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O mais promissor

“– Então, doutor”, perguntei ao meu médico, Dr. Esper Kallás: “qual você acha que é hoje o estudo mais promissor em relação à cura?”

“– Acho que é o estudo da Gilead Sciences, sobre o agonista de TLR7.”


Gilead

A Gilead Sciences anunciou hoje, em 25 de fevereiro de 2015, os resultados de um estudo pré-clínico realizado em colaboração com pesquisadores do Beth Israel Deaconess Medical Center, avaliando o receptor TLR7 e um agonista oral análogo, o GS-9620, como parte de uma estratégia de erradicação do HIV. Os dados demonstram que o tratamento com o agonista de TLR7 induziu o RNA do vírus da imunodeficiência símia (SIV) no sangue, bem como o DNA do SIV em macacos rhesus viralmente suprimidos que receberam terapia antirretroviral (TARV). Além disso, o estudo descobriu que, após a descontinuação da TARV, as cargas virais do SIV foram menores entre os macacos que receberam o agonista de TLR7 em comparação com o grupo sob placebo. Estes dados foram apresentados em uma sessão na 22ª Conferência sobre Retrovírus e Infecções Oportunistas (CROI), em Seattle.

“Oferecido junto com TARV, o agonista de TLR7 pode ter o potencial de estimular tanto a produção de vírus como de eliminar as células infectadas de forma latente.”

“Uma das razões das terapias atuais não conseguirem curar o HIV é que reservatórios latentes do vírus persistem mesmo entre indivíduos que estão com supressão viral sob TARV”, disse James Whitney, PhD, professor assistente na Escola de Medicina de Harvard e pesquisador no Centro de Virologia e Vacina do Beth Israel Deaconess Medical Center, em Boston. O Dr. Whitney também é membro associado do Ragon Institute do MGH, MIT e Harvard, fundado em 2009 para contribuir para aceleração da descoberta de uma vacina contra o HIV/aids e estabelecer-se como líder mundial no estudo colaborativo em imunologia. “Estes dados demonstram que, oferecido junto com TARV, o agonista de TLR7 pode ter o potencial de estimular tanto a produção de vírus como de eliminar as células infectadas de forma latente — umas das estratégias de erradicação que está sendo explorada atualmente.”

Neste estudo, controlado com placebo, 10 macacos rhesus infectados com SIV receberam TARV ao longo de 38 semanas, altura em que eles estavam com supressão viral (RNA plasmático inferior à 50 cópias/ml). Na semana 38, seis macacos receberam placebo e quatro macacos começaram a receber sete doses, duas vezes por semana, do agonista de TLR7, ainda sob TARV. Os níveis totais de DNA viral foram medidos duas semanas após a conclusão da dosagem do agonista de TLR7 em células mononucleares do sangue periférico (PBMC), cólon e nódulos linfáticos inguinais — onde reservatórios latentes de SIV são comuns. A TARV foi descontinuada duas semanas após a última dose do agonista de TLR7, para avaliar a carga viral do plasma sanguíneo.

Os quatro macacos que receberam doses duas vezes por semana do agonista de TLR7, receberam 0,1 mg/kg para a primeira dose, 0,2 mg/kg para a segunda dose e 0,3 mg/kg para cada uma das últimas cinco doses. As doses 1 e 3 não tiveram efeito sobre a viremia plasmática, enquanto as doses 4 e 7 levaram a aumentos transitórios e consistentes de vírus no plasma (500 à 1.000 cópias/ml de RNA do SIV) em todos os quatro macacos, com um retorno para menos de 50 cópias/ml no prazo de quatro a sete dias após a dose de agonista de TLR7. Além disso, os níveis de DNA do SIV dos quatro macacos tratados foram reduzidos em 30 a 90%, em comparação com o grupo sob placebo, no qual o DNA viral se manteve inalterado. Após a interrupção da TARV nos macacos que receberam o agonista TLR7, o RNA do SIV no plasma foi ~0,5 log10 menor, em comparação com o grupo sob placebo.

“Estes resultados preliminares sugerem que os agonistas de TLR7 podem ter um papel a desempenhar nas estratégias de erradicação do HIV.”

“Estes resultados preliminares sugerem que os agonistas de TLR7 podem ter um papel a desempenhar nas estratégias de erradicação do HIV”, disse Norbert W. Bischofberger, PhD, vice-presidente executivo e chefe de pesquisa e desenvolvimento da Gilead Sciences. “O GS-9620 é um potente agonista de TLR7, atualmente a ser avaliado num estudo de Fase 2 em pacientes com hepatite B crônica, por seu potencial em reduzir HBsAg. Com base nos resultados de hoje, estamos agora ansiosos para observar o GS-9620 em estudos em indivíduos infectados pelo HIV que tomam TARV.”


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Cura funcional um passo mais perto


Medical DailyPor Dana Dovey em 10 de março de 2015 para o Medical Daily

Uma possível “cura funcional” para o HIV recebeu aprovação da Food and Drug Administration (FDA) americana para começar mais testes em humanos. O método usa modificação genética para causar uma mutação específica nas células brancas de pacientes com HIV, imitando as pessoas que são naturalmente imunes ao vírus. Até agora, essa estratégia tem se mostrado receptiva e de efeito duradouro.

A nova terapia retira células-tronco de pacientes soropositivos e, através de uma ferramenta de edição genética, faz as células brancas do sangue ganharem uma mutação específica. Essa mutação afeta a proteína CCR5 e interfere na habilidade do vírus de penetrar na células do sangue. É naturalmente presente numa pequena porcentagem da população mundial e faz com que estes indivíduos sejam resistentes à infecção pelo HIV pela vida toda. Embora o vírus possa permanecer no corpo, sem conseguir penetrar nas células T ele não é capaz de se replicar e, como consequência, permanece em pequena quantidade, a qual não compromete o sistema imune.

Em teoria, quando essas células geneticamente modificadas são reintroduzidas nos pacientes com HIV, elas vão repopular o organismo com células que contém a mesma mutação. Em apenas um procedimento, os pacientes com HIV passariam a ter resistência vitalícia aos danos do vírus. O método foi desenvolvido pela Sangamo BioSciences Inc., mas também foi testado em humanos pela empresa Calimmune, de acordo com notícia do San Francisco Business Times.

HIV

A recente aprovação da FDA é um grande passo em direção à cura do HIV. Foto cortesia do Shutterstock para Medical Daily

De acordo com o IFL Science, num pequeno estudo clínico com 12 pacientes, o procedimento foi bem tolerado e apresentou baixo risco de efeitos colaterais. As células geneticamente modificadas ficaram quatro anos dentro dos pacientes. Infelizmente, o estudo não foi grande o suficiente para testar a eficácia do procedimento — o que agora deve mudar, com a atual aprovação da FDA, a qual permite que o estudo seja estendido a mais pacientes com HIV. A FDA também aprovou o início da Fase I do estudo de segurança, o qual consiste em três anos de estudos em humanos para testar uma abordagem que usa outro método de supressão da proteína CCR5.

De acordo com a notícia do San Francisco Business Times, os estudos devem ser conduzidos no centro médico City of Hope, na Califórnia, e está sendo financiado pelo CIRM, a agência estadual de financiamento de pesquisas com células tronco. Pesquisadores da Sangamo BioSciences Inc. e da Keck School of Medicine na University of Southern California vão conduzir os estudos. Serão incluídas pessoas com HIV/aids que tiveram respostas pobres à terapia convencional.

“Esse tipo de trabalho é importante demais para ser experimentando através de um método e esperar para ver seu resultado”, explicou o Dr. Jonathan Thomas, presidente do conselho administrativo do CIRM, ao Imperial Valley News. “Temos a missão de buscar tratamento para os pacientes que precisam. Ao tentar diferentes abordagens, chutando várias vezes ao gol, acreditamos que temos mais chances de obter sucesso.”

O procedimento espera replicar o que aconteceu com o Paciente de Berlim, a única pessoa até hoje curada do HIV. Se for provado que essas abordagens são tão eficazes na prática quanto em teoria, o procedimento pode vir a ser a primeira “cura funcional” do mundo para HIV/aids.


Jornalismo cientiífico

A notícia que não faz sentido

Brasil Post

Não faz sentido o que tem sido noticiado sobre o “clube do carimbo”, os soropositivos que transmitem propositalmente o HIV, “carimbando” sua vítimas com o vírus e instruindo outros sobre como fazê-lo também, perfurando ou retirando a camisinha sem que seus parceiros percebam. Essa notícia já estampou a imprensa on-line, impressa e, agora, chegou também à tela das emissoras de televisão.

Eu, como uma pessoa que vive com HIV, gostaria que notícias como essa destacassem que o perfil de transmissor intencional do HIV não é o perfil de todo o soropositivo. Não é o meu perfil e sei que não é o da esmagadora maioria das pessoas que vivem com HIV. Mas, se existem pessoas que transmitem propositalmente o HIV, é natural que virem notícia, mesmo que estes sejam uma minoria, um grupo extremamente restrito. Não é preciso que seja atitude de uma maioria para que algo vire notícia. Não é isso o que estabelece a relevância e a seleção dos editores para o que vai ou não para a capa dos jornais. Ao contrário: uma das medidas para algo virar notícia é o inesperado, a exceção. Por isso, eu reconheço que o meu desejo de ter uma nota de rodapé que esclareça a generalização não é mais que vaidade, porque é desnecessário.

É evidente que os soropositivos do “clube do carimbo” não representam todos os soropositivos. Assim como é evidente que o Estado Islâmico não representa os muçulmanos de todo o mundo. Que os indianos que estupram mulheres não representam todos os seus conterrâneos. Que os policiais truculentos não representam todos os policiais. E assim por diante. Tendo o bom senso como medida, não é preciso sempre esclarecer a generalização. Seria chato demais sempre ler e assistir notícias assim. O evidente não preciso ser sempre dito. Para você, um leitor com algum esclarecimento, repetir o que é óbvio não é um insulto à sua inteligência?

Estes soropositivos que transmitem intencionalmente o HIV não cuidam da própria saúde?

Uma eventual generalização ou a falta de uma nota de esclarecimento não torna as notícias sobre o “clube do carimbo” ruins ou incompletas. O que faz delas notícias ruins e incompletas são outras razões, que não a generalização. Uma boa notícia sobre qualquer tema responde às perguntas: o quê?, quem?, quando?, onde?, como? e por quê? No que tem sido noticiado sobre o “clube do carimbo”, faltam respostas para duas dessas perguntas. A primeira é como? Qualquer pessoa com um entendimento mínimo sobre HIV/aids faria uma pergunta que foi deixada para trás, negligenciada. Nenhum dos veículos de imprensa, até agora, se preocupou em questionar: afinal, estes soropositivos que transmitem intencionalmente o HIV não cuidam da própria saúde?

Jornalismo cientiífico

O tratamento antirretroviral é o tratamento essencial para todo soropositivo manter-se vivo e saudável. Sem ele, estamos literalmente mortos. Comparado ao tratamento disponível no começo da epidemia, hoje esse tratamento é simples e eficaz. Quando feito de maneira consistente, é capaz de reduzir a quantidade de vírus no sangue, a carga viral, até um nível indetectável, mesmo nos exames mais precisos de laboratório. Segundo o último Boletim Epidemiológico do Ministério da Saúde, 78% das pessoas que vivem com HIV e fazem tratamento antirretroviral no Brasil apresentam esse perfil: carga viral indetectável.

“Não existe, na história da epidemia, um único caso registrado de transmissão do HIV a partir de quem foi diagnosticado, faz tratamento e tem carga viral indetectável.”

Uma das consequências do tratamento e da carga viral indetectável é que o risco de transmissão do HIV é reduzido em pelo menos 96%, mesmo em caso de falha no uso da camisinha. Esse número é uma estimativa matemática, baseada em estudos que reuniram, até agora, mais de 9 mil casais sorodiscordantes — quando só um dos parceiros é positivo para o HIV — e que optam, deliberada e consensualmente, por não fazer uso consistente do preservativo. Nesses estudos, nunca foi documentado um único caso sequer de transmissão do HIV a partir de quem é soropositivo, faz tratamento antirretroviral e tem carga viral indetectável. “Não existe, na história da epidemia, um único caso registrado de transmissão do HIV a partir de quem foi diagnosticado, faz tratamento e tem carga viral indetectável. Simplesmente isso não foi documentado na literatura médica até hoje”, explica o Dr. Esper Kallás, médico infectologista. “Ou seja: o controle da carga viral no sangue também controla a carga viral nas secreções genitais.”

Incluir essa informação a respeito da redução na transmissibilidade dentro do que tem sido noticiado sobre o “clube do carimbo” é muito importante, porque, se algum dos soropositivos desse clube faz tratamento antirretroviral, tem carga viral indetectável e, mesmo assim, transmitiu o HIV, será o primeiro caso na história da epidemia. É muito importante que este caso seja verificado e documentado porque isso pode mudar o curso mundial da política de prevenção de HIV/aids.

Consensos médicos americano, britânico, canadense e sueco, entre outros, já atualizaram suas diretrizes de tratamento e prevenção com base no que tem sido observado até então. Nesses consensos, o uso correto e consistente da camisinha continua fundamental. Entretanto, é importante saber que, em caso de falha em seu uso, os antirretrovirais também têm um papel de enorme importância na prevenção da transmissão do HIV. As últimas orientações sobre prevenção da transmissão com soropositivos publicadas pelos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) americano, por exemplo, já incluem recomendações sobre a relação sexual desprotegida programada, como uma alternativa segura para casais sorodiscordantes que desejam ter filhos. Para os britânicos, quem é exposto aos fluidos de uma pessoa com carga viral indetectável não precisa fazer profilaxia pós-exposição (PEP), a medida emergencial de prevenção ao HIV que pode ser adotada em até 72 horas a contar de uma possível exposição ao vírus.

No último mês, a Unaids divulgou uma nota celebrando as últimas evidências na redução da transmissibilidade oferecida pelos antirretrovirais; uma delas, observada num estudo africano, conduzido recentemente no Quênia e Uganda e que reuniu 1.013 casais sorodiscordantes. Neste estudo, também não foi documentado um único caso sequer de transmissão a partir do parceiro positivo para o HIV que estava em tratamento e tinha carga viral indetectável.

Por que alguém negligenciaria a própria saúde para transmitir uma doença incurável?

Se as estimativas científicas e os consensos médicos de vários países estão corretos, o mais provável é que, se ocorreu alguma transmissão a partir de um integrante do “clube do carimbo”, este indivíduo precisou, antes, negligenciar a própria saúde, recusando o tratamento que é essencial para manter-se vivo — o coquetel antirretroviral. Nesse caso, não muda o fato de que houve transmissão intencional do vírus, o que é abominável. Mas fala algo importante a respeito do indivíduo envolvido na história, causador da transmissão, e suscita a segunda pergunta não respondida no que tem sido noticiado a respeito do “clube do carimbo”: por que alguém negligenciaria a própria saúde para transmitir uma doença incurável?

Na televisão, frente a frente com pessoas que assumem ser “carimbadores”, o repórter não fez essa pergunta. Uma dessas pessoas afirma “ter o vírus controlado”, fazendo presumir que faz tratamento adequado e o que levanta outra pergunta não respondida no que tem sido noticiado: será que de fato ocorreram transmissões intencionais a partir de indivíduos como este ou houve o desejo de transmitir, sem a sua concretização? Embora as duas sejam atitudes repudiáveis, a primeira consiste no ato consolidado e não apenas o desejo de cometê-lo. Se de fato houve a concretização de uma transmissão intencional, temos o perfil muito nítido de alguém que negligencia a própria saúde e então viola o preservativo sem o consentimento do parceiro, com a intenção de transmitir o vírus.

Se indivíduos com o perfil do “clube do carimbo” existem, eles certamente não são responsáveis pela maior parte das transmissões de HIV. Em 2009, 91,5% das infecções que ocorreram nos Estados Unidos foram adquiridas a partir de pessoas que não sabiam ter HIV ou que não estavam em tratamento antirretroviral, de acordo com uma análise dos dados de transmissão daquele país, publicada no jornal Jama Internal Medicine. Comparadas com portadores do HIV não diagnosticados, as pessoas diagnosticadas mas sem acompanhamento médico se mostraram 19% menos propensas a transmitir o HIV, enquanto pessoas com carga viral indetectável se mostraram 94% menos propensas a transmitir o HIV.

Segundo a Unaids, “a epidemia de HIV é nutrida pelas infecções por HIV não diagnosticadas e não pelas pessoas que conhecem seu status positivo para o HIV.” A organização também divulgou hoje uma nova nota, em que “expressa preocupação com as recentes notícias divulgadas na imprensa sobre possíveis casos de transmissão intencional do HIV, considerando seu impacto no aumento do estigma e preconceito relacionados ao HIV e as pessoas que vivem com o vírus. O papel da imprensa é o de informar e promover debate sobre as questões importantes para a sociedade. Portanto, convidamos a imprensa e toda a sociedade a discutir a questão do HIV de forma clara e imparcial, sem estigmas ou preconceitos.”

Atitude Abril

IGT

Proteção sem vacina


Por Carl Zimmer em 9 de março de 2015

No mês passado, um grupo de cientistas anunciou aquilo que pode vir a ser um enorme passo na luta contra o HIV. Pesquisadores do Scripps Research Institute afirmam ter desenvolvido um anticorpo artificial que, uma vez no sangue, é capaz de se agarrar ao vírus e desativá-lo. A molécula foi capaz de eliminar o HIV de macacos infectados e protegê-los de futuras infecções.

Esse tratamento não consiste numa vacina, em seu sentido comum. Ao levar genes sintéticos aos músculos dos macacos, os cientistas estão essencialmente reprogramando a genética dos animais para resistir à doença. Os pesquisadores estão testando essa nova abordagem não apenas contra o HIV, mas também o ebola, malária, influenza e hepatites.

“É algo que pode revolucionar o modo como nos imunizaremos contra ameaças de saúde pública no futuro.”

“O céu é o limite”, disse Michael Farzan, imunologista do Scripps e autor líder deste novo estudo. Farzan e outros cientistas estão cada vez mais esperançosos de que esta técnica possa servir como proteção duradoura contra doenças para as quais as vacinas falharam. O primeiro teste em humanos baseado nesta estratégia — chamada de imunoprofilaxia por transferência genética, ou IGT, na sigla em inglês — está a caminho e vários outros já estão planejados. “É algo que pode revolucionar o modo como nos imunizaremos contra ameaças de saúde pública no futuro”, afirma Gary J. Nabel, cientista chefe da Sanofi, empresa farmacêutica que produz uma vasta gama de vacinas.

IGT

Ainda não se sabe se o IGT será bem sucedido. Os pesquisadores ainda precisam calibrar sua segurança e eficácia em humanos. A ideia de reprogramar geneticamente as pessoas para resistir à doenças infecciosas pode levantar preocupações entre alguns pacientes. “A realidade é que estamos diante de algo nunca antes feito e isso vai exigir explicações”, disse o Dr. David Baltimore, premiado com o Nobel e virologista na Caltech, que está testando o IGT contra diversas doenças.

Vacinas convencionais estimulam o sistema imune a aprender a criar anticorpos, induzindo o corpo através de fragmentos moleculares, formas brandas ou mortas de patógenos. Nossas células imunes produzem então muitos anticorpos, alguns dos quais podem lutar contra essas infecções.

Em alguns casos, esses anticorpos produzem defesas fortes. A vacinação contra varíola e sarampo leva à uma proteção praticamente total. Entretanto, contra outras doenças, as vacinas convencionais nem sempre são suficientes para produzir anticorpos eficazes. O HIV, por exemplo, vem em tantas cepas distintas que uma vacina contra uma não iria proteger contra as outras.

O IGT é uma abordagem diferente da vacinação tradicional. Ao invés disso, é uma forma de terapia genética. Os cientistas isolam os genes que produzem anticorpos potentes contra certas doenças e então sintetizam-no em versões artificiais. Os genes são colocados dentro de vírus e injetados no tecido humano, em geral um músculo.

Dr. Michael Farzan

Dr. Michael Farzan, imunologista do Scripps Research Institute, ajudou a desenvolver um anticorpo artificial que desativou o HIV em macacos. Foto de Benjamin Rusnak para The New York Times.

O vírus invade as células humanas com sua carga de DNA e, assim, o gene sintético é incorporado ao próprio DNA do recipiente. Se tudo corre bem, os novos genes instruem as células a produzir anticorpos potentes. A ideia do IGT veio da luta contra o HIV. Algumas poucas pessoas têm anticorpos muito potentes contra o HIV. Os chamados “anticorpos com ampla capacidade neutralizante” podem travar diferentes cepas de HIV e evitar que infectem novas células.

O Dr. Philip R. Johnson, cientista chefe do Children’s Hospital of Philadelphia e virologista da Universidade da Pensilvânia, teve uma ideia: por que não tentar levar anticorpos com ampla capacidade neutralizante para todo mundo? Há algum tempo, ele e outros pesquisadores estavam experimentando a terapia genética para hemofilia. Acabaram descobrindo como carregar genes para dentro dos vírus e a persuadi-los a invadir as células. Ocorreu ao Dr. Johnson que talvez fosse possível usar esta estratégia para introduzir o gene de um potente anticorpo dentro da célula de um paciente. Uma vez que as células começassem a produzir anticorpos, o paciente estaria “vacinado” contra a doença.

A ideia representou uma mudança radical na direção da terapia genética. Até então, os cientistas vislumbravam curar distúrbios genéticos oferecendo genes funcionais no lugar dos deficientes. O IGT apontava outro caminho, protegendo pessoas saudáveis de doenças infecciosas. Mas não havia garantia de sucesso. O melhor vírus para enviar genes que o Dr. Johnson conhecia, funcionava apenas em células musculares — as quais geralmente não produzem anticorpos.

Em 2009, o Dr. Johnson e seus colegas anunciaram que a abordagem funcionou. Em seu experimento, eles tentaram proteger macacos contra o SIV, a versão primata do HIV. Para fazê-lo, usaram vírus para entregar poderosos genes nos músculos dos macacos, os quais produziram os anticorpos, tal como esperado. Os cientistas, então, infectaram os macacos com SIV. E descobriram que os macacos produziram anticorpos suficientes para protegê-los da infecção. Sem o IGT, os macacos com a mesma dosagem de SIV morreram.

O estudo do Dr. Johnson convenceu o Dr. Farzan que o IGT era promissor. “Eu abracei a ideia”, afirma. O Dr. Farzan e seus colegas têm modificado anticorpos contra o HIV a fim de produzir uma defesa potente contra o vírus. Enquanto isso, em 2011, o Dr. Baltimore e seus colegas mostraram que anticorpos enviados às células através de vírus conseguiram proteger ratos contra injeções de HIV, sugerindo que o IGT seria capaz de proteger pessoas do mesmo modo, isto é, por infecções decorrentes de agulhas infectadas, injeções de HIV.

“Estamos fazendo algo fundamentalmente diferente da vacinação, embora o resultado final seja bastante similar.”

Mas a maioria das infecções por HIV vêm através do sexo. Assim, o Dr. Baltimore e seus colegas infectaram com HIV uma rata, fêmea, através de sua membrana vaginal. No ano passado, eles documentaram que técnica também foi capaz de proteger o rato desta forma de infecção. “Estamos contornando o sistema imune, ao invés de tentar estimulá-lo”, disse o Dr. Baltimore. “Estamos fazendo algo fundamentalmente diferente da vacinação, embora o resultado final seja bastante similar.”

Gary W. Ketner, microbiologista da Johns Hopkins Bloomberg School of Public Health, ficou intrigado com os resultados do Dr. Baltimore e se perguntou se o IGT não poderia ser empacotado contra outra grave doença que escapa das vacinas: a malária.

 Dr. Philip R. Johnson

Dr. Philip R. Johnson, cientista chefe do Children’s Hospital of Philadelphia e virologista da Universidade da Pensilvânia, desenvolveu uma abordagem de levar anticorpos com ampla capacidade neutralizante para pessoas saudáveis. Foto de Jessica Kourkounis para The New York Times

Dr. Ketner, Dr. Baltimore e seus colegas descobriram um potente anticorpo contra a malária e usaram um vírus para levar seu gene a um rato. Em agosto do ano passado, eles documentaram que 80% dos ratos expostos à picadas do mosquito da malária estavam protegidos. “É muito animador”, disse o Dr. Ketner. “É um ótimo resultado para um método nunca antes testados, mas ainda precisa melhorar.” Agora, Ketner está pesquisando melhores anticorpos, capazes de prover melhor proteção em doses menores.

Esses experimentos sugerem que os anticorpos criados através do IGT podem ajudar contra doenças que há décadas resistem às vacinas. Outros estudos sugerem que o IGT também pode ajudar contra futuros surtos epidêmicos.

Dr. James M. Wilson, patologista da Universidade de Pensilvânia, e seus colegas estão experimentando o uso da terapia genética no tratamento de fibrose cística, levando genes às células dos pacientes através das vias respiratórias. Ocorreu ao Dr. Wilson que muitos dos vírus que se espalham rapidamente, como influenza e SARS, atacam as mesmas células. Em 2013, ele e seus colegas documentaram que vírus carregando genes de anticorpos através das vias respiratórias são capazes de fazer o sistema imune de ratos e furões combater diversas cepas de gripe. Desde então, eles vêm testando o IGT contra vírus epidêmicos mortais — incluindo ebola. O Dr. Wilson e seus colegas se juntaram à Mapp Biopharmaceutical, empresa que desenvolveu um anticorpo contra o ebola, chamado de ZMapp. Os cientistas sintetizaram um gene para o anticorpo ZMapp e levaram-no até o músculo dos ratos. O experimento está nos estágios iniciais, mas já mostra “resultados animadores”, segundo o Dr. Wilson.

“Estamos otimistas. Estamos esperançosos.”

Para o Dr. Johnson, o interesse crescente no IGT é gratificante. “Está em voga, mas certamente não é moda”, disse ele. E isso deve mudar, em breve. Em fevereiro do ano passado, o Dr. Johnson começou o primeiro ensaio clínico do IGT em humanos. Seu time de pesquisadores levou genes de anticorpos contra o HIV aos músculos de voluntários, para verificar se o tratamento é seguro. Os cientistas esperam terminar de colher os resultados nos próximos meses. “Estamos otimistas. Estamos esperançosos.”

O Dr. Baltimore está colaborando com os National Institutes of Health (NIH) para começar um ensaio clínico similar, com um IGT que carrega um vírus capaz de lutar contra o HIV. O Dr. Wilson está preparando um estudo clínico do IGT contra a gripe até o final deste ano.

Não há qualquer garantia que o sucesso nestes testes em animais seja replicado em humanos. “Humanos não são ratos gigantes”, afirma o Dr. Ronald G. Crystal, presidente de medicina genética no Weill Cornell Medical College. O sistema imune humano pode atacar anticorpos artificiais ou mesmo os vírus que os entregam, destruindo a proteção que eles trazem. Talvez, as células musculares produzam anticorpos demais, uma vez que elas não têm a mesma regulação que as células do sistema imune.

O Dr. Farzan e outros cientistas estão pesquisando interruptores moleculares capazes de desligar a produção de anticorpos ou ajustar sua dosagem. “Se queremos ver essa abordagem florescer, precisamos de interruptores reguladores”, disse ele. Apesar das preocupações remanescentes a respeito do IGT, o Dr. Nabel continua otimista. “Existem preocupações a respeito de segurança que precisamos levar em conta, mas há caminhos lógicos para abordar essas questões.”

“Como cientista, acredito que é nossa responsabilidade estudar aquilo que acreditamos que vai mudar alguma coisa.”

Bioéticos não veem grandes embates éticos diante do IGT, porque trata-se de terapia genética, algo que tem sido desenvolvido por mais de 30 anos. “Não me parece que é um ponto de partida radical”, disse Jonathan Kimmelman, professor associado da McGill University. Ainda assim, o Dr. Baltimore acredita que algumas pessoas desconfiem de uma estratégia de vacinação capaz de alterar o próprio DNA, mesmo que isso as proteja de uma doença potencialmente fatal. “Como cientista, acredito que é nossa responsabilidade estudar aquilo que acreditamos que vai mudar alguma coisa.”


Camisinha

Prevenção sem preconceito

Brasil Post

91,5% das 45 mil novas infecções em 2009, nos Estados Unidos, foram adquiridas a partir de pessoas que não sabiam ter HIV ou que não estavam em tratamento antirretroviral, de acordo com uma nova análise dos dados de transmissão daquele país, publicada no jornal JAMA Internal Medicine. Para efeito comparativo, em 2009 o Brasil teve 39.364 casos notificados de HIV/aids e acumulava aproximadamente 580 mil.

Nos Estados Unidos, em 2009, havia 1.148.200 pessoas vivendo com HIV. 18,1% destas, não diagnosticadas. 45,2% eram diagnosticadas mas não estavam sob acompanhamento médico. 4,1% estavam sob cuidado médico mas não estavam em tratamento antirretroviral. 7,2% estavam sob tratamento antirretroviral mas não tinham supressão virológica, portanto tinham vírus detectável no sangue, enquanto 25,3% tinham o vírus suprimido, a carga viral indetectável — o que quer dizer que a quantidade de vírus no sangue é tão baixa que não pode ser detectada nos exames de laboratório e, consequentemente, o risco de transmissão do HIV a partir destas pessoas pode ser próximo de zero. Nesse estudo, comparadas com pessoas portadoras do HIV não diagnosticadas, as pessoas diagnosticadas mas sem acompanhamento médico se mostraram 19% menos propensas a transmitir o HIV, enquanto pessoas com carga viral indetectável se mostraram 94% menos propensas a transmitir o HIV.

“É muito claro que aqueles que foram diagnosticados e estão em tratamento não estão espalhando o vírus.”

“É muito claro que aqueles que foram diagnosticados e estão em tratamento não estão espalhando o vírus”, diz Mathew Rodriguez, editor do portal TheBody.com, especializado em notícias sobre HIV/aids. Segundo ele, as conclusões desse estudo devem ajudar a determinar o público-alvo da profilaxia pré-exposição (PrEP), que nada mais é que o uso de um antirretroviral, como o Truvada ou Tenofovir, em pessoas soronegativas consideradas sob risco de infecção, como alternativa de prevenção do HIV. É como se fosse uma pílula anticoncepcional que, ao invés de prevenir a gravidez, previne o HIV.

Truvada

86% é o resultado da eficácia da PrEP no “mundo real”, longe dos laboratórios, observada em dois diferentes estudos, Ipergay e Proud. A eficácia no mundo real é diferente da proteção oferecida pelo medicamento em situação ideal de tratamento, a qual, aferida em laboratório, é de 99%. Os dois estudos foram divulgados na Conference on Retroviruses and Opportunistic Infections (CROI) de 2015, que aconteceu agora, no final de fevereiro, em Seattle.

No Ipergay, 400 homens gays e mulheres transexuais que fazem sexo com homens e que estavam sob alto risco de infecção pelo HIV receberam comprimidos de Truvada ou placebo. Dois comprimidos deveriam ser tomados entre um dia à até 2 horas antes de praticarem uma relação sexual. Se o ato sexual fosse de fato consumado, outro comprimido deveria ser tomado, 24 horas após o sexo, e mais outro, 48 horas depois do sexo. A PrEP cobriria um total de dois a três dias. Se mais atos sexuais fossem praticados, o mesmo protocolo deveria ser seguido. Todos os participantes também receberam aconselhamento sobre redução de risco sexual, preservativos, vacinas para hepatites A e B e realizaram testes de HIV e outras doenças sexualmente transmissíveis (DST) a cada três meses. Dois participantes que estavam no grupo que recebia Truvada e 14 dos que recebiam placebo foram contaminados. Os dois participantes contaminados no primeiro grupo tinham abandonado a PrEP durante o estudo e foram contaminados depois disso.

O Proud acompanhou 545 pessoas, entre homens gays, homens que fazem sexo com homens (HSH) e mulheres transexuais. Inicialmente, os participantes foram divididos em dois grupos: o primeiro recebeu PrEP de imediato e o segundo receberia PrEP somente ao final de um ano. Mas essa divisão foi suspensa. Quando os pesquisadores começaram a observar a ótima eficácia da PrEP entre os participantes que já a recebiam, considerou-se antiético manter o segundo grupo exposto ao risco de contrair o HIV. Em geral, a adesão dos participantes à PrEP foi boa. Foram observadas três infecções pelo HIV, em participantes que não estavam tomando PrEP no período de suas contaminações. O estudo Proud deve continuar, agora com 5 mil participantes.

Acreditava-se que a eficácia da PrEP no mundo real seria muito diferente da proteção oferecida pelo medicamento numa situação ideal. O Ipergay e o Proud foram importantes para mostrar que essa preocupação não tem fundamento. Nos dois estudos, o hábito de usar ou não a camisinha não foi consideravelmente alterado, o que desmistifica argumentos contrários ao uso da PrEP, como o de Michael Weinstein, presidente da Aids Healthcare Foundation, que chegou a dizer que “se houvesse uma alternativa melhor do que a camisinha, estaria de acordo. Mas o Truvada não é isso. Sejamos honestos: é uma droga para fazer festa.”

“Será que o trauma do HIV não estaria nos impedindo de considerar objetivamente esta alternativa de prevenção?”

A fala de Weinstein despertou reações entre ativistas e fez lembrar o discurso de Carl Sandler, designer de sites para o público gay, como Gay.com, Daddyhunt.com e do aplicativo de encontros Mister. “Quando se trata da saúde reprodutiva de heterossexuais, homens e mulheres têm muitas opções para evitar a gravidez indesejada, do preservativo à pílula do dia seguinte. A PrEP não é nem melhor nem pior do que os preservativos; é apenas uma estratégia diferente, que pode proteger algumas pessoas em alguns momentos de suas vidas”, pondera ele. “A epidemia de HIV já nos traumatizou com a perda de pessoas queridas. Esse trauma é evidente em nossa vergonha em torno da doença e nos nossos preconceitos contra nossos irmãos e irmãs soropositivos. Será que o trauma do HIV não estaria nos impedindo de considerar objetivamente esta alternativa de prevenção?”

O Partners Demonstration Project (PDP), outro estudo sobre a PrEP também divulgado na CROI, trouxe mais evidências. Um pouco diferente dos estudos anteriores, foi conduzido no Quênia e Uganda e reuniu 1.013 casais sorodiscordantes — isto é, quando só um dos parceiros é positivo para o HIV. Só foram escolhidos casais sob alto risco de infecção, calculado matematicamente, com base num algoritmo que leva em conta idade mais jovem (20% das pessoas no estudo têm menos de 25 anos), menos filhos, ausência de circuncisão se o parceiro soronegativo é do sexo masculino, coabitação em vez de casamento, frequência de sexo desprotegido e carga viral média do parceiro soropositivo.

Nesse estudo, oferecia-se PrEP ao parceiro soronegativo enquanto o parceiro soropositivo não estivesse em tratamento antirretroviral. Oferecia-se PrEP ao parceiro sem HIV conjuntamente ao tratamento antirretroviral para o parceiro com HIV somente durante os seis primeiros meses do início do tratamento do parceiro soropositivo, extensíveis caso fosse comprovada que a adesão do parceiro positivo ao tratamento era ruim. Não houve grupo de controle, para o qual é oferecido placebo, pois considerou-se que, uma vez que a evidência de eficácia da PrEP e do tratamento é reconhecidamente alta, seria antiético fazê-lo. Os resultados foram comparados com dados históricos, ajustados para o perfil dos participantes do PDP.

Durante o período estudado, em 48% dos casais o parceiro negativo estava tomando PrEP, em 27% ambos os parceiros estavam em PrEP ou tratamento antirretroviral, em 16% só o parceiro soropositivo estava tomando antirretrovirais e em 9% nenhum dos parceiros estava sob PrEP e nem sob tratamento antirretroviral. A adesão durante o estudo foi excelente: 91% e 84% dos parceiros soronegativos em PrEP, cujo parceiro positivo não começou o tratamento antirretroviral, mantiveram a PrEP por seis e doze meses, respectivamente. Dos parceiros soropositivos que iniciaram o tratamento, 90% atingiram supressão viral, a carga viral indetectável.

Considerando os dados históricos, eram esperadas 40 infecções entre os participantes, equivalente a 5,2%. No entanto, foram observadas apenas duas infecções, o que representa uma redução de 96%. Nenhuma das duas infecções aconteceu em um casal em que um ou ambos estavam tomando antirretrovirais, seja para PrEP ou tratamento. A primeira infecção se deu em uma mulher que se separou do parceiro soropositivo inscrito no estudo e, quando fez isso, suspendeu seu uso de PrEP. A segunda infecção se deu em outra mulher que também abandonou a PrEP — ela não tinha Tenofovir detectável em seu sangue quando foi infectada — e cujo parceiro soropositivo tinha contagem alta das células CD4 do sistema imune e não queria iniciar o tratamento antirretroviral.

É importante lembrar que no estudo PDP a redução de 96% nas infecções por HIV teve a mesma magnitude de estudos anteriores, como HPTN 052 e Partner, que também incluíram casais sorodiscordantes e onde não foi documentada qualquer transmissão do HIV. No entanto, no HPTN 052 e no Partner, só foram consideradas as infecções a partir de parceiros de dentro do estudo; infecções oriundas de parceiros fora do estudo ocorreram, mas, em virtude do objeto de estudo, foram desconsideradas na análise estatística final. A origem da infecção foi aferida por sequenciamento genético do HIV dos parceiros. No estudo PDP, a redução da transmissibilidade se aplica à todas as infecções, independentemente da fonte, o que inclui as infecções cuja origem não era o parceiro regular e nem inscrito no estudo, mas alguém fora dele.

“A PrEP é uma proteção contra um vírus detectável, não suprimido, e não contra uma pessoa que vive com HIV.”

Essa constatação é importante para mostrar a eficácia da PrEP na proteção contra o HIV, qualquer que seja a sua origem. “A PrEP te protege de uma coisa — um pequeno e adaptável vírus”, lembra Mathew Rodriguez. “Ela te protege de algo e não de alguém. A PrEP é uma proteção contra um vírus detectável, não suprimido, e não contra uma pessoa que vive com HIV.”

Os bons resultados sobre a eficácia da PrEP, observada nestes três estudos, excedeu a expectativa dos pesquisadores e animou a Unaids. Desde o ano passado, a recomendação da OMS é que a PrEP seja uma alternativa adicional de prevenção, especialmente para HSH. Canadá, Inglaterra e Estados Unidos, entre outros, já aprovaram o uso da PrEP. Depois do estudo PDP, o Quênia entrou para a lista e, agora, incluiu a PrEP em suas recomendações para prevenção do HIV.

No Brasil, a PrEP segue sendo estudada para avaliar a “aceitação, viabilidade e a melhor forma de oferecê-la à população brasileira como prevenção ao HIV.” Fazem parte da pesquisa o Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas da Fundação Oswaldo Cruz, no Rio de Janeiro, a Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) e o Centro de Referência e Treinamento em DST/Aids (CRT-DST/Aids) de São Paulo. Por enquanto, podem participar da pesquisa HSH, travestis e mulheres transexuais.

“O Brasil está preparado para ter PrEP.”

“Aqui no Brasil, já temos quase 500 voluntários tomando Truvada, em acompanhamento ao longo de 1 ano. Temos voluntários indo para a 36ª semana, num total de 48 semanas. Isso significa que estamos passando da metade do estudo e já podemos ver que, no ‘mundo real’ brasileiro, a PrEP parece funcionar tão bem quanto no resto do mundo. Nossos voluntários aprenderam bem rápido o que é, para que serve e como se usa o Truvada. O Brasil está preparado para ter PrEP”, conta Ricardo Vasconcelos, coordenador médico do PrEP Brasil no centro da FMUSP, em São Paulo, e quem gentilmente revisou esse texto.

 Camisinha

Com isso tudo, você pode estar se perguntando: por que tantas alternativas de prevenção, se existe a camisinha e ela é totalmente eficaz em prevenir o HIV? De acordo com testes laboratoriais, os preservativos, se usados de maneira correta, são 100% eficazes em prevenir o HIV e outras doenças sexualmente transmissíveis. No entanto, há um grande problema: nem todos fazem uso do preservativo consistentemente e, mesmo aqueles que afirmam fazer, nem sempre o fazem.

Na CROI de 2013 foi divulgada uma análise sobre a eficácia da camisinha para o sexo anal no mundo real, fora dos estudos controlados e laboratórios. Esta foi a primeira análise sobre o tema desde 1989. Pesquisadores dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), nos Estados Unidos, observaram retrospectivamente o uso de preservativos e os dados de infecção pelo HIV de dois estudos diferentes entre homens homossexuais soronegativos americanos: o estudo VAX004, o primeiro estudo sobre a eficácia de uma vacina contra o HIV, realizado entre 1998 e 1999, e o Explore, um dos maiores estudos sobre intervenção comportamental na transmissão do HIV, conduzido entre 1999 e 2001.

Nestes estudos, dois terços dos homens relataram usar preservativos com apenas uma falha a cada seis meses. 5% afirmaram nunca fazer uso do preservativo. 40% afirmaram ter épocas em que não faziam uso do preservativo. E 16,4% dos homens disseram fazer uso consistente do preservativo, usando-o 100% das vezes e sem qualquer falha.

Entre os homens do VAX004 que disseram ter usado preservativo com apenas uma falha a cada seis meses a segurança observada foi de 59% para o sexo anal, 63% para o sexo anal receptivo e 55% para o sexo anal insertivo. No Explore o resultado foi maior, com 86% para o sexo anal, 87% para o sexo anal receptivo e 76% para o sexo anal insertivo. Por que a grande diferença entre os dois estudos? O Explore foi uma intervenção comportamental, o que pode ter ajudado os participantes a usar melhor os preservativos, com menos acidentes, falhas humanas em seu uso. O VAX004 monitorou o uso do preservativo, mas não interveio.

Quem usa preservativo ocasionalmente está exposto quase ao mesmo risco que alguém que nunca usa o preservativo.

A constatação evidente é que muitas pessoas simplesmente falham em usar a camisinha ou não a usam do jeito certo. A análise do CDC também mostra que quem usa preservativo ocasionalmente está exposto quase ao mesmo risco que alguém que nunca usa o preservativo. No geral, homens que disseram que só às vezes usam preservativos se mostraram com apenas 4,4% menos chances de contrair o HIV do que os homens que nunca a usaram. É por isso que as campanhas de prevenção do HIV e uso da camisinha insistem: é preciso usar o preservativo sempre, 100% das vezes — uma mensagem que é repetida incansavelmente desde os anos 80.

Por que, mesmo assim, a camisinha não é usada sempre? Minha avó uma vez me disse que “quando se explica uma coisa várias vezes e, mesmo assim, o ouvinte perece não entender e faz o contrário, não perca tempo: encontre você mesmo uma solução.” Acho que os órgãos de saúde do mundo todo escutaram minha avó. Hoje, temos o tratamento antirretroviral, salvando vidas de quem tem HIV e funcionando também como prevenção. Temos a profilaxia pós-exposição (PEP), uma medida emergencial de prevenção ao HIV que pode ser adotada em até 72 horas a contar de uma possível exposição ao vírus. Em breve, se tudo der certo, teremos a PrEP também no Brasil. Ainda temos a camisinha. Sem preconceito com as alternativas de prevenção, podemos vencer o HIV.

Atitude Abril

HIV travel 2014

Quais são os países que ainda discriminam viajantes com HIV?

Brasil Post

Domingo, 1º de março, foi o Dia da Discriminação Zero, data que começou a ser celebrada em 2014. Neste ano, a Unaids aproveitou a data para divulgar um novo balanço dos países ou territórios que ainda restringem o tempo de estadia, impedem a entrada ou deportam viajantes com HIV.

Em 2008, eram 59 os países que impunham alguma restrição segregatória contra viajantes que vivem com HIV. Mas Austrália, China, Coreia do Sul, Estados Unidos, Mongólia e Uzbequistão, entre outros, abandonaram suas restrições e hoje esse número é menor, com 38 países.

Entre aqueles que ainda discriminam viajantes com HIV estão, nas Américas: Belize, Cuba, o nosso vizinho Paraguai e a República Dominicana. Na Europa: Bielorrússia e Lituânia. Na África: Ilhas Maurício e Sudão. No Oriente Médio: as únicas exceções são Turquia e Irã, enquanto todos os demais países da região impõem algum tipo de restrição. Na Ásia: Brunei, Coreia do Norte, Malásia, Rússia, Singapura, Taiwan e Turcomenistão. Na Oceania: Ilhas Salomão, Nova Zelândia e Papua Nova Guiné, entre outros países e territórios insulares da região.

Antes de comprar uma passagem para viajar, ainda temos que consultar sites como o HIV Travel. Mas a chance de não podermos seguir para o destino desejado é cada vez menor.

Atitude Abril

Opposites Attract

Opostos se atraem, não se contaminam

Opposites Attract

O estudo australiano Opposites Attract, “Opostos se Atraem” em português, é um estudo “global voltado exclusivamente para explorar uma série de questões importantes relacionadas à transmissão do HIV e à carga viral em casais de homens homossexuais sorodiscordantes. Pesquisas anteriores em casais heterossexuais mostraram que, quando o parceiro soropositivo está em tratamento contra o HIV e tem carga viral indetectável, o risco de transmissão do HIV para o parceiro soronegativo é reduzido em 96%. Agora, a próxima pergunta é: até que ponto esta importante constatação se aplica aos homens gays?”

A pesquisa acompanha a ideia de dois estudos anteriores, o HPTN 052, que acompanhou aproximadamente 1750 casais sorodiscordantes heterossexuais ao longo de 78 semanas, e o Partner, que acompanhou 767 casais sorodiscordantes, alguns dos quais homossexuais, entre setembro de 2010 e novembro de 2013. O HPTN 052 divulgou seus resultados em 2011. O Partner divulgou a análise preliminar de seus resultados em março de 2014. Em ambos os estudos, o casal sorodiscordante tinha o hábito de não usar camisinha consistentemente e o parceiro soropositivo estava sob tratamento antirretroviral. Durante o estudo Partner, os casais tiveram aproximadamente 44 mil atos sexuais sem preservativo. Isso incluiu 13.728 atos de sexo vaginal receptivo, 14.295 atos de sexo vaginal insertivo, 7.738 atos de sexo anal receptivo e 11.749 atos de sexo anal insertivo. Em ambos os estudos, entre os participantes do estudo com carga viral indetectável, não ocorreu qualquer transmissão do HIV.

Agora, chegou a vez do estudo australiano, Opposites Attract. Ele segue em andamento, mas seus dados preliminares foram divulgados ontem, durante a Conference on Retroviruses and Opportunistic Infections (CROI) de 2015. De acordo com ativistas e jornalistas presentes na apresentação, os casais inscritos, homossexuais e sorodiscordantes, praticaram até o momento 6 mil atos de sexo anal desprotegido — em mais 2 mil destes atos os parceiros positivos teriam sido os insertivos. Não ocorreram transmissões do HIV.

“Estes resultados são muito interessantes e parecem espelhar as conclusões de outros estudos internacionais importantes com casais heterossexuais, que forneceram uma forte evidência de que o tratamento como prevenção funciona”, disse o professor Andrew Grulich, pesquisador-chefe do estudo. “Essencialmente, o que estamos vendo entre os casais gays inscritos no Opposites Attract é que a transmissão do HIV é bastante improvável quando a carga viral de alguém é indetectável. Nenhum homem soronegativo no estudo contraiu o HIV de seu parceiro positivo.”

A análise estatística do HPTN 052 e do Partner concluiu que o risco de transmissão do HIV a partir de um parceiro soropositivo, em tratamento e indetectável pode ser reduzida em 96%. A análise estatística do Opposites Attract não foi concluída e, embora os resultados preliminares sejam promissores, os pesquisadores alertam que são necessárias mais evidências para entender melhor o risco envolvido em fazer sexo sem preservativo quando um parceiro soropositivo tem carga viral indetectável.

Aids cake

Feliz aniversário, Elisa!

Brasil Post

Foi em março de 1985 que a Food and Drug Administration (FDA) licenciou, nos Estados Unidos, o primeiro teste de anticorpos para o HIV, o Elisa. Faz 30 anos. O nome vem do termo em inglês enzyme-linked immunosorbent assay, ou imunoensaio absorvente ligado à enzima, um procedimento que detecta anticorpos ou antígenos numa amostra. No Brasil, esse teste também é chamado de “sorologia para o HIV” ou, mais simplesmente, é o teste de HIV.

No começo da epidemia, antes do desenvolvimento do Elisa para o HIV, o diagnóstico de aids se dava pelo aparecimento de doenças típicas de sistemas imunes deprimidos, senão totalmente devastados, como as lesões na pele causadas por sarcoma de Kaposi. Sem um teste que identificasse a presença do vírus no organismo, ninguém sabia se estava contaminado, se poderia transmitir a doença e se desenvolveria ou não a aids. O alívio que o teste proporciona para quem recebe resultado negativo, claro, nunca foi o mesmo de quem — assim como eu — leu “positivo” no papel do laboratório. Mas naquela época era pior. Receber o diagnóstico nos anos 80, que levava cerca de uma semana para ficar pronto, era uma sentença de morte certa e provavelmente muito sofrida.

“Fazer ou não fazer o teste era uma decisão torturante. A maioria das pessoas entendia que não havia nada que os médicos pudessem fazer para quem era diagnosticado positivo.”

“Fazer ou não fazer o teste era uma decisão torturante, uma vez que a maioria das pessoas entendia que não havia nada que os médicos pudessem fazer para quem era diagnosticado positivo”, lembra Laura Pinsky, assistente social cofundadora do primeiro local de testagem num campus universitário do mundo, em 1985, na Universidade de Columbia, em Nova Iorque, e ainda hoje dirigente da organização Gay Health Advocacy Project (GHAP). Num artigo publicado na Poz Magazine sobre o aniversário do Elisa, ela lembra que a única alternativa que poderia ser oferecida aos diagnosticados positivos era o Bactrim, um antibiótico eficaz contra pneumonia, doença oportunista que tirava a vida de muitos soropositivos. Sem grandes perspectivas de tratamento, muitos preferiam não saber sua condição sorológica para o HIV e, mesmo com o surgimento do Elisa, não faziam o teste.

O surgimento do Elisa permitiu identificar os estoques em bancos de sangue que eram positivos para o HIV e, assim, reduzir o número de infecções decorrentes de transfusões sanguíneas. Foi um passo muito importante porque, naquela altura, 9 mil pessoas haviam contraído o vírus por transfusão de sangue nos Estados Unidos. Entre 1980 e 2001, o Brasil teve 2178 casos notificados de transmissão de HIV por meio de transfusão. Se você também tem mais ou menos a mesma idade que o Elisa, deve se lembrar de Herbert de Souza, o Betinho, hemofílico, contaminado por transfusão. Ele lutava por um tratamento digno para os soropositivos. Faleceu em 1997, por complicações decorrentes da aids.

Em 2014 foram registrados no País apenas dois casos de transmissão por transfusão de sangue. Esse número decresceu acompanhando a melhora na precisão do Elisa. Hoje, um resultado positivo ou negativo num teste de HIV é um resultado seguro, desde que seja respeitado o período chamado de “janela imunológica”. Esse período diz respeito ao tempo entre o contágio, quando o vírus entra no organismo e estabelece a infecção, e o resultado diagnóstico seguro. Uma vez que o Elisa é um teste que detecta anticorpos e antígenos, é preciso que o organismo já tenha reagido à presença do vírus, produzindo os anticorpos contra ele, ou que o antígeno, que nada mais é que um pedacinho do vírus, seja encontrado. Conforme explica meu médico, o infectologista Dr. Esper Kallás, hoje o período da janela imunológica para o teste de HIV é de 30 dias, contados a partir da última relação sexual sem camisinha. (Então, se esqueceu da camisinha no Carnaval, você deve fazer ou repetir o teste de HIV no dia 18 de março.)

Esse período só é maior para quem fez profilaxia pós-exposição (PEP), uma alternativa de prevenção ao HIV após uma possível exposição ao vírus, adotada em casos de estupro, acidentes médicos e laboratoriais com material contaminado ou em alguns casos de falha no uso da camisinha. Consiste no uso de antirretrovirais que devem ser iniciados em até 72 horas a contar da possível exposição e mantidos rigorosamente ao longo de um mês. Nesse caso, os 30 dias da janela imunológica devem ser contados a partir do término da PEP.

“Não adianta aceitar como definitivo o resultado de um teste feito logo após a relação desprotegida”

“Não adianta aceitar como definitivo o resultado de um teste feito logo após a relação desprotegida”, afirma o Dr. Esper. “A quantidade de vírus pode ser insuficiente para apresentar um resultado preciso.” Uma pessoa só pode ser considerada soropositiva ou soronegativa se fizer o teste de HIV respeitando a janela imunológica. Se você fizer o teste antes disso, não é possível ter certeza se tem ou não HIV. Se fizer depois, pode estar plenamente seguro quanto ao resultado — desde que não tenha transado novamente sem camisinha! “Hoje, casos de falsos positivo e negativo são extremamente raros. Representam, em média, menos que 0,1% dos testes, em ambos os casos. Essa taxa é um pouco maior em situações de gravidez, infecção positiva para sífilis ou nos raríssimos casos de doenças reumatológicas e imunes.”

Aids cake

Diferentemente das primeiras décadas de aids, hoje quem recebe um diagnóstico positivo tem uma perspectiva de tratamento muito boa. Claro, não é a mesma coisa do que não ter o vírus. “Ainda há diferenças importantes entre alguém com HIV bem controlado e alguém sem HIV — se não houvesse diferença, nós não estaríamos buscando a cura”, explica o Dr. Joel Gallant, médico que cuida de pacientes com HIV em Santa Fé, Novo México, nos Estados Unidos, e tem um blog em que responde à perguntas de pacientes soropositivos. “Mesmo com o HIV bem controlado, você tem uma condição de saúde que é onerosa de ser tratada, que aumenta a inflamação crônica e a ativação imune. Você ainda tem DNA viral integrado no seu próprio genoma.”

Qualquer pessoa sã que vive com HIV gostaria de viver sem o HIV. Mas é possível, sim, viver muito bem com o vírus, normalmente, de maneira saudável e tomando apenas um comprimido por dia. Esse avanço é resultado da terapia antirretroviral combinada, o “coquetel”, uma das maiores conquistas da medicina na atualidade. “Com o tratamento antirretroviral, que veio em 1996, houve uma revolução. Passamos a ver o controle da multiplicação do vírus e o sistema imune se recuperando. O que parecia ser inexorável, cedeu. As longas filas de macas de pacientes com aids nos prontos-socorros foram reduzindo drasticamente. A qualidade de vida das pessoas que viviam com o vírus voltou”, conta o Dr. Esper.

Com o tratamento, a quantidade de vírus no sangue — chamada de “carga viral” –, que pode chegar aos milhões no começo da infecção, cai para um nível indetectável. Enquanto for mantido o tratamento, o vírus não consegue se multiplicar e morre, persistindo apenas de maneira dormente, inativa, escondido no material genético das células de memória do sistema imune. É o meu caso e de 78% das pessoas que fazem tratamento para o HIV no Brasil: temos carga viral indetectável.

“Do ponto de vista do prognóstico e expectativa de vida, pessoas com carga viral indetectável e contagem normal de CD4 têm mais em comum com soronegativos do que com pessoas com uma infecção não tratada de HIV”

“Do ponto de vista do prognóstico e expectativa de vida, pessoas com carga viral indetectável e contagem normal de CD4 têm mais em comum com soronegativos do que com pessoas com uma infecção não tratada de HIV”, afirma o Dr. Gallant. Sem a presença do vírus no sangue e nos fluídos corporais, o organismo pode restaurar a saúde, restabelecendo as células CD4 do sistema de defesa, as mais afetadas pela infecção do HIV. Nos últimos anos, a expectativa de vida de quem vive com HIV e faz tratamento praticamente se igualou à de pessoas soronegativas. Adultos infectados pelo HIV e que cuidam da saúde têm doenças relacionadas ao envelhecimento em idades semelhantes aos adultos não infectados. Nada disso seria possível sem que as pessoas tomassem consciência da sua saúde, fazendo o teste de HIV.

Hoje, não é preciso mais temer tanto o teste. Pelo menos, não tanto quanto no começo da epidemia. O teste rápido, nacionalizado no Brasil em 2008, permite obter o resultado em minutos. Em breve, o teste rápido por fluído oral, que pode ser feito em casa, deve chegar nas farmácias de todo o País. É preciso ter consciência que fazer o teste é bom para a sua saúde e ajuda a controlar a epidemia no mundo.

Atitude Abril

NIH

Uma parte da cura


Beneficiados por incentivo do NIH conseguem matar células infectadas pelo HIV trazidas dos esconderijos

Um dos principais obstáculos para a cura das pessoas infectadas pelo HIV é a forma como o vírus se esconde num reservatório formado principalmente por células imunes e dormentes, chamadas de células T CD4+ de memória. Uma potencial abordagem para curar a infecção pelo HIV é despertar essas células T CD4+ latentes para que elas comecem a produzir as proteínas do HIV. Isto iria alertar ao sistema imune que estas células são infectadas, e, em teoria, gerar uma resposta imune que as mataria. Tem sido pouco claro, no entanto, se os mecanismos imunológicos típicos para matar células infectadas com vírus iriam eliminar as células T CD4+ infectadas com HIV despertadas do reservatório.

Para responder à esta pergunta, o Dr. Robert F. Siliciano, PhD do Instituto Médico Howard Hughes e da Escola de Medicina da Universidade Johns Hopkins, e seus colegas, beneficiados por apoio do NIH, extraíram células imunes e HIV dos reservatórios virais de 25 pessoas infectadas para estudá-las no laboratório e em ratos geneticamente modificados. Dez dessas pessoas tinham começado a terapia antirretroviral precocemente (dentro de 3 meses da infecção) e 15 tinham começado tarde (3 meses ou mais após a infecção). No grupo precoce, os cientistas descobriram que a maioria das células T CD4+ infectadas pelo HIV nos reservatórios virais foram sensíveis à detecção por células T assassinas, as células do sistema imunológico que procuram e destroem células infectadas. Em contraste, quase todo o HIV que infectou as células T CD4+ nos reservatórios do grupo tardio tinham desenvolvido mutações que permitiram que as células T CD4+ infectadas escapassem à detecção das células T assassinas, que normalmente dominam a resposta imunitária à infecção pelo HIV.

Apesar disso, os cientistas descobriram que a maioria das pessoas infectadas pelo HIV no grupo tardio também tiveram outras células T assassinas que reconheceram partes do HIV que não tinham sofrido mutação, mas estas células foram ineficazes em destruir seus alvos. Para aumentar a capacidade de morte destas células, os investigadores estimularam-na com uma mistura de fragmentos de proteína de HIV antes de expô-las à partes não mutadas do vírus. As células impulsionadas eficazmente mataram as células infectadas pelo HIV, tanto no laboratório quanto nos ratos geneticamente modificados para ter sistemas imunes humanos. Isto sugere que uma vacina terapêutica que estimula uma resposta semelhante de célula T para o HIV pode vir a ser parte de uma estratégia para a cura de infecção crônica pelo HIV.