Posts recentes

e922470e836caa10b7b2e457116dab03

O maior inimigo da Gilead Sciences


Por George Budwell para The Motley Fool em 17 de maio de 2015

Quando se trata de desenvolvimento de tratamento para doenças infecciosas, a Gilead Sciences (NASDAQ: GILD) é líder. Os regimes de medicamentos para o HIV em comprimido único, por exemplo, passaram a dominar o mercado, tanto os Estados Unidos quanto na União Europeia.

hiv-gild_large

Na luta contra a hepatite C, a Gilead estima que, com a Sovaldi e Harvoni, atualmente controla cerca de 90% do mercado, esmagando seus concorrentes mais próximos, como a AbbVie (NYSE: ABBV) e a Bristol-Myers Squibb (NYSE: BMY). Por causa do impressionante sucesso da Gilead em seus novos medicamentos contra doenças infecciosas, seu fluxo de caixa operacional tem voado mais alto nos últimos 12 meses:

operating-cash_large

Assim, a Gilead foi capaz de premiar os acionistas com um maciço programa de recompra de ações de US$ 15 bilhões e através do pagamento do dividendo trimestral, que está definido para começar a ser repartido no segundo trimestre deste ano. Apesar de tudo, o preço de uma ação da empresa tem ficado para trás no setor de biotecnologia.

e922470e836caa10b7b2e457116dab03

O aspecto mais confuso sobre o desempenho do preço das ações da Gilead é o fato de que o mercado tem, basicamente, esnobado os lucros da empresa em favor de suas colegas mais próximas, como Biogen (NASDAQ: BIIB) e Celgene (NASDAQ: CELG).

feb405fb897bf79fa300a010885bd797

O gráfico acima mostra que, durante o ano passado, o mercado esteve disposto a pagar mais do que o dobro do valor para os lucros da Biogen e da Celgene, em comparação com o lucro a Gilead. Se você acha que parece irracional, que parece que o mercado não está entendendo a empresa, tenho uma notícia decepcionante para você: a ciência da Gilead é tão boa que ela é, na verdade, capaz de destruir o próprio negócio da empresa.

Empresas farmacêuticas, como a maioria das outras empresas, obtém a maior parte de sua receita através da repetição de negócios. A Gilead, no entanto, está realmente fazendo algo que nenhuma outra farmacêutica está fazendo: curando pacientes de doenças infecciosas devastadoras.

Tratamentos biotecnológicos para hepatite C são basicamente curas funcionais para mais de 90% dos pacientes que os tomam. Como resultado, há uma chance real que o mercado para esses medicamentos poderia afundar dentro dos próximos 5 a 10 anos, especialmente nos países ocidentais, onde os níveis de infecções por hepatite C têm estado em declínio desde que os procedimentos de triagem de sangue foram implementados, na década de 1990.

Para piorar as coisas, a Gilead está rapidamente desenvolvendo uma nova combinação de comprimido que poderia reduzir a duração média deste tratamento pela metade. Isso é uma grande notícia para os pacientes e para os médicos que lutam a doença, mas também significa que cerca de metade das receitas da Gilead oriundas do tratamento da hepatite C poderiam evaporar num futuro não tão distante.

Gilead

Agora, a Gilead está indo atrás de uma cura para o HIV. De acordo com uma recente apresentação para investidores, a empresa iniciou um pequeno estudo de segurança para o GS-9620, parte de uma estratégia de erradicação viral para pacientes infectados com o HIV chamada de “chutar e matar”.

Até agora, abordagens semelhantes foram apenas parcialmente eficazes, porque estas drogas experimentais não foram capazes de ativar todas as células que transportam o HIV de uma só vez. Mas o GS-9620 da Gilead é um ativador imunológico extremamente potente, mostrado por seus ensaios clínicos como um potencial tratamento para a hepatite B.

Em suma, ao curar o HIV, a Gilead poderia estar comendo um enorme pedaço de seu principal negócio dentro dos próximos três anos. Mais uma vez, isso seria uma incrível notícia para pacientes com HIV, mas ajuda a mostrar por que o mercado não valoriza os ganhos da Gilead como tem feito com suas colegas.

E agora?

Minha opinião é que a Gilead está começando uma transição para longe das doenças infecciosas, a fim de se concentrar em oncologia. A recente aquisição da empresa de capital fechado EpiTherapeutics para estudar uma pré droga candidata a tratar câncer e o rápido crescimento do programa clínico para vários tipos de câncer parecer sugerir que o objetivo da Gilead é, de fato, tornar-se uma empresa de oncologia.

Olhando para o futuro, acredito que a Gilead irá utilizar seu crescente caixa, de mais de US$ 14 bilhões, para reforçar significativamente sua pegada no tratamento do câncer. Esse movimento poderia forçar o mercado a reavaliar sua perspectiva sobre a biotecnologia e seria, portanto, um evento enorme de criação de valor para os acionistas.

microscope

Acompanhando as pesquisas


AVAC_cura

Uma cura para a infecção pelo HIV é um dos objetivos finais de longo prazo da pesquisa científica atual. A ciência está progredindo, aumentando as esperanças e os desafios.

AVAC

Noções básicas sobre a cura

O termo “cura” refere-se a uma estratégia ou um grupo de estratégias que possa eliminar o HIV do corpo de uma pessoa ou permanentemente controlar o vírus e torná-lo incapaz de causar doença. Dois tipos de “cura” estão sendo pesquisadas. Uma por “esterilização”, que possa eliminar completamente o vírus do corpo. Outra “funcional”, que possa suprimir a carga viral do HIV, mantendo-a abaixo do nível de detecção sem o uso de antirretrovirais. Nesta última, o vírus não seria eliminado do corpo, mas estaria efetivamente controlado e sem risco de transmissão. É difícil distinguir estes tipos de curas e, por isso, alguns estão usando o termo “remissão”, emprestado do campo do câncer, e que geralmente é definido como a ausência de pronta recuperação do vírus detectável por algum período de tempo após a interrupção de medicamentos. Este período de tempo ainda não está definido pela comunidade científica.

É importante saber que os cientistas ainda estão debatendo e descobrindo o que significa estar biologicamente curado do HIV. Apesar de alguns possíveis casos de curas funcionais terem sido relatados, leva tempo para ter a certeza de que o HIV não pode causar doença, uma vez que sabemos que mesmo níveis muito baixos de vírus abaixo do limite de detecção podem aumentar o risco de certas doenças e, em última instância, levar à aids.

Quais tipos de estratégia de cura estão sendo pesquisadas hoje?

cureFactsheetDownloadHá quatro estratégias principais sendo exploradas. Cada uma dessas estratégias tem uma abordagem diferente diante do desafio fundamental da infecção pelo HIV: a habilidade que o vírus tem de se esconder em células que não estão ativas e nem se dividindo. Contanto que as células não estejam se dividindo, o vírus não cria cópias de si mesmo e, nessas condições, é considerado como sendo um “vírus latente”. As células que carregam vírus latente são, coletivamente, referidas como “reservatórios virais”. A maior parte do reservatório viral está nas células de memória T CD4+, que são projetadas para viver no corpo indefinidamente. Uma cura verdadeiramente eficaz terá que eliminar esses reservatórios virais ou garantir que o vírus que é ativado a partir destas células em repouso não restabeleça a infecção no organismo.

“Chutar e matar”: Esta estratégia de duas etapas visa liberar (ou chutar) o vírus para fora das células em repouso e, depois, seguir com um abate eficaz das células infectadas. Muitos dos agentes capazes de chutar, considerados hoje como possíveis alternativas, são atualmente usados ​​no tratamento de câncer. O componente capaz de matar pode incluir uma vacina terapêutica, se uma eficaz vier a ser desenvolvida, ou outras intervenções capazes de melhorar a resposta imunitária contra o HIV.

Manipulação genética: Esta estratégia visa modificar as células de uma pessoa para que o HIV não possa infectá-la. Isto pode ser feito alterando os genes de células do sistema imune de uma pessoa. Os genes são as instruções para a arquitetura da célula. Uma alteração que remova um receptor ou uma proteína chave, utilizada pelo HIV para instalar a infecção, pode tornar a célula resistente à infecção. A terapia génica tem como alvo muitos dos mesmos alvos utilizados no tratamento. Uma vez que o HIV precisa estar dentro de células para copiar a si mesmo, tal estratégia pode efetivamente impedir que o HIV se espalhe pelo organismo. A terapia genética mais avançada é tecnologicamente complexa: envolve a retirada de células T CD4 de indivíduos soropositivos e, em seguida, sua modificação com um método que desativa o gene que codifica o receptor CCR5, o qual a maioria das variantes do HIV usa como apoio para entrar nas células.

Transplantes de células-tronco: As células-tronco hematopoiéticas, produzidas na medula óssea, são a fonte de todas as células sanguíneas no corpo. Transplantes de células-tronco são usados para tratar doenças potencialmente fatais, como o câncer. Eles têm um elevado risco de efeitos colaterais. No caso notável de Timothy Brown, que foi aparentemente curado do HIV, ele recebeu um transplante de células-tronco para tratamento de câncer. Seu transplante continha células que não poderiam ser infectadas pelo HIV, porque lhes faltava o receptor CCR5 em sua superfície. Transplantes de células-tronco são precedidos por um processo chamado de condicionamento, no qual o sistema imune do indivíduo é eliminado, para dar espaço para o sistema doador e diminuir a probabilidade de rejeição do transplante. Em indivíduos soropositivos, o condicionamento elimina muitas células infectadas pelo HIV. Transplantes de células-tronco são o último recurso para pessoas com câncer ou HIV. Esta estratégia não é reproduzível em larga escala.

Vacinas terapêuticas: As vacinas terapêuticas são concebidas para aumentar ou induzir respostas imunes contra o HIV em alguém que já está infectado com o vírus. A maioria destas vacinas é destinada a aumentar a potência das células que naturalmente são capazes de matar o HIV, como, por exemplo, células T CD8+ específicas para o HIV e células Natural Killer (NK). A esperança é que as respostas imunológicas induzidas por vacinas possam contribuir para o controle do vírus na ausência de tratamento antirretroviral e, talvez, também ajudem a eliminar as células infectadas de forma latente.

Quais são os desafios relacionados à pesquisa da cura?

Há muitas questões que dificultam a pesquisa da cura. Em primeiro lugar, não há nenhuma maneira clara para medir o reservatório do HIV. As duas abordagens principais são para medir o número de cópias de RNA do HIV no sangue ou o número de cópias de DNA do HIV nas células. Mas medir apenas o RNA do HIV no sangue não detecta as cópias virais já integradas nas células em repouso, enquanto medir o DNA do HIV não significa, necessariamente, ter uma imagem precisa, uma vez que as tecnologias disponíveis e mais baratas não conseguem distinguir o vírus em fase de replicação. Um teste mais preciso, o exame de crescimento viral quantitativo, requer a utilização de um grande número de células e não pode ser feito a partir de uma simples coleta de sangue.

Um segundo grande desafio é que as estratégias de cura atualmente sob pesquisa carregam riscos e benefícios desconhecidos. Descobrir como comunicar teses incógnitas para os potenciais participantes de estudos será uma parte importante de qualquer estudo clínico da cura. Para testar se uma pessoa foi de fato curada, é preciso interromper o tratamento antirretroviral, para que, se houver um eventual aumento da carga viral, este possa ser medido. Não existem diretrizes padronizadas a respeito da duração da interrupção de tratamento que minimizem os riscos para os participantes do estudo e para seus parceiros. Finalmente, as estratégias de cura podem vir a ser diferentes para homens, mulheres e crianças — diferenças biológicas entre os sexos e diferenças entre sistemas imunes adultos e pediátricos sugerem que é improvável que haja uma única abordagem de cura para todos.

O que acontece depois?

A pesquisa da cura está em expansão, com uma gama de estudos previstos ou em curso. Clique aqui para ver uma lista desses estudos.

Como ativistas podem se envolver?

Muitas das estratégias de pesquisa a ser desenvolvidas exigem equipamentos caros e formação específica para sua administração. Para alcançar o sucesso podem, ser necessários recursos adicionais. Esses recursos não estão disponíveis na maioria das partes do mundo. Os ativistas podem aumentar a conscientização em torno da necessidade destas tecnologias, a fim de prepararem-se para futuros estudos de cura em humanos.

Pesquisas sobre a cura

A pesquisa da cura do HIV está crescendo — incluindo estudos clínicos cujos projetos exigirão participação da comunidade informada. A AVAC está trabalhando com parceiros para tornar isso possível. Para mais informações, veja:

 

AVAC_tasp

Para salvar vidas, o tratamento antirretroviral por si só não é suficiente. Suprimir o HIV e manter a carga viral indetectável é o que importa.

Noções básicas sobre o Tratamento como Prevenção

Desde 1996, a terapia antirretroviral, usando uma combinação de medicamentos, tem ajudado a manter milhões de pessoas que vivem com o HIV vivas e saudáveis. Hoje, os antirretrovirais também são amplamente vistos como a pedra fundamental de uma resposta abrangente de prevenção. Isto é baseado em evidências de estudos entre casais sorodiscordantes (em que uma pessoa está vivendo com o HIV e outra não), nos quais o parceiro soropositivo que faz uso de antirretrovirais mostrou ter significativamente reduzidas suas chances de transmissão do vírus. Há também evidências de que a terapia antirretroviral reduz o risco de transmissão do HIV a partir de mulheres através da amamentação e há uma série de estratégias que utilizam os antirretrovirais, individualmente ou em combinações, para reduzir o risco de transmissão do HIV durante a gravidez e o parto.

TasPfactsheetDownloadO termo “Tratamento como Prevenção” (ou TasP, do inglês Treatment as Prevention) é por vezes utilizado para descrever a ampla função dos antirretrovirais como uma intervenção que apresenta benefício para a saúde do indivíduo e como uma ferramenta de prevenção. No entanto, esta designação pode ser confusa, especialmente nos momentos em que terapia antirretroviral é observada exclusivamente sob o ponto de vista do benefício clínico. Na verdade, sempre que um indivíduo que vive com HIV está em tratamento antirretroviral e apresenta supressão virológica (a carga viral indetectável), há o benefício da prevenção, mesmo que esta não seja a razão pela qual o indivíduo optou estar em tratamento. É importante notar que, atualmente, a decisão de um indivíduo com HIV começar a terapia antirretroviral é baseada em vários fatores, incluindo as diretrizes de tratamento de acordo com as recomendações da região onde vive. Estas diretrizes podem levar em conta fatores como a saúde clínica do indivíduo, a coinfecção com outras doenças e infecções oportunistas, contagem de células T e testes de carga viral. Não existe qualquer evidência relevante a respeito da redução do risco de transmissão através do compartilhamento de seringas quando carga viral é indetectável. Os dados sobre o efeito do tratamento como a prevenção estão limitados a indivíduos cujo principal risco de contrair o HIV é através da exposição sexual.

Hoje, a resposta global à aids está sendo moldada por campanhas que visam ampliar o acesso ao tratamento antirretroviral, para ambos os benefícios clínicos e de prevenção. Em junho de 2013, a Organização Mundial de Saúde (OMS) atualizou suas diretrizes para incluir os benefícios do tratamento como prevenção, e sugere que os países ofereçam antirretrovirais para todos os indivíduos soropositivos com contagens de células CD4 igual ou inferior à 500 e, para grupos específicos, como mulheres grávidas ou amamentando e pessoas soropositivas em relacionamento sorodiscordante, independentemente da contagem de células CD4. Em meados de 2014, o Unaids lançou a meta “90-90-90″ para acabar com a epidemia de aids até 2030, a qual exige que 90% das pessoas que vivem com HIV saibam da sua condição, 90% dos indivíduos que sabem de sua condição positiva para o HIV estejam em tratamento antirretroviral e 90% dos indivíduos em tratamento tenham alcançado a supressão virológica, até o ano de 2020.

Ativistas têm um papel fundamental a desempenhar, para garantir que o acesso ao tratamento seja expandido sempre com direito de escolha, sob programas liderados pela comunidade, isentos de coerção e com atenção para uma gama completa de outras estratégias de prevenção necessárias para começar a acabar com a aids.

Quais são os dados sobre antirretrovirais e a prevenção do HIV?

Os primeiros dados vêm de um estudo conhecido como HPTN 052, que envolveu 1.763 casais sorodiscordantes (um parceiro soropositivos e um soronegativo) e observou o tratamento como prevenção em vários países. A pergunta principal era: se o parceiro soropositivo iniciar o tratamento, isso pode ajudar a reduzir o risco de transmissão sexual do HIV para o parceiro soronegativo? Esse efeito é durável? O HPTN 052 descobriu que a terapia iniciada imediatamente reduziu o risco de transmissão do HIV em 96%. Outro estudo, conhecido como PARTNER, encontrou igualmente elevados níveis de proteção no contexto de sexo anal entre casais heterossexuais e gays sorodiscordantes. Uma série de outros estudos clínicos e observacionais de dados estão em andamento, muitos dos quais levam em conta o benefício prevenção e também da expansão do acesso ao tratamento. Esses dados contribuem com os esforços para expandir o acesso global aos antirretrovirais.

Quão realista é a meta “90-90-90″ e a sugestão de usar antirretrovirais para começar a acabar com a epidemia de HIV?

O HPTN 052 mostrou um benefício poderoso. No entanto, existem muitos desafios na implantação do tratamento como uma estratégia de prevenção, incluindo as lacunas atuais na cobertura de antirretrovirais para pessoas que são clinicamente elegíveis para eles, baixas taxas de testagem para o HIV, desafios para manter as pessoas sob tratamento, questões científicas adicionais sobre a exata relação entre a carga viral no sangue e o risco de transmissão do HIV e a falta de consenso em torno do melhor momento para os indivíduos iniciarem o tratamento. Estes desafios exigem pesquisas adicionais, bem como discussões políticas e comunitárias.

Pesquisas sobre o Tratamento como Prevenção

Em um dado país, diz-se que a epidemia alcançou seu “ponto de inflexão” quando o número de novas infecções anuais pelo HIV cai abaixo do aumento anual de pacientes começando a terapia antirretroviral. A cobertura de tratamento é importante. Primeiro, o país tem que atingir a cobertura tratamento em cerca de 66% para que um cálculo válido sobre o ponto de inflexão possa ser feito. A qualidade do acompanhamento médico também importa muito, uma vez que não basta apenas começar o tratamento, mas se manter nele e atingir a supressão virológica, importantes para a saúde individual e pública.

Para os ativistas da prevenção, há uma série de questões para acompanhar e amplificar em torno da implementação, monitorização e pesquisa relacionada com o tratamento como prevenção. Para aprender mais:


HIV-1_Transmission_electron_micrograph_AIDS02bbb_lores

É verdade ou mentira?

Brasil Post

Uma professora na faculdade uma vez falava sobre o impacto das legendas nas fotografias publicadas nos jornais e revistas. Era uma aula de Semiótica, a ciência que nos ajuda “a compreender que o significado das mensagens fotográficas é culturalmente determinado e sua recepção necessita de códigos de leitura”, explicava a professora. Nos slides que ela apresentava, diferentes fotos eram mostradas com e sem legenda e nós, os alunos, percebíamos a influência do texto em direcionar o olhar sobre a imagem — e vice-versa.

HIV-1_Transmission_electron_micrograph_AIDS02bbb_lores

Dentre todos os slides apresentados pela professora, três se destacavam: uma foto aérea, uma imagem obtida a partir de microscopia eletrônica e uma foto tirada por uma sonda espacial, em algum planeta distante. Chamou a atenção como todas essas careciam muito de alguma explicação para que fossem compreensíveis, uma legenda que indicasse do que é que se tratava. A primeira, uma vista aérea do Afeganistão, tirada por um avião militar norte-americano em busca de alvos do Taleban. A segunda, uma imagem de um vírus infectando seu hospedeiro. Por último, o planeta em questão era Marte. E, sem uma legenda, era totalmente impossível para qualquer leigo nestes assuntos compreender sobre o que eram e onde foram tiradas essas fotografias.

A você e eu, leitores comuns, leigos em tantos assuntos, nos resta acreditar na grande maioria das coisas que lemos — ou duvidar, que é a semente de um mundo sem fim de questionamentos, da imaginação que nos leva para longe, das pesquisas no Google que nos levam à páginas e páginas repletas de explicações que parecem tão fundamentadas, das teorias da conspiração que, por que não?, podem ser plenamente verdadeiras, retratadas num sem-número de filmes de ficção que, quem sabe, podem ser profundamente reais. Afinal, como já disse Peter Brook:

“Quando tudo é simulação, o teatro é real.”

Parece que é por causa dessa premissa que tem circulado pelas redes sociais, nos últimos dias, um post de um blog com mais de 20 mil seguidores, chamado Segundo Sol, e intitulado: “Bomba! ‘O HIV é um vírus inofensivo e não transmite a aids’, afirma ganhador do Nobel”. O texto gira em torno de uma entrevista de Peter Duesberg, professor de biologia molecular da Universidade da Califórnia, à revista SuperInteressante e quem, diferentemente do que sugere o título do post, nunca foi ganhador de um prêmio Nobel. Duesberg concebeu a ideia de que o HIV seria inofensivo em 1987 e concedeu essa entrevista no ano 2000.

Mas de onde vem a ideia de negar que o HIV causa da aids? “Tudo surgiu, até certo ponto, legitimamente, no início da identificação da aids, no fim dos anos 70 ao início dos anos 80″, conta o Dr. Esper Kallás, meu médico infectologista e professor associado da Disciplina de Imunologia Clínica e Alergia da Faculdade de Medicina da USP. “Naquela época, o conhecimento era muito restrito e carente de técnicas laboratoriais capazes de avaliar o sistema imune. A virologia era uma ciência nascente.”

Dallas Buyers Club

O decorrer da história também não ajudou. As incertezas sobre a nova doença e a disputa pela descoberta do HIV, entre Luc Montagnier e Françoise Barré-Sinoussi, do Instituto Pasteur, em Paris, e Robert Gallo, do Instituto Nacional do Câncer, em Maryland, prejudicavam o controle da epidemia, um momento bem retratado no filme E a Vida Continua (1993).  Em 1987, a Federal Drug Administration (FDA) aprovou, às pressas, o primeiro antirretroviral para tratar o HIV: o AZT, ou Zidovudina, um medicamento inicialmente desenvolvido para tratar câncer, mas que acabou nunca indo para o mercado para essa finalidade. Num estudo “duplo cego”, em que um grupo de pacientes toma o medicamento verdadeiro e outro toma placebo, sem que saibam quem está tomando o quê, os benefícios observados em quem estava tomando o AZT já se mostravam tão evidentes que pareceu injusto aguardar o término do estudo para que os pacientes sob placebo pudessem usufruir do medicamento. O AZT foi logo liberado. Afinal, naquela época, quase todos os que eram diagnosticados positivo para o HIV estavam morrendo, aos milhares, e o desespero era enorme: qualquer medicamento era bem-vindo — tal e qual mostra o filme Clube de Compras Dallas (2013).

Entretanto, o preço do AZT ainda era exorbitantemente alto e, sem um estudo mais rigoroso, acabou sendo prescrito em altas toses, as quais vieram a se provar tóxicas, causando severos efeitos colaterais e, muitas vezes, sem conseguir evitar a morte das pessoas diagnosticadas positivas para o HIV àquela altura. A teoria negacionista se nutriu disso, afirmando que quem causa a aids seriam os próprios remédios.

Nesse período, surgiram muitas terapias alternativas de tratamento e os negacionistas começaram a suspender seu tratamento convencional com antirretrovirais. A fim de convocar cada vez mais soropositivos a fazê-lo também, lançaram a revista Continuum, em 1992. Em 1999, a americana Christine Maggiore, publicou o livro “E se tudo o que você ouviu sobre a aids estiver errado?”, influenciada por um encontro que teve com Peter Duesberg, quando parou de tomar seus medicamentos e assim seguiu, mesmo durante a gestação e amamentação de sua bebê. Naquele mesmo ano, o então presidente da África do Sul, Thabo Mbeki, aderiu à teoria dissidente, convocou Peter Duesberg para um encontro e reduziu o acesso aos antirretrovirais em seu país.

Fela Kuti no Senator Hotel, em Londres, em 11 de novembro de 1983.

Fela Kuti no Senator Hotel, em Londres, em 11 de novembro de 1983.

A iniciativa de Mbeki vinha dois anos depois da morte do músico nigeriano Fela Kuti, portador do HIV e um dos negacionistas de maior liderança na África. A autópsia mostrou que Fela morreu de complicações relacionadas à aids. Em 2001, ainda durante o governo de Mbeki, a revista Continuum teve de ser encerrada, porque todos seus editores haviam morrido: Karri Stokely, em 28 de abril de 2011, por conta de uma pneumonia grave; Scott Zanetti, em 6 de outubro de 2002, aos 52 anos; Tony Tompsett, aos 39 anos, em decorrência de Sarcoma de Kaposi, toxoplasmose e pneumonia; Huw Christie, de Sarcoma de Kaposi, em agosto de 2011, aos 41 anos de idade; e Jody Wells, fundadora da Continuum, em 1995. Todas, sem exceção, eram mortes decorrentes de doenças típicas da aids.

Em 2005, faleceu a filha de Christine Maggiore, aos quatro anos de idade. Em 2008, foi a vez da própria Christine, ainda negacionista, que morreu em decorrência de uma pneumonia. Nesse mesmo ano, um estudo de Harvard concluiu que a falta de acesso ao tratamento antirretroviral durante o governo de Mbeki resultou em 300 mil mortes decorrentes de aids, que poderiam ter sido evitadas com acesso aos medicamentos.

“Este é um debate extremamente perigoso”, lembra o Dr. Esper Kallás. “Os negacionistas da relação entre o HIV e a aids não fazem ideia da inconsequência de seus atos. Hoje, os que negam a relação entre o HIV e a aids se nutrem de uma teoria de conspiração. Vários vídeos na internet estimularam as fantasias de muitos e se aproveitam da ignorância de outros.” Entre estes vídeos está o documentário House of Numbers, do jovem diretor Brent W. Leung, lançado em 2009.

“Por que você acredita que o HIV causa a aids?”, pergunta o diretor a pessoas comuns. “Porque essa é a informação que eu recebi”, responde um deles, seguindo exatamente o mesmo argumento daquela aula de Semiótica: quando somos leigos em um assunto, nos resta acreditar naquilo que assistimos e lemos, ou questionar, abrindo espaço para o mundo de especulações.

“Vivemos em uma época na qual todo tipo de conhecimento científico enfrenta oposição organizada e, muitas vezes, virulenta. Acirrados por fontes de informação próprias e por interpretações peculiares de pesquisas, os contestadores declararam guerra ao consenso dos especialistas.”

A reportagem de capa da edição do mês de abril da revista National Geographic trata sobre esse assunto: o descrédito da ciência. “Vivemos em uma época na qual todo tipo de conhecimento científico — desde a segurança do flúor e das vacinas até a realidade das mudanças climáticas — enfrenta oposição organizada e, muitas vezes, virulenta. Acirrados por fontes de informação próprias e por interpretações peculiares de pesquisas, os contestadores declararam guerra ao consenso dos especialistas.” A matéria lembra que, ainda hoje, uma legião de pessoas é contra a vacinação, tem dúvidas a respeito da fluoretação da água, do aquecimento global, da viagem do homem à Lua e, no que diz respeito ao HIV/aids, questionam sua real existência. “Há um limite para o debate de ideias, especialmente quando se aplica à saúde pública”, diz o Dr. Esper Kallás. “É legítimo questionar se a vacina contra o sarampo é eficaz? Deveríamos debater o estímulo ao cigarro em escolas? Ou o uso do amianto em incubadoras de berçários? É preciso ter o mínimo de bom senso quando se fala de um assunto tão grave em saúde pública.”

“Todo mundo deveria questionar. Mas todos deveriam recorrer ao método científico, ou confiar naqueles que usam o método, para se posicionar em relação a essas questões.”

Isso quer dizer que, quando o assunto é esse, não deveríamos nunca questionar nada? “Todo mundo deveria questionar”, afirma Marcia McNutt, editora da revista Science. “Mas todos deveriam recorrer ao método científico, ou confiar naqueles que usam o método, para se posicionar em relação a essas questões.” Em relação à teoria dissidente, no entanto, há poucos cientistas que defendem essas ideias: entre os entrevistados no filme House of Numbers, Robert Gallo, Joseph Sonnabend, Robin Weiss, Niel Constantine e Daniel R. Kuritzkes reclamaram publicamente da edição das entrevistas, acusando o diretor de manipulação e distorção dos fatos. Em 2013, a mesma revista brasileira que publicou a entrevista com Duesberg divulgou uma nota de esclarecimento, na qual afirma:

“Em 2000, publicamos uma entrevista com o biólogo e químico Peter Duesberg, que defendia a tese de que a aids não era causada pelo vírus HIV. A entrevista foi conduzida por Flavio Dieguez, um dos maiores jornalistas científicos que já trabalhou conosco, e está fundamentalmente correta. Mas, ao longo dos últimos 13 anos, as teses de Duesberg caíram em descrédito e hoje temos muita clareza de que não deveríamos ter dado espaço a elas. Em parte esse descrédito se deve à tragédia de saúde pública que se abateu sobre a África do Sul, país que adotou as ideias de Duesberg em suas políticas de combate à aids. O resultado foi que o vírus se disseminou. Gostaríamos então de afirmar que, aqui na Super, não temos mais dúvidas de que a aids é causada pelo HIV e de que todo cuidado para evitar a transmissão desse vírus é fundamental para a saúde pública. Percebemos que esta entrevista foi redescoberta e está circulando nas redes sociais. Que fique claro que não concordamos com as ideias expressas nela.”

Mas existe algo que você e eu, leigos, podemos fazer para verificar a real existência do HIV e sua relação com a aids. Sem o aparato científico, podemos começar pela observação, pura e simples: o sucesso da terapia antirretroviral. Diga para alguém que descobriu ter HIV em decorrência de aids avançada, por exemplo, magro e debilitado na cama de um hospital, diagnosticado já com neurotoxoplasmose, uma doença oportunista da aids, que o HIV não é o responsável por sua condição de saúde. Faça a pergunta poucos meses depois do início do tratamento com antirretrovirais, quando pessoas assim recuperam a saúde, ganham peso e voltam a se sentir bem. Se o HIV não causa a aids, como dizem os negacionistas, como é possível que o remédio que combate vírus seja capaz de melhorar quem está doente, evitar mortes, manter a expectativa de vida quase igual a de soronegativos e de prevenir novas infecções?

Entre o AZT e o coquetel com três antirretrovirais houve um salto enorme no tratamento e na qualidade de vida. Os negacionistas parecem presos aos anos 80, tendenciosamente lembrando do que lhes convém e esquecendo do que experimentavam os pacientes bem no começo da epidemia. “Quando comecei a trabalhar com pacientes com aids, em 1989, fiquei chocado com uma brutal e triste realidade”, conta o Dr. Esper. “Vi pacientes morrerem quase todos os dias. Presenciei o sofrimento de muitos inocentes, homens, mulheres e crianças. Vi pacientes que se despediam de amigos soropositivos em leitos de morte, estes sabendo que pouco depois chegaria sua hora também. Famílias se esfacelaram. Mas nada chegou perto do que aconteceu em alguns lugares da África, onde comunidades inteiras foram dizimadas.”

“É impressionante a claríssima demonstração do benefício dos remédios que combatem o vírus. Desde o surgimento do ‘coquetel’, em 1996, a queda no número de pessoas que desenvolvem aids e que morrem da doença caíram dramaticamente.”

Hoje, basta um único comprimido por dia para tratar o HIV/aids, e com poucas chances de efeitos colaterais. “É impressionante a claríssima demonstração do benefício dos remédios que combatem o vírus. Desde o surgimento do ‘coquetel’, em 1996, a queda no número de pessoas que desenvolvem aids e que morrem da doença caíram dramaticamente. Os dados impressionam. A queda na mortalidade, inclusive no Brasil, foi uma das grandes conquistas da medicina recente. O mecanismo de cada uma dessas drogas foi claramente estabelecido, sempre interferindo com a capacidade do vírus se multiplicar em células alvo. Além dos dados impressionantes da recuperação de pessoas que vivem com o HIV, o uso dessas medicações poupou inúmeras crianças, filhas de mulheres que vivem com o vírus, de se contaminarem no momento do parto. Outra vez, os números são impressionantes: foi reduzida a transmissão do HIV de 30% para menos de 1% de mãe para filho. Enfim, com o tratamento antirretroviral, houve uma revolução. Passamos a ver o controle da multiplicação do vírus e o sistema imune se recuperando. O que parecia ser inexorável, cedeu. As longas filas de macas nos prontos-socorros foram reduzindo drasticamente. A qualidade de vida das pessoas que viviam com o vírus voltou.”

“Quais as consequências das posturas negacionistas?”, questiona o Dr. Esper. “Provavelmente os que negam não fazem qualquer ideia. Ao negar que o HIV cause a aids, estimulam o comportamento de risco. Fazem com que pessoas que vivem com o HIV abandonem o tratamento. Facilitam a transmissão de mães para seus bebês. Contribuem para o avanço da epidemia que ainda mata milhões. Os negacionistas precisam levar isso em consideração e saber até que ponto podem destilar o veneno de sua irresponsabilidade.”

Atitude Abril

Fapesp-2

Pesquisa brasileira sobre HIV e HTLV


Por Diego Freire para Agência FAPESP em 11 de maio de 2015

Fapesp

Uma pesquisa realizada no Instituto Adolfo Lutz, em São Paulo, integrou uma iniciativa de divulgação científica internacional em plataforma multimídia promovida pelo American Journal Experts, serviço que auxilia pesquisadores na revisão e no preparo de manuscritos para publicação em periódicos científicos. A iniciativa consiste em apresentar o conteúdo dos manuscritos em vídeo, com linguagem simplificada e buscando despertar o interesse pelos resultados apresentados nos artigos.

Os primeiros vídeos produzidos tratam da pesquisa Vigilância e diagnóstico de infecção por HTLV-1 e HTLV-2 em indivíduos infectados pelo HIV (vidiHIV/HTLV), coordenada por Adele Caterino-de-Araujo, do Centro de Imunologia do Instituto Adolfo Lutz, com apoio da FAPESP por meio do Programa de Pesquisa para o SUS: Gestão Compartilhada em Saúde (PPSUS).

Os resultados apresentados pelos vídeos foram publicados em artigos na revista Aids Research and Human Retroviruses e trazem importantes contribuições para o entendimento da dinâmica das coinfecções por HIV, o vírus da aids, e os vírus HTLV-1 e HTLV-2, da mesma família, sendo o HTLV-1 associado ao surgimento de doenças neurológicas degenerativas e hematológicas, como leucemia e linfoma, além de polimiosites, poliartrites, uveítes e dermatites.

“A ideia é que não só a comunidade científica da área tenha acesso às informações, e a linguagem audiovisual empregada ajuda a ampliar o alcance do trabalho.”

De acordo com Caterino-de-Araujo, o objetivo do American Journal Experts foi produzir vídeos com resultados de pesquisa de interesse público como pilotos para um projeto de divulgação científica multimídia. “A ideia é que não só a comunidade científica da área tenha acesso às informações, e a linguagem audiovisual empregada ajuda a ampliar o alcance do trabalho”, disse à Agência FAPESP. Os vídeos estão sendo adequados para publicação no portal do American Journal Experts, mas já podem ser acessados na Agência FAPESP.

Os retrovírus humanos HIV e HTLV causam infecção crônica no hospedeiro e compartilham as mesmas vias de transmissão. Nas décadas de 1980 e 1990, a população mais afetada pela coinfecção HIV/HTLV era de usuários de drogas injetáveis, mas esse cenário vem mudando desde então. A identificação adequada dessas infecções virais tem importância diagnóstica e prognóstica.

De acordo com Caterino-de-Araujo, a coinfecção HIV/HTLV-1 pode interferir no início da terapia antirretroviral e acelerar a progressão de doenças associadas a esses vírus. Por outro lado, também parece ter papel protetor na progressão para a aids. “Isso ocorre devido à produção de citocinas com perfil Th1 ou pela produção de quiomicinas que se ligam aos correceptores do HIV, impedindo sua penetração na célula hospedeira”, explicou.

Diante disso, o Ministério da Saúde recomenda nos manuais Guia de Manejo Clínico da infecção por HTLV e Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Manejo da Infecção por HIV em Adultos a realização da sorologia para HTLV no início do acompanhamento do paciente com HIV.

Vigilância

O Instituto Adolfo Lutz de São Paulo realiza a sorologia para HTLV desde a década de 1990 e tem observado problemas no diagnóstico de infecção principalmente por HTLV-2 em pacientes infectados pelo HIV. Além disso, pesquisadores da instituição utilizam diferentes algoritmos de testes laboratoriais para o diagnóstico e têm realizado a caracterização molecular dos vírus HTLV-1 e HTLV-2 que circulam em pacientes com HIV/Aids.

O projeto coordenado por Caterino-de-Araujo criou um grupo de vigilância e diagnóstico de infecção pelos vírus em São Paulo, com o objetivo de monitorar sua prevalência, identificar os fatores de risco associados à sua disseminação, encontrar novos marcadores de valor diagnóstico e prognóstico e realizar estudos de epidemiologia molecular desses retrovírus.

Na primeira etapa do projeto, conduzido com 1.608 pacientes do Centro de Referência e Treinamento (CRT) em DST/Aids de São Paulo, foram comparados diferentes testes de diagnóstico sorológico e molecular e identificados aqueles com melhor desempenho como estratégia diagnóstica.

O grupo determinou ainda as taxas de prevalência de infecção por HTLV-1 e HTLV-2 na população estudada e as comparou com as de outras populações de pessoas infectadas pelo HIV em anos anteriores. Os resultados obtidos mostraram que houve diminuição de infecção com o passar dos anos, caindo de 13,2% para 3,1%.

“Essa mudança coincidiu com a introdução da política de redução de danos no Estado de São Paulo, que teve início em Santos, em 1989, com a lavagem das seringas e agulhas em solução de hipoclorito e, posteriormente, com a primeira lei estadual que legalizou a troca de seringas, sancionada em março de 1998. A diminuição das infecções pode também estar relacionada a mudanças nas características epidemiológicas da população exposta ao HIV, que hoje é infectada mais pela via sexual do que pelo uso de drogas injetáveis, e no tipo de drogas ilícitas usadas atualmente, como o crack”, disse Caterino-de-Araujo.

“Esses estudos vêm auxiliando o Ministério da Saúde na escolha do melhor algoritmo de testes de diagnóstico a ser empregado em população com HIV.”

O trabalho apresentado nos vídeos descreve ainda que a prevalência da coinfecção HIV/HTLV está no gênero feminino, entre pessoas negras e pardas e pacientes já infectados pelos vírus da hepatite B e da hepatite C, além de usuários de drogas injetáveis. “Esses estudos vêm auxiliando o Ministério da Saúde na escolha do melhor algoritmo de testes de diagnóstico a ser empregado em população com HIV e tem ajudado também os médicos do CRT no melhor acompanhamento dos coinfectados”, disse a pesquisadora.

Os artigos com os resultados apresentados nos vídeos são de autoria de Adele Caterino-de-Araujo, Cláudio Tavares Sacchi, Maria Gisele Gonçalves, Karoline Rodrigues Campos, Mariana Cavalheiro Magri, Wong Kuen Alencar e pesquisadores do Group of Surveillance and Diagnosis of HTLV of São Paulo (GSuDiHTLV-SP), formado por Alexandre de Almeida, Carlos Henrique Barreto-Damião, Fábio Higa, Lucila Okuyama Fukasawa, Luana Coelho, Luis Brígido, Marcela Santana, Maristela Salgado, Nadia Costa, Leda Jamal, Maria de Fátima Jorge, Maria Lúcia Mello, Risia Oliveira e Telma Oshiro.

As pesquisas contaram ainda com a colaboração do CRT em DST/Aids de São Paulo e dos laboratórios de investigações médicas 47 e 56 da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP). Além da FAPESP, o projeto recebeu financiamento do Ministério da Saúde e do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC).


Reuters-2

Caçada pela cura acelera com união de cientistas


Por Ben Hirschler para Reuters em 11 de maio de 2015

Reuters

A britânica GlaxoSmithKline, que na semana decidiu continuar produzindo medicamentos para tratar o HIV, vai colaborar com cientistas norte-americanos no desenvolvimento da cura da aids. Até recentemente, muitos cientistas ainda eram relutantes em discutir a possibilidade de curar a doença causada pelo HIV, que infecta 35 milhões de pessoas em todo o mundo, uma vez que os obstáculos pareciam ser insuperáveis. Mas depois de uma batalha de 30 anos para manter o HIV sob controle com medicamentos antirretrovirais de uso vitalício, há um crescente otimismo de que a cura é possível.

O caso de Timothy Brown, o chamado “Paciente de Berlim”, cujo HIV foi erradicado através de um complexo tratamento de leucemia, em 2007, foi o primeiro caso de cura. Desde então, a ciência tem avançado ainda mais. A GlaxoSmithKline está inaugurando o Centro de Cura do HIV, em parceria com a University of North Carolina (UNC), em Chapel Hill, nos Estados Unidos, e criando uma empresa conjunta com a universidade.

Nesta segunda-feira, a farmacêutica afirmou que vai investir US$ 20 milhões para ajudar a financiar o trabalho por um período inicial de cinco anos. Os cientistas vão estudar várias alternativas de cura, incluindo a chamada estratégia de “chutar e matar”, desenvolvida na UNC, que desmascara o HIV dormente, escondido em células brancas do sangue, para que, assim, possa ser atacado por um sistema imunológico reforçado.

Reuters-2

“Nos próximos 5 a 10 anos, devemos adquirir mais conhecimento em torno dos vários mecanismos que podem contribuir para a cura e, talvez, nos próximos 10 a 20 anos, poderemos de fato aplicar essas alternativas.”

Entretanto, é possível que essa busca se mostre um longo percurso. “Nos próximos 5 a 10 anos, devemos adquirir mais conhecimento em torno dos vários mecanismos que podem contribuir para a cura e, talvez, nos próximos 10 a 20 anos, poderemos de fato aplicar essas alternativas”, explica Zhi Hong, chefe do departamento de doenças infecciosas da GlaxoSmithKline, a Reuters. No caso do Paciente de Berlim, a cura do HIV envolveu um transplante de células tronco a partir de um dador com uma mutação genética rara, que resiste à infecção pelo HIV. Essa complicada abordagem nunca poderia ser replicada em grande escala, de modo que os cientistas estão depositando suas esperanças em métodos simplificados, que podem também ser capazes de explorar os avanços recentes nos medicamentos para tratar câncer, que impulsionam o sistema imune.

“A trancos e barrancos, acredito que teremos progresso.”

“A trancos e barrancos, acredito que teremos progresso e, por isso, precisamos de uma estrutura para prosseguir este trabalho de forma racional, durante um longo período de tempo”, disse David Margolis, da UNC. A GlaxoSmithKline comercializa medicamentos para o HIV através da ViiV Healthcare — a qual chegou a considerar abrir seu capital na bolsa de valores, até mudar de ideia, em 6 de maio. O investimento em Chapel Hill é separado da ViiV, que vai desempenhar um papel consultivo nesta empreitada.


montreal

Abrindo o vírus


4 de maio de 2015 para a Université de Montréal

montreal

Se o vírus da imunodeficiência humana, o HIV, é parecido com uma lata de refrigerante, hermeticamente fechada, que ninguém ainda foi capaz de abrir, a boa notícia é que os cientistas do Centro de Pesquisas CHUM, afiliado com a Universidade de Montreal, identificaram uma maneira de usar um “abridor de lata” para forçar o vírus a abrir e expor suas partes mais vulneráveis, permitindo que as células do sistema imune matem as células infectadas.

Esta descoberta, publicada hoje na revista Proceedings of the National Academy of Sciences, abre um novo caminho na luta contra o HIV e pode levar à criação de uma vacina para prevenir a transmissão do vírus. Pode também ser parte da solução para um dia erradicar o vírus. Apesar dos recentes avanços, 35 milhões de pessoas estão infectadas com o HIV-1 em todo o mundo.

“Descobrimos que as pessoas infectadas com o HIV-1 possuem anticorpos naturais que têm o potencial de matar as células infectadas. Nós só temos que lhes dar um pequeno empurrão.”

“Descobrimos que as pessoas infectadas com o HIV-1 possuem anticorpos naturais que têm o potencial de matar as células infectadas. Nós só temos que lhes dar um pequeno empurrão, adicionando uma pequena molécula que atua como um abridor de lata, para forçar o envelope viral a expor regiões reconhecidas pelos anticorpos, os quais fazem ligação com algumas células do sistema imune e iniciam o ataque contra o vírus”, explica o autor do estudo, Andrés Finzi, pesquisador do CHUM e um professor da Universidade de Montreal.

Burlando as defesas do HIV

Num estudo anterior, também publicado em 2015 (Veillette et al., 2015), o mesmo grupo de pesquisadores demonstrou que o soro de pacientes infectados com HIV-1 facilitada a eliminação de células infectadas quando duas proteínas específicas do vírus, Nef e Vpu, são desativadas através de mutação genética. Os experimentos foram realizados em amostras de soro provenientes da coorte Aids and Infectious Diseases Network (ASDI-MI), parte do Fundo de Pesquisa em Saúde de Québec (FRSQ, na sigla em francês).

Na vida real, entretanto, o HIV-1 selvagem — que é o vírus que nunca sofreu com a ação de antirretrovirais –, responsável ​​pela maioria das infecções em todo o mundo, ainda contém as proteínas Nef e Vpu, que agem como seguranças. Então, como podemos burlá-las? Adicionando uma pequena molécula à superfície das células dos pacientes infectados, chamada JP-III-48, que imita a proteína CD4.

“Adicionando essa pequena molécula, forçamos o envelope viral a se abrir, como uma flor.” 

Proteínas CD4 estão localizadas na superfície de linfócitos T e permitem que as células do sistema imune sejam infectadas pelo HIV. “Adicionando essa pequena molécula, forçamos o envelope viral a se abrir, como uma flor. Os anticorpos que estão naturalmente presentes após a infecção podem, assim, direcionar as células infectadas, as quais são mortas pelo sistema imune”, explica Jonathan Richard, pesquisador de pós-doutorado no CHUM e principal autor do estudo. A molécula JP-III-48 foi desenvolvida pelos cientistas da Universidade de Harvard e da Universidade da Pensilvânia; no entanto, esta é a primeira vez que foi testada com sucesso em pacientes infectados pelo HIV.

Durante décadas, os cientistas têm tentando conceber uma vacina para bloquear a infecção pelo HIV, causador a aids. Medicamentos antirretrovirais podem reduzir a propagação do vírus, mas este ainda permanece oculto e dormente nas células, retornando assim que o tratamento é interrompido. Este locais onde o vírus se esconde são chamados de “reservatórios”. “A solução é desenvolver uma terapia capaz de ‘chutar e matar’ o vírus. Temos que reativar reservatórios de HIV para forçá-lo para fora de seu esconderijo e, em seguida, matar as células infectadas com esta molécula, através dos já presentes anticorpos”, argumenta Finzi, que também é presidente do Canada Research on Retroviral Entry.

A descoberta da equipe de Finzi pode ajudar a desenvolver uma vacina de duas partes, capaz de prevenir a infecção pelo HIV através de anticorpos que são fáceis de produzir e utilizar esta nova família de moléculas. Além disso, a descoberta abre caminho para o desenvolvimento de estratégias para eliminar os reservatórios virais de indivíduos já infectados. O próximo passo é testar o potencial desta molécula “abridor de latas” em macacos.

Sobre o estudo

O estudo foi financiado majoritariamente pelos Institutos Canadenses de Pesquisa em Saúde, Fundação Canadense para a Inovação e Fundo de Pesquisa em Saúde de Québec (FRSQ). Andrés Finzi é presidente do Canada Research on Retroviral Entry e é professor do Departamento de Microbiologia, Imunologia e Doenças Infecciosas na Universidade de Montreal. Jonathan Richard é recebedor de uma bolsa de pesquisa do Institutos Canadenses de Pesquisa em Saúde. Os autores também agradecem ao Center for HIV/Aids Vaccine Immunology Discovery (CHAVI-ID), financiado pelo National Institutes of Health dos Estados Unidos. Para mais informações, consulte o artigo publicado online na revista Proceedings, da Academia Nacional de Ciências. A Universidade de Montreal é oficialmente conhecida como Université de Montréal.


Exercito

Exército brasileiro não pode mais discriminar

Exercito

De acordo com a Revista Consultor Jurídico, a 5ª Turma do Tribunal Regional Federal da 1ª Região decidiu que a exclusão de candidatos em processos seletivos para o Exército em razão de limite de altura, saúde bucal ou diagnóstico positivo para HIV configura uma conduta discriminatória. A decisão exige que a União deixe de impor as restrições nos procedimentos de ingresso nas carreiras do Comando Militar do Exército.

Na avaliação do Ministério Público Federal, as exigências “violam o mandamento constitucional da legalidade, assim como da isonomia, da proporcionalidade e da dignidade da pessoa humana”. Assim, requereu tutela antecipada para que a União deixe de praticar tal conduta.

Em primeira instância, o juízo da 22ª Vara Federal da Seção Judiciária do Distrito Federal julgou o pedido parcialmente procedente e declarou nulas apenas as restrições de altura. A sentença rejeitou, contudo, o pedido contra o veto a candidatos com HIV ou sífilis, ou a quem tem menos de 20 dentes.

 

PCDT App

Protocolo clínico no smartphone

O Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais do Ministério da saúde lançou um app para auxiliar profissionais de saúde na assistência de pessoas vivendo com HIV/aids (PVHA).

PCDT AppSão dois aplicativos. O primeiro contém o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) para Manejo da Infecção pelo HIV em Adultos, disponível em iOS e Android, e o outro contém o PCDT para Manejo da Infecção pelo HIV em Crianças e Adolescentes, também disponível em iOS e Android, para smartphones e tablets.

PCDT para Manejo da Infecção pelo HIV em Adultos PCDT para Manejo da Infecção pelo HIV em Crianças e Adolescentes
iOS
PCDT_adultos_iOS
PCDT_criancas_iOS
Android
PCDT_adultos_Android
PCDT_criancas_Android

Os PCDT são protocolos clínicos do Ministério da Saúde que trazem as recomendações para o tratamento da infecção pelo HIV no Brasil em adultos e em crianças e adolescentes. Para Marcelo Freitas, Gerente da Coordenação-Geral de Assistência e Tratamento do Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais, os aplicativos permitem que os profissionais médicos tenham à mão a versão mais recente dos protocolos clínicos para leitura ou consulta rápida no dia a dia e podem ser atualizados sempre que houver alguma revisão nas recomendações nacionais de manejo da infecção pelo HIV.

British HIV Association-logo

Mesmo com outra DST


Por Roger Pebody para o Aidsmap em 24 de abril de 2015.

bhivaUm pequeno estudo sobre a avaliação da infecciosidade de homens homossexuais soropositivos em terapia antirretroviral descobriu que todos os participantes do estudo tinham uma carga viral indetectável no reto. Homens que tiveram gonorreia retal ou clamídia também não tem o vírus detectável, o que sugere que as preocupações sobre doenças sexualmente transmissíveis (DST) como fator de aumento no risco de transmissão do HIV pode ser infundado, quando as pessoas estão sob tratamento eficaz contra o HIV. Os dados foram apresentados na Conferência da Associação Britânica de HIV, ontem, em Brighton, na Inglaterra.

Há muito tempo se pensou que as DST não tratadas poderiam fazer aumentar a carga viral do HIV. A Declaração Suíça e seu equivalente britânico, por exemplo, avisavam que o efeito protetor do tratamento do HIV em evitar a transmissão poderia não se aplicar no caso de um dos parceiros ter alguma outra infecção sexualmente transmissível. No entanto, nos resultados provisórios do estudo Partner, não foram encontradas transmissões de HIV em nenhum dos de homens gays que vivem com HIV e estavam sob tratamento, embora 16% destes participantes tivessem outras infecções sexualmente transmissíveis durante o estudo.

Os novos dados dizem respeito especificamente às cargas virais retais e infecções retais sexualmente transmissíveis. Antes, os dados entre a relação da carga viral sanguínea a retal eram conflitantes. A carga viral retal detectável aumentaria o risco de transmissão do HIV durante o sexo anal sem preservativo quando o homem vivendo com HIV é passivo.

Pesquisadores do Hospital de Guy e St. Thomas, em Londres recrutaram 42 homens que fazem sexo com homens e vivem com HIV que estão sob acompanhando de saúde sexual.

  • 21 estavam sob terapia antirretroviral, incluindo sete que tiveram gonorreia retal assintomática ou clamídia.
  • 21 nunca tinha tomado a terapia antirretroviral, incluindo sete que tiveram gonorreia retal assintomática ou clamídia.

Cotonetes com amostras retais foram analisados para DST, carga viral do HIV e dez citocinas inflamatórias (que dizem respeito à hipótese de que a inflamação pode aumentar o risco de transmissão do HIV).

Em todos os homens que tomam antirretrovirais, as cargas virais retais foram indetectáveis ​​(abaixo de 100 cópias/ml). Isto incluiu as sete homens com gonorreia ou clamídia retal, tanto antes como após o tratamento antibiótico.

Nos homens que não tinham usado antirretrovirais, as cargas virais retais apresentaram uma mediana de 2 log10 mais baixa do que a carga viral do plasma. Assim, uma infecção sexualmente transmissível não aumentou cargas virais retais ou marcadores de inflamação, que estavam em níveis semelhantes aos que tomam antirretrovirais.

Os resultados sugerem que a gonorreia e clamídia podem ter um impacto mínimo sobre a transmissão do HIV quando a carga viral é indetectável, dizem os pesquisadores.