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HIV travel 2014

Quais são os países que ainda discriminam viajantes com HIV?

Brasil Post

Domingo, 1º de março, foi o Dia da Discriminação Zero, data que começou a ser celebrada em 2014. Neste ano, a Unaids aproveitou a data para divulgar um novo balanço dos países ou territórios que ainda restringem o tempo de estadia, impedem a entrada ou deportam viajantes com HIV.

Em 2008, eram 59 os países que impunham alguma restrição segregatória contra viajantes que vivem com HIV. Mas Austrália, China, Coreia do Sul, Estados Unidos, Mongólia e Uzbequistão, entre outros, abandonaram suas restrições e hoje esse número é menor, com 38 países.

Entre aqueles que ainda discriminam viajantes com HIV estão, nas Américas: Belize, Cuba, o nosso vizinho Paraguai e a República Dominicana. Na Europa: Bielorrússia e Lituânia. Na África: Ilhas Maurício e Sudão. No Oriente Médio: as únicas exceções são Turquia e Irã, enquanto todos os demais países da região impõem algum tipo de restrição. Na Ásia: Brunei, Coreia do Norte, Malásia, Rússia, Singapura, Taiwan e Turcomenistão. Na Oceania: Ilhas Salomão, Nova Zelândia e Papua Nova Guiné, entre outros países e territórios insulares da região.

Antes de comprar uma passagem para viajar, ainda temos que consultar sites como o HIV Travel. Mas a chance de não podermos seguir para o destino desejado é cada vez menor.

Atitude Abril

Opposites Attract

Opostos se atraem, não se contaminam

Opposites Attract

O estudo australiano Opposites Attract, “Opostos se Atraem” em português, é um estudo “global voltado exclusivamente para explorar uma série de questões importantes relacionadas à transmissão do HIV e à carga viral em casais de homens homossexuais sorodiscordantes. Pesquisas anteriores em casais heterossexuais mostraram que, quando o parceiro soropositivo está em tratamento contra o HIV e tem carga viral indetectável, o risco de transmissão do HIV para o parceiro soronegativo é reduzido em 96%. Agora, a próxima pergunta é: até que ponto esta importante constatação se aplica aos homens gays?”

A pesquisa acompanha a ideia de dois estudos anteriores, o HPTN 052, que acompanhou aproximadamente 1750 casais sorodiscordantes heterossexuais ao longo de 78 semanas, e o Partner, que acompanhou 767 casais sorodiscordantes, alguns dos quais homossexuais, entre setembro de 2010 e novembro de 2013. O HPTN 052 divulgou seus resultados em 2011. O Partner divulgou a análise preliminar de seus resultados em março de 2014. Em ambos os estudos, o casal sorodiscordante tinha o hábito de não usar camisinha consistentemente e o parceiro soropositivo estava sob tratamento antirretroviral. Durante o estudo Partner, os casais tiveram aproximadamente 44 mil atos sexuais sem preservativo. Isso incluiu 13.728 atos de sexo vaginal receptivo, 14.295 atos de sexo vaginal insertivo, 7.738 atos de sexo anal receptivo e 11.749 atos de sexo anal insertivo. Em ambos os estudos, entre os participantes do estudo com carga viral indetectável, não ocorreu qualquer transmissão do HIV.

Agora, chegou a vez do estudo australiano, Opposites Attract. Ele segue em andamento, mas seus dados preliminares foram divulgados ontem, durante a Conference on Retroviruses and Opportunistic Infections (CROI) de 2015. De acordo com ativistas e jornalistas presentes na apresentação, os casais inscritos, homossexuais e sorodiscordantes, praticaram até o momento 6 mil atos de sexo anal desprotegido — em mais 2 mil destes atos os parceiros positivos teriam sido os insertivos. Não ocorreram transmissões do HIV.

“Estes resultados são muito interessantes e parecem espelhar as conclusões de outros estudos internacionais importantes com casais heterossexuais, que forneceram uma forte evidência de que o tratamento como prevenção funciona”, disse o professor Andrew Grulich, pesquisador-chefe do estudo. “Essencialmente, o que estamos vendo entre os casais gays inscritos no Opposites Attract é que a transmissão do HIV é bastante improvável quando a carga viral de alguém é indetectável. Nenhum homem soronegativo no estudo contraiu o HIV de seu parceiro positivo.”

A análise estatística do HPTN 052 e do Partner concluiu que o risco de transmissão do HIV a partir de um parceiro soropositivo, em tratamento e indetectável pode ser reduzida em 96%. A análise estatística do Opposites Attract não foi concluída e, embora os resultados preliminares sejam promissores, os pesquisadores alertam que são necessárias mais evidências para entender melhor o risco envolvido em fazer sexo sem preservativo quando um parceiro soropositivo tem carga viral indetectável.

Aids cake

Feliz aniversário, Elisa!

Brasil Post

Foi em março de 1985 que a Food and Drug Administration (FDA) licenciou, nos Estados Unidos, o primeiro teste de anticorpos para o HIV, o Elisa. Faz 30 anos. O nome vem do termo em inglês enzyme-linked immunosorbent assay, ou imunoensaio absorvente ligado à enzima, um procedimento que detecta anticorpos ou antígenos numa amostra. No Brasil, esse teste também é chamado de “sorologia para o HIV” ou, mais simplesmente, é o teste de HIV.

No começo da epidemia, antes do desenvolvimento do Elisa para o HIV, o diagnóstico de aids se dava pelo aparecimento de doenças típicas de sistemas imunes deprimidos, senão totalmente devastados, como as lesões na pele causadas por sarcoma de Kaposi. Sem um teste que identificasse a presença do vírus no organismo, ninguém sabia se estava contaminado, se poderia transmitir a doença e se desenvolveria ou não a aids. O alívio que o teste proporciona para quem recebe resultado negativo, claro, nunca foi o mesmo de quem — assim como eu — leu “positivo” no papel do laboratório. Mas naquela época era pior. Receber o diagnóstico nos anos 80, que levava cerca de uma semana para ficar pronto, era uma sentença de morte certa e provavelmente muito sofrida.

“Fazer ou não fazer o teste era uma decisão torturante. A maioria das pessoas entendia que não havia nada que os médicos pudessem fazer para quem era diagnosticado positivo.”

“Fazer ou não fazer o teste era uma decisão torturante, uma vez que a maioria das pessoas entendia que não havia nada que os médicos pudessem fazer para quem era diagnosticado positivo”, lembra Laura Pinsky, assistente social cofundadora do primeiro local de testagem num campus universitário do mundo, em 1985, na Universidade de Columbia, em Nova Iorque, e ainda hoje dirigente da organização Gay Health Advocacy Project (GHAP). Num artigo publicado na Poz Magazine sobre o aniversário do Elisa, ela lembra que a única alternativa que poderia ser oferecida aos diagnosticados positivos era o Bactrim, um antibiótico eficaz contra pneumonia, doença oportunista que tirava a vida de muitos soropositivos. Sem grandes perspectivas de tratamento, muitos preferiam não saber sua condição sorológica para o HIV e, mesmo com o surgimento do Elisa, não faziam o teste.

O surgimento do Elisa permitiu identificar os estoques em bancos de sangue que eram positivos para o HIV e, assim, reduzir o número de infecções decorrentes de transfusões sanguíneas. Foi um passo muito importante porque, naquela altura, 9 mil pessoas haviam contraído o vírus por transfusão de sangue nos Estados Unidos. Entre 1980 e 2001, o Brasil teve 2178 casos notificados de transmissão de HIV por meio de transfusão. Se você também tem mais ou menos a mesma idade que o Elisa, deve se lembrar de Herbert de Souza, o Betinho, hemofílico, contaminado por transfusão. Ele lutava por um tratamento digno para os soropositivos. Faleceu em 1997, por complicações decorrentes da aids.

Em 2014 foram registrados no País apenas dois casos de transmissão por transfusão de sangue. Esse número decresceu acompanhando a melhora na precisão do Elisa. Hoje, um resultado positivo ou negativo num teste de HIV é um resultado seguro, desde que seja respeitado o período chamado de “janela imunológica”. Esse período diz respeito ao tempo entre o contágio, quando o vírus entra no organismo e estabelece a infecção, e o resultado diagnóstico seguro. Uma vez que o Elisa é um teste que detecta anticorpos e antígenos, é preciso que o organismo já tenha reagido à presença do vírus, produzindo os anticorpos contra ele, ou que o antígeno, que nada mais é que um pedacinho do vírus, seja encontrado. Conforme explica meu médico, o infectologista Dr. Esper Kallás, hoje o período da janela imunológica para o teste de HIV é de 30 dias, contados a partir da última relação sexual sem camisinha. (Então, se esqueceu da camisinha no Carnaval, você deve fazer ou repetir o teste de HIV no dia 18 de março.)

Esse período só é maior para quem fez profilaxia pós-exposição (PEP), uma alternativa de prevenção ao HIV após uma possível exposição ao vírus, adotada em casos de estupro, acidentes médicos e laboratoriais com material contaminado ou em alguns casos de falha no uso da camisinha. Consiste no uso de antirretrovirais que devem ser iniciados em até 72 horas a contar da possível exposição e mantidos rigorosamente ao longo de um mês. Nesse caso, os 30 dias da janela imunológica devem ser contados a partir do término da PEP.

“Não adianta aceitar como definitivo o resultado de um teste feito logo após a relação desprotegida”

“Não adianta aceitar como definitivo o resultado de um teste feito logo após a relação desprotegida”, afirma o Dr. Esper. “A quantidade de vírus pode ser insuficiente para apresentar um resultado preciso.” Uma pessoa só pode ser considerada soropositiva ou soronegativa se fizer o teste de HIV respeitando a janela imunológica. Se você fizer o teste antes disso, não é possível ter certeza se tem ou não HIV. Se fizer depois, pode estar plenamente seguro quanto ao resultado — desde que não tenha transado novamente sem camisinha! “Hoje, casos de falsos positivo e negativo são extremamente raros. Representam, em média, menos que 0,1% dos testes, em ambos os casos. Essa taxa é um pouco maior em situações de gravidez, infecção positiva para sífilis ou nos raríssimos casos de doenças reumatológicas e imunes.”

Aids cake

Diferentemente das primeiras décadas de aids, hoje quem recebe um diagnóstico positivo tem uma perspectiva de tratamento muito boa. Claro, não é a mesma coisa do que não ter o vírus. “Ainda há diferenças importantes entre alguém com HIV bem controlado e alguém sem HIV — se não houvesse diferença, nós não estaríamos buscando a cura”, explica o Dr. Joel Gallant, médico que cuida de pacientes com HIV em Santa Fé, Novo México, nos Estados Unidos, e tem um blog em que responde à perguntas de pacientes soropositivos. “Mesmo com o HIV bem controlado, você tem uma condição de saúde que é onerosa de ser tratada, que aumenta a inflamação crônica e a ativação imune. Você ainda tem DNA viral integrado no seu próprio genoma.”

Qualquer pessoa sã que vive com HIV gostaria de viver sem o HIV. Mas é possível, sim, viver muito bem com o vírus, normalmente, de maneira saudável e tomando apenas um comprimido por dia. Esse avanço é resultado da terapia antirretroviral combinada, o “coquetel”, uma das maiores conquistas da medicina na atualidade. “Com o tratamento antirretroviral, que veio em 1996, houve uma revolução. Passamos a ver o controle da multiplicação do vírus e o sistema imune se recuperando. O que parecia ser inexorável, cedeu. As longas filas de macas de pacientes com aids nos prontos-socorros foram reduzindo drasticamente. A qualidade de vida das pessoas que viviam com o vírus voltou”, conta o Dr. Esper.

Com o tratamento, a quantidade de vírus no sangue — chamada de “carga viral” –, que pode chegar aos milhões no começo da infecção, cai para um nível indetectável. Enquanto for mantido o tratamento, o vírus não consegue se multiplicar e morre, persistindo apenas de maneira dormente, inativa, escondido no material genético das células de memória do sistema imune. É o meu caso e de 78% das pessoas que fazem tratamento para o HIV no Brasil: temos carga viral indetectável.

“Do ponto de vista do prognóstico e expectativa de vida, pessoas com carga viral indetectável e contagem normal de CD4 têm mais em comum com soronegativos do que com pessoas com uma infecção não tratada de HIV”

“Do ponto de vista do prognóstico e expectativa de vida, pessoas com carga viral indetectável e contagem normal de CD4 têm mais em comum com soronegativos do que com pessoas com uma infecção não tratada de HIV”, afirma o Dr. Gallant. Sem a presença do vírus no sangue e nos fluídos corporais, o organismo pode restaurar a saúde, restabelecendo as células CD4 do sistema de defesa, as mais afetadas pela infecção do HIV. Nos últimos anos, a expectativa de vida de quem vive com HIV e faz tratamento praticamente se igualou à de pessoas soronegativas. Adultos infectados pelo HIV e que cuidam da saúde têm doenças relacionadas ao envelhecimento em idades semelhantes aos adultos não infectados. Nada disso seria possível sem que as pessoas tomassem consciência da sua saúde, fazendo o teste de HIV.

Hoje, não é preciso mais temer tanto o teste. Pelo menos, não tanto quanto no começo da epidemia. O teste rápido, nacionalizado no Brasil em 2008, permite obter o resultado em minutos. Em breve, o teste rápido por fluído oral, que pode ser feito em casa, deve chegar nas farmácias de todo o País. É preciso ter consciência que fazer o teste é bom para a sua saúde e ajuda a controlar a epidemia no mundo.

Atitude Abril

NIH

Uma parte da cura


Beneficiados por incentivo do NIH conseguem matar células infectadas pelo HIV trazidas dos esconderijos

Um dos principais obstáculos para a cura das pessoas infectadas pelo HIV é a forma como o vírus se esconde num reservatório formado principalmente por células imunes e dormentes, chamadas de células T CD4+ de memória. Uma potencial abordagem para curar a infecção pelo HIV é despertar essas células T CD4+ latentes para que elas comecem a produzir as proteínas do HIV. Isto iria alertar ao sistema imune que estas células são infectadas, e, em teoria, gerar uma resposta imune que as mataria. Tem sido pouco claro, no entanto, se os mecanismos imunológicos típicos para matar células infectadas com vírus iriam eliminar as células T CD4+ infectadas com HIV despertadas do reservatório.

Para responder à esta pergunta, o Dr. Robert F. Siliciano, PhD do Instituto Médico Howard Hughes e da Escola de Medicina da Universidade Johns Hopkins, e seus colegas, beneficiados por apoio do NIH, extraíram células imunes e HIV dos reservatórios virais de 25 pessoas infectadas para estudá-las no laboratório e em ratos geneticamente modificados. Dez dessas pessoas tinham começado a terapia antirretroviral precocemente (dentro de 3 meses da infecção) e 15 tinham começado tarde (3 meses ou mais após a infecção). No grupo precoce, os cientistas descobriram que a maioria das células T CD4+ infectadas pelo HIV nos reservatórios virais foram sensíveis à detecção por células T assassinas, as células do sistema imunológico que procuram e destroem células infectadas. Em contraste, quase todo o HIV que infectou as células T CD4+ nos reservatórios do grupo tardio tinham desenvolvido mutações que permitiram que as células T CD4+ infectadas escapassem à detecção das células T assassinas, que normalmente dominam a resposta imunitária à infecção pelo HIV.

Apesar disso, os cientistas descobriram que a maioria das pessoas infectadas pelo HIV no grupo tardio também tiveram outras células T assassinas que reconheceram partes do HIV que não tinham sofrido mutação, mas estas células foram ineficazes em destruir seus alvos. Para aumentar a capacidade de morte destas células, os investigadores estimularam-na com uma mistura de fragmentos de proteína de HIV antes de expô-las à partes não mutadas do vírus. As células impulsionadas eficazmente mataram as células infectadas pelo HIV, tanto no laboratório quanto nos ratos geneticamente modificados para ter sistemas imunes humanos. Isto sugere que uma vacina terapêutica que estimula uma resposta semelhante de célula T para o HIV pode vir a ser parte de uma estratégia para a cura de infecção crônica pelo HIV.


im_positive

Quer jogar?

I’m Positive é uma narrativa interativa, intercalada com pequenos e peculiares jogos, com objetivo educacional. Você joga como se fosse um jovem, que descobriu através de uma ex-parceira que ele pode ser soropositivo. Em seguida, você é apresentado à uma séria de alternativas, entre fazer o teste, seguir com o tratamento ou ignorar as circunstâncias. Ao longo do jogo, o jogador aprende questões pertinentes a respeito do HIV, equívocos, testagem, tratamento, revelação da condição sorológca e as consequências de não aderir ao tratamento.

Os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), nos Estados Unidos, estão realizando um estudo sobre a eficácia do jogo, que foi vencedor do prêmio CDC & HHS Games for Health Game Jam 2014. O jogo funciona em Windows, Mac, Linux, iOS e Android e em breve deve ser distribuído.

Joel Gallant

Indetectável é o novo negativo?

Joel Gallant

Dr. Joel Gallant

Ser indetectável muda a maneira como falamos sobre a condição sorológica para o HIV? Uma pessoa que vive com HIV e é indetectável pode parar de se preocupar com transmitir o vírus? Num post de Mathew Rodriguez para o The Body, ele lembra que o Dr. Joel Gallant, um médico que cuida de pacientes com HIV no Southwest Care Center, em Santa Fé, Novo México, tem respondido à essas perguntas. Em seu blog, exclusivamente voltado à pessoas que vivem com HIV, um de seus leitores perguntou: “Doutor, li num post anterior que ‘indetectável é o novo negativo’. Você concorda com essa afirmação?”

“Até certo ponto, sim. Do ponto de vista da transmissibilidade, ter uma carga viral indetectável é próximo de ser negativo. E do ponto de vista do prognóstico e expectativa de vida, pessoas com carga viral indetectável e contagem normal de CD4 têm mais em comum com soronegativos do que com pessoas com uma infecção não tratada de HIV.

Mas ainda há diferenças importantes entre alguém com HIV bem controlado e alguém sem HIV — se não houvesse diferença, nós não estaríamos buscando a cura. Mesmo com o HIV bem controlado, você tem uma condição de saúde que é onerosa de ser tratada, que aumenta a inflamação crônica e a ativação imune. Você ainda tem DNA viral integrado no seu próprio genoma. Eu entendo o sentimento que essa afirmativa traz. Mas, mesmo assim, eu não diria que ‘indetectável é o novo negativo.'”
Dr. Joel Gallant

Candice Swanepoel

Candice Swanepoel + Mother

A modelo sul-africana Candice Swanepoel e a marca Mother Denim anunciaram o lançamento de uma coleção que terá parte do lucro revertido para a mothers2mothers, uma ONG que luta pela prevenção da transmissão vertical do HIV. Inspirada nos anos 90, fotografada por Russell James, conhecido como o principal fotógrafo da Victoria’s Secrect, a coleção chega nas lojas em fevereiro.

HIV

Hoje, basta um comprimido por dia

Brasil Post

Os primeiros comprimidos do remédio 3 em 1 começam a chegar este mês às farmácias do SUS, onde os antirretrovirais são distribuídos gratuitamente no Brasil. Não se trata tanto de um avanço tecnológico, uma vez que os três medicamentos que compõem o 3 em 1  já existiam, mas de um avanço prático e simbólico muito importante no tratamento de HIV/aids. Das dezenas de comprimidos nos anos 90, que precisavam ser tomados rigorosamente em diversos e precisos horários, para apenas um único e pequeno comprimido, que pode ser tomado antes de dormir, uma vez ao dia.

Atripla

A combinação de três medicamentos num único comprimido acompanha a ideia do Atripla, aprovado nos Estados Unidos pela Food And Drug Administration (FDA) em julho de 2006. Mas a ideia de tratar pacientes com HIV/aids com múltiplos medicamentos vem de muito antes.

O primeiro antirretroviral usado no tratamento de HIV/aids foi o AZT, ou Zidovudina, um medicamento inicialmente desenvolvido para tratar câncer, mas que acabou nunca indo para o mercado para essa finalidade, conforme lembra uma recente matéria publicada pelo The New Yorker. Em 1987, a FDA aprovou o AZT para uso em pacientes com HIV, depois que seu estudo inicial já mostrava alguma habilidade da droga em controlar o vírus. Esse estudo começou como um “duplo cego”, em que um grupo de pacientes toma o medicamento verdadeiro e outro toma placebo, sem que saibam quem está tomando o quê. Entretanto, os benefícios observados em quem estava tomando o AZT eram tão evidentes que pareceu injusto aguardar o término do estudo para que os pacientes sob placebo pudessem usufruir do medicamento. Afinal, naquela época, quase todos os que eram diagnosticados positivo para o HIV estavam morrendo e o desespero era enorme — você já assistiu Clube de Compras Dallas (2013)?

“Quando comecei a trabalhar com pacientes com aids, em 1989, fiquei chocado com uma brutal e triste realidade.”

“Quando comecei a trabalhar com pacientes com aids, em 1989, um ano depois da criação do SUS, fiquei chocado com uma brutal e triste realidade”, recorda meu médico infectologista, o Dr. Esper Kallás. “Presenciei o sofrimento de homens, mulheres e crianças. Vi pacientes morrerem quase todos os dias. Muitos se despediam dos amigos em leitos de morte, estes sabendo que pouco depois chegaria sua hora também. Famílias se esfacelaram. Mas nada chegou perto do que aconteceu em alguns lugares da África, onde comunidades inteiras foram dizimadas.”

A epidemia começou a se caracterizar em 1981, quando os primeiros casos de aids, a Síndrome da Imunodeficiência Adquirida, foram descritos pelos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), nos Estados Unidos. Inicialmente, em 26 homossexuais em Nova Iorque e na Califórnia, identificados com doenças típicas de sistemas imunes muito debilitados. Diagnósticos parecidos só começaram a aumentar. Em 1982, foi identificada a primeira infecção decorrente de transfusão sanguínea no mundo e o primeiro caso diagnosticado de aids no Brasil, em São Paulo. Em 1º de janeiro de 1983, foi inaugurado o primeiro ambulatório de aids do mundo, em São Francisco. Neste mesmo ano, foi notificado o primeiro caso de aids em uma criança, os primeiros casos em profissionais de saúde, uma possível transmissão heterossexual e, no Brasil, o primeiro caso de aids em uma mulher.

Em março de 1984, o CDC ligou os primeiros casos de aids, entre homossexuais, a um único paciente: Gaëtan Dugas, um comissário de bordo canadense, batizado como o “Paciente Zero”, retratado no filme E a Vida Continua… (1993), baseado no livro do jornalista Randy Shilts. Por muitos anos, Dugas foi tido como o responsável por disseminar a epidemia. Hoje, sabemos que isso não é verdade. Em 1977, já havia surgido os primeiros casos de aids nos Estados Unidos, Haiti e na África Central, que apenas não foram diagnosticados como tal. Um estudo recente, liderado pelas universidades de Oxford, na Inglaterra, e Leuven, na Bélgica, usou registros históricos e sequenciamento genético do vírus para traçar a verdadeira origem da epidemia: tudo começou em 1920, na África.

O vírus provavelmente cruzou de chimpanzés para seres humanos ainda em anos anteriores, na região do sul de Camarões, mas se manteve uma infecção regional até entrar em Kinshasa, capital do que é hoje a República Democrática do Congo, um país que tem o tamanho da Europa Ocidental. A cidade é cortada pelo Rio Congo, utilizado como rota de barcos, e, em 1940, teve uma grande expansão ferroviária. Os dados genéticos sugerem que a epidemia se espalhou rapidamente por aquele país entre o final dos anos 1930 até o início dos anos 1950, quando o vírus contaminou pessoas que viajavam por via férrea e fluvial para Mbuji-Mayi e Lubumbashi, no sul, e para Kisangani, no norte. Ali, o HIV tomou conta e formou reservatórios secundários, a partir de onde alcançou países na África Austral e Oriental, antes de se espalhar para o mundo.

Quando chegou aos países desenvolvidos, o HIV foi apelidado de a “peste gay”, um rótulo que, como tantos outros, só serviu para espalhar ainda mais a doença. Em nossa visão antropocêntrica, perdemos tempo demais procurando culpados e condenando a orientação e as preferências sexuais. Como bem lembrou um leitor do meu blog, esquecemos de olhar para o que o vírus é: um organismo que se preparou ao longo de anos de evolução, endereçando sua maneira de contaminação para corpos exatamente como os nossos, suscetíveis e vulneráveis à sua infecção, assim como Gaëtan Dugas. Ele faleceu em 1984, um ano antes do desenvolvimento do primeiro teste de diagnóstico para o HIV.

HIV

O desenvolvimento do teste só foi possível porque o vírus foi isolado, em 1985, por dois times de cientistas, um liderado por Luc Montagnier e Françoise Barré-Sinoussi, do Instituto Pasteur, em Paris, e outro liderado por Robert Gallo, do Instituto Nacional do Câncer, em Maryland. A disputa pelo crédito da descoberta do HIV se estendeu até 2008, quando finalmente os franceses levaram o Nobel.

Ao final de 1986, 25 dos 29 mil casos de aids nos Estados Unidos, morreram. O Brasil registrava quase 3 mil casos e o então Ministro da Saúde do Brasil, Roberto Santos, criou o Programa Nacional de DST e Aids, um ano antes da aprovação do AZT. No começo, esse remédio precisava ser tomado doze vezes ao dia e em altas dosagens, as quais se provaram tóxicas, com efeitos colaterais que incluíam anemia, miocardiopatia e neutropenia. Para piorar, seu preço era exorbitantemente alto. Entretanto, era o único medicamento disponível e por isso continuou a ser usado, mas em doses menores, que salvaram muitas vidas — tal como explicado depois da última cena do filme Clube de Compras Dallas. Apesar desse avanço, o vírus persistia e, em alguns casos, tornava-se resistente ao AZT com o decorrer do tratamento. Era preciso algo novo e os cientistas continuavam a pesquisar.

Em 1987, em vista à urgência por novos medicamentos, a FDA criou a aprovação fast track, para “facilitar o desenvolvimento e acelerar a avaliação de medicamentos e produtos biológicos destinados ao tratamento de doenças graves ou que oferecem risco de vida e que demonstram o potencial para responder à necessidades médicas não atendidas.” Assim, em 9 de outubro de 1991, foi aprovada a segunda droga para tratar o HIV: o DDI, ou Didanosina — já tarde demais para Cazuza e Freddie Mercury. Os efeitos adversos mais comuns, que atingiam quase um quarto dos pacientes, eram diarreia, dor abdominal, dor de cabeça, erupção cutânea, febre, náuseas e vômitos. Em 1992, surgiu o DDC, ou Zalcitabina, uma nova droga para tratar o HIV que era sugerida como alternativa ao AZT. Os efeitos colaterais mais comuns eram dores de cabeça e náusea, mas um terço dos pacientes em estágio avançado de aids sofriam também com esofagite, neuropatia periférica e úlceras na boca.

A ideia de combinar os medicamentos num “coquetel” veio em 1996 — ano da morte de Renato Russo — logo depois 11ª Conferência Internacional de Aids, em Vancouver. Foi nesse encontro que David Ho, do Instituto Aaron Diamond, em Nova Iorque, apresentou dados sobre a dinâmica do vírus. John Mellors, da Universidade de Pittsburgh, na Pensilvânia, associou a quantidade de vírus no sangue ao declínio das células T auxiliadoras, as CD4, as mais afetadas na infecção pelo HIV. E três pesquisadores apresentaram a ideia de uma “terapia de tratamento triplo”, o coquetel, utilizando novos antirretrovirais, Indinavir, Neviparina e Ritonavir, todos aprovados pela FDA naquele mesmo ano.

“Com a terapia antirretroviral, houve uma revolução. Passamos a ter controle na multiplicação do vírus e a observar o sistema imune se recuperando.”

A terapia com três medicamentos foi rapidamente incorporada à prática clínica e logo mostrou benefícios impressionantes, com um declínio de 60% a 80% nas taxas de aids, hospitalização e morte. “Com a terapia antirretroviral, houve uma revolução. Passamos a ter controle na multiplicação do vírus e a observar o sistema imune se recuperando. O que parecia ser inexorável, cedeu. As longas filas de pacientes com aids nas macas dos prontos-socorros foram reduzindo drasticamente. A qualidade de vida das pessoas que viviam com o vírus voltou”, conta o Dr. Esper.

CD4

A expectativa foi tamanha, que os cientistas começaram a falar sobre a cura, imaginando que a terapia antirretroviral, sozinha, seria capaz de eliminar o HIV do organismo. Mas não foi isso o que aconteceu. Em 1997, Robert Siliciano, hoje pesquisador na Johns Hopkins School of Medicine, publicou um importante artigo na revista Nature. Usando um teste extremamente sensível, Siliciano localizou o HIV dentro de um tipo de célula T auxiliadora específica, que provê memória para nossos sistemas imunes e que, diferentemente de suas colegas, pode viver por décadas. É nesse profundo esconderijo genético que o vírus permanece, dormente, escondido, intocado pelo coquetel de medicamentos. Se o tratamento for interrompido, o vírus pula para fora da célula, de volta à vida, se multiplica e espalha a infecção. Por isso, o tratamento precisa ser diário. Por isso, ele não é capaz de curar, mas de devolver a saúde a quem tem HIV, enquanto for mantida a adesão ao tratamento.

Nessa época, o Brasil já registrava 22 mil casos de aids. Fernando Henrique Cardoso, então presidente do País, decretara a Lei 9.313, que tornou explicitamente obrigatória a gratuidade do tratamento contra aids. José Serra, quando Ministro da Saúde, pressionou laboratórios estrangeiros a reduzir o preço dos medicamentos e Lula, quando presidente, aprovou o primeiro licenciamento compulsório de um antirretroviral no País. Essa atitude incomodou os Estados Unidos, que levaram uma queixa formal à Organização Mundial do Comércio (OMC) em 2001 — à essa altura, o número de casos de aids contabilizados no Brasil acumulava 220 mil e, no mundo, quase 30 milhões. Por pressão da opinião pública e da própria ONU, os americanos retiraram a reclamação. O acesso aos antirretrovirais foi considerado mais importante que suas patentes.

“É mais provável que eu morra atropelado por um caminhão do que de aids”

, médico e autor da matéria do New Yorker, conta que prescreveu o coquetel para um de seus pacientes, David Sanford, e menos de um mês depois sua febre cessou, suas infecções desapareceram, sua energia voltou e ele começou a ganhar peso. O HIV em sua corrente sanguínea despencou para um nível indetectável, e ali ficou. Mais tarde, em um artigo vencedor do Pulitzer, Sanford escreveu: “É mais provável que eu morra atropelado por um caminhão do que de aids” — uma máxima que hoje é válida para a maioria das pessoas que vivem com HIV e estão sob tratamento. Nos últimos anos, a expectativa de vida de quem vive com HIV praticamente se igualou à de pessoas soronegativas. Adultos infectados pelo HIV têm doenças relacionadas ao envelhecimento em idades semelhantes aos adultos não infectados.

Hoje, os cientistas já desenvolveram mais de 30 remédios antirretrovirais — dentre eles, o Efavirenz, Tenofovir e Lamivudina, parte do 3 em 1, o novo avanço no tratamento de HIV/aids no Brasil. Seus efeitos colaterais incluem náusea e uma sensação de embriaguez, mas que costumam passar totalmente nas primeiras doses. Esses remédios impedem o vírus de se reproduzir nas células CD4 e, como consequência, a quantidade de vírus no sangue cai para um nível indetectável, reduzindo para próximo de zero o risco de transmissão do HIV.

Desde o início da epidemia, desde o começo de toda essa história, nunca foi documentado um único caso sequer de transmissão sexual do HIV a partir de quem foi diagnosticado positivo para o HIV, iniciou o tratamento antirretroviral e atingiu a carga viral indetectável. A grande maioria das novas contaminações vêm de sorointerrogativos, pessoas que têm HIV e não sabem e, por isso, não fazem o tratamento antirretroviral. Diversos estudos acompanharam casais sorodiscordantes que optam por não fazer uso da camisinha consistentemente chegaram à esta mesma observação. Por isso, as últimas orientações americanas sobre prevenção com pessoas vivendo com HIV, agora incluem a relação sexual desprotegida programada, que consiste em sexo sem camisinha com o parceiro indetectável e em tratamento durante o período fértil, como uma opção segura para casais sorodiscordantes terem filhos, alternativa à onerosa e nem sempre bem-sucedida inseminação artificial.

Hoje, ter HIV é ter uma condição tratável. Graças aos antirretrovirais, uma das grandes conquistas da medicina moderna, a vida de quem é diagnosticado positivo pode seguir normalmente. Hoje, basta um comprimido por dia. Novos estudos que estão em andamento sugerem que antirretrovirais, como o Dolutegravir, poderão em breve ser tomados em doses ainda menores e mais espaçadas, possivelmente duas ou três vezes por semana. Cada vez mais, o tratamento se torna mais simples. Cada vez mais, aprendemos sobre o vírus e sobre o nosso sistema imune. Aos poucos, estamos nos aproximando da cura para o HIV.

Atitude Abril

FMUSP-logo

Flora intestinal e imunidade

Depois de ter ido buscar meus remédios, na semana passada, aproveitei para contornar a calçada e seguir para a rua de trás, cheia de hospitais, seguindo o endereço anotado no papel. Também havia escrito nome de duas médicas a quem eu deveria procurar e, por fim, o contato da Sra. Zelina, quem atenciosa e gentilmente respondera meu e-mail.

FMUSPZelina é coordenadora de um estudo que está sendo conduzido pela Faculdade de Medicina da USP. Estão sendo selecionando voluntários que vivem com HIV, em tratamento com coquetel antirretroviral e carga viral indetectável, mas que apresentam contagem de CD4 inferior à 500 células.

O objetivo é estudar a flora intestinal dos voluntários e avaliar uma tentativa de reposição desta flora. “A intenção é verificar se a reposição ajuda na recuperação das células CD4″, explicou o Dr. Esper Kallás, meu médico infectologista, antes de me sugerir a inscrição no estudo.

Os participantes devem:

  • Ter entre 18 e 60 anos;
  • Estar tomando coquetel;
  • Ter carga viral indetectável;
  • Apresentar CD4 abaixo de 500 nos últimos testes.

A seleção de voluntários já começou. Se você, assim como eu, também se encaixa neste perfil e tem interesse de participar deste estudo, entre em contato com a Zelinda através dos telefones (11) 2661-7214 ou (11) 2661-3344 ou pelo e-mail zelinda.bartolomei@gmail.com.