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Profilaxia Pós-Exposição (PEP) é uma forma de prevenção da infecção pelo HIV usando os medicamentos que fazem parte do coquetel utilizado no tratamento da Aids, para pessoas que possam ter entrado em contato com o vírus recentemente, pelo sexo sem camisinha. Esses medicamentos, precisam ser tomados por 28 dias, sem parar, para impedir a infecção pelo vírus, sempre com orientação médica.

O atendimento inicial é de urgência: no caso de um possível contato com o vírus HIV, busque, o quanto antes, um serviço credenciado. Esse primeiro atendimento é considerado de urgência porque o uso dos medicamentos deve começar o mais cedo possível. O ideal é que você comece a tomar a medicação em até 2 horas após a exposição ao vírus HIV e no máximo após 72 horas. A eficácia da PEP pode diminuir à medida que as horas passam.

A indicação de utilização dos medicamentos para prevenção será avaliada por um médico.

Nós não estamos sendo objetivos a respeito de HIV/aids

Brasil Post

Você já parou para se perguntar: por que a epidemia de HIV/aids continua a crescer? Uns dizem que o principal motivo é o comportamento sexual dos jovens, que acham que ninguém mais morre de aids e que, se pegar o vírus, basta tomar “um remédio”. Outros acreditam que o problema é confiar nos parceiros. A imprensa nos lembra dos maquiavélicos soropositivos, que contaminam propositalmente seus parceiros sexuais e, depois, avisam por SMS. Ou os que não avisam e, depois de mortos, fazem mulheres sair correndo de um funeral para fazer o teste de HIV, quando descobriram que o falecido, um jovem “mulherengo”, era portador do vírus. E ainda acham surpreendente o marido que não se infectou ao  “arriscar contrair o vírus HIV” depois de transar com sua esposa, portadora do vírus.

Passaram-se mais de três décadas desde o início da epidemia e, de lá pra cá, muita coisa mudou. A principal mudança veio graças à ciência e à medicina, que desenvolveu e aprimorou os medicamentos antirretrovirais. No começo, eles eram muito tóxicos e causavam severos e até irrecuperáveis efeitos colaterais, incluindo redução da densidade óssea e lipodistrofia, que é o acúmulo e a distribuição desproporcional de gordura pelo corpo. Para piorar, era preciso tomar dezenas de comprimidos, em horários precisos ao longo do dia.

Hoje, é mais simples. Esses mesmos remédios já são combinados numa única dose, que pode ser tomada uma vez ao dia e é muito menos tóxica do que no passado. O Dr. Drauzio Varella está certo ao ter lembrado, ontem no Fantástico, que os antirretrovirais ainda causam efeitos colaterais. Isso é verdade! Eles costumam incomodar, especialmente no início do tratamento. Em geral, isso inclui irritações na pele, diarreia, náusea, vômito e fadiga. No entanto, é verdade também que esses efeitos costumam diminuir bastante ou passar completamente com o tempo. Não fosse verdade, o CDC americano não teria criado a recente campanha de prevenção e tratamento, na qual anuncia: O Tratamento de HIV Funciona”.

 Se o incômodo com o tratamento não passa, é quase sempre possível trocar a combinação de medicamentos, alternando para uma que seja mais adaptável para o organismo de quem está tomando e que não cause qualquer efeito colateral  então, se existe esta alternativa, por que é que ainda se fala tanto nos efeitos colaterais?

Uma das razões é que há um vício em tratar a epidemia de HIV/aids através da mesma história que sempre foi contada, de culpa, medo, dor, tragédia e sofrimento. E não se iluda: isso acontece tanto com quem conta a história, como com quem vive a história. Me lembro que meu primeiro infectologista, Dr. O., insistiu num coquetel de antirretrovirais que me causava dores de barriga, vômitos e diarreias como eu nunca experimentara antes. Durante os quatro meses em que segui o tratamento recomendado pelo doutor, sofri todos os dias, ininterruptamente. Tentei melhorar a situação, mudando toda a minha dieta, mas não funcionou. Cheguei a ser hospitalizado por tanto vomitar e emagreci 15 quilos, não por causa da aids, mas  me perdoe a sinceridade  por tanto defecar! Enquanto isso, o doutor insistia que era para ser assim. E isso não se deu só comigo. Num livro que vai ser publicado em breve, intitulado provisoriamente “Histórias da Aids”, da jornalista Naiara Carmo e do infectologista Artur Timerman, uma das soropositivas entrevistadas lembra que, quando reclamou dos efeitos colaterais que sofria, sua médica sentenciou:

“— Não se cuidou… agora aguenta!”

Por alguma razão, a epidemia de HIV/aids tem essa associação de culpa e punição. É como se o imaginário aterrorizante do vírus tivesse um força gravitacional muito forte, da qual até médicos não escapam, que dirá jornalistas que os entrevistam para cobrir suas matérias. É fácil percebê-lo ao ler as notícias acima. Nenhuma delas de fato checa ou questiona pontos tão fundamentais. Será mesmo que a razão da falta de uso de camisinha entre os jovens vem da ideia de que o HIV está “longe”? Afinal, é importante lembrar que, no Brasil, a tendência de aumento nas taxas de diagnóstico não se concentra apenas entre jovens de 15 a 24 anos, mas também em adultos com 50 anos ou mais, os quais viram o terrível começo da epidemia. Nesse sentido, não seria coerente pensar que todos temos a ideia de que o HIV está distante de nós? E, se isso for verdade, qual a razão dessa sensação de distância? Será que não estamos falando o suficiente sobre HIV? Ou, pior: será que estamos mesmo falando de maneira correta, objetiva e atualizada?

Até quando vamos continuar falando que a razão das contaminações é o excesso de “confiança” no outro? Ninguém mais é adulto e responsável por sua própria saúde? Não é hora de pararmos de falar em “confiar”, vitimizando-nos e apontando o dedo para culpar terceiros, quando a responsabilidade de usar camisinha é, igualmente, das partes envolvidas no ato sexual? Será que já não é hora de fazer jornalismo sério quando o assunto é HIV/aids e, antes de publicar sobre o suposto risco vivido pelo marido que queria engravidar a esposa soropositiva, checar com especialistas e fontes especializadas? O sexo desprotegido entre um soronegativo e uma pessoa soropositiva e indetectável é uma realidade possível e segura, que apresenta risco de transmissão mínimo, senão negligenciável, segundo diversos consensos médicos, como americano, britânico, canadense e sueco. E, uma vez que o tratamento antirretroviral é comprovadamente capaz de reduzir para próximo de zero a transmissibilidade de quem tem HIV, por que não passamos a incluir esse dado tão importante nas notícias deste jornalismo “policial” a respeito daqueles que teriam transmitido o vírus propositalmente a seus parceiros e parceiras? Afinal, se transmitiu, é porque não fazia tratamento e, se não fazia tratamento, essencial para manter-se vivo, é porque há ali um distúrbio psiquiátrico muito grave. Isso não é em nada relevante numa matéria séria?

A imprensa não está sendo objetiva a respeito da epidemia de HIV/aids, perdendo-se em questionamentos antiquados e não trazendo à tona assuntos atuais e importantes. Não é mais tempo de procurar, entre os soropositivos, os monstros transmissores de HIV: segundo a Unaids, “a epidemia de HIV é nutrida pelas infecções por HIV não diagnosticadas e não pelas pessoas que conhecem seu status positivo para o HIV.” O risco de ser contaminado pelo HIV está sabidamente no sexo desprotegido com pessoas de sorologia desconhecida, que não fazem o teste de HIV com frequência e respeitando o período da janela imunológica. Por isso, no resto do mundo, o aumento da oferta de testes e o estímulo ao tratamento antirretroviral de quem eventualmente for diagnosticado positivo tem se mostrado um caminho eficaz, e que tem ganhado grande espaço na mídia.

Se todos fizerem o teste de HIV e se, quem precisar, iniciar o tratamento, a epidemia está controlada, sem a necessidade de causar mais medo e pânico. Enquanto não incluirmos essa mensagem nova e atual em nossas campanhas e nas notícias de jornal, a epidemia de HIV/aids vai continuar a crescer.

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O que os médicos falam


O que os médicos têm falado sobre prevenção aos seus pacientes com HIV?

Por Myles Helfand e Theo Smart para o TheBodyPRO.com

No cuidado de pessoas com HIV, o foco é tratar o paciente soropositivo e garantir a sua qualidade de saúde. Entretanto, os pacientes também se preocupam a respeito do risco de infectar outras pessoas, trazendo a necessidade de também se discutir a prevenção. Pedimos a alguns dos principais médicos especializados em HIV para dizer o que eles dizem a seus pacientes sobre a prevenção do HIV.

Dr. Paul Sax

Dr. Sax é diretor do Programa de HIV e Divisão de Doenças Infecciosas do Brigham and Women’s Hospital, em Boston.

A coisa mais importante que precisamos fazer é evitar sífilis e hepatite C. Essas duas infecções podem ser muito desagradáveis. A supressão virológica do HIV leva à uma situação próxima da ausência de infecciosidade e as pessoas não se infectam novamente pelo HIV se estão em tratamento e já são indetectáveis. Simplesmente não acontece. Mas apesar das pessoas não transmitirem se estão em terapia anti-HIV e com carga viral suprimida, elas certamente ainda podem pegar hepatite C e sífilis. E eu já vi isso acontecer várias vezes e não é agradável. Por isso, você tem que ter cuidado.

Eu digo: “Se você está em um relacionamento monogâmico, onde o seu parceiro é soropositivo e indetectável e é uma relação monogâmica, então vocês podem tomar a sua decisão. Você não vai contrair HIV, certo? Mas se você não tem certeza que é uma relação monogâmica, seja para você ou para ele, então você tem que ter cuidado.”

Dra. Lisa Fitzpatrick

A Dra. Fitzpatrick é professora da Escola George Washington University de Saúde Pública e membro do corpo docente adjunto na Howard University College of Medicine.

Eu digo que considerem revelar seu diagnóstico para pelo menos uma pessoa. Embora eu acho que o uso consistente do preservativo é irreal para muitas pessoas, eu falo sobre os preservativos, mesmo assim, e, para aqueles que não são indetectáveis e permanecem em relacionamentos sexualmente ativos, eu converso sobre PrEP [profilaxia pré-exposição] e peço que convidem seus parceiros para uma consulta.

Dr. David Wohl

Dr. Wohl é professor associado de medicina na University of North Carolina School of Medicine e codiretor de serviços de HIV do North Carolina Department of Corrections.

Um dos meus pacientes perguntou: “Eu só quero saber se eu tiver relações sexuais com alguém e sou indetectável — porque eu sou e eu tomo minhas pílulas todos os dias —, qual é a minha chance de transmitir o vírus a alguém?”

Eu respondo a verdade. Digo que “estudos mostram que a chance de você infectar alguém, dadas todas as coisas que nós acabamos de falar — e também se você não tem gonorreia —, que suas chances são infinitamente pequenas: uma em dezenas e dezenas e dezenas de milhares. Eu estaria mentindo para você se dissesse que havia uma grande probabilidade de você infectar alguém.” Então, eu tento ser honesto com eles.

Mas eu também digo: “Se você está tendo relações sexuais com outras pessoas e você tem uma DST inflamatória, nada disso vale. Se você não tem adesão aos remédios, nada disso vale.”

Em termos de PrEP, eu digo: “Se você está falando de um parceiro e vocês vão ter sexo desprotegido, a discussão pode se estender a ele sobre querer ou não querer e se, além de tudo o que eu disse a respeito de toda a proteção que você recebe do seu medicamento anti-HIV, ele também quer ser tratado com PrEP.”

Dra. Sharon Dian Lee

Dra. Lee é professora assistente de medicina na Universidade de Kansas e fundadora e diretora da Southwest Boulevard Family Health Care.

A maioria dos meus pacientes que estão infectados com HIV de fato não querem transmitir a doença para os outros. Nossa clínica oferece preservativos masculinos na recepção e oferecemos profilaxia pré-exposição para os parceiros de nossos pacientes. Nós também encorajamos as pessoas com HIV a falar aos seus amigos sobre a PrEP e oferecemos PrEP semanal para aqueles que não são nossos pacientes.

Dr. Theo Katsivas

Dr. Katsivas é um médico associado da Clínica Owen na Universidade da Califórnia, em San Diego.

A maioria dos pacientes que atendo são soropositivos. Mas eles podem ter parceiros, amigos, maridos ou esposas soronegativos. Então, eu recomendo o uso de preservativos e de PrEP, tanto quanto. E os recomendo juntos, pois acho que eles devem ser usado juntos. Os estudos foram feitos com esses dois componentes de prevenção e, por isso, eu acho que é como devem ser promovidos.

Por outro lado, quando as pessoas escutam que a profilaxia pré-exposição tem um grau muito alto de proteção, querem se livrar do preservativo. E eu converso sobre isso.

Dr. Pablo Tebas

Dr. Tebas é professor de medicina na Escola de Medicina da Universidade da Pensilvânia e o principal pesquisador da Unidade de Estudos Clínicos da Aids (ACTU) na Universidade da Pensilvânia.

Falamos sempre sobre o uso de preservativos. E falamos sobre a importância do sexo seguro, a importância da revelação aos parceiros e sobre não se envolver em comportamentos de alto risco. Nosso sucesso é variável. Eu vejo um monte de doenças sexualmente transmissíveis em pacientes com HIV. Mas tento insistir e ser muito focado na mensagem para estes pacientes, certificando-me de que eles compreendem a mensagem.

Eu também dou muita ênfase à hepatite C. Há uma epidemia de hepatite C que afeta os indivíduos infectados pelo HIV [nos Estados Unidos]. E eles têm que ter um cuidado especial por causa da imunossupressão que, apesar da terapia antirretroviral bem sucedida, os torna vulneráveis à hepatite C. Eles têm que estar cientes de que há um risco de transmissão sexual que afeta essa população específica. Eles têm que ter muito cuidado.

Dr. Roy Gulick

Dr. Gulick é professor de medicina e chefe da Divisão de Doenças Infecciosas na Weill Medical College of Cornell University e  médico assistente no Hospital Presbiteriano de Nova York.

A boa notícia é que temos muitas opções. Preservativos ainda são uma parte importante. Se sabemos que eles estão em um relacionamento sorodiscordante, em que um parceiro é positivo e o outro é negativo, sabemos que colocar o parceiro positivo em tratamento é uma ótima maneira de prevenir a infecção no parceiro negativo, supondo que eles não tenham relações sexuais fora do relacionamento — entretanto, sabemos que as pessoas fazem isso.

Então, isso traz à tona o tema da PrEP, que agora é aprovado pelo FDA e recomendado pelo CDC [mas não ainda aprovado no Brasil] para as pessoas que estão em maior risco, o que inclui praticamente todos os homens que fazem sexo com homens (HSH) sexualmente ativos e heterossexuais, homens e mulheres, em certas comunidades. Qualquer um que recentemente teve uma infecção sexualmente transmissível, é parte de um casal discordante ou está fazendo sexo em uma comunidade onde há uma alta incidência de HIV deve pensar seriamente sobre PrEP.

Dr. Henry Masur

Dr. Masur é professor clínico de medicina na Universidade George Washington e chefe do Departamento de Medicina Intensiva no centro clínico do NIH.

Eu acho que todos nós sabemos como o HIV é transmitido. Sabemos sobre o comportamento sexual. Sabemos sobre a partilha de seringas. Ainda assim, é decepcionante olhar para as doenças decorrentes de comportamento social e ver que temos feito um trabalho terrível ao longo dos últimos 40 anos no que diz respeito à mudança de comportamento. Temos tratamento barato para sífilis e gonorreia. Temos tratamento para clamídia. No entanto, somos ineficazes, especialmente nas grandes áreas urbanas, em reduzir essas doenças. E, para essas doenças, um tratamento curto, às vezes com apenas uma dose, é curativo.

Assim, para a prevenção, eu gostaria que tivéssemos uma mensagem que melhor reverberasse nos pacientes. Mais uma vez, temos que continuar enfatizando a eles a responsabilidade pessoal. Temos que ter a certeza de que eles têm o conhecimento, porque eu acho que às vezes nós superestimamos o que os pacientes entendem.

Mas, novamente, estou ansioso para ter uma melhor compreensão de como podemos mudar o comportamento social. E eu estou angustiado, como suspeito que todos nós estamos, sobre o quão pouco progresso fizemos nessa área nas últimas décadas.

Dr. Michael Saag

Dr. Saag é médico e pesquisador do HIV na Universidade do Alabama, em Birmingham.

O tratamento é a prevenção. Se você tomar o seu medicamento, alcançar o indetectável, você não precisa de maiores esforços, a não ser que esteja compartilhando seringas ou sangue. A probabilidade de transmissão por meio de atividade sexual se aproxima de zero. Eu não posso jurar que é zero, mas eu acho que é bem perto. Assim, basta apenas tomar o medicamento, por você e pelas pessoas com quem se relaciona.


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Esqueça tudo o que você sabe sobre HIV

Brasil Post

Meu pseudônimo, Jovem Soropositivo, acaba de fazer aniversário, em 18 de outubro. Escolhi essa data porque me pareceu lógico que ela devesse coincidir com a de meu diagnóstico, que se deu em 18 de outubro de 2010, mas levasse o ano verdadeiro do meu nascimento, 1984. Novo aniversário, mesma idade. Assim, acabo de fazer 30 anos de idade e, de acordo com a lei, deixo de ser jovem. Também deixo de ser um jovem na vida de soropositivo, pois já são quatro anos desde o diagnóstico! Não sou mais um jovem soropositivo, nem um soropositivo jovem.

Mas mais importante do que jovem ou não-jovem é o soropositivo. Por alguma razão, é o que chama mais atenção no meu pseudônimo. A verdade, porém, é que não me identifico mais com esse nome também. Não, não estou curado. Infelizmente. Continuo com HIV, mas o que vejo é que essa designação não serve mais de nada. Não me sinto diferente por ter HIV. Sei que não transmito o HIV, pois, quase involuntariamente, tomo os cuidados mais que necessários para não ser um transmissor. Não me incomodo mais em fazer os exames trimestrais. Sequer me lembro do vírus, mesmo na hora de tomar os antirretrovirais de cada dia. É tudo automático, simples e sem efeitos colaterais. Por isso, também, não me reconheço como uma “pessoa vivendo com HIV/aids”, ou PVHA, termo outorgado pelos ativistas para fazer lembrar que estamos vivendo, e o mais apropriado a ser usado em publicações, pelo governo e pela imprensa, a fim de que não nos ofendam ao se referir a nós.

Mas eu não sou ativista. E posso dizer que acho essa conversa sobre termos corretos uma grande balela. Preto ou negro, caucasiano ou branco, puta, prostituta ou profissional do sexo, gay ou homossexual, soropositivo, portador de HIV ou PVHA, não muda nada. São, sim, um grande engodo da era do politicamente correto, que tenta mascarar o estigma e o preconceito velados em diversas áreas por detrás de títulos que são nada além de mais bonitos. Nomes devem ser usados para fazer distinções úteis e nenhum desses acima é hoje eficiente nessa matéria.

Em algum momento no passado, PVHA foi útil. Fez lembrar às pessoas que quem tem HIV não está mais morrendo, tal como ocorria no início da epidemia, quando todos acabavam descriminados como “aidéticos”, pois inevitavelmente terminavam desenvolvendo a aids. Entretanto, há algumas décadas este não é mais o caso. Estamos, todos nós que nos cuidamos com antirretrovirais, vivendo muito bem, obrigado, e de forma saudável, já há algum tempo.

Hoje, quatro anos depois do meu diagnóstico, percebo que a trajetória de quem recebe o diagnóstico positivo para o HIV não é mais uma trajetória de superação do vírus — este, já está controlado. Ao invés disso, quem recebe agora o diagnóstico positivo para o HIV, encara uma trajetória de superação de um medo, o qual sequer precisaria existir mais. Esse medo não está diretamente ligado ao que o vírus é capaz de fazer, biologicamente, mas à representação imaginária que ele ganhou.

O HIV nos é apresentado com uma aura terrível, cruel e negativa. Um fardo a ser carregado pelo resto da vida. Um vírus de culpa e vergonha, por ter falhado, por ter feito sexo, pouco ou muito, vaginal ou anal, sem camisinha. Pior, quando nós, soropositivos, tomamos consciência da nossa transmissibilidade, percebemos que este é um vírus que tem o poder de trazer rejeição social ao seu portador. Também aprendemos que a camisinha previne totalmente o HIV, mas não por isso é capaz de evitar a discriminação.

Com isso tudo, quem é diagnosticado positivo para o HIV tem medo de ter diante de si uma inescapável vida de suplício. Medo de ser visto como diferente. Indo mais além, medo de que se esqueçam que são humanos. De onde vem tamanho peso?

Desde o século XIV, quando um navio se aproxima da costa trazendo pessoas com alguma doença que apresenta risco de transmissão, hastea-se uma bandeira amarela, que sinaliza o risco de contágio à bordo. É declarada a quarentena. Esse nome não tem origem na sua caixa postal de e-mail, onde ficam guardadas as mensagens spam, mas de quaranta giorni, que em italiano quer dizer 40 dias; embora hoje refira-se também ao isolamento imposto a portadores de algumas doenças transmissíveis durante qualquer que seja o período de transmissibilidade desta.

É o que vem sendo feito no caso do ebola. Enquanto você lê esse texto, pelo menos um bairro inteiro está sob quarentena na Libéria, assegurada pelo exército daquele país, que tem autorização para matar a tiros quem violar o perímetro demarcado por portões, barricadas e fios de arame enfarpado. Ali dentro, a comida e a higiene são escassas e os corpos dos defuntos, altamente transmissores do vírus, são empilhados lado a lado. Separar os doentes, mesmo que em condições desumanas, parece ser o mais humano a se fazer. Tal e qual Ensaio sobre a Cegueira.

Essa mesma prática se deu no século XVII, com os infectados pela peste na Europa, e no século passado, com os portadores de hanseníase, isolados por anos e anos em leprosários. Em Vigiar e Punir, Michel Foucault lembra que quem estava lá dentro era “excluído, separado e estigmatizado. Jogado, juntamente com seus irmãos sofredores, numa massa indiferenciada”. O Dr. Esper Kallás, meu médico, explica que “no caso do Ebola, isolar uma região inteira parece não funcionar. Ao contrário, pode piorar a situação, pois as pessoas começam a deixar o local ‘ilegalmente’, tornando o controle da epidemia ainda mais difícil.”

Mesmo que a quarentena coletiva não seja eficaz, nem útil e até contraprodutiva em alguns casos, ela tem um apelo imaginário muito forte. Traz a sensação de poder e controle sobre a doença — e sobre o doente — e também um sentimento de segurança para a população, completamente ignorante a respeito de controle epidemiológico e riscos de transmissão. Libéria, Guiné e Serra Leoa são os únicos países do mundo que atualmente sofrem com a epidemia de ebola e, por isso, viajantes oriundos destes três pequenos países do oeste africano já estão sujeitos à restrição de entrada nos Estados Unidos e em alguns países latino-americanos. No Brasil, onde não foi imposta a restrição de viajantes, a Anvisa mantém estado de alerta em portos e aeroportos.

Ainda que a epidemia de ebola esteja geograficamente delimitada e sejam bem conhecidas as formas de contágio deste vírus, o medo, mesmo infundado, prevalece: qualquer um que viaje para qualquer país da África ou que se pareça fisicamente com um africano pode sofrer discriminação, como tem acontecido nos Estados Unidos e no Brasil. Apesar dos enormes avanços na prevenção, controle e tratamento, o mesmo ainda se dá com o HIV, infinitamente mais estudado e conhecido do que o ebola. Desde meados dos anos 80, vários países ainda mantém leis segregatórias contra soropositivos, impedindo nossa entrada para turismo e residência.

É como se houvesse uma imposição velada de quarentena. É verdade, o isolamento de portadores de HIV nunca foi de fato imposto, mas também nunca foi de fato revogado. Nós, soropositivos, experimentamos algo mais sutil e constante. Inclui alguma semelhança com o requisito básico para a aceitação social do isolamento: as primeiras campanhas de prevenção ao HIV cumpriam a função de transferir o medo da doença para o medo dos portadores do vírus, retratados em peças publicitárias como animais peçonhentos. Não-humanos, mas bichos.

Talvez, essas assustadoras campanhas tenham mesmo tido um profundo impacto no imaginário coletivo, e até hoje nele permanecem, mais fortes do que a camisinha. Ou, quem sabe, o imaginário coletivo é que seja naturalmente predisposto a transferir o medo da doença para o doente, de forma automática. Medo que o mundo vire como o seriado Walking Dead. Seja como for, o que o mundo esquece é de olhar para o lado de quem está sob quarentena. Se o fizesse, talvez se sentisse mais seguro.

Um dos principais anseios experimentados por quem recebe o diagnóstico positivo para o HIV é o medo de transmitir. É o maior de todos os medos. Faz com que muitos soropositivos voluntariamente se isolem, proclamando suas próprias quarentenas, abandonando seus parceiros de sorologia discordante, soronegativos. Faz com que muitos redefinam sua identidade como eternos solteiros e solteiras. E faz com que passem a acompanhar de perto as notícias a respeito da pesquisa da cura, como se esta fosse a única salvação para seu isolamento.

Em algum momento, também pensei que ia ser assim comigo. Também tive medo da minha transmissibilidade e, por isso, não entendia porque meu médico insistia no contrário.

“— Você é um parceiro sexual seguro”, dizia ele.

Ainda assim, essa ideia me parecia mirabolante. Como é que eu poderia ser seguro o suficiente para não ter que hastear nem uma bandeirinha de quarentena? Algum risco, pensei, deve haver! E existe, precisamente quantificado: quem toma antirretrovirais e mantém carga viral, que é a quantidade de vírus no sangue, reduzida a níveis indetectáveis, tem o risco de transmissão reduzido em pelo menos 96%. Esta estimativa foi obtida em dois diferentes estudos, HPTN 052 e Partner, conduzidos em diversos países e endossada por consensos médicos americano, britânico, canadense e, mais recentemente, sueco.

Esses consensos traduzem essa estimativa matemática de risco de transmissão a partir de um soropositivo em tratamento e com carga viral indetectável como “negligenciável”, “mínimo” e “muito baixo”, de acordo com o tipo de sexo, oral, vaginal ou anal, e, no caso do consenso sueco, como “bastante reduzido” para o compartilhamento de seringas durante o uso de drogas injetáveis. Com camisinha e carga viral indetectável, os americanos afirmam que a redução no risco de transmissão é de 99,2%. Parece bastante! Mas será que isso é suficiente para poder me sentir totalmente seguro a respeito da minha transmissibilidade? Para responder à essa pergunta, me pareceu coerente fazer a comparação mais natural de todas; aquela que eu faria, se ainda fosse soronegativo:

“— Um parceiro sexual que faz o teste de HIV e tem resultado negativo é mais seguro do que eu”, disse eu ao Dr. Esper. “É o que dizem esses estudos, HPTN 052 e Partner.”

Nesse momento, o doutor fez que não com a cabeça.

“— Não, Jovem”, disse ele. “Acho que você entendeu errado a mensagem desses estudos. Você é mais seguro do que isso”, corrigiu o doutor. “Vou tentar explicar melhor. Em primeiro lugar, em ciência não existe nada 100% seguro. Em segundo, a margem de redução na transmissibilidade que observamos em pessoas como você, que têm HIV e cuidam da saúde, tomando antirretrovirais e mantendo a carga viral indetectável, é muito alta. Mais alta do que outros métodos de prevenção já observados. Por isso, sabemos que pessoas como você não transmitem o HIV, mesmo em caso de falha no uso da camisinha.”

“— Ainda assim, doutor, soronegativos não tem HIV…”

“— É verdade. Entretanto, eles correm um risco que você não corre mais: o de se tornar uma ‘pessoa de sorologia desconhecida’, um sorointerrogativo, que é um parceiro sexual potencialmente portador do HIV sem saber e, nesse caso, altamente transmissor do vírus. Sempre que um soronegativo fizer sexo desprotegido e, em seguida, não realizar o teste de HIV respeitando o período da janela imunológica, ele é um sorointerrogativo.

Você, por outro lado, é um indivíduo que sabe da sua sorologia positiva e que cuida da saúde, tomando antirretrovirais consistentemente. Por isso, mesmo em caso de falha no uso da camisinha, você está protegido de ser contaminado novamente pelo HIV, pois os mesmos remédios que você toma para controlar o vírus também funcionam como prevenção, e de transmitir o vírus, pois tem sua carga viral indetectável.

Nesse sentido, considerando o risco que os soronegativos têm, de se tornar sorointerrogativos, é, sim, mais seguro manter um relacionamento estável com uma pessoa como você, que vive com HIV, ciente da sua condição, diagnosticado e que se cuida, tomando os antirretrovirais, fazendo exames trimestrais e mantendo carga viral indetectável, do que com uma pessoa soronegativa, que eventualmente pode ‘pular a cerca’ sem camisinha e contrair HIV.

É importante salientar esse risco em soronegativos porque, nestes estudos que você mencionou, infecções ocorreram, sim. Em nenhuma delas a origem da transmissão veio do parceiro soropositivo que estava indetectável: todas se deram em situações em que o parceiro soronegativo teve uma relação desprotegida fora do relacionamento estável, provavelmente com alguém que este presumia ser ‘seguro’.”

“— O que esses estudos descobriram é impressionante!”

“— De novo, não é bem assim, Jovem. Ninguém descobriu nada. Quando saiu o resultado do HPTN 052, falei com o médico que coordenou o estudo, a fim de parabenizá-lo por sua fascinante descoberta. Afinal, este é um dos trabalhos na área de HIV mais citados e comentados desde sua publicação. Ele imediatamente me corrigiu e disse: ‘Esper, nós não descobrimos nada. Apenas confirmamos o que já era observado desde o início da epidemia'”.

Depois de uma breve pausa para que eu assimilasse o conteúdo, o doutor continuou:

“— Jovem, não existe, na história da epidemia, um único caso registrado de transmissão do HIV a partir de quem foi diagnosticado, faz tratamento e tem carga viral indetectável. Simplesmente isso não foi documentado na literatura médica até hoje. Ou seja: o controle da carga viral no sangue também controla a carga viral nas secreções genitais.”

“— Eu não apresento risco algum de transmitir HIV?”

“— Não. Só teria se parasse de tomar seus remédios.”

“— Então, doutor”, prossegui, depois de refletir por um instante. “O maior problema do HIV é um problema de imagem?”

O doutor assentiu com a cabeça.

“— Sim. A imagem que o HIV carrega é muito negativa, grave, pesada. E é isso o que mantém vivos o preconceito e a discriminação.”

Saí de seu consultório me sentindo feliz, mais leve. Certo de que não havia razão para manter hasteada em mim qualquer bandeira de quarentena. Mas foi nesse mesmo instante que uma voz ecoou na minha cabeça. Se era o advogado do diabo ou inconsciente coletivo, eu não sei. O fato é que, cada vez mais alta, ela questionava tudo o que eu acabara de aprender. “E se os estudos que concluíram tudo isso estiverem errados?”, dizia. “E se o doutor estiver errado?”

Diante disso, isto é, diante da constatada alforria do risco de transmissão ainda questionar irracionalmente tudo o que acabara de aprender, percebi que eu mesmo sofria com o imaginário temeroso do HIV. Concluí, triste, que ter HIV é viver enfrentando essa imagem negativa, mesmo que total e comprovadamente insubstanciada. Uma batalha constante, sempre que quem tem HIV contar para o outro, o que quase sempre quer dizer ter de convencê-lo de que não somos repugnantes, que não somos um monstro.

Apesar disso, o desejo de contar e ser compreendido prevalece. Queremos muito mudar a ideia das pessoas a respeito do HIV! Queremos poder falar sobre o vírus sem, com isso, causar medo, espanto e pânico. Sem assustar as pessoas e fazer com que nos olhem com dó ou desprezo. Queremos poder contar que temos HIV numa conversa normal, na mesa de um bar ou no café do trabalho, assim como um diabético conta que tem diabetes. O fim da quarentena de quem tem HIV e toma antirretrovirais já é cientificamente possível e, agora, é hora de ser socialmente aceito. Mesmo sabendo que não representamos perigo, é preciso que os outros reconheçam isso também. Mas alcançar essa mudança toda, certamente, é um obstáculo difícil!

Talvez, exatamente por conta dessa dificuldade, acompanhar de perto as notícias da pesquisa da cura seja tão importante para muitas das pessoas que vivem com HIV. É a única saída no horizonte. É como se o fim do vírus fosse mais provável do que o fim do estigma. Para estes, o verdadeiro dia da alforria será o dia cura, quando deixaremos para trás de vez o asqueroso vírus. Aliás, nem basta que seja qualquer cura: a cura “funcional”, em que o vírus continua no organismo, mas em quantidade tão pequena que é incapaz de se multiplicar e de ser infeccioso, não é suficiente. Embora a cura funcional do HIV já tenha sido alcançada em estudos com alguns pacientes, e, inclusive, referida como já sendo o nosso caso atual, o caso de todos os que tomam antirretrovirais consistentemente, ela não extirpa o responsável pelo imaginário aterrorizante. Portanto, não serve! É preciso que a cura seja “esterilizante”, quando cada pedacinho do micróbio é expurgado de cada uma das células, tal como obtido com o “Paciente de Berlim”, Timothy Ray Brown. Apesar de mais difícil para a ciência, e por mais que outros patógenos, como citomegalovírus, toxoplasmose e tantos outros, sigam na contramão dessa premissa, o sonho continua sendo esse: não ter mais nenhum sinal do vírus no organismo.

Os menos radicais, como eu, embora não deixem de desejar a cura também, estão satisfeitos com menos. Primeiro, com novas e inteligentes campanhas de prevenção do HIV e controle da epidemia, como a Help Stop the Virus, da Gilead Sciences.

Em segundo, mas não menos importante, com amplo reconhecimento e divulgação da análise dos resultados de estudos como HPTN 052 e Partner, ou mesmo outros estudos similares, onde, até agora, já foram analisados mais de 6 mil casais sorodiscordantes e a amostragem de transmissão a partir dos parceiros em tratamento e indetectáveis foi, literalmente, zero. Mas será que é possível explicar tudo isso à toda uma população?

Fazer alguém entender tudo isso parece algo distante demais. Me parece tal como afirmar que algumas das complexas teorias de Albert Einstein são hoje fatos comprovados: falar que o tempo é relativo, convenhamos, é quase compreendido como entretenimento! No fundo, quase ninguém vê a aplicação prática em suas vidas. Na mesma medida, o conhecimento leigo ainda está anos-luz atrás do que os médicos mais bem informados sabem sobre transmissibilidade do HIV. De tão distante, a própria campanha Help Stop the Virus prefere começar a explicar do zero e anuncia: “esqueça tudo o que você sabe sobre HIV”.

Então, comecemos do zero. E busquemos por algo mais simples. Quem sabe, algo capaz de resumir todo esse conhecimento num único termo, tal como PVHA fez no passado. No fim, a solução dos ativistas parece ser a melhor mesmo! Entretanto, será que é possível encontrar um termo capaz de contemplar a substanciada sensação de segurança que as pessoas já podem sentir diante de quem tem HIV e se cuida com antirretrovirais, na mesma medida – senão maior – do que a segurança que sentem com seus parceiros e parceiras de sorologia sabidamente negativa? Será que podemos difundir algo que os jornais, governos, blogs e, principalmente, as pessoas passem a usar, de maneira ampla e corriqueira, como o termo mais correto quando se referirem ao nosso caso: pessoas diagnosticadas com HIV e que cuidam da saúde? Será que é possível contar que tenho HIV e, ao mesmo tempo, não despertar medo e fazer entender que não represento um risco porque sou alguém que cuida da saúde e faz tratamento antirretroviral?

Pesquisando, descobri que não estou sozinho nessa busca. Pelo menos três campanhas já tentaram fazer isso. Uma delas, liderada pela organização canadense Aids Vancouver, chegou lá.

Nela, ao invés de procurar algo novo e revolucionário, usou um termo simples, comum e já conhecido por muita gente: indetectável, a nova face do HIV, a terceira condição sorológica. A condição de quem não transmite o vírus, porque cuida da própria saúde, tomando corretamente seus antirretrovirais. A condição de quem pode ser tratado por outros médicos a partir das mesmas premissas de um soronegativo, em quase todos os aspectos. A condição de quem tem expectativa de vida igual a de soronegativos. A meta de qualquer um que for diagnosticado positivo para o HIV. A condição de quem não precisa ser visto como perigoso. A condição de quem não precisa lembrar do vírus no seu dia-a-dia, pois sabe que este é apenas um vírus, e nada mais.

“— É bom esquecer o HIV?”, perguntou o Dr. Esper, em nossa última consulta.

“— É ótimo!”

O doutor, que me escutava enquanto prescrevia a receita de meus próximos exames, interrompeu o que fazia. Parou, olhou para mim por um instante, e disse:

“— Nos faz sentir humanos novamente. Não faz?”

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O consenso Sueco


Risco de transmissão do HIV em pacientes em terapia antirretroviral: uma declaração de posicionamento da Agência de Saúde Pública da Suécia e do Grupo de Referência Sueco para Terapia Antiviral

Resumo

O moderno tratamento médico para o HIV através da terapia antirretroviral (TARV) reduziu drasticamente a morbidade e mortalidade em pacientes infectados com este vírus. A TARV também tem mostrado redução no risco de transmissão a partir de pacientes individuais, bem como a redução da propagação da infecção em nível populacional. Esta declaração de posicionamento da Agência de Saúde Pública da Suécia e do Grupo de Referência Sueca para Terapia Antiviral é baseada em um seminário organizado no outono de 2012. Ela resume as últimas pesquisas e conhecimento sobre o risco de transmissão do HIV em pacientes em TARV, com foco no risco de transmissão sexual. O risco de transmissão via uso de seringa compartilhada entre usuários de drogas injetáveis também é analisado, assim como o risco de transmissão de mãe para filho. Com base no conhecimento atual, o risco de transmissão através de relações sexuais vaginais ou anais que envolvem a utilização de um preservativo têm sido julgadas como mínimo, desde que a pessoa infectada com o HIV preencha os critérios de TARV eficaz. Isso provavelmente também se aplica a relações sexuais desprotegidas, desde que não haja outras infecções sexualmente transmissíveis, embora até o momento não seja possível apoiar plenamente esta conclusão com evidência científica direta. Julga-se que a TARV reduza acentuadamente o risco de transmissão por via sanguínea entre pessoas que compartilham seringas. Por fim, o risco de transmissão de mãe para filho é muito baixo, desde que a TARV seja iniciada bem antes do parto.

Introdução

Em 2008, a Comissão Suíça de Aids anunciou que as pessoas infectadas com o HIV que estão em terapia antirretroviral eficaz (TARV) não devem ser consideradas infecciosas através do contato sexual, desde que certos critérios sejam preenchidos [1]. Isso chamou atenção considerável para a evidência científica para o risco de transmissão de pacientes em TARV. O assunto tornou-se tópico novamente em 2011, com o lançamento dos resultados do estudo HPTN 052 [2]. Este estudo acompanhou 1.763 casais discordantes em que um dos parceiros era HIV positivo e outro negativo para o HIV no início do estudo. Os casais foram inscritos entre 2007 a 2010 e randomizados em dois grupos de estudo: um no qual o parceiro soropositivo recebia TARV imediatamente, independentemente de seu estado imunológico, e um segundo no qual a TARV era iniciada mais tarde, se houvesse alguma indicação para o tratamento antirretroviral (ou seja, contagem de CD4 <250 células/ml de sangue). Todos os participantes receberam aconselhamento sobre o uso de preservativos. O estudo demonstrou que a TARV precoce foi associada com uma redução de 96% no risco de transmissão através do contato sexual, em comparação com o grupo que começaram TARV mais tarde. Isso confirmou os resultados de vários estudos observacionais anteriores. Estas descobertas levaram à amplas discussões científicas sobre como a TARV pode ser usada na prevenção da transmissão do HIV (o chamado tratamento como prevenção, TasP, do inglês treatment as prevention).

Num contexto de recentes descobertas científicas e discursos, vários grupos de especialistas, além dos suíços, publicaram suas opiniões. No Reino Unido, a Associação Britânica de HIV (BHIVA) e o Grupo Consultivo de Especialistas sobre Aids (EAGA) afirmaram que existe um risco extremamente baixo de transmissão por contato sexual em pessoas que estão com o vírus continuamente e totalmente suprimido por TARV, desde que nenhuma outra infecção sexualmente transmissível esteja presente [3].

Há também uma discussão paralela sobre a possibilidade de prevenir o HIV através da utilização em larga escala de profilaxia pós exposição (PEP) e profilaxia pré exposição (PrEP). A PEP descreve o início de TARV imediatamente após uma exposição ao HIV, com o objetivo de prevenir a transmissão, enquanto a PrEP envolve o tratamento preventivo de pessoas HIV negativas que têm um risco permanente ou recorrente de infecção.

O registro nacional sueco de qualidade, InfCare HIV, inclui mais de 99% de todos os casos de HIV conhecidos na Suécia. De acordo com o registro, 87% de todos os pacientes HIV positivos na Suécia recebiam TARV em 2012 (http://infcare.com/hiv/sv/resultat/2012-arsrapport/, em sueco). Destes, 92% tinham TARV eficaz, ou seja, uma carga viral plasmática <50 cópias de RNA do HIV/ml. À luz desta e das conclusões do estudo HPTN 052, há uma grande demanda por informações completas sobre as evidências mais atuais sobre o risco de transmissão de pacientes que estão em TARV eficaz. Há também uma necessidade de conhecimento sobre o risco de transmissão do HIV de pessoas que não estão em TARV e sobre as consequências médicas de longo prazo para as pessoas que vivem com a infecção pelo HIV.

Esta declaração de posicionamento Agência de Saúde Pública da Suécia e do Grupo de Referência Sueco para Terapia Antiviral é baseada em um seminário organizado no outono de 2012. Ela resume as últimas pesquisas e o conhecimento sobre o risco de transmissão do HIV de pacientes em TARV, com foco sobre o risco de transmissão sexual. O risco de transmissão via compartilhamento de seringas entre usuários de drogas injetáveis também é analisado, assim como o risco de transmissão de mãe para filho. O texto foi publicado online em sueco no site da Agência de Saúde Pública da Suécia, em Outubro de 2013, juntamente com os 9 artigos complementares (também em sueco).

Consequências médicas da infecção pelo HIV

  • A infecção pelo HIV ainda é uma doença séria e incurável que requer tratamento vitalício.
  • A expectativa de vida das pessoas infectadas pelo HIV nos países industrializados aumentou consideravelmente e está se tornando comparável às pessoas não infectadas.
  • Na Suécia, a infecção pelo HIV agora muito raramente leva à morte, se a infecção for diagnosticada a tempo de começar a TARV antes que qualquer imunodeficiência grave tenha desenvolvido.

A TARV moderna foi introduzida em 1996 e rapidamente levou à uma redução drástica, tanto na morbidade quanto na mortalidade causada pela infecção pelo HIV. Outras melhorias já foram obtidas, tanto no efeito antiviral e na redução de efeitos adversos, com implicações positivas para a experiência do paciente em TARV, quanto no impacto sobre a saúde relacionados com qualidade de vida [4].

Resistência aos medicamentos antirretrovirais podem surgir, mas, com poucas exceções, isso pode ser gerenciado através da troca de todas ou de algumas das drogas. Vários estudos têm mostrado que a esperança de vida dos doentes com HIV em países industrializados está aumentando e é agora próxima a do resto da população [5-7]. Uma razão importante para o remanescente de expectativa de vida encurtada é que, além de fatores ligados ao estilo de vida e status socioeconômico, alguns pacientes são diagnosticados numa fase tão tardia que a TARV não pode ser iniciada a tempo de ter um efeito [8]. Dados da InfCare HIV mostram que a mortalidade entre os pacientes HIV na Suécia é atualmente inferior a 1% ao ano (http://infcare.com/hiv/sv/resultat/2012-arsrapport/, em sueco). No entanto, a mortalidade é significativamente maior entre aqueles diagnosticados tarde na progressão da doença, ou seja, com imunodeficiência grave, e aqueles que foram infectados por meio do uso de drogas intravenosas.

Definição de terapia antirretroviral eficaz

Os seguintes critérios devem ser cumpridos para que a terapia antirretroviral da infecção pelo HIV possa ser considerada eficaz:

  • A carga viral de RNA do HIV no plasma sanguíneo deve ser continuamente <50 cópias/ml, verificada em duas medições sucessivas realizadas em um intervalo de 3-6 meses.
  • O paciente deve manter contínua alta adesão ao tratamento.
  • Monitoramento da carga viral e adesão ao tratamento devem ocorrer regularmente, de acordo com as diretrizes Referensgruppen för Antiviral Terapi (RAV), ou seja, 2-4 vezes por ano [9].

Além disso, não deve haver qualquer razão clínica ou epidemiológica para suspeitar da presença de qualquer outra infecção sexualmente transmissível em curso, uma vez que esta, teoricamente, poderia aumentar o risco de transmissão do mesmo quando a TARV é eficaz.

Carga viral plasmática baixa ainda detectáveis de até 500 cópias/ml é vista em um número limitado de pacientes com boa adesão ao tratamento e TARV eficaz. Quando a carga viral até este nível é detectada em uma única ocasião, ela é referida como “blip”. As causas de um blip podem ser tanto biológicas como relacionadas com a técnica de medição, mas geralmente não são uma indicação de aumento da replicação viral. Blips são vistos na maior parte dos pacientes com TARV eficaz nos quais a carga viral é medida frequentemente. Isso vale também para os pacientes que foram envolvidos no estudo HPTN 052 e outros estudos que formam a base para a avaliação do risco de transmissão do HIV durante TARV. Não há indicação de que os pacientes que receberam terapia eficaz que têm blips são mais infecciosos do que pacientes sem blips documentados. Uma pequena proporção de pacientes em TARV apresenta viremia de baixo nível continuamente identificável, ou seja, uma baixa presença de vírus no plasma (50-500 cópias/ml). Não há ainda dados suficientes para avaliar com toda a certeza o risco de transmissão desses pacientes, mas os dados disponíveis indicam que é muito baixo [10].

Avaliação do risco de transmissão por contato sexual

Os riscos de transmissão por meio de relação sexual vaginal e anal em casos de TARV eficaz são os seguintes:

  • Existe um risco mínimo de transmissão através de relações sexuais vaginais e anais, se o parceiro infectado pelo HIV está em TARV eficaz e um preservativo é usado durante toda a relação.
  • Há também um risco muito baixo de transmissão através do coito vaginal e anal, se o parceiro infectado pelo HIV está em TARV eficaz e um preservativo não é usado.
  • O disposto acima se aplica para cada contato sexual individual e em casos de contacto repetido ao longo de períodos mais longos (anos), independentemente de o parceiro infectado pelo HIV ser mulher ou um homem e independentemente de o parceiro infectado pelo HIV ser penetrante ou receptivo durante o ato sexual.

Com relação ao risco de transmissão através de relações sexuais vaginais, a avaliação acima é suportada principalmente pelo estudo prospectivo HPTN 052 [2], mas também por vários estudos observacionais. Uma meta-análise publicada recentemente com os resultados de seis estudos diferentes, que abrangem um total de 6.070 heterossexuais casais sorodiscordantes quando o parceiro HIV positivo mantinha TARV eficaz, calculou o risco de transmissão como sendo <0,01 para cada 100 pessoas-ano [11].

No grupo de tratamento do estudo HPTN 052 houve uma transmissão observada em, aproximadamente, 1.500 pessoas-ano, o que corresponde a um risco de transmissão de cerca de 1 por 150.000 contatos sexuais. Além disso, foi relatado que essa única transmissão observada ocorreu antes ou logo após o parceiro infectado pelo HIV iniciar TARV. Isto significa que os dados disponíveis não contradizem a Declaração Suíça, que diz que pode haver um risco inexistente (zero) de transmissão através de relações sexuais vaginais quando um paciente está em TARV eficaz. No entanto, o risco zero é impossível de ser demonstrado cientificamente. É provável que o risco de transmissão também seja mínimo em casos de TARV eficaz, mesmo quando um preservativo não é utilizado. No entanto, como o uso de preservativos foi incentivado no estudo HPTN 052, as evidências científicas disponíveis são insuficientes para suportar tal conclusão. Além disso, os preservativos são recomendados devido ao risco de transmissão de outras infecções sexualmente transmissíveis, as quais podem estar presentes na ausência de sintomas. Existe uma falta de conhecimento sobre o potencial de outros métodos de barreira para reduzir o risco de transmissão.

Além disso, o risco de transmissão é avaliado como muito baixo, mesmo se o tratamento não satisfaça inteiramente os critérios acima de TARV eficaz. Este baseia-se na redução do risco de transmissão de pelo menos 96% visto no estudo HPTN 052, embora a TARV eficaz tenha sido definida como uma carga viral <1000 cópias/ml, em vez de <50 cópias/ml. Além disso, 5% dos pacientes no estudo HPTN 052 tinham níveis de vírus >1000 cópias / ml. Esta conclusão também é apoiada por uma meta-análise dos resultados de vários estudos, abrangendo um total de 5.021 casais heterossexuais e 461 eventos de transmissão, em que não havia transmissões observadas em pacientes com carga viral abaixo de 400 cópias/ml [10].

Não existem estudos prospectivos que abordam diretamente o risco de transmissão através de sexo anal desprotegido de pacientes em TARV eficaz. A avaliação acima é, portanto, extrapolada de riscos que são melhor compreendidos. Por exemplo, em casos de infecção não tratada de HIV, o risco de transmissão por contato sexual é, em média, cerca de 10 vezes maior para o parceiro receptivo no sexo anal do que na relação sexual vaginal. O risco de transmissão é menor para o parceiro de penetração do que para o parceiro receptor. É provável que a TARV eficaz reduza o risco de transmissão através de relações sexuais anais com aproximadamente o mesmo grau visto através de relação sexual vaginal. Esta também foi a conclusão tirada recentemente por um comitê de especialistas da Organização Mundial da Saúde (OMS) [12]. Houve apenas um caso descrito na literatura em que a transmissão teria ocorrido entre dois homens, apesar do parceiro infectado pelo HIV estar em TARV eficaz [13]. A ausência de casos semelhantes na literatura médica internacional indica que a transmissão através de relações sexuais vaginais ou anais de pacientes em TARV eficaz é altamente incomum, já que, nestes casos, seria de grande interesse acadêmico, epidemiológico e clínico. Além disso, não há casos conhecidos na Suécia de transmissão sexual de pacientes que preenchem os critérios para TARV eficaz.

Risco de transmissão através do contato sexual oral em casos de TARV eficaz

  • O risco de transmissão através do contato sexual oral é avaliado como mínimo, se o parceiro infectado pelo HIV está em TARV eficaz.
  • Isto aplica-se independentemente do sexo ou tipo de contato sexual (heterossexual ou homossexual).

Não existem estudos sobre o risco de transmissão através do contato sexual oral, em que o parceiro infectado pelo HIV está sob TARV eficaz. No entanto, em casos de infecção não tratada do HIV, o risco de transmissão através do contato sexual oral é menor do que através de relações sexuais vaginais, o que fornece suporte para a avaliação acima.

O significado do RNA do HIV nas secreções genitais em casos de TARV eficaz

  • Baixos níveis de RNA do HIV são muitas vezes detectados nas secreções genitais de pacientes em TARV eficaz. No entanto, isto não foi demonstrado como sendo de significância para o risco de transmissão.

Vários estudos têm relatado encontrar níveis baixos, mas detectáveis, de RNA do HIV no sêmen e nas secreções cervicais de pacientes tratados com TARV que não têm níveis detectáveis de RNA do HIV em seu plasma sanguíneo [14,15]. No entanto, não foi estabelecido se estas pacientes são contagiosos. Cohen e seus colegas afirmam que os baixos níveis de RNA do HIV nas secreções genitais não são susceptíveis de afetar significativamente a capacidade de contágio, argumentando que alguns participantes do estudo HPTN 052 e estudos observacionais, provavelmente, também tinham baixos níveis de RNA do HIV em suas secreções genitais, mas a TARV ainda foi associada a um risco drasticamente reduzido de transmissão [16].

Avaliação do risco de transmissão de usuários de drogas injetáveis sob TARV eficaz

  • Com base nos dados disponíveis indiretos, acredita-se que o risco de transmissão do HIV entre usuários de drogas injetáveis é muito reduzido se a pessoa infectada pelo HIV está sob TARV eficaz.

Não existem estudos que fornecem uma resposta direta sobre o risco de transmissão através de equipamento de injeção, que é compartilhado entre usuários de drogas injetáveis, quando a pessoa infectada pelo HIV está em TARV eficaz. No entanto, dois estudos observacionais de British Columbia, no Canadá e Baltimore, EUA, indicam que a redução da carga viral a nível populacional, como resultado do aumento do uso de TARV, está associada a uma redução da incidência de infecções pelo HIV entre usuários de drogas injetáveis [17, 18]. Com base nestes resultados, Madeira e colegas concluíram recentemente que a TARV também é relevante para a prevenção da transmissão do HIV através de agulhas compartilhadas [19]. O risco de transmissão de outras infecções transmissíveis pelo sangue, tais como hepatite C, mantém-se inalterado, mesmo em casos de sucesso do tratamento do HIV.

Em resumo, é altamente provável que o risco de transmissão por via sanguínea do HIV entre usuários de drogas injetáveis seja reduzido significativamente se a pessoa infectada pelo HIV está sob TARV eficaz, mas a magnitude da redução ainda é incerta.

Avaliação do risco de transmissão do HIV de mãe para filho durante a gravidez e o parto

  • O risco de transmissão do HIV de mãe para filho é inferior a 0,5%, se a mulher grávida começar a TARV eficaz bem antes do parto [20].

O baixo risco de transmissão de mãe para filho e os recentes avanços no tratamento do HIV que estenderam a expectativa de vida e a melhoria da qualidade de vida fizeram com que mais mulheres infectadas pelo HIV estejam planejando ter filhos.

Embora a redução da fertilidade é provavelmente mais comum entre as mulheres infectadas pelo HIV, não são oferecidas atualmente a fertilização in vitro na Suécia, de acordo com as normas que regem a doação e utilização de órgãos, tecidos e células. A oportunidade para a fertilização in vitro já está disponível para as mulheres HIV positivas na Dinamarca e em vários outros países dentro e fora da União Europeia.

Referências

1. Vernazza P, Hirschel B, Bernasconi E, Flepp M. HIV-infizierte Menschen ohne andere STD sind unter wirksamer antiretroviraler Therapie sexuell nicht infektiös [HIV-infected people free of other STDs are sexually not infectious on effective antiretroviral therapy] Schweizerische Ärztezeitung. 2008;89:165–9.
2. Cohen MS, Chen YQ, McCauley M, Gamble T, Hosseinipour MC, Kumarasamy N, et al. Prevention of HIV-1 infection with early antiretroviral therapy. N Engl J Med. 2011;365:493–505. [PMC free article] [PubMed]
3. Filder S, Anderson J, Azad Y, Delpech V, Evans C, Fisher M, et al. Position statement on the use of antiretroviral therapy to reduce HIV transmission, January 2013: the British HIV Association (BHIVA) and the Expert Advisory Group on AIDS (EAGA) HIV Medicine. 2013;5:259–62. [PubMed]
4. Eriksson LE. Positivt liv. En internationell kunskapsöversikt om att undersöka livskvalitet och livssituation hos personer som lever med hiv. Sweden: Smittskyddsinstitutet; 2012.
5. Lohse N, Hansen AB, Pedersen G, Kronborg G, Gerstoft J, Sorensen HT, et al. Survival of persons with and without HIV infection in Denmark, 1995–2005. Ann Intern Med. 2007;146:87–95. [PubMed]
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9. Referensgruppen för Antiviral Terapi (RAV) Lippincott Williams: Wilkins; Antiretroviral behandling av HIV-infektion 2013.http://folkhalsomyndigheten.se/documents/projektwebbar/rav/rekommendationer/antiretroviral-behandling-hiv-v140210.pdf
10. Attia S, Egger M, Muller M, Zwahlen M, Low N. Sexual transmission of HIV according to viral load and antiretroviral therapy: systematic review and meta-analysis. AIDS. 2009;23:1397–404. [PubMed]
11. Loutfy M, Wu W, Letchumanan M, Bondy L, Antoniou T, Margolese S, et al. Systematic review of HIV transmission between heterosexual serodiscordant couples where the HIV-positive partner is fully suppressed on antiretroviral therapy. PLoS One. 2013;8:e55747. [PMC free article] [PubMed]
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20. Referensgruppen för Antiviral Terapi (RAV) Lippincott Williams: Wilkins; Profylax och behandling vid graviditet hos HIV-1 infekterade kvinnor, 2013.http://folkhalsomyndigheten.se/documents/projektwebbar/rav/rekommendationer/profylax-behandling-graviditet-hiv1-infekterade-kvinnor.pdf

 

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A política pode ajudar a controlar a epidemia de HIV/aids

Brasil Post
O controle da epidemia de HIV/aids sempre esteve muito ligado — senão totalmente dependente — à duas coisas: desenvolvimento científico e vontade política. O primeiro evoluiu muito, das dezenas de pílulas diárias com terríveis efeitos colaterais para o atual único comprimido diário de baixíssima toxicidade. O segundo, por sua vez, teve seus altos e baixos.

Diz-se, por exemplo, que se o ex-presidente americano Ronald Reagan tivesse sido mais enfático na resposta inicial contra a epidemia, no começo dos anos 80, é possível que esta nunca tivesse tomado proporções mundiais, tal como aconteceu. Desde a primeira publicação médica sobre a doença, em 1981, passaram-se anos até que Reagan mencionasse publicamente a aids pela primeira vez, em outubro 1987, e finalmente tomasse medidas para controlar a doença. Neste intervalo de seis longos anos, a imprensa já divulgava amplamente notícias sobre a epidemia e, mesmo assim, Reagan mantinha silêncio. Quando resolveu agir, os Estados Unidos já contava com quase 60 mil casos identificados de infecção naquele ano — 28 mil dos quais morreram. Desde então, estima-se que o HIV/aids já tenha matado 36 milhões de pessoas no mundo todo.

Com o avanço médico e científico, as mortes foram controladas. Cada vez menos pessoas morrem de HIV/aids e, por isso, passamos a contar os vivos: hoje, há 35,3 milhões de pessoas vivendo com HIV/aids no mundo todo. E a expectativa de vida daqueles que têm tratamento adequado já é muito semelhante à de pessoas que não vivem com HIV, com tendência a se igualar nos próximos anos. Para avaliar a epidemia, também é computada a taxa de incidência, isto é, o número de novas infecções. Para que a epidemia seja controlada precisamos impedir que novas infecções aconteçam.

As ferramentas médicas e científicas para isso já estão disponíveis. Sabemos, por exemplo, que é muito importante aumentar o número de testes realizados. Um exemplo prático é o caso de São Francisco, nos Estados Unidos, onde o aumento do número de testes de HIV reduziu o número de novas infecções. Com mais testes, as pessoas eventualmente diagnosticadas positivas para o vírus iniciam o tratamento mais cedo, o qual, bem-sucedido, reduz vertiginosamente a transmissibilidade, inclusive em casos de falha no uso da camisinha.

Esse entendimento, aliás, influiu diretamente na legislação americana: em julho deste ano o Departamento de Justiça americano publicou o “Guia de Melhores Práticas para Reformar as Leis Penais Específicas para o HIV e Alinhar com Fatores Cientificamente Comprovados”, a fim de acabar com as leis discriminatórias que ainda vigoravam em alguns estados daquele país e já levaram à cadeia centenas de soropositivos que não transmitiram o vírus a seus parceiros sexuais. Agora, ao invés de condenar soropositivos à prisão, a justiça americana está ordenando que busquem tratamento antirretroviral.

Mais recentemente, os Centros de Controle e Prevenção de Doenças americano (CDC, na sigla em inglês) lançaram uma nova campanha de HIV/aids exclusivamente focada no tratamento para o HIV, como meio eficaz para prevenir a incidência de casos de infecção. Em outras palavras, como diz a própria campanha do CDC: “O tratamento para o HIV funciona”. A ideia, com isso, é fazer com que as pessoas não tenham medo de fazer o teste de HIV e iniciar o tratamento, fundamental para reduzir a transmissibilidade.

Americanos, britânicos e canadenses já atualizaram suas diretrizes sobre a redução do risco de transmissão com o tratamento antirretroviral e vários países já adotaram a profilaxia pré exposição, que consiste no uso controlado dos medicamentos antirretrovirais para prevenir a eventual exposição ao HIV em populações vulneráveis, tal como recomendado pela OMS. Nesse quesito, infelizmente, o Brasil está para trás: o País ainda não fez uma diretriz que oriente seus profissionais de saúde sobre os últimos avanços científicos. Como consequência, as informações divulgadas são, muitas vezes, contraditórias e equivocadas, aumentando a desinformação sobre prevenção, teste e tratamento.

O País sempre foi exemplo na luta contra a aids, com tratamento universal e gratuito. Precisamos continuar assim e melhorar, acompanhando de perto os últimos estudos, aumentando o número de testes e cuidando melhor da distribuição de medicamentos, tão importante para estimular a adesão ao tratamento. É preciso acabar com as frequentes reduções no estoque de medicamentos que temos experimentado nos últimos anos e implementar o antirretroviral em único comprimido, prometido há vários anos e que ainda não chegou às farmácias do SUS. Também precisamos falar mais sobre HIV/aids para reduzir o estigma. Silêncio não funciona.

Ainda assim, Dilma Rousseff (PT), Marina Silva (PSB), Everaldo Pereira (PSC), Eduardo Jorge (PV) e Luciana Genro (PSOL) preferiram não falar nada sobre a epidemia de HIV/aids. Sequer responderam à pergunta: qual a sua proposta para combater a epidemia de HIV e aids no país?, feita pela Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids (ABIA) para a edição de setembro de seu Boletim. O único candidato que o fez foi Aécio Neves (PSDB).

Em seu discurso, Aécio vai ao encontro das últimas diretrizes da OMS, ao dizer que “os programas de prevenção abordarão temática atualizada, não preconceituosa e objetiva, com foco nos grupos mais vulneráveis diagnosticados através de inquéritos epidemiológicos realizados e divulgados em todo o país”. Sobre o número de testes, afirma que “o objetivo é reduzir o diagnóstico tardio através da disponibilização de testes rápidos”. Ele não se posiciona claramente sobre a profilaxia pré-exposição, mas abre espaço para conversa, dizendo que este é um assunto a ser “discutido pela academia, organizações não governamentais e governo sempre galgados em protocolos científicos e clínicos de desenvolvimento local e internacional.” Enfim, ele tem o meu voto.

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Podemos falar de alternativas de prevenção?


Aprender sobre métodos adicionais de prevenção do HIV não diminui uso de camisinha

Por Roger Pebody em 15 de setembro

Campanhas de saúde podem combinar informações sobre preservativos e métodos alternativos de prevenção biomédica sem prejudicar as atitudes e as intenções de usar preservativos, de acordo com um estudo experimental publicado na edição de setembro da Aids & Behavior.

“Nossos resultados são inconsistentes com a teoria da compensação de risco, que postula que o uso de uma abordagem de prevenção biomédica vai levar a atitudes e intenções menos positivas em relação ao uso de preservativos”, disseram os autores.

Normalmente, as mensagens de educação em saúde incentivam as pessoas a um único curso de ação, sem considerar opções alternativas. No entanto, uma abordagem de “prevenção combinada” pode incluir a defesa quanto ao uso de mais de um método de proteção. Há poucas pesquisas sobre como receber diversas mensagens de prevenção afeta a atitude e intenção de usar preservativos. Os preservativos continuam a ser uma forma particularmente barata e eficaz de prevenção da transmissão do HIV naqueles que estão satisfeitos em usá-los.

A partir disso, os pesquisadores realizaram um experimento em que homens homossexuais soronegativos assistiram à vídeos informativos sobre diversos métodos de prevenção. Quatro vídeos de prevenção do HIV foram desenvolvidos: um focando apenas na camisinha, outros apenas na PrEP (profilaxia pré-exposição), outro apenas na PEP (profilaxia pós-exposição) e um último apenas sobre microbicidas retais. Cada vídeo tinha um estilo semelhante, oferecendo uma gama semelhante de informações factuais sobre o custo financeiro do processo, da eficácia na prevenção da infecção, modo de operação, efeitos colaterais e impacto sobre o prazer sexual.

Os participantes do estudo foram distribuídos aleatoriamente para assistir a um único vídeo, uma combinação de dois vídeos ou todos os quatro vídeos juntos. Em seguida, os pesquisadores pediram aos homens para falar sobre a sua intenção de usar o(s) método(s) de prevenção do(s) qual(is) acabara(m) de receber informações sobre. Além disso, os entrevistados foram questionados sobre as vantagens e desvantagens de sexo com e sem preservativo.

Uma amostra de 803 homens homossexuais soronegativos foi recrutada através de publicidade direcionada pelo Facebook, nos Estados Unidos. Vale notar que os homens desta amostra relataram taxas relativamente altas de uso de preservativos — quatro em cada cinco disseram que sempre usaram preservativos com parceiros casuais no ano passado.

Os pesquisadores queriam verificar se ouvir falar de opções alternativas de prevenção faria com que as pessoas se sentissem menos favoráveis ao uso do preservativo. Os resultados foram muito reconfortantes: não houve diferença significativa entre os participantes em sua intenção de uso do preservativo ou em sua opinião sobre os preservativos, seus custos e benefícios, a partir dos vídeos que tinham sido vistos.

O mesmo se deu quanto à intenção do uso PEP, PrEP ou microbicidas retais. Ver informações sobre opções adicionais não fez diferença para a intenção dos homens em usar um método específico (por exemplo, um microbicida) ou foi associado a uma maior intenção de usá-los (PEP, PrEP).

Os resultados foram consistentes para os homens que relataram relações sexuais desprotegidas com parceiros casuais, e os homens que não o fizeram.

Os pesquisadores concluíram que “em resumo, nossos resultados sugerem não haver diferenças nas atitudes e intenções em relação ao uso do preservativo ou sexo desprotegido quando HSH [homens que fazem sexo com homens] recebem breves mensagens sobre preservativos e diversos métodos de prevenção biomédica”. Os pesquisadores acreditam que os resultados devem incentivar aqueles que pretendem disseminar informações sobre as opções de prevenção biomédica.

Referência
Mustanski B et al. Effects of Messaging About Multiple Biomedical and Behavioral HIV Prevention Methods on Intentions to use Among US MSM: Results of an Experimental Messaging Study. AIDS and Behavior 18: 1651-1660, 2014.

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Em desenvolvimento


Novos medicamentos em desenvolvimento trazem esperança a pacientes com HIV/aids

Washington, DC (10 de setembro de 2014) as empresas de pesquisa biofarmacêutica dos Estados Unidos estão atualmente desenvolvendo 44 medicamentos e vacinas para o tratamento e prevenção do HIV/aids, de acordo com os mais recente relatório Medicamentos em Desenvolvimento, feito pelo Pharmaceutical Research and Manufacturers of America (PhRMA). Um segundo relatório, um informe oficial da Boston Healthcare Associates, Inc. (BHA), patrocinado pela PhRMA , O Valor da Inovação na Terapia de HIV/aids”, destaca os progressos no tratamento de HIV/aids e seu impacto sobre os pacientes que sofrem com a doença.

Ambos os relatórios estão sendo lançados em conjunto com o Prêmio de Pesquisa e Esperança 2014 da PhRMA, que irá homenagear os pesquisadores e defensores dos pacientes pelo seu papel na melhoria da pesquisa e do tratamento de HIV/aids.

Vários avanços médicos têm ocorrido desde 1981, quando os Centros de Controle e Prevenção de Doenças identificou os cinco primeiros casos de HIV/aids. Desde que o tratamento antirretroviral (ARV) foi aprovado, em 1995, mortes relacionadas com o HIV/aids caíram em 83% nos Estados Unidos, resultando em uma queda de 32% em internações relacionadas ao HIV/aids. Estes medicamentos estão melhorando a assistência global para os pacientes e estão ajudando a evitar os custos associados ao tratamento da doença. De acordo com um estudo da Universidade de Chicago, os pacientes de HIV/aids hoje vivem 15 anos mais do que na década de 1980.

“Ao longo dos últimos 35 anos, o HIV/aids passou de uma sentença de morte para uma doença crônica, doença controlável em grande parte graças aos avanços da pesquisa biofarmacêutica“, disse o presidente e CEO da PhRMA John J. Castellani. Apesar do progresso que tem sido feito, os pesquisadores continuam a luta contra o HIV/aids e, com mais de 40 medicamentos a caminho, mais esperança do que nunca de que uma cura pode ser alcançada.

Atualmente, as empresas biofarmacêuticas estão focadas na melhoria dos regimes de tratamento, terapias mais eficazes e vacinas preventivas que estão tanto em estudos clínicos ou aguardando revisão pela Food and Drug Administration. Os 44 medicamentos e vacinas no caminho de desenvolvimento incluem 25 medicamentos antivirais, 16 vacinas e três terapias de células/gene. Estes incluem:

  • Medicamento com intenção de impedir o HIV de romper a membrana celular;
  • Terapia celular que modifica as próprias células do paciente, numa tentativa de tornar estas resistentes ao HIV; e,
  • Vacina terapêutica para a indução de respostas de células T, que desempenham um papel na proteção imunitária contra infecções virais.

Hoje, existem 94 estudos clínicos em andamento para medicamentos de HIV e vacinas nos Estados Unidos. Destes, 43 ainda não começaram a recrutar pacientes ou começaram recentemente a buscar participantes. As terapias que estão sendo pesquisadas envolvem inibidores de fixação, a modificação de gene e indução de respostas de células T, entre outros. O desenvolvimento de terapias novas e inovadoras não seria possível sem os pacientes que se voluntariam para participar em estudos clínicos. Estes estudos, em combinação com as novas abordagens científicas promissoras que os pesquisadores estão usando, colaboram com o progresso na luta contra a infecção pelo HIV.

De acordo com o relatório Valor da Inovação na Terapia de HIV/aids, os avanços no tratamento, incluindo o método de Profilaxia Pré-Exposição (PrEP), evoluíram ao longo do tempo, resultando em melhores resultados para os pacientes através do uso de medicamentos mais cedo e em combinação. Uma pesquisa recente revelou que muitas destas terapias são eficazes na prevenção da transmissão de vírus. Ambas diretrizes nacionais e internacionais recomendam o uso da PrEP de medicamentos como parte de um plano abrangente de prevenção do HIV em populações que são desproporcionalmente afetadas pelo HIV.

Para destacar a inovação e o progresso no tratamento do HIV/aids e ouvir as histórias inspiradoras dos vencedores Prêmio de Pesquisa e Esperança, a PhRMA realizará uma coletiva de imprensa no Capitol Visitor Center.

Sobre a PhRMA
A Pharmaceutical Research and Manufacturers of America (PhRMA) representa as principais empresas biofarmacêuticas inovadoras do país em pesquisa e biotecnologia, que são dedicados à descoberta e desenvolvimento de medicamentos que permitem que os pacientes vivam mais tempo, de forma mais saudável e mais produtiva. Desde 2000, as empresas associadas à PhRMA investiram mais de US$ 550.000.000.000 na busca de novos tratamentos e curas, incluindo uma estimativa de 51,1 bilhões dólares apenas em 2013.

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Novos anticorpos e vacinas


Um time de cientistas do NIH descobriu um anticorpo contra o HIV que se liga a um novo alvo no vírus

Uma equipe de cientistas liderada pelo NIH  descobriu uma nova vulnerabilidade na armadura do HIV, a qual uma vacina, outro regime ou tratamento preventivo poderia explorar. O local fica entre duas proteínas, gp41 e gp120, que se projetam para fora do vírus, aumentando o número de lugares conhecidos onde anticorpos amplamente neutralizantes (bNAbs) se ligam ao HIV. Este novo local recentemente identificado no vírus é onde um novo anticorpo encontrado pelos cientistas em uma pessoa infectada pelo HIV liga-se ao vírus. Chamado 35O22, o anticorpo é extremamente potente: impediu 62% das cepas conhecidas de HIV de infectar as células em laboratório, o que quer dizer que mesmo uma quantidade relativamente pequena foi capaz de neutralizar o vírus.

Em seguida, os cientistas descobriram que anticorpos semelhantes ao 35O22 são comuns em um grupo de pessoas infectadas pelo HIV, cujo sangue continha anticorpos que neutralizaram potencialmente uma ampla gama de cepas de HIV. Segundo os pesquisadores, isso sugere que pode ser mais fácil para uma vacina provocar o corpo a produzir o 35O22 do que alguns outros bNAbs conhecidos, que são menos comuns.

Uma vez que o 35O22 se liga apenas à partes da superfície do vírus que aparecem naturalmente no HIV, os cientistas acreditam que uma vacina que induza os anticorpos 35O22 precisaria imitar a forma natural do vírus, tanto quanto possível. Isso exigiria uma abordagem diferente do que a utilizada em muitas vacinas anteriores e experimentais contra o HIV, que incluíram apenas a partes superfície do vírus, em vez de uma estrutura que se parece com todo o vírus.

Além disso, relatam os pesquisadores, as cepas de HIV que 35O22 neutraliza complementa as cepas neutralizadas por outros bNAbs. Isto sugere que a indução combinanda do 35O22 com alguns outros bNAbs em uma vacina, PrEP ou tratamento poderia neutralizar a grande maioria das cepas de HIV encontradas em todo o mundo, de acordo com os cientistas.

ARTIGO:
J Huang et al. Broad and potent HIV-1 neutralization by a human antibody that binds the gp41-120 interface. Nature DOI: 10.1038/nature13601 (2014).
QUEM:
Anthony S. Fauci, M.D., director of the National Institute of Allergy and Infectious Diseases, part of NIH, is available for comment. Mark Connors, M.D., chief of the HIV-Specific Immunity Section of the NIAID Laboratory of Immunoregulation and the principal investigator of the study, also is available for interviews.


Cientistas recebem US$ 25 milhões para vacina que pode prevenir e curar o HIV

A Oregon Health & Science University (OSHU) recebeu uma doação de US$ 25 milhões da Fundação Bill & Melinda Gates para a pesquisa de vacinas contra o HIV, de acordo com uma declaração da OSHU. A vacina que está sendo pesquisada na OSHU, por uma equipe liderada pelo Dr. Louis Picker, pode, eventualmente, tanto prevenir a infecção pelo HIV como curar as pessoas infectadas pelo vírus.

Em 2013, a equipe da OSHU publicou seus resultados na revista Nature, os quais foram considerados um avanço potencial na pesquisa de vacinas contra o HIV. Eles criaram uma vacina por engenharia do citomegalovírus (CMV), que é um vírus comum encontrado na maioria dos seres humanos e primatas, para fazer expressar proteínas de vírus da imunodeficiência símia (SIV).

Após a vacinação de 16 macacos rhesus, os cientistas, em seguida, infectaram eles com uma forma altamente agressiva de SIV, que é o primo do HIV que pode causar a aids nos primatas. Nove dos macacos eliminaram o vírus. A vacina conseguiu produzir uma resposta imunológica sustentada a partir de células-T de memória eficaz, ou células CD8, que matam as células infectadas pelo SIV.

A doação de Gates vai ajudar a financiar a Fase I dos estudos clínicos para testar a segurança de uma versão de um protótipo humano da vacina em seres humanos. A doação também irá ajudar a financiar o desenvolvimento de uma versão otimizada da vacina para testes de eficácia em escala maior. Esta doação é focada principalmente na prevenção, mas a mesma tecnologia será aplicada para a cura.


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Vídeo

Não é sofrido viver com HIV?

Brasil Post

Há algumas semanas, fui abordado, por e-mail, por dois jornalistas da mais conhecida emissora de TV do país. Eles me convidavam a participar de um programa, no qual tratariam do tema da “aids nos dias de hoje”. Para isso, diziam, gostariam de entrevistar jovens que sofrem com os efeitos colaterais dos medicamentos antirretrovirais. Segundo eles, mesmo com os avanços no tratamento e uma vida normal, ainda existiria esta consequência do uso dos remédios contra o HIV. Mostrar isso, contar essa história de sofrimento constante após o diagnóstico, seria uma maneira de fazer um alerta para que as pessoas se cuidem, se previnam mais.

Embora eu tenha sofrido com efeitos colaterais no passado, recusei a entrevista, pois eu não mais sofro com isso. Quando fui diagnosticado positivo para o HIV, em outubro de 2010, eu tinha pouco conhecimento sobre o HIV e da vida de quem toma antirretrovirais. Sobre o HIV e aids, lembro que aprendi na escola, ouvi de meus pais e assisti na extinta MTV Brasil que era preciso usar camisinha, camisinha e camisinha. Essa era a única história que contavam, cujo final trágico em caso de falha em seu uso era o diagnóstico positivo. Recebido o resultado “reagente” para o teste de HIV, eu, claro, entrei em desespero. Eu não sabia qual era a história que se seguiria a partir dali, mas presumia que não seria nada agradável.

O primeiro médico infectologista que visitei, Dr. O., corroborou com essa presunção. Me explicou que os efeitos colaterais dos remédios que eu estava prestes a tomar eram quase que inevitáveis e, muitas vezes, tão fortes que poderiam me levar ao hospital. “Se isso acontecer, me dê uma ligada”, disse ele. Tomei os primeiros comprimidos de Kaletra e Biovir, a combinação de antirretrovirais sugerida pelo doutor, às 22h do dia 5 de janeiro de 2011. Às 22:30h, já corria para o banheiro, com dores abdominais indescritíveis e uma diarreia que jamais experimentara antes. Dias depois, fui sim parar no pronto-socorro, depois de acordar vomitando e vomitando, sem parar. Liguei, mas o doutor não atendeu. Noutra ocasião, defequei nas calças, enquanto andava na rua. Foram quatro meses, sob esta mesma combinação de remédios a qual o doutor insistia ser a melhor, de contínuo e constante sofrimento, traçando uma história condizente com a esperada por mim quando li “reagente” no papel do laboratório — afinal, não é sofrido viver com HIV?

Essa última pergunta foi feita meses antes por outra jornalista, de uma revista feminina de saúde do Grupo Abril, que me cedeu toda uma página para escrever sobre a vida com HIV. Era a edição de junho, mês do dia dos namorados. Meu texto foi integralmente reproduzido, tal como eu o escrevi, exceto seu final. O ponto de exclamação, digitado por mim, foi substituído por reticências, mudando completamente o sentido da última frase. Noutras palavras, o bom humor foi trocado por melancolia e, pior, bem no final do texto. Quando questionei a jornalista, sua resposta foi sincera: “nós nunca imaginaríamos que não seria sofrido viver com HIV.” Ainda assim, a exclamação não voltou. E, para que as reticências não ficassem, o acordo foi encerrar o texto sem a última frase.

É claro, durante toda minha história inicial com HIV, seria impossível ter usado exclamação. Mas aprendi que não precisava ser assim. Comecei a ler, pesquisar, escrever e acabei por mudar de médico. Conheci o Dr. Esper Kallás, meu infectologista atual. Sua primeira recomendação foi trocar meu coquetel “por um menos tóxico”. Mal sabia eu que era possível fazer essa troca, que havia outras opções de combinação de remédios e tampouco que poderia haver uma que não me causaria efeitos colaterais. Dito e feito. Em 24 horas após a troca dos meus medicamentos, a diarreia cessou. O enjoo sumiu. E a minha vida voltou ao normal.

Ainda demorou para que eu reescrevesse a minha história, compreendendo que havia espaço para bom humor e mais leveza. Hoje, percebo que o começo da minha história com o vírus foi enormemente influenciado pela única história que se contava do HIV e de quem vive com ele: uma história de medo, dor, tragédia e sofrimento. Hoje, aprendi que o diagnóstico positivo é difícil, sim, mas não é uma tragédia sem fim. É possível dar a voltar por cima e entender que a história que nos é contada repetidas vezes, a “oficial”, não é a única e está longe de ser a melhor.

É verdade também que a minha história não é a única história. Existem aqueles que, apesar de experimentar todas as combinações possíveis de coquetel, ainda assim sofrem com efeitos colaterais. Existem aqueles que, diagnosticados nas primeiras décadas da epidemia, já se tornaram resistentes aos medicamentos menos tóxicos, com menos efeitos colaterais, ou que, na pior das hipóteses, tiveram efeitos colaterais físicos irrecuperáveis, como lipodistrofia e danos neurológicos que causam dores constantes. Porém, a minha história é uma história real e representa a de muitas pessoas que vivem bem e com HIV. Sei que é uma história que ajuda quem foi diagnosticado a não cair em desespero e quem está com medo de fazer o teste de HIV a seguir em frente e fazê-lo logo.

Estamos numa nova era da epidemia de HIV/aids. É hora de mudar esta velha história que é contada por aí, de medo, culpa e sofrimento. A “aids nos dias de hoje” não é mais a dos efeitos colaterais, mas a da melhora no tratamento com um apenas um único comprimido por dia, da supressão do vírus no organismo para níveis indetectáveis, o que faz daqueles que vivem com HIV e tomam antirretrovirais como parceiros sexuais mais seguros do que parceiros de sorologia desconhecida, da expectativa de vida igual a de soronegativos, das alternativas de prevenção ao uso da camisinha, do fim do medo e da culpa pela falha em seu uso e da consciência que quem cuida da saúde, soropositivo ou soronegativo, deve se orgulhar disso, pois esta é a melhor forma de controlar a epidemia no mundo.

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