Mudança na recomendação para o regime de profilaxia pós-exposição (PEP)

Expert Advisory Group on Aids (EAGA) sugeriu uma mudança na recomendação para o regime de profilaxia pós-exposição de Tenofovir/Emtricitabina com Kaletra para Tenofovir/Emtricitabina com Raltegravir. Além disso, a PEP não é mais recomendada após exposição ocupacional a uma fonte com carga viral indetectável.

Atualização da recomendação de profilaxia pós-exposição (PEP) para o HIV após exposição ocupacional à uma fonte com carga viral indetectável

Na reunião de 23 de outubro de 2013 (EAGA95), o Expert Advisory Group on Aids (EAGA) revisou as evidências sobre o risco de transmissão do HIV a partir de uma fonte sem nível detectável de RNA do HIV em seu plasma sanguíneo. O EAGAtinha anteriormente aconselhado que a PEP para o HIV não fosse recomendada nestas circunstâncias. No entanto, diretrizes publicadas pelo US Public Health Service, em setembro de 2013, recomendavam que a PEP ainda devesse ser oferecida. Todos os detalhes da discussão no EAGA estão disponíveis aqui. O conselho do EAGA está resumido a seguir:

  • situação: exposição ocupacional de um profissional de saúde, por lesão percutânea ou contato mucocutânea, ao sangue ou fluído corporal de um paciente HIV positivo.
  • ação: Depois de avaliar a significância da exposição, o balanço de riscos de transmissão deve ser discutido contra os efeitos colaterais da PEP. Se o paciente (fonte) é conhecido por ter carga viral do HIV indetectável (<200 cópias de RNA do HIV/ml), a PEP não é recomendada. A PEP deve ser oferecida apenas para aqueles que estão ansiosos sobre o risco.

Não há novos dados significativos para mudar o conselho do EAGA. No entanto, o EAGA continua a manter as evidências sempre sob análise. Esta recomendação é baseada na existência de um risco teórico de transmissão, sem qualquer evidência direta; a intervenção (neste caso, a PEP) não é incentivada para um risco extremamente baixo.


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Como sempre, o hábito nos deixa menos impactados pelas coisas habituais. Eu, desde o meu diagnóstico, lutava para recuperar o meu sistema de defesa, a fim de aumentar o número de linfócitos CD4 para níveis saudáveis. Por muito tempo, ficava feliz com bons resultados e incomodado com resultados ruins.

“– Não se preocupe tanto com isso”, já me disse o Dr. Esper. “Hoje sabemos que, mais importante que a contagem de linfócitos, é a relação CD4/CD8. Um número saudável dessa relação já demonstra que sua saúde está recuperada.”

A relação CD4/CD8 é estabelecida pelo número de linfócitos CD4 divido pelo número de linfócitos CD8. E, de fato, há alguns meses, minha relação CD4/CD8 vem se mantendo em 0,9, que é o mínimo considerado saudável. Mesmo assim, é curioso como qualquer valor de referência que vêm junto com o exame do laboratório têm algum impacto. É como se fosse a nota que professora nos dava no primário. Se vem abaixo, é insuficiente e reprova de ano!

Desde o começo, isto é, desde o meu diagnóstico, minha contagem de CD4 foi sempre assim: abaixo do esperado. Todos os meus outros exames superaram a marca do saudável, exceto este. De 255 células por mm³ de sangue no mês do diagnóstico para 213 alguns meses depois, mesmo com carga viral já indetectável. Mesmo sob tratamento, em outubro de 2011 cheguei à 191, o que é tecnicamente considerado aids, pois essa contagem é insuficiente para garantir boa defesa contra alguns patógenos. Foi aí que o doutor sugeriu a troca de um dos medicamentos, o Biovir, que carrega em sua composição o AZT — o primeiro remédio anti-HIV da história da epidemia e que pode, em algumas pessoas, atrasar ou impedir a recuperação do sistema de defesa — por Tenofovir, mais moderno.

Parecia ser o meu caso: feita a troca, meus exames começaram a melhorar! Mas não muito. Nos meses e anos seguintes, minha contagem de CD4 continuou oscilando entre 200 a 350 células por mm³, mesmo sem o AZT, com pontuais exceções em que atingiu a marca dos 450, ainda abaixo do número saudável estabelecido, de pelo menos 500 células. Esse quadro levantou a hipótese de que eu fosse um não-respondedor imunológico — um indivíduo que, mesmo sob tratamento bem sucedido e carga viral suprimida, não têm o sistema imune totalmente recuperado, o que se dá geralmente em virtude de diagnóstico tardio.

Como sempre, todo mal aluno que nunca consegue tirar dez acaba se despreocupando com as notas. E eu passei a não dar mais importância para minha contagem de linfócitos CD4. No último ano, passei a me julgar imune ao impacto emocional dos resultados dos exames sobre mim. Qualquer que fossem seu números, eu não ligava. Exceto neste último exame.

Meus exames em 2014

456, meu recorde! Ainda não é 500, mas eu chego lá. Relação CD4/CD8 em 0,9. E carga viral, como sempre, indetectável.

“Esta é a segunda vez que te escrevo. A primeira, logo após o meu diagnóstico. E hoje, algum tempo depois, percebo que você tinha razão: a minha vida tem sim voltado ao normal.

Seu blog é um espaço distinto em que as pessoas que estão infectadas com o HIV podem respirar um pouco mais tranquilas, graças aos seus valiosos textos e compartilhamentos de informações que nos são muito úteis. As conversas que você tem com o Dr. Esper Kallás são sempre cheias de esperança e trazem conforto para quem está se iniciando nessa nova semântica, de CD4, carga viral, antirretrovirais…

Leio o que você escreve e também tenho, como você relata ter tido, uma voz interna que questiona a validade de todas as pesquisas científicas. Saber disso — que você também sente assim — me fez respirar em alívio. Jovem, eu sei que você não é médico e imagino as limitações que você tem na compreensão da dinâmica do vírus em nossos corpos. Sei também que você se esforça para divulgar e compartilhar essas maravilhosas notícias sobre o HIV e não só isso: produzir uma percepção diferente daqueles que estão tomando os antirretrovirais e estão, como eu, no caminho do indetectável, lutando para que esta possa ser entendida como uma terceira condição sorológica, aceitável pelas pessoas. Concordo com você que nós precisamos de definições úteis. Ainda há muita falta de informação, mesmo entre aqueles que estão infectados com o vírus — o que é uma pena! Parece que há também uma incapacidade de alguns médicos em fazer uma avaliação objetiva sobre o aumento da epidemia em nosso país.

Confesso que fiquei decepcionado com a análise do Dr. Dráuzio Varella, ao dizer que a epidemia aumentou porque as pessoas não tem mais medo da aids. Afinal, eu sempre tive medo do HIV e meus amigos e familiares têm tanto medo que não conseguem nem falar nisso! Quando pratiquei um comportamento de risco, eu simplesmente não achava que iria ser contaminado, não refletia e não conversava sobre isso, nem comigo mesmo. Alguma coisa se passa que as pessoas não conseguem perceber que não é por falta de medo que a epidemia aumenta, mas justamente pelo contrário: temos tanto medo que não fazemos os testes, pois tememos os resultados.

Para diminuir esse medo, talvez o Ministério da Saúde devesse colocar em evidência a gratuidade do acesso aos medicamentos e falar sobre o seu sucesso, atualizando os dados que temos acerca da expectativa de vida e da transmissibilidade. Digo isso porque, quando soube do meu diagnóstico, achei que fosse morrer jovem e achei que fazer sexo com alguém seria pôr a outra pessoa numa roleta russa. Eu era desinformado, mas não sou o único. Por isso, queria te agradecer novamente por oferecer um espaço em que algo diferente seja dito.

Tenho percebido, aos poucos, que ser contaminado por um vírus é uma condição para a qual o próprio vírus se preparou durante anos, no processo de sua escala evolutiva, endereçando seu modo de contaminação a um organismo que é suscetível a tal infecção. Acho que a seleção natural solapa qualquer apreciação moral do que seja o vírus.

Um biólogo evolutivo uma vez disse que, se não dispuséssemos de nenhuma tecnologia, o HIV seria um vírus que habitaria nossos corpos, em um futuro distante, quem sabe daqui 100 mil anos, por um processo que ele chamou de ‘endogenia benigna’, assim como o genoma de vírus ancestrais habitam, ainda hoje, o nosso DNA, fazendo parte de 8% do nosso material genético. Isso é incrível! Não sei se você soube, mas alguns cientistas de Oxford concluíram que, em algumas cidades africanas, o vírus está 10% mais ameno, sustentando a hipótese do biólogo evolutivo. Sei que este não é o caso de todas as cepas de vírus e que a grande maioria delas continua tão ou mais virulenta quanto no passado. Ainda assim, é curioso perceber que, pelo menos uma destas cepas, a fim de contornar alguns sistemas imunes particularmente mais eficientes que os nossos, tem preferido ser menos letal.

Em menos de um século de HIV, os processos naturais, científicos e o tratamento que dispomos hoje já sugerem que o fim da epidemia é possível, pelo menos enquanto hipótese. No entanto, mesmo que tenhamos em mente que esse avanço nos proporciona tanto alívio, me parece que é preciso também que sejamos realistas quanto a situação que enfrentamos: temos uma doença e temos que tomar remédios por toda a vida. Não te assusta ter um horizonte tão determinado à sua frente? Afinal, parece que a nossa luta (dos soropositivos) tem sido poder produzir uma sensação de indeterminação em nossas vidas, talvez, da mesma forma de quando éramos soronegativos. Quando os possíveis já estão todos diante de nós, parece que a vida perde alguma coisa…

Nesse sentido, às vezes me pego preferindo as incertezas. Mantenho um cuidado obsessivo com a alimentação, sob o medo dos hipotéticos riscos do meu futuro, mesmo que estes estejam cada vez mais somente dentro da pior das hipóteses. Talvez, seja a minha voz interna dizendo: ‘não pode ser tão fácil assim!’ Afinal, tenho um médico muito bom e tenho tido uma tolerância boa ao coquetel, assim como a maioria das pessoas, com os efeitos colaterais desaparecendo gradualmente. Enfim, tenho lutado para olhar para o presente e reconhecer que, apesar de ter sido contaminado, tenho a sorte de viver em uma época em que nós não precisamos mais morrer de aids.

Ainda assim, sou daqueles que (ainda) prefere sonhar com uma cura próxima, quem sabe, daqui alguns anos. As pesquisas da vacina francesa, inibidora da proteína TAT, me soam como uma salvação, mesmo racionalmente sabendo que há grandes chances de se tratar apenas de mais uma oportunidade de aprendizado sobre o modo de funcionamento do vírus, do que de sua verdadeira eliminação de nossos corpos. A sugestão de um médico de Miami, que sugere que um outro vírus possa ser a saída para eliminar o próprio HIV, fazendo com que não sejamos mais capazes de produzir as proteínas que se ligam às células virais, bastando, para isso, nos contaminar com esse tipo específico de vírus, também me tem feito sonhar com um futuro, quem sabe, não muito distante. Não temos o direito de querer uma cura definitiva?

Se a cura total não for possível, estou certo que este vírus me fez exercitar capacidades que até então eu desconhecia que tinha. E disso eu não quero retornar. Saber que pude iluminar um lugar obscuro e incerto com as minhas próprias luzes (sem misticismos implícitos) é de grande valor para mim. Ainda assim, acredito que querer a cura esterilizante não seja uma inconformidade, mas um direito legítimo.

Lendo os seus textos, acho que percebi que você tem se esforçado para olhar para a vida exercitando a experiência de êxtase diante do mundo, como se o presente fosse tudo o que podemos realmente ter. Assim como o Buda que, ao ser questionado sobre o significado da vida, pede ao interlocutor que apenas olhe para a flor que segura diante de seus olhos, nós, soropositivos, temos nos esforçado para que a vida seja tomada na sua efetividade concreta, que é a condição presente. Sim, o futuro ninguém pode prever, mas confesso que sinto falta das minhas projeções neuróticas (e, talvez, desejar tanto a cura seja cair nas próprias armadilhas da minha neurose)!

Enfim, Jovem, mais uma vez obrigado pelos seus textos e espero que continue interessado no blog por muito tempo. Temos muito a ganhar com isso.

Um grande abraço.

V.”

Foi publicada ontem no Diário Oficial da União a Portaria nº 1.927, de 10 de dezembro de 2014, pelo Ministério do Trabalho. “Considerando que a Portaria Interministerial nº 869, de 12 de agosto de 1992, proíbe, no âmbito do Serviço Público Federal, a exigência de teste para detecção do vírus de imunodeficiência adquirida – HIV, nos exames pré-admissionais e periódicos de saúde. Considerando a Portaria nº 1.246, de 28 de maio de 2010, do Ministério do Trabalho e Emprego, que proíbe a realização de testes sorológicos de HIV nos exames ocupacionais

a) todos os trabalhadores que atuem sob todas as formas ou modalidades, e em todos os locais de trabalho, incluindo:

I – as pessoas que exercem qualquer emprego ou ocupação;
II – as pessoas em formação, incluindo estagiários e aprendizes;
III – os voluntários;
IV – as pessoas que estão à procura de um emprego e os candidatos a um emprego; e,
V – os trabalhadores despedidos e suspensos do trabalho;

b) todos os setores da atividade econômica, incluindo os setores privado e público e as economias formal e informal; e

c) as forças armadas e os serviços uniformizados.

Art. 3º … Os seguintes princípios gerais devem aplicar-se a todas as ações relativas ao HIV e à Aids no mundo do trabalho:

a) a resposta ao HIV e à Aids deve ser reconhecida como uma contribuição para a concretização dos direitos humanos, das liberdades fundamentais e da igualdade de gênero para todos, incluindo os trabalhadores, suas famílias e dependentes;

b) o HIV e a Aids devem ser reconhecidos e tratados como uma questão que afeta o local de trabalho, a ser incluída entre os elementos essenciais da resposta nacional para a pandemia, com plena participação das organizações de empregadores e de trabalhadores;

c) não pode haver discriminação ou estigmatização dos trabalhadores, em particular as pessoas que buscam e as que se candidatam a um emprego, em razão do seu estado sorológico relativo ao HIV, real ou suposto, ou do fato de pertencerem a regiões do mundo ou a segmentos da população considerados sob maior risco ou maior vulnerabilidade à infecção pelo HIV nenhum trabalhador pode ser obrigado a realizar o teste de HIV ou revelar seu estado sorológico para o HIV.

Art. 15 … Os testes diagnósticos devem ser verdadeiramente voluntários e livres de qualquer coerção, respeitando as diretrizes internacionais em matéria de confidencialidade, aconselhamento e consentimento.

Art. 16 Caracteriza-se como prática discriminatória exigir aos trabalhadores, incluindo os migrantes, às pessoas que procuram emprego e aos candidatos a trabalho, testes para HIV ou quaisquer outras formas de diagnóstico de HIV.

Art. 17 Os resultados dos testes de HIV devem ser confidenciais e não devem comprometer o acesso ao emprego, a estabilidade, a segurança no emprego ou oportunidades para o avanço profissional.

Art. 18 Os trabalhadores, incluindo os migrantes, os desempregados e os candidatos a emprego, não devem ser coagidos a fornecer informações relacionadas ao HIV sobre si mesmos ou outros.

Art. 19 O trânsito dos trabalhadores migrantes ou daqueles que pretendem migrar em função do emprego não deve ser impedido com base no seu status sorológico para o HIV, real ou suposto.

Art. 20 O ambiente de trabalho deve ser seguro e salubre, a fim de prevenir a transmissão do HIV no local de trabalho.

Art. 21 As ações de segurança e saúde destinadas a prevenir a exposição dos trabalhadores ao HIV no trabalho devem incluir precauções universais, medidas de prevenção de riscos e acidentes, tais como medidas relacionadas à organização do trabalho e ao controle de técnicas e práticas de trabalho; equipamentos de proteção individual, quando for apropriado; medidas de controle ambiental e profilaxia pós-exposição; e outras medidas de segurança para minimizar o risco de infecção pelo HIV e a tuberculose, especialmente em profissões de maior risco, como as do setor da saúde.

Art. 22 Quando existir a possibilidade de exposição ao HIV no local de trabalho, os trabalhadores devem receber informação e orientação sobre os modos de transmissão e os procedimentos para evitar a exposição e a infecção.

Art. 23 As medidas de sensibilização devem enfatizar que o HIV não é transmitido por simples contato físico e que a presença de uma pessoa vivendo com HIV não deve ser considerada como uma ameaça no local de trabalho.

Art. 24 As práticas discriminatórias referidas nesta norma são passíveis das sanções previstas na Lei nº 9029, de 13 de abril de 1995. Art. 25. Esta norma entra em vigor na data de sua publicação.”


Adultos infectados pelo HIV têm doenças relacionadas a0 envelhecimento em idades semelhantes aos adultos não infectados

Uma nova pesquisa da Johns Hopkins Bloomberg School of Public Health sugere que adultos infectados pelo HIV estão sob maior risco de sofrer ataques cardíacos, insuficiência renal e câncer. Entretanto, ao contrário do que muitos acreditavam, os pesquisadores dizem que estas doenças estão ocorrendo em idades semelhantes aos adultos que não estão infectados pelo HIV.

Os resultados foram divulgados no mês passado no site da revista Clinical Infectious Diseases. Os pesquisadores dizem que essas descobertas podem ajudar a tranquilizar os pacientes infectados pelo HIV e seus respectivos médicos. “Nós não encontramos provas conclusivas que sugerem que, em infectados pelo HIV, a triagem para essas doenças deva ocorrer em idades mais jovens em comparação com os adultos não infectados”, diz a Dra. Keri N. Althoff, PhD, professora assistente no Departamento de Epidemiologia da Bloomberg School e principal autora do estudo.

Usando dados de 98.687 adultos infectados pelo HIV e não infectados do Veterans Aging Cohort Study entre 1º de abril de 2003 a 31 de dezembro de 2010, os pesquisadores foram capazes de comparar as idades em que cada grupo foi diagnosticado com ataques cardíacos, insuficiência renal e cânceres não relacionados à aids. Althoff e seus colegas descobriram que adultos infectados pelo HIV foram diagnosticados com insuficiência renal, em média, seis meses antes do que o grupo sem HIV. Não foi encontrada uma diferença de idade estatisticamente significante no momento do diagnóstico, entre adultos infectados e não infectados, para ataques cardíacos ou cânceres não relacionados à aids.

O estudo também comparou o risco destas doenças relacionadas à idade em adultos infectados pelo HIV e não infectados. Semelhante aos estudos anteriores, adultos infectados pelo HIV parecem ter um risco maior de sofrer com essas doenças. No entanto, a magnitude do aumento do risco foi menor do que tem sido relatado em muitos dos estudos anteriores, provavelmente devido à capacidade deste estudo em considerar fatores como raça, sexo, obesidade, tabagismo, diabetes e depressão, entre outros, que influenciam o risco tanto em adultos infectados pelo HIV como em não infectados.

Nos primeiros anos da epidemia de aids, o HIV era uma sentença de morte. Mas, nos últimos anos, a terapia antirretroviral (TARV) provou-se altamente eficaz na supressão da replicação viral do HIV e no aumento da longevidade das pessoas com HIV. Um estudo publicado em dezembro de 2013 pela colaboração norte-americana Aids Cohort on Research and Design (NA-ACCORD) mostra que a expectativa de vida entre adultos infectados pelo HIV é apenas alguns anos menor que da população em geral, nos EUA.

Apesar das pessoas infectadas pelo HIV estarem vivendo mais tempo, tem havido um controverso debate nos círculos médicos a respeito do envelhecimento acelerado. As pessoas que vivem com HIV têm exigido um estudo mais rigoroso para saber se isso pode estar acontecendo e, em caso afirmativo, por quais razões.

Ainda assim, o fato destes dados mostrarem que o aparecimento destas três doenças é semelhante entre aqueles com e sem HIV não significa que aqueles com HIV são tão saudáveis quanto, adverte Althoff. “Muitos adultos infectados pelo HIV se setem mais velhos do que a sua idade”, diz ela. “Nosso estudo analisa três importantes doenças relacionadas à idade e nós não encontramos nenhuma diferença significativa na idade no momento do diagnóstico. Mas esta não é a história toda. Precisamos de mais pesquisas para descobrir o que está acontecendo.”

O texto acima é baseado em materiais fornecidos pela Johns Hopkins Bloomberg School of Public Health. Referências: K. N. Althoff, K. A. McGinnis, C. M. Wyatt, M. S. Freiberg, C. Gilbert, K. K. Oursler, D. Rimland, M. C. Rodriguez-Barradas, R. Dubrow, L. S. Park, M. Skanderson, M. S. Shiels, S. J. Gange, K. A. Gebo, A. C. Justice. Comparison of risk and age at diagnosis of myocardial infarction, end-stage renal disease, and non-AIDS-defining cancer in HIV-infected vs uninfected adults. Clinical Infectious Diseases, 2014; DOI: 10.1093/cid/ciu869


Isso Não Vai Acontecer Comigo é o nome de um espetáculo teatral com estreia marcada para abril de 2015. O objetivo magno deste projeto é divulgar, através da linguagem poética da cena, a situação de mulheres – e seus filhos – que se contaminaram com o vírus da aids. Muitos pensam: isso não vai acontecer comigo, mas poucos sabem que basta uma única atitude de risco para que a contaminação aconteça e venha a mudar radicalmente o curso de suas vidas. O projeto é de Marcelo Braga, ator e diretor formado pela EAD – Escola de Arte Dramática, mestre em teatro pela UNESP e doutorando na ECA USP.

Por que é preciso falar de aids? A prevalência da aids no Brasil vem aumentando, em grupos específicos, como o de jovens homossexuais e de mulheres de 13 a 19 anos, o que é motivo de preocupação, como mostram os dados do Boletim Epidemiológico Aids/DST. Outro dado alarmante é que a tendência do crescimento da doença entre o público jovem é mundial. O Relatório do Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/aids mostra que, apenas em 2010, houve mais de 7.000 novas infecções por dia em todo o mundo, das quais 34% entre jovens de 15 a 24 anos. Fica evidente, a partir da análise destes dados, que a conscientização da população, em especial a população feminina e jovem, é extremamente necessária e urgente.

Por que abordar esse tema no teatro? Não resta dúvida de que o problema que cerca a prevenção da aids está relacionado, em grande parte, às atitudes. Ter uma “atitude de risco” aumenta muito as chances de alguém contrair o vírus causador da doença.Parece claro que, para mudar atitudes, ter informações não é suficiente. É necessário transmutar “conhecimentos” em “experiências significativas”. A arte teatral é uma ferramenta muito potente para promover essas experiências transformadoras.

A matéria-prima do Teatro Documentário não é somente a realidade em si, mas também a sua representação. O palco se transforma em espaço de produção de memória social. O Teatro Documentário, mais do que uma prática artística, é uma maneira de pensar o mundo, uma maneira de ver a realidade, uma maneira de se colocar como ser humano em relação à Arte.

O projeto está inscrito em um site de financiamento coletivo, o CATARSE, e está buscando apoiadores e divulgadores para que possa concretizar sua produção. Os apoios podem ser de qualquer valor e, em contrapartida, o apoiador recebe uma série de recompensas que estão listadas na página do projeto.


Brasil Post

Você já parou para se perguntar: por que a epidemia de HIV/aids continua a crescer? Uns dizem que o principal motivo é o comportamento sexual dos jovens, que acham que ninguém mais morre de aids e que, se pegar o vírus, basta tomar “um remédio”. Outros acreditam que o problema é confiar nos parceiros. A imprensa nos lembra dos maquiavélicos soropositivos, que contaminam propositalmente seus parceiros sexuais e, depois, avisam por SMS. Ou os que não avisam e, depois de mortos, fazem mulheres sair correndo de um funeral para fazer o teste de HIV, quando descobriram que o falecido, um jovem “mulherengo”, era portador do vírus. E ainda acham surpreendente o marido que não se infectou ao  “arriscar contrair o vírus HIV” depois de transar com sua esposa, portadora do vírus.

Passaram-se mais de três décadas desde o início da epidemia e, de lá pra cá, muita coisa mudou. A principal mudança veio graças à ciência e à medicina, que desenvolveu e aprimorou os medicamentos antirretrovirais. No começo, eles eram muito tóxicos e causavam severos e até irrecuperáveis efeitos colaterais, incluindo redução da densidade óssea e lipodistrofia, que é o acúmulo e a distribuição desproporcional de gordura pelo corpo. Para piorar, era preciso tomar dezenas de comprimidos, em horários precisos ao longo do dia.

Hoje, é mais simples. Esses mesmos remédios já são combinados numa única dose, que pode ser tomada uma vez ao dia e é muito menos tóxica do que no passado. O Dr. Drauzio Varella está certo ao ter lembrado, ontem no Fantástico, que os antirretrovirais ainda causam efeitos colaterais. Isso é verdade! Eles costumam incomodar, especialmente no início do tratamento. Em geral, isso inclui irritações na pele, diarreia, náusea, vômito e fadiga. No entanto, é verdade também que esses efeitos costumam diminuir bastante ou passar completamente com o tempo. Não fosse verdade, o CDC americano não teria criado a recente campanha de prevenção e tratamento, na qual anuncia: O Tratamento de HIV Funciona”.

 Se o incômodo com o tratamento não passa, é quase sempre possível trocar a combinação de medicamentos, alternando para uma que seja mais adaptável para o organismo de quem está tomando e que não cause qualquer efeito colateral  então, se existe esta alternativa, por que é que ainda se fala tanto nos efeitos colaterais?

Uma das razões é que há um vício em tratar a epidemia de HIV/aids através da mesma história que sempre foi contada, de culpa, medo, dor, tragédia e sofrimento. E não se iluda: isso acontece tanto com quem conta a história, como com quem vive a história. Me lembro que meu primeiro infectologista, Dr. O., insistiu num coquetel de antirretrovirais que me causava dores de barriga, vômitos e diarreias como eu nunca experimentara antes. Durante os quatro meses em que segui o tratamento recomendado pelo doutor, sofri todos os dias, ininterruptamente. Tentei melhorar a situação, mudando toda a minha dieta, mas não funcionou. Cheguei a ser hospitalizado por tanto vomitar e emagreci 15 quilos, não por causa da aids, mas  me perdoe a sinceridade  por tanto defecar! Enquanto isso, o doutor insistia que era para ser assim. E isso não se deu só comigo. Num livro que vai ser publicado em breve, intitulado provisoriamente “Histórias da Aids”, da jornalista Naiara Carmo e do infectologista Artur Timerman, uma das soropositivas entrevistadas lembra que, quando reclamou dos efeitos colaterais que sofria, sua médica sentenciou:

“— Não se cuidou… agora aguenta!”

Por alguma razão, a epidemia de HIV/aids tem essa associação de culpa e punição. É como se o imaginário aterrorizante do vírus tivesse um força gravitacional muito forte, da qual até médicos não escapam, que dirá jornalistas que os entrevistam para cobrir suas matérias. É fácil percebê-lo ao ler as notícias acima. Nenhuma delas de fato checa ou questiona pontos tão fundamentais. Será mesmo que a razão da falta de uso de camisinha entre os jovens vem da ideia de que o HIV está “longe”? Afinal, é importante lembrar que, no Brasil, a tendência de aumento nas taxas de diagnóstico não se concentra apenas entre jovens de 15 a 24 anos, mas também em adultos com 50 anos ou mais, os quais viram o terrível começo da epidemia. Nesse sentido, não seria coerente pensar que todos temos a ideia de que o HIV está distante de nós? E, se isso for verdade, qual a razão dessa sensação de distância? Será que não estamos falando o suficiente sobre HIV? Ou, pior: será que estamos mesmo falando de maneira correta, objetiva e atualizada?

Até quando vamos continuar falando que a razão das contaminações é o excesso de “confiança” no outro? Ninguém mais é adulto e responsável por sua própria saúde? Não é hora de pararmos de falar em “confiar”, vitimizando-nos e apontando o dedo para culpar terceiros, quando a responsabilidade de usar camisinha é, igualmente, das partes envolvidas no ato sexual? Será que já não é hora de fazer jornalismo sério quando o assunto é HIV/aids e, antes de publicar sobre o suposto risco vivido pelo marido que queria engravidar a esposa soropositiva, checar com especialistas e fontes especializadas? O sexo desprotegido entre um soronegativo e uma pessoa soropositiva e indetectável é uma realidade possível e segura, que apresenta risco de transmissão mínimo, senão negligenciável, segundo diversos consensos médicos, como americano, britânico, canadense e sueco. E, uma vez que o tratamento antirretroviral é comprovadamente capaz de reduzir para próximo de zero a transmissibilidade de quem tem HIV, por que não passamos a incluir esse dado tão importante nas notícias deste jornalismo “policial” a respeito daqueles que teriam transmitido o vírus propositalmente a seus parceiros e parceiras? Afinal, se transmitiu, é porque não fazia tratamento e, se não fazia tratamento, essencial para manter-se vivo, é porque há ali um distúrbio psiquiátrico muito grave. Isso não é em nada relevante numa matéria séria?

A imprensa não está sendo objetiva a respeito da epidemia de HIV/aids, perdendo-se em questionamentos antiquados e não trazendo à tona assuntos atuais e importantes. Não é mais tempo de procurar, entre os soropositivos, os monstros transmissores de HIV: segundo a Unaids, “a epidemia de HIV é nutrida pelas infecções por HIV não diagnosticadas e não pelas pessoas que conhecem seu status positivo para o HIV.” O risco de ser contaminado pelo HIV está sabidamente no sexo desprotegido com pessoas de sorologia desconhecida, que não fazem o teste de HIV com frequência e respeitando o período da janela imunológica. Por isso, no resto do mundo, o aumento da oferta de testes e o estímulo ao tratamento antirretroviral de quem eventualmente for diagnosticado positivo tem se mostrado um caminho eficaz, e que tem ganhado grande espaço na mídia.

Se todos fizerem o teste de HIV e se, quem precisar, iniciar o tratamento, a epidemia está controlada, sem a necessidade de causar mais medo e pânico. Enquanto não incluirmos essa mensagem nova e atual em nossas campanhas e nas notícias de jornal, a epidemia de HIV/aids vai continuar a crescer.

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