A Declaração de Melbourne

A conferência Aids 2014, em Melbourne, Austrália, que terminou hoje, começou com a publicação de uma Declaração de seus embaixadores. O texto é o seguinte:


“Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de razão e de consciência, devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade.”

Artigo 1º, Declaração Universal de Direitos Humanos, 1948

Nos reunimos em Melbourne, o tradicional local dos povos Wurundjeri, Boonerwrung, Taungurong, Djajawurrung e Wathaurung, guardiões originais e permanentes das terras que compõem a nação Kulin, para avaliar o progresso da resposta global contra o HIV e os caminhos futuros, na 20ª Conferência Internacional de Aids, Aids 2014.

Nós, signatários e endossantes desta Declaração, afirmamos que a não-discriminação é fundamental para a criação de programas de saúde pública eficazes e de uma resposta ao HIV baseada em evidências, direitos humanos e independente de gênero.

Para derrotar o HIV e alcançar acesso universal à prevenção, tratamento, cuidado e suporte, ninguém deve ser criminalizado ou discriminado em decorrência de seu gênero, idade, raça, etnia, deficiência, crenças religiosas ou espirituais, país de origem, orientação sexual, identidade de gênero, trabalho como profissional do sexo, condição de prisioneiro ou detento, uso de drogas ilícitas ou porque vivem com HIV.

Afirmamos que todas as mulheres, homens, adultos e crianças intersexuais e transgêneros têm plena igualdade de direitos e devem ter igualdade de acesso à prevenção, cuidado e tratamento de HIV, informação e serviços. A promoção de igualdade de gêneros é essencial para uma resposta contra o HIV que de fato atenda às necessidades dos mais afetados. Além disso, pessoas que trabalham ou trabalharam com sexo e pessoas que usam ou usaram drogas ilícitas têm os mesmos direitos que todos os demais, incluindo a não-discriminação e a confidencialidade no acesso aos serviços de tratamento e cuidado do HIV.

Expressamos nossa partilhada e profunda preocupação na manutenção e aplicação de leis discriminatórias, estigmatizantes, criminalizadoras e prejudiciais, as quais levam à políticas e práticas que aumentam a vulnerabilidade ao HIV. Estas leis, políticas e práticas incitam extrema violência contra populações marginalizadas, reforçam o estigma e comprometem programas de resposta ao HIV, representando um significativo passo para trás na justiça social, igualdade, direitos humanos e acesso a serviços de saúde para aqueles que vivem com HIV e para aqueles que estão sob alto risco de contrair o vírus.

Em mais de 80 países, existem leis inaceitáveis que criminalizam as pessoas com base em sua orientação sexual. Todas as pessoas, incluindo lésbicas, gays, bissexuais, transgêneros e intersexuais têm os mesmos direitos que todos os demais. Todas as pessoas nascem livres e iguais e são membros iguais da família humana.

Profissionais de saúde que discriminam pessoas vivendo com HIV ou grupos sob risco de infecção pelo HIV ou outras ameaças à saúde, violam suas obrigações éticas de cuidar e oferecer cuidado imparcialmente.

Nós, portanto, exigimos a imediata e unificada oposição à estas práticas discriminatórias e estigmatizantes e clamamos que todas as partes adotem uma abordagem mais equitativa e eficaz, através das seguintes ações:

  • Governos devem revogar leis repressoras e acabar com políticas que reforçam as práticas discriminatórias e estigmatizantes, que aumentam a vulnerabilidade ao HIV, e, ao mesmo tempo, aprovar leis que promovam ativamente a igualdade.
  • Líderes não devem usar conferências e encontros internacionais sobre saúde como plataforma para promover leis discriminatórias e políticas que prejudicam a saúde e o bem estar.
  • A exclusão de organizações que promovem a intolerância e a discriminação, incluindo sexismo, homofobia e transfobia contra indivíduos ou grupos de programas de financiamento para programas de resposta ao HIV.
  • Todos os profissionais de saúde devem demonstrar a implementação de políticas não-discriminatórias como pré-requisito para financiamento de futuros programas de financiamento de resposta ao HIV.
  • Restrição ao financiamento, como em casos de projetos anti-prostituição e de proibição de venda de agulhas e seringas, devem ser removidos, uma vez que prejudicam ativamente o combate ao HIV, doenças sexualmente transmissíveis e hepatite C entre profissionais do sexo e pessoas que injetam drogas.
  • Defesa por todos os signatários da presente Declaração dos princípios da inclusão, não-criminalização, não-discriminação e da tolerância.

Como conclusão, reafirmamos nosso inabalável compromisso com a justiça, o acesso universal ao tratamento e serviços de saúde, ao suporte à dignidade inerente e aos direitos de todos os seres humanos. Todas as pessoas têm plena igualdade de direitos e proteção conferidas pelos enquadramentos internacionais de direitos humanos.


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Grupo de patentes


Parcerias no futuro do tratamento do HIV

Postado 24 de julho de 2014 no blog da Aids 2014, por Greg Perry, Diretor Executivo do Medicines Patent Pool

A comunidade internacional já percorreu um longo caminho desde a primeira conferência sobre aids, em 1985. Embora ainda estejamos à espera de uma vacina eficaz contra o HIV e uma cura funcional, a inovação dos antirretrovirais (ARVs) e seu aumento de escala trouxeram uma mudança significativa na perspectiva da resposta global ao HIV/aids.

Ao longo dos últimos 31 anos, 29 novos químicos foram aprovados para o tratamento do HIV. A descoberta da terapia antirretroviral, apresentada na 11ª International Aids Conference (IAC), em 1996, foi um divisor de águas ao fazer do HIV/aids uma condição crônica e não mais uma sentença de morte. Em 2001, combinações triplas de dose fixa reuniram vários ARVs em esquemas de único comprimido. Agora, quando entramos na quarta década de HIV, podemos ver mais uma vez a promessa de novos medicamentos que ajudarão a melhorar os regimes de hoje, com drogas que parecem oferecer maiores barreiras contra resistência do vírus e melhores perfis de segurança. Ao longo dos últimos três anos, os reguladores aprovaram quatro novos ARVs e pelo menos mais um ARV está em fase final de desenvolvimento clínico.

Temos que garantir que esses novos medicamentos estejam disponíveis a preços acessíveis para os países em desenvolvimento o mais rápido possível. Historicamente, temos tido uma média de sete a nove anos para que as versões genéricas de um novo tratamento contra o HIV chegue nos países de baixa renda, após sua introdução nas nações industrializadas. Nossa organização, a Medicines Patent Pool (MPP), é um grupo de patentes que faz parcerias com empresas farmacêuticas para encurtar este cronograma. A MPP faz acordos de licenciamento que agora permitem que os fabricantes de genéricos possam produzir os medicamentos mais recentes, logo após a sua aprovação nos EUA e na Europa. Por exemplo, a nossa recente licença para o Dolutegravir, um novo e promissor inibidor da integrase, deve permitir que os genéricos entrem no mercado dentro de dois a três anos de sua aprovação inicial.

No campo do HIV pediátrico, não foi feito o suficiente para garantir que as crianças tenham o tratamento adequado. Embora o mundo tenha feito progressos significativos no aumento da escala do tratamento para adultos, apenas um quarto das 3,3 milhões de crianças que vivem com HIV no mundo em desenvolvimento têm acesso ao tratamento. Em parceria com a UNITAID e com a Drugs for Neglected Diseases initiative (DNDi), a MPP está trabalhando com várias partes interessadas a contribuir para superar esta lacuna, através do desenvolvimento de formulações amigáveis ao tratamento infantil, de acordo com o recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

A cada dois anos, a IAC oferece uma oportunidade para fazermos um balanço do nosso progresso e discutir os novos desenvolvimentos para melhorar a nossa resposta coletiva contra a aids. Na IAC 2014, vejo que há uma boa razão para ser otimista sobre as opções de tratamento de amanhã, mas apenas se trabalharmos em conjunto com outras organizações para quebrar as barreiras do acesso e disponibilidade em países mais atingidos pela epidemia.

Basta imaginar um futuro em que os efeitos colaterais do tratamento de HIV serão mínimos e raramente resultarão em abandono do tratamento; um futuro em que o custo não será mais um fator para garantir o tratamento mais adequado e em que os novos ARVs se tornarão disponíveis para as pessoas nos países mais pobres, pouco depois de terem sido lançados nos países mais ricos. Neste cenário, as crianças iriam tomar um medicamento simples e eficaz, uma vez ao dia e apropriado para sua idade e peso.

A história dos últimos 30 anos sugere que estas são previsões razoáveis. Com uma contínua e forte liderança, vontade política, mobilização da comunidade e parcerias adequadas com objetivos claros, podemos desenvolver e distribuir o tratamento de HIV certo e ao preço certo para os mais necessitados. Novos medicamentos animadores estão no horizonte e podem mudar a nossa forma de tratar o HIV, reduzindo os efeitos colaterais e melhorando os resultados do tratamento, a um custo mais acessível. Esse futuro está claramente ao nosso alcance. Basta que os interessadas redobrem seu esforço.


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Coinfecção por hepatite C pode ser curada


Sofosbuvir + Ribavirina cura hepatite C em mais de 80% das pessoas com HIV e coinfecção por HCV

Por Liz Highleyman em colaboração com hivandhepatitis.com

Jean-Michel Molina apresenta os resultados do PHOTON-2. Foto por Liz Highleyman, hivandhepatitis.com

Um regime livre de Interferon, composto por Sofosbuvir e Ribavirina por 24 semanas, levou a uma resposta virológica sustentada contra hepatite C em 84 a 89% das pessoas soropositivas com genótipos da hepatite C crônica 1, 2, 3 ou 4, de acordo com os resultados da fase 3 do estudo PHOTON-2, apresentado na segunda-feira na 20ª Conferência Internacional de Aids (Aids 2014), em Melbourne, na Austrália. As taxas de cura foram menores, no entanto, para os pacientes com genótipo 1a e cirrose hepática.

As pessoas com HIV e coinfecção com o vírus da hepatite C (HCV) experimentam uma progressão mais rápida da doença hepática, do que pessoas apenas com hepatite C, e não respondem bem à terapia à base de Interferon. Antivirais de ação direta que têm como alvo diferentes etapas do ciclo de vida do HCV oferecem uma perspectiva de tratamento mais curto, com menos efeitos colaterais e maiores taxas de cura para pessoas com HIV e coinfecção com HCV, bem como para as pessoas com monoinfecção por HCV.

Jean-Michel Molina, da Universidade de Paris Diderot, apresentou dados da fase 3 do estudo PHOTON-2, que incluiu 274 pessoas com coinfecção na Europa e na Austrália. A maioria dos participantes (81%) eram homens e a média de idade foi de 47 anos. Os genótipos de HCV mais comuns eram 1 (41%) e 3 (39%), seguido de 4 (11%) e 2 (9%). A maioria das pessoas com o genótipo 1 tinham um genótipo de mais difícil tratamento, o subtipo 1a.

A maioria dos participantes (80%) não tinham sido tratados anteriormente para hepatite C. No geral, 20% tinham cirrose (13% dos não tratados previamente, chegando a 45% dos já tratados previamente). Quase a metade tinha uma variante favorável, o gene IL28B CC.

Quase todos os participantes do estudo estavam em terapia antirretroviral supressiva estável para o HIV e a contagem média de células CD4 era de cerca de 600 células/mm³. Os antirretrovirais mais comumente utilizados foram: Efavirenz (também na coformulação Atripla) em 25%, Raltegravir em 23%, Darunavir acrescido de Ritonavir em 21% e Atazanavir reforçado em 17%. Todos usavam a combinação de  inibidores da transcriptase reversa Renofovir e Emtricitabina (as drogas do Truvada). Os primeiros estudos não encontraram interações medicamentosas clinicamente relevantes entre Sofosbuvir e estes antirretrovirais. O Sofosbuvir já está aprovado na Europa e nos EUA para pacientes coinfectados.

Todos os participantes receberam Sofosbuvir, um inibidor de polimerase do HCV fabricado pela Gilead Sciences, 400mg uma vez ao dia, mais Ribavirina, entre 1000 a 1200mg ao dia, de acordo com o peso. Um pequeno número de participantes com genótipo 2 (19 pessoas), não tratados previamente, foram tratados durante 12 semanas, enquanto todas as pessoas com experiência de tratamento e todas as pessoas com os genótipos 1 ou 4, mais difíceis de tratar, foram tratadas durante 24 semanas.

A taxa de resposta virológica em 12 semanas após o término do tratamento (SVR12) foi de 85% para as pessoas com o genótipo 1, 88% para aqueles com genótipo 2, 89% para o genótipo 3 e 84% para o genótipo 4. As taxas de recaída foram de 13%, 8% , 9% e 16%, respectivamente. Uma pessoa com genótipo 3 experimentou avanço viral durante o tratamento.

Entre os participantes com genótipo 1, as taxas de resposta foram maiores para as pessoas que não apresentavam cirrose hepática (88% do total, 87% para o subtipo 1a e 100% para o subtipo 1b), em comparação com aqueles com cirrose (65%, 62% e 75 %, respectivamente). A presença de cirrose foi o único fator de risco significativo para uma pior resposta.

Para as pessoas com outros genótipos, a cirrose teve menos impacto, embora os efeitos do tratamento tenham sido um pouco maiores para as pessoas experientes em tratamento, em comparação aos participantes virgens de tratamento com genótipos 2 ou 3.

As taxas de resposta não diferiram significativamente entre os subtipos 1a e 1b de HCV, mas o número com o último tipo era pequeno. Da mesma forma, havia muito poucas pessoas que não tomam a terapia antirretroviral, o que impede uma análise separada.

Olhando para os resultados relacionados com o HIV, quatro pessoas experimentaram um discreto e intermitente aumento da carga viral do HIV, mas nenhuma necessitou de modificação em seu regime antirretroviral. A contagem de células CD4 temporariamente aumentou durante o tratamento para hepatite C, mas as porcentagens de CD4 se mantiveram estáveis.

Em geral, a combinação de Sofosbuvir e Ribavirina foi segura e bem tolerada. Seis pessoas sofreram efeitos colaterais graves e três interromperam o tratamento mais cedo devido a isso.

Os efeitos colaterais mais frequentes entre as pessoas tratadas por 24 semanas foram fadiga (20%), insônia (17%), cefaléia (16%), náusea (15%) e diarreia (11%). Uma em cada cinco pessoas desenvolveram anormalidades laboratoriais grau 3-4, em geral, com níveis elevados de bilirrubina entre as pessoas que tomam Atazanavir. 10% desenvolveram baixos níveis de hemoglobina — um efeito colateral conhecido da Ribavirina. Apenas uma pessoa teve anemia grave.

Os pesquisadores concluíram que “Sofosbuvir + Ribavirina resultou em altas taxas de conclusão do tratamento por pacientes coinfectados com HIV e genótipos 1, 2, 3 ou 4 de HCV. O Sofosbuvir foi bem tolerado, com uma baixa taxa de interrupção do tratamento devido a efeitos colaterais.”

Os resultados do PHOTON-1 foram publicados esta semana no Journal of the American Medical Association. Este estudo testou os mesmos regimes em pessoas com HIV e coinfecção pelo HCV. No entanto, foi conduzido nos EUA e tinha uma diferente distribuição de genótipos, o que permitiu uma outra comparação de subgrupos. Pouco mais de metade tinha o genótipo 1 (79% com 1a), enquanto o restante estava dividido mais ou menos uniformemente, entre os genótipos 2 e 3.

Como relatado anteriormente, na Conferência sobre Retrovírus e Infecções Oportunistas (CROI) deste ano, a taxa de término do tratamento para as pessoas com o genótipo 1 foi de 76%. Entre aqueles com genótipo 2, as taxas de resposta foram semelhantes para as pessoas sem tratamento prévio, tratadas por 12 semanas, e para as pessoas com experiência em tratamento, tratadas durante 24 semanas (88% e 92%, respectivamente). Entre aqueles com o genótipo 3, no entanto, os pacientes não tratados previamente que fizeram o tratamento de menor duração tiveram uma menor taxa de resposta (67% vs 94%).

As taxas de resposta nos estudos PHOTON não são particularmente impressionantes em comparação com as taxas de 90-100% vistas em vários outros estudos recentes, livres de Interferon. O Sofosbuvir funciona melhor quando combinado com outros medicamentos antivirais de ação direta, como os inibidores de NS5A, Ledipasvir ou Daclatasvir, os quais se espera que sejam aprovados em breve. Uma desvantagem do Ledipasvir é que ele não tem uma atividade potente contra os genótipos de HCV 2 ou 3.

Molina sugeriu que Sofosbuvir mais Ribavirina pode ser uma boa opção para pessoas que têm HIV e coinfecção com HCV, com genótipo 2 ou 3 do HCV, e que não têm cirrose hepática. “A Ribavirina é genérico”, observou ele, e esta combinação “pode ​​ser atraente em lugares onde você não tem acesso a todos os novos medicamentos.”

Em uma sessão separada para discutir a revolução do tratamento da hepatite C e sobre como tornar estes avanços recentes disponíveis em todo o mundo, Andrew Hill, da Universidade de Liverpool, e outros, notaram que as drogas pangenotípicas — que agem contra vários genótipos do HCV — podem não precisar de testes de genotipagem, o que reduziria o custo total do atendimento.

Referências:
Molina JM et al. All-oral therapy with sofosbuvir plus ribavirin for the treatment of HCV genotypes 1, 2, 3 and 4 infection in patients co-infected with HIV (PHOTON-2). 20th International AIDS Conference, abstract MOAB0105LB, Melbourne, 2014.
Veja o sumário no site da conferência.
Sulkowski M et al. Sofosbuvir and ribavirin for hepatitis C in patients with HIV coinfection. JAMA 312:353-361, 2014.

No entanto, o preço proposto pela Gilead Sciences para os medicamentos contra a hepatite C provocou protestos na Aids 2014. O preço nos EUA é de US$ 1.000,00 por pílula, equivalente a pelo menos US$ 84.000,00 pelo tratamento completo. A Universidade de Liverpool, no entanto, afirma que o tratamento completo poderia custar apenas pouco mais de US$ 100,00.

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Indetectável para todos

Ativistas lançaram um apelo demandando uma nova resposta à epidemia, baseada no direito de todo portador do vírus à carga viral indetectável. O apelo foi publicado no site da organização Treatment Action Campaign e dirigido às autoridades presentes na conferência Aids 2014, em Melbourne, Austrália.


Carga viral indetectável: uma oportunidade para todos em 2020!

Treatment Action Campaign • Treatment Action Group • HIV iBase • International Treatment Preparedness Coalition (ITPC) • Health GAP • AIDS and Rights Alliance of Southern Africa (ARASA) • Asian Network of People Living with HIV/AIDS (ANP+) • MSF Access Campaign • AfroCAB • International Community of Women Living with HIV/AIDS East Africa (ICW EA) • AIDS Law Project, Kenya • Housing Works • TASO Uganda • Zimbabwe Network of People Living with HIV/AIDS (ZNNP+) • Positive Generation Cameroon • International Civil Society Support • Thai AIDS Treatment Action Group (TTAG) • Thai Network of People Living with HIV (TNP+) • ACCESS Foundation Thailand • Delhi Network of People Living with HIV (DNP+) • National Network of Tanzanian Women with HIV/AIDS • Africa Young Positives (AY+) • Africa Japan Forum • Japan AIDS and Society Association (JASA) • Gays and Lesbians of Zimbabwe • Treatment Advocacy and Literacy Campaign (TALC), Zambia • Coalition for Health Promotion and Social Development (HEPS) Uganda • DRC National Grassroots Association of People Living with HIV • Zimbabwe HIV/AIDS Activist Union Community Trust (ZHAAUCT) • Ngibalulekile • Services for Health in Asian and African Regions (SHARE) • Rede Nacional de Asoociaçiões de Pessaoas Vivendo Com HIV/SIDA • National Association of People Living with HIV, Mozambique (ENSIDA) • Movement for Access to Treatment In Mozambique (MATRAM) • Mozambique Association of AIDS Service Organizations (MONASO) • Mozambique Network of NGOs working In Health and HIV/AIDS (NAIMA+)

Apelamos por uma meta ambiciosa de carga viral indetectável como centro das novas metas globais que estão sendo debatidas por governos e instituições da Organização das Nações Unidas e exigimos não apenas a promessa, mas o financiamento, opções de tratamento, leis e políticas necessárias para atingir este objetivo.

Para ter sucesso na luta contra a epidemia de HIV, relatórios e acompanhamento de testes e tratamento do HIV como indicadores de sucesso não são o suficiente. Precisamos saber quão bem, de fato, estão os soropositivos. Atualmente, alcançar e manter “carga viral indetectável” é o mais próximo que temos de uma cura para o HIV. A melhor forma de saber se o HIV está suprimido no organismo de uma pessoa é através do teste de carga viral. A supressão duradoura do HIV mantém as pessoas soropositivas vivas e saudáveis, além de prevenir a transmissão através de sexo, uso de drogas injetáveis, durante a gravidez, parto e amamentação.

Entretanto, a maioria da pessoas vivendo com HIV fora de países de alta renda não sabem sua carga viral. Muitas não têm o tratamento que precisam para controlar o vírus — muitas vezes porque sequer têm acesso ao teste diagnóstico de HIV. Esta é uma violação de direitos humanos básicos: toda a pessoa tem direito à informação, tratamento e suporte necessários para controlar e suprimir o vírus.

Assim, precisamos monitorar as taxas de supressão da carga viral para garantir que os programas de tratamento de HIV têm o melhor impacto nas pessoas que vivem com o vírus. Testes de carga viral também são recomendados para otimizar o cuidado de pessoas que recebem tratamento antirretroviral. A Organização Mundial de Saúde comenda que a monitoração da carga viral seja rotina, a fim de garantir que o tratamento está funcionando e que a detecção de falha no tratamento seja oportuna e precisa.

Além disso, o custo-benefício do teste de carga viral está melhorando e novas tecnologias prometem futuras redução nos preços, gerando progressiva economia em escala. Nós não consideramos o custo como um pretexto suficiente para deixar de oferecer o teste de carga viral a cada pessoa no planeta em tratamento antirretroviral, até 2020. Também não consideramos a falta de capacidade de testagem em países de baixa renda como um obstáculo ou desculpa aceitável. Quando o tratamento antirretroviral foi introduzido no começo do ano 2000, céticos argumentaram que, em virtude do custo, complexidade e falta de capacidade técnica, prover tratamento em situações de recursos limitados seria impossível. O mesmo argumento está sendo usado hoje para a monitoração da carga viral, embora os benefícios da tecnologia sejam incontestáveis​​.

Nós também sabemos que a monitoração da carga viral é só uma parte do quebra-cabeças. Para alcançar a meta de carga viral indetectável, líderes devem se comprometer a:

  • Usar todos os recursos disponíveis para eliminar as barreiras que tornam os antirretrovirais e outros medicamentos inacessíveis em vários países.
  • Nenhum teste de carga viral em qualquer lugar do mundo deve custar mais do que 10 dólares e devem ser possíveis mais reduções de preço.
  • Financiar totalmente o tratamento do HIV, através de programas nacionais, Global Fund, PEPFAR e outras iniciativas.
  • Financiar totalmente programas de tratamento baseados na comunidade, com apoio à adesão e com fortes programas de proteção social.
  • Comprometer à uma resposta ao HIV baseada nos direitos humanos, combatendo a criminalização, discriminação e estigma, evitando práticas coercivas e criando uma comunidade forte.

Se os governos e agências da Organização das Nações Unidas forem verdadeiramente sérios sobre virar a maré contra a epidemia de HIV, vão definir metas ambiciosas de supressão de carga viral e garantir que todos tenham a oportunidade de ter uma carga viral indetectável. A meta que nós queremos é: “pelo menos 80% de todas as pessoas soropositivas elegíveis a tratamento devem ter carga viral indetectável até 2020 (pessoas que não tiverem realizado testes de carga viral nos últimos 12 meses não devem ser consideradas como casos de supressão viral).”¹

¹Pelo menos 80% de todas pessoas elegíveis a tratamento devem ter testes de carga viral indetectável até 2020, o que representa um aumento significativo na testagem voluntária de HIV e inscrição em programas de cuidado de saúde e tratamento, considerando que 90% das pessoas elegíveis que fazem tratamento antirretroviral alcançam e mantém carga viral indetectável.

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Uma estratégia para desentocar o HIV


Cientistas descobrem maneira de expulsar o HIV de células infectadas

Por Alice Park @aliceparkny em 21 de junho de 2014

A técnica aborda o problema dos reservatórios de HIV escondidos no corpo e pode vir a ser uma nova maneira de combater a infecção viral

Uma vez que o HIV entra no organismo, ele não quer mais sair. Toda estratégia que os cientistas desenvolveram ou estão desenvolvendo para combater o vírus — de poderosos medicamentos anti-HIV à vacinas promissoras que agem contra ele — sofre do mesmo problema. Nenhuma consegue desentocar todo vírus no organismo e o HIV tem a tendência de se esconder, permanecendo inerte por anos, até irromper e causar a doença.

Nenhuma estratégia conseguiu desentocá-lo, até hoje. Kamel Khalili, diretor do Comprehensive NeuroAIDS na Temple University School of Medicine, e seus colegas, usaram uma nova técnica de edição genética para recortar o vírus das células nas quais ele havia infectado — fazendo-o voltar a seu estado pré-infecção. A estratégia é baseada na detecção e ligação do material genético do HIV e representa a primeira plataforma anti-HIV que poderia encontrar até mesmo vírus dormentes isolados dentro de células imunes.

Ainda mais encorajador é o fato de que os cientistas também usaram este sistema para proteger as células saudáveis ​​de ser infectadas, através da construção de bloqueios genéticos que repelem o material genético do HIV. “É o que chamamos de uma cura por esterilização”, diz Khalili.

Seu trabalho foi feito em células humanas infectadas pelo HIV em uma cultura de células em laboratório. No entanto, ele acredita que os resultados são robustos o suficiente para seguirem para testes com animais e, eventualmente, em pacientes humanos.

A chave para a estratégia é a técnica de edição de gene conhecida como CRISPR, uma maneira de cortar o DNA com precisão, em locais pré-especificados. A CRISPR atua como uma tesoura molecular customizável que pode ser programada para encontrar certas sequências de DNA e, em seguida, utilizando uma enzima, fazer cortes nesses locais. Como o HIV é um retrovírus, seu material genético vem sob a forma de RNA; o vírus coopta a célula de um hospedeiro para transformar seu RNA em DNA, o qual, em seguida, é inserido no genoma da própria célula. Então, os genes do HIV, que ele precisa para sobreviver, são produzidos pela célula.

Khalili projetou um CRISPR que reconhece o início e o fim do DNA do HIV e, em seguida, viu a enzima cortar o genoma de HIV para fora da célula. “Eu tenho trabalhado com HIV quase desde o dia 1 [da epidemia] e nós desenvolvemos uma série de moléculas que podem suprimir a transcrição ou diminuir a replicação do vírus. Mas eu nunca vi esse nível ou erradicação”, diz ele. “Quando você remove os genes virais de cromossomos, você basicamente converte as células ao seu estado pré-infecção.”

A vantagem do sistema reside no fato de que o CRISPR pode reconhecer os genes virais onde quer que estejam — em células infectadas ativas ou dormentes. Estratégias baseadas nos medicamentos atuais só podem atingir as células que se dividem e liberam cópias do HIV, razão pela qual o vírus ativo se torna indetectável, mas, depois,  [se interrompido o tratamento antirretroviral] os níveis de HIV podem subir novamente. Esse é o caso da bebê Mississippi, que nasceu soropositiva e recebeu um poderoso coquetel anti-HIV horas após seu nascimento. Ela parecia estar funcionalmente curada do HIV. O vírus não pode ser detectado por quase quatro anos, mas depois voltou.


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Depois do acidente, começa a conferência

Brasil Post

Joep Lange (Merlijn Doomernik/Hollandse Hoogte/eyevine)

O virologista holandês Joep Lange, um dos 298 mortos na tragédia do voo da Malaysia Airlines em 17 de julho, dizia: “Por que é que estamos sempre falando sobre o problema da distribuição de medicamentos, quando não há praticamente nenhum lugar na África onde não se pode tomar uma cerveja ou uma Coca-Cola gelada?”

Desde 1990, Lange lutava pela distribuição de medicamentos antirretrovirais em países de baixa renda. Ele também foi um dos responsáveis por estudar a segurança e eficácia da terapia antirretroviral combinada, o “coquetel” com múltiplos medicamentos, que hoje é o padrão de tratamento para HIV/aids. Estudou a resistência do HIV a medicamentos e o papel do tratamento como prevenção (TasP), incluindo a prevenção na transmissão vertical, de mãe para filho. Foi consultor de antirretrovirais para várias empresas farmacêuticas, cofundador do jornal Antiviral Therapy e da HIV Netherlands Australia Thailand Research Collaboration (HIV-NAT), uma rede responsável por 68 estudos clínicos que testaram a viabilidade de fornecimento de medicamentos antirretrovirais para pacientes em países de baixa renda.

No ano 2000, ajudou a lançar a organização sem fins lucrativos PharmAccess Foundation, que começou a levar antirretrovirais para a África subsaariana. Esse projeto começou restrito, mas inovador, distribuindo tratamento para os funcionários de uma fábrica da Heineken, marca holandesa de cervejas que foi uma um das primeiras apoiadoras do PharmAccess, e seus dependentes. O projeto se expandiu, com um fundo que subsidiava planos de saúde que pagavam pelos antirretrovirais para 100 mil pessoas na Nigéria, Tanzânia e Quênia. Entre 2002 e 2004, Lange foi presidente da International Aids Society (IAS).

Charles Boucher, virologista do Centro Médico Erasmus, em Roterdã, contou à revista Nature: “Trabalhei com Lange por 30 anos. Eu o conheço desde a faculdade de medicina. Ele estava um ano à minha frente. Fiz meu doutorado com ele. Eu o vi crescer, de um médico que cuidava de pacientes no início de 1980 para um líder nacional que liderou o nosso país na Europa com o desenvolvimento de novos medicamentos, avaliação de novas drogas e mudando os paradigmas de estudos clínicos. De lá, ele foi para a pesquisa internacional, para a África, onde tornou-se conhecido.”

Além de Joep Lange, a morte de outros cinco passageiros do voo MH17 que participariam de conferência Aids 2014, na Austrália, foi confirmada:

  • Jacqueline van Tongeren, colega de Lange e membro da ArtAids;
  • Glenn Thomas, coordenador de relações públicas da Organização Mundial da Saúde (OMS) em Genebra, Suíça;
  • Lucie van Mens, pioneira na defesa do acesso das mulheres a preservativos femininos e diretora de desenvolvimento da Female Health Company, que fabrica, comercializa e vende estes preservativos;
  • Martine de Schutter, gerente do programa Bridging the Gaps na Aids Fonds, onde trabalhou para tornar o tratamento e a prevenção do HIV acessível a todos;
  • Pim de Kuijer, escritor, ativista político, militante e defensor da organização Stop Aids Now!, empenhada em aumentar a contribuição holandesa na luta contra aids em países em desenvolvimento.

Em 19 de julho, Malaysia Airlines divulgou a lista de passageiros completa. A empresa diz que 192 dos passageiros eram da Holanda, 44 da Malásia, 27 da Austrália, 12 da Indonésia, 10 do Reino Unido, 4 da Bélgica, 4 da Alemanha, 3 das Filipinas, 1 do Canadá e 1 Nova Zelândia.

Em um comunicado, a IAS disse que “continua a trabalhar com as autoridades para esclarecer o impacto da tragédia do voo MH17 da Malaysia Airlines nos participantes da conferência, parceiros de conferência e em nossa comunidade como um todo”. A sociedade também disse que a conferência continua. “Em reconhecimento à dedicação de nossos colegas na luta contra o HIV/aids, a conferência irá adiante, conforme o planejado, e vai incluir oportunidades de reflexão para lembrar aqueles que perdemos.” A conferência começou com todos os participantes de pé, em um minuto de silêncio em homenagem às vítimas do voo MH17.

Um minuto de silêncio na cerimônia de abertura da Aids 2014.

Um dia depois do acidente, foram apresentados na conferência dois casos de pacientes australianos que não apresentam mais sinais do HIV, depois de um transplante de medula óssea para tratar câncer. Eles continuam sob tratamento antirretroviral “por precaução”, segundo o Dr. David Cooper, diretor do Kirby Institute da University of New South Wales em Sidney.

Depois de ouvir falar sobre o caso dos “pacientes de Boston”, dois homens que permaneceram por um longo tempo sem sinais do vírus após um tratamento similar, Cooper conduziu uma pesquisa nos arquivos de um dos maiores centros de transplante de medula óssea da Austrália, a fim de verificar se, por acaso, algum portador do HIV teria feito o transplante nos últimos anos. Encontrou dois casos: o primeiro havia recebido transplante para tratar um linfoma não-Hodgkin, em 2011, e o segundo para leucemia, em 2012.

Assim como no caso dos “pacientes de Boston”, é possível que os dois australianos voltem a apresentar sinais do vírus se interromperem a terapia antirretroviral. Por isso, eles não estão sendo considerados casos de cura e continuam sob a terapia antirretroviral. Entretanto, os resultados atuais mostram que existe uma clara relação entre o transplante de medula óssea e os “reservatórios de HIV”, o lugar onde o vírus se esconde no organismo. “Se conseguirmos entender como isso acontece, vamos acelerar o campo de pesquisa da cura”, afirma Cooper.

Até agora, o único caso de cura do HIV continua sendo o de Timothy Brown, o “paciente de Berlim”, que também fez um transplante de medula, no entanto, a partir de células de um doador naturalmente resistente ao HIV. Ele está há seis anos sem tomar antirretrovirais e não apresenta sinais do vírus. O transplante de medula óssea não é um tratamento viável para se tornar rotina na cura do HIV porque o procedimento apresenta alto risco de mortalidade, em 10%.

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