que haja adesão ao tratamento, este iniciado o quanto antes a fim de logo chegar ao indetectável, eles devem e podem seguir com suas vidas. No primeiro caso, o discurso é feito para soronegativos, provocando respostas de medo quando alguém lhes comunica as letras agá, i e vê. O segundo, desfazendo os embaraços da primeira narrativa, convencendo as pessoas infectadas de que elas irão ficar bem. Esse vai-e-vem, que toma lugar sempre que alguém é infectado, me parece ser um tanto complicado, na medida em que exige recursos psíquicos e emocionais que nem todos possuem, a fim de desatar, pelos próprios pacientes, esses furos da propaganda de prevenção ao HIV/aids — contudo, se somos nós que fazemos esse esforço, por qual razão existe uma política de saúde coletiva?

A despeito de considerar imensamente importante a distribuição gratuita dos antirretrovirais para a população, a tarefa é muito maior. Tudo se passa como se nós fôssemos parâmetros para os quais a população não infectada devesse ter como um horizonte negativo, ruim, aquilo que não se deve ser. Isso inclusive se reproduziu em palavras de queridos amigos, os quais, sem saber usar corretamente as palavras, me colocaram num lugar de não desejável, afinal ‘ninguém quer ter isso pro resto da vida.’ De um lado, a estratégia de convencimento de que soronegativos devem se afastar de soropositivos para o HIV e, de outro lado, a reparação de que soropositivos podem viver uma vida tão ordinária e comum como a dos nossos duplos, os soronegativos. No fim das contas, me parece que existe uma má ambiguidade no interior das políticas que produzem modos de sofrimentos tão intensos quanto aquele que eu mesmo produzi, na primeira carta que escrevi para você, Jovem.

Vivemos, literalmente, num outro mundo e as políticas precisam acompanhar esses avanços.

Já no campo das tecnologias médicas, todo esse medo faz com que se produza em mim um curto-circuito cognitivo. Cada vez mais, estamos ocupando lugares antes impossíveis a qualquer homem e mulher diagnosticado positivo para o HIV, como, por exemplo, era o caso nos anos 80. Vivemos, literalmente, num outro mundo e as políticas precisam acompanhar esses avanços, bem no espírito do seu texto Esqueça tudo o que você sabe sobre HIV. Mas como conciliar essas duas coisas tão difíceis: de um lado, uma das epidemias mais mortais da história da humanidade, especialmente durante os anos 80, e, hoje, uma condição crônica, tratável, com um prognóstico em pé de igualdade com soronegativos?

Às vezes, penso que a cura e o desejo para que ela apareça o mais rápido possível não seja para remediar nossos corpos ‘atormentados’ pelo HIV e ‘torturados’ pelos antirretrovirais: estamos vivendo muito bem, obrigado, tendo filhos, namorando, sofrendo, transando, sendo despedidos, sendo contratados, viajando o mundo como nunca antes na história da epidemia. Afora os pequenos riscos que corremos pela inflamação persistente devido à permanência dos reservatórios de RNA pró-viral em nossos linfonodos, pulmões e intestinos, somos como qualquer um. E a indústria farmacêutica, tida como grande vilã por ‘desejar’ que as pessoas fiquem dependentes dos antirretrovirais, está bolando estratégias de uma medicação que baixa para níveis ainda menores nossa inflamação basal. Com antirretrovirais cada vez menos tóxicos, um tratamento eficiente e que minimiza ou mesmo extingue possíveis complicações futuras, por que razão ainda estamos ansiando pela cura, como se estivéssemos presos em uma sala de resultados de teste dos anos 80? Muito trabalho ainda vem por aí, não só dos laboratórios, mas de campanhas que coloquem isso como prioridade.

O que você acha dessa história toda? Como te parece isso? No Dia Mundial de Luta Contra a Aids, me senti confortável em escrever para você querendo saber um pouco mais das suas posições em relação a esse problema.

Um grande abraço,

V.”