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A cura e seus problemas

“Caro Jovem Soropositivo,

Como vai? Espero que tudo esteja bem. Te escrevi há algum tempo e, agora, volto a te mandar mais uma carta para tentar aprender um pouco mais contigo. Espero que você tenha se tornado confortável com esse tipo de assédio, uma vez que a atmosfera dos teus textos, sempre tão tranquila e sedutora, nos ajudam a tomar o HIV por aquilo que ele é: uma condição crônica de saúde administrável.

Quanto mais o tempo passa, menos eu desejo nele voltar e desfazer os infortúnios que me levaram até o diagnóstico.

Como qualquer pessoa que vive uma condição crônica de saúde, certamente preferiria não tê-la. Mas, quanto mais o tempo passa, menos eu desejo nele voltar e desfazer os infortúnios que me levaram até o diagnóstico. Como leitor do seu blog, desde o começo do meu diagnóstico, eu, assim como você, procuro me inteirar acerca das novidades nos campos da farmacologia e da microbiologia. Seja a respeito de novas formulações mais seguras, com doses espaçadas ou não, seja pra falarmos sobre a possibilidade de uma cura. Afinal, todos queremos nos sentir independentes dos remédios e das consultas com a frequência que nos é exigida. Nada mais natural. Contudo, as discussões sobre a cura, uma vez que se trata de um campo transversal que é habitado por várias disciplinas, nem sempre é acessível a muitos de nós, pois não temos o domínio técnico necessário para compreender o que se passa e a amplitude dos achados.

Sempre me lembro da sua interpretação dos resultados do HPTN 052 — quando você disse ao Dr. Esper Kallás que ‘um parceiro sexual que faz o teste de HIV e tem resultado negativo é mais seguro do que eu’, e então escutou dele a precisa correção: ‘Não, Jovem. Acho que você entendeu errado a mensagem desses estudos. Você é mais seguro do que isso. Em primeiro lugar, em ciência não existe nada 100% seguro. Em segundo, a margem de redução na transmissibilidade que observamos em pessoas como você, que têm HIV e cuidam da saúde, tomando antirretrovirais e mantendo a carga viral indetectável, é muito alta. Mais alta do que outros métodos de prevenção já observados. Por isso, sabemos que pessoas como você não transmitem o HIV.’ Trata-se de um equívoco hermenêutico seu que, ao ser corrigido, deve ter trazido, não sem seus relevos, uma enorme sensação de alívio.

Tenho acompanhado muitos blogs a respeito da cura. Meus olhos sempre procuravam, nos textos, a palavra ‘cura’ e suas respectivas previsões. Mas, desde o final do ano passado, tenho notado que não me sentia tão animado quanto antes para ler as pesquisas com tantos dados técnicos. Neste começo de ano, no entanto, sobretudo por conta da conferência realizada em Seattle, me peguei novamente digitando, no Google, os termos ‘cura + HIV’. E tenho percebido que isso tem me deixado intranquilo e ansioso. Suponho que seja decorrente de um rush de dopamina. Algo que ocorre em alguns de nós, durante alguns minutos, até que tomemos a nossa próxima dose de antirretrovirais.

Um artigo de um ativista chamado Josh Kruger aborda a questão de um ponto de vista bem pragmático. Ele defende que já temos a solução para o problema, bem diante de nossos narizes: erradicação do estigma e tratamento antirretroviral amplo. Segundo Kruger, as constantes notícias a respeito da cura são um devaneio que mascaram o verdadeiro problema: 16% das pessoas vivendo com HIV no estado da Filadélfia, nos Estados Unidos, não estão cientes de sua sorologia e estima-se que no Brasil — um dado já familiar — um quinto das pessoas infectadas não fazem ideia de que portam o vírus.

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Entretanto, posições dogmáticas me incomodam. Tenho achado que, no fim das contas, deve existir uma síntese para essa antinomia: de um lado, achar que, pelo fato de estarmos próximos à cura, o estigma deve ser o pano de fundo das estratégias de prevenção e, de outro, ignorar os avanços tecnológicos. Ambos parecem contraproducentes, não acha? E é exatamente por isso que escrevo essa carta.

Não sabemos quanto tempo vamos levar até a cura. Não fazemos ideia se isso vai ser daqui 5 ou 10 anos. Personalidades envolvidas em doações de quantias generosas para fundos de pesquisa na cura de patologias crônicas, como Bill Gates, por exemplo, não se furtam em especular que isso se dê em não mais que 15 anos. Sem dúvida, um prazo razoável para jovens adultos como nós.

Fazer previsões com base em doenças que já encontram uma cura não nos torna capazes de prever adequadamente quando teremos acesso ao Santo Graal da imunologia, que é a extirpação do HIV de nossos corpos.

Comemorar os avanços científicos deve fazer parte de uma sociedade secular, mas é preciso também prudência e razoabilidade: das estratégias sobre as vacinas de DNA, que utilizam uma infecção viral benigna, forçando nossas células musculares a produzirem anticorpos eficazes, até os achados de novas medicações que retiram da latência o RNA pró-viral, temos um hiato, inteiramente indeterminado, até a cura. Os cientistas não sabem quanto tempo levaremos até lá. E isso é razoável, uma vez que fazer previsões com base em doenças que já encontram uma cura não nos torna capazes de prever adequadamente quando teremos acesso ao Santo Graal da imunologia, que é a extirpação do HIV de nossos corpos. O vírus da aids tem colocado impasses particulares na história da patologia humana, para os quais, até então, não havíamos nos deparado. Isso não deixa de ser interessante na medida em que as pesquisas no campo da imunologia têm tornado ultrapassados os métodos atuais de vacinação e indicando, num futuro, novas estratégias de imunização, bem como alguns tratamentos pioneiros que utilizam uma versão desativada do HIV para tratar de tipos de leucemia aguda.

Meds Cartoon

Posso estar sendo pretensioso ao generalizar meus afetos em relação a este assunto. Mas me incomodam muitíssimo essas polarizações. A própria militância a favor dos direitos de soropositivos parece que leu ‘Vigiar e Punir’, de Michel Foucault, de cabeça pra baixo, colocando em pauta em seus juízos públicos a respeito da tecnologia lugares ocupados por entidades soberanas que detém o controle da produção dos fármacos, as quais, por sua vez, sustentam o grande mito da Big Pharma. As estratégias que curaram, com uma taxa acima de 90%, os pacientes de Hepatite C, nos mostram que os lucros com a cura são maiores do que com a venda de tratamentos vitalícios. A militância, desse modo, faz todo sentido se se direciona para um acesso amplo a essas medicações no mundo, onde são vendidas a absurdos 96 mil dólares por três meses de tratamento, em suas versões mais atuais.

Finalmente, isso nos leva à conclusão de que o nosso problema não é a tecnologia e a capitalização de recursos que subsidiam os avanços na área médica, ou em qualquer outra, mas o acesso a esses recursos. Por isso, o capitalismo precisa de uma vigilância que faça dele um meio e não uma finalidade. Por outro lado, é saudável que as comemorações não desloquem o combate ao estigma para uma dimensão foracluída, como se o terror da epidemia que matou milhares nos anos 80 simplesmente não se expressasse em nossos medos diante de todo o processo diagnóstico: de furar o dedo, até ter coragem para contar para alguém que somos soropositivos.

Essa prudência sempre está implícita nos seus textos, razão pela qual, desconfio, fazem tanto sucesso. Pode ser um equívoco meu — e inteiramente meu — achar isso. Mas sinto falta de uma abordagem frontal dessa prudência nos blogs que fornecem a nós os conteúdos aos quais temos acesso. Sei que isso já foi abordado lateralmente em praticamente todos os seus textos, sobretudo no ‘Esqueça tudo o que você sabe sobre o HIV’. No entanto, ainda há um ranço de descrença científica e de ingenuidade tecnológica que habita grande parte dos comentários, no seu e em blogs dedicados ao papel de veicularem notícias sobre o HIV.

Parece razoável admitir, sem medo, que teremos tratamentos cada vez mais eficazes.

Por enquanto, a única coisa que sabemos é que parece muito razoável admitir, sem medo, que teremos tratamentos cada vez mais eficazes e com menos efeitos colaterais, com menor nível de toxicidade, maior tolerância, mais estratégias bem sucedidas de prevenção e uma qualidade de vida que se equipara, cada vez mais, à de pessoas soronegativas — infelizmente, fazendo uma ressalva a todos aqueles que não tem acesso ao tratamento e que, infelizmente, vão desenvolver a aids. Tenho muito carinho pelo seu trabalho como blogueiro e muito respeito pela sua dedicação.

Grande abraço,

V.”

SPORTV

Procura-se: esportistas

O SporTV Repórter, programa do canal esportivo por assinatura SporTV, quer tratar dos benefícios do esporte para as pessoas que vivem com HIV. O argumento será explicar como a atividade física combate a lipodistrofia, favorece as funções neurocognitivas, evita o aumento de colesterol e açúcar no sangue, entre outras questões. O programa também quer aproveitar para dar um panorama geral de como estão as pesquisas de combate ao vírus e a sua propagação.

Entretanto, o programa se sustenta com histórias e personagens, não apenas com dados e pesquisas. Por isso, está em busca de pessoas ou iniciativas que se enquadrem no perfil do programa — não apenas soropositivos, mas médicos, infectologistas, terapeutas, famílias que de alguma forma incentivem a prática esportiva para os portadores do vírus. Se você se enquadra neste perfil, entre em contato:

Bruna Gosling

bruna.gosling@tvglobo.com.br

(21) 2145-7000 – ramal 8550

SPORTV

O programa: o SporTV Repórter é um programa de 52 minutos de duração em formato de documentário, com entrevistas, imagens bem trabalhadas e arquivos, exibido semanalmente pelo SporTV, canal por assinatura da TV Globo, voltado exclusivamente para o esporte, com 25 anos de vida e a maior audiência da TV a cabo neste setor. É o canal de referência dos Jogos Olímpicos. O SporTV Repórter está em sua 5ª temporada.

O canal: o SporTV é o canal a cabo de conteúdo exclusivamente esportivo da TV Globo. Referência desde 1991, possui hoje 3 canais (SporTV, SporTV2 e SporTV3), produz conteúdo esportivo 100% nacional e realiza a cobertura dos principais eventos internacionais. Tem mais de 5.000 eventos de mais de 30 modalidades transmitidos ao vivo por ano, nas 72 horas diárias de programação esportiva. É líder absoluto em todas as medições em sua categoria na TV paga e líder de audiência no horário nobre da TV por assinatura. Soma 30 milhões de espectadores por mês. Entre os eventos transmitidos estão: as Copas do Mundo, Jogos Olímpicos de Verão e de Inverno, Jogos Pan-Americanos, campeonatos de futebol (Copa América, Copa da UEFA, Taça Libertadores, Nacionais e Estaduais), NBA, mundiais de vôlei, atletismo, basquete, natação,  eventos de automobilismo e torneios de tênis, entre outros. Nas Olimpíadas do Rio, em 2016, o SporTV terá 16 canais.

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Medicamento para um, proteção para outro

“Foi uma das maiores descobertas da ciência, quando a gente viu que se a gente conseguisse derrubar a carga de vírus que tem na pessoa, com o medicamento, essa pessoa teria menos vírus circulante — e, portanto, o vírus no sangue, o vírus no sêmen, o vírus na secreção vaginal ou o vírus no leite materno chegaria com mais dificuldade. Portanto, essa pessoa não poderia transmitir o HIV.”

Essa foi a fala de Fábio Mesquita, diretor do Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais do Ministério da Saúde, durante o X Curso Avançado de Patogênse do HIV, que acontece até o dia 15 de abril, na Faculdade de Medicina da USP, em São Paulo.

“Derrubou a carga viral, não tem como transmitir o HIV. Esse hoje é o mecanismo mais poderoso de prevenção que existe. É mais poderoso que a camisinha.”

“Nós descobrimos isso em 1996: chegamos à conclusão que se a gente desse um medicamento para um ser, a gente protegia outro ser. Só que, naquela época, a gente achava que isso só acontecia dentro do próprio corpo. Então, a gente dava o medicamento para a mãe, para proteger o bebê. Impedir a transmissão vertical”, explicou Fábio. A transmissão vertical é o nome que se dá à transmissão do HIV da mãe para o feto. Desde que surgiu o tratamento antirretroviral, em 1996, a transmissão vertical pode ser impedida graças aos medicamentos, sempre que a mãe portadora do vírus segue o tratamento durante a gravidez. “A lógica era exatamente esta: a gente derrubava a carga viral da mãe e o bebê não nascia contaminado. A gente nunca pensou que se esse ser estivesse do lado de fora do corpo, a gente também estaria protegendo este outro ser. Anos depois — entre 1996 e 2011 — a ciência concluiu que, se esse ser estiver do lado de fora do corpo, é exatamente a mesma coisa: derrubou a carga viral, não tem como transmitir o HIV. Esse hoje é o mecanismo mais poderoso de prevenção que existe.” E conclui: “é mais poderoso que a camisinha.”

O Dr. Drauzio Varella, que subiu ao palco logo depois, concordou com a eficácia comprovada do tratamento como prevenção. “Nós tínhamos essa sensação exata, que foi demonstrada muito mais tarde e que todos que trabalhavam na área sabiam: se a gente zerasse a carga viral, a chance de transmissão era muito menor. Isso já havia sido demonstrado nas mulheres grávidas. E, se valia para a transmissão materno fetal, que é dentro de um corpo só, imagina a chance de funcionar para o outro? É muito maior!”

Dr. Julio Montaner e Guillermo Karcher

Tratamento antirretroviral tem a bênção do Vaticano


 Por Mike Hager para o The Globe and Mail em 19 de março de 2015

The Globe and Mail

Julio Montaner, diretor do Centro de Excelência em HIV/Aids da Columbia Britânica, no Canadá, já recebeu vários prêmios e títulos honorários em todo o mundo por sua missão de vencer o HIV/aids e tem ganhado força ao juntar líderes políticos. No entanto, apertar a mão do Papa e se reunir com autoridades do Vaticano, na semana passada, para tratar de um programa piloto em massa usando o tratamento antirretroviral, deve ter sido uma honra ainda maior para o médico de Vancouver — que nasceu em Buenos Aires, a mesma cidade natal do pontífice, e foi criado como católico.

“Foi um momento muito emocionante.”

“É surpreendente. Devo dizer que foi um momento muito emocionante”, disse o Dr. Montaner, que esta semana está em Genebra, na Suíça, onde está trabalhando com a ONU sobre o plano global de redução do HIV/aids. “Minha mãe ficaria muito feliz comigo. É impossível não pensar nisso: não importa quantos anos você tem, sua mãe está sempre com você.”

Dr. Julio Montaner e Guillermo Karcher

Dr. Julio Montaner se reúne com Monsenhor Guillermo Karcher, autoridade do Vaticano e confidente do Papa Francisco. (BC-CfE)

Dr. Montaner disse que teve um “breve e muito agradável” encontro com o Papa, durante a “fila de saudação” no Vaticano, em 11 de março. Ele também passou várias horas com o equivalente da Igreja Católica a um ministro da saúde e um ministro da justiça, que planejam usar o método do tratamento como prevenção (TasP, do inglês treatment as prevention), em um programa piloto que deve envolver 140.000 pacientes na Tanzânia. De acordo com o Vaticano, a Igreja Católica tem 1,3 bilhões de membros, atua em mais de 5.000 hospitais, 9.000 orfanatos e oferece tratamento para o HIV em todo o mundo.

“Os serviços de saúde nas áreas mais pobres do mundo estão muitas vezes nas mãos de instituições denominacionais.”

“Se considerarmos que os serviços de saúde nas áreas mais pobres do mundo estão muitas vezes nas mãos de instituições denominacionais, o fato de que eles estão interessados e envolvidos é extremamente promissor”, disse Montaner. “A Igreja Católica, com toda a sua infraestrutura e alcance, seria um parceiro fantástico para o que estamos tentando conseguir.”

O conceito que o Dr. Montaner introduziu na Columbia Britânica, o qual tem sido adotado por vários países, inclui o diagnóstico precoce do HIV e o tratamento com um potente coquetel de três medicamentos, capaz de suprimir o vírus a ponto deste se tornar indetectável. Isso levou à outra descoberta: os pesquisadores notaram uma diminuição drástica no risco de transmissão do HIV a partir destes pacientes, mesmo através de relações sexuais desprotegidas.

A adoção do TasP pela Igreja pode ter “implicações importantes para a expansão do tratamento em todo o mundo”, afirma o Dr. Montaner. Ele contou também que detalhes ainda estão sendo acertados, mas o piloto na Tanzânia provavelmente contará com o tratamento de pacientes ao longo de vários anos.

Dr. Julio Montaner

Dr. Julio Montaner, diretor do Centro de Excelência em HIV/Aids da Columbia Britânica, posa para uma fotografia depois de discursar na Reunião Anual da Associação Americana para o Avanço da Ciência, em Vancouver, Canadá. Dr. Montaner se reuniu com o Papa Francisco e outros funcionários, no Vaticano, para discutir expandir o tratamento que ele introduziu no Vancouver’s St. Paul’s Hospital, na década de 90. (Foto de Darryl Dyck para The Globe and Mail)

O Dr. Montaner afirma que o TasP é 100% eficaz. Essa abordagem reduziu o número de novos diagnósticos na Columbia Britânica em 67% e o número de mortes relacionadas com aids em 87%, entre 1997 a 2013, de acordo com um relatório publicado no mês passado pelo Centro de Excelência em HIV/Aids da Columbia Britânica. Enquanto isso, os pacientes que vivem com HIV e estão sob tratamento antirretroviral têm agora uma expectativa de vida próxima da população em geral. A implantação de um programa piloto, tão grande como este que o Vaticano está planejando, ajudaria especialistas a aprender “novos truques de como fazê-lo de forma mais eficiente, mais expedita”.

Estima-se que 35 milhões de pessoas vivem hoje com HIV/aids. O Dr. Montaner disse que a ONU propôs a meta de tratar 15 milhões de pessoas com antirretrovirais ainda este ano. Em 2020, a ONU espera ter 90% das pessoas infectadas pelo HIV no mundo diagnosticadas, 90% das pessoas que sabem que estão infectadas recebendo tratamento e 90% das pessoas tratadas com antirretrovirais com os níveis do vírus no organismo tão baixos não poderão infectar outras pessoas.

“O modelo do TasP é atraente para a Igreja Católica.”

Montaner disse que ele e sua equipe no Centro “sempre acharam que o modelo do TasP é atraente para a Igreja Católica”, mas o Vaticano do Papa Bento XVI não foi muito receptivo. Montaner aumentou seus esforços de aproximação após a entrada “incrivelmente refrescante” do Papa Francisco, cujas declarações públicas sobre a pobreza estrutural, as questões LGBT e HIV/aids estão “muito alinhadas” com o discurso em torno do TasP. Através de contatos na agência de ajuda humanitária da Igreja, Caritas Internationalis, e velhos amigos na Argentina que “têm conexões pessoais” com o pontífice, Montaner finalmente conseguiu o encontro com o Papa. “Usei todo tipo de alternativa que estava aberta para mim”, disse ele.


Brasilia-1200

Meter medo ou encorajar?

Brasil Post

Em 2008, Nick Rhoades, um homem soropositivo do estado de Iowa, nos Estados Unidos, foi preso sob a lei de “Transmissão Criminosa do HIV” porque não contou a um parceiro, com quem transou uma única noite, que era portador do HIV. Rhoades usou camisinha, tinha carga viral indetectável — o que quer dizer que não é possível detectar o vírus em seu sangue mesmo nos exames mais precisos de laboratório — e não transmitiu o vírus. Ele foi condenado a 25 anos de prisão.

Nos Estados Unidos, 33 estados possuem leis específicas que consideram criminosos os soropositivos que, conscientes de sua condição, não revelam a condição sorológica positiva antes do sexo, compartilham seringas, doam órgãos ou sangue ou cuspam em outras pessoas — muito embora seja amplamente sabido que a saliva não transmite HIV. Essas leis já foram aplicadas em 442 processos, condenando 251 indivíduos. Em estados americanos onde não há leis específicas, muitas vezes aplicam-se acusações de agressão, tentativa de homicídio ou bioterrorismo.

Vários países seguiram esse mesmo modelo jurídico, ora aplicando leis específicas, ora leis mais abrangentes. A Suécia chegou a ser o país com maior índice de processos per capita contra soropositivos. A Suíça criou duas leis diferentes e não-específicas para o HIV, as quais já foram usadas em processos de casos de exposição ou transmissão do HIV e não precisam de um denunciante. Graças a elas, desde 1989 foram abertos 39 processos, os quais resultaram em 26 condenações. Em breve, o Brasil pode entrar para o rol dos países com leis criminalizantes do HIV. O deputado Pompeo de Mattos (PDT-RS) reapresentou uma proposta do ex-deputado federal Enio Bacci, de 1999, com o Projeto de Lei (PL) 198/2015, o qual pretende mudar a Lei dos Crimes Hediondos e punir quem “transmitir e infectar, consciente e deliberadamente a outrem com o vírus da aids.”

Brasilia

Mas será que essa lei é boa e pode de fato prevenir as transmissões de HIV? Reavaliando os casos de processo contra soropositivos, alguns países europeus perceberam que grande parte das condenações se davam quando os acusados eram estrangeiros — especialmente de origem africana e asiática. Nos Estados Unidos, a maioria dos acusados são negros, latinos, gays e mulheres e o processo segue mesmo em casos em que a transmissão do HIV não ocorreu. Muitas vezes, o soropositivo é processado mesmo tendo feito uso do preservativo ou num tipo de contato sexual que não poderia ter infectado seu parceiro.

Em 2009, um estudo suíço sobre as condenações impostas pelas leis criminalizantes do HIV no país mostrou que oito delas se deram após a divulgação voluntária do parceiro soropositivo a respeito de sua condição sorológica, antes do sexo, o qual foi feito sob pleno consentimento do parceiro soronegativo. Em outras palavras: o parceiro soropositivo avisou que tinha HIV, o parceiro soronegativo consentiu ao sexo e, mesmo assim, houve condenação do primeiro. Quando se deram conta disso, as autoridades daquele país perceberam que havia algo errado e a jurisprudência suíça mudou drasticamente. Naquele mesmo ano, o Tribunal de Justiça de Genebra anulou uma condenação de exposição ao HIV, depois de ouvir o testemunho de especialistas, autores da declaração da Comissão Nacional de Aids Suíça, segundo a qual a falta de infecciosidade observada em indivíduos soropositivos que estão sob tratamento antirretroviral há pelo menos seis meses, com carga viral indetectável e sem coinfecção com outra DST, torna o risco de transmissão do HIV tão baixo que ele é, nas palavras da Comissão, “hipotético”.

“Não existe, na história da epidemia, um único caso registrado de transmissão do HIV a partir de quem foi diagnosticado, faz tratamento e tem carga viral indetectável.”

Até então, a declaração da Comissão Nacional de Aids Suíça se baseava unicamente na observação de médicos desde o início da epidemia de HIV/aids. “Não existe, na história da epidemia, um único caso registrado de transmissão do HIV a partir de quem foi diagnosticado, faz tratamento e tem carga viral indetectável. Simplesmente isso não foi documentado na literatura médica até hoje. Ou seja: o controle da carga viral no sangue também controla a carga viral nas secreções genitais”, explica o Dr. Esper Kallás, médico infectologista e professor associado da Disciplina de Imunologia Clínica e Alergia da Faculdade de Medicina da USP.

A afirmativa do Dr. Esper não é uma fala isolada. Hoje, mais de 9 mil casais sorodiscordantes — quando só um dos parceiros é positivo para o HIV — e que optam, deliberada e consensualmente, por não fazer uso consistente do preservativo, foram ou estão sendo acompanhados em pelo menos quatro diferentes estudos: HPTN 052, Partner, Opposites Attract e Partners Demonstration Project, já reconhecidos por consensos médicos americano, britânico, canadense e sueco, entre outros. Nesses estudos, também nunca foi documentado um único caso sequer de transmissão do HIV a partir de quem é soropositivo, faz tratamento antirretroviral e tem carga viral indetectável. Segundo o último Boletim Epidemiológico do Ministério da Saúde, 78% das pessoas que vivem com HIV e fazem tratamento antirretroviral no Brasil apresentam esse perfil: carga viral indetectável.

“A criminalização desconsidera o avanço da ciência em relação à prevenção e ao tratamento do HIV.”

Em uma nota na qual apela ao Congresso Nacional para que rejeite e arquive o PL 198/2015, o Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids (Unaids) lembra que “a criminalização desconsidera o avanço da ciência em relação à prevenção e ao tratamento do HIV. Estudos demonstraram que tratamento antirretroviral efetivo e consistente reduz até em 96% as chances de uma pessoa vivendo com HIV transmitir o vírus para seu parceiro sexual em relações desprotegidas. Portanto, uma pessoa em tratamento antirretroviral efetivo, ou seja, com carga viral indetectável, mesmo que tenha a intenção de transmitir o vírus, provavelmente não conseguirá fazê-lo.”

Hoje, a Suprema Corte americana entende que um risco de transmissão “hipotético”, tal como sugerido pelos suíços, é diferente de “razoável”. Em uma decisão por 6 a 1, a condenação de Nick Rhoades pelo estado de Iowa foi derrubada, sob o argumento de que os promotores não tinham provado uma “base factual” para o fundamento, inclusive em virtude da carga viral indetectável do condenado. Em 2013, um tribunal da Suécia também deu indícios de mudança de rumo: um relatório do Centro Nacional de Controle de Doenças Transmissíveis (Smittskyddsinstitutet, SMI) foi citado para absolver um homem soropositivo condenado a um ano de prisão por ter tido relações sexuais com quatro mulheres que nunca contraíram o vírus.

“Os dados são claros: pessoas com carga viral indetectável não estão transmitindo o HIV.”

“A menos que esteja vivendo em uma caverna nos últimos anos, você deve saber que alguém com carga viral indetectável não transmite HIV”, afirma o Dr. Joel Gallant, médico que cuida de pacientes com HIV no Southwest Care Center, em Santa Fé, Novo México, e que tem respondido em seu blog à várias perguntas sobre a segurança oferecida pelo tratamento como prevenção (TasP, do inglês treatment as prevention) e pela redução da transmissibilidade observada em quem vive com HIV, em tratamento e tem carga viral indetectável. “Pode ser difícil para algumas pessoas lidar com mudanças de paradigmas e mudar o pensamento que se tornou dogma por mais de três décadas e meia. Ainda há boas razões para usar preservativos: estamos vendo taxas inaceitavelmente altas de sífilis, gonorreia, clamídia e hepatite C entre homens gays sexualmente ativos que não usam camisinha. Mas os dados são claros: pessoas com carga viral indetectável não estão transmitindo o HIV”, explica Gallant.

“A transmissão intencional do HIV é atípica e incomum.”

Para ajudar a mudar esse paradigma e as leis criminalizantes, em 2014, aconteceu em Iowa a conferência “HIV não é Crime”. Pouco depois, o Departamento de Justiça americano publicou o Guia com as Melhores Práticas para Reformar as Leis Criminais Específicas de HIV e para se Alinhar com Fatos Amparados Cientificamente, no qual afirma: “Muitas das leis estaduais criminalizam comportamentos que os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) consideram apresentar risco nulo ou insignificante para a transmissão do HIV, mesmo na ausência de medidas de redução de riscos. A maioria destas leis foi aprovada antes do desenvolvimento da terapia antirretroviral, a qual o CDC reconhece reduzir o risco de transmissão do HIV em até 96%.” E conclui: “Os dados do CDC e outros estudos nos dizem que a transmissão intencional do HIV é atípica e incomum.”

Mas o deputado Marco Tebaldi (PSDB-SC), relator que votou pela aprovação do PL 198/2015, discorda do CDC. Ele pensa que “o nosso País experimenta uma verdadeira epidemia de contaminação dolosa de pessoas com o HIV, como noticiado pelos meios de comunicação”, provavelmente se referindo ao “clube do carimbo”, o grupo de soropositivos que transmitem propositalmente o HIV, “carimbando” sua vítimas com o vírus e instruindo outros sobre como fazê-lo também, conforme televisionado na reportagem do Fantástico, da Rede Globo. Paradoxalmente, dois dos entrevistados nesta reportagem — Georgiana Braga-Orillard, diretora do Unaids Brasil, e o ativista Diego Callisto — reclamaram publicamente sobre a edição feita pelo programa. Segundo eles, as entrevistas na íntegra foram editadas de maneira a alterar o teor daquilo que consideravam como mais importante em suas falas, as quais teriam incluído, em grande parte, explicações sobre o tratamento como prevenção. O Unaids emitiu uma nota de esclarecimento, manifestando preocupação com a reportagem, e a Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids (Abia) também repudiou a abordagem do assunto. O Fantástico fez então uma nova reportagem, no dia 22 de março, quando entrevistou o Dr. Jean Gorinchteyn, infectologista do Hospital Emílio Ribas. “A maior parte dos portadores de HIV são extremamente conscientes e preservam a saúde própria, bem como a dos próximos. O ‘carimbo’ acaba acontecendo principalmente para aqueles indivíduos que não fazem o tratamento”, explicou Gorinchteyn.

Indivíduos que negligenciam sua própria saúde e transmitem intencionalmente o HIV já podem ser condenados com base na legislação atual e vigente, sem a necessidade de uma lei específica. Na esfera criminal, entende-se que casos assim configuram lesão corporal grave, de acordo com o Artigo 129 do Código Penal, parágrafo 2º, inciso II. Então, por que a necessidade do PL 198/2015? Segundo o relator, porque “deve o Estado responder de forma rígida e justa, repreendendo o infrator de forma proporcional e deixando clara mensagem à sociedade de que não admite o cometimento dessa repugnante infração” — portanto, essa é uma lei que quer transmitir uma mensagem, mais do que ter uma eficiência penal.

“Sob a ameaça de ser considerada criminosa e de ser presa, a pessoa tende a fugir dos serviços de saúde, evitando o teste para o HIV.”

Quando o assunto é saúde pública, no entanto, a mensagem deve ser mais cuidadosa e mais calculada. O Unaids, o CDC, o Departamento de Justiça americano e muitos dos países que, no passado, criaram leis criminalizantes do HIV, hoje concordam que o medo da discriminação faz com que muitos evitem conhecer sua condição sorológica, falar sobre ela ou procurar tratamento de saúde — o mesmo tratamento que pode evitar a transmissão. “Uma vez sob a ameaça de ser considerada criminosa e de ser presa, a pessoa tende a fugir dos serviços de saúde, evitando o teste para o HIV, iniciando o tratamento em um estágio muito avançado da infecção e, portanto, tornando-se potencialmente mais propensa a transmitir o vírus de forma involuntária”, diz a nota do Unaids.

A resposta brasileira à epidemia de HIV/aids sempre foi elogiada e é referência no mundo todo. Somos pioneiros em questões importantes, como a quebra de patentes de medicamentos e o acesso universal ao tratamento antirretroviral. As campanhas de prevenção sempre se esforçaram para passar uma mensagem objetiva e isenta de moralismo. É hora de decidir se queremos continuar assim ou retroceder, indo na contramão da tendência mundial de abolir ou reformar as leis de criminalização do HIV. É hora de decidir se queremos meter medo ou encorajar as pessoas a fazer o teste, pois, tal como explica o Dr. Esper Kallás, “esta é a melhor ferramenta para controlar a epidemia de HIV/aids.”

Atitude Abril

Russia

Da Rússia com amor

Indivíduos estrangeiros que vivem legalmente na Rússia são considerados indesejados se “representarem uma ameaça real para a saúde pública”. No caso de diagnóstico de infecção por HIV, estrangeiros em território russo são deportados. Além disso, a autorização de permanência temporária naquele país é obtida somente após a apresentação do certificado de não infecção pelo HIV ao Serviço Federal de Migração (FMS, na sigla em russo). Mas, agora, isso deve mudar.

“É inaceitável deportar um cidadão estrangeiro, negar-lhe a entrada no país ou não fornecer a ele a autorização de residência temporária.”

De acordo com o jornal Gazeta Russa, o Tribunal Constitucional da Rússia entendeu que estrangeiros portadores do HIV não podem mais ser deportados e nem ter sua entrada proibida naquele país em razão da sorologia positiva. O Tribunal declarou que a prática de aplicação de normas estabelecidas em algumas leis que regem o estatuto jurídico dos estrangeiros na Rússia e que permitem a deportação de cidadãos estrangeiros ou apátridas soropositivos e cujos familiares residem permanentemente no país é inconstitucional. “É inaceitável deportar um cidadão estrangeiro, negar-lhe a entrada no país ou não fornecer a ele a autorização de residência temporária”, explica juiz Nikolai Mélnikov, ainda de acordo com o jornal.

Tribunal Constitucional define que portar vírus HIV não deve servir de fundamento para deportação ou proibição de entrada no país Foto: Aleksêi Dánitchev/ RIA Nóvosti

Tribunal Constitucional define que portar vírus HIV não deve servir de fundamento para deportação ou proibição de entrada no país Foto: Aleksêi Dánitchev/ RIA Nóvosti

A determinação do tribunal se deu após recursos impetrados por dois cidadãos ucranianos e uma cidadã da Moldávia que foram proibidos de permanecer em território russo pela razão de serem soropositivos. Após a decisão do tribunal, os dois casos serão revistos.

“Uma pessoa soropositiva não deve a priori ser considerada perigosa para a sociedade.”

“Uma pessoa soropositiva não deve a priori ser considerada perigosa para a sociedade”, disse Maria Onúfrieva, diretora da ONG ‘Comunidade de pessoas que convivem com o HIV’, à Gazeta Russa. “Se uma pessoa constituiu família, toma medicação e está sob a supervisão de um médico, recusar a autorização de sua entrada no país ou deportá-la com base apenas na presença da infecção pelo HIV é claramente uma violação de direitos.”

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O mais promissor

“– Então, doutor”, perguntei ao meu médico, Dr. Esper Kallás: “qual você acha que é hoje o estudo mais promissor em relação à cura?”

“– Acho que é o estudo da Gilead Sciences, sobre o agonista de TLR7.”


Gilead

A Gilead Sciences anunciou hoje, em 25 de fevereiro de 2015, os resultados de um estudo pré-clínico realizado em colaboração com pesquisadores do Beth Israel Deaconess Medical Center, avaliando o receptor TLR7 e um agonista oral análogo, o GS-9620, como parte de uma estratégia de erradicação do HIV. Os dados demonstram que o tratamento com o agonista de TLR7 induziu o RNA do vírus da imunodeficiência símia (SIV) no sangue, bem como o DNA do SIV em macacos rhesus viralmente suprimidos que receberam terapia antirretroviral (TARV). Além disso, o estudo descobriu que, após a descontinuação da TARV, as cargas virais do SIV foram menores entre os macacos que receberam o agonista de TLR7 em comparação com o grupo sob placebo. Estes dados foram apresentados em uma sessão na 22ª Conferência sobre Retrovírus e Infecções Oportunistas (CROI), em Seattle.

“Oferecido junto com TARV, o agonista de TLR7 pode ter o potencial de estimular tanto a produção de vírus como de eliminar as células infectadas de forma latente.”

“Uma das razões das terapias atuais não conseguirem curar o HIV é que reservatórios latentes do vírus persistem mesmo entre indivíduos que estão com supressão viral sob TARV”, disse James Whitney, PhD, professor assistente na Escola de Medicina de Harvard e pesquisador no Centro de Virologia e Vacina do Beth Israel Deaconess Medical Center, em Boston. O Dr. Whitney também é membro associado do Ragon Institute do MGH, MIT e Harvard, fundado em 2009 para contribuir para aceleração da descoberta de uma vacina contra o HIV/aids e estabelecer-se como líder mundial no estudo colaborativo em imunologia. “Estes dados demonstram que, oferecido junto com TARV, o agonista de TLR7 pode ter o potencial de estimular tanto a produção de vírus como de eliminar as células infectadas de forma latente — umas das estratégias de erradicação que está sendo explorada atualmente.”

Neste estudo, controlado com placebo, 10 macacos rhesus infectados com SIV receberam TARV ao longo de 38 semanas, altura em que eles estavam com supressão viral (RNA plasmático inferior à 50 cópias/ml). Na semana 38, seis macacos receberam placebo e quatro macacos começaram a receber sete doses, duas vezes por semana, do agonista de TLR7, ainda sob TARV. Os níveis totais de DNA viral foram medidos duas semanas após a conclusão da dosagem do agonista de TLR7 em células mononucleares do sangue periférico (PBMC), cólon e nódulos linfáticos inguinais — onde reservatórios latentes de SIV são comuns. A TARV foi descontinuada duas semanas após a última dose do agonista de TLR7, para avaliar a carga viral do plasma sanguíneo.

Os quatro macacos que receberam doses duas vezes por semana do agonista de TLR7, receberam 0,1 mg/kg para a primeira dose, 0,2 mg/kg para a segunda dose e 0,3 mg/kg para cada uma das últimas cinco doses. As doses 1 e 3 não tiveram efeito sobre a viremia plasmática, enquanto as doses 4 e 7 levaram a aumentos transitórios e consistentes de vírus no plasma (500 à 1.000 cópias/ml de RNA do SIV) em todos os quatro macacos, com um retorno para menos de 50 cópias/ml no prazo de quatro a sete dias após a dose de agonista de TLR7. Além disso, os níveis de DNA do SIV dos quatro macacos tratados foram reduzidos em 30 a 90%, em comparação com o grupo sob placebo, no qual o DNA viral se manteve inalterado. Após a interrupção da TARV nos macacos que receberam o agonista TLR7, o RNA do SIV no plasma foi ~0,5 log10 menor, em comparação com o grupo sob placebo.

“Estes resultados preliminares sugerem que os agonistas de TLR7 podem ter um papel a desempenhar nas estratégias de erradicação do HIV.”

“Estes resultados preliminares sugerem que os agonistas de TLR7 podem ter um papel a desempenhar nas estratégias de erradicação do HIV”, disse Norbert W. Bischofberger, PhD, vice-presidente executivo e chefe de pesquisa e desenvolvimento da Gilead Sciences. “O GS-9620 é um potente agonista de TLR7, atualmente a ser avaliado num estudo de Fase 2 em pacientes com hepatite B crônica, por seu potencial em reduzir HBsAg. Com base nos resultados de hoje, estamos agora ansiosos para observar o GS-9620 em estudos em indivíduos infectados pelo HIV que tomam TARV.”


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Cura funcional um passo mais perto


Medical DailyPor Dana Dovey em 10 de março de 2015 para o Medical Daily

Uma possível “cura funcional” para o HIV recebeu aprovação da Food and Drug Administration (FDA) americana para começar mais testes em humanos. O método usa modificação genética para causar uma mutação específica nas células brancas de pacientes com HIV, imitando as pessoas que são naturalmente imunes ao vírus. Até agora, essa estratégia tem se mostrado receptiva e de efeito duradouro.

A nova terapia retira células-tronco de pacientes soropositivos e, através de uma ferramenta de edição genética, faz as células brancas do sangue ganharem uma mutação específica. Essa mutação afeta a proteína CCR5 e interfere na habilidade do vírus de penetrar na células do sangue. É naturalmente presente numa pequena porcentagem da população mundial e faz com que estes indivíduos sejam resistentes à infecção pelo HIV pela vida toda. Embora o vírus possa permanecer no corpo, sem conseguir penetrar nas células T ele não é capaz de se replicar e, como consequência, permanece em pequena quantidade, a qual não compromete o sistema imune.

Em teoria, quando essas células geneticamente modificadas são reintroduzidas nos pacientes com HIV, elas vão repopular o organismo com células que contém a mesma mutação. Em apenas um procedimento, os pacientes com HIV passariam a ter resistência vitalícia aos danos do vírus. O método foi desenvolvido pela Sangamo BioSciences Inc., mas também foi testado em humanos pela empresa Calimmune, de acordo com notícia do San Francisco Business Times.

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A recente aprovação da FDA é um grande passo em direção à cura do HIV. Foto cortesia do Shutterstock para Medical Daily

De acordo com o IFL Science, num pequeno estudo clínico com 12 pacientes, o procedimento foi bem tolerado e apresentou baixo risco de efeitos colaterais. As células geneticamente modificadas ficaram quatro anos dentro dos pacientes. Infelizmente, o estudo não foi grande o suficiente para testar a eficácia do procedimento — o que agora deve mudar, com a atual aprovação da FDA, a qual permite que o estudo seja estendido a mais pacientes com HIV. A FDA também aprovou o início da Fase I do estudo de segurança, o qual consiste em três anos de estudos em humanos para testar uma abordagem que usa outro método de supressão da proteína CCR5.

De acordo com a notícia do San Francisco Business Times, os estudos devem ser conduzidos no centro médico City of Hope, na Califórnia, e está sendo financiado pelo CIRM, a agência estadual de financiamento de pesquisas com células tronco. Pesquisadores da Sangamo BioSciences Inc. e da Keck School of Medicine na University of Southern California vão conduzir os estudos. Serão incluídas pessoas com HIV/aids que tiveram respostas pobres à terapia convencional.

“Esse tipo de trabalho é importante demais para ser experimentando através de um método e esperar para ver seu resultado”, explicou o Dr. Jonathan Thomas, presidente do conselho administrativo do CIRM, ao Imperial Valley News. “Temos a missão de buscar tratamento para os pacientes que precisam. Ao tentar diferentes abordagens, chutando várias vezes ao gol, acreditamos que temos mais chances de obter sucesso.”

O procedimento espera replicar o que aconteceu com o Paciente de Berlim, a única pessoa até hoje curada do HIV. Se for provado que essas abordagens são tão eficazes na prática quanto em teoria, o procedimento pode vir a ser a primeira “cura funcional” do mundo para HIV/aids.


Jornalismo cientiífico

A notícia que não faz sentido

Brasil Post

Não faz sentido o que tem sido noticiado sobre o “clube do carimbo”, os soropositivos que transmitem propositalmente o HIV, “carimbando” sua vítimas com o vírus e instruindo outros sobre como fazê-lo também, perfurando ou retirando a camisinha sem que seus parceiros percebam. Essa notícia já estampou a imprensa on-line, impressa e, agora, chegou também à tela das emissoras de televisão.

Eu, como uma pessoa que vive com HIV, gostaria que notícias como essa destacassem que o perfil de transmissor intencional do HIV não é o perfil de todo o soropositivo. Não é o meu perfil e sei que não é o da esmagadora maioria das pessoas que vivem com HIV. Mas, se existem pessoas que transmitem propositalmente o HIV, é natural que virem notícia, mesmo que estes sejam uma minoria, um grupo extremamente restrito. Não é preciso que seja atitude de uma maioria para que algo vire notícia. Não é isso o que estabelece a relevância e a seleção dos editores para o que vai ou não para a capa dos jornais. Ao contrário: uma das medidas para algo virar notícia é o inesperado, a exceção. Por isso, eu reconheço que o meu desejo de ter uma nota de rodapé que esclareça a generalização não é mais que vaidade, porque é desnecessário.

É evidente que os soropositivos do “clube do carimbo” não representam todos os soropositivos. Assim como é evidente que o Estado Islâmico não representa os muçulmanos de todo o mundo. Que os indianos que estupram mulheres não representam todos os seus conterrâneos. Que os policiais truculentos não representam todos os policiais. E assim por diante. Tendo o bom senso como medida, não é preciso sempre esclarecer a generalização. Seria chato demais sempre ler e assistir notícias assim. O evidente não preciso ser sempre dito. Para você, um leitor com algum esclarecimento, repetir o que é óbvio não é um insulto à sua inteligência?

Estes soropositivos que transmitem intencionalmente o HIV não cuidam da própria saúde?

Uma eventual generalização ou a falta de uma nota de esclarecimento não torna as notícias sobre o “clube do carimbo” ruins ou incompletas. O que faz delas notícias ruins e incompletas são outras razões, que não a generalização. Uma boa notícia sobre qualquer tema responde às perguntas: o quê?, quem?, quando?, onde?, como? e por quê? No que tem sido noticiado sobre o “clube do carimbo”, faltam respostas para duas dessas perguntas. A primeira é como? Qualquer pessoa com um entendimento mínimo sobre HIV/aids faria uma pergunta que foi deixada para trás, negligenciada. Nenhum dos veículos de imprensa, até agora, se preocupou em questionar: afinal, estes soropositivos que transmitem intencionalmente o HIV não cuidam da própria saúde?

Jornalismo cientiífico

O tratamento antirretroviral é o tratamento essencial para todo soropositivo manter-se vivo e saudável. Sem ele, estamos literalmente mortos. Comparado ao tratamento disponível no começo da epidemia, hoje esse tratamento é simples e eficaz. Quando feito de maneira consistente, é capaz de reduzir a quantidade de vírus no sangue, a carga viral, até um nível indetectável, mesmo nos exames mais precisos de laboratório. Segundo o último Boletim Epidemiológico do Ministério da Saúde, 78% das pessoas que vivem com HIV e fazem tratamento antirretroviral no Brasil apresentam esse perfil: carga viral indetectável.

“Não existe, na história da epidemia, um único caso registrado de transmissão do HIV a partir de quem foi diagnosticado, faz tratamento e tem carga viral indetectável.”

Uma das consequências do tratamento e da carga viral indetectável é que o risco de transmissão do HIV é reduzido em pelo menos 96%, mesmo em caso de falha no uso da camisinha. Esse número é uma estimativa matemática, baseada em estudos que reuniram, até agora, mais de 9 mil casais sorodiscordantes — quando só um dos parceiros é positivo para o HIV — e que optam, deliberada e consensualmente, por não fazer uso consistente do preservativo. Nesses estudos, nunca foi documentado um único caso sequer de transmissão do HIV a partir de quem é soropositivo, faz tratamento antirretroviral e tem carga viral indetectável. “Não existe, na história da epidemia, um único caso registrado de transmissão do HIV a partir de quem foi diagnosticado, faz tratamento e tem carga viral indetectável. Simplesmente isso não foi documentado na literatura médica até hoje”, explica o Dr. Esper Kallás, médico infectologista. “Ou seja: o controle da carga viral no sangue também controla a carga viral nas secreções genitais.”

Incluir essa informação a respeito da redução na transmissibilidade dentro do que tem sido noticiado sobre o “clube do carimbo” é muito importante, porque, se algum dos soropositivos desse clube faz tratamento antirretroviral, tem carga viral indetectável e, mesmo assim, transmitiu o HIV, será o primeiro caso na história da epidemia. É muito importante que este caso seja verificado e documentado porque isso pode mudar o curso mundial da política de prevenção de HIV/aids.

Consensos médicos americano, britânico, canadense e sueco, entre outros, já atualizaram suas diretrizes de tratamento e prevenção com base no que tem sido observado até então. Nesses consensos, o uso correto e consistente da camisinha continua fundamental. Entretanto, é importante saber que, em caso de falha em seu uso, os antirretrovirais também têm um papel de enorme importância na prevenção da transmissão do HIV. As últimas orientações sobre prevenção da transmissão com soropositivos publicadas pelos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) americano, por exemplo, já incluem recomendações sobre a relação sexual desprotegida programada, como uma alternativa segura para casais sorodiscordantes que desejam ter filhos. Para os britânicos, quem é exposto aos fluidos de uma pessoa com carga viral indetectável não precisa fazer profilaxia pós-exposição (PEP), a medida emergencial de prevenção ao HIV que pode ser adotada em até 72 horas a contar de uma possível exposição ao vírus.

No último mês, a Unaids divulgou uma nota celebrando as últimas evidências na redução da transmissibilidade oferecida pelos antirretrovirais; uma delas, observada num estudo africano, conduzido recentemente no Quênia e Uganda e que reuniu 1.013 casais sorodiscordantes. Neste estudo, também não foi documentado um único caso sequer de transmissão a partir do parceiro positivo para o HIV que estava em tratamento e tinha carga viral indetectável.

Por que alguém negligenciaria a própria saúde para transmitir uma doença incurável?

Se as estimativas científicas e os consensos médicos de vários países estão corretos, o mais provável é que, se ocorreu alguma transmissão a partir de um integrante do “clube do carimbo”, este indivíduo precisou, antes, negligenciar a própria saúde, recusando o tratamento que é essencial para manter-se vivo — o coquetel antirretroviral. Nesse caso, não muda o fato de que houve transmissão intencional do vírus, o que é abominável. Mas fala algo importante a respeito do indivíduo envolvido na história, causador da transmissão, e suscita a segunda pergunta não respondida no que tem sido noticiado a respeito do “clube do carimbo”: por que alguém negligenciaria a própria saúde para transmitir uma doença incurável?

Na televisão, frente a frente com pessoas que assumem ser “carimbadores”, o repórter não fez essa pergunta. Uma dessas pessoas afirma “ter o vírus controlado”, fazendo presumir que faz tratamento adequado e o que levanta outra pergunta não respondida no que tem sido noticiado: será que de fato ocorreram transmissões intencionais a partir de indivíduos como este ou houve o desejo de transmitir, sem a sua concretização? Embora as duas sejam atitudes repudiáveis, a primeira consiste no ato consolidado e não apenas o desejo de cometê-lo. Se de fato houve a concretização de uma transmissão intencional, temos o perfil muito nítido de alguém que negligencia a própria saúde e então viola o preservativo sem o consentimento do parceiro, com a intenção de transmitir o vírus.

Se indivíduos com o perfil do “clube do carimbo” existem, eles certamente não são responsáveis pela maior parte das transmissões de HIV. Em 2009, 91,5% das infecções que ocorreram nos Estados Unidos foram adquiridas a partir de pessoas que não sabiam ter HIV ou que não estavam em tratamento antirretroviral, de acordo com uma análise dos dados de transmissão daquele país, publicada no jornal Jama Internal Medicine. Comparadas com portadores do HIV não diagnosticados, as pessoas diagnosticadas mas sem acompanhamento médico se mostraram 19% menos propensas a transmitir o HIV, enquanto pessoas com carga viral indetectável se mostraram 94% menos propensas a transmitir o HIV.

Segundo a Unaids, “a epidemia de HIV é nutrida pelas infecções por HIV não diagnosticadas e não pelas pessoas que conhecem seu status positivo para o HIV.” A organização também divulgou hoje uma nova nota, em que “expressa preocupação com as recentes notícias divulgadas na imprensa sobre possíveis casos de transmissão intencional do HIV, considerando seu impacto no aumento do estigma e preconceito relacionados ao HIV e as pessoas que vivem com o vírus. O papel da imprensa é o de informar e promover debate sobre as questões importantes para a sociedade. Portanto, convidamos a imprensa e toda a sociedade a discutir a questão do HIV de forma clara e imparcial, sem estigmas ou preconceitos.”

Atitude Abril