Diário
Comentários 29

Depois do acidente, começa a conferência

Brasil Post

Joep Lange (Merlijn Doomernik/Hollandse Hoogte/eyevine)

O virologista holandês Joep Lange, um dos 298 mortos na tragédia do voo da Malaysia Airlines em 17 de julho, dizia: “Por que é que estamos sempre falando sobre o problema da distribuição de medicamentos, quando não há praticamente nenhum lugar na África onde não se pode tomar uma cerveja ou uma Coca-Cola gelada?”

Desde 1990, Lange lutava pela distribuição de medicamentos antirretrovirais em países de baixa renda. Ele também foi um dos responsáveis por estudar a segurança e eficácia da terapia antirretroviral combinada, o “coquetel” com múltiplos medicamentos, que hoje é o padrão de tratamento para HIV/aids. Estudou a resistência do HIV a medicamentos e o papel do tratamento como prevenção (TasP), incluindo a prevenção na transmissão vertical, de mãe para filho. Foi consultor de antirretrovirais para várias empresas farmacêuticas, cofundador do jornal Antiviral Therapy e da HIV Netherlands Australia Thailand Research Collaboration (HIV-NAT), uma rede responsável por 68 estudos clínicos que testaram a viabilidade de fornecimento de medicamentos antirretrovirais para pacientes em países de baixa renda.

No ano 2000, ajudou a lançar a organização sem fins lucrativos PharmAccess Foundation, que começou a levar antirretrovirais para a África subsaariana. Esse projeto começou restrito, mas inovador, distribuindo tratamento para os funcionários de uma fábrica da Heineken, marca holandesa de cervejas que foi uma um das primeiras apoiadoras do PharmAccess, e seus dependentes. O projeto se expandiu, com um fundo que subsidiava planos de saúde que pagavam pelos antirretrovirais para 100 mil pessoas na Nigéria, Tanzânia e Quênia. Entre 2002 e 2004, Lange foi presidente da International Aids Society (IAS).

Charles Boucher, virologista do Centro Médico Erasmus, em Roterdã, contou à revista Nature: “Trabalhei com Lange por 30 anos. Eu o conheço desde a faculdade de medicina. Ele estava um ano à minha frente. Fiz meu doutorado com ele. Eu o vi crescer, de um médico que cuidava de pacientes no início de 1980 para um líder nacional que liderou o nosso país na Europa com o desenvolvimento de novos medicamentos, avaliação de novas drogas e mudando os paradigmas de estudos clínicos. De lá, ele foi para a pesquisa internacional, para a África, onde tornou-se conhecido.”

Além de Joep Lange, a morte de outros cinco passageiros do voo MH17 que participariam de conferência Aids 2014, na Austrália, foi confirmada:

  • Jacqueline van Tongeren, colega de Lange e membro da ArtAids;
  • Glenn Thomas, coordenador de relações públicas da Organização Mundial da Saúde (OMS) em Genebra, Suíça;
  • Lucie van Mens, pioneira na defesa do acesso das mulheres a preservativos femininos e diretora de desenvolvimento da Female Health Company, que fabrica, comercializa e vende estes preservativos;
  • Martine de Schutter, gerente do programa Bridging the Gaps na Aids Fonds, onde trabalhou para tornar o tratamento e a prevenção do HIV acessível a todos;
  • Pim de Kuijer, escritor, ativista político, militante e defensor da organização Stop Aids Now!, empenhada em aumentar a contribuição holandesa na luta contra aids em países em desenvolvimento.

Em 19 de julho, Malaysia Airlines divulgou a lista de passageiros completa. A empresa diz que 192 dos passageiros eram da Holanda, 44 da Malásia, 27 da Austrália, 12 da Indonésia, 10 do Reino Unido, 4 da Bélgica, 4 da Alemanha, 3 das Filipinas, 1 do Canadá e 1 Nova Zelândia.

Em um comunicado, a IAS disse que “continua a trabalhar com as autoridades para esclarecer o impacto da tragédia do voo MH17 da Malaysia Airlines nos participantes da conferência, parceiros de conferência e em nossa comunidade como um todo”. A sociedade também disse que a conferência continua. “Em reconhecimento à dedicação de nossos colegas na luta contra o HIV/aids, a conferência irá adiante, conforme o planejado, e vai incluir oportunidades de reflexão para lembrar aqueles que perdemos.” A conferência começou com todos os participantes de pé, em um minuto de silêncio em homenagem às vítimas do voo MH17.

Um minuto de silêncio na cerimônia de abertura da Aids 2014.

Um dia depois do acidente, foram apresentados na conferência dois casos de pacientes australianos que não apresentam mais sinais do HIV, depois de um transplante de medula óssea para tratar câncer. Eles continuam sob tratamento antirretroviral “por precaução”, segundo o Dr. David Cooper, diretor do Kirby Institute da University of New South Wales em Sidney.

Depois de ouvir falar sobre o caso dos “pacientes de Boston”, dois homens que permaneceram por um longo tempo sem sinais do vírus após um tratamento similar, Cooper conduziu uma pesquisa nos arquivos de um dos maiores centros de transplante de medula óssea da Austrália, a fim de verificar se, por acaso, algum portador do HIV teria feito o transplante nos últimos anos. Encontrou dois casos: o primeiro havia recebido transplante para tratar um linfoma não-Hodgkin, em 2011, e o segundo para leucemia, em 2012.

Assim como no caso dos “pacientes de Boston”, é possível que os dois australianos voltem a apresentar sinais do vírus se interromperem a terapia antirretroviral. Por isso, eles não estão sendo considerados casos de cura e continuam sob a terapia antirretroviral. Entretanto, os resultados atuais mostram que existe uma clara relação entre o transplante de medula óssea e os “reservatórios de HIV”, o lugar onde o vírus se esconde no organismo. “Se conseguirmos entender como isso acontece, vamos acelerar o campo de pesquisa da cura”, afirma Cooper.

Até agora, o único caso de cura do HIV continua sendo o de Timothy Brown, o “paciente de Berlim”, que também fez um transplante de medula, no entanto, a partir de células de um doador naturalmente resistente ao HIV. Ele está há seis anos sem tomar antirretrovirais e não apresenta sinais do vírus. O transplante de medula óssea não é um tratamento viável para se tornar rotina na cura do HIV porque o procedimento apresenta alto risco de mortalidade, em 10%.

image_1393626039

Anúncios

29 comentários

  1. Saulo diz

    Então, me alertem caso eu esteja errado: teoricamente, há sim uma cura, que seria transplante de medula cujo doador seja naturalmente “imune” ao HIV… Correto? Mesmo sendo algo ainda meu “rústico” e por isso bem inviável, acho q essa solução é um grande começo, e não vejo sendo dado o cartaz devido a essa ideia.. Ou talvez esteja sendo dado e eu que não estou bem informado… Mas acho incrível…

    • Mike diz

      Pelo que andei vendo, a terapia genética pode ser uma promessa de cura para o HIV. Pelo que vi seriam alcançados os mesmos resultados e sem a necessidade dessa uma intervenção tão arriscada. Em tese, a terapia genética tornaria o portador imune ao vírus por um tempo que, mesmo que limitado, seria suficiente para que ele não pudesse se replicar e se extinguisse do organismo.

      Longe de ser um entendedor do assunto, sou apenas um curioso. Gostaria que alguém que compreendesse e pudesse elucidar melhor os mecanismos da terapia genética.

      • Larissa diz

        Essa terapia genética tiraria os vírus incubados de dentro das células reservatórios? Mesmo tendo a mutação delta-32 dos receptores de membrana, teriam que eliminar os vírus dessas células. Bom, não entendo muito de engenharia genética, como também não sei se há a possibilidade de promoverem mutação genética nas células de uma pessoa, acredito que isso só seria possível antes do desenvolvimento embrionário, se a engenharia fosse feita para futuros zigotos que venham a ser gerados.

        • No transplante de medula óssea, todo o sistema imune do receptor é suprimido antes do transplante. Como houve uma cura através desse procedimento, supõe-se que o reservatório esteja (em grande parte) nessas células.

          Estudos de engenharia genética de supressão do CCR5 do próprio indivíduo, sem transplante, estão em andamento.

          • Larissa diz

            JS, você sabe de algum documento que mostre os métodos que levaram ao isolamento e caracterização do HIV, segundo as diretrizes/requisitos que o Instituo Pasteur preconiza? O Dr. Esper Kállas, tem acesso a fotografias do vírus isolado, sem qualquer estrutura celular, documentos que atestam que o vírus foi realmente isolado e caracterizado?

    • Larissa diz

      Há a possibilidade de cura caso o doador da medula tenha o receptor CCR5, há alguns casos em que há anos os transplantados não manifestam o vírus, mas ainda tomam ARVS, não manifestam o vírus, mesmo recebendo a doação de alguém que não tem a mutação genética de resistência. Entretanto, não podemos nos iludir com isso, pois transplante de medula óssea é uma coisa séria, não é tão fácil assim, todos esses transplantados tiveram leucemia e não eram portadores saudáveis que, do nada, um cientista resolveu fazer um teste de altíssimo risco, com chances de morte em 40%. Pesquise, se informe, sendo portador ou não, é nossa saúde que está em jogo, a ignorância é uma doença muito mais grave que qualquer vírus. Ainda, a melhor forma é a prevenção, pois não há uma cura aplicável a 35 milhões de portadores que vivem atualmente com esse vírus. Haveria a possibilidade de cura funcional, caso conseguissem substâncias que expulsassem os vírus das células reservatórios e proporcionassem ao sistema imune do portador qualidade o suficiente para que consiga eliminar o vírus da corrente sanguínea. Deveríamos eliminar o vírus, mas só Deus sabe como o HIV veio do SIV, conseguiu essa mutação letal ao ser humano, antes letal, claro. Era para ser um vírus normal, mas a grande problemática é que o HIV, como uma cápsula que armazena um RNA, é inteligente, e se camufla até em neurônios. Se conseguíssemos eliminar os vírus desses reservatórios, basta que os leucócitos resolvam o resto do problema e a cura funcional seria possível. Esperemos que as indústrias farmacêuticas deixem isso acontecer, ou que algum salvador da pátria descubra a substância salvadora.

      • Anderson diz

        AHHHHHHHHH!!! SOCORROOOOOO!!! QUERO UMA VACINA ANTI-LARISSA URGENTEEEEEE!

        • Anderson, oremos….kkkkkkkkkkkk
          O que acha de irmos numa vendinha tomar um pingão?… Melhor do que vacina né?

          • Anderson diz

            Vamos dar um pileque na Larissa, isso sim! Quem sabe ela dorme e dá sossego ?!? kkkk

            • Larissa diz

              Cara, não leia meus comentários, simples assim, não leia e nem precisa negativar, simples assim. Se estou incomodando é porque muito do que eu escrevo tem algum fundamento, pelo contrário, não incomodaria. E ainda bem que o JS é super gente fina e deixa o espaço livre para debates e opiniões contraditórias, ainda bem que o cara é gente fina, diferentemente de muitos que comentam aqui e se acham os donos da razão ao ponto de ninguém mais poder comentar o contraditório. Se liga, cresça!!

    • Larissa diz

      Esperemos que no futuro não criem seres humanos transgênicos ou transumanos, né…Agora é avaliar se essas células serão seguras, ou se serão mais um tiro no escuro, inoculando células modificadas geneticamente que em determinadas circunstâncias poderão promover doenças autoimunes ou destruição de outras células, depois do alvo HIV, um vírus fraco de RNA. E mais uma terapia à venda, viva o mercado do doença.

      • Sérgio diz

        Realmente , eu acho esse lance de modificar células muito complicado. Pode realmente curar o hiv , mais pode levar a uma séria de outros problemas.

      • Anderson diz

        Se alguem clonar a Larissa eu mato!!!! Uma já é demais, imagina um monte delas!!!

  2. Altsan

    é o que esperamos!
    Enquanto isso vamos procurar viver da melhor maneira possível!

    Beijos

Deixe um comentário.

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s