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A cura e os reservatórios latentes de HIV


Caso da bebê do Mississippi abre uma nova porta na pesquisa da cura do HIV

em 20 de junho de 2014

Anthony F. Fauci é diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas no National Institutes of Health.

Avanços espetaculares no tratamento de HIV/aids têm salvado milhões de vidas ao redor do mundo. Hoje, alguém com 20 anos de idade que seja infectado pelo HIV e comece a tomar medicamentos anti-HIV pode ter uma expectativa próxima do normal. Este sucesso estrondoso é moderado pelo fato de que estas drogas que salvam vidas não curam. Embora o vírus possa ser suprimido, ele não pode ser eliminado do organismo.

Isso traz enormes implicações econômicas, pois 35 milhões de pessoas vivem com HIV e milhões continuam a se infectar a cada ano. Além disso, as drogas anti-HIV apresentam um grau variável de efeitos colaterais por conta de sua toxicidade, o que faz com que seja difícil para muitas pessoas aderir ao tratamento vitalício. Daí vem a questão: o HIV pode ser curado? Isto é, uma pessoa cujo tratamento suprimiu o vírus a níveis indetectáveis pode descontinuar o tratamento sem que o vírus reapareça?

Uma das principais razões que faz com que o HIV continue incurável é a de que, assim que a pessoa é infectada, forma-se um reservatório de células infectadas pelo HIV, as quais podem estar escondidas em diversas localizações ao longo do corpo, tais como os gânglios linfáticos, intestino e até mesmo o cérebro.

Embora os medicamentos possam suprimir o HIV, o vírus escondido nestas células latentes reaparece se o tratamento for interrompido. Infelizmente, muitos adultos não sabem que estão infectados por meses ou anos, altura em que o lastro de células infectadas pelo HIV já é grande. Pesquisadores estão trabalhando para erradicar este reservatório, ou ao menos diminuí-lo. Uma teoria é a de que o tratamento logo após a infecção pode impedir a formação dos reservatórios ou, quem sabe, torná-los suscetíveis à eliminação.

O caso da “bebê do Mississippi” reforça essa teoria. Ela nasceu prematuramente numa clínica no Mississippi em 2010, a partir de uma mãe soropositiva que não recebeu tratamento anti-HIV durante a gravidez. Se uma mãe soropositiva é tratada adequadamente durante a gravidez e o parto, a quantidade de vírus no sangue é suprimida para abaixo dos níveis detectáveis e a chance dela transmitir o vírus ao bebê é menor do que 1%. Infelizmente, isso não aconteceu nesse caso.

Soropositivo desde 1981, Michael Deighan, co-dono da gráfica Nightsweats & T-cells, exibe as pílulas que toma diariamente para combater a doença. (AMY SANCETTA/ASSOCIATED PRESS)

Consequentemente, a bebê recebeu um agressivo tratamento anti-HIV quando tinha 30 horas de idade. Alguns dias depois, testes de alta sensibilidade confirmaram que ela havia sido infectada ainda no útero. A bebê foi mantida em terapia anti-HIV por 18 meses, mas o tratamento foi descontinuado quando a mãe interrompeu temporariamente suas visitas de acompanhamento. Ainda assim, quando a criança foi avaliada cinco meses depois, o HIV não foi detectado. A criança, hoje com 3 anos, continua sem apresentar sinais da infecção mesmo sem tomar remédios anti-HIV, levantando esperança de que uma cura tenha sido alcançada.

Este resultado notável aconteceu quase que por acidente, graças a um astuto pediatra que determinou que a recém-nascida estava sob alto risco de infecção e, com isso, tomou a decisão ousada de colocá-la imediatamente sob a terapia completa de drogas anti-HIV. Em geral, recém-nascidos de mães soropositivas não tratadas recebem doses menores de drogas anti-HIV para prevenir a infecção. Isso é feito com objetivo de evitar a exposição desnecessária da maioria dos recém-nascidos que não foram infectados — em torno de 75% — às possíveis toxicidades de uma terapia mais poderosa. O senso comum vinha ditando que evitar regimes mais tóxicos em bebês não infectados superava os benefícios da terapia agressiva nos infectados, uma vez que entendia-se que, de qualquer maneira, eles não seriam curados.

No entanto, a provável cura observada no caso do Mississippi mudou essa relação custo-benefício e trouxe importantes perguntas para os pesquisadores. Teria sido um desfecho animador num caso isolado? Ou será que fornecer terapia ideal e imediata a recém-nascidos sob risco de infecção traz a possibilidade de cura, ao evitar que o HIV crie um lastro permanente?

A possibilidade de alcançar a cura de milhares de crianças é importante demais para não ser buscada vigorosamente. O National Institutes of Health vai em breve lançar um ensaio clínico controlado em 12 países, incluindo os Estados Unidos. O estudo tem como objetivo replicar os resultados obtidos com a bebê do Mississippi em outras crianças expostas ao HIV ainda no útero. É esperado que este estudo prove que o tratamento imediato de recém-nascidos infectados pelo HIV pode protegê-los de uma terapia anti-HIV vitalícia, além de aumentar o entendimento sobre como buscar a cura em adultos, particularmente aqueles que são tratados no início de suas infecções.

Enquanto isso, precisamos trabalhar ainda mais para alcançar todas as mulheres infectadas pelo HIV, especialmente as grávidas, com tratamento e cuidado de saúde — tanto para elas quanto para qualquer criança que estejam esperando.


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7 comentários

  1. Cadê o Louis Picker?

    Li em algum lugar, não lembro onde, que os anticorpos monoclonais estão deixando pessoas com carga viral indetectável, conforme previsto.

  2. Oi pessoal! Há pouco mais de um mês comecei o tratamento com Efavirenz+lamivudina e Tenofovir! Desde o último final de semana percebi um caroço abaixo da região da orelha, o que pode ser indicativo de aumento do linfonodo. Alguém teve sintoma parecido? Devo me preocupar?

  3. Luciana diz

    tudo isso é muito triste mesmo pois se tratando de crianças ficamos ainda mais chateados no entanto espero que nos cuidemos para que não venhamos sofrer também pelos nosso futuros bebês…. Ainda acredito que a cura está mais perto do que se possa imaginar

  4. luiz freire diz

    acredito sim…na cura !! mas sera que esta proxima mesmo ???a industria farmaceutica …essa mafia de bilhoes…..verdadeira industria da aids !!! nao sei nao ….tanta gente se deformando com profilaxia ….ate quando isso ???gente morrendo nao do virus mas dos efeitos q essas drogas causam no organismo !!oque e isso gente !!! precisamos focar mais sobre esse assunto !! acorda GALERA !!!sabemos que a doença ja tem controle …e preciso focar e descutir mais…exigir estudos e pesquisas sobre os efeitos !!!!qualidade de vida nao e virar um corcunda de notre dame andando de muletas e bengalas !!!vamos parar com essa hipocrisia e egoismo !!!! chega !!!!!

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