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Novo potencial tratamento contra o HIV está nas células imunes


Publicado em 25 de junho por Weill Cornell Medical College

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Um time de pesquisadores liderado por cientistas da Weill Cornell Medical College descobriu uma forma de limitar a replicação do tipo mais comum de HIV no momento em que a infecção está começando a se desenvolver. O estudo, publicado em 25 de junho na Nature, traz luz sobre um elemento da imunidade humana contra o HIV-1 e que pode vir a ser uma poderosa nova estratégia — talvez parte de uma vacina — para limitar a severidade da doença, sem cura, que afeta 35 milhões de pessoas no mundo.

Transmitido através de fluidos corporais, o HIV-1 prospera infectando e destruindo importantes células imunes, conhecidas como T CD4, as quais, habitualmente, montam uma defesa contra o vírus e iniciam a atividade antiviral de outras células imunes. Há muito tempo os cientistas sabem que as células T CD4 produzem uma substância chamada Interleukin-21 (IL-21), a qual desempenha um papel importante no sistema imune, ao ativar células especializadas em matar vírus como o HIV-1 e guiar a produção de anticorpos que os atacam. Mas não estava claro como o IL-21 poderia afetar os estágios iniciais da infecção pelo HIV-1, quando o vírus se espalha ininterruptamente, assim que uma pessoa é contaminada.

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O laboratório da Dra. Glimcher. Da esquerda para direita: Dr. Juan Cubillos-Ruiz, Dr. Xi Chen, Dra. Laurie H. Glimcher, Dra. Sarah Bettigole e Dr. Stanley Adoro. Foto: Roger Tully

Pesquisadores do Weill Cornell, Ragon Institute of Massachusetts General Hospital, Massachusetts Institute of Technology e Harvard University conduziram dois estudos para desvendar este efeito. Os cientistas criaram uma cultura de tecidos humanos, primeiramente do baço e nódulos linfáticos. Depois de expor as células ao IL-21, introduziram o HIV-1 e descobriram que, após 72 horas, as culturas com IL-21 continham dois terços menos vírus que aquelas que não receberam o tratamento.

O segundo modelo testou o IL-21 em ratos transplantados com células tronco humanas, a fim de criar um ambiente fisiológico mais parecido o possível com o humano. No decorrer de duas semanas, os ratos começaram a produzir o IL-21 e o efeito se manteve: depois de 14 dias, mais da metade dos ratos com IL-21 não tinham níveis detectáveis de HIV-1. O IL-21 reduziu tanto a incidência quanto a magnitude da doença.

“Este estudo destaca componentes do sistema imune que são capazes de montar uma resposta imune e levar a uma resistência intrínseca ao HIV-1.”

 A análise dos resultados sugere que o IL-21 não apenas estimula o sistema imune como também frustra o HIV-1 em seu processo de replicação, durante uma janela crítica de seu desenvolvimento, quando está concentrado num único local e ainda não se espalhou pelo organismo. “Este estudo destaca componentes do sistema imune que são capazes de montar uma resposta imune e levar a uma resistência intrínseca ao HIV-1″, disse a Dra. Laurie H. Glimcher, autora sênior do estudo no Weill Cornell Medical College. “Estamos esperaçosos que este conhecimento nos ajude a chegar mais perto de proteger pacientes contra este vírus complexo e mortal.”

A redução na carga viral se dá em virtude da cascata de eventos iniciados pelo IL-21, uma das proteínas que as células T CD4 produzem para ajudar a executar suas funções imunes. Os pesquisadores descobriram que o IL-21 instrui as CD4 a aumentar a quantidade de uma pequena molécula de RNA. Esta molécula, a microRNA-29 (miR-29), inibe a replicação do HIV-1, limitando a quantidade de vírus produzida a partir das células infectadas.

“Nosso estudo desvendou um potencial arsenal que os pacientes têm contra o vírus.”

“Nosso estudo desvendou um potencial arsenal que os pacientes têm contra o vírus. Acreditamos que o IL-21 é um destes arsenais e que implantá-lo cedo pode ser muito eficaz contra a infecção”, acrescentou o Dr. Stanley Adoro, associado de pós-doutorado em medicina no laboratório da Dra. Glimcher e autor líder do estudo. “Infelizmente, o HIV-1 é conhecido por incapacitar a produção de IL-21 nos pacientes e frustrar a expressão de miR-29 nas células T CD4. Agora, nosso objetivo é entender completamente a natureza da resposta do IL-21 nos primeiros dias após a infecção no local de entrada do HIV-1 e como o vírus reduz a quantidade de miR-29 nas células CD4.”

Além de trazer luz sobre a atividade do IL-21, as descobertas podem ter implicações para uma vacina contra o HIV-1. Embora os cientistas estejam debatendo os componentes de uma futura vacina e seus correlatos de proteção, é consenso que sufocar o desenvolvimento do HIV-1 em seu vulnerável estágio inicial pode vir a ser a estratégia mais eficiente para proteger pacientes contra a doença. “Nossa pesquisa sugere que poderíamos induzir uma resposta de IL-21 nos estágios iniciais da infecção, em adição às funções que a vacina virá a desempenhar, potencialmente limitando assim a quantidade inicial de vírus no organismo”, disse a Dra. Glimcher.


FMUSP-logo

Lactobacilo e CD4

Abriu nos últimos dias a triagem para mais uma fase do estudo clínico sobre os “efeitos imunológicos do uso contínuo de Lactobacillus casei Shirota em pacientes em tratamento supressivo com pobre recuperação de células T CD4+”, coordenado pelo Dr. Esper Kallás, professor associado da disciplina de imunologia clínica e alergia, no Instituto Central da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HCFMUSP).

FMUSPO estudo começa no mês de julho, tem duração de 12 semanas e prevê 8 visitas ao centro de pesquisa clínica do HCFMUSP para avaliação, algumas das quais podem ser feitas por telefone. Os participantes devem:

  • Ter entre 18 e 60 anos;
  • Estar tomando coquetel;
  • Ter carga viral indetectável;
  • Apresentar CD4 abaixo de 500 nos últimos testes.

A nova seleção de voluntários já começou. Se você, assim como eu, também se encaixa neste perfil e tem interesse de participar deste estudo, entre em contato com a Zelinda através dos telefones (11) 2661-7214 ou (11) 2661-3344 ou pelo e-mail zelinda.bartolomei@gmail.com.

Arvores

O dilema do soropositivo

Foi em 2013. Faz pouco mais de dois anos. Eu estava angustiado com o dilema de contar da minha sorologia positiva para uma jovem de 26 anos, com quem o curso natural levaria ao sexo. Estirado sobre o gramado daquele parque das redondezas, arborizado e com um chafariz ao centro, eu refletia sobre isso. Quando seria o momento de contar da sorologia positiva para aqueles que queremos ter perto, que queremos beijar e transar? Como será a melhor maneira de contar que temos HIV? Esse era um assunto completamente novo para mim, do qual eu não tinha qualquer experiência. Carecia de alguma orientação. Percebendo que ainda tinha mais algumas horas livres, me dirigi ao consultório do Dr. Esper, que carinhosamente logo me recebeu.

“— Você planeja contar antes ou depois da primeira relação sexual?”, perguntou o doutor.

“— Antes”, respondi.

“— Jovem, se você quer fazer isso, saiba que é por opção e não por obrigação”, sublinhou o doutor. “A sua obrigação é, como a de qualquer outra pessoa, soropositiva ou não, de se proteger e, para isso, a camisinha basta. Eu penso — e defendo isso publicamente, na TV, no jornal ou diante de qualquer pessoa — que você, um soropositivo, não precisa contar para ninguém que tem HIV, desde que use camisinha”, opiniou o doutor.

“— Mas e se a camisinha estourar? Não tenho que sugerir que ela procure profilaxia pós exposição, a PEP?”

“— Esta é a atual orientação de PEP que consta no protocolo do Ministério da Saúde”, disse o médico, enquanto punha-se a imprimir uma página do site do Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais. “Contudo, o que não está escrito aqui é o que fazer em caso de paciente com carga viral indetectável”, explicou o doutor, rabiscando com a caneta sobre a folha impressa, acrescentando dados que não constavam no documento original.

Anotações do Dr. E.

“— Se a camisinha estourar com você, que faz tratamento antirretroviral e tem carga viral indetectável há mais de seis meses, a chance de uma transmissão acontecer é tão baixa que a PEP não precisa ser recomendada. Você não é um transmissor, porque você não tem o vírus no sangue — ele está preso, nos reservatórios. É mais seguro transar com você, que tem sorologia conhecida e carga viral indetectável, do que com um indivíduo de sorologia desconhecida ou um soropositivo que não faz tratamento e, portanto, tem carga viral detectável, passível de transmissão.”

“— Seria importante que o Ministério da Saúde atualizasse esse protocolo”, ponderei. “Isso nos ajudaria muito.”

“— É verdade, Jovem. Acho que a próxima versão já inclua essas atualizações.”

“A PEP não estará indicada quando, apesar da pessoa fonte ser infectada pelo HIV, estiver em terapia antirretroviral, com carga viral recente indetectável.”

Mal sabia eu que a nova versão do protocolo, contendo aquilo que o doutor esboçara naquele papel, levando em conta os estudos sobre a redução do risco de transmissão do HIV em quem faz tratamento antirretroviral e têm carga viral indetectável, só viria ser publicada agora, dois anos depois, no último Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas de Profilaxia Antirretroviral Pós Exposição de Risco para Infecção pelo HIV. Nele, consta que “a PEP não estará indicada  quando, apesar da pessoa fonte ser infectada pelo HIV, estiver em uso regular de terapia antirretroviral, com carga viral recente indetectável.” A profecia do doutor finalmente se concretizou, simplesmente amparada pelo que a ciência sabe a respeito da transmissão do HIV quando a carga viral é indetectável.

“Foi uma das maiores descobertas da ciência, quando a gente viu que se a gente conseguisse derrubar a carga de vírus que tem na pessoa, com o medicamento, essa pessoa teria menos vírus circulante — e, portanto, o vírus no sangue, o vírus no sêmen, o vírus na secreção vaginal ou o vírus no leite materno chegaria com mais dificuldade. Portanto, essa pessoa não poderia transmitir o HIV.” Foi o que disse Fábio Mesquita, diretor do Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais do Ministério da Saúde, durante o X Curso Avançado de Patogênse do HIV, que aconteceu na Faculdade de Medicina da USP, em São Paulo, em abril de 2015.

“Derrubou a carga viral, não tem como transmitir o HIV. Esse hoje é o mecanismo mais poderoso de prevenção que existe. É mais poderoso que a camisinha.”

“Nós descobrimos isso em 1996: chegamos à conclusão que se a gente desse um medicamento para um ser, a gente protegia outro ser. Só que, naquela época, a gente achava que isso só acontecia dentro do próprio corpo. Então, a gente dava o medicamento para a mãe, para proteger o bebê. Impedir a transmissão vertical”, explicou Fábio. A transmissão vertical é o nome que se dá à transmissão do HIV da mãe para o feto. Desde que surgiu o tratamento antirretroviral, em 1996, a transmissão vertical pode ser impedida graças aos medicamentos, sempre que a mãe portadora do vírus segue o tratamento durante a gravidez. “A lógica era exatamente esta: a gente derrubava a carga viral da mãe e o bebê não nascia contaminado. A gente nunca pensou que se esse ser estivesse do lado de fora do corpo, a gente também estaria protegendo este outro ser. Anos depois — entre 1996 e 2011 — a ciência concluiu que, se esse ser estiver do lado de fora do corpo, é exatamente a mesma coisa: derrubou a carga viral, não tem como transmitir o HIV. Esse hoje é o mecanismo mais poderoso de prevenção que existe.” E conclui: “é mais poderoso que a camisinha.”

“Se valia para a transmissão materno fetal, que é dentro de um corpo só, imagina a chance de funcionar para o outro? É muito maior!”

O Dr. Drauzio Varella, que subiu ao palco logo depois, concordou com a eficácia comprovada do tratamento como prevenção. “Nós tínhamos essa sensação exata, que foi demonstrada muito mais tarde e que todos que trabalhavam na área sabiam: se a gente zerasse a carga viral, a chance de transmissão era muito menor. Isso já havia sido demonstrado nas mulheres grávidas. E, se valia para a transmissão materno fetal, que é dentro de um corpo só, imagina a chance de funcionar para o outro? É muito maior!”

Mas será que tudo isso importa? Quando vamos contar que temos HIV para um novo parceiro, soronegativo, será que todo o aparato científico é realmente suficiente para apaziguar o medo que as pessoas têm do HIV? A luz da ciência, afinal, é capaz de iluminar os cantos mais obscuros da caverna de Platão?

“— Jovem, eu não gosto do exemplo da caverna de Platão porque ele peca em esclarecer que há assuntos que, por essência, habitam dentro da caverna”, explicou o psicanalista que visitava. “Na luz, eles desaparecem. A caverna guarda as emoções. A luz que vem de fora serve para clarear a razão, e não os sentimentos. Tudo o que diz respeito às emoções é sempre incerto. É da essência de assuntos como esse o não ter certeza. Pode-se até dizer que é isso que faz deles assuntos sedutores, interessantes, misteriosos. Mas não pense que luz da ciência irá dirimir o medo dela por completo. Medo é medo. Em geral, algo que é lapidado aos poucos.”

“Eu sou HIV positivo. Toda vez que eu expresso essas palavras, lembro do meu diagnóstico e de como é difícil dizer a alguém que eu tenho HIV.”

E é por essa constatação, de que não há uma fórmula que garanta nossa aceitação no mundo dos soronegativos, que não é fácil contar da sorologia positiva. “Eu sou HIV positivo”, escreve Marvell L. Terry, ativista americano afiliado à HRC Foundation HIV/Aids. “Toda vez que eu expresso essas palavras, lembro do meu diagnóstico e de como é difícil dizer a alguém que eu tenho HIV. Cada vez que eu digo essas palavras — seja para mim mesmo ou para outra pessoa — é como se eu estivesse recebendo o diagnóstico mais uma vez. Divulgar a soropositividade nunca é fácil, não importa quantas vezes você o faça. Será que vou ser rejeitado? Será que vou ser julgado? Será que vou ser alvo de raiva ou até mesmo de violência? Mesmo praticando sexo seguro, mesmo com minha carga viral indetectável, mesmo com o hábito de divulgar meu status para meus parceiros no início de um relacionamento, o que eu posso fazer se alguém me acusar de transmitir o HIV ou de não revelar a sorologia?” São os medos que todo soropositivo experimenta antes de contar da sorologia positiva. E foi com estes medos afligindo meu peito que me postei diante de L., a linda jovem para quem decidi contar da minha condição, dois anos atrás.

Era nosso quarto encontro, este numa noite de sábado. Fazia frio. O restaurante estava cheio e nossas taças de vinho já quase vazias. Respirei. O som das pessoas conversando à nossa volta diminuiu. Mais próxima que as demais, a voz de L., sentada ao meu lado, ressonava de maneira suave e amorosa. Percebi o movimento macio dos seus lábios. Nos olhos, apaixonada. A música tocava suave. As cores vibrantes das paredes mesclavam com seu vestido jovial e colorido. Ela sorria, fazendo possível sentir seu calor. A ansiedade, que me acompanhara pelos dias anteriores, esvaiu-se, num sopro, como um passe de mágica. Minha respiração voltou ao normal e meu coração se acalmou por completo. Percebi que o momento era este.

Todos os elementos da equação de quando contar haviam convergido. Pensei que seria importante revelação se desse antes de nossa primeira relação sexual, num lugar tranquilo e a partir de uma fala segura e tranquila. Além disso, L. era estudante de medicina, o que provavelmente facilitaria sua compreensão sobre o que eu estava prestes a revelar. De mãos dadas, deixamos o restaurante. Depois, dobrarmos em alguma rua tranquila, mas bem iluminada. Foi quando interrompi a caminhada, segurei em sua mão e olhei em seus olhos.

“— Eu… Eu quero te falar uma coisa, L. Pode parecer um pouco precipitado, porque eu ainda não sei exatamente para onde isso… nós… estamos indo”, suspirei, apontando para mim e para ela. “Mas, mesmo assim, eu gostaria de falar.”

“— …”

Parada ali, olhando para mim, sua face era de ambiguidade. Não sei dizer se ela esperava uma declaração de amor ou uma frase chocante.

“— Eu sou soropositivo”, revelei, num choque de adrenalina que me fez disparar o coração.

L. ficou paralisada, por um instante. Seus braços caíram, retos e paralelos, ao lado do corpo. E franziu as sobrancelhas.

“— É mesmo?”

“— Sim, L.”, pausei.

Ela ficou quieta por mais dois instantes.

“— Mas… você está bem?”, perguntou.

“— Estou, sim”, respondi. “Já faço tratamento. Minha carga viral é indetectável desde o segundo mês, e nunca subiu. Estou muito bem, sim.”

L. então agarrou cuidadosamente minha mão e puxou para seu lado, fazendo-me aproximar dela. Em seguida, um beijo. Tal e qual nosso primeiro beijo. O mesmo beijo da noite anterior. E o mesmo beijo de minutos antes. Dele, só me escapou um sorriso.

Seguimos para um bar. Uma charmosa cantora de cabelos louros, voz aveludada, debruçava-se sobre o piano de cauda preto. Tocava jazz. Em nossa mesa, L. começou a disparar perguntas. Foram várias. Da origem da minha infecção ao momento do diagnóstico. Do sexo oral à possibilidade de ter filhos comigo. Falamos sobre PEP e descrevi a tabela mostrada pelo doutor. Expliquei tudo o que sabia. Não demorou para que L. desse seu veredito.

“— É claro que eu preferia que não fosse assim… Mas, eu penso que, se temos um problema diante de nós não fugimos e fazemos algo para superá-lo”, disse ela. Em seguida, olhando para frente, concluiu: “Quero antes conversar com alguns professores e com minha ginecologista, claro. Mas já te digo que isso não é um impedimento para mim.”

Flagrando meu sorriso estampado no rosto, ela me beijou. Ficamos ali, juntos e em silêncio, por alguns instantes. Enquanto a música continuava a tocar. Era o nirvana. Um sorriso estampado de orelha a orelha que me perseguia por todo o dia seguinte. Por onde quer que eu andasse, meus dentes à mostra denunciavam minha incontrolável felicidade. Afinal, o mundo não parecia ser tão mal assim. O HIV, hoje, não é mais o que foi no passado e essa constatação dava sinais de já ser universal. Minha alegria perdurou, intensa, por toda a tarde de domingo. Até o momento em que mandei uma mensagem a L.

“Como você está?”

“Não estou bem. Não dormi bem. Estou confusa. Não sei como vou lidar com a situação.”

Ao longo da semana seguinte, L. procurou dois de seus professores da faculdade de medicina em que ela estudava. Ambos disseram que, caso optasse por continuar comigo, ela deveria ir a todas as minhas consultas comigo, garantir que eu estivesse tomando o remédio religiosamente todos os dias e no horário certo e acompanhar de perto minha carga viral e o meu CD4. Lembraram-na de que embora o risco de transmissão fosse baixo ele não era zero. E discordaram do Dr. Esper: caso a camisinha estourasse, a PEP seria recomendada, sim — e, àquela altura, o protocolo atualizado ainda não havia sido publicado para argumentar o contrário.

Embora angustiado com a possibilidade de perdê-la, tinha certo para mim que a reviravolta ainda aconteceria, e que isso nada mais era que o processo de digestão da indigesta notícia que é esta, afinal. Acreditei nisso. Até quinta-feira, quando recebi uma carta sua em meu e-mail, bem escrita, cuja frase final era:

“Desculpe. Eu não consigo.”

Depois de responder, de maneira sincera, amorosa e bem redigida, aguardei um dia e mandei uma mensagem para seu celular.

“L., eu respeito sua decisão. Mas, para não encerrarmos isso dessa maneira, podemos pelo menos nos ver?”

“Jovem, eu acho melhor não.”

Foi em 2013. Sim, faz algum tempo. E essa história não é regra e nem exceção, apenas algo que acontece. Outras histórias tiveram desfechos diferentes. Então, por que relembrar bem aquela que não teve final feliz? Talvez, porque como disse Marvell L. Terry, “toda vez que eu expresso essas palavras, lembro de como é difícil dizer a alguém que eu tenho HIV.” Algo que eu estou prestes a fazer novamente — e o que nos leva à próxima história: Quando e como devo contar a R. que eu tenho HIV?

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Consulta pública sobre os exames de CD4


logo_dstaidsO Ministério da Saúde determinou a ampliação, por mais 10 dias, do prazo da consulta pública sobre a “Periodicidade de consultas e seguimento laboratorial”, do Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) para Manejo da Infecção pelo HIV em Adultos. A atualização do protocolo prevê a diminuição da frequência de exames de CD4 (linfócitos T-CD4+) em algumas circunstâncias clínicas.

A proposta em consulta pública é necessária para melhorar a relação custo-efetividade do manejo do HIV no âmbito do SUS e baseia-se em evidências científicas e foi discutida no âmbito do comitê assessor para Terapia Antirretroviral em Adultos Infectados pelo HIV.

Desse modo, considera-se o uso mais racional do CD4 e reforça que nos pacientes estáveis, em uso de terapia antirretroviral e com carga viral indetectável, o foco do monitoramento laboratorial deve ser a detecção precoce de falha virológica. O resumo da proposta é que o exame de CD4 não deverá ser utilizado para o monitoramento clínico de uma pessoa vivendo com HIV/aids quando todas as seguintes condições abaixo estiverem presentes:

  1. Paciente assintomático;
  2. Em terapia antirretroviral (TARV);
  3. Com carga viral indetectável;
  4. Tenha apresentado dois exames consecutivos de CD4 com resultado superior a 350, com intervalo mínimo de 6 meses entre eles.

A proposta não prevê o fim dos exames de CD4, que são de fundamental importância para o monitoramento epidemiológico. O exame continuará sendo o principal teste de entrada do paciente no sistema público de saúde, logo após o teste positivo para o HIV.  A consulta pública está disponível no endereço: www.saude.gov.br/consultapublica, até o dia 20/06.


 

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Vasos recém-descobertos podem ligar o cérebro ao sistema imune


The-Guardian-logo1Cientistas descobriram uma ligação entre o cérebro e o sistema imune que pode ajudar a explicar a conexão entre problemas de saúde física ruim e problemas cerebrais, incluindo Mal de Alzheimer e depressão.

A descoberta de vasos, situados logo abaixo do crânio, derruba o que vem sendo ensinado há décadas e pode abrir caminho para novas abordagens para o tratamento de doenças do cérebro. Os cientistas por trás da descoberta expressaram surpresa por ter descoberto uma grande estrutura anatômica que até agora tinha sido completamente negligenciada.

“Eu pensei que o corpo estivesse mapeado e que estas descobertas terminaram por volta de meados do século passado. Mas, aparentemente, elas não terminaram.”

“Baseado no que aprendemos, estes vasos não deveriam estar lá”, disse Jonathan Kipnis, que conduziu o trabalho na Universidade de Virgínia. “Eu pensei que o corpo estivesse mapeado e que estas descobertas terminaram por volta de meados do século passado. Mas, aparentemente, elas não terminaram.” Essa descoberta pode fornecer uma base biológica para as crescentes evidências de que a saúde mental e o estado do sistema imune estão intimamente ligados.

Pessoas com diabetes, uma doença autoimune, são 65% mais propensas a desenvolver demência, segundo revelou um estudo no início deste ano. Outra pesquisa recente mostrou que pacientes com Alzheimer que sofreram infecções frequentes, tais como tosses e resfriados, tiveram quatro vezes mais declínio em testes de memória, durante um período de seis meses, em comparação com pacientes com baixos níveis de infecção.

No entanto, não ficou claro se essas conclusões têm bases fisiológicas reais ou se simplesmente refletem fatores como estilo de vida, dieta e sedentarismo, os quais degradaram a saúde mental e física de forma independente.

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O sistema linfático como era entendido antes desta descoberta, e, à esquerda, com os novos vasos incluídos. Foto: University of Virginia

“Acreditamos que para cada doença neurológica que tem um componente imune associado a ela, estes vasos podem desempenhar um papel importante”, disse Kipnis. “No Mal de Alzheimer, há acumulação de grandes pedaços de proteína no cérebro. Achamos que elas podem estar se acumulando no cérebro porque não estão sendo eficientemente removidas pelos vasos.” Ele acrescenta que uma condição como a diabetes, que impacta o sistema imunológico por todo o corpo, também poderia prejudicar a capacidade do cérebro de limpar as proteínas tóxicas que são a principal característica da doença. Segundo os cientistas, a função precisa dos vasos continua, por enquanto, sob especulação. Fazer novas perguntas será o foco da próxima fase da pesquisa.

A nova anatomia é uma extensão do sistema linfático, uma rede de vasos que corre em paralelo com a vasculatura do corpo, levando células do sistema imunes, ao invés de sangue. Em vez de parar na base do crânio, descobriu-se que esses vasos estendem-se ao longo das meninges, uma membrana que envolve o cérebro e a medula espinhal. Segundo Kipnis, os vasos foram negligenciados provavelmente porque as meninges são frequentemente consideradas como embalagens que envolvem o cérebro, ao invés de um pedaço da anatomia com sua função própria. “Na literatura médica para estudantes, a primeira instrução é ‘remover meninges'”, disse ele. “As pessoas não são tão interessado nesta área do cérebro.”

A descoberta veio depois que os cientistas desenvolveram uma maneira de observar as meninges de ratos de maneira que pudessem ser examinadas como um todo. Depois de perceber, sob o microscópio, padrões de vasos na distribuição das células do sistema imunológico, eles embarcaram em uma série de testes que provaram que estavam olhando para os vasos linfáticos que servem o líquido cefalorraquidiano, o líquido que reveste o cérebro e a medula espinhal.

“Vão ter que mudar os livros didáticos. Nunca houve um sistema linfático para o sistema nervoso central, e ficou muito claro que esta era uma observação singular.”

Experimentos preliminares sugerem que essa mesma anatomia existe nas pessoas, de acordo com uma pesquisa publicada esta semana na revista Nature. “Estamos muito confiantes de que os vasos estão em seres humanos também”, disse Kipnis. Kevin Lee, um neurocientista da Universidade de Virgínia e coautor do estudo, disse: “A primeira vez que esses caras me mostraram o resultado inicial, eu só disse uma frase: ‘Vão ter que mudar os livros didáticos. Nunca houve um sistema linfático para o sistema nervoso central, e ficou muito claro que esta era uma observação singular.'”

“É bom ser cauteloso diante de resultados de estudos epidemiológicos sobre os quais não se pode ter certeza sobre o nexo de causalidade e correlação.”

A descoberta de uma nova peça de anatomia do cérebro foi recebida com entusiasmo pelos cientistas, embora alguns fossem mais cautelosos sobre o potencial papel dos vasos em doenças. Nick Fox, professor de neurologia da University College London, disse que a possibilidade de ligações entre doenças imunes e Mal de Alzheimer está rapidamente se tornando um “tema quente e controverso.” Ele disse que “é bom ser cauteloso diante de resultados de estudos epidemiológicos sobre os quais não se pode ter certeza sobre o nexo de causalidade e correlação. E é importante notar que os estudos com medicamentos anti-inflamatórios [alvo da resposta imune] não têm sido bem sucedidos contra o Mal de Alzheimer, embora, talvez, eles não tenham sido dados aos pacientes cedo o suficiente.” Essa descoberta, disse ele, poderia ajudar a descobrir a verdadeira natureza de qualquer conexão entre as doenças e o sistema imune.

James Nicoll, professor de neuropatologia da Universidade de Southampton, disse: “É provável que este seja um achado importante em relação à compreensão das condições infecciosas e inflamatórias do cérebro, desde que os resultados sejam confirmados por outros cientistas e em seres humanos.” Ele se mostrou desapontado, porém, que os autores não tenham verificado mais cuidadosamente suas conclusões em seres humanos. “Nem todas as experiências que eles fizeram poderiam ser feitas em seres humanos, mas algo poderia ter sido feito para confirmar a presença de canais semelhantes”, disse ele.

“A metodologia é muito impressionante, mas os resultados devem ser interpretados com cautela.”

Roxana Carare, professora associada de envelhecimento vascular cerebral na Universidade de Southampton, disse: “As ligações descritas estão entre as membranas do cérebro e do sistema imune, ao invés do próprio cérebro e do sistema imune. A metodologia é muito impressionante, mas os resultados devem ser interpretados com cautela no contexto das doenças que afetam o próprio tecido do cérebro.”


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Novo protocolo brasileiro de profilaxia pós-exposição

Desde a década de 90, o Sistema Único de Saúde (SUS) oferece a profilaxia pós-exposição (PEP), a pessoas acidentalmente expostas ao HIV, a qual consiste no uso de antirretrovirais, que devem ser iniciados em até 72 horas a contar da possível exposição ao vírus e mantidos ao longo de 28 dias, como forma de prevenir a infecção. É a “pílula do dia seguinte do HIV”.

A PEP foi inicialmente implantada só para casos de acidentes de trabalho com profissionais de saúde, quando são expostos a materiais contaminados ou têm a luva perfurada por objetos cortantes no trato com paciente soropositivo ou de sorologia desconhecida. Em 2011, a PEP foi estendida para vítimas de violência sexual e, desde 2012, ampliada para qualquer acidente sexual, incluindo o não uso ou o rompimento do preservativo. Desde 2010, a oferta de PEP quase dobrou, passando de 12 mil tratamentos para 22 mil, em 2014.

Agora, o Ministério da Saúde, assessorado pela Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (CONITEC), colocou em consulta pública o novo Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) da PEP. Os PCDT são documentos que visam a “garantir o melhor cuidado de saúde possível diante do contexto brasileiro e dos recursos disponíveis no Sistema Único de Saúde. Podem ser utilizados como material educativo dirigido a profissionais de saúde, como auxílio administrativo aos gestores, como parâmetro de boas práticas assistenciais perante o Poder Judiciário e como documento de garantia de direitos aos usuários do SUS.” A consulta pública segue aberta para sugestões, à disposição dos profissionais de saúde e do público geral, até o dia 18 de junho.

“A nova proposta aprimora a atenção, uniformizando o tratamento, o que irá facilitar não só a dispensação dos medicamentos para os profissionais de saúde, mas também a ampliação do acesso da população a esse procedimento.”

O diretor do Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais do Ministério da Saúde, Fábio Mesquita, explica que os procedimentos anteriores tinham uma diversidade de esquemas de medicações que acabavam por criar dificuldades na utilização nos serviços locais não especializados. “A nova proposta aprimora a atenção, uniformizando o tratamento, o que irá facilitar não só a dispensação dos medicamentos para os profissionais de saúde, mas também a ampliação do acesso da população a esse procedimento”, destacou o diretor.

O novo protocolo sugere extinguir a diferenciação entre categorias de PEP — acidente ocupacional, violência sexual e acidente sexual — e apresenta a recomendação de um único esquema de antirretrovirais para todos os tipos de acidentes: Tenofovir + Lamivudina + Atazanavir com Ritonavir, que devem ser iniciados em até 72 horas a contar da exposição ao HIV e mantidos durante 28 dias. Além disso, sugere a redução do tempo de acompanhamento dos pacientes de seis para três meses e o estabelecimento de critérios mais objetivos para indicação de PEP. O novo protocolo recomenda que a PEP seja indicada nos seguintes casos:

  1. Quando o parceiro sexual tem teste negativo para o HIV, porém inclui histórico de exposição de risco nos últimos 30 dias para os testes a partir de amostras de sangue ou, caso o resultado do teste seja por fluído oral, nos últimos 90 dias — as respectivas janelas imunológicas atuais de cada um dos testes.
  2. Quando o parceiro sexual tem sorologia desconhecida, seja porque este não fez o teste de HIV, porque tem resultados de testes discordantes ou porque é impossível obter ou realizar seu teste diagnóstico.
  3. Quando o parceiro sexual tem sorologia sabidamente positiva.

“A  PEP  não  estará  indicada  quando,  apesar  da  pessoa  fonte  ser  infectada  pelo  HIV,  estiver  em  uso  regular  de  terapia antirretroviral,  com  carga  viral  recente indetectável.”

Entretanto, o novo texto claramente destaca que a “a  PEP  não  estará  indicada  quando,  apesar  da  pessoa  fonte  ser  infectada  pelo  HIV,  estiver  em  uso  regular  de  terapia antirretroviral (TARV),  com  carga  viral  recente indetectável  (carga  viral  realizada nos  últimos  seis  meses). Uma  vez  que  nessa  situação o risco de transmissão do HIV é muito baixo.” Evidentemente, a PEP também não é indicada para acidentes sexuais com parceiros sabidamente negativos para o HIV, isto é, aqueles que tenham feito teste de HIV com resultado negativo respeitando o período da janela imunológica.

Esse é um dos primeiros documentos oficiais brasileiros que reconhece a segurança do Tratamento como Prevenção (ou TasP, do inglês treatment as prevention) e acompanha a recomendação de outros países — assim como a British HIV Association, que não mais recomenda PEP após exposição ocupacional com uma fonte com carga viral indetectável.


mapsA PEP deve estar disponível nos Serviços de Atenção Especializada em HIV/aids (SAE), segundo recomendação do Ministério da Saúde. Clique aqui e veja os endereços e telefones dos SAE, em todo o país. Informe-se nesses serviços, sobre os locais disponíveis na sua cidade para o atendimento de urgência à noite e nos finais de semana.
INI:Fiocruz

Fiocruz vai testar novo medicamento para prevenir HIV


Por Juana Portugal para INI/Fiocruz em 15 de maio de 2015

INI:Fiocruz

O Laboratório de Pesquisa Clínica em DST e Aids, do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas (INI/Fiocruz), conduzirá o estudo clínico HPTN077 com um medicamento totalmente novo para prevenção da aids. A droga, conhecida como GSK1265744, já mostrou resultados positivos em testes conduzidos para tratamento da aids, e agora terá seu potencial testado como parte da estratégia de prevenção da infecção pelo HIV. A pesquisa será realizada simultaneamente na África do Sul, no Brasil, nos EUA e no Malawi.

Seleção de voluntários

Os candidatos a participar da pesquisa serão selecionados na Fundação Oswaldo Cruz. “Este critério tem como objetivo potencializar a adesão, facilitar a administração do medicamento e o acompanhamento clínico”, explica Beatriz Grinsztejn, coordenadora do Laboratório e pesquisadora líder do estudo. A proposta do projeto é avaliar a segurança, tolerância, aceitabilidade e sua farmacocinética (descrevendo o processamento da droga no corpo humano, identificando o caminho percorrido no organismo da administração à excreção).

Depois de passar por uma avaliação completa do estado de saúde, serão selecionados 20 voluntários entre os candidatos inscritos, homens e mulheres, de 18 a 65 anos, não infectados e com baixo risco de contrair o HIV. O remédio, que já provou ser seguro em testes anteriores, é injetável, será aplicado a cada três meses e o acompanhamento dos voluntários terá uma duração total de dois anos.

Estado da arte das estratégias de prevenção

“Queremos que exista diversidade nas estratégias de prevenção do HIV/aids. Assim cada pessoa escolherá o que melhor se adapta à rotina dela.”

Atualmente, estudos como o de Profilaxia Pré-exposição ao HIV (PrEP) já demonstraram que é possível obter 100% de proteção contra a infecção ao longo do tempo, mas para tal é necessária a ingestão diária de um antirretroviral. “Costumamos fazer uma analogia com os anticoncepcionais. Existem alternativas das mais diversas, desde o comprimido diário, até o DIU, passando por injeções trimestrais, a camisinha, enfim. Queremos que exista essa mesma diversidade nas estratégias de prevenção do HIV/aids. Assim cada pessoa escolherá o que melhor se adapta à rotina dela”, pondera Beatriz.

“Estamos no momento privilegiado, do estado da arte em que se gera mais conhecimento, se faz ciência.”

A Rede de Testes de Prevenção do HIV (The HIV Prevention Trials Network – HTPN), é uma organização colaborativa mundial que realiza estudos clínicos da segurança e eficácia de estratégias de prevenção do HIV financiada pelo governo americano. “O Brasil participa de pesquisas de ponta no tratamento e prevenção da aids da HPTN, mas sempre em fases mais adiantadas. Neste caso, que envolve um estudo em seus primeiros estágios, estamos no momento privilegiado, do estado da arte em que se gera mais conhecimento, se faz ciência. Lutamos que estudos assim sejam feitos com a população brasileira, pois assim teremos resultados que respondam à nossa diversidade genética, à nossa realidade. Desta forma teremos um conhecimento melhor do manuseio do produto, reações adversas, etc., e podemos conduzir melhor as fases posteriores da investigação”, conclui a pesquisadora.


NIH

Quando começar o tratamento?


Publicado pelo National Institutes of Health em 27 de maio de 2015

NIHUm grande estudo clínico randominzado internacional concluiu que indivíduos infectados pelo HIV têm risco consideravelmente reduzido de desenvolver aids ou outras doenças graves se o tratamento antirretroviral for iniciado cedo, quando a contagem de células T CD4+ — um importante medidor da saúde do sistema imune — está mais alta, ao invés de esperar até que a contagem de CD4+ caia para níveis mais baixos. Juntando este a estudos anteriores, que mostram que o tratamento antirretroviral reduz o risco de transmissão do HIV para parceiros sexuais não infectados, estas descobertas encorajam oferecer tratamento para todas as pessoas com HIV.

A nova descoberta vem do estudo Strategic Timing of Antiretroviral Treatment (START), o primeiro estudo randomizado em larga escala que concluiu que o tratamento antirretroviral iniciado cedo beneficia todos os indivíduos portadores do HIV. O National Institute of Allergy and Infectious Diseases (NIAID), parte do National Institutes of Health (NIH), proveu o financiamento inicial para o estudo START. Embora era esperado que o estudo fosse concluído ao final de 2016, uma avaliação interina dos dados do estudo, feita por um conselho independente de monitoramento de dados e de segurança, recomendou que os resultados fossem divulgados antes.

“Agora nós temos a prova nítida de que é significativamente melhor para a saúde de um indivíduo infectado pelo HIV começar a terapia antirretroviral cedo, ao invés de tarde.”

“Agora nós temos a prova nítida de que é significativamente melhor para a saúde de um indivíduo infectado pelo HIV começar a terapia antirretroviral cedo, ao invés de tarde”, afirmou o diredor da NIAID, Dr. Anthony S. Fauci. “Além do mais, a terapia iniciada cedo comporta um duplo benefício, não apenas de melhorar a saúde dos indivíduos mas, ao mesmo tempo, ao reduzir a carga viral, de reduzir o risco de transmissão do HIV para outras pessoas. Estas descobertas têm implicações globais para o tratamento de HIV.”

“Este é um importante marco na pesquisa do HIV.”

“Este é um importante marco na pesquisa do HIV”, afirma o Dr. Jens Lundgren, da Universidade de Copenhague e um dos copresidentes do estudo START. “Agora nós temos fortes evidências de que o tratamento iniciado cedo é benéfico para os soropositivos. Estes resultados reforçam tratar todos, independentemente de sua contagem de células T CD4+”

O estudo START, que foi amplamente aberto em março de 2011, foi conduzido pelo International Network for Strategic Initiatives in Global HIV Trials (INSIGHT) em 215 bases em 35 países. Foram inscritos 4.685 homens e mulheres infectados pelo HIV, com pelo menos 18 anos de idade e uma média de 36 anos. Os participantes nunca haviam feito terapia antirretroviral e foram inscritos com contagens de CD4+ dentro da normalidade — acima de 500 células por milímetro cúbico (células/mm³). Aproximadamente metade dos participantes do estudo foram randomizados para iniciar o tratamento antirretroviral imediatamente (cedo) e a outra metade foi randomizada para adiar o tratamento até que sua contagem de células caísse para 350 células/mm³. Em média, os participantes do estudo foram acompanhados por três anos.

O estudo mediu uma combinação de resultados, os quais incluíram casos sérios ligados à aids (como câncer relacionado à aids), casos graves não ligados à aids (problemas cardiovasculares, renais, doença e câncer no fígado) e morte. Baseado nos dados de março de 2015, o conselho independente de monitoramento de dados e de segurança identificou 41 casos de aids, casos graves não ligados à aids ou morte entre aqueles inscritos no grupo que iniciou o tratamento cedo, comparado a 86 casos no grupo que adiou o tratamento. A avaliação interina do conselho identificou que o risco de desenvolvimento de doenças graves e morte foi reduzido em 53% entre aqueles que iniciaram o tratamento cedo, comparados aqueles que adiaram o tratamento.

Ambas as taxas de casos graves relacionados à aids e casos graves não relacionados à aids foram menores no grupo que iniciou o tratamento cedo, em relação ao grupo que adiou o tratamento. A redução do risco foi mais evidente para casos relacionados à aids. As descobertas foram consistentes para todas as regiões geográficas e os benefícios do tratamento iniciado cedo foram parecidos tanto em países desenvolvidos quanto em desenvolvimento.

“As descobertas definitivas de um estudo randomizado como o START devem influenciar no cuidado de saúde de milhões de indivíduos soropositivos no mundo todo.”

“O estudo foi rigoroso e os resultados são claros”, afirma o cientista e diretor do INSIGHT, Dr. James D. Neaton, professor de bioestatística na Universidade de Minnesota, em Minneapolis, nos Estados Unidos. “As descobertas definitivas de um estudo randomizado como o START devem influenciar no cuidado de saúde de milhões de indivíduos soropositivos no mundo todo.” A Universidade de Minnesota foi a reguladora da gestão do centro de dados e estatística.

Antes do estudo START, não havia evidência a partir de estudo randomizado controlado que guiasse o momento de início do tratamento para indivíduos com contagens de células CD4+ altas. As evidências anteriores que reforçavam iniciar o tratamento em indivíduos com contagens superiores a 350 estava limitada a estudos não randomizados ou observacionais, além da opinião de especialistas.

O START é o primeiro estudo randomizado em larga escala que oferece evidência científica concreta que apoia o atual U.S. HIV treatment guidelines, o qual recomenda que todos os indivíduos infectados pelo HIV e assintomáticos tomem antirretrovirais, independentemente de sua contagem de células CD4+. [Atualmente, o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) brasileiro recomenda que a terapia antirretroviral seja considerada em casos de neoplasias não definidoras de aids com indicação de quimioterapia ou radioterapia, doença cardiovascular estabelecida ou risco cardiovascular elevado, coinfecção com HCV ou carga viral do HIV superior a 100 mil cópias e iniciada imediatamente em qualquer indivíduo com contagem de CD4+ inferior a 500 e em qualquer contagem em caso de coinfecção com hepatite B.] As atuais diretrizes da Organização Mundial da Saúde (OMS) recomendam que indivíduos infectados pelo HIV comecem a terapia antirretroviral quando a contagem de células CD4+ cair para 500 células/mm³ ou menos.

Sob a luz das descobertas do conselho independente de monitoramento de dados e de segurança, os cientistas estão informando todos os participantes do estudo sobre os resultados interinos. Será oferecido tratamento antirretroviral aos participantes que ainda não o iniciaram, e eles continuarão a ser acompanhados até 2016.

Os medicamentos para HIV usados no estudo são medicamentos aprovados e doados pela AbbVie Inc., Bristol-Myers Squibb, Gilead Sciences, GlaxoSmithKline/ViiV Healthcare, Janssen Scientific Affairs LLC e Merck Sharp & Dohme Corp. Além do NIAID, o financiamento ao estudo START veio de outras entidades do NIH, incluindo o National Cancer Institute, National Heart, Lung and Blood Institute, National Institute of Mental Health, National Institute of Neurological Disorders and Stroke, Eunice Kennedy Shriver National Institute of Child Health and Human Development, NIH Clinical Center e National Institute of Arthritis and Musculoskeletal and Skin Diseases, nos Estados Unidos. O financiamento também foi fornecido pela Agence Nationale de Recherches sur le Sida et les Hépatites Virales (ANRS) na França, pela Bundesministerium für Bildung und Forschung (BMBF), na Alemanha, pela European Aids Treatment Network e por organizações governamentais da Austrália, Dinamarca e Reino Unido.

A Medical Research Council Clinical Trials Unit na University College London, o Copenhagen HIV Program, em Rigshospitalet, e a University of Copenhagen, na Dinamarca, o Kirby Institute, da University of New South Wales, em Sidney, na Austrália, e o Veterans Affairs Medical Center, afiliado à George Washington University, em Washington, D.C., nos Estados Unidos, coordenaram os trabalhos do estudo START em suas 215 bases.

Para mais informações sobre o estudo START, veja as Perguntas e Respostas ou visite ClinicalTrials.gov e use o identificador NCT00867048.


* Para saber mais sobre as diretrizes de tratamento com antirretrovirais no Brasil e no mundo, assista a palestra do Dr. Érico Arruda, médico infectologista do Hospital São José de Doenças Infecciosas e presidente da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), no X Congresso de Patogênese do HIV, em 9 de abril de 2015:

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O maior inimigo da Gilead Sciences


Por George Budwell para The Motley Fool em 17 de maio de 2015

Quando se trata de desenvolvimento de tratamento para doenças infecciosas, a Gilead Sciences (NASDAQ: GILD) é líder. Os regimes de medicamentos para o HIV em comprimido único, por exemplo, passaram a dominar o mercado, tanto os Estados Unidos quanto na União Europeia.

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Na luta contra a hepatite C, a Gilead estima que, com a Sovaldi e Harvoni, atualmente controla cerca de 90% do mercado, esmagando seus concorrentes mais próximos, como a AbbVie (NYSE: ABBV) e a Bristol-Myers Squibb (NYSE: BMY). Por causa do impressionante sucesso da Gilead em seus novos medicamentos contra doenças infecciosas, seu fluxo de caixa operacional tem voado mais alto nos últimos 12 meses:

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Assim, a Gilead foi capaz de premiar os acionistas com um maciço programa de recompra de ações de US$ 15 bilhões e através do pagamento do dividendo trimestral, que está definido para começar a ser repartido no segundo trimestre deste ano. Apesar de tudo, o preço de uma ação da empresa tem ficado para trás no setor de biotecnologia.

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O aspecto mais confuso sobre o desempenho do preço das ações da Gilead é o fato de que o mercado tem, basicamente, esnobado os lucros da empresa em favor de suas colegas mais próximas, como Biogen (NASDAQ: BIIB) e Celgene (NASDAQ: CELG).

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O gráfico acima mostra que, durante o ano passado, o mercado esteve disposto a pagar mais do que o dobro do valor para os lucros da Biogen e da Celgene, em comparação com o lucro a Gilead. Se você acha que parece irracional, que parece que o mercado não está entendendo a empresa, tenho uma notícia decepcionante para você: a ciência da Gilead é tão boa que ela é, na verdade, capaz de destruir o próprio negócio da empresa.

Empresas farmacêuticas, como a maioria das outras empresas, obtém a maior parte de sua receita através da repetição de negócios. A Gilead, no entanto, está realmente fazendo algo que nenhuma outra farmacêutica está fazendo: curando pacientes de doenças infecciosas devastadoras.

Tratamentos biotecnológicos para hepatite C são basicamente curas funcionais para mais de 90% dos pacientes que os tomam. Como resultado, há uma chance real que o mercado para esses medicamentos poderia afundar dentro dos próximos 5 a 10 anos, especialmente nos países ocidentais, onde os níveis de infecções por hepatite C têm estado em declínio desde que os procedimentos de triagem de sangue foram implementados, na década de 1990.

Para piorar as coisas, a Gilead está rapidamente desenvolvendo uma nova combinação de comprimido que poderia reduzir a duração média deste tratamento pela metade. Isso é uma grande notícia para os pacientes e para os médicos que lutam a doença, mas também significa que cerca de metade das receitas da Gilead oriundas do tratamento da hepatite C poderiam evaporar num futuro não tão distante.

Gilead

Agora, a Gilead está indo atrás de uma cura para o HIV. De acordo com uma recente apresentação para investidores, a empresa iniciou um pequeno estudo de segurança para o GS-9620, parte de uma estratégia de erradicação viral para pacientes infectados com o HIV chamada de “chutar e matar”.

Até agora, abordagens semelhantes foram apenas parcialmente eficazes, porque estas drogas experimentais não foram capazes de ativar todas as células que transportam o HIV de uma só vez. Mas o GS-9620 da Gilead é um ativador imunológico extremamente potente, mostrado por seus ensaios clínicos como um potencial tratamento para a hepatite B.

Em suma, ao curar o HIV, a Gilead poderia estar comendo um enorme pedaço de seu principal negócio dentro dos próximos três anos. Mais uma vez, isso seria uma incrível notícia para pacientes com HIV, mas ajuda a mostrar por que o mercado não valoriza os ganhos da Gilead como tem feito com suas colegas.

E agora?

Minha opinião é que a Gilead está começando uma transição para longe das doenças infecciosas, a fim de se concentrar em oncologia. A recente aquisição da empresa de capital fechado EpiTherapeutics para estudar uma pré droga candidata a tratar câncer e o rápido crescimento do programa clínico para vários tipos de câncer parecer sugerir que o objetivo da Gilead é, de fato, tornar-se uma empresa de oncologia.

Olhando para o futuro, acredito que a Gilead irá utilizar seu crescente caixa, de mais de US$ 14 bilhões, para reforçar significativamente sua pegada no tratamento do câncer. Esse movimento poderia forçar o mercado a reavaliar sua perspectiva sobre a biotecnologia e seria, portanto, um evento enorme de criação de valor para os acionistas.