Tag Archives: efeitos colaterais

Como os medicamentos precisam ser muito fortes para impedir a multiplicação do HIV no organismo, podem causar alguns efeitos colaterais desagradáveis.

Entre os mais frequentes, encontram-se: diarreia, vômitos, náuseas, manchas avermelhadas pelo corpo (chamadas pelos médicos de rash cutâneo), agitação, insônia e sonhos vívidos. Há pessoas que não sentem mal-estar. Isso pode estar relacionado com características pessoais, estilo e hábitos de vida, mas não significa que o tratamento não está dando certo.

Alguns desses sintomas ocorrem no início do tratamento e tendem a desaparecer em poucos dias ou semanas. É importante saber que existem diversas alternativas para melhorá-los. Por isso, é recomendável que o soropositivo procure o serviço de saúde em que faz o acompanhamento, para que possa receber o atendimento adequado. Nesses casos, não recomenda-se a automedicação (pode piorar o mal-estar) nem o abandono do tratamento (causando a resistência do vírus ao remédio).

Além dos efeitos colaterais temporários descritos acima, os pacientes podem sofrer com alterações que ocorrem a longo prazo, resultantes da ação do HIV, somados aos efeitos tóxicos provocados pelos medicamentos. Os coquetéis antiaids podem causar danos aos rins, fígado, ossos, estômago e intestino, neuropsiquiátricas. Além disso, podem modificar o metabolismo, provocando lipodistrofia (mudança na distribuição de gordura pelo corpo), diabetes, entre outras doenças.

Grupo de patentes


Parcerias no futuro do tratamento do HIV

Postado 24 de julho de 2014 no blog da Aids 2014, por Greg Perry, Diretor Executivo do Medicines Patent Pool

A comunidade internacional já percorreu um longo caminho desde a primeira conferência sobre aids, em 1985. Embora ainda estejamos à espera de uma vacina eficaz contra o HIV e uma cura funcional, a inovação dos antirretrovirais (ARVs) e seu aumento de escala trouxeram uma mudança significativa na perspectiva da resposta global ao HIV/aids.

Ao longo dos últimos 31 anos, 29 novos químicos foram aprovados para o tratamento do HIV. A descoberta da terapia antirretroviral, apresentada na 11ª International Aids Conference (IAC), em 1996, foi um divisor de águas ao fazer do HIV/aids uma condição crônica e não mais uma sentença de morte. Em 2001, combinações triplas de dose fixa reuniram vários ARVs em esquemas de único comprimido. Agora, quando entramos na quarta década de HIV, podemos ver mais uma vez a promessa de novos medicamentos que ajudarão a melhorar os regimes de hoje, com drogas que parecem oferecer maiores barreiras contra resistência do vírus e melhores perfis de segurança. Ao longo dos últimos três anos, os reguladores aprovaram quatro novos ARVs e pelo menos mais um ARV está em fase final de desenvolvimento clínico.

Temos que garantir que esses novos medicamentos estejam disponíveis a preços acessíveis para os países em desenvolvimento o mais rápido possível. Historicamente, temos tido uma média de sete a nove anos para que as versões genéricas de um novo tratamento contra o HIV chegue nos países de baixa renda, após sua introdução nas nações industrializadas. Nossa organização, a Medicines Patent Pool (MPP), é um grupo de patentes que faz parcerias com empresas farmacêuticas para encurtar este cronograma. A MPP faz acordos de licenciamento que agora permitem que os fabricantes de genéricos possam produzir os medicamentos mais recentes, logo após a sua aprovação nos EUA e na Europa. Por exemplo, a nossa recente licença para o Dolutegravir, um novo e promissor inibidor da integrase, deve permitir que os genéricos entrem no mercado dentro de dois a três anos de sua aprovação inicial.

No campo do HIV pediátrico, não foi feito o suficiente para garantir que as crianças tenham o tratamento adequado. Embora o mundo tenha feito progressos significativos no aumento da escala do tratamento para adultos, apenas um quarto das 3,3 milhões de crianças que vivem com HIV no mundo em desenvolvimento têm acesso ao tratamento. Em parceria com a UNITAID e com a Drugs for Neglected Diseases initiative (DNDi), a MPP está trabalhando com várias partes interessadas a contribuir para superar esta lacuna, através do desenvolvimento de formulações amigáveis ao tratamento infantil, de acordo com o recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

A cada dois anos, a IAC oferece uma oportunidade para fazermos um balanço do nosso progresso e discutir os novos desenvolvimentos para melhorar a nossa resposta coletiva contra a aids. Na IAC 2014, vejo que há uma boa razão para ser otimista sobre as opções de tratamento de amanhã, mas apenas se trabalharmos em conjunto com outras organizações para quebrar as barreiras do acesso e disponibilidade em países mais atingidos pela epidemia.

Basta imaginar um futuro em que os efeitos colaterais do tratamento de HIV serão mínimos e raramente resultarão em abandono do tratamento; um futuro em que o custo não será mais um fator para garantir o tratamento mais adequado e em que os novos ARVs se tornarão disponíveis para as pessoas nos países mais pobres, pouco depois de terem sido lançados nos países mais ricos. Neste cenário, as crianças iriam tomar um medicamento simples e eficaz, uma vez ao dia e apropriado para sua idade e peso.

A história dos últimos 30 anos sugere que estas são previsões razoáveis. Com uma contínua e forte liderança, vontade política, mobilização da comunidade e parcerias adequadas com objetivos claros, podemos desenvolver e distribuir o tratamento de HIV certo e ao preço certo para os mais necessitados. Novos medicamentos animadores estão no horizonte e podem mudar a nossa forma de tratar o HIV, reduzindo os efeitos colaterais e melhorando os resultados do tratamento, a um custo mais acessível. Esse futuro está claramente ao nosso alcance. Basta que os interessadas redobrem seu esforço.


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Coinfecção por hepatite C pode ser curada


Sofosbuvir + Ribavirina cura hepatite C em mais de 80% das pessoas com HIV e coinfecção por HCV

Por Liz Highleyman em colaboração com hivandhepatitis.com

Jean-Michel Molina apresenta os resultados do PHOTON-2. Foto por Liz Highleyman, hivandhepatitis.com

Um regime livre de Interferon, composto por Sofosbuvir e Ribavirina por 24 semanas, levou a uma resposta virológica sustentada contra hepatite C em 84 a 89% das pessoas soropositivas com genótipos da hepatite C crônica 1, 2, 3 ou 4, de acordo com os resultados da fase 3 do estudo PHOTON-2, apresentado na segunda-feira na 20ª Conferência Internacional de Aids (Aids 2014), em Melbourne, na Austrália. As taxas de cura foram menores, no entanto, para os pacientes com genótipo 1a e cirrose hepática.

As pessoas com HIV e coinfecção com o vírus da hepatite C (HCV) experimentam uma progressão mais rápida da doença hepática, do que pessoas apenas com hepatite C, e não respondem bem à terapia à base de Interferon. Antivirais de ação direta que têm como alvo diferentes etapas do ciclo de vida do HCV oferecem uma perspectiva de tratamento mais curto, com menos efeitos colaterais e maiores taxas de cura para pessoas com HIV e coinfecção com HCV, bem como para as pessoas com monoinfecção por HCV.

Jean-Michel Molina, da Universidade de Paris Diderot, apresentou dados da fase 3 do estudo PHOTON-2, que incluiu 274 pessoas com coinfecção na Europa e na Austrália. A maioria dos participantes (81%) eram homens e a média de idade foi de 47 anos. Os genótipos de HCV mais comuns eram 1 (41%) e 3 (39%), seguido de 4 (11%) e 2 (9%). A maioria das pessoas com o genótipo 1 tinham um genótipo de mais difícil tratamento, o subtipo 1a.

A maioria dos participantes (80%) não tinham sido tratados anteriormente para hepatite C. No geral, 20% tinham cirrose (13% dos não tratados previamente, chegando a 45% dos já tratados previamente). Quase a metade tinha uma variante favorável, o gene IL28B CC.

Quase todos os participantes do estudo estavam em terapia antirretroviral supressiva estável para o HIV e a contagem média de células CD4 era de cerca de 600 células/mm³. Os antirretrovirais mais comumente utilizados foram: Efavirenz (também na coformulação Atripla) em 25%, Raltegravir em 23%, Darunavir acrescido de Ritonavir em 21% e Atazanavir reforçado em 17%. Todos usavam a combinação de  inibidores da transcriptase reversa Renofovir e Emtricitabina (as drogas do Truvada). Os primeiros estudos não encontraram interações medicamentosas clinicamente relevantes entre Sofosbuvir e estes antirretrovirais. O Sofosbuvir já está aprovado na Europa e nos EUA para pacientes coinfectados.

Todos os participantes receberam Sofosbuvir, um inibidor de polimerase do HCV fabricado pela Gilead Sciences, 400mg uma vez ao dia, mais Ribavirina, entre 1000 a 1200mg ao dia, de acordo com o peso. Um pequeno número de participantes com genótipo 2 (19 pessoas), não tratados previamente, foram tratados durante 12 semanas, enquanto todas as pessoas com experiência de tratamento e todas as pessoas com os genótipos 1 ou 4, mais difíceis de tratar, foram tratadas durante 24 semanas.

A taxa de resposta virológica em 12 semanas após o término do tratamento (SVR12) foi de 85% para as pessoas com o genótipo 1, 88% para aqueles com genótipo 2, 89% para o genótipo 3 e 84% para o genótipo 4. As taxas de recaída foram de 13%, 8% , 9% e 16%, respectivamente. Uma pessoa com genótipo 3 experimentou avanço viral durante o tratamento.

Entre os participantes com genótipo 1, as taxas de resposta foram maiores para as pessoas que não apresentavam cirrose hepática (88% do total, 87% para o subtipo 1a e 100% para o subtipo 1b), em comparação com aqueles com cirrose (65%, 62% e 75 %, respectivamente). A presença de cirrose foi o único fator de risco significativo para uma pior resposta.

Para as pessoas com outros genótipos, a cirrose teve menos impacto, embora os efeitos do tratamento tenham sido um pouco maiores para as pessoas experientes em tratamento, em comparação aos participantes virgens de tratamento com genótipos 2 ou 3.

As taxas de resposta não diferiram significativamente entre os subtipos 1a e 1b de HCV, mas o número com o último tipo era pequeno. Da mesma forma, havia muito poucas pessoas que não tomam a terapia antirretroviral, o que impede uma análise separada.

Olhando para os resultados relacionados com o HIV, quatro pessoas experimentaram um discreto e intermitente aumento da carga viral do HIV, mas nenhuma necessitou de modificação em seu regime antirretroviral. A contagem de células CD4 temporariamente aumentou durante o tratamento para hepatite C, mas as porcentagens de CD4 se mantiveram estáveis.

Em geral, a combinação de Sofosbuvir e Ribavirina foi segura e bem tolerada. Seis pessoas sofreram efeitos colaterais graves e três interromperam o tratamento mais cedo devido a isso.

Os efeitos colaterais mais frequentes entre as pessoas tratadas por 24 semanas foram fadiga (20%), insônia (17%), cefaléia (16%), náusea (15%) e diarreia (11%). Uma em cada cinco pessoas desenvolveram anormalidades laboratoriais grau 3-4, em geral, com níveis elevados de bilirrubina entre as pessoas que tomam Atazanavir. 10% desenvolveram baixos níveis de hemoglobina — um efeito colateral conhecido da Ribavirina. Apenas uma pessoa teve anemia grave.

Os pesquisadores concluíram que “Sofosbuvir + Ribavirina resultou em altas taxas de conclusão do tratamento por pacientes coinfectados com HIV e genótipos 1, 2, 3 ou 4 de HCV. O Sofosbuvir foi bem tolerado, com uma baixa taxa de interrupção do tratamento devido a efeitos colaterais.”

Os resultados do PHOTON-1 foram publicados esta semana no Journal of the American Medical Association. Este estudo testou os mesmos regimes em pessoas com HIV e coinfecção pelo HCV. No entanto, foi conduzido nos EUA e tinha uma diferente distribuição de genótipos, o que permitiu uma outra comparação de subgrupos. Pouco mais de metade tinha o genótipo 1 (79% com 1a), enquanto o restante estava dividido mais ou menos uniformemente, entre os genótipos 2 e 3.

Como relatado anteriormente, na Conferência sobre Retrovírus e Infecções Oportunistas (CROI) deste ano, a taxa de término do tratamento para as pessoas com o genótipo 1 foi de 76%. Entre aqueles com genótipo 2, as taxas de resposta foram semelhantes para as pessoas sem tratamento prévio, tratadas por 12 semanas, e para as pessoas com experiência em tratamento, tratadas durante 24 semanas (88% e 92%, respectivamente). Entre aqueles com o genótipo 3, no entanto, os pacientes não tratados previamente que fizeram o tratamento de menor duração tiveram uma menor taxa de resposta (67% vs 94%).

As taxas de resposta nos estudos PHOTON não são particularmente impressionantes em comparação com as taxas de 90-100% vistas em vários outros estudos recentes, livres de Interferon. O Sofosbuvir funciona melhor quando combinado com outros medicamentos antivirais de ação direta, como os inibidores de NS5A, Ledipasvir ou Daclatasvir, os quais se espera que sejam aprovados em breve. Uma desvantagem do Ledipasvir é que ele não tem uma atividade potente contra os genótipos de HCV 2 ou 3.

Molina sugeriu que Sofosbuvir mais Ribavirina pode ser uma boa opção para pessoas que têm HIV e coinfecção com HCV, com genótipo 2 ou 3 do HCV, e que não têm cirrose hepática. “A Ribavirina é genérico”, observou ele, e esta combinação “pode ​​ser atraente em lugares onde você não tem acesso a todos os novos medicamentos.”

Em uma sessão separada para discutir a revolução do tratamento da hepatite C e sobre como tornar estes avanços recentes disponíveis em todo o mundo, Andrew Hill, da Universidade de Liverpool, e outros, notaram que as drogas pangenotípicas — que agem contra vários genótipos do HCV — podem não precisar de testes de genotipagem, o que reduziria o custo total do atendimento.

Referências:
Molina JM et al. All-oral therapy with sofosbuvir plus ribavirin for the treatment of HCV genotypes 1, 2, 3 and 4 infection in patients co-infected with HIV (PHOTON-2). 20th International AIDS Conference, abstract MOAB0105LB, Melbourne, 2014.
Veja o sumário no site da conferência.
Sulkowski M et al. Sofosbuvir and ribavirin for hepatitis C in patients with HIV coinfection. JAMA 312:353-361, 2014.

No entanto, o preço proposto pela Gilead Sciences para os medicamentos contra a hepatite C provocou protestos na Aids 2014. O preço nos EUA é de US$ 1.000,00 por pílula, equivalente a pelo menos US$ 84.000,00 pelo tratamento completo. A Universidade de Liverpool, no entanto, afirma que o tratamento completo poderia custar apenas pouco mais de US$ 100,00.

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A cura e os reservatórios latentes de HIV


Caso da bebê do Mississippi abre uma nova porta na pesquisa da cura do HIV

em 20 de junho de 2014

Anthony F. Fauci é diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas no National Institutes of Health.

Avanços espetaculares no tratamento de HIV/aids têm salvado milhões de vidas ao redor do mundo. Hoje, alguém com 20 anos de idade que seja infectado pelo HIV e comece a tomar medicamentos anti-HIV pode ter uma expectativa próxima do normal. Este sucesso estrondoso é moderado pelo fato de que estas drogas que salvam vidas não curam. Embora o vírus possa ser suprimido, ele não pode ser eliminado do organismo.

Isso traz enormes implicações econômicas, pois 35 milhões de pessoas vivem com HIV e milhões continuam a se infectar a cada ano. Além disso, as drogas anti-HIV apresentam um grau variável de efeitos colaterais por conta de sua toxicidade, o que faz com que seja difícil para muitas pessoas aderir ao tratamento vitalício. Daí vem a questão: o HIV pode ser curado? Isto é, uma pessoa cujo tratamento suprimiu o vírus a níveis indetectáveis pode descontinuar o tratamento sem que o vírus reapareça?

Uma das principais razões que faz com que o HIV continue incurável é a de que, assim que a pessoa é infectada, forma-se um reservatório de células infectadas pelo HIV, as quais podem estar escondidas em diversas localizações ao longo do corpo, tais como os gânglios linfáticos, intestino e até mesmo o cérebro.

Embora os medicamentos possam suprimir o HIV, o vírus escondido nestas células latentes reaparece se o tratamento for interrompido. Infelizmente, muitos adultos não sabem que estão infectados por meses ou anos, altura em que o lastro de células infectadas pelo HIV já é grande. Pesquisadores estão trabalhando para erradicar este reservatório, ou ao menos diminuí-lo. Uma teoria é a de que o tratamento logo após a infecção pode impedir a formação dos reservatórios ou, quem sabe, torná-los suscetíveis à eliminação.

O caso da “bebê do Mississippi” reforça essa teoria. Ela nasceu prematuramente numa clínica no Mississippi em 2010, a partir de uma mãe soropositiva que não recebeu tratamento anti-HIV durante a gravidez. Se uma mãe soropositiva é tratada adequadamente durante a gravidez e o parto, a quantidade de vírus no sangue é suprimida para abaixo dos níveis detectáveis e a chance dela transmitir o vírus ao bebê é menor do que 1%. Infelizmente, isso não aconteceu nesse caso.

Soropositivo desde 1981, Michael Deighan, co-dono da gráfica Nightsweats & T-cells, exibe as pílulas que toma diariamente para combater a doença. (AMY SANCETTA/ASSOCIATED PRESS)

Consequentemente, a bebê recebeu um agressivo tratamento anti-HIV quando tinha 30 horas de idade. Alguns dias depois, testes de alta sensibilidade confirmaram que ela havia sido infectada ainda no útero. A bebê foi mantida em terapia anti-HIV por 18 meses, mas o tratamento foi descontinuado quando a mãe interrompeu temporariamente suas visitas de acompanhamento. Ainda assim, quando a criança foi avaliada cinco meses depois, o HIV não foi detectado. A criança, hoje com 3 anos, continua sem apresentar sinais da infecção mesmo sem tomar remédios anti-HIV, levantando esperança de que uma cura tenha sido alcançada.

Este resultado notável aconteceu quase que por acidente, graças a um astuto pediatra que determinou que a recém-nascida estava sob alto risco de infecção e, com isso, tomou a decisão ousada de colocá-la imediatamente sob a terapia completa de drogas anti-HIV. Em geral, recém-nascidos de mães soropositivas não tratadas recebem doses menores de drogas anti-HIV para prevenir a infecção. Isso é feito com objetivo de evitar a exposição desnecessária da maioria dos recém-nascidos que não foram infectados — em torno de 75% — às possíveis toxicidades de uma terapia mais poderosa. O senso comum vinha ditando que evitar regimes mais tóxicos em bebês não infectados superava os benefícios da terapia agressiva nos infectados, uma vez que entendia-se que, de qualquer maneira, eles não seriam curados.

No entanto, a provável cura observada no caso do Mississippi mudou essa relação custo-benefício e trouxe importantes perguntas para os pesquisadores. Teria sido um desfecho animador num caso isolado? Ou será que fornecer terapia ideal e imediata a recém-nascidos sob risco de infecção traz a possibilidade de cura, ao evitar que o HIV crie um lastro permanente?

A possibilidade de alcançar a cura de milhares de crianças é importante demais para não ser buscada vigorosamente. O National Institutes of Health vai em breve lançar um ensaio clínico controlado em 12 países, incluindo os Estados Unidos. O estudo tem como objetivo replicar os resultados obtidos com a bebê do Mississippi em outras crianças expostas ao HIV ainda no útero. É esperado que este estudo prove que o tratamento imediato de recém-nascidos infectados pelo HIV pode protegê-los de uma terapia anti-HIV vitalícia, além de aumentar o entendimento sobre como buscar a cura em adultos, particularmente aqueles que são tratados no início de suas infecções.

Enquanto isso, precisamos trabalhar ainda mais para alcançar todas as mulheres infectadas pelo HIV, especialmente as grávidas, com tratamento e cuidado de saúde — tanto para elas quanto para qualquer criança que estejam esperando.


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O que eu gostaria de ouvir quando eu conto que tenho HIV

Brasil Post

Quando um soropositivo contar a você que tem HIV, saiba, esse é um momento muito calculado. Muitas vezes, vem depois de um dilema, pois esse é um assunto que fica no limiar entre falar do íntimo e o temor do preconceito e da discriminação. Não é uma equação simples: pesamos o momento certo, o lugar certo e a pessoa certa para contar.

Quando revelei ter HIV a amigos mais próximos, alguns queixos caíram. Mas em seguida, carinhosos, eles se limitaram a perguntar: “Você está bem?” E nada mais. Nada além do que precisa ser dito para quem porta uma doença que, com o devido cuidado, é plenamente tratável e não mais letal. No entanto, no que diz respeito a relações amorosas, a coisa muda de figura. Quase todas as mulheres a quem contei ser portador do HIV optaram por seguir com o relacionamento que começava, sim, mas somente depois de algum tempo de digestão da notícia que eu revelara. A duração desse tempo de digestão é que costuma variar.

No primeiro caso, M., uma linda jovem de 24 anos precisou de uma semana de lágrimas e emoções intensas para me dizer “Desculpe, eu não consigo!” e um mês para mudar de ideia e me ligar de surpresa dizendo “Vamos para a cama agora! Mas será essa a única vez que iremos transar!”, me deixando então tão nervoso que acabei broxando nos finalmentes de nossa pouco romântica noite de núpcias. No segundo caso, R., uma empresária de 30 anos, estressada em meio ao caos dos papéis de seu divórcio, precisou de apenas uma tarde. Depois da revelação, saiu para caminhar e voltou com a decisão tomada:

“– Fui ao parque, caminhei e voltei. Hora alguma pensei em não ficar com você. Ao contrário, pensei no que poderia fazer para que tudo desse certo.”

Ainda assim, ela continuava assustada. Não sabia o que poderia fazer diante da situação. Chegou a sugerir que imaginava que a única saída seria a abstinência sexual. De olhos arregalados, olhou para mim e lamuriou:

“– E eu achando que meus problemas com o divórcio eram grandes. Agora tudo o que me preocupava tem um peso bem menor!”

“– Bom”, respondi sorridente, “Então, não há de quê!”

O curioso é que, embora o tempo que cada uma precisou para digerir a notícia tenha sido diferente, as perguntas que elas dispararam logo depois que eu contei ter HIV foram incrivelmente idênticas e na exata mesma ordem! Perguntaram sobre meu estado de saúde, a origem da minha infecção, meu tratamento, os riscos de transmissão e o que elas deveriam fazer para que o sexo comigo fosse seguro. Por último, perguntaram sobre como deveriam fazer para ter filhos comigo. Como a maioria dos homens, eu, claro, quase desmaiei quando escutei isso! Filhos era a última coisa que passava pela minha cabeça.

Fosse mais fraco, acho que morreria do coração. Aliás, dizem os médicos que soropositivos têm risco discretamente maior de sofrer de problemas cardíacos do que soronegativos não-fumantes (em fumantes esse risco é muito maior que em soropositivos). A explicação é que o vírus causa um processo inflamatório mínimo, porém constante, enquanto o uso vitalício dos antirretrovirais pode aumentar o colesterol, glicemia e triglicérides. Mas acho que as pesquisas que concluíram isso não levaram em conta que ter que se deparar com uma pergunta sobre filhos a cada revelação da sorologia é o que faz essa taxa de problemas cardíacos ser moderadamente mais alta em soropositivos.

Outra coisa a ser levada em conta é que o stress no ato de revelar a sorologia é realmente muito alto — para ambas as partes, é verdade. No que diz respeito à perspectiva de uma pessoa que vive com HIV, é simplesmente impossível prever a reação de seu parceiro ou parceira diante da relevação da sorologia. E é isso o que nos deixa apreensivos, com medo e, na maioria das vezes, optantes pelo sigilo e discrição. A verdade é que nunca sabemos se ao revelar, após observarmos o tradicional movimento do queixo caindo, a sequência será de pânico, choro ou daquele assustado olhar que continua perguntando: “e agora?!”

O fato dessa reação ser quase sempre a mesma é que mostra o quão defasado está o conhecimento leigo daquilo que os médicos (e os pacientes mais informados) já sabem sobre os riscos de transmissão do HIV. Afinal, o “e agora?!” já está respondido pela ciência, e inclui aquilo que tenho escrito nos meus últimos textos. Entretanto, o que nós soropositivos percebemos é que a maior parte das pessoas simplesmente não sabe de nada disso. E temos que explicar como é a vida de alguém que vive com HIV hoje e sobre os riscos de transmissão a cada vez que resolvemos falar que temos o vírus.

Percebemos também que explicar isso não extingue o medo. Mas diminui. Ou limita-o para onde deve estar, sem paranoias e exageros. Melhor ainda, a informação oferece as ferramentas para que o preconceito seja extinguido. Digo isso porque R., a empresária que mencionei acima, mesmo depois de meu explicativo e até descontraído discurso, ainda sentiu medo. E esse medo só sumiu quando ela ouviu de um amigo a quem resolveu consultar, um jovem médico residente em infectologia. Ele, por acaso, iniciou a conversa com a resposta tão esperada por todo soropositivo. Aquela que tanto gostaríamos de ouvir depois de revelarmos nossa sorologia a quem quer que fosse:

“– Tem HIV, e daí? É só usar camisinha. E você já ia usar camisinha de qualquer forma, não ia?”

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Por que há tanto medo do HIV?

Outro dia, enquanto andava de metrô, escutei um casal conversando. Um deles dizia:

“– Hoje os jovens não usam mais camisinha porque ouvem dizer por aí que para o tratar o HIV basta tomar uns remedinhos.”

Vamos por partes. Antes, é importante lembrar que, no Brasil, a tendência de aumento nas taxas de diagnóstico não se concentra apenas entre jovens de 15 a 24 anos, mas também em adultos com 50 anos ou mais. Isso mostra que os medicamentos para disfunção erétil devem estar funcionando! Mas será que sugere que o medo do HIV realmente sumiu? Eu acho que não.

Acho que o medo continua, e ele não é (mais) capaz de conscientizar sobre o uso do preservativo. Nos dias de hoje, assustar não adianta. É preciso informar. Falar a real. E muito claramente.

Digo isso porque quando eu não usei camisinha, não fiz isso consciente de como era a vida de um soropositivo. Então, eu não sabia se bastaria tomar uns remedinhos ou não. Sequer sabia que havia remédios para o HIV, quais são e o que eles fazem. As aulas de educação sexual que tive na escola nunca me explicaram isso, mas apenas se detinham sobre o uso da camisinha. Então, a verdade é que eu simplesmente não pensava no vírus e nem nas suas implicações. Só fui fazer isso depois do diagnóstico.

Então, quase sem conhecimento algum, quando li “HIV positivo” no resultado do meu teste eu tive um choque. Morri de medo do HIV — ou, melhor dizendo, morri de medo dele me matar! Mas aprendi que não precisa ser assim. Com o passar do tempo, fui percebendo que eu tinha muitos mitos e preconceitos sobre o que era o HIV, a aids, o tratamento, o diagnóstico e até mesmo a prevenção. Concluí que era interessante aprender sobre tudo isso para compreender sobre a minha condição e, também, para explicar às pessoas a minha volta. E é isso o que faço aqui.

Na minha experiência como soropositivo entendi que o HIV, em todos os seus aspectos, está muito ligado à duas constantes: o cuidado e o tempo. O medo do HIV diminui, se é que não some por completo, quando entendemos que os problemas surgem se essas duas constantes não forem respeitadas. Aliás, elas estão presentes em todas as etapas relacionadas ao vírus: prevenção, diagnóstico e tratamento.

Na prevenção, como sabemos, o principal cuidado é a camisinha. O uso dela torna o sexo seguro. No entanto, em situações excepcionais em que ocorrer falha, rompimento ou não uso da camisinha durante a penetração, a profilaxia pós-exposição pode ser indicada, depois de uma avaliação médica. A profilaxia só funciona se iniciada em até 72 horas a contar da suposta exposição ao vírus e mantida corretamente e seguindo as instruções médicas ao longo de todos os dias das semanas seguintes, mesmo diante dos possíveis efeitos colaterais desagradáveis que podem surgir. Se não houver indicação médica para a profilaxia ou se o prazo de 72 horas for perdido, o jeito é seguir para o diagnóstico.

Quanto antes for feito o diagnóstico, melhor. A razão disso é bem simples: quanto mais tempo o organismo ficar exposto ao vírus, sem cuidado, pior. Afinal, se a habilidade do HIV é danificar o sistema imune, quanto mais tempo ele tiver livre para isso, maior será o dano causado. Em números: aproximadamente 25% das pessoas que demoram a se diagnosticar podem vir a não recuperar totalmente o seu sistema imune, grupo que pode ter complicações a longo prazo e do qual talvez eu faça parte, enquanto mais de 10% das pessoas diagnosticas tão tardiamente que já apresentam aids não sobrevivem nas semanas seguintes. Portanto, o melhor é fazer o teste logo!

Mas o diagnóstico também depende do tempo. Somente quando terminar o período da “janela imunológica”, que nada mais é que o tempo que o seu organismo leva para produzir anticorpos contra o vírus, é que o resultado do teste é preciso. Nem um dia antes. As informações disponíveis sobre o período da janela imunológica, no entanto, são um pouco contraditórias, variando entre 30 e 60 dias. Meu médico, o Dr. Esper Kallás, um dos mais respeitados infectologistas do País, é da opinião que os testes de hoje apresentam resultados plenamente confiáveis com 30 dias da suposta exposição ao vírus.

Se o resultado do teste vier “positivo” ou “reagente”, o cuidado passa a ser feito todos os dias. E é aqui que entram os tais “remedinhos.” Eles são chamados de antirretrovirais. Têm a habilidade de inibir os processos que o vírus usa para entrar nas células CD4 do sistema imunológico que estão no sangue. Como o vírus é esperto e usa vários processos, o tratamento consiste numa combinação de antirretrovirais, e é por isso que é apelidado de “coquetel.”

No meu caso, o coquetel que tomo consiste em três antirretrovirais cujos comprimidos não são tão grandes e podem ser tomados todos juntos, de uma única vez e antes de dormir. Entretanto, existem mais de vinte antirretrovirais diferentes que formam diferentes combinações de coquetel. Algumas combinações incluem um maior número de comprimidos, outras não. Alguns comprimidos são maiores que outros. E alguns coquetéis devem ser administrados em maior frequência por dia que outros. É comum que, no começo do tratamento, surjam efeitos colaterais desagradáveis. Em geral, náusea, vômitos e diarreia. Mas é verdade também que estes costumam passar completamente com o tempo.

Como qualquer condição de saúde, mesmo sob tratamento o HIV ainda pode trazer algumas complicações para quem o porta. Com o tempo, o vírus pode desenvolver resistência aos antirretrovirais. Se isso acontece, troca-se de coquetel. Ainda assim, a resistência é algo que costuma surgir no longo prazo ou em pessoas que violam o cuidado necessário, não tomando o coquetel corretamente todos os dias. Embora cada vez mais raras, complicações pelo uso prologando dos antirretrovirais também podem surgir.

Por isso, para prevenir e manter a certeza de que está tudo indo bem é que fazemos exames regulares, a cada três ou quatro meses. Além dos exames comuns de um check up, fazemos dois outros exames a mais: um deles que avalia como anda o sistema imune e outro que conta o número de vírus que se encontra no sangue. Entretanto, os antirretrovirais de hoje são tão eficientes que na maioria dos casos essa contagem não pode ser feita porque nenhum vírus é encontrado. E o resultado do exame vem “indetectável.” Sempre que um tratamento de HIV é bem sucedido, é isso o que acontece. E a grande maioria dos tratamentos hoje é sim bem sucedida, como é o caso de 76% dos soropositivos que tomam antirretrovirais no Brasil. Eu mesmo, por exemplo, sou indetectável desde o primeiro mês de tratamento, há três anos, e desde então permaneço assim.

Sob tratamento, sem o vírus detectável no sangue ao longo de mais de seis meses e sem a presença de outras DSTs, a transmissibilidade do HIV é reduzida em 96%. Com camisinha, tudo se torna tão seguro que um soropositivo pode namorar com um soronegativo ou outro soropositivo, seja homem, mulher, travesti, transexual ou transgênero, sem que os parceiros tenham que ter qualquer medo do vírus.

Portanto, na prática, o que muda na vida de um soropositivo é a necessidade de fazer os exames rotineiramente e de tomar os remédios todos os dias. Fazendo as contas, se cada visita tri ou quadrimestral ao laboratório de exames leva mais ou menos duas horas e ao infectologista outras duas, e se considerarmos que o tempo de tomar os remédios é de 10 segundos por dia — duração mais que justa para se pegar um copo d’água e engolir os comprimidos — então, o HIV consome no máximo apenas 10 horas da vida de um soropositivo por ano.

Nas outras 8.750 horas deste mesmo ano, nossa vida não é nada diferente da sua. Tomamos café. Pegamos trânsito ouvindo Mílton Jung no Jornal da CBN. Será que o Pizzolato vai ser extraditado? Reclamamos do calor. É segunda feira? Tem vídeo novo do Porta dos Fundos! O horóscopo diz que hoje é um dia de “sensações vagas, arrepios e pressentimentos.” Atualizamos o status no Facebook. Lamentamos a morte de Philip Seymour Hoffman, grande ator! Lemos as notícias. O Papa defende a virgindade. Não, não foi dessa vez que acertamos a Mega Sena. Almoçamos arroz, feijão, salada de batata e carne. Trabalhamos. Depois, #partiu academia. Mas não gostamos de BBB. Compramos pipoca para assistir “Até Que a Sorte Nos Separe 2.” Ficamos indignados com Woody Allen e, depois, fazemos as pazes com ele. Acho que agora não gostamos muito é da Mia Farrow. E esses torcedores do Corinthians? Imagina na copa?! William Bonner dá boa noite no Jornal Nacional. Lemos um livro do Dalai Lama. Hoje tem balada! E dormimos no sofá com a TV ligada.

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Penúltimo

“— Você havia me dito que não roncava”, disse meu colega de trabalho com quem dividia o quarto.

“— Geralmente não ronco”, respondi, ainda esfregando os olhos  na manhã seguinte e avistando, pela janela do hotel a vista da cidade estrangeira.

“— Jet lag”, sorriu ele. “Sempre durmo bem quando entro num novo fuso horário.”

A verdade é que, tão logo o avião pousou, meu sono — ou a falta dele — melhorou. Ao desembarcar, ajustei meu relógio, que apontava para a meia noite, para o horário local, onde marcavam 18 horas. Logo nesta primeira noite, depois de mais de dez horas de voo diurno e com escala, dormi como um bebê. Claro, apesar de bom, este não é um remédio viável para toda falta de sono. Com isso, abro espaço para questionar minha própria insônia: admito a possibilidade de sua origem absolutamente psicológica, por estresse ou frescura. Na pior das hipóteses, apenas com uma leve pitada de efeito colateral do Efavirenz. Entretanto, tenho para mim que o que se passava era a falta de novos ares. Novos horizontes. Há tempos não presenteava a mim mesmo com algo que tanto desejava. Desde o meu diagnóstico, há pouco mais de três anos, que não viajava para longe e — o mais importante — sozinho. Agora, finalmente, era isso que fazia.

Desta vez, optei por despachar meus medicamentos. Levei comigo na bagagem de mão apenas o suficiente para sete dias — quando ficaria um mês. Pensei que três frascos cheios de Efavirenz, Lamivudina e Tenofovir, totalizando quase 120 comprimidos, chamariam a atenção no aparelho de raios X da equipe segurança do aeroporto. E pensei certo: ao chegar no hotel, me dei conta que minha bagagem havia sido revistada. Nada havia sido retido ou confiscado. Talvez porque, para evitar qualquer eventual problema, garanti que os antirretrovirais despachados estivessem lacrados em seus frascos originais e acompanhados do pedido médico, assinado pelo Dr. Esper, seguindo as recomendações internacionais para transporte de medicamentos. Ainda guardei tudo sob um mesmo envelope plástico, transparente, de fácil visualização, num bolso externo protegido em minha bagagem.

Vou direto ao ponto. Sem (tanto) rodeio, como fiz outras vezes por aqui. Me concentro hoje no que interessa e isso quer dizer começar esta história a partir do penúltimo dia. Mais uma reunião entre publicitários se encerrava. Desta vez, num coquetel com mais de cinquenta convidados de diversos países. No intervalo, o objetivo era que continuássemos o bate-papo profissional. Entretanto, fugindo à proposta, eu seguia conversando apenas com ela.

“— Então, você trabalha no Brasil?”, perguntava, segurando sua taça de vinho.

Seu nome é R., uma linda francesa de 33 anos. A primeira lembrança que tenho dela se deu nos dias anteriores. Em algum momento, em meio à multidão de pessoas, nos flagrarmos olhando um para o outro. Ela o fazia com uma natural sensualidade, mirando-me pelo conto de seu olho. Agora, finalmente à sós, conversávamos segurando duas taças de vinho branco à mão, recostados sobre o parapeito da cobertura de um edifício que dava vista para toda a cidade de Cannes.

“— Então você escreve histórias para a agência de publicidade”, disse ela. “Me diga, qual é o turning point? Qual o ápice da trama aqui?”, prosseguiu, imediatamente enrubescendo sua alva pele, ao perceber que sua frase soara acidentalmente com um tom de flerte.

Respondi com um sorriso. R., tímida, virou seu olhar para o horizonte e deu mais um gole no vinho. Pelo canto de seus olhos, notei que uma pequena gota de lágrima excedia, quase fazendo-se cair.

“— O que a traz aqui?”, perguntei, objetivo.

“— Bem, o trabalho…”

“— Não”, interrompi. “Aqui”, disse eu, apontando para a varanda aonde estávamos. “Para escrever o turning point é preciso saber de onde vem os personagens. E o seu personagem parece guardar algo.”

R. virou-se de frente para mim.

“— Bem… Rompi um relacionamento de vários anos. E me sinto culpada por isso. Culpada por não amá-lo mais… Ele ainda gosta de mim”, prosseguiu, sem conter duas lágrimas que começavam a descer por seu rosto. “Essa culpa não tem solução.”

Depois de enxugar as lágrimas e olhar ao redor, ela disse:

“— Estou numa fase de mudança. De transformação. E algo em mim mudou desde que cheguei aqui”, disse ela.

“— Curioso. Quando decolei de São Paulo tive a mesma sensação.”

Alguns instantes de silêncio depois, um gesto de suas mãos apontou para ela e para mim, na altura do peito.

“— Eu gosto disto, Jovem. Poder conversar de verdade.”

Nossa conversa foi interrompida pelo início do jantar. Separados em mesas diferentes, perdemo-nos de vista. No ônibus de volta ao hotel, avistei-a por entre o espaço dos bancos. Ela olhava para mim. Era quase um olhar de despedida, uma vez que o congresso já chegava ao fim. No lobby to hotel, não mais a avistei. E assim, entrei em meu quarto. E dormi.

A manhã seguinte era ensolarada. N., meu colega de trabalho, acordava de ressaca. Isso fez com que durante todo nosso último dia de trabalho, reunião após reunião, eu tentasse mantê-lo o menos apático possível. O encerramento do congresso dava-se em frente à orla, de onde para a última caminhada na cidade francesa. Foi quando, ao longe, avisei R. Ela conversava com um grupo de orientais. Me aproximei e nos cumprimentamos todos.

“— Por que não caminhamos na praia?”, sugeriu um deles.

Seguimos todos juntos, agasalhando-nos do vento fresco que vinha do mar. N. conversava com os chineses, que demoravam a compreendê-lo vista a necessidade de tradução. R. e eu seguíamos adiante, por acaso, sozinhos. De mãos para trás, ambos caminhávamos lentamente. Descompassados dos demais, terminamos por nos perder.

“— Gostei muito de ontem”, disse ela. “Obrigada pela conversa”, prosseguiu, com honestidade no olhar.

“— Eu pensei no que você contou”, disse eu. “Sua culpa… Mais parece compaixão. Você tem compaixão por esse homem que você deixou. Enquanto você mantiver essa confusão, a transformação que você encontrou aqui não vai terminar de acontecer.”

“— Sim”, concordou ela. “Você tem toda a razão.”

Nossa conversa foi interrompida pelo assovio de N., que apontava para o hotel.

“— Chegamos!”, gritava ele.

De volta ao encontro dos colegas, nos cumprimentamos todos, no movimentado lobby do hotel. De lá, seguimos para o elevador. Abarrotado de pessoas, N. anunciou que esperaria o próximo. Os chineses, desceram logo no segundo andar. Por uma misteriosa razão do destino, os demais hóspedes que ali estavam também desceram pouco depois. E R. e eu terminamos por ficar sozinhos no elevador. Um silêncio estarrecedor invadiu o ambiente, interrompido apenas pelo discreto barulho das máquinas e a música ambiente em volume mínimo. O nervosismo tomou conta. Tentei pensar em algo para dizer, mas não fui capaz de fazê-lo. Pensei se deveria simplesmente puxá-la para meus braços, mas isso também me pareceu inconveniente. Nesse vai e vem de indecisão, seu andar chegou. E ela saltou para fora do elevador.

“— R.”, interrompi. “Um grupo de brasileiros deve se encontrar em uma hora no bar. Por que não vem?”, perguntei.

“— Sim!”, sorriu ela.

A presença de tantos brasileiros e outros sul americanos, claro, fez a festa. Cervejas, drinks e abraços descontraíam os gélidos corações europeus. A animação era tanta, que os demais integrantes do congresso se juntaram a nós. À certa altura, em meio à barulhenta festa, R. ergueu seu copo e brindou em silêncio comigo.

Quando todos já se despediram e trocaram contatos, seguimos para os nossos quartos. O elevador, cheio, mais uma vez ficou vazio. Apenas R., ao meu lado, de costas para a parede espelhada. Dissemos alguma coisa, não me lembro o quê. O andar de seu quarto, se abriu. Ela saiu. Meu coração acelerou. A porta já se fechava. Dei um passo a frente e, com meu braço por entre as portas, freei bruscamente seus sensores.

“— R.”, disse eu, segurando sua mão.

Me lembro de seu rosto, sério e de sobrancelhas contraídas. Me aproximei. Fechamos os olhos. E nos beijamos.

Quando acordei no dia seguinte, um e-mail bipava em meu celular. R. já tinha ido embora, no primeiro trem da manhã. E sua mensagem trazia uma pequena poesia:

“Só de vê-lo à distância
Me fez sentir feliz, curiosa, brincalhona
Eu nunca imaginara que minha vida pudesse se tornar tão sombria
Nem mesmo quando meu pai faleceu
O que foi muito triste, muito duro.
E então você apareceu
E me lembrou do pôr do sol e da leveza que eu tenho em mim.”

Com um sorriso, respondi a mensagem. E iniciou-se ali uma conversa à distância, que terminaria por nos trazer de volta um ao outro, pouco depois.

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