Tag Archives: efeitos colaterais

Como os medicamentos precisam ser muito fortes para impedir a multiplicação do HIV no organismo, podem causar alguns efeitos colaterais desagradáveis.

Entre os mais frequentes, encontram-se: diarreia, vômitos, náuseas, manchas avermelhadas pelo corpo (chamadas pelos médicos de rash cutâneo), agitação, insônia e sonhos vívidos. Há pessoas que não sentem mal-estar. Isso pode estar relacionado com características pessoais, estilo e hábitos de vida, mas não significa que o tratamento não está dando certo.

Alguns desses sintomas ocorrem no início do tratamento e tendem a desaparecer em poucos dias ou semanas. É importante saber que existem diversas alternativas para melhorá-los. Por isso, é recomendável que o soropositivo procure o serviço de saúde em que faz o acompanhamento, para que possa receber o atendimento adequado. Nesses casos, não recomenda-se a automedicação (pode piorar o mal-estar) nem o abandono do tratamento (causando a resistência do vírus ao remédio).

Além dos efeitos colaterais temporários descritos acima, os pacientes podem sofrer com alterações que ocorrem a longo prazo, resultantes da ação do HIV, somados aos efeitos tóxicos provocados pelos medicamentos. Os coquetéis antiaids podem causar danos aos rins, fígado, ossos, estômago e intestino, neuropsiquiátricas. Além disso, podem modificar o metabolismo, provocando lipodistrofia (mudança na distribuição de gordura pelo corpo), diabetes, entre outras doenças.

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Não é sofrido viver com HIV?

Brasil Post

Há algumas semanas, fui abordado, por e-mail, por dois jornalistas da mais conhecida emissora de TV do país. Eles me convidavam a participar de um programa, no qual tratariam do tema da “aids nos dias de hoje”. Para isso, diziam, gostariam de entrevistar jovens que sofrem com os efeitos colaterais dos medicamentos antirretrovirais. Segundo eles, mesmo com os avanços no tratamento e uma vida normal, ainda existiria esta consequência do uso dos remédios contra o HIV. Mostrar isso, contar essa história de sofrimento constante após o diagnóstico, seria uma maneira de fazer um alerta para que as pessoas se cuidem, se previnam mais.

Embora eu tenha sofrido com efeitos colaterais no passado, recusei a entrevista, pois eu não mais sofro com isso. Quando fui diagnosticado positivo para o HIV, em outubro de 2010, eu tinha pouco conhecimento sobre o HIV e da vida de quem toma antirretrovirais. Sobre o HIV e aids, lembro que aprendi na escola, ouvi de meus pais e assisti na extinta MTV Brasil que era preciso usar camisinha, camisinha e camisinha. Essa era a única história que contavam, cujo final trágico em caso de falha em seu uso era o diagnóstico positivo. Recebido o resultado “reagente” para o teste de HIV, eu, claro, entrei em desespero. Eu não sabia qual era a história que se seguiria a partir dali, mas presumia que não seria nada agradável.

O primeiro médico infectologista que visitei, Dr. O., corroborou com essa presunção. Me explicou que os efeitos colaterais dos remédios que eu estava prestes a tomar eram quase que inevitáveis e, muitas vezes, tão fortes que poderiam me levar ao hospital. “Se isso acontecer, me dê uma ligada”, disse ele. Tomei os primeiros comprimidos de Kaletra e Biovir, a combinação de antirretrovirais sugerida pelo doutor, às 22h do dia 5 de janeiro de 2011. Às 22:30h, já corria para o banheiro, com dores abdominais indescritíveis e uma diarreia que jamais experimentara antes. Dias depois, fui sim parar no pronto-socorro, depois de acordar vomitando e vomitando, sem parar. Liguei, mas o doutor não atendeu. Noutra ocasião, defequei nas calças, enquanto andava na rua. Foram quatro meses, sob esta mesma combinação de remédios a qual o doutor insistia ser a melhor, de contínuo e constante sofrimento, traçando uma história condizente com a esperada por mim quando li “reagente” no papel do laboratório — afinal, não é sofrido viver com HIV?

Essa última pergunta foi feita meses antes por outra jornalista, de uma revista feminina de saúde do Grupo Abril, que me cedeu toda uma página para escrever sobre a vida com HIV. Era a edição de junho, mês do dia dos namorados. Meu texto foi integralmente reproduzido, tal como eu o escrevi, exceto seu final. O ponto de exclamação, digitado por mim, foi substituído por reticências, mudando completamente o sentido da última frase. Noutras palavras, o bom humor foi trocado por melancolia e, pior, bem no final do texto. Quando questionei a jornalista, sua resposta foi sincera: “nós nunca imaginaríamos que não seria sofrido viver com HIV.” Ainda assim, a exclamação não voltou. E, para que as reticências não ficassem, o acordo foi encerrar o texto sem a última frase.

É claro, durante toda minha história inicial com HIV, seria impossível ter usado exclamação. Mas aprendi que não precisava ser assim. Comecei a ler, pesquisar, escrever e acabei por mudar de médico. Conheci o Dr. Esper Kallás, meu infectologista atual. Sua primeira recomendação foi trocar meu coquetel “por um menos tóxico”. Mal sabia eu que era possível fazer essa troca, que havia outras opções de combinação de remédios e tampouco que poderia haver uma que não me causaria efeitos colaterais. Dito e feito. Em 24 horas após a troca dos meus medicamentos, a diarreia cessou. O enjoo sumiu. E a minha vida voltou ao normal.

Ainda demorou para que eu reescrevesse a minha história, compreendendo que havia espaço para bom humor e mais leveza. Hoje, percebo que o começo da minha história com o vírus foi enormemente influenciado pela única história que se contava do HIV e de quem vive com ele: uma história de medo, dor, tragédia e sofrimento. Hoje, aprendi que o diagnóstico positivo é difícil, sim, mas não é uma tragédia sem fim. É possível dar a voltar por cima e entender que a história que nos é contada repetidas vezes, a “oficial”, não é a única e está longe de ser a melhor.

É verdade também que a minha história não é a única história. Existem aqueles que, apesar de experimentar todas as combinações possíveis de coquetel, ainda assim sofrem com efeitos colaterais. Existem aqueles que, diagnosticados nas primeiras décadas da epidemia, já se tornaram resistentes aos medicamentos menos tóxicos, com menos efeitos colaterais, ou que, na pior das hipóteses, tiveram efeitos colaterais físicos irrecuperáveis, como lipodistrofia e danos neurológicos que causam dores constantes. Porém, a minha história é uma história real e representa a de muitas pessoas que vivem bem e com HIV. Sei que é uma história que ajuda quem foi diagnosticado a não cair em desespero e quem está com medo de fazer o teste de HIV a seguir em frente e fazê-lo logo.

Estamos numa nova era da epidemia de HIV/aids. É hora de mudar esta velha história que é contada por aí, de medo, culpa e sofrimento. A “aids nos dias de hoje” não é mais a dos efeitos colaterais, mas a da melhora no tratamento com um apenas um único comprimido por dia, da supressão do vírus no organismo para níveis indetectáveis, o que faz daqueles que vivem com HIV e tomam antirretrovirais como parceiros sexuais mais seguros do que parceiros de sorologia desconhecida, da expectativa de vida igual a de soronegativos, das alternativas de prevenção ao uso da camisinha, do fim do medo e da culpa pela falha em seu uso e da consciência que quem cuida da saúde, soropositivo ou soronegativo, deve se orgulhar disso, pois esta é a melhor forma de controlar a epidemia no mundo.

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Sobre estes anúncios

Por um regime melhor


Estudo conclui que a maioria dos pacientes poderia mudar para um regime antirretroviral mais bem tolerável

Por Barbara Jungwirth, do

Uma análise de 120 australianos que fazem uso de quatro antirretrovirais mais antigos — apelidados de medicamentos RATE por incluir Ritonavir (parte do Kaletra), Abacavir, Tenofovir e Efavirenz — concluiu que a grande maioria poderia mudar para novas medicações que são mais bem toleradas.

O estudo, publicado na PLOS ONE, observou o histórico de tratamento e o perfil de resistência a medicamentos dos participantes, bem como testes de tropismo para o Maraviroc, sempre que possível (feito em 38% das pessoas estudadas). Os medicamentos RATE são prescritos para a maioria dos pacientes em terapia antirretroviral. Os efeitos colaterais que podem ser evitados com outros coquetéis incluem interações medicamentosas, reações alérgicas, menor eficácia quando a carga viral é alta, maior risco de doença cardiovascular, redução da densidade óssea, disfunção renal, distúrbios neuropsiquiátricos e aumento dos níveis de lipídios.

Novos regimes de medicamentos considerados pelos pesquisadores foram Rilpivirina, Etravirina, Atazanavir, Raltegravir e Maraviroc, bem como a antiga Lamivudina (3TC). Dependendo da susceptibilidade ao Maraviroc, 98% dos participantes do estudo (se todos forem suscetíveis ao Maraviroc, 94% dada a suscetibilidade desconhecida) poderiam mudar para um regime com pelos menos duas drogas ativas e mais seguras e 89% (se todos forem suscetíveis ao Maraviroc, 87% dada a suscetibilidade desconhecida) poderiam mudar para uma com três medicações mais seguras.

O estudo também descobriu que 57% dos australianos que fazem uso de medicamentos antirretrovirais estão usando dois ou mais medicamentos RATE e podem se beneficiar da troca para novos regimes. Os autores do estudo preveniram, no entanto, que “a maioria dos regimes considerados ‘viáveis’ no estudo não foram ainda rigorosamente testados em estudos clínicos e podem ser considerados não-convencionais.” Os autores concluíram que estudos randomizados controlados podem ser necessários para determinar as vantagens e desvantagens de mudar o regime de pacientes estáveis para novos regimes que não incluam medicamentos RATE.


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Remédio pode reduzir a lipodistrofia


Tesamorelin pode ajudar pacientes com HIV a perder gordura

MELBOURNE, Austrália — Pacientes infectados pelo HIV tratados com hormônio liberador de hormônio do crescimento alcançaram reduções modestas na gordura abdominal e no fígado, de acordo com cientistas.

Num estudo preliminar que envolveu 54 pacientes, o tratamento com Tesamorelin (Egrifta), reduziu o tecido adiposo visceral em 34cm², comparado a uma redução de 8cm² alcançada em pacientes que tomaram placebo (P=0.005), de acordo com o Dr. Steven Grinspoon, da Harvard Medical School e Massachusetts General Hospital em Boston, e seus colegas, durante a Conferência Internacional de Aids. Os resultados também foram publicados simultaneamente no Journal of the American Medical Association.

Eles descobriram que a variação média de lipídios para porcentagem de água — um marcador de gordura no fígado — foi reduzida em 2% em pacientes tratados com Tesamorelin, com um aumento de 0,9% entre os pacientes tratados com placebo (P=0.003).

“A habilidade do Tesamorelin de reduzir a gordura no fígado em conjunção com a redução na gordura abdominal pode ser clinicamente importante para pacientes com infecção pelo HIV que apresentam doença hepática gordurosa, juntamente com o aumento da gordura abdominal”, afirmou Grinspoon. “Enquanto alguns pacientes com doença hepática gordurosa não associada ao uso de álcool têm uma evolução benigna, outros podem desenvolver um condição mais séria, envolvendo inflamação hepática, danos celulares e fibrose, os quais podem progredir para cirrose e doença hepática em estágio final ou ao câncer de fígado.”

Tesamorelin é o único medicamento aprovado pelo FDA com o objetivo de reduzir o depósito de gordura abdominal que pode se desenvolver em pacientes que fazem uso da terapia antirretroviral para tratar a infecção pelo HIV. Ele estimula o organismo a produzir hormônio do crescimento, o qual pode reduzir a lipodistrofia.

A lipodistrofia é acumulação anormal de gordura abdominal, que pode surgir em 20 a 30% dos pacientes que fazem uso de medicamentos antirretrovirais. Em torno de 30 a 40% das pessoas que vivem com HIV podem desenvolver doença hepática gordurosa não associada ao uso de álcool, mas não necessariamente em conjunto coma lipodistrofia.

“Embora a hipertrofia abdominal seja menos comum com os novos medicamentos antirretrovirais, existe um grupo significativo de pacientes com acumulação de gordura abdominal que usam antirretrovirais há bastante tempo”, afirmaram os pesquisadores. “Na infecção pelo vírus da imunodeficiência humana, a acumulação de gordura abdominal é associada o acúmulo ectópico de gordura no fígado.”

O principal autor da pesquisa, Dr. Takara Stankey, também da Harvard Medical School, disse que o Tesamorelin age especificamente na redução da gordura abdominal, mas seus efeitos sobre o fígado são desconhecidos. “A população observada foi majoritariamente de homens que viviam com HIV e sob tratamento antirretroviral por um longo período, o que é consistente com mudanças lipodistróficas”, disse Grinspoon.

Os pesquisadores examinaram 76 pessoas, randomizando 54 indivíduos que atendiam aos critérios de inclusão. Deste grupo, 26 foram designados para o grupo de placebo e 28 foram escolhidos aleatoriamente para receber Tesamorelin. Os participantes do estudo receberam injeções subcutâneas diárias durante 6 meses, com Tesamorelin (2mg/dia) ou placebo.

Uma vez que o hormônio de crescimento pode aumentar o nível de açúcar no sangue e reduzir a sensibilidade à insulina, cerca de metade dos indivíduos em cada grupo também foram submetidos a procedimentos para analisar a secreção de insulina e a resistência à insulina.

20 pacientes que receberam placebo e 25 que receberam Tesamorelin fizeram acompanhamento de 3 meses. 20 pacientes que receberam placebo e 23 que receberam Tesamorelin fizeram visitas de acompanhamento aos 6 meses. Os dados disponíveis incluem pacientes que fizeram as visitas de 6 meses.

A avaliação também incluiu a medição ampla de fatores relacionados à infecção pelo HIV, lipídios e metabolismo de glicose, além de análise de gordura abdominal por tomografia computadorizada e de gordura no fígado por espectroscopia de ressonância magnética.

Análises no começo e no fim do período de 6 meses indicaram que não parece haver diferenças estatisticamente significantes nos estudos de insulina a longo prazo, segundo os pesquisadores relataram. Embora o tratamento com Tesamorelin pareça reduzir a sensibilidade à insulina e aumentar os níveis de açúcar no sangue na avaliação feita aos 3 meses, as medições feitas aos 6 meses voltaram aos níveis observados no início do estudo, sugerindo que o impacto do medicamento no metabolismo da glicose foi apenas temporário, segundo Stanley.

“Os efeitos colaterais sobre a glicose pelo uso do Tesamorelin a longo prazo são neutros mas importantes, uma vez que os pacientes que vivem com HIV e acúmulo de gordura abdominal podem ter resistência subjacente à insulina; é importante saber que esta não vai ser agravada por este tratamento”, explicou Grinspoon. “Uma vez que sabemos que a gordura no fígado é associada à inflamação no fígado, reduzi-la pode resultar em menos inflamação.” Ele relatou que os testes de enzimas hepáticas e de marcadores de inflamação do fígado foram menores entre os pacientes tratados com Tesamorelin.

Os autores observaram que a ampla utilização de Tesamorelin em pacientes infectados pelo HIV e com lipodistrofia pode ser limitada, uma vez que a droga é cara, com algumas estimativas de preço chegando a US$ 3.000,00 por mês.

Eles lembraram que o grupo não foi escolhido especificamente por apresentar aumento de gordura no fígado, e que, devido a mudança absoluta de lipídios em água ter sido modesta, tem pouca importância clínica e seus dados não são conhecidos. Além disso, biópsias de fígado — o método ideal para avaliar características de doença hepática gordurosa não alcoólica e doença hepática avançada — não foi realizada. Os pesquisadores também não coletaram dados após a descontinuação do Tesamorelin.

“Estudos anteriores demonstraram que a gordura visceral pode voltar a se acumular após a descontinuação da Tesamorelin e estudos futuros serão necessários para determinar se reduções na gordura hepática com Tesamorelin são mantidos após a descontinuação do tratamento”, escreveram eles.


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Grupo de patentes


Parcerias no futuro do tratamento do HIV

Postado 24 de julho de 2014 no blog da Aids 2014, por Greg Perry, Diretor Executivo do Medicines Patent Pool

A comunidade internacional já percorreu um longo caminho desde a primeira conferência sobre aids, em 1985. Embora ainda estejamos à espera de uma vacina eficaz contra o HIV e uma cura funcional, a inovação dos antirretrovirais (ARVs) e seu aumento de escala trouxeram uma mudança significativa na perspectiva da resposta global ao HIV/aids.

Ao longo dos últimos 31 anos, 29 novos químicos foram aprovados para o tratamento do HIV. A descoberta da terapia antirretroviral, apresentada na 11ª International Aids Conference (IAC), em 1996, foi um divisor de águas ao fazer do HIV/aids uma condição crônica e não mais uma sentença de morte. Em 2001, combinações triplas de dose fixa reuniram vários ARVs em esquemas de único comprimido. Agora, quando entramos na quarta década de HIV, podemos ver mais uma vez a promessa de novos medicamentos que ajudarão a melhorar os regimes de hoje, com drogas que parecem oferecer maiores barreiras contra resistência do vírus e melhores perfis de segurança. Ao longo dos últimos três anos, os reguladores aprovaram quatro novos ARVs e pelo menos mais um ARV está em fase final de desenvolvimento clínico.

Temos que garantir que esses novos medicamentos estejam disponíveis a preços acessíveis para os países em desenvolvimento o mais rápido possível. Historicamente, temos tido uma média de sete a nove anos para que as versões genéricas de um novo tratamento contra o HIV chegue nos países de baixa renda, após sua introdução nas nações industrializadas. Nossa organização, a Medicines Patent Pool (MPP), é um grupo de patentes que faz parcerias com empresas farmacêuticas para encurtar este cronograma. A MPP faz acordos de licenciamento que agora permitem que os fabricantes de genéricos possam produzir os medicamentos mais recentes, logo após a sua aprovação nos EUA e na Europa. Por exemplo, a nossa recente licença para o Dolutegravir, um novo e promissor inibidor da integrase, deve permitir que os genéricos entrem no mercado dentro de dois a três anos de sua aprovação inicial.

No campo do HIV pediátrico, não foi feito o suficiente para garantir que as crianças tenham o tratamento adequado. Embora o mundo tenha feito progressos significativos no aumento da escala do tratamento para adultos, apenas um quarto das 3,3 milhões de crianças que vivem com HIV no mundo em desenvolvimento têm acesso ao tratamento. Em parceria com a UNITAID e com a Drugs for Neglected Diseases initiative (DNDi), a MPP está trabalhando com várias partes interessadas a contribuir para superar esta lacuna, através do desenvolvimento de formulações amigáveis ao tratamento infantil, de acordo com o recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

A cada dois anos, a IAC oferece uma oportunidade para fazermos um balanço do nosso progresso e discutir os novos desenvolvimentos para melhorar a nossa resposta coletiva contra a aids. Na IAC 2014, vejo que há uma boa razão para ser otimista sobre as opções de tratamento de amanhã, mas apenas se trabalharmos em conjunto com outras organizações para quebrar as barreiras do acesso e disponibilidade em países mais atingidos pela epidemia.

Basta imaginar um futuro em que os efeitos colaterais do tratamento de HIV serão mínimos e raramente resultarão em abandono do tratamento; um futuro em que o custo não será mais um fator para garantir o tratamento mais adequado e em que os novos ARVs se tornarão disponíveis para as pessoas nos países mais pobres, pouco depois de terem sido lançados nos países mais ricos. Neste cenário, as crianças iriam tomar um medicamento simples e eficaz, uma vez ao dia e apropriado para sua idade e peso.

A história dos últimos 30 anos sugere que estas são previsões razoáveis. Com uma contínua e forte liderança, vontade política, mobilização da comunidade e parcerias adequadas com objetivos claros, podemos desenvolver e distribuir o tratamento de HIV certo e ao preço certo para os mais necessitados. Novos medicamentos animadores estão no horizonte e podem mudar a nossa forma de tratar o HIV, reduzindo os efeitos colaterais e melhorando os resultados do tratamento, a um custo mais acessível. Esse futuro está claramente ao nosso alcance. Basta que os interessadas redobrem seu esforço.


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Coinfecção por hepatite C pode ser curada


Sofosbuvir + Ribavirina cura hepatite C em mais de 80% das pessoas com HIV e coinfecção por HCV

Por Liz Highleyman em colaboração com hivandhepatitis.com

Jean-Michel Molina apresenta os resultados do PHOTON-2. Foto por Liz Highleyman, hivandhepatitis.com

Um regime livre de Interferon, composto por Sofosbuvir e Ribavirina por 24 semanas, levou a uma resposta virológica sustentada contra hepatite C em 84 a 89% das pessoas soropositivas com genótipos da hepatite C crônica 1, 2, 3 ou 4, de acordo com os resultados da fase 3 do estudo PHOTON-2, apresentado na segunda-feira na 20ª Conferência Internacional de Aids (Aids 2014), em Melbourne, na Austrália. As taxas de cura foram menores, no entanto, para os pacientes com genótipo 1a e cirrose hepática.

As pessoas com HIV e coinfecção com o vírus da hepatite C (HCV) experimentam uma progressão mais rápida da doença hepática, do que pessoas apenas com hepatite C, e não respondem bem à terapia à base de Interferon. Antivirais de ação direta que têm como alvo diferentes etapas do ciclo de vida do HCV oferecem uma perspectiva de tratamento mais curto, com menos efeitos colaterais e maiores taxas de cura para pessoas com HIV e coinfecção com HCV, bem como para as pessoas com monoinfecção por HCV.

Jean-Michel Molina, da Universidade de Paris Diderot, apresentou dados da fase 3 do estudo PHOTON-2, que incluiu 274 pessoas com coinfecção na Europa e na Austrália. A maioria dos participantes (81%) eram homens e a média de idade foi de 47 anos. Os genótipos de HCV mais comuns eram 1 (41%) e 3 (39%), seguido de 4 (11%) e 2 (9%). A maioria das pessoas com o genótipo 1 tinham um genótipo de mais difícil tratamento, o subtipo 1a.

A maioria dos participantes (80%) não tinham sido tratados anteriormente para hepatite C. No geral, 20% tinham cirrose (13% dos não tratados previamente, chegando a 45% dos já tratados previamente). Quase a metade tinha uma variante favorável, o gene IL28B CC.

Quase todos os participantes do estudo estavam em terapia antirretroviral supressiva estável para o HIV e a contagem média de células CD4 era de cerca de 600 células/mm³. Os antirretrovirais mais comumente utilizados foram: Efavirenz (também na coformulação Atripla) em 25%, Raltegravir em 23%, Darunavir acrescido de Ritonavir em 21% e Atazanavir reforçado em 17%. Todos usavam a combinação de  inibidores da transcriptase reversa Renofovir e Emtricitabina (as drogas do Truvada). Os primeiros estudos não encontraram interações medicamentosas clinicamente relevantes entre Sofosbuvir e estes antirretrovirais. O Sofosbuvir já está aprovado na Europa e nos EUA para pacientes coinfectados.

Todos os participantes receberam Sofosbuvir, um inibidor de polimerase do HCV fabricado pela Gilead Sciences, 400mg uma vez ao dia, mais Ribavirina, entre 1000 a 1200mg ao dia, de acordo com o peso. Um pequeno número de participantes com genótipo 2 (19 pessoas), não tratados previamente, foram tratados durante 12 semanas, enquanto todas as pessoas com experiência de tratamento e todas as pessoas com os genótipos 1 ou 4, mais difíceis de tratar, foram tratadas durante 24 semanas.

A taxa de resposta virológica em 12 semanas após o término do tratamento (SVR12) foi de 85% para as pessoas com o genótipo 1, 88% para aqueles com genótipo 2, 89% para o genótipo 3 e 84% para o genótipo 4. As taxas de recaída foram de 13%, 8% , 9% e 16%, respectivamente. Uma pessoa com genótipo 3 experimentou avanço viral durante o tratamento.

Entre os participantes com genótipo 1, as taxas de resposta foram maiores para as pessoas que não apresentavam cirrose hepática (88% do total, 87% para o subtipo 1a e 100% para o subtipo 1b), em comparação com aqueles com cirrose (65%, 62% e 75 %, respectivamente). A presença de cirrose foi o único fator de risco significativo para uma pior resposta.

Para as pessoas com outros genótipos, a cirrose teve menos impacto, embora os efeitos do tratamento tenham sido um pouco maiores para as pessoas experientes em tratamento, em comparação aos participantes virgens de tratamento com genótipos 2 ou 3.

As taxas de resposta não diferiram significativamente entre os subtipos 1a e 1b de HCV, mas o número com o último tipo era pequeno. Da mesma forma, havia muito poucas pessoas que não tomam a terapia antirretroviral, o que impede uma análise separada.

Olhando para os resultados relacionados com o HIV, quatro pessoas experimentaram um discreto e intermitente aumento da carga viral do HIV, mas nenhuma necessitou de modificação em seu regime antirretroviral. A contagem de células CD4 temporariamente aumentou durante o tratamento para hepatite C, mas as porcentagens de CD4 se mantiveram estáveis.

Em geral, a combinação de Sofosbuvir e Ribavirina foi segura e bem tolerada. Seis pessoas sofreram efeitos colaterais graves e três interromperam o tratamento mais cedo devido a isso.

Os efeitos colaterais mais frequentes entre as pessoas tratadas por 24 semanas foram fadiga (20%), insônia (17%), cefaléia (16%), náusea (15%) e diarreia (11%). Uma em cada cinco pessoas desenvolveram anormalidades laboratoriais grau 3-4, em geral, com níveis elevados de bilirrubina entre as pessoas que tomam Atazanavir. 10% desenvolveram baixos níveis de hemoglobina — um efeito colateral conhecido da Ribavirina. Apenas uma pessoa teve anemia grave.

Os pesquisadores concluíram que “Sofosbuvir + Ribavirina resultou em altas taxas de conclusão do tratamento por pacientes coinfectados com HIV e genótipos 1, 2, 3 ou 4 de HCV. O Sofosbuvir foi bem tolerado, com uma baixa taxa de interrupção do tratamento devido a efeitos colaterais.”

Os resultados do PHOTON-1 foram publicados esta semana no Journal of the American Medical Association. Este estudo testou os mesmos regimes em pessoas com HIV e coinfecção pelo HCV. No entanto, foi conduzido nos EUA e tinha uma diferente distribuição de genótipos, o que permitiu uma outra comparação de subgrupos. Pouco mais de metade tinha o genótipo 1 (79% com 1a), enquanto o restante estava dividido mais ou menos uniformemente, entre os genótipos 2 e 3.

Como relatado anteriormente, na Conferência sobre Retrovírus e Infecções Oportunistas (CROI) deste ano, a taxa de término do tratamento para as pessoas com o genótipo 1 foi de 76%. Entre aqueles com genótipo 2, as taxas de resposta foram semelhantes para as pessoas sem tratamento prévio, tratadas por 12 semanas, e para as pessoas com experiência em tratamento, tratadas durante 24 semanas (88% e 92%, respectivamente). Entre aqueles com o genótipo 3, no entanto, os pacientes não tratados previamente que fizeram o tratamento de menor duração tiveram uma menor taxa de resposta (67% vs 94%).

As taxas de resposta nos estudos PHOTON não são particularmente impressionantes em comparação com as taxas de 90-100% vistas em vários outros estudos recentes, livres de Interferon. O Sofosbuvir funciona melhor quando combinado com outros medicamentos antivirais de ação direta, como os inibidores de NS5A, Ledipasvir ou Daclatasvir, os quais se espera que sejam aprovados em breve. Uma desvantagem do Ledipasvir é que ele não tem uma atividade potente contra os genótipos de HCV 2 ou 3.

Molina sugeriu que Sofosbuvir mais Ribavirina pode ser uma boa opção para pessoas que têm HIV e coinfecção com HCV, com genótipo 2 ou 3 do HCV, e que não têm cirrose hepática. “A Ribavirina é genérico”, observou ele, e esta combinação “pode ​​ser atraente em lugares onde você não tem acesso a todos os novos medicamentos.”

Em uma sessão separada para discutir a revolução do tratamento da hepatite C e sobre como tornar estes avanços recentes disponíveis em todo o mundo, Andrew Hill, da Universidade de Liverpool, e outros, notaram que as drogas pangenotípicas — que agem contra vários genótipos do HCV — podem não precisar de testes de genotipagem, o que reduziria o custo total do atendimento.

Referências:
Molina JM et al. All-oral therapy with sofosbuvir plus ribavirin for the treatment of HCV genotypes 1, 2, 3 and 4 infection in patients co-infected with HIV (PHOTON-2). 20th International AIDS Conference, abstract MOAB0105LB, Melbourne, 2014.
Veja o sumário no site da conferência.
Sulkowski M et al. Sofosbuvir and ribavirin for hepatitis C in patients with HIV coinfection. JAMA 312:353-361, 2014.

No entanto, o preço proposto pela Gilead Sciences para os medicamentos contra a hepatite C provocou protestos na Aids 2014. O preço nos EUA é de US$ 1.000,00 por pílula, equivalente a pelo menos US$ 84.000,00 pelo tratamento completo. A Universidade de Liverpool, no entanto, afirma que o tratamento completo poderia custar apenas pouco mais de US$ 100,00.

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A cura e os reservatórios latentes de HIV


Caso da bebê do Mississippi abre uma nova porta na pesquisa da cura do HIV

em 20 de junho de 2014

Anthony F. Fauci é diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas no National Institutes of Health.

Avanços espetaculares no tratamento de HIV/aids têm salvado milhões de vidas ao redor do mundo. Hoje, alguém com 20 anos de idade que seja infectado pelo HIV e comece a tomar medicamentos anti-HIV pode ter uma expectativa próxima do normal. Este sucesso estrondoso é moderado pelo fato de que estas drogas que salvam vidas não curam. Embora o vírus possa ser suprimido, ele não pode ser eliminado do organismo.

Isso traz enormes implicações econômicas, pois 35 milhões de pessoas vivem com HIV e milhões continuam a se infectar a cada ano. Além disso, as drogas anti-HIV apresentam um grau variável de efeitos colaterais por conta de sua toxicidade, o que faz com que seja difícil para muitas pessoas aderir ao tratamento vitalício. Daí vem a questão: o HIV pode ser curado? Isto é, uma pessoa cujo tratamento suprimiu o vírus a níveis indetectáveis pode descontinuar o tratamento sem que o vírus reapareça?

Uma das principais razões que faz com que o HIV continue incurável é a de que, assim que a pessoa é infectada, forma-se um reservatório de células infectadas pelo HIV, as quais podem estar escondidas em diversas localizações ao longo do corpo, tais como os gânglios linfáticos, intestino e até mesmo o cérebro.

Embora os medicamentos possam suprimir o HIV, o vírus escondido nestas células latentes reaparece se o tratamento for interrompido. Infelizmente, muitos adultos não sabem que estão infectados por meses ou anos, altura em que o lastro de células infectadas pelo HIV já é grande. Pesquisadores estão trabalhando para erradicar este reservatório, ou ao menos diminuí-lo. Uma teoria é a de que o tratamento logo após a infecção pode impedir a formação dos reservatórios ou, quem sabe, torná-los suscetíveis à eliminação.

O caso da “bebê do Mississippi” reforça essa teoria. Ela nasceu prematuramente numa clínica no Mississippi em 2010, a partir de uma mãe soropositiva que não recebeu tratamento anti-HIV durante a gravidez. Se uma mãe soropositiva é tratada adequadamente durante a gravidez e o parto, a quantidade de vírus no sangue é suprimida para abaixo dos níveis detectáveis e a chance dela transmitir o vírus ao bebê é menor do que 1%. Infelizmente, isso não aconteceu nesse caso.

Soropositivo desde 1981, Michael Deighan, co-dono da gráfica Nightsweats & T-cells, exibe as pílulas que toma diariamente para combater a doença. (AMY SANCETTA/ASSOCIATED PRESS)

Consequentemente, a bebê recebeu um agressivo tratamento anti-HIV quando tinha 30 horas de idade. Alguns dias depois, testes de alta sensibilidade confirmaram que ela havia sido infectada ainda no útero. A bebê foi mantida em terapia anti-HIV por 18 meses, mas o tratamento foi descontinuado quando a mãe interrompeu temporariamente suas visitas de acompanhamento. Ainda assim, quando a criança foi avaliada cinco meses depois, o HIV não foi detectado. A criança, hoje com 3 anos, continua sem apresentar sinais da infecção mesmo sem tomar remédios anti-HIV, levantando esperança de que uma cura tenha sido alcançada.

Este resultado notável aconteceu quase que por acidente, graças a um astuto pediatra que determinou que a recém-nascida estava sob alto risco de infecção e, com isso, tomou a decisão ousada de colocá-la imediatamente sob a terapia completa de drogas anti-HIV. Em geral, recém-nascidos de mães soropositivas não tratadas recebem doses menores de drogas anti-HIV para prevenir a infecção. Isso é feito com objetivo de evitar a exposição desnecessária da maioria dos recém-nascidos que não foram infectados — em torno de 75% — às possíveis toxicidades de uma terapia mais poderosa. O senso comum vinha ditando que evitar regimes mais tóxicos em bebês não infectados superava os benefícios da terapia agressiva nos infectados, uma vez que entendia-se que, de qualquer maneira, eles não seriam curados.

No entanto, a provável cura observada no caso do Mississippi mudou essa relação custo-benefício e trouxe importantes perguntas para os pesquisadores. Teria sido um desfecho animador num caso isolado? Ou será que fornecer terapia ideal e imediata a recém-nascidos sob risco de infecção traz a possibilidade de cura, ao evitar que o HIV crie um lastro permanente?

A possibilidade de alcançar a cura de milhares de crianças é importante demais para não ser buscada vigorosamente. O National Institutes of Health vai em breve lançar um ensaio clínico controlado em 12 países, incluindo os Estados Unidos. O estudo tem como objetivo replicar os resultados obtidos com a bebê do Mississippi em outras crianças expostas ao HIV ainda no útero. É esperado que este estudo prove que o tratamento imediato de recém-nascidos infectados pelo HIV pode protegê-los de uma terapia anti-HIV vitalícia, além de aumentar o entendimento sobre como buscar a cura em adultos, particularmente aqueles que são tratados no início de suas infecções.

Enquanto isso, precisamos trabalhar ainda mais para alcançar todas as mulheres infectadas pelo HIV, especialmente as grávidas, com tratamento e cuidado de saúde — tanto para elas quanto para qualquer criança que estejam esperando.


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