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Sobre PrEP, camisinha e sexualidade


Quando a Ciência encontra a prevenção, o prazer não fica para trás

Por Mathew Rodriguez para o

Com o auditório praticamente lotado durante a 20ª Conferência Internacional de Aids (Aids 2014), um grupo de palestrantes liderados pelo escritor e ativista Sean Strub, abordaram as mudanças que estão no horizonte da prevenção do HIV — um horizonte que agora inclui camisinha, PrEP (profilaxia pré-exposição), PEP (profilaxia pós-expsoição), escolha de parceiros sexuais com base na condição sorológica [serosorting], escolha de práticas sexuais com base no risco [seropositioning] e provavelmente também microbicidas, entre outras intervenções.

Strub abriu a sessão apontando que a análise do risco inclui tanto o racional — dados científicos que mostram que a camisinha e outras opções de prevenção reduzem vertiginosamente o risco de transmissão do HIV — quanto o irracional, o qual inclui dois importantes componentes: desejo e prazer. Ele lembrou que os fatos que são considerados na análise de risco, a equação que precede o eventual encontro sexual, estão constantemente mudando em decorrência do avanço na sensibilidade oferecida pela camisinha, prevenções biomédicas, tratamento como prevenção (TasP), PrEP, PEP e microbicidas.

Udi Davidovich, pesquisador e professor na Universidade de Amsterdã, cujo trabalho é focado em determinantes sociais para comportamentos de risco diante do HIV e outras infecções sexualmente transmissíveis, lembrou também que a ciência comportamental, embora envolvida com a epidemia de HIV desde seu início, fez pouco em incorporar questões a respeito do prazer nas pesquisas. De acordo com Davidovich, o fato da camisinha ser bastante utilizada por homens gays (estimado entre 60-70% de uso consistente) é um milagre, dado que seu uso antes da epidemia girava em torno de 20%.

Segundo Davidovich, agora a ciência comportamental deveria se dirigir aos 30-40% de homens gays que não fazem uso consistente da camisinha. Recebido com cumprimentos e palmas da plateia, Davidovich lembrou que a sociedade rotulou o sexo mais natural — sem camisinha — como “problemático” e que dedicamos milhares de dólares em pesquisas para entender porque as pessoas estão aderindo a este sexo mais natural disponível, sem camisinha. A ciência comportamental, ele disse, deveria se concentrar em ajudar as pessoas a fazer o sexo que lhe é mais natural. Para em torno de 12% dos homens que fazem sexo com homens (HSH), o uso de camisinha resulta em perda de ereção e inabilidade de terminar o ato de penetração sexual. Com as atuais alternativas de prevenção, Davidovich lembra que o elemento do prazer é “muito importante, pois o ignoramos ao longo dos últimos anos.”

Garrett Prestage, um sociólogo australiano, falou sobre as interpretações que os pesquisadores favorecem quando respondem às questões sobre porque homens gays não usam camisinha. Muitos são rápidos em responsabiliar traumas e auto-estima baixa, enquanto descartam a realidade do desejo e prazer sexual. Prestage disse que, em sua própria pesquisa, é evidente que muitas vezes são homens bem educados, que compreendem os riscos sexuais e suas consequências, que resolvem correr este risco em prol de mais prazer. “Quando confrontados com a oportunidade de sentir prazer, preferem ir em frente e aproveitar o prazer, ao invés de viver com um medo mórbido do sexo”, disse ele.

Sobre as diversas preocupações e críticas a respeito da PrEP, Prestage lembrou que não podemos abandonar a PrEP como estratégia de prevenção do HIV, assim como não abandonamos a camisinha mesmo diante dos eventuais problemas desta estratégia. Segundo ele, o fato de que qualquer intervenção pode apresentar falhas “diz mais a respeito de serviços de saúde e educação do que da capacidade dos homens gays de utilizar estas estratégias.” Ele guardou suas críticas mais duras para aqueles que usam o moralismo velado para demonizar aqueles que estão usando PrEP, especialmente porque aqueles que a utilizam fazem uso de uma opção de prevenção que mais se adequa ao seu desejo de ter um sexo prazeroso e se manter soronegativo. Prestage chamou este moralismo de “anti-científico, anti-sexual e anti-gay” e advertiu contra pesquisadores sociais que não conseguiram enxergar a PrEP como uma ferramenta libertadora para os homens gays que têm vivido com medo de sexo, ao invés de aproveitarem da biomedicalização como prevenção do HIV.

Quando Cecilia Chung, do Transgender Law Center, perguntou aos participantes quantos deles tinham recebido educação sexual trans-inclusiva, apenas cinco ou seis mãos foram levantadas, num auditório com centenas de pessoas. Chung lembrou que em sua cidade, São Francisco, há um tratamento quase universal com bons resultados para aqueles que vivem com HIV. No entanto, mulheres transexuais são comumente deixadas para trás nestes casos de sucesso. Apenas 65% das mulheres transexuais que vivem com HIV em São Francisco estão em tratamento antirretroviral, com apenas 40% de taxa de supressão viral, o que pode indicar que o tratamento não é prioridade na vida delas. Chung afirma que muitas mulheres transexuais que se inscreveram no estudo iPrex (o maior estudo sobre a eficácia da PrEP feito até o momento) abandonaram o estudo porque seus pesquisadores e médicos não estavam bem preparados para lidar com transexuais — que são uma das “populações vulneráveis”. Ela concluiu sua fala apontando que antes de podermos falar sobre prevenção e prazer entre mulheres transexuais, precisamos encorajá-las a falar sobre sexo.

Jessica Whitbread, uma artista e ativista canadense, atualmente Diretora Interina da Comunidade Internacional de Mulheres Vivendo com HIV (ICW, na sigla em inglês) preferiu lançar algumas perguntas instigantes a todos os presentes. Ela lembrou que, como uma mulher soropositiva, a ciência tem grande papel em sua vida sexual e “ajudou minha causa pelo prazer na cama.” No entanto, ela disse, “a ciência fez pouco para desafiar as disparidades de gênero no quarto” e ainda é muito difícil discutir sobre prazer entre mulheres, quando estas mulheres têm grande dificuldade em negociar o uso da camisinha com seus parceiros. Whitbread também pediu que a plateia ponderasse porque todas as práticas sexuais que não incluem pênis (tal como no sexo lésbico), têm recomendação de luvas e protetores bucais, enquanto a atividade sexual masculina é focada exclusivamente em preservativos. “É como se eles não tivessem mãos e bocas!”, disse. Ela terminou sua apresentação com uma pequena crítica à PrEP, reconhecendo seus méritos, mas querendo saber se, nessa encarnação, só vai fazer diferença para homens gays brancos de um certo status social na América do Norte.

A apresentação final foi feita por Sothembiso Promise Mthembu, uma feminista e ativista de direitos humanos da África do Sul, que falou sobre a prevenção do HIV e prazer sob o contexto de direitos humanos para mulheres. Uma vez que grande parte de seu trabalho é focado em direitos humanos, ela enfatizou que o direito ao prazer deve ser aproveitado pelas mulheres, mas isso tem sido negado à todas mulheres no mundo todo. Segundo Mthembu, quando discutimos prazer e sexualidade feminina, não podemos jamais divorciar este assunto das discussões sobre o poder em situações sociais e sexuais.

Num comentário que impressionou bastante o público, Mthembu lembrou que as mensagens de prevenção sobre uso da camisinha são quase sempre focadas no homem, enquanto as mulheres não podem “usar” a camisinha, mas apenas “negociar o seu uso.” Apesar das mulheres terem a opção da camisinha feminina — a qual Jessica Whitbread disse defender, mas, pessoalmente, a usou apenas “um punhado de vezes” –, esta estratégia de prevenção pode frequentemente trazer mais problemas, uma vez que pode sugerir ao homem que a mulher está no controle de seu próprio corpo, algo que muitas vezes é recebido com violência pelo parceiro sexual masculino. Mthembu comentou também sobre as vacinas para HPV como colaboradoras da prevenção do HIV, mas também advertiu contra qualquer abordagem à saúde sexual das mulheres e à prevenção do HIV que fosse “fragmentada”, focada em um único aspecto da saúde da mulher e da sexualidade. Ao invés disso, ela defende uma abordagem holística da saúde sexual e corporal.



O uso de profilaxia pré-exposição, práticas sexuais e incidência de HIV em homens e mulheres transexuais que fazem sexo com homens: um estudo de coorte

Prof Robert M Grant MD a b c Corresponding AuthorEmail Address, Prof Peter L Anderson PharmD d, Vanessa McMahan BSc a, Albert Liu MD b e, K Rivet Amico PhD f, Megha Mehrotra MPH a, Sybil Hosek PhD g, Carlos Mosquera MD h, Martin Casapia MD i, Orlando Montoya j, Susan Buchbinder MD b e, Valdilea G Veloso MD k, Prof Kenneth Mayer MD l, Prof Suwat Chariyalertsak MD m, Prof Linda-Gail Bekker PhD n, Esper G Kallas MD o, Prof Mauro Schechter MD p, Juan Guanira MD h, Lane Bushman BChem d, David N Burns MD q, James F Rooney MD r, Prof David V Glidden PhD b, for the iPrEx study team

Apresentação

O efeito da profilaxia pré-exposição (PrEP) para o HIV depende do uso, adesão e práticas sexuais. Nosso objetivo foi avaliar estes fatores em uma coorte de pessoas soronegativas sob risco de infecção.

Métodos

Em nosso estudo de coorte, os homens e mulheres transexuais que fazem sexo com homens anteriormente inscritos em estudos de PrEP (ATN 082, iPrEx e US Safety Study) foram incluídos numa extensão aberta de 72 semanas. Medimos concentrações da droga no plasma sanguíneo e em gotas de sangue seco em soroconversores a partir de uma amostra aleatória de participantes soronegativos. Avaliamos o uso da PrEP, adesão, práticas sexuais e incidência do HIV. Métodos estatísticos utilizados incluem os modelos de Poisson, a comparação de proporções e equações de etimativas generalizadas.

Descobertas

Foram incluídas 1.603 pessoas soronegativas, das quais 1.225 (76%) receberam PrEP. O uso foi maior entre aqueles que relataram fazer coito anal receptivo sem preservativo (416/519 [81%] vs 809/1084 [75%], p = 0,003) e com evidência sorológica de herpes (612/791 [77%] vs 613/812 [75%], p = 0,03). Dos que receberam PrEP, a incidência do HIV foi de 1,8 infecções por 100 pessoas-ano, em comparação com 2,6 infecções por 100 pessoas-ano naqueles que simultaneamente não escolheram tomar PrEP (HR 0,51, 95% CI 0,26 – 1,01, ajustado para comportamentos sexuais), e 3,9 infecções por 100 pessoas-ano no grupo de recebeu placebo na fase anterior, randomizada, (HR 0,49, 95% CI 0,31 -0,77). Entre aqueles que receberam PrEP, a incidência do HIV foi de 4,7 infecções por 100 pessoas-ano, se droga não foi detectada em gotas de sangue seco, 2,3 infecções por 100 pessoas-ano, se as concentrações de droga sugeria uso inferior a dois comprimidos por semana, 0,6 por 100 pessoas-ano para o uso de dois a três comprimidos por semana, e 0,0 por 100 pessoas-ano para o uso de quatro ou mais comprimidos por semana (p<0,0001). Concentrações da droga da PrEP foram maiores entre as pessoas de idade mais avançada, com maior escolaridade, que relataram não usar camisinha durante o coito anal receptivo, que tiveram mais parceiros sexuais e que tinham histórico de sífilis ou herpes.

Interpretação

O uso da PrEP foi elevado quando disponibilizada gratuitamente pelos provedores. O efeito da PrEP é aumentado por maior uso e adesão durante os períodos de maior risco. Concentrações da droga em gotas de sangue seco estão fortemente correlacionadas com benefício da proteção.

Financiamento

National Institutes of Health dos EUA.

[Para ler o artigo completo, em inglês, clique aqui.]


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4 comentários

  1. A importancia da verdade existe?

    Gostaria de discorrer isso pois é um blog que gera debates positivos. E a meu ver, acompanhando os debates, chego á esquisita constatação de que alguns fatos sugerem que nem no anonimato as pessoas podem ser realmente verdadeiras.

    Li em mais de uma vez : Eu peguei numa situação de risco teórico de 0,0000001% . E não vou contar como— ótimo, mesmo no anonimato, JCS poderia ajudar as pessoas a entenderem risco teorico.

    JS , falo isso como papo sério mesmo. As pessoas se abrem aqui, se expõe mesmo anonima. Muitos estão aqui para proteger seus parceiros em relações sorodiscordantes. Vale a você também.

    Agora, o médico que pegou com uma agulha. Se for braslieiro, ele é realmente a única pessoa na literatura nacional, ele é o documentado. Um FATO é que desde que o hospital das clinicas de SP iniciou triagem e pesquisa na area médica , há 11 anos não existem casos documentados de transmissão por lamina ou agulha no meio médico.

    São 3 fatos que acabam mostrando uma outra coisa. Ou não somos preparados ainda para ajudar as pessoas , ou para expor seriamente condições que ajudem outras pessoas.

    E isso tudo no anonimato de um blog. São 3 casos que interessantemente são simplesmente não comentáveis. E ajudariam sim muitos entendimentos e prevenções.

    Mas o mais extranho é : Me recuso a comentar sobre , porém eu contraí fora das estatisticas médicas.

    Não estaria na hora de ajudar os médicos a entenderem onde estão errando nos comentarios sobre prevenção e transmissão?

    Até e como gosto de fatos e não de opiniões. Fatos fazem o mundo, opiniões criam um mundo pessoal.

    • JCS diz

      Ricardo,

      Como você me citou aí, acho que no mesmo post eu mencionei as circunstâncias da minha infecção, aí veio um sujeito (os trols de plantão) insinuar que sou mentiroso etc. E, sinceramente, não tenho cabeça pra isso. Não preciso (e nem posso) provar nada. Ninguém aqui pode. São apenas depoimentos, quem não achar pertinente que desconsidere. Há os que pregam que existe um exagero em certas práticas preventivas, que não se pega HIV tão fácil assim. Eles têm suas bases. Não existe consenso. Cada um se baseia no que entende como mais consistente.

  2. Dimas diz

    Tive uma relação de risco sendo ativo e descobri no outro dia que meu parceiro e soro positivo , iniciei o pep 12 hs depois da exposição mas não tive muita informação sobre alguém por favor poderia me explicar mais agradeço desde de já

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