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Uma nova era

Brasil Post“Sem colocar as pessoas em primeiro lugar, sem garantir que as pessoas que vivem afetadas pela epidemia são parte de um novo movimento, a aids não vai ter fim”, diz Michel Sidibé, diretor executivo da Unaids. “Sem uma abordagem humana, não vamos longe na era pós-2015.”

É uma nova era na epidemia de HIV/aids e, para falar sobre ela, precisamos antes concordar num ponto: as pessoas erram, falham. No sexo, transam, às vezes ou sempre, por acidente ou deliberadamente e mesmo cientes dos riscos, sem camisinha. Não fosse verdade, você não estaria aqui neste mundo, lendo esse texto — e, já que está, responda com sinceridade: alguma vez você transou sem camisinha?

As campanhas de saúde nos lembram que sempre devemos usar o preservativo, o qual sempre foi e continua sendo plenamente seguro em prevenir HIV/aids e outras doenças sexualmente transmissíveis (DSTs), além de evitar a gravidez indesejada. Sua segurança já foi testada e comprovada em laboratório. Segundo o Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais do Ministério da Saúde, “os preservativos oferecem 10 mil vezes mais proteção contra o vírus da aids do que a sua não utilização.” Pesquisadores já “esticaram e ampliaram 2 mil vezes o látex do preservativo masculino e não foi encontrado nenhum poro. Em outro estudo que examinou as marcas de camisinha mais utilizadas no mundo, a borracha foi ampliada 30 mil vezes (nível de ampliação que possibilita a visão do HIV) e nenhum exemplar apresentou poros.”

No entanto, as pessoas simplesmente falham em usar a camisinha consistentemente e, com isso, o número de novas infecções de HIV/aids continua a crescer. O vídeo de apresentação da campanha Atitude Abril traz alguns dados sobre essa realidade no Brasil.

 O País representa 2% do número de pessoas vivendo com HIV. Segundo o último relatório da Unaids, há 35 milhões de pessoas vivendo com o vírus no mundo; destes, 19 milhões não sabem da sua condição e, como consequência, nutrem as novas infecções. Não é à toa que, no Brasil, surgiu também a campanha “Fique Sabendo”. As campanhas tradicionais de uso da camisinha não têm sido (mais) capazes de conscientizar a todos sobre a importância do uso do preservativo. Se são capazes, as pessoas mesmo assim não o utilizam. E a nova era no controle da epidemia de HIV/aids no mundo começa com o reconhecimento dessa realidade.

Nessa nova era, começamos a admitir a validade de outros métodos de prevenção, complementares à camisinha. Consensos médicos no Canadá, Estados Unidos e Inglaterra deram os primeiros passos, atualizando suas diretrizes de saúde pública e reconhecendo os resultados de relevantes estudos, como HPTN 052 e Partner, sobre a redução da transmissibilidade do vírus pelo tratamento antirretroviral. Este tratamento é o mesmo que eu e toda pessoa diagnosticada positiva para o HIV deve começar a fazer para cuidar da própria saúde. Ele é capaz de reduzir a carga viral, que é a quantidade de vírus no sangue, a níveis indetectáveis e, como consequência, a transmissibilidade do vírus também é bastante reduzida, funcionando assim como meio de prevenção. Em outras palavras, tal como explica o relatório da Unaids, “além de salvar a vida de pessoas que vivem com HIV, a terapia antirretroviral reduz a transmissão do HIV.”

Os três consensos não descartam a importância da camisinha, mas reconhecem a eficácia do “Tratamento como Prevenção” (ou TasP, do inglês Treatment as Prevention) na falta dela. O consenso canadense é o mais recente deles, publicado em maio deste ano pela Comissão de Infecções Transmissíveis Sexualmente e pelo Sangue (CITSS) do Institut National de Santé Publique du Québec (INSPQ). O documento publicado faz lembrar que o conceito de TasP não é novo. Ele vem desde meados dos anos 90, quando “alguns pesquisadores levantaram a ideia de que, ao controlar a replicação viral, a terapia antirretroviral poderia diminuir o risco de transmissão do HIV. Desde então, uma série de estudos observacionais, um estudo randomizado controlado e uma série de revisões sistemáticas da literatura médica têm destacado o importante papel desempenhado pela carga viral em reduzir o risco de transmissão sexual do HIV.”

Por sua vez, o consenso britânico, publicado em janeiro de 2013 pela British HIV Association (BHIVA) e Expert Advisory Group on Aids (EAGA), afirma que “hoje temos evidência conclusiva de estudos clínicos randomizados sobre casais heterossexuais, nos quais um dos parceiros tem infecção pelo HIV e o outro não, que, se o parceiro soropositivo toma antirretrovirais, a transmissão do HIV através do sexo vaginal é significativamente reduzida (em 96%). A redução na transmissão do HIV observada nos estudos clínicos mostra que a terapia antirretroviral bem-sucedida em pessoas soropositivas pode ser tão eficaz em limitar a transmissão viral quanto o uso consistente do preservativo”, desde que sejam atendidas as seguintes condições:

  • Nenhum dos parceiros deve ter outra DST;
  • A pessoa que vive com HIV deve ter a carga viral indetectável por pelo menos seis meses;
  • A testagem de carga viral deve ser feita regularmente, a cada três ou quatro meses.

Os canadenses vão um pouco mais além e incluem nessa lista a adesão à terapia antirretroviral em pelo menos 95%, acompanhamento e aconselhamento médico do casal a cada três ou quatro meses. Cumpridos estes requisitos, os dois consensos reconhecem que, na falha no uso da camisinha, o risco de transmissão do HIV através de sexo vaginal, oral e anal sem camisinha pode ser “negligenciável” ou “muito baixo”. As autoridades médicas britânicas acreditam que estes termos são melhores do que números, os quais podem ser mal interpretados e, com isso, induzir ao erro.

Já os americanos preferem falar só em números. Os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (ou CDC, do inglês Centers for Disease Control and Prevention), um dos órgãos responsáveis por identificar os primeiros casos de HIV/aids no mundo, publicou um texto em que afirma que o uso da terapia antirretroviral “pode reduzir o risco de uma pessoa infectada pelo HIV transmitir a infecção para outro em até 96%. Com a camisinha e terapia antirretroviral combinadas o risco de contrair HIV através de exposição sexual é reduzido em 99,2%.”

Consensos como estes têm se mostrado fundamentais em traduzir o conhecimento científico, muitas vezes complexo, em mensagens úteis e compreensíveis, que orientam os médicos e a população no cuidado da saúde e na prevenção do HIV. Vale ressaltar, nenhum dos consensos descarta a importância do uso do preservativo. O próprio consenso britânico, afirma que “os preservativos continuam a ser a forma mais eficaz de evitar a propagação de outras doenças sexualmente transmissíveis”. No entanto, ao falar sobre possibilidades complementares de prevenção, reconhece que a falha no uso da camisinha é real. É algo que acontece. E hoje temos alternativas para cuidar disso também.

Em março deste ano, dois estudos conduzidos pela organização humanitária internacional Médicos sem Fronteiras mostraram que essas alternativas funcionam: duas localidades na África, assoladas pela epidemia de HIV/aids, tiveram enorme redução na incidência de novos casos de infecção graças ao início da oferta de tratamento antirretroviral em larga escala. Segundo o último relatório da Unaids, “maior acesso ao tratamento antirretroviral, em combinação com outros métodos de prevenção do HIV, está derrubando novas infecções pelo HIV.” Comparando a cobertura do tratamento com o número de novas infecções pelo HIV, a Unaids conclui que, “para cada aumento de 10% na cobertura da terapia antirretroviral, a taxa de transmissão na população diminui em 1%”.

Ainda assim, 22 milhões de pessoas ainda não têm acesso ao tratamento e 2,1 milhões de pessoas foram infectadas pelo HIV somente em 2013. Talvez por isso, a Organização Mundial da Saúde (OMS) propõe ainda mais intervenções na prevenção. As últimas Diretrizes Consolidadas para Prevenção, Diagnóstico e Tratamento do HIV e Cuidado de Populações Vulneráveis incluem uma recomendação ao uso de antirretrovirais em “populações vulneráveis” como profilaxia pré-exposição (PrEP), isto é, o uso destes medicamentos por pessoas soronegativas como forma prevenir a infecção em uma eventual exposição ao vírus, além da manutenção da oferta de profilaxia pós-exposição (PEP).

Para alcançar as metas propostas pela Unaids, de 90% de redução em novas infecções, 90% de redução no estigma e discriminação e 90% de redução das mortes relacionadas à aids, precisamos ir além do que já estamos fazendo. Nesta nova era de controle da epidemia de HIV/aids, a camisinha continua muito importante. Entretanto, no lugar de culpar e meter medo pela eventual falha em seu uso, surgem alternativas de prevenção. Precisamos falar sobre elas, com base em dados atualizados de sérios estudos científicos.

É tempo de superar o discurso rígido e adotar uma abordagem humana, que reconhece que as falhas no uso da camisinha acontecem, mas que podemos cuidar delas também. Quem cuida da própria saúde, soropositivo ou soronegativo, deve se orgulhar disso, pois essa é uma ferramenta muito importante para prevenir novas infecções e controlar a epidemia no mundo.

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7 comentários

  1. Cezar diz

    conversa pra boi dormir… a pessoa que deixa de usar camisinha, tem grande probabilidade de deixar de tomar o comprimido diariamente. se pessoas que têm o virus esquecem, de vez em quando, de tomar os anti-retro; imagina quem nao tem?

    cai nessa quem quer…

  2. Gab diz

    Nossa. De qualquer forma, os números de HIV no Brasil são altíssimos. Temos que diminuir essa pandemia. O pessoal não aprende que promicuidade não combina com saúde. O pior são os que não sabem ter o vírus e saem infectando metade do país, são aqueles que acham que nunca vai acontecer com eles, e acham que o HIV só está nos feios e magros. Pessoal, mais responsabilidade, façam o teste e não transmitam a mais ngm!!!

  3. Olá a todos! JS, seu blog é fantástico. Agradeço o retorno que me deu sobre um link que enviei a respeito de uma matéria não-positiva sobre pesquisas relacionadas a efeitos do HIV no sistema nervoso. Como primeiro post aqui venho já abusando da boa vontade, colocando um assunto e desabafando. Hoje completo um mês de diagnóstico, já elegi um infecto e segunda-feira faço meus primeiros exames (CD4, CV etc). Estava distraído lendo seu blog quando começou um filme, parecia uma paródia nas primeiras imagens (festa gay, praia, alguma nudez masculina). Mas quando vi um ator famoso (Mark Ruffalo) parei para prestar atenção e me dei conta do assunto… The Normal Heart era o filme. A curiosidade foi maior e assisti o filme inteiro, eu que vinha achando razoavelmente tranquilo lidar com a ideia de ser positivo para o HIV, fiquei um pouco abalado. Senti medo. Acredito na eficácia do futuro tratamento e que em poucos anos a cura estará disponível. Mesmo assim pergunto, é frequente o medo ir e voltar? Alguma dica para lidar com isto?

    • É normal, ainda mais no começo! Mas você já fez a sua parte agora, que é ir no médico, fazer os exames e começar a se cuidar… O que você pode fazer agora é isso. Eu não acho que há porque se preocupar pelo que não pode ser feito.

  4. O.G.S. diz

    Parabéns pelo blog, seus post são muito bons.
    Pois bem, queria tirar uma opinião e saber o que posso fazer sobre essa dúvida que carrego desde que descobri que sou soropositivo. Logo após meus exames o meu médico disse que estou com a carga viral baixa e CD4 bom, e não tomo medicamento. E isso já vai para o meu terceiro ano de soropositivo. Meus exames hoje estou com CD4 em 560 e carga viral em 13mil cópias, meu médico ainda diz não ser necessário o uso dos medicamentos, mas alguns amigos da área da saúde dizem que devo iniciar o tratamento com os coquetéis, e isso me deixa confuso, e também tenho medo dos efeitos colaterais dos medicamentos. Gostaria de saber a opinião ou se tiver uma matéria sobre esse assunto ficarei grato.
    Parabéns pelo seu trabalho de ajudar a conscientizar as pessoas.

    • Lar diz

      Siga o que seu médico te disse, seus “amigos” entendem de imunologia/infectologia? Provavelmente seu médico deve saber o que está fazendo, ele não poria o CRM dele em risco. Tem gente que fala demais e acha que sabe. Já vi muita gente da área da saúde, leitora de revistas da Avon, querendo dar palpite em diagnóstico/prognóstico médico.

    • vivendopositivo diz

      Quanto mais rapido vc se tornar indetectavel, melhor, não acha?
      A chance de vc infectar alguem cai drasticamente para o quase improvável.

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