Em minha última visita ao Dr. Esper Kallás, como sempre, acabamos falando muito mais coisas além de meus exames. Antes de falar sobre o meu CD4, discutimos os avanços na pesquisa da cura e esclarecemos tudo o que você precisa saber a respeito dos testes de diagnóstico e a janela imunológica.

Eu acabara de tomar um delicioso café na Avenida Paulista, quando segui em direção ao consultório do doutor. Atravessei o saguão do prédio e entrei no elevador. Estava dez minutos adiantado. Na sala de espera, me dirigi ao balcão da secretária e logo me deparei com o Dr. Esper, que estava em pé diante da porta de sua sala.

“— Entre logo, Jovem!”, acenou o doutor.

“— Dessa vez parece até que faz mais de três meses”, disse eu. “Preciso confessar que senti sua falta, doutor!”

“— É bom te ver, Jovem!”

Em seguida, Dra. V. entrou na sala, trazendo uma lata de Coca-Cola e três copos.

“— Servido?”, ofereceu a doutora, enquanto se sentava conosco.

“— Sim, obrigado.”

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Parte I, a pesquisa da cura

“— E então, o que achou da Superinteressante de Agosto?”, perguntou o doutor, apontado para a capa da revista.

“— Nem li”, respondi. “Ando um pouco desinteressado pelas notícias, doutor.”

“— Ah! Faz bem! Na matéria, sabe qual medicamento eles sugerem que será o medicamento da cura?”

“— Qual?”

“— O Vorinostat!”

“— E ele não é promissor?”, perguntei, surpreso.

“— Na melhor das hipóteses, ele é prova de conceito, Jovem”, explicou a Dra. V. “Isso quer dizer que vai servir para fomentar o desenvolvimento de algum outro medicamento. Mas o Vorinostat certamente não será o remédio da cura.”

“— E por que não?”

“— Porque a taxa de transcrição que ele oferece, de sete vezes, é muito baixa em virologia. Se fosse em bactérias seria suficiente, mas não é o caso”, prosseguiu a doutora.

“— A transcrição é o processo que faz expressar o vírus latente?”

“— Exatamente. É o que faz o vírus escondido nos reservatórios sair. E essa taxa precisa ser muito mais alta que isso para ser significativa em virologia. Portanto, o que os estudos que utilizaram o Vorinostat mostraram é que é possível fazer expressar o vírus latente. Mas precisamos de algo mais potente”, completou o doutor.

“— O Panobinostat?”

“— Também não. A taxa de transcrição deste é apenas um pouco mais elevada que a do Vorinostat”, respondeu ele.

“— Então qual?”

“— Eu apostaria no brasileiro que está sendo testado em macacos“, disse o doutor.

“— Então, na melhor das hipóteses, ainda temos algo como 20 anos pela frente?”

“— Não, Jovem! Se tudo der certo, em 10 anos temos um medicamento que pode, quem sabe, fazer expressar grande parte do vírus latente.”

“— Que maravilha, doutor!”

“— Mas, claro, temos que aguardar os resultados de todos os estudos. E o que os seus leitores acharam da matéria da Superinteressante?”

“— A grande maioria não ficou entusiasmada com a matéria, não. Agora, com o blog colaborativo, eles estão ainda mais antenados nos estudos e já previam que aquela manchete era exagero para vender a revista”, respondi.

“— Eles acompanham os estudos de perto, né?”

“— Bastante! Um leitor, inclusive, foi assistir à palestra do Dr. Michael Lederman.”

“— Ah, sim! Mostrei o seu blog e o comentário daquele leitor para ele. Ficou contente por um lado e decepcionado por não ter uma palestra que possa ser compreendida por todos. Disse que cometemos a falha de não nos comunicarmos bem com a sociedade, algo que seu blog cumpre bem.”

“— Mas ainda há algumas coisas a serem esclarecidas doutor”, prossegui. “Precisamos de algo claro e definitivo a respeito de janela imunológica. Pois isso deixa os pacientes em diagnóstico loucos!”

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Parte II, testes e janela imunológica

“— A própria informação sobre janela imunológica apresentada no site do Ministério da Saúde está desatualizada e, portanto, errada. Já disse isso para eles e em breve deve ser corrigido. A janela imunológica não é de 120 dias. Com 30 dias, a contar da relação desprotegida, a janela imunológica vale para todos os testes de HIV”, disse o doutor.

“— O que é que varia entre os testes, então? E por que há tantos testes diagnósticos? Qual a diferença entre Teste Rápido, ELISA, Western blot e PCR? E por que existem dois PCRs: quantitativo e qualitativo?”

“— Cada um desses testes examina coisas diferentes:

Teste Rápido e ELISA (ou Sorologia para HIV) são testes de detecção anticorpos. Portanto, uma vez que examinam anticorpos, o organismo do paciente precisa já ter reagido à presença do HIV para que o teste dê positivo. A média desse tempo de reação é de 22 dias, e, quando isso acontece, dá-se o que chamamos de soroconversão. Hoje em dia, o ELISA disponível no Brasil é apenas o de 4ª geração. Portanto, os pacientes não precisam se preocupar com isso: se fizeram o teste ELISA no Brasil, ele é de 4ª geração.

Antígeno P24 é um teste que, no Brasil, sempre acompanha o teste ELISA, mesmo que o pedido médico não especifique isso. Como o próprio nome já diz, o P24 não examina anticorpos, mas o antígeno, que é um pedacinho do vírus. Assim, para que o P24 dê positivo, basta que este pedaço do vírus seja encontrado.

Western blot também é um exame de anticorpos. Ele é considerado um teste confirmatório do diagnóstico porque é mais preciso que o ELISA. Enquanto o Teste Rápido e o ELISA examinam o anticorpo contra o HIV como um todo, o Western blot consegue enxergar anticorpos específicos contra cada proteína que compõe o vírus.

PCR Quantitativo, por sua vez, é a mesma coisa que Carga Viral. Ele mede a quantidade de vírus no sangue, através da presença do seu RNA.

PCR Qualitativo também examina o RNA do HIV, mas, em virtude de sua metodologia, ele não é capaz de quantificar o vírus. Ao invés disso, ele apenas dá um resultado ‘positivo’ ou ‘negativo’ para a presença de RNA do HIV. Antigamente, o Qualitativo era mais preciso que Quantitativo, pois conseguia examinar até 25 cópias de vírus. Hoje, ambos costumam ter a mesma precisão, o que fez com que o PCR Qualitativo não fizesse mais tanto sentido e acabasse caindo em desuso.”

“— Se o Teste Rápido e o ELISA examinam anticorpos, por que não se usa apenas o Teste Rápido?”

“— Porque o ELISA é mais sensível e preciso e o Teste Rápido é oferecido apenas pela rede pública, nos CTAs, onde os profissionais são treinados para amparar o paciente de um eventual diagnóstico positivo. O Teste Rápido é usado porque muitos dos pacientes que faziam o ELISA nunca vinham buscar seu resultado. Com um resultado imediato esse cenário mudou, o que é um grande avanço em epidemiologia. De fato, é mais difícil que uma pessoa se disponha a passar pelo período de angústia que o tempo de espera pelo resultado do ELISA pode representar, quando um teste parecido pode dar essa resposta em minutos.”

“— E a janela imunológica é igual para todos os testes de diagnóstico?”, perguntei.

“— Deixe-me abrir um PDF que contém um gráfico que vai responder bem a esta pergunta”, respondeu o doutor, abrindo o documento na tela de seu computador.

Testes e Janela Imunológica

“— Veja”, prosseguiu ele. “O PCR é sensível à presença do vírus a partir de 10 dias da relação desprotegida; o Antígeno P24, a partir de 15 dias; o ELISA e o Teste Rápido são sensíveis à infecção a partir de 20 dias; e o Western blot, entre 25 a 28 dias. Com 30 dias da relação desprotegida, portanto, todos estes testes são sensíveis a um eventual diagnóstico positivo.”

“— Então por que o PCR não é sugerido logo?”

“— Porque, uma vez que o PCR detecta o RNA viral a partir de 25 ou 50 cópias, ele é dependente da quantidade de vírus no organismo e, por isso, pode não detectar casos em que o paciente é um controlador de elite.

Portanto, por mais sensível que um teste seja, não adianta aceitar como definitivo o resultado de um teste feito imediatamente após a relação desprotegida, porque a quantidade de vírus pode ser insuficiente para apresentar um resultado preciso.”

“— A janela de 30 dias é a definitiva, então?”

“— Sim. Ela só é maior se o paciente fez profilaxia. Nesse caso, naturalmente, a referência não é mais a relação desprotegida: contam-se 30 dias a partir do término da profilaxia.”

“— E casos de falsos positivo e negativo? Existem? São comuns ou raros?”

“— São raros. Eles representam, em média, menos que 0,1% dos testes, em ambos os casos. Essa taxa é um pouco maior em situações de gravidez, infecção positiva para sífilis ou nos raríssimos casos de doenças reumatológicas e imunes.”

Parte III, o meu CD4

Nossa conversa foi interrompida por gritos que atravessavam o vidro da janela fechada.

“— Esses manifestantes!”, reclamou o doutor. “Fui às passeatas e estou de acordo com várias das revindicações, mas protestar em frente a um hospital é demais! Isso não se faz!”

Da janela de seu consultório, víamos a polícia, a imprensa e os manifestantes bloqueando a entrada do Hospital Sírio Libanês.

“— Vou fechar a cortina para que você não apareça nos jornais”, brincou o doutor, antes de medir minha pressão arterial e auscultar meu coração. “12 por oito. Tudo em ordem, Jovem! E os exames?”, perguntou, enquanto eu vestia a camisa e voltávamos para a mesa.

“— Fiz no mesmo laboratório, doutor.”

O Dr. Esper logo abriu os resultados na tela de seu computador.

“— Carga viral indetectável, colesterol bom, triglicérides ótimo, vitamina D melhorou…”

“— Troquei a suplementação. Estou tomando DePura.”

“— Então continue! Está tudo ótimo…”, prosseguiu ele, descendo até o resultado dos linfócitos. “A única coisinha é a sua contagem de CD4, em 330”, disse o doutor, batendo com a caneta sobre a tela do computador. “Mas, não é nada alarmante.”

“— Sim, já estou me acostumando com isso. Minha única dúvida quanto a esse assunto é bem objetiva: em outubro do ano passado, quando atingi o recorde de maior contagem de CD4 desde o diagnóstico, com 436 células, você me disse que era muito bom, pois isso me livrava da possibilidade de ser um não-respondedor imunológico, certo?”

“— Certo. E você agora nota que aquele resultado, de 436, parece ser um resultado de exceção, é isso?”, completou o doutor, olhando para mim.

“— Sim, é isso. Se aquele é um resultado de exceção, eu sou então um não-respondedor?”, perguntei.

“— Jovem, a sua contagem é de fato mais baixa, mas, note que isso também se passa com a sua contagem total de linfócitos, e não só de CD4. Enquanto isso, a sua porcentagem de CD4 é boa, em 29%”, disse o doutor.

“— E a relação CD4/CD8, estável em torno de 0,7, também é boa”, completou a Dra. V. “Acima de 0,5 já consideramos saudável.”

“— Muito bem! Então, nos vemos só daqui a três meses?”, disse eu, me despedindo dos dois.

“— Ou volte antes, e tomamos um café!”, respondeu o doutor, me cumprimentando já na porta de sua sala, diante do consultório todo vazio e já com algumas luzes apagadas.

“— Quero participar. Me avise, doutor!”, disse Dra. V. ao Dr. Esper, enquanto me acompanhava até a porta.

“— Então, nos vemos em breve!”, disse aos doutores.

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