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Quem são os indetectáveis?

“HIV indetectável” é a condição de todos aqueles que, um dia diagnosticados positivos para o HIV, atingiram a supressão do vírus no seu organismo, graças ao uso dos medicamentos antirretrovirais, o “coquetel” anti-HIV. É o meu caso e de 76% dos brasileiros que vivem com HIV e fazem uso da terapia antirretroviral; mas qualquer um que for diagnosticado positivo para o HIV pode chegar lá: basta tomar esses remédios de maneira consistente.

Em geral, o coquetel é composto por três remédios, mas já são combinados num único comprimido que pode ser tomado apenas uma vez ao dia, geralmente antes de dormir, e com poucas chances de causar efeitos colaterais. Os antirretrovirais atuais funcionam tão bem que a quantidade de vírus presente no sangue de quem é diagnosticado positivo para o HIV é reduzida até não poder mais ser detectada, mesmo nos exames mais precisos de laboratório. Por isso, indetectável.

Quem é HIV indetectável tem a sua “função imunológica não-comprometida, expectativa de vida normal e um risco negligenciável de transmitir sexualmente o vírus”, tal como explica a organização canadense Aids Vancouver, que quer ajudar a disseminar o termo HIV indetectável, informando as pessoas sobre o que isso quer dizer.

A maioria das pessoas não sabe, mas quem mais ajuda a controlar a epidemia de HIV/aids no mundo são aqueles que fazem o teste de HIV e, se este vier positivo, iniciam o tratamento antirretroviral, tornando-se indetectáveis. Como ainda é muito difícil enfrentar o diagnóstico positivo para o HIV e todo o imaginário associado ao vírus, é preciso de muita força e coragem. No fim, tornar-se indetectável é um ato heroico e, por isso, a organização nova-iorquina Housing Works começou agora uma campanha baseada em uma história em quadrinhos, com os super-heróis “Os Indetectáveis”.

Os heróis são a Defensora Implacável, o Redutor de Danos, o Guerreiro do Gênero e o jovem Terrence Powers, recém agregado ao grupo. A missão deles é combater e acabar com a aids. Para isso, buscam a aderir consistentemente ao tratamento antirretroviral, capaz de reduzir a quantidade de vírus no sangue até o indetectável – e recrutam outras pessoas diagnosticadas positivas para fazê-lo também. Entretanto, há um terrível obstáculo: os vilões Medo, Depressão e Negação, membros da gangue do misterioso gênio do mal, Estigma.

A campanha da House Works faz parte do compromisso de alcançar um estado livre da aids, em 2020. Para isso, quer apoiar cada vez mais pessoas soropositivas na comunidade nova-iorquina e capacitá-los a perceber os benefícios da terapia antirretroviral, incluindo prêmios no valor de 100 dólares a cada exame trimestral, para quem atingir o indetectável.

“Queríamos criar uma campanha encorajadora, atraente, divertida e muito diferente dos materiais de divulgação de cuidados de saúde convencionais, especialmente aqueles relacionados ao HIV/aids. Queríamos falar sobre HIV e supressão viral a partir de um ângulo positivo, mudando de ‘vítima’ para ‘herói’. Se você é soropositivo, mas se tornar e permanecer indetectável, você tem um papel fundamental em acabar com a epidemia. Não é fácil, você tem que superar inúmeros desafios. É realmente um esforço heroico”, disse Michael Clarke, diretor criativo da campanha.

Evidentemente, para aumentar a quantidade de pessoas indetectáveis é preciso, primeiro, aumentar o número de testes realizados. É o que vem sendo feito no Reino Unido: 76% dos soropositivos foram diagnosticados, dos quais, 90% está em tratamento antirretroviral e, graças à enorme eficácia desses medicamentos, 90% deles está indetectável. Isso é próximo da meta “90 90 90″, proposta pela Unaids, que diz respeito ao objetivo de diagnosticar pelo menos 90% dos soropositivos, colocar 90% deles em tratamento antirretroviral e atingir supressão viral em 90% deles. Em São Francisco, o aumento do número de testes de HIV já mostrou resultados: novos casos de incidência de HIV caíram de 18% para menos de 5%, entre 2004 e 2011.

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Esqueça tudo o que você sabe sobre HIV

Brasil Post

Meu pseudônimo, Jovem Soropositivo, acaba de fazer aniversário, em 18 de outubro. Escolhi essa data porque me pareceu lógico que ela devesse coincidir com a de meu diagnóstico, que se deu em 18 de outubro de 2010, mas levasse o ano verdadeiro do meu nascimento, 1984. Novo aniversário, mesma idade. Assim, acabo de fazer 30 anos de idade e, de acordo com a lei, deixo de ser jovem. Também deixo de ser um jovem na vida de soropositivo, pois já são quatro anos desde o diagnóstico! Não sou mais um jovem soropositivo, nem um soropositivo jovem.

Mas mais importante do que jovem ou não-jovem é o soropositivo. Por alguma razão, é o que chama mais atenção no meu pseudônimo. A verdade, porém, é que não me identifico mais com esse nome também. Não, não estou curado. Infelizmente. Continuo com HIV, mas o que vejo é que essa designação não serve mais de nada. Não me sinto diferente por ter HIV. Sei que não transmito o HIV, pois, quase involuntariamente, tomo os cuidados mais que necessários para não ser um transmissor. Não me incomodo mais em fazer os exames trimestrais. Sequer me lembro do vírus, mesmo na hora de tomar os antirretrovirais de cada dia. É tudo automático, simples e sem efeitos colaterais. Por isso, também, não me reconheço como uma “pessoa vivendo com HIV/aids”, ou PVHA, termo outorgado pelos ativistas para fazer lembrar que estamos vivendo, e o mais apropriado a ser usado em publicações, pelo governo e pela imprensa, a fim de que não nos ofendam ao se referir a nós.

Mas eu não sou ativista. E posso dizer que acho essa conversa sobre termos corretos uma grande balela. Preto ou negro, caucasiano ou branco, puta, prostituta ou profissional do sexo, gay ou homossexual, soropositivo, portador de HIV ou PVHA, não muda nada. São, sim, um grande engodo da era do politicamente correto, que tenta mascarar o estigma e o preconceito velados em diversas áreas por detrás de títulos que são nada além de mais bonitos. Nomes devem ser usados para fazer distinções úteis e nenhum desses acima é hoje eficiente nessa matéria.

Em algum momento no passado, PVHA foi útil. Fez lembrar às pessoas que quem tem HIV não está mais morrendo, tal como ocorria no início da epidemia, quando todos acabavam descriminados como “aidéticos”, pois inevitavelmente terminavam desenvolvendo a aids. Entretanto, há algumas décadas este não é mais o caso. Estamos, todos nós que nos cuidamos com antirretrovirais, vivendo muito bem, obrigado, e de forma saudável, já há algum tempo.

Hoje, quatro anos depois do meu diagnóstico, percebo que a trajetória de quem recebe o diagnóstico positivo para o HIV não é mais uma trajetória de superação do vírus — este, já está controlado. Ao invés disso, quem recebe agora o diagnóstico positivo para o HIV, encara uma trajetória de superação de um medo, o qual sequer precisaria existir mais. Esse medo não está diretamente ligado ao que o vírus é capaz de fazer, biologicamente, mas à representação imaginária que ele ganhou.

O HIV nos é apresentado com uma aura terrível, cruel e negativa. Um fardo a ser carregado pelo resto da vida. Um vírus de culpa e vergonha, por ter falhado, por ter feito sexo, pouco ou muito, vaginal ou anal, sem camisinha. Pior, quando nós, soropositivos, tomamos consciência da nossa transmissibilidade, percebemos que este é um vírus que tem o poder de trazer rejeição social ao seu portador. Também aprendemos que a camisinha previne totalmente o HIV, mas não por isso é capaz de evitar a discriminação.

Com isso tudo, quem é diagnosticado positivo para o HIV tem medo de ter diante de si uma inescapável vida de suplício. Medo de ser visto como diferente. Indo mais além, medo de que se esqueçam que são humanos. De onde vem tamanho peso?

Desde o século XIV, quando um navio se aproxima da costa trazendo pessoas com alguma doença que apresenta risco de transmissão, hastea-se uma bandeira amarela, que sinaliza o risco de contágio à bordo. É declarada a quarentena. Esse nome não tem origem na sua caixa postal de e-mail, onde ficam guardadas as mensagens spam, mas de quaranta giorni, que em italiano quer dizer 40 dias; embora hoje refira-se também ao isolamento imposto a portadores de algumas doenças transmissíveis durante qualquer que seja o período de transmissibilidade desta.

É o que vem sendo feito no caso do ebola. Enquanto você lê esse texto, pelo menos um bairro inteiro está sob quarentena na Libéria, assegurada pelo exército daquele país, que tem autorização para matar a tiros quem violar o perímetro demarcado por portões, barricadas e fios de arame enfarpado. Ali dentro, a comida e a higiene são escassas e os corpos dos defuntos, altamente transmissores do vírus, são empilhados lado a lado. Separar os doentes, mesmo que em condições desumanas, parece ser o mais humano a se fazer. Tal e qual Ensaio sobre a Cegueira.

Essa mesma prática se deu no século XVII, com os infectados pela peste na Europa, e no século passado, com os portadores de hanseníase, isolados por anos e anos em leprosários. Em Vigiar e Punir, Michel Foucault lembra que quem estava lá dentro era “excluído, separado e estigmatizado. Jogado, juntamente com seus irmãos sofredores, numa massa indiferenciada”. O Dr. Esper Kallás, meu médico, explica que “no caso do Ebola, isolar uma região inteira parece não funcionar. Ao contrário, pode piorar a situação, pois as pessoas começam a deixar o local ‘ilegalmente’, tornando o controle da epidemia ainda mais difícil.”

Mesmo que a quarentena coletiva não seja eficaz, nem útil e até contraprodutiva em alguns casos, ela tem um apelo imaginário muito forte. Traz a sensação de poder e controle sobre a doença — e sobre o doente — e também um sentimento de segurança para a população, completamente ignorante a respeito de controle epidemiológico e riscos de transmissão. Libéria, Guiné e Serra Leoa são os únicos países do mundo que atualmente sofrem com a epidemia de ebola e, por isso, viajantes oriundos destes três pequenos países do oeste africano já estão sujeitos à restrição de entrada nos Estados Unidos e em alguns países latino-americanos. No Brasil, onde não foi imposta a restrição de viajantes, a Anvisa mantém estado de alerta em portos e aeroportos.

Ainda que a epidemia de ebola esteja geograficamente delimitada e sejam bem conhecidas as formas de contágio deste vírus, o medo, mesmo infundado, prevalece: qualquer um que viaje para qualquer país da África ou que se pareça fisicamente com um africano pode sofrer discriminação, como tem acontecido nos Estados Unidos e no Brasil. Apesar dos enormes avanços na prevenção, controle e tratamento, o mesmo ainda se dá com o HIV, infinitamente mais estudado e conhecido do que o ebola. Desde meados dos anos 80, vários países ainda mantém leis segregatórias contra soropositivos, impedindo nossa entrada para turismo e residência.

É como se houvesse uma imposição velada de quarentena. É verdade, o isolamento de portadores de HIV nunca foi de fato imposto, mas também nunca foi de fato revogado. Nós, soropositivos, experimentamos algo mais sutil e constante. Inclui alguma semelhança com o requisito básico para a aceitação social do isolamento: as primeiras campanhas de prevenção ao HIV cumpriam a função de transferir o medo da doença para o medo dos portadores do vírus, retratados em peças publicitárias como animais peçonhentos. Não-humanos, mas bichos.

Talvez, essas assustadoras campanhas tenham mesmo tido um profundo impacto no imaginário coletivo, e até hoje nele permanecem, mais fortes do que a camisinha. Ou, quem sabe, o imaginário coletivo é que seja naturalmente predisposto a transferir o medo da doença para o doente, de forma automática. Medo que o mundo vire como o seriado Walking Dead. Seja como for, o que o mundo esquece é de olhar para o lado de quem está sob quarentena. Se o fizesse, talvez se sentisse mais seguro.

Um dos principais anseios experimentados por quem recebe o diagnóstico positivo para o HIV é o medo de transmitir. É o maior de todos os medos. Faz com que muitos soropositivos voluntariamente se isolem, proclamando suas próprias quarentenas, abandonando seus parceiros de sorologia discordante, soronegativos. Faz com que muitos redefinam sua identidade como eternos solteiros e solteiras. E faz com que passem a acompanhar de perto as notícias a respeito da pesquisa da cura, como se esta fosse a única salvação para seu isolamento.

Em algum momento, também pensei que ia ser assim comigo. Também tive medo da minha transmissibilidade e, por isso, não entendia porque meu médico insistia no contrário.

“— Você é um parceiro sexual seguro”, dizia ele.

Ainda assim, essa ideia me parecia mirabolante. Como é que eu poderia ser seguro o suficiente para não ter que hastear nem uma bandeirinha de quarentena? Algum risco, pensei, deve haver! E existe, precisamente quantificado: quem toma antirretrovirais e mantém carga viral, que é a quantidade de vírus no sangue, reduzida a níveis indetectáveis, tem o risco de transmissão reduzido em pelo menos 96%. Esta estimativa foi obtida em dois diferentes estudos, HPTN 052 e Partner, conduzidos em diversos países e endossada por consensos médicos americano, britânico, canadense e, mais recentemente, sueco.

Esses consensos traduzem essa estimativa matemática de risco de transmissão a partir de um soropositivo em tratamento e com carga viral indetectável como “negligenciável”, “mínimo” e “muito baixo”, de acordo com o tipo de sexo, oral, vaginal ou anal, e, no caso do consenso sueco, como “bastante reduzido” para o compartilhamento de seringas durante o uso de drogas injetáveis. Com camisinha e carga viral indetectável, os americanos afirmam que a redução no risco de transmissão é de 99,2%. Parece bastante! Mas será que isso é suficiente para poder me sentir totalmente seguro a respeito da minha transmissibilidade? Para responder à essa pergunta, me pareceu coerente fazer a comparação mais natural de todas; aquela que eu faria, se ainda fosse soronegativo:

“— Um parceiro sexual que faz o teste de HIV e tem resultado negativo é mais seguro do que eu”, disse eu ao Dr. Esper. “É o que dizem esses estudos, HPTN 052 e Partner.”

Nesse momento, o doutor fez que não com a cabeça.

“— Não, Jovem”, disse ele. “Acho que você entendeu errado a mensagem desses estudos. Você é mais seguro do que isso”, corrigiu o doutor. “Vou tentar explicar melhor. Em primeiro lugar, em ciência não existe nada 100% seguro. Em segundo, a margem de redução na transmissibilidade que observamos em pessoas como você, que têm HIV e cuidam da saúde, tomando antirretrovirais e mantendo a carga viral indetectável, é muito alta. Mais alta do que outros métodos de prevenção já observados. Por isso, sabemos que pessoas como você não transmitem o HIV, mesmo em caso de falha no uso da camisinha.”

“— Ainda assim, doutor, soronegativos não tem HIV…”

“— É verdade. Entretanto, eles correm um risco que você não corre mais: o de se tornar uma ‘pessoa de sorologia desconhecida’, um sorointerrogativo, que é um parceiro sexual potencialmente portador do HIV sem saber e, nesse caso, altamente transmissor do vírus. Sempre que um soronegativo fizer sexo desprotegido e, em seguida, não realizar o teste de HIV respeitando o período da janela imunológica, ele é um sorointerrogativo.

Você, por outro lado, é um indivíduo que sabe da sua sorologia positiva e que cuida da saúde, tomando antirretrovirais consistentemente. Por isso, mesmo em caso de falha no uso da camisinha, você está protegido de ser contaminado novamente pelo HIV, pois os mesmos remédios que você toma para controlar o vírus também funcionam como prevenção, e de transmitir o vírus, pois tem sua carga viral indetectável.

Nesse sentido, considerando o risco que os soronegativos têm, de se tornar sorointerrogativos, é, sim, mais seguro manter um relacionamento estável com uma pessoa como você, que vive com HIV, ciente da sua condição, diagnosticado e que se cuida, tomando os antirretrovirais, fazendo exames trimestrais e mantendo carga viral indetectável, do que com uma pessoa soronegativa, que eventualmente pode ‘pular a cerca’ sem camisinha e contrair HIV.

É importante salientar esse risco em soronegativos porque, nestes estudos que você mencionou, infecções ocorreram, sim. Em nenhuma delas a origem da transmissão veio do parceiro soropositivo que estava indetectável: todas se deram em situações em que o parceiro soronegativo teve uma relação desprotegida fora do relacionamento estável, provavelmente com alguém que este presumia ser ‘seguro’.”

“— O que esses estudos descobriram é impressionante!”

“— De novo, não é bem assim, Jovem. Ninguém descobriu nada. Quando saiu o resultado do HPTN 052, falei com o médico que coordenou o estudo, a fim de parabenizá-lo por sua fascinante descoberta. Afinal, este é um dos trabalhos na área de HIV mais citados e comentados desde sua publicação. Ele imediatamente me corrigiu e disse: ‘Esper, nós não descobrimos nada. Apenas confirmamos o que já era observado desde o início da epidemia’”.

Depois de uma breve pausa para que eu assimilasse o conteúdo, o doutor continuou:

“— Jovem, não existe, na história da epidemia, um único caso registrado de transmissão do HIV a partir de quem foi diagnosticado, faz tratamento e tem carga viral indetectável. Simplesmente isso não foi documentado na literatura médica até hoje. Ou seja: o controle da carga viral no sangue também controla a carga viral nas secreções genitais.”

“— Eu não apresento risco algum de transmitir HIV?”

“— Não. Só teria se parasse de tomar seus remédios.”

“— Então, doutor”, prossegui, depois de refletir por um instante. “O maior problema do HIV é um problema de imagem?”

O doutor assentiu com a cabeça.

“— Sim. A imagem que o HIV carrega é muito negativa, grave, pesada. E é isso o que mantém vivos o preconceito e a discriminação.”

Saí de seu consultório me sentindo feliz, mais leve. Certo de que não havia razão para manter hasteada em mim qualquer bandeira de quarentena. Mas foi nesse mesmo instante que uma voz ecoou na minha cabeça. Se era o advogado do diabo ou inconsciente coletivo, eu não sei. O fato é que, cada vez mais alta, ela questionava tudo o que eu acabara de aprender. “E se os estudos que concluíram tudo isso estiverem errados?”, dizia. “E se o doutor estiver errado?”

Diante disso, isto é, diante da constatada alforria do risco de transmissão ainda questionar irracionalmente tudo o que acabara de aprender, percebi que eu mesmo sofria com o imaginário temeroso do HIV. Concluí, triste, que ter HIV é viver enfrentando essa imagem negativa, mesmo que total e comprovadamente insubstanciada. Uma batalha constante, sempre que quem tem HIV contar para o outro, o que quase sempre quer dizer ter de convencê-lo de que não somos repugnantes, que não somos um monstro.

Apesar disso, o desejo de contar e ser compreendido prevalece. Queremos muito mudar a ideia das pessoas a respeito do HIV! Queremos poder falar sobre o vírus sem, com isso, causar medo, espanto e pânico. Sem assustar as pessoas e fazer com que nos olhem com dó ou desprezo. Queremos poder contar que temos HIV numa conversa normal, na mesa de um bar ou no café do trabalho, assim como um diabético conta que tem diabetes. O fim da quarentena de quem tem HIV e toma antirretrovirais já é cientificamente possível e, agora, é hora de ser socialmente aceito. Mesmo sabendo que não representamos perigo, é preciso que os outros reconheçam isso também. Mas alcançar essa mudança toda, certamente, é um obstáculo difícil!

Talvez, exatamente por conta dessa dificuldade, acompanhar de perto as notícias da pesquisa da cura seja tão importante para muitas das pessoas que vivem com HIV. É a única saída no horizonte. É como se o fim do vírus fosse mais provável do que o fim do estigma. Para estes, o verdadeiro dia da alforria será o dia cura, quando deixaremos para trás de vez o asqueroso vírus. Aliás, nem basta que seja qualquer cura: a cura “funcional”, em que o vírus continua no organismo, mas em quantidade tão pequena que é incapaz de se multiplicar e de ser infeccioso, não é suficiente. Embora a cura funcional do HIV já tenha sido alcançada em estudos com alguns pacientes, e, inclusive, referida como já sendo o nosso caso atual, o caso de todos os que tomam antirretrovirais consistentemente, ela não extirpa o responsável pelo imaginário aterrorizante. Portanto, não serve! É preciso que a cura seja “esterilizante”, quando cada pedacinho do micróbio é expurgado de cada uma das células, tal como obtido com o “Paciente de Berlim”, Timothy Ray Brown. Apesar de mais difícil para a ciência, e por mais que outros patógenos, como citomegalovírus, toxoplasmose e tantos outros, sigam na contramão dessa premissa, o sonho continua sendo esse: não ter mais nenhum sinal do vírus no organismo.

Os menos radicais, como eu, embora não deixem de desejar a cura também, estão satisfeitos com menos. Primeiro, com novas e inteligentes campanhas de prevenção do HIV e controle da epidemia, como a Help Stop the Virus, da Gilead Sciences.

Em segundo, mas não menos importante, com amplo reconhecimento e divulgação da análise dos resultados de estudos como HPTN 052 e Partner, ou mesmo outros estudos similares, onde, até agora, já foram analisados mais de 6 mil casais sorodiscordantes e a amostragem de transmissão a partir dos parceiros em tratamento e indetectáveis foi, literalmente, zero. Mas será que é possível explicar tudo isso à toda uma população?

Fazer alguém entender tudo isso parece algo distante demais. Me parece tal como afirmar que algumas das complexas teorias de Albert Einstein são hoje fatos comprovados: falar que o tempo é relativo, convenhamos, é quase compreendido como entretenimento! No fundo, quase ninguém vê a aplicação prática em suas vidas. Na mesma medida, o conhecimento leigo ainda está anos-luz atrás do que os médicos mais bem informados sabem sobre transmissibilidade do HIV. De tão distante, a própria campanha Help Stop the Virus prefere começar a explicar do zero e anuncia: “esqueça tudo o que você sabe sobre HIV”.

Então, comecemos do zero. E busquemos por algo mais simples. Quem sabe, algo capaz de resumir todo esse conhecimento num único termo, tal como PVHA fez no passado. No fim, a solução dos ativistas parece ser a melhor mesmo! Entretanto, será que é possível encontrar um termo capaz de contemplar a substanciada sensação de segurança que as pessoas já podem sentir diante de quem tem HIV e se cuida com antirretrovirais, na mesma medida – senão maior – do que a segurança que sentem com seus parceiros e parceiras de sorologia sabidamente negativa? Será que podemos difundir algo que os jornais, governos, blogs e, principalmente, as pessoas passem a usar, de maneira ampla e corriqueira, como o termo mais correto quando se referirem ao nosso caso: pessoas diagnosticadas com HIV e que cuidam da saúde? Será que é possível contar que tenho HIV e, ao mesmo tempo, não despertar medo e fazer entender que não represento um risco porque sou alguém que cuida da saúde e faz tratamento antirretroviral?

Pesquisando, descobri que não estou sozinho nessa busca. Pelo menos três campanhas já tentaram fazer isso. Uma delas, liderada pela organização canadense Aids Vancouver, chegou lá.

Nela, ao invés de procurar algo novo e revolucionário, usou um termo simples, comum e já conhecido por muita gente: indetectável, a nova face do HIV, a terceira condição sorológica. A condição de quem não transmite o vírus, porque cuida da própria saúde, tomando corretamente seus antirretrovirais. A condição de quem pode ser tratado por outros médicos a partir das mesmas premissas de um soronegativo, em quase todos os aspectos. A condição de quem tem expectativa de vida igual a de soronegativos. A meta de qualquer um que for diagnosticado positivo para o HIV. A condição de quem não precisa ser visto como perigoso. A condição de quem não precisa lembrar do vírus no seu dia-a-dia, pois sabe que este é apenas um vírus, e nada mais.

“— É bom esquecer o HIV?”, perguntou o Dr. Esper, em nossa última consulta.

“— É ótimo!”

O doutor, que me escutava enquanto prescrevia a receita de meus próximos exames, interrompeu o que fazia. Parou, olhou para mim por um instante, e disse:

“— Nos faz sentir humanos novamente. Não faz?”

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O consenso Sueco


Risco de transmissão do HIV em pacientes em terapia antirretroviral: uma declaração de posicionamento da Agência de Saúde Pública da Suécia e do Grupo de Referência Sueco para Terapia Antiviral

Resumo

O moderno tratamento médico para o HIV através da terapia antirretroviral (TARV) reduziu drasticamente a morbidade e mortalidade em pacientes infectados com este vírus. A TARV também tem mostrado redução no risco de transmissão a partir de pacientes individuais, bem como a redução da propagação da infecção em nível populacional. Esta declaração de posicionamento da Agência de Saúde Pública da Suécia e do Grupo de Referência Sueca para Terapia Antiviral é baseada em um seminário organizado no outono de 2012. Ela resume as últimas pesquisas e conhecimento sobre o risco de transmissão do HIV em pacientes em TARV, com foco no risco de transmissão sexual. O risco de transmissão via uso de seringa compartilhada entre usuários de drogas injetáveis também é analisado, assim como o risco de transmissão de mãe para filho. Com base no conhecimento atual, o risco de transmissão através de relações sexuais vaginais ou anais que envolvem a utilização de um preservativo têm sido julgadas como mínimo, desde que a pessoa infectada com o HIV preencha os critérios de TARV eficaz. Isso provavelmente também se aplica a relações sexuais desprotegidas, desde que não haja outras infecções sexualmente transmissíveis, embora até o momento não seja possível apoiar plenamente esta conclusão com evidência científica direta. Julga-se que a TARV reduza acentuadamente o risco de transmissão por via sanguínea entre pessoas que compartilham seringas. Por fim, o risco de transmissão de mãe para filho é muito baixo, desde que a TARV seja iniciada bem antes do parto.

Introdução

Em 2008, a Comissão Suíça de Aids anunciou que as pessoas infectadas com o HIV que estão em terapia antirretroviral eficaz (TARV) não devem ser consideradas infecciosas através do contato sexual, desde que certos critérios sejam preenchidos [1]. Isso chamou atenção considerável para a evidência científica para o risco de transmissão de pacientes em TARV. O assunto tornou-se tópico novamente em 2011, com o lançamento dos resultados do estudo HPTN 052 [2]. Este estudo acompanhou 1.763 casais discordantes em que um dos parceiros era HIV positivo e outro negativo para o HIV no início do estudo. Os casais foram inscritos entre 2007 a 2010 e randomizados em dois grupos de estudo: um no qual o parceiro soropositivo recebia TARV imediatamente, independentemente de seu estado imunológico, e um segundo no qual a TARV era iniciada mais tarde, se houvesse alguma indicação para o tratamento antirretroviral (ou seja, contagem de CD4 <250 células/ml de sangue). Todos os participantes receberam aconselhamento sobre o uso de preservativos. O estudo demonstrou que a TARV precoce foi associada com uma redução de 96% no risco de transmissão através do contato sexual, em comparação com o grupo que começaram TARV mais tarde. Isso confirmou os resultados de vários estudos observacionais anteriores. Estas descobertas levaram à amplas discussões científicas sobre como a TARV pode ser usada na prevenção da transmissão do HIV (o chamado tratamento como prevenção, TasP, do inglês treatment as prevention).

Num contexto de recentes descobertas científicas e discursos, vários grupos de especialistas, além dos suíços, publicaram suas opiniões. No Reino Unido, a Associação Britânica de HIV (BHIVA) e o Grupo Consultivo de Especialistas sobre Aids (EAGA) afirmaram que existe um risco extremamente baixo de transmissão por contato sexual em pessoas que estão com o vírus continuamente e totalmente suprimido por TARV, desde que nenhuma outra infecção sexualmente transmissível esteja presente [3].

Há também uma discussão paralela sobre a possibilidade de prevenir o HIV através da utilização em larga escala de profilaxia pós exposição (PEP) e profilaxia pré exposição (PrEP). A PEP descreve o início de TARV imediatamente após uma exposição ao HIV, com o objetivo de prevenir a transmissão, enquanto a PrEP envolve o tratamento preventivo de pessoas HIV negativas que têm um risco permanente ou recorrente de infecção.

O registro nacional sueco de qualidade, InfCare HIV, inclui mais de 99% de todos os casos de HIV conhecidos na Suécia. De acordo com o registro, 87% de todos os pacientes HIV positivos na Suécia recebiam TARV em 2012 (http://infcare.com/hiv/sv/resultat/2012-arsrapport/, em sueco). Destes, 92% tinham TARV eficaz, ou seja, uma carga viral plasmática <50 cópias de RNA do HIV/ml. À luz desta e das conclusões do estudo HPTN 052, há uma grande demanda por informações completas sobre as evidências mais atuais sobre o risco de transmissão de pacientes que estão em TARV eficaz. Há também uma necessidade de conhecimento sobre o risco de transmissão do HIV de pessoas que não estão em TARV e sobre as consequências médicas de longo prazo para as pessoas que vivem com a infecção pelo HIV.

Esta declaração de posicionamento Agência de Saúde Pública da Suécia e do Grupo de Referência Sueco para Terapia Antiviral é baseada em um seminário organizado no outono de 2012. Ela resume as últimas pesquisas e o conhecimento sobre o risco de transmissão do HIV de pacientes em TARV, com foco sobre o risco de transmissão sexual. O risco de transmissão via compartilhamento de seringas entre usuários de drogas injetáveis também é analisado, assim como o risco de transmissão de mãe para filho. O texto foi publicado online em sueco no site da Agência de Saúde Pública da Suécia, em Outubro de 2013, juntamente com os 9 artigos complementares (também em sueco).

Consequências médicas da infecção pelo HIV

  • A infecção pelo HIV ainda é uma doença séria e incurável que requer tratamento vitalício.
  • A expectativa de vida das pessoas infectadas pelo HIV nos países industrializados aumentou consideravelmente e está se tornando comparável às pessoas não infectadas.
  • Na Suécia, a infecção pelo HIV agora muito raramente leva à morte, se a infecção for diagnosticada a tempo de começar a TARV antes que qualquer imunodeficiência grave tenha desenvolvido.

A TARV moderna foi introduzida em 1996 e rapidamente levou à uma redução drástica, tanto na morbidade quanto na mortalidade causada pela infecção pelo HIV. Outras melhorias já foram obtidas, tanto no efeito antiviral e na redução de efeitos adversos, com implicações positivas para a experiência do paciente em TARV, quanto no impacto sobre a saúde relacionados com qualidade de vida [4].

Resistência aos medicamentos antirretrovirais podem surgir, mas, com poucas exceções, isso pode ser gerenciado através da troca de todas ou de algumas das drogas. Vários estudos têm mostrado que a esperança de vida dos doentes com HIV em países industrializados está aumentando e é agora próxima a do resto da população [5-7]. Uma razão importante para o remanescente de expectativa de vida encurtada é que, além de fatores ligados ao estilo de vida e status socioeconômico, alguns pacientes são diagnosticados numa fase tão tardia que a TARV não pode ser iniciada a tempo de ter um efeito [8]. Dados da InfCare HIV mostram que a mortalidade entre os pacientes HIV na Suécia é atualmente inferior a 1% ao ano (http://infcare.com/hiv/sv/resultat/2012-arsrapport/, em sueco). No entanto, a mortalidade é significativamente maior entre aqueles diagnosticados tarde na progressão da doença, ou seja, com imunodeficiência grave, e aqueles que foram infectados por meio do uso de drogas intravenosas.

Definição de terapia antirretroviral eficaz

Os seguintes critérios devem ser cumpridos para que a terapia antirretroviral da infecção pelo HIV possa ser considerada eficaz:

  • A carga viral de RNA do HIV no plasma sanguíneo deve ser continuamente <50 cópias/ml, verificada em duas medições sucessivas realizadas em um intervalo de 3-6 meses.
  • O paciente deve manter contínua alta adesão ao tratamento.
  • Monitoramento da carga viral e adesão ao tratamento devem ocorrer regularmente, de acordo com as diretrizes Referensgruppen för Antiviral Terapi (RAV), ou seja, 2-4 vezes por ano [9].

Além disso, não deve haver qualquer razão clínica ou epidemiológica para suspeitar da presença de qualquer outra infecção sexualmente transmissível em curso, uma vez que esta, teoricamente, poderia aumentar o risco de transmissão do mesmo quando a TARV é eficaz.

Carga viral plasmática baixa ainda detectáveis de até 500 cópias/ml é vista em um número limitado de pacientes com boa adesão ao tratamento e TARV eficaz. Quando a carga viral até este nível é detectada em uma única ocasião, ela é referida como “blip”. As causas de um blip podem ser tanto biológicas como relacionadas com a técnica de medição, mas geralmente não são uma indicação de aumento da replicação viral. Blips são vistos na maior parte dos pacientes com TARV eficaz nos quais a carga viral é medida frequentemente. Isso vale também para os pacientes que foram envolvidos no estudo HPTN 052 e outros estudos que formam a base para a avaliação do risco de transmissão do HIV durante TARV. Não há indicação de que os pacientes que receberam terapia eficaz que têm blips são mais infecciosos do que pacientes sem blips documentados. Uma pequena proporção de pacientes em TARV apresenta viremia de baixo nível continuamente identificável, ou seja, uma baixa presença de vírus no plasma (50-500 cópias/ml). Não há ainda dados suficientes para avaliar com toda a certeza o risco de transmissão desses pacientes, mas os dados disponíveis indicam que é muito baixo [10].

Avaliação do risco de transmissão por contato sexual

Os riscos de transmissão por meio de relação sexual vaginal e anal em casos de TARV eficaz são os seguintes:

  • Existe um risco mínimo de transmissão através de relações sexuais vaginais e anais, se o parceiro infectado pelo HIV está em TARV eficaz e um preservativo é usado durante toda a relação.
  • Há também um risco muito baixo de transmissão através do coito vaginal e anal, se o parceiro infectado pelo HIV está em TARV eficaz e um preservativo não é usado.
  • O disposto acima se aplica para cada contato sexual individual e em casos de contacto repetido ao longo de períodos mais longos (anos), independentemente de o parceiro infectado pelo HIV ser mulher ou um homem e independentemente de o parceiro infectado pelo HIV ser penetrante ou receptivo durante o ato sexual.

Com relação ao risco de transmissão através de relações sexuais vaginais, a avaliação acima é suportada principalmente pelo estudo prospectivo HPTN 052 [2], mas também por vários estudos observacionais. Uma meta-análise publicada recentemente com os resultados de seis estudos diferentes, que abrangem um total de 6.070 heterossexuais casais sorodiscordantes quando o parceiro HIV positivo mantinha TARV eficaz, calculou o risco de transmissão como sendo <0,01 para cada 100 pessoas-ano [11].

No grupo de tratamento do estudo HPTN 052 houve uma transmissão observada em, aproximadamente, 1.500 pessoas-ano, o que corresponde a um risco de transmissão de cerca de 1 por 150.000 contatos sexuais. Além disso, foi relatado que essa única transmissão observada ocorreu antes ou logo após o parceiro infectado pelo HIV iniciar TARV. Isto significa que os dados disponíveis não contradizem a Declaração Suíça, que diz que pode haver um risco inexistente (zero) de transmissão através de relações sexuais vaginais quando um paciente está em TARV eficaz. No entanto, o risco zero é impossível de ser demonstrado cientificamente. É provável que o risco de transmissão também seja mínimo em casos de TARV eficaz, mesmo quando um preservativo não é utilizado. No entanto, como o uso de preservativos foi incentivado no estudo HPTN 052, as evidências científicas disponíveis são insuficientes para suportar tal conclusão. Além disso, os preservativos são recomendados devido ao risco de transmissão de outras infecções sexualmente transmissíveis, as quais podem estar presentes na ausência de sintomas. Existe uma falta de conhecimento sobre o potencial de outros métodos de barreira para reduzir o risco de transmissão.

Além disso, o risco de transmissão é avaliado como muito baixo, mesmo se o tratamento não satisfaça inteiramente os critérios acima de TARV eficaz. Este baseia-se na redução do risco de transmissão de pelo menos 96% visto no estudo HPTN 052, embora a TARV eficaz tenha sido definida como uma carga viral <1000 cópias/ml, em vez de <50 cópias/ml. Além disso, 5% dos pacientes no estudo HPTN 052 tinham níveis de vírus >1000 cópias / ml. Esta conclusão também é apoiada por uma meta-análise dos resultados de vários estudos, abrangendo um total de 5.021 casais heterossexuais e 461 eventos de transmissão, em que não havia transmissões observadas em pacientes com carga viral abaixo de 400 cópias/ml [10].

Não existem estudos prospectivos que abordam diretamente o risco de transmissão através de sexo anal desprotegido de pacientes em TARV eficaz. A avaliação acima é, portanto, extrapolada de riscos que são melhor compreendidos. Por exemplo, em casos de infecção não tratada de HIV, o risco de transmissão por contato sexual é, em média, cerca de 10 vezes maior para o parceiro receptivo no sexo anal do que na relação sexual vaginal. O risco de transmissão é menor para o parceiro de penetração do que para o parceiro receptor. É provável que a TARV eficaz reduza o risco de transmissão através de relações sexuais anais com aproximadamente o mesmo grau visto através de relação sexual vaginal. Esta também foi a conclusão tirada recentemente por um comitê de especialistas da Organização Mundial da Saúde (OMS) [12]. Houve apenas um caso descrito na literatura em que a transmissão teria ocorrido entre dois homens, apesar do parceiro infectado pelo HIV estar em TARV eficaz [13]. A ausência de casos semelhantes na literatura médica internacional indica que a transmissão através de relações sexuais vaginais ou anais de pacientes em TARV eficaz é altamente incomum, já que, nestes casos, seria de grande interesse acadêmico, epidemiológico e clínico. Além disso, não há casos conhecidos na Suécia de transmissão sexual de pacientes que preenchem os critérios para TARV eficaz.

Risco de transmissão através do contato sexual oral em casos de TARV eficaz

  • O risco de transmissão através do contato sexual oral é avaliado como mínimo, se o parceiro infectado pelo HIV está em TARV eficaz.
  • Isto aplica-se independentemente do sexo ou tipo de contato sexual (heterossexual ou homossexual).

Não existem estudos sobre o risco de transmissão através do contato sexual oral, em que o parceiro infectado pelo HIV está sob TARV eficaz. No entanto, em casos de infecção não tratada do HIV, o risco de transmissão através do contato sexual oral é menor do que através de relações sexuais vaginais, o que fornece suporte para a avaliação acima.

O significado do RNA do HIV nas secreções genitais em casos de TARV eficaz

  • Baixos níveis de RNA do HIV são muitas vezes detectados nas secreções genitais de pacientes em TARV eficaz. No entanto, isto não foi demonstrado como sendo de significância para o risco de transmissão.

Vários estudos têm relatado encontrar níveis baixos, mas detectáveis, de RNA do HIV no sêmen e nas secreções cervicais de pacientes tratados com TARV que não têm níveis detectáveis de RNA do HIV em seu plasma sanguíneo [14,15]. No entanto, não foi estabelecido se estas pacientes são contagiosos. Cohen e seus colegas afirmam que os baixos níveis de RNA do HIV nas secreções genitais não são susceptíveis de afetar significativamente a capacidade de contágio, argumentando que alguns participantes do estudo HPTN 052 e estudos observacionais, provavelmente, também tinham baixos níveis de RNA do HIV em suas secreções genitais, mas a TARV ainda foi associada a um risco drasticamente reduzido de transmissão [16].

Avaliação do risco de transmissão de usuários de drogas injetáveis sob TARV eficaz

  • Com base nos dados disponíveis indiretos, acredita-se que o risco de transmissão do HIV entre usuários de drogas injetáveis é muito reduzido se a pessoa infectada pelo HIV está sob TARV eficaz.

Não existem estudos que fornecem uma resposta direta sobre o risco de transmissão através de equipamento de injeção, que é compartilhado entre usuários de drogas injetáveis, quando a pessoa infectada pelo HIV está em TARV eficaz. No entanto, dois estudos observacionais de British Columbia, no Canadá e Baltimore, EUA, indicam que a redução da carga viral a nível populacional, como resultado do aumento do uso de TARV, está associada a uma redução da incidência de infecções pelo HIV entre usuários de drogas injetáveis [17, 18]. Com base nestes resultados, Madeira e colegas concluíram recentemente que a TARV também é relevante para a prevenção da transmissão do HIV através de agulhas compartilhadas [19]. O risco de transmissão de outras infecções transmissíveis pelo sangue, tais como hepatite C, mantém-se inalterado, mesmo em casos de sucesso do tratamento do HIV.

Em resumo, é altamente provável que o risco de transmissão por via sanguínea do HIV entre usuários de drogas injetáveis seja reduzido significativamente se a pessoa infectada pelo HIV está sob TARV eficaz, mas a magnitude da redução ainda é incerta.

Avaliação do risco de transmissão do HIV de mãe para filho durante a gravidez e o parto

  • O risco de transmissão do HIV de mãe para filho é inferior a 0,5%, se a mulher grávida começar a TARV eficaz bem antes do parto [20].

O baixo risco de transmissão de mãe para filho e os recentes avanços no tratamento do HIV que estenderam a expectativa de vida e a melhoria da qualidade de vida fizeram com que mais mulheres infectadas pelo HIV estejam planejando ter filhos.

Embora a redução da fertilidade é provavelmente mais comum entre as mulheres infectadas pelo HIV, não são oferecidas atualmente a fertilização in vitro na Suécia, de acordo com as normas que regem a doação e utilização de órgãos, tecidos e células. A oportunidade para a fertilização in vitro já está disponível para as mulheres HIV positivas na Dinamarca e em vários outros países dentro e fora da União Europeia.

Referências

1. Vernazza P, Hirschel B, Bernasconi E, Flepp M. HIV-infizierte Menschen ohne andere STD sind unter wirksamer antiretroviraler Therapie sexuell nicht infektiös [HIV-infected people free of other STDs are sexually not infectious on effective antiretroviral therapy] Schweizerische Ärztezeitung. 2008;89:165–9.
2. Cohen MS, Chen YQ, McCauley M, Gamble T, Hosseinipour MC, Kumarasamy N, et al. Prevention of HIV-1 infection with early antiretroviral therapy. N Engl J Med. 2011;365:493–505. [PMC free article] [PubMed]
3. Filder S, Anderson J, Azad Y, Delpech V, Evans C, Fisher M, et al. Position statement on the use of antiretroviral therapy to reduce HIV transmission, January 2013: the British HIV Association (BHIVA) and the Expert Advisory Group on AIDS (EAGA) HIV Medicine. 2013;5:259–62. [PubMed]
4. Eriksson LE. Positivt liv. En internationell kunskapsöversikt om att undersöka livskvalitet och livssituation hos personer som lever med hiv. Sweden: Smittskyddsinstitutet; 2012.
5. Lohse N, Hansen AB, Pedersen G, Kronborg G, Gerstoft J, Sorensen HT, et al. Survival of persons with and without HIV infection in Denmark, 1995–2005. Ann Intern Med. 2007;146:87–95. [PubMed]
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9. Referensgruppen för Antiviral Terapi (RAV) Lippincott Williams: Wilkins; Antiretroviral behandling av HIV-infektion 2013.http://folkhalsomyndigheten.se/documents/projektwebbar/rav/rekommendationer/antiretroviral-behandling-hiv-v140210.pdf
10. Attia S, Egger M, Muller M, Zwahlen M, Low N. Sexual transmission of HIV according to viral load and antiretroviral therapy: systematic review and meta-analysis. AIDS. 2009;23:1397–404. [PubMed]
11. Loutfy M, Wu W, Letchumanan M, Bondy L, Antoniou T, Margolese S, et al. Systematic review of HIV transmission between heterosexual serodiscordant couples where the HIV-positive partner is fully suppressed on antiretroviral therapy. PLoS One. 2013;8:e55747. [PMC free article] [PubMed]
12. WHO and US NIH Working Group Meeting on Treatment for HIV Prevention among MSM. What additional evidence is required? Geneva, 26–27 October 2011.
13. Sturmer M, Doerr HW, Berger A, Gute P. Is transmission of HIV-1 in non-viraemic serodiscordant couples possible? Antivir Ther. 2008;13:729–32. [PubMed]
14. Politch JA, Mayer KH, Welles SL, O’Brien WX, Xu C, Bowman FP, et al. Highly active antiretroviral therapy does not completely suppress HIV in semen of sexually active HIV-infected men who have sex with men. AIDS. 2012; 26:1535–43. [PMC free article] [PubMed]
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18. Kirk G, Galai N, Astemborski J, Linas B, Celentano D, Mehta S, et al. Decline in community viral load strongly associated with declining HIV incidence among IDU. Proceedings of the 18th Conference on Retroviruses and Opportunistic Infections, 27 February–2 March 2011, Boston, MA, USA; 2011.
19. Wood E, Milloy MJ, Montaner JS. HIV treatment as prevention among injection drug users. Curr Opin HIV AIDS. 2012;7:151–6. [PubMed]
20. Referensgruppen för Antiviral Terapi (RAV) Lippincott Williams: Wilkins; Profylax och behandling vid graviditet hos HIV-1 infekterade kvinnor, 2013.http://folkhalsomyndigheten.se/documents/projektwebbar/rav/rekommendationer/profylax-behandling-graviditet-hiv1-infekterade-kvinnor.pdf

 

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A origem do HIV


Pandemia de HIV teve origem em Kinshasa em 1920, dizem cientistas

Cidade próspera com várias ligações de transporte e fluxo de trabalhadores do sexo masculino se tornou incubadora perfeita para cepa pandêmica do HIV.

Mulher congolesa soropositiva é levada para hospital. O vírus se espalhou rapidamente a partir de Kinshasa por via férrea e fluvial a partir da década de 1920. Foto: EPA

A “tempestade perfeita” de mudança urbana que começou em 1920 em Kinshasa levou à propagação catastrófica do HIV em toda a África e no resto do mundo, de acordo com cientistas que usaram sequenciamento genético e registros históricos para traçar as origens da pandemia.

Embora o vírus provavelmente tenha cruzado de chimpanzés para os seres humanos em anos anteriores na região do sul de Camarões, o HIV se manteve uma infecção regional até entrar na capital do que é hoje a República Democrática do Congo.

A partir dos anos 1920 até 1960, a cepa pandêmica do HIV — outras cepas fracassaram  se propagou de Kinshasa, atravessou fronteiras para outros países e, finalmente, desembarcou em continentes distantes. Até hoje, já infectou quase 75 milhões de pessoas em todo o mundo.

Quando o vírus surgiu, Kinshasa era agitada. Foi o maior e mais rápido crescimento de uma cidade na região, com ligações de transporte atingindo todo o país. O movimentado rio Congo levava pessoas a mais de 600 quilômetros de distância, a norte e leste de Kisangani. A ferrovia trazia dezenas de trabalhadores ao sudeste de Katanga, província de mineração que depende de trabalho imigrante, e para Lubumbashi, a mais de 900 quilômetros de distância.

Os registros mostram que na década de 1940 mais de um milhão de pessoas por ano passaram por Kinshasa, apenas pelas ferrovias. Em 1960, a taxa de novas infecções da pandemia de HIV ultrapassou o crescimento da população regional, de acordo com a pesquisa publicada na revista Science.

Enquanto os barcos e trens espalhavam o vírus, outros fatores fizeram sua parte. Os registros sugerem que Kinshasa tinha uma proporção relativamente elevada de homens e consequente demanda por profissionais do sexo. Alguns médicos podem involuntariamente ter espalhado o vírus ainda mais, por meio de ferramentas não esterilizadas em clínicas de saúde sexual.

Uma equipe internacional de cientistas liderada pelas universidades de Oxford, na Inglaterra, e Leuven, na Bélgica, reconstruiu a história da pandemia de HIV por meio de registros históricos e amostras de DNA do vírus, as quais remontam ao final dos anos 1950. O DNA permitiu a elaboração de uma árvore genealógica do vírus, que traçou sua ascendência através do tempo e do espaço. Usando modelos estatísticos, os cientistas voltaram ainda mais para trás do que a década de 1950 e localizaram a origem da pandemia em 1920 em Kinshasa.

As pessoas com HIV na África Central, naquela época, não tinham sintomas específicos que poderiam ter sido descritos em seus registros médicos. O vírus faz o sistema imune a entrar em colapso, deixando as pessoas abertas a todo o tipo de infecções. Para uma epidemia como HIV, onde estamos tentando rastrear até mesmo antes do vírus ser descoberto, a genética é a única fonte de informação que temos”, disse Oliver Pybus, biólogo evolucionista da Universidade de Oxford e autor do estudo.

Os dados genéticos sugerem que pandemia de HIV se espalhou rapidamente pela República Democrática do Congo, um país do tamanho da Europa Ocidental. A partir do final dos anos 1930 ao início dos anos 1950, o vírus se espalhou por via férrea e fluvial para Mbuji-Mayi e Lubumbashi, no sul, e para Kisangani, no norte. Ali, o vírus tomou conta e formou reservatórios secundários, a partir de onde se espalhou para países na África Austral e Oriental.

No início, o HIV era uma infecção confinada a grupos específicos de pessoas. Mas o vírus conseguiu sair para a população em geral e se espalhou pelo mundo, depois do que a então conhecida como a República do Congo tornou-se independente, em 1960.

Partes da história só podem ser sugestivas. Sem uma máquina do tempo é muito difícil provar a causalidade. Mas podemos ter bastante certeza de que temos a hora e o local de onde isso aconteceu“, disse Pybus. “Parece que uma combinação de fatores em Kinshasa no início do século 20 criou uma tempestade perfeita para o surgimento do HIV, levando a uma epidemia generalizada com impulso irrefreável que se desenrolou por toda a África subsaariana.”

Diferentes cepas de HIV quase certamente saltaram de macacos para seres humanos  por meio da caça ou manipulação de animais selvagens dezenas de vezes ao longo da história. Apenas uma dúzia destes incidentes deixaram suas marcas no DNA das cepas de HIV que circulam hoje. Alguns focos infectaram centenas de milhares de pessoas na África, mas não foram adiante. Apenas um, conhecido como HIV-1 grupo M, foi pandêmico.

Nós todos queremos saber como isso aconteceu, como chegamos aqui”, disse Pybus. “Queríamos responder à pergunta: por que esta cepa se transformou em uma pandemia?”


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