Utilidade pública. Este não é um post sobre mim, é sobre você. Sim, você mesmo(a), que tanto me pergunta se sexo oral deve ou pode ser feito com ou sem preservativo, receptiva ou ativamente, em um(a) soropositivo(a). Para começar, vou traduzir o texto que a Dra. Debby Herbenick escreveu para um popular site norte-americano. Ela é médica, autora de cinco livros sobre amor e sexo e parece ser uma especialista no assunto.

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DSTs podem ser transmitidas por sexo oral?

Dra. Debby Herbenick

Sim. Quase tudo o que se pode transmitir através de penetração também pode ser transmitido por sexo oral. Herpes? Sim. Clamídia e gonorreia? Sim. (Ambas são infecções causadas por bactérias e podem ser tratadas com antibióticos, mas há cada vez mais casos de gonorreia resistente à antibióticos, e você não quer uma infecção como estas.) O HIV também pode ser transmitido por sexo oral. No entanto, esta é uma forma de baixo risco de transmissão de HIV (a transmissão é muito mais fácil e comum através de sexo anal e vaginal). Sífilis também pode ser transmitida por sexo oral. O HPV está relacionado com alguns cânceres no cérebro e no pescoço, e sua transmissão por via oral é um tema de crescente discussão científica, sobre o qual aguardamos mais estudos e pesquisas.

Dito isso, nem todos usam camisinha ou preservativo para sexo oral durante o sexo oral. Se a transmissão de DST por sexo oral preocupa você, considere o uso de camisinha e preservativos apropriados ou, pelo menos, faça o deste de DSTs a cada novo(a) parceiro(a) ou a cada rompimento de relacionamento, para que você possa entrar numa próxima relação ciente do seu status sorológico para as diversas doenças.

O mesmo se aplica ao anilingus. Se seu parceiro ou sua parceira tem alguma doença sexualmente transmissível (DST), como gonorreia, clamídia, herpes ou HIV, você pode contrair esta DST depois de fazer anilingus (que é o estímulo oral da região anal) nele ou nela. Se a pessoa que faz o anilingus tiver herpes (herpes oral) então ele ou ela pode transmiti-lo para aquele(a) cujo ânus está sendo estimulado. Hepatite A e B também pode ser transmitida por anilingus. Felizmente, qualquer um pode fazer exames de DST e de hepatites. Qualquer um também pode ser vacinado contra hepatites — algo a se conversar com seu médico, se você planeja visitar o ânus de alguém num futuro próximo.

Por fim, há outras coisas além de DSTs — como parasitas — que podem transmitidas pelo anilingus. Ainda assim, em grande parte, o anilingus é bastante seguro não costuma apresentar incidentes, além de ser fonte de divertimento e prazer.

Como tornar o anilingus ainda mais seguro? Preservativos para sexo oral ou camisinhas cortadas ao meio, longitudinalmente, podem servir de barreira entre a boca e o ânus. Acrescente lubrificante à base de água na parte do preservativo ou da camisinha que estiver em contato com o ânus, para deixar tudo mais escorregadio e prazeroso.

A Dra. Debby Herbenick é autora de Sex Made Easy e Great In Bed, é co-diretora do Center for Sexual Health Promotion in the School of Public Health-Bloomington da Indiana University (IU) onde trabalha como pesquisadora. Ela também é educadora sexual na The Kinsey Institute for Research in Sex, Gender and Reproduction, onde escreve e grava um podcast da coluna Kinsey Confidential e coordena o programa educacional. Ela é PhD em Comportamento de Saúde, coordenando um mestrado em Educação em Saúde Pública na IU e um bacharelado em psicologia na University of Maryland, College Park. Além disso, é educadora sexual certificada pela American Association of Sex Educators, Counselors and Therapists.

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Se você prefere a opinião de especialistas brasileiros, já adianto que a recomendação é quase sempre a mesma: use camisinha mesmo no sexo oral. Já no que diz respeito aos riscos, a resposta é geralmente evasiva. Meu primeiro infectologista, o Dr. O., recomendou o uso de camisinha no sexo oral, porque, segundo ele, haveria “comprovados casos de transmissão de HIV entre lésbicas”. Na hora, acabei não levantando a questão sobre o uso de vibradores e acessórios.

O Dr. E., meu atual infectologista, é menos veemente. Segundo ele, o risco de transmissão por sexo oral é teoricamente possível e, como médico, ele deve sempre sugerir o uso de proteção. No entanto, também disse que não há caso comprovado na literatura médica de transmissão de HIV por sexo oral. O que há, segundo ele, são diversos pacientes que afirmam ser esta a única possível origem de suas infecções. No entanto, em geral, quando estes casos são analisados mais a fundo encontram-se outras formas mais prováveis de rota de infecção, como o mau uso ou o rompimento da camisinha durante o sexo anal.

Para avaliar se o preservativo foi rompido ou não, recorro à sugestão de minha mãe. Quando eu ainda era um adolescente e ganhava de meus pais minha primeira camisinha — sim, aquela mesma que eu deveria sempre ter usado — ouvi dela um eficiente conselho:

Depois de ejacular, vá ao banheiro e retire a camisinha com cuidado. Em seguida, na pia, encha-a de água, enrole a base e aperte-a, como um balão. Se vazar ou espirrar água por algum ponto, você já sabe se houve alguma fissura na borracha ou não.

Dr. Jairo Bouer faz menos rodeios. Em seu blog, ele já respondeu à várias perguntas sobre esse tema. E em todas as respostas ele sempre recomenda o uso de camisinha. Por outro lado, ele também ressalva que o risco de um homem que recebe o sexo oral contrair HIV ou outra DST de quem nele pratica o sexo oral é muito baixo. Já o contrário, segundo ele, não é verdadeiro: uma pessoa, homem ou mulher, que fizer sexo oral em outra mulher deve sempre usar proteção ao fazê-lo, pois o risco ali seria um pouco maior. Assim como a Dra. Debby, o Dr. Jairo também sugere que a camisinha seja cortada longitudinalmente quando for usada para sexo oral em mulheres. E, em qualquer caso de sexo oral, ele recomenda camisinhas com sabor ou, pelos menos, sem espermicida — uma vez que este pode trazer um gosto ruim a este momento prazeroso.

Há algum tempo, eu pesquisei e postei aqui alguns dados sobre os riscos de transmissão. Claro, estas são meras estimativas e constantemente debatidas, questionadas e recalculadas pelos médicos. Na época, o que eu encontrei foi nada além de uma única matéria, publicada em fevereiro de 2001, pelo site About:

Sexo anal receptivo (passivo)

0,8% a 3,23%

+

Sexo anal insertivo (ativo)

0,08% a 0,32%

Sexo vaginal receptivo (homem para mulher)

0,1% a 0,0001%

Sexo vaginal insertivo (mulher para homem)

0,00001% ou menor

Sexo oral

Menor que as anteriores

Se considerarmos que, depois disso, a Suíça divulgou um estudo que diz que um soropositivo em tratamento não oferece riscos de transmissão, e que o tratamento antirretroviral oferece redução de 96% no risco de transmissão, então, podemos concluir que os riscos apresentados na tabela acima podem ser consideravelmente menores em se tratando de um(a) soropositivo(a) em tratamento.

No meu caso, a srta. J. e eu, mesmo depois do meu diagnóstico, continuamos fazendo sexo oral um no outro sem proteção. Assim como eu, ela estava plenamente ciente dos riscos, tendo participado das duas consultas, com o Dr. O. e com o Dr. E., quando eles emitiram as opiniões que eu cito acima. E ela continua soronegativa. Não usar proteção no sexo oral é um entendimento meu e da srta. J., pessoal, e não se trata de nenhuma recomendação, sugestão e muito menos de um modelo de referência. Vale ressaltar que, como descendente direta de europeus nórdicos, é possível que ela faça parte de 1% da população européia que naturalmente apresenta a mutação inibidora do CCR5, citada pelo Dr. Esper Kallás nesta matéria aqui.

Não há, portanto, conclusão final. Talvez seja legal sugerir que os riscos, as pesquisas e as possibilidades de uso ou desuso do preservativo no sexo oral sejam conhecidos pelos parceiros sexuais. Assim, qualquer decisão pode ser de maneira consciente, antes de abrir a boca… para emitir qualquer opinião, claro!

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