Por um regime melhor


Estudo conclui que a maioria dos pacientes poderia mudar para um regime antirretroviral mais bem tolerável

Por Barbara Jungwirth, do

Uma análise de 120 australianos que fazem uso de quatro antirretrovirais mais antigos — apelidados de medicamentos RATE por incluir Ritonavir (parte do Kaletra), Abacavir, Tenofovir e Efavirenz — concluiu que a grande maioria poderia mudar para novas medicações que são mais bem toleradas.

O estudo, publicado na PLOS ONE, observou o histórico de tratamento e o perfil de resistência a medicamentos dos participantes, bem como testes de tropismo para o Maraviroc, sempre que possível (feito em 38% das pessoas estudadas). Os medicamentos RATE são prescritos para a maioria dos pacientes em terapia antirretroviral. Os efeitos colaterais que podem ser evitados com outros coquetéis incluem interações medicamentosas, reações alérgicas, menor eficácia quando a carga viral é alta, maior risco de doença cardiovascular, redução da densidade óssea, disfunção renal, distúrbios neuropsiquiátricos e aumento dos níveis de lipídios.

Novos regimes de medicamentos considerados pelos pesquisadores foram Rilpivirina, Etravirina, Atazanavir, Raltegravir e Maraviroc, bem como a antiga Lamivudina (3TC). Dependendo da susceptibilidade ao Maraviroc, 98% dos participantes do estudo (se todos forem suscetíveis ao Maraviroc, 94% dada a suscetibilidade desconhecida) poderiam mudar para um regime com pelos menos duas drogas ativas e mais seguras e 89% (se todos forem suscetíveis ao Maraviroc, 87% dada a suscetibilidade desconhecida) poderiam mudar para uma com três medicações mais seguras.

O estudo também descobriu que 57% dos australianos que fazem uso de medicamentos antirretrovirais estão usando dois ou mais medicamentos RATE e podem se beneficiar da troca para novos regimes. Os autores do estudo preveniram, no entanto, que “a maioria dos regimes considerados ‘viáveis’ no estudo não foram ainda rigorosamente testados em estudos clínicos e podem ser considerados não-convencionais.” Os autores concluíram que estudos randomizados controlados podem ser necessários para determinar as vantagens e desvantagens de mudar o regime de pacientes estáveis para novos regimes que não incluam medicamentos RATE.


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Quer fazer estágio na UNAIDS?

A UNAIDS prorrogou as inscrições de estágio até 22 de agosto de 2014. São quatro vagas para alunos dos cursos de Relações Internacionais, Comunicação, Jornalismo, Administração, Publicidade e Propaganda, Marketing, Ciências Sociais, Ciências Políticas ou Antropologia para apoiar as ações do escritório em Brasília, DF. A UNAIDS irá selecionar três estagiários para a área técnica e um para a administrativa. Saiba como se candidatar clicando aqui.

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Carga viral no sêmen e o risco de transmissão do HIV

Há algum tempo eu traduzi aqui uma entrevista de James Wilton, editor do PositiveLite.com, com Bob Leahy, da CATIE, sobre o que o estudo PARTNER nos diz sobre o risco de transmissão do HIV. Nessa entrevista, Bob dizia que:

Nós sabemos que as pessoas que estão com carga viral indetectável no sangue podem algumas vezes ter níveis detectáveis (embora reduzidos) de vírus em outros fluídos corporais, incluindo sêmen, líquidos vaginal e retal. Entretanto, as implicações deste fenômeno na transmissão do HIV não estão ainda tão claras.

Enquanto alguns estudos mostram que discordância de carga viral entre sangue e outros fluídos corpóreos é comum, outros sugerem que é incomum. Infelizmente, o estudo PARTNER não monitorou a carga viral nos fluídos genitais e retais, então não sabemos quão comum era o fenômeno entre os participantes do PARTNER.

Embora numa amostragem muito reduzida, o estudo abaixo contribui com a resposta de Bob, pois analisou a presença do HIV no sêmen de soropositivos em tratamento antirretroviral.


Relação entre transmissão, micróbios, ambiente imunológico no sêmen e a carga viral do HIV

Por PLOS Pathogens em 24 de julho de 2014

Embora o HIV seja encontrado em muitos fluídos corporais, a transmissão sexual através do sêmen é a via mais comum de infecção. Consequentemente, a quantidade de vírus no sêmen (a carga viral do sêmen) afeta a probabilidade de transmissão do HIV. Além de esperma, o sêmen também contém fatores imunológicos e comunidades de bactérias, um ambiente que poderia influenciar a carga viral. Uma pesquisa publicada em 24 de julho na revista PLOS Pathogens relata que a infecção pelo HIV reconfigura a relação entre bactérias no sêmen e fatores imunológicos, os quais, por sua vez, afetam a carga viral, sugerindo que o microbioma do sêmen desempenha um papel na transmissão sexual do HIV.

Pesquisadores liderados por Lance Price, do Translational Genomics Institute Research, EUA, e Rupert Kaul, da Universidade de Toronto, Canadá, estudaram a relação entre as bactérias do sêmen com a infecção pelo HIV, através da análise de amostras de sêmen de 49 homens que fazem sexo com homens (HSH). Eles se concentraram em HSH em virtude do alto risco de transmissão sexual de HIV nesta população. 27 destes homens eram soropositivos e forneceram amostras de seu sêmen antes e depois de começarem a terapia antirretroviral (TARV), e também um e seis meses após seu início. Amostras de 22 HSH soronegativos serviram como controle.

Entre os homens soropositivos que estavam em TARV, o número total de bactérias nas amostras — a carga bacteriana do sêmen — foi correlacionado com a carga viral do HIV. Analisando o DNA das bactérias das amostras, os pesquisadores detectaram um total de 248 tipos únicos de bactérias no sêmen dos soronegativos, e uma média de 71 tipos diferentes por amostra. Em amostras de indivíduos soropositivos que não fazem uso de TARV, a diversidade do microbioma do sêmen foi significativamente reduzida, enquanto a abundância relativa dos grupos de bactérias mais comuns diferiram. A TARV por seis meses reduziu a carga viral de HIV no sêmen para níveis indetectáveis​​ e restaurou a diversidade e a composição das bactérias a uma situação semelhante à dos soronegativos.

Não houve correlação entre soronegativos e os fatores imunológicos e a carga bacteriana no sêmen. Em contraste, homens soropositivos apresentaram correlação tanto entre a carga bacteriana quanto entre a carga viral, entre vários fatores, mais fortemente à chamada interleucina-1 beta (IL-1B), um importante mediador da inflamação.

“Ao delinear a direcionalidade e causalidade entre as relações complexas que foram observadas, nota-se que mais estudos são necessários”, dizem os pesquisadores. Os dados, segundo eles, “sugerem uma interação entre o microbioma do sêmen, a imunologia local e a carga viral do sêmen. Uma carga bacteriana mais alta no sêmen pode levar à maiores níveis de IL-1B, o qual poderia induzir à libertação viral, deste modo aumentando a carga viral no sêmen.” Os pesquisadores concluíram que os resultados “sustentam a hipótese de que as bactérias no sêmen têm um papel na inflamação local e na liberação de HIV. Elas podem ser um alvo para reduzir o risco de transmissão do HIV.”

Referência

  1. Liu CM, Osborne BJW, Hungate BA, Shahabi K, Huibner S, et al. The Semen Microbiome and Its Relationship with Local Immunology and Viral Load in HIV Infection. PLoS Pathog, July 2014 DOI: 10.1371/journal.ppat.1004262

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Remédio pode reduzir a lipodistrofia


Tesamorelin pode ajudar pacientes com HIV a perder gordura

MELBOURNE, Austrália — Pacientes infectados pelo HIV tratados com hormônio liberador de hormônio do crescimento alcançaram reduções modestas na gordura abdominal e no fígado, de acordo com cientistas.

Num estudo preliminar que envolveu 54 pacientes, o tratamento com Tesamorelin (Egrifta), reduziu o tecido adiposo visceral em 34cm², comparado a uma redução de 8cm² alcançada em pacientes que tomaram placebo (P=0.005), de acordo com o Dr. Steven Grinspoon, da Harvard Medical School e Massachusetts General Hospital em Boston, e seus colegas, durante a Conferência Internacional de Aids. Os resultados também foram publicados simultaneamente no Journal of the American Medical Association.

Eles descobriram que a variação média de lipídios para porcentagem de água — um marcador de gordura no fígado — foi reduzida em 2% em pacientes tratados com Tesamorelin, com um aumento de 0,9% entre os pacientes tratados com placebo (P=0.003).

“A habilidade do Tesamorelin de reduzir a gordura no fígado em conjunção com a redução na gordura abdominal pode ser clinicamente importante para pacientes com infecção pelo HIV que apresentam doença hepática gordurosa, juntamente com o aumento da gordura abdominal”, afirmou Grinspoon. “Enquanto alguns pacientes com doença hepática gordurosa não associada ao uso de álcool têm uma evolução benigna, outros podem desenvolver um condição mais séria, envolvendo inflamação hepática, danos celulares e fibrose, os quais podem progredir para cirrose e doença hepática em estágio final ou ao câncer de fígado.”

Tesamorelin é o único medicamento aprovado pelo FDA com o objetivo de reduzir o depósito de gordura abdominal que pode se desenvolver em pacientes que fazem uso da terapia antirretroviral para tratar a infecção pelo HIV. Ele estimula o organismo a produzir hormônio do crescimento, o qual pode reduzir a lipodistrofia.

A lipodistrofia é acumulação anormal de gordura abdominal, que pode surgir em 20 a 30% dos pacientes que fazem uso de medicamentos antirretrovirais. Em torno de 30 a 40% das pessoas que vivem com HIV podem desenvolver doença hepática gordurosa não associada ao uso de álcool, mas não necessariamente em conjunto coma lipodistrofia.

“Embora a hipertrofia abdominal seja menos comum com os novos medicamentos antirretrovirais, existe um grupo significativo de pacientes com acumulação de gordura abdominal que usam antirretrovirais há bastante tempo”, afirmaram os pesquisadores. “Na infecção pelo vírus da imunodeficiência humana, a acumulação de gordura abdominal é associada o acúmulo ectópico de gordura no fígado.”

O principal autor da pesquisa, Dr. Takara Stankey, também da Harvard Medical School, disse que o Tesamorelin age especificamente na redução da gordura abdominal, mas seus efeitos sobre o fígado são desconhecidos. “A população observada foi majoritariamente de homens que viviam com HIV e sob tratamento antirretroviral por um longo período, o que é consistente com mudanças lipodistróficas”, disse Grinspoon.

Os pesquisadores examinaram 76 pessoas, randomizando 54 indivíduos que atendiam aos critérios de inclusão. Deste grupo, 26 foram designados para o grupo de placebo e 28 foram escolhidos aleatoriamente para receber Tesamorelin. Os participantes do estudo receberam injeções subcutâneas diárias durante 6 meses, com Tesamorelin (2mg/dia) ou placebo.

Uma vez que o hormônio de crescimento pode aumentar o nível de açúcar no sangue e reduzir a sensibilidade à insulina, cerca de metade dos indivíduos em cada grupo também foram submetidos a procedimentos para analisar a secreção de insulina e a resistência à insulina.

20 pacientes que receberam placebo e 25 que receberam Tesamorelin fizeram acompanhamento de 3 meses. 20 pacientes que receberam placebo e 23 que receberam Tesamorelin fizeram visitas de acompanhamento aos 6 meses. Os dados disponíveis incluem pacientes que fizeram as visitas de 6 meses.

A avaliação também incluiu a medição ampla de fatores relacionados à infecção pelo HIV, lipídios e metabolismo de glicose, além de análise de gordura abdominal por tomografia computadorizada e de gordura no fígado por espectroscopia de ressonância magnética.

Análises no começo e no fim do período de 6 meses indicaram que não parece haver diferenças estatisticamente significantes nos estudos de insulina a longo prazo, segundo os pesquisadores relataram. Embora o tratamento com Tesamorelin pareça reduzir a sensibilidade à insulina e aumentar os níveis de açúcar no sangue na avaliação feita aos 3 meses, as medições feitas aos 6 meses voltaram aos níveis observados no início do estudo, sugerindo que o impacto do medicamento no metabolismo da glicose foi apenas temporário, segundo Stanley.

“Os efeitos colaterais sobre a glicose pelo uso do Tesamorelin a longo prazo são neutros mas importantes, uma vez que os pacientes que vivem com HIV e acúmulo de gordura abdominal podem ter resistência subjacente à insulina; é importante saber que esta não vai ser agravada por este tratamento”, explicou Grinspoon. “Uma vez que sabemos que a gordura no fígado é associada à inflamação no fígado, reduzi-la pode resultar em menos inflamação.” Ele relatou que os testes de enzimas hepáticas e de marcadores de inflamação do fígado foram menores entre os pacientes tratados com Tesamorelin.

Os autores observaram que a ampla utilização de Tesamorelin em pacientes infectados pelo HIV e com lipodistrofia pode ser limitada, uma vez que a droga é cara, com algumas estimativas de preço chegando a US$ 3.000,00 por mês.

Eles lembraram que o grupo não foi escolhido especificamente por apresentar aumento de gordura no fígado, e que, devido a mudança absoluta de lipídios em água ter sido modesta, tem pouca importância clínica e seus dados não são conhecidos. Além disso, biópsias de fígado — o método ideal para avaliar características de doença hepática gordurosa não alcoólica e doença hepática avançada — não foi realizada. Os pesquisadores também não coletaram dados após a descontinuação do Tesamorelin.

“Estudos anteriores demonstraram que a gordura visceral pode voltar a se acumular após a descontinuação da Tesamorelin e estudos futuros serão necessários para determinar se reduções na gordura hepática com Tesamorelin são mantidos após a descontinuação do tratamento”, escreveram eles.


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Relatos da vida com HIV


Soropositivos contam como é viver com HIV hoje no Brasil; veja relatos

Por Mariana Lenharo do G1, em São Paulo

Relatório da Unaids apontou que novos casos cresceram no Brasil. Tendência mundial é de queda: de 2005 a 2013, casos diminuíram 27,5%

A tendência de aumento das novas infecções por HIV no Brasil veio à tona recentemente com a divulgação de um relatório da Unaids, programa da Nações Unidas sobre a doença. O levantamento constatou que, globalmente, o número anual de novos casos caiu 27,5% entre 2005 e 2013, enquanto para o Brasil foi apontado um crescimento de 11,8%.

Dados consolidados pelo Ministério da Saúde, por sua vez, indicam aumento de 9% entre 2002 e 2012.

Segundo especialistas ouvidos pelo G1, a diferença do país em relação à tendência mundial, que tem as infecções em queda, pode ter várias explicações. Uma delas é o fato de o Brasil estar em uma fase diferente da epidemia em comparação a outras regiões, além da carência de novas estratégias de prevenção. [Continue lendo.]


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Mais testagem, menos incidência


Segundo estudo comparativo, HIV cresce entre gays em Londres por causa da falta de testagem

Por Gus Cairns, em 24 de julho de 2014 para o Aidsmap

Números sugerem que em São Francisco a testagem está aumentando a revelação da condição sorológica e a escolha dos parceiros com base na condição sorológica

Um estudo apresentado na 20ª Conferência Internacional de Aids (Aids 2014), em Melbourne, comparou a epidemia de HIV entre homens gays em São Francisco, nos EUA, a Londres, no Reino Unido, e confirmou que, enquanto a incidência de novos casos de infecção pelo HIV em São Francisco está caindo, ela está estática e até mesmo subindo em Londres.

A razão principal parece disso ser o fato de que homens gays em Londres não só fazem testes de HIV com menos frequência do que em São Francisco, mas fazem menos testes do que dizem fazer. A diferença é gritante: na última pesquisa sobre saúde sexual masculina, em 2011, 58% dos homens gays pesquisados disseram ter feito teste de HIV no último ano, enquanto os números computados nos postos de saúde em Londres sugerem menos de 20% de todos os homens gays soronegativos da cidade (incluindo os que não frequentam postos de saúde) fazem testes todos anos. Essa taxa é 50% menor do que a taxa observada em São Francisco.

Evidentemente, a testagem sozinha não reduz o risco de transmissão de HIV. Mas as altas taxas de testagem em São Francisco parecem levar à taxas mais elevadas de revelação da condição sorológica entre homens gays e, como resultado, ainda mais altas taxas de escolha dos parceiros sexuais com base na real condição sorológica. A taxa de sexo desprotegido com parceiros de sorologia oposta ou desconhecida está em queda em São Francisco e estável em Londres.

Colin Brown, do Public Health England (PHE), afirma que, historicamente, a prevalência de HIV entre homens gays em São Francisco é alta, em 24%, mas decrescente. Por sua vez, em Londres ela aumentou de 10%, em 2009, para 13%, hoje. Por conta disso, ele sugere, tem havido uma cultura de revelação da condição sorológica em São Francisco. O desafio agora é sobre como encorajar mais revelação em Londres, uma cidade muito maior, mais diversa, com prevalência muito menor e onde há evidência de maior estigma anti-HIV.

Os números

Londres e São Francisco acabaram comparadas entre si porque as taxas de HIV em ambas são bem monitoradas. Em Londres, a taxa anual de novos diagnósticos de HIV entre (todos) os homens permaneceu estática, em 580 casos a cada 100.000 homens (um caso para cada 172, por ano), entre 2006 e 2013. O número de novos diagnósticos subiu de 1200 para 1400, mas em virtude de mais testagem.

Em São Francisco, a taxa de novos diagnósticos a cada 100.000 homens caiu de 690, em 2006, para próximo de 520 em 100. Números preliminares de 2013 sugerem uma queda acentuada para 435 casos a cada 100.000 (um caso a cada 230 homens, por ano). O número anual de novos diagnósticos em São Francisco, uma cidade menor do que Londres, caiu de 420 para 300.

A incidência real — a verdadeira taxa de novas infecções — é sempre mais difícil de ser estabelecida do que o diagnóstico, pois é confundida por mudanças nas taxas de diagnóstico. Assim, um indicador é a proporção das infecções diagnosticadas que são recentes (menos de 6 meses atrás). Em Londres, conforme estabelecido pelo estudo de incidência, a proporção de novas infecções diagnosticadas que são recentes se manteve entre 23-24% desde 2007, enquanto em São Francisco ela caiu de 18% para menos de 5% entre 2004 e 2011.

A proporção de homens gays vivendo com HIV que não fez diagnóstico e não sabe de sua condição sorológica caiu de 34% para 13% em Londres, entre 2004 e 2011. Em São Francisco, caiu de 22% para 4% no mesmo período. Estas quedas são, evidentemente, histórias de sucesso em ambas cidades e vêm acompanhadas da subida da média de contagem de CD4 no ato do diagnóstico, a qual subiu de aproximadamente 390 para 450 células/mm³ nas duas cidades. Todavia, as taxas de incidência permanecem teimosamente altas em Londres, enquanto decrescentes em São Francisco.

Por que? A diferença mais óbvia está na proporção de homens gays que sabem seu status para o HIV, em particular entre aqueles que fizeram o teste recentemente. De acordo com relatos feitos pela própria comunidade, a proporção de homens gays que fez o teste de HIV no ano passado subiu de 43% para 58% em Londres, entre 2004 e 2011, mas de 69% para 72% em São Francisco durante o mesmo período.

Mas a taxa de testagem real entre homens gays é surpreendentemente diferente. Em Londres, a grande maioria dos homens gays faz o teste de HIV em postos de saúde especializados em saúde sexual. Estima-se que a proporção de homens gays soronegativos que visitou estes postos para fazer o teste no ano anterior foi de apenas 17%, em 2011. Embora seja bem maior do que a estimativa de 12%, em 2009, é três vezes menor do que a proporção de homens que diz ter feito o teste no último ano.

Em São Francisco, estima-se que 29% dos homens soronegativos fizeram o teste em postos de saúde em 2011. No entanto, muitos outros fizeram o teste através de seus médicos ou de planos de saúde particulares. Portanto, essas taxas certamente são mais altas — provavelmente o dobro da taxa de Londres.

Escolha de parceiros com base da condição sorológica e DSTs

Isso não seria motivo de preocupação — em termos de transmissão — se todos usassem camisinha. Mas a razão que faz a testagem levar à taxas menores de incidência de HIV em São Francisco é, provavelmente, em virtude da escolha de parceiros sexuais com base na condição sorológica. Em Londres e São Francisco, quase a mesma proporção de homens gays relata praticar sexo anal sem camisinha — entre homens soropositivos, aproximadamente 60% em Londres e 55% em São Francisco; entre soronegativos, aproximadamente 55% em Londres e 45% em São Francisco. A proporção de homens soronegativos que nem sempre usa camisinha aumentou 15% nas duas cidades, desde 2004.

No entanto, a porcentagem de homens gays que faz sexo sem camisinha com um homem de sorologia desconhecida ou oposta — sexo sorodiscordante sem camisinha — permaneceu a mesma em Londres, em torno de 10% entre homens soronegativos e em torno de 26% entre homens soropositivos. Em contraste, a taxa em São Francisco, que era maior, decaiu de 20% para 12% entre homens soronegativos e de 37% para 20% entre homens soropositivos. Em outras palavras, em São Francisco os homens estão fazendo a mesma quantidade de sexo sem camsinha, porém, cada vez mais, restrito a parceiros da mesma condição sorológica para o HIV.

Dados objetivos reforçam essa prática no que diz respeito ao diagnóstico de outras DSTs (doenças sexualmente transmissíveis). Em Londres, as taxas de gonorreia em homens gays são aproximadamente as mesmas entre homens soropositivos e soronegativos — em torno de 1,7 a 1,9 casos a cada 100 homens por ano. Em São Francisco, a taxa de gonorreia em soropositivos é aproximadamente a mesma da taxa em Londres — 1,6 a cada 100 — mas é muito menor entre homens soronegativos, em 0,45 a cada 100. Com sífilis, as taxas entre soronegativos são as mesmas em Londres e São Francisco — em torno de 0,3 a cada 100 por ano. Entre homens soropositivos em Londres, casos de sífilis são quase cinco vezes maiores — em torno de 1,3% ao ano. No entanto, em São Francisco a taxa de sífilis em homens soropositivos aumentou de 1,8% ao ano para 3% — dez vezes a taxa em soronegativos.

No seu conjunto, estes números sugerem que DSTs estão mais concentradas entre homens soropositivos em São Francisco porque o sexo sem camsinha entre soropositivos e soronegativos é mais raro. Mais homens gays em São Francisco escolhem seus parceiros com base na condição sorológica e se beneficiam de uma taxa de HIV em queda, enquanto as DSTs aumentam entre os soropositivos.

Há ainda outras diferenças entre Londres e São Francisco. Em Londres, 13,6% dos homens gays sexualmente ativos reportaram usar metanfetamina no último ano — um grande aumento nos últimos anos — enquanto em São Francisco 12% reportaram usar a droga, cujo uso tem decaído nos últimos anos. Em Londres, a taxa de reinfeção por hepatite C entre homens gays aumentou 25% em dois anos, enquanto em São Francisco se manteve estável.

A maior diferença entre as cidades está na taxa de exames de saúde para quem tem HIV. Aproximadamente 60% de toda a população soropositiva de cada cidade está tomando antirretrovirais e atingiu supressão viral. No entanto, em São Francisco, esta taxa só não é mais alta em virtude do abandono do tratamento entre os homens diagnosticados, enquanto, em Londres, é em virtude da proporção de pessoas não-diagnosticadas.

Campanhas de prevenção e os próximos passos

Recentes campanhas de saúde para homens gays em São Francisco se mantiveram concentradas não em desencorajar a escolha de parceiros com base na condição sorológica ou em encorajar homens gays que presumem ser soronegativos e se anunciar como tal, mas em encorajar aqueles que fizeram o teste de HIV e receberam resultado negativo a anunciar isto e discutir informações relevantes — tal como o tempo desde seu último teste, se fizeram sexo sem camisinha desde o último teste ou em que circunstâncias eles fariam sexo sem camisinha.

Enquanto a escolha de parceiros com base na condição sorológica pode funcionar, Colin Brown lembra que “o mito dessa escolha entre positivo/negativo precisa ser mudado”. Em outras palavras, é preciso mudar a ideia presunçosa de que aqueles que não revelam sua condição sorológica não tem HIV.

Brown disse também que há questões importantes para as autoridades de Londres. Como a cidade pode alcançar uma cultura de testagem e revelação do diagnóstico em larga escala, numa população de baixa prevalência? Qual foi a contribuição da imigração, oriunda de países de alta — ou baixa — prevalência para uma cidade na qual metade dos homens gays nasceu fora do Reino Unido? Qual a diferença entre a administração do tratamento, escolha de parceiros ou de tipo de ato sexual com base na carga viral e o aumento, formal ou informal, da profilaxia pré-exposição (PrEP)?

Entre os comentários do público, Lisa Power, ex-diretora do Terrence Higgins Trust, disse que São Francisco também se beneficiou de possuir uma autoridade de saúde centralizada, enquanto em Londres há “o mito de que o localismo é sempre bom”, o qual fez com que os serviços de saúde fossem fragmentados em 33 distritos. Outro comentarista, de Amsterdã, sugeriu que outras cidades europeias e americanas se beneficiariam de comparações com esta.

A mensagem, no entanto, parece ser bem simples: os homens homossexuais em Londres precisam fazer teste de HIV e divulgar sua sorologia com mais frequência — e não apenas dizer que fazem isso.

Referências

Brown CS et al. A divergent tale of two cities: why has HIV control in men who have sex with men (MSM) differed between London and San Francisco (SF) since 2006? 20th International AIDS Conference, Melbourne, abstract THAC0205LB, 2014.

Veja o resumo no site da conferência.


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