Foi no dia 18 de outubro de 2010 que descobri que sou soropositivo, que tenho o vírus da aids, o HIV. Portanto, faz pouco mais de quatro meses.

Não sei porque começo este blog. Não sei se vou continuar com ele. Não sei se vou escrever com constância, inconstância ou se jamais escreverei novamente. Não sei se faço isso apenas para desabafar, para pedir ajuda e conselhos ou trocar informações com soropositivos e soropositivas mais experientes, para ouvir a mim mesmo ou para ajudar aos outros jovens soropositivos como eu. Essa ideia, de escrever um blog sobre esse assunto, o momento que estou vivendo, tem rodado a minha cabeça. E só o fato de ter chegado a estas linhas já me traz certo alívio. Então, pronto! Está lançado o blog.

Sem festa. Nesses quatro meses, ouvi de algumas pessoas sobre o lado positivo do meu diagnóstico soropositivo — sem trocadilhos. Segundo elas, haveria motivos para comemorar. Talvez haja. Meu diagnóstico veio antes de qualquer manifestação da aids. Minha carga viral era naturalmente tão baixa que em um mês de tratamento passou a ser “indetectável”, isto é, muito próxima de zero. No jargão que aprendi nesses tempos, eu já “zerei” meus exames.

No entanto, o início desse blog, nessa terça-feira de Carnaval, não vem motivado por estes pontos positivos. Como sou um novo soropositivo, tenho feito os exames de controle mês a mês. Desde o início do tratamento com os antirretrovirais, já foram dois controles. O primeiro controle teve resultados bons, conforme descrevi acima. Já no segundo controle, um resultado ruim. Tive hoje a informação que meu CD4 tem sua contagem mais baixa do que antes do início do tratamento.

Vou explicar. Em dezembro, logo após o diagnóstico, fiz uma série de exames com a finalidade de, nas palavras de meu infectologista, “fotografar” meu organismo antes do tratamento. Dentre eles, fiz também exames os quais devo me acostumar a fazer por toda a vida ou até que descubram a cura pra o HIV: a contagem de CD4 e CD8, carga viral ou PCR quantitativo para HIV e hemograma. À época, meu CD4 era de 255. Segundo o laboratório, para a minha idade, o ideal seria que os linfócitos T CD4, as células de proteção mais atingidas pelo HIV, tivessem uma contagem de, pelo menos, 650.

Posso estar enganado, mas lembro-me de ter ouvido de algum dos inúmeros médicos que tenho visitado — infectologista, psiquiatra, psicólogo, gastro-coloproctologista e dermatologista — de que o Ministério da Saúde tem uma determinação que diz que contagens de CD4 inferiores a 500 devem começar o tratamento imediatamente. Segundo meu “infecto” — infectologista, para os íntimos — uma contagem de 350 já alguma traz segurança. E sua expectativa, dado meus ótimos primeiros exames, era de que este mês minha contagem já fosse essa.

Mas não foi. Obtive um resultado de 215 linfócitos CD4 por mm³ de sangue. Não, ainda não tenho o conhecimento ou experiência para analisar esse resultado. Sei apenas é que a previsão médica era a de um resultado melhor.

Passei o mês de janeiro lendo muitas notícias e sites sobre HIV. Sem sair muito de casa, foi o máximo que fiz. E encontrei pouca coisa. Ou pouco que realmente interessasse. Nenhum livro. Ou quase: o único que me pareceu ser interessante continha a “oração para a cura interior” no final — nada contra, apenas não era o que estava procurando. Num futuro post, quem sabe, escrevo mais sobre o que encontrei neste mês de pesquisa.

Também passei o mês de janeiro sofrendo bastante com os efeitos colaterais dos remédios. “Melhor que morrer”, você pensa. Eu também penso. E acho que é só por isso que tomo as enormes pílulas todos os dias. Medo de morrer.

Essa foi, aliás, a primeira pergunta que fiz ao meu infecto, um dia depois do diagnóstico, ainda devastado emocionalmente e depois de uma noite sem dormir.

“— Morre, Dr.?”

“— Não, hoje não morre mais.”

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