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Freddie Mercury

Foi em 13 de julho de 1985 que Freddie Mercury e os demais integrantes do Queen — o guitarrista Brian May, o baterista Roger Taylor e o baixista John Deacon — subiram no palco do Wembley Stadium, em Londres. Um público de 72 mil pessoas cantou junto com o vocalista todas as músicas da banda “como se tivessem esperado o dia todo por isso”, escreveu Mikal Gilmore para a revista Rolling Stone.

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“Queen começou e terminou com Freddie Mercury. Ele encarnou a identidade da banda, seus triunfos e fracassos. E era a psique, com cuja perda a banda não poderia sobreviver”, afirmou Gilmore. Neste sábado, 5 de setembro, Freddie faria 69 anos — não tivesse sido levado pela aids, em 24 de novembro de 1991, vítima de broncopneumonia decorrente da doença. Na noite em que Freddie morreu, o músico e amigo Dave Clarke estava ao seu lado, fazendo vigília na cabeceira da cama, logo depois de Mary Austin, ex-namorada de Freddie e sua amiga mais próxima. Também estavam na casa Joe Fanelli, seu amigo, Peter Freestone, seu assistente, e Jim Hutton, seu parceiro. Para o jornal britânico Daily Mail, em 26 de novembro de 1991, Clarke contou que Freddie “apenas adormeceu”.

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“Quando ele foi diagnosticado, apenas um punhado de pessoas sabiam. No começo, nem mesmo a banda sabia. Sua família não sabia.”

“Deixamos Freddie o mais confortável que podíamos”, disse Clarke, numa entrevista concedida em 2011. “Seu quarto tinha uma sala adjacente e uma vista para seu belo jardim. Ele se sentia grato por tudo e por seus amigos.” Clarke e Mercury eram amigos desde que se conheceram, em 1976, depois de um show do Queen no Hyde Park, em Londres. “Freddie me confidenciou muita coisa. Quando ele foi diagnosticado, apenas um punhado de pessoas sabiam. No começo, nem mesmo a banda sabia. Sua família não sabia” — o que não impedia os tabloides de especular, na medida em que sua aparência começou a ser abatida pela aids.

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The Miracle, o 13º álbum do Queen, foi concluído no início de 1989 e o vocalista queria começar a gravar outro disco de imediato — mas, para isso, era preciso justificar aos seus colegas de banda o porquê de tanta pressa. “Ele apenas nos convidou até a sua casa para uma reunião”, contou o baterista, Roger Taylor. Freddie então disse a seus companheiros de banda: “Vocês provavelmente sabem qual é o meu problema. Bem, é isso. Eu não quero que isso faça qualquer diferença. Eu não quero que as pessoas saibam disso. Eu não quero falar sobre isso. Eu só quero trabalhar até cair. E eu gostaria que vocês me apoiassem.” Brian May conta que essa foi a única conversa que tiveram sobre o tema. E que todos ficaram ao lado de Freddie, respeitando o seu sigilo: “Mentimos descaradamente para proteger sua privacidade.”

A banda se deu conta que estava diante de seu último projeto. “Fomos muito conscientes em direção ao fim”, disse Brian. “Por incrível que pareça, havia montes de alegria. Freddie estava com dor, mas dentro do estúdio havia uma espécie de proteção e ele conseguia ser feliz e desfrutar daquilo que gostava e fazia de melhor. Quando não conseguia mais ficar em pé, ele se apoiava contra uma mesa, tomava vodka e dizia: ‘Eu vou cantar até sangrar!'”, conta Brian. “Às vezes, Freddie não era capaz de vocalizar [o que ele queria dizer], e acho que Roger e eu meio que vocalizávamos por ele, escrevendo algumas das letras. Afinal, ele estava quase além do ponto de conseguir colocar seus pensamentos em palavras. Músicas como ‘The Show Must Go On’, no meu caso, e ‘Days of Our Lives’, no caso de Roger, foram presentes que demos para Freddie.” Nessa altura, a gravadora Hollywood Records propôs um videoclipe. Freddie entrou Limestone Studios em 30 de maio de 1991 — a última vez em que esteve na frente de uma câmera.

“Trabalhar o ajudava a ter coragem para enfrentar a doença.”

Depois de Innuendo, Freddie ainda queria continuar a gravar e, se possível, terminar mais um álbum. “Freddie me disse: ‘Escreva para mim… Continue me mandando letras. Eu vou cantar'”, recorda Brian. Essa gravações foram lançadas em 1995, no disco Made in Heaven. “Ele continuou porque era isso o que gostava”, conta Mary Austin. “Trabalhar o ajudava a ter coragem para enfrentar a doença.” Jim Hutton, parceiro de Freddie que esteve com ele no final de sua vida, concordou: “Sem a música, ele não teria sobrevivido.”

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Foi em setembro de 1991, depois de ter gravado o quanto podia, que Freddie Mercury se resguardou em sua casa em Kensington, no distrito do oeste de Londres. Segundo Peter Freestone, ele continuou cauteloso com relação a seus pais e não contou para eles sobre a sua sorologia positiva. “Ele queria protegê-los de coisas que eles não entenderiam ou não aceitariam.” Anos mais tarde, no entanto, sua mãe revelou: “Ele não queria nos machucar, mas nós sabíamos o tempo todo.”

“Freddie tentou de tudo. Ele recebia novos medicamentos especiais, transportados dos Estados Unidos pelo avião [supersônico] Concorde”, contou Clarke. “No fim, quando percebeu que não havia mais alegria, ele decidiu suspender os medicamentos.” Nos últimos dias, já com crises de cegueira, Freddie virou as costas para a maioria das pessoas que queriam visitá-lo. Não queria que vissem a maneira como seu corpo havia se degenerado. Freddie só revelou publicamente sua sorologia positiva um dia antes de morrer, na tarde de 23 de novembro de 1991, quando emitiu uma declaração admitindo sua condição:

“Seguindo as tantas conjecturas da imprensa, gostaria de confirmar que eu testei positivo para o HIV e tenho aids. Senti que era correto manter essas informações privadas, a fim de proteger a privacidade das pessoas à minha volta. No entanto, chegou a hora de meus amigos e fãs ao redor do mundo conhecerem a verdade. Espero que todos se juntem a mim, meus médicos e a todos aqueles de todo o mundo na luta contra esta terrível doença.”

Os amigos próximos disseram que o cantor parecia mais tranquilo depois de sua confissão. Na noite seguinte, Freddie se foi, aos 45 anos de idade.

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“Sempre acreditávamos que haveria uma cura, que ficaríamos bem. Precisava ser assim: tínhamos que manter o pensamento positivo.”

“Freddie amava a vida. Ele viveu em plenitude”, contou Clarke, que acredita que, se Freddie tivesse resistido por mais doze meses, provavelmente teria sobrevivido, graças ao advento da Zalcitabina (ddC), em 1992, o terceiro fármaco aprovado para o tratamento contra o HIV, depois da Didanosina (ddI) e da Zidovudina (AZT). “Sempre acreditávamos que haveria uma cura, que ficaríamos bem. Precisava ser assim: tínhamos que manter o pensamento positivo.” Ao Daily Mail, Clarke também disse acreditar que a próxima geração é a geração que vai vencer o vírus.

“Ele queria viver. Se estivesse por perto ainda hoje, eu tenho certeza que ele estaria se cuidando. E poderia ter dado ainda muito mais para para o mundo.”

“Freddie era maior que a vida. Era muito gentil e carinhoso. Sinto realmente muita falta do seu entusiasmo. Ele tinha um incrível senso de humor e sempre me fazia rir. Ele não levava a vida tão a sério e levantava seu ânimo. Ele queria viver. Se estivesse por perto ainda hoje, eu tenho certeza que ele estaria se cuidando. Freddie era muito orgulhoso. Adorava correr riscos — o que é minha filosofia também. Seu legado vai continuar para sempre. Suas canções e suas gravações são atemporais. Ele era um criador, um revolucionário extraordinário. Ele teria continuado. O que o motivava era a sua obra. Freddie sentia muita dor, mas nunca reclamou uma única vez. Não fazia drama. Não estava triste. Foi muito corajoso. E poderia ter dado ainda muito mais para para o mundo.”

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Singapura suaviza restrição a visitantes soropositivos


Por Annabelle Liang para Associated Press em 31 de agosto de 2015

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Nesta segunda-feira, dia 31 de agosto, Singapura afirmou ter suspendido a proibição, que vigorava há duas décadas, para pessoas infectadas pelo HIV entrarem no país, mas vai limitar sua estadia para um máximo de três meses. O Ministério da Saúde de Singapura disse que a proibição foi suspensa em 1º de abril, “dado o contexto atual de mais de 5 mil residentes de Singapura vivendo com o HIV e a disponibilidade de tratamento eficaz para a doença.”

“A lista negra de estrangeiros soropositivos foi recomendada no final de 1980, quando a doença era nova, fatal e nenhum tratamento eficaz estava disponível.”

A restrição de três meses é aparentemente destinada a impedir a estadia de longa duração por parte de estrangeiros, incluindo aqueles que procuram trabalhar na nação insular ou acompanhar uma criança estudando em Singapura. “A política de repatriação e a lista negra permanente de estrangeiros soropositivos foi recomendada no final de 1980, quando a doença era nova, fatal e nenhum tratamento eficaz estava disponível”, disse um porta-voz do ministério em uma resposta por e-mail para a Associated Press. Pelas leis de Singapura, o porta-voz não pode ser identificado.

Enquanto uma visita de curta duração “representa um risco adicional muito baixo de transmissão do HIV para a população local”, a proibição de longo prazo permanece como “um risco para a saúde pública que não é insignificante”, disse o porta-voz. Países como Austrália e Nova Zelândia têm restrições semelhantes para visitantes de longo prazo com HIV. Visitantes de curto prazo que vão a Singapura devem obter um Passe de Visita Social, que é válido por duas a quatro semanas, e pode, posteriormente, ser renovado por até três meses. Os portadores desse passe não são autorizados a trabalhar na cidade-estado.

O HIV, o vírus da imunodeficiência humana, ataca o sistema imunológico, tornando mais difícil para o organismo combater infecções. A síndrome da imunodeficiência adquirida (aids, na sigla em inglês) é a etapa final da infecção pelo HIV. Embora não exista cura, os tratamentos, tais como terapia antirretroviral, têm ajudado indivíduos a melhorar seus sistemas imunes, retardando a propagação do vírus.

“Precisamos de um ambiente de apoio que não discrimina uma pessoa porque ele ou ela está infectado pelo HIV.”

Roy Chan, presidente do grupo voluntário local Action for Aids, disse que sua organização saudou a iniciativa como um passo em direção a mais compreensão e aceitação das pessoas infectadas pelo HIV. “Embora as coisas tenham melhorado um pouco, não podemos esquecer que muitos ainda estão sendo convidados a deixar seus empregos e são condenados ao ostracismo por amigos e familiares, por causa da infecção pelo HIV. Muitos ainda sofrem sozinhos e têm problemas em garantir postos de trabalho e seguro de saúde”, disse Chan. “Precisamos de um ambiente de apoio que não discrimina uma pessoa porque ele ou ela está infectado pelo HIV. A revogação da proibição de entrada a curto prazo é um exemplo do que precisamos fazer”, disse ele à Associated Press.

De acordo com dados mais recentes do Ministério da Saúde de Singapura, 6.685 residentes daquele país foram infectados pelo HIV em 2014, em uma população de 5,3 milhões, dos quais 1.737 morreram. O HIV pode ser transmitido através do sangue, gravidez e em relações sexuais com um parceiro infectado. Ele não pode ser transmitido pelo contato social.


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Prêmio Top Blog

sky_blog_trans_1O Diário de um Jovem Soropositivo está participando de um concurso entre blogs voltados ao público brasileiro: o Prêmio Top Blog 2015, na editoria Saúde e Bem-estar, direcionada a temas como alimentação, atividade física, medicina, entre outros relacionados. Vote aqui!

De acordo com o regulamento dessa competição, o período de votação do Primeiro Turno pelo Júri Popular, representado pelos internautas por meio de voto eletrônico, vai até o dia 18/12/2015, às 18h (horário de Brasília).

No dia 11/01/2016, será divulgada a lista dos 100 blogs mais votados em cada editoria, que passam para o Segundo Turno da votação pelo Júri Popular. Os votos do Primeiro Turno não serão computados para o Segundo Turno. Os blogs que não se classificarem entre os 100 blogs mais votados de cada editoria ainda podem concorrer no Segundo Turno à premiação pelo Júri Técnico, formado por profissionais atuantes nos segmentos relacionados às editorias.

A divulgação dos finalistas será no dia 20/04/2016. Os três blogs vencedores pela votação do Júri Popular e os três blogs vencedores pela avaliação do Júri Técnico serão premiados assim:

  • Primeiro colocado recebe 12.000 pontos Multiplus, badge digital, certificado e troféu;
  • Segundo colocado recebe 6.000 pontos Multiplus, badge digital e certificado;
  • Terceiro colocado recebe 3.000 pontos Multiplus, badge digital e certificado.
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Além do Diário de um Jovem Soropositivo, outros blog brasileiros com o tema HIV/aids também estão participando: Prazer, Alexandre! e Soropositivo.org. Vamos torcer para que o HIV/aids esteja entre os finalistas!

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Drogas com antirretrovirais


Por Roger Pebody em 24 de agosto de 2015 para o Aidsmap

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Os dois medicamentos envolvidos no tratamento do HIV que têm mais chances de apresentar interação com drogas recreativas e estimulantes sexuais não têm diretamente efeito anti-HIV: são os medicamentos de reforço, usados para impulsionar os antirretrovirais — Ritonavir e Cobicistat. [Segundo o Dr. Esper Kallás, professor associado da Disciplina de Imunologia Clínica e Alergia da Faculdade de Medicina da USP, os medicamentos de reforço inibem a enzima do sistema citocromo P450, ou CYP3A4, e podem aumentar o nível de toxicidade com outras drogas.]

O Cobicistat é um dos componentes do Stribild (com Elvitegravir, Tenofovir e Emtricitabina), Darunavir e Atazanavir. Em geral, o Ritonavir é prescrito junto com inibidores de protease. É parte do Kaletra, junto com Lopinavir, e do tratamento para hepatite C, Viekira Pak.

As chances de interação entre os medicamentos de ação direta anti-HIV com drogas recreativas também pode potencialmente existir, mas não é objeto de tanta preocupação, se comparado aos medicamentos de reforço. Além disso, nem todas as drogas têm interações com medicamentos anti-HIV.

De acordo com os autores de uma revisão especializada, publicada na edição de 24 da agosto do jornal Aids, os médicos precisam estar atentos aos detalhes desta informação, para que possam dar recomendações úteis aos seus pacientes. Muitos indivíduos continuarão a usar drogas recreativas apesar de recomendações médicas contrárias e, em casos como este, os médicos deveriam considerar a troca do tratamento antirretroviral nestes pacientes, para regimes com menor disco de interação com drogas, de acordo com os autores.

Sobre interações com drogas

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Quando uma droga é tomada junto com outra, sua interação pode aumentar ou diminuir a eficácia e/ou os efeitos colaterais de uma delas ou de ambas as drogas. Isso acontece tanto com drogas lícitas, prescritas por um médico, como com ilícitas, as drogas recreativas. No entanto, existem menos pesquisas sobre interações com drogas ilícitas.

Crystal Meth

Há muito tempo existe preocupação sobre a interação entre antirretrovirais e drogas recreativas. Entretanto, recentemente foram introduzidos novos medicamentos, como o Cobicistat — e, nesse último período, o padrão de uso de drogas recreativas entre homens gays que vivem com HIV no Reino Unido também mudou. Metanfetamina e mefedrona são agora muito mais populares do que no passado e cada vez mais usadas em contexto sexual, dentro das casas dos usuários. Isso pode envolver o uso de diversas substâncias ao mesmo tempo e, muitas vezes, por um longo período de tempo. Além disso, muitos homens agora injetam as drogas recreativas, aumentando rapidamente sua concentração na corrente sanguínea e, assim, aumentando também o potencial para efeitos adversos.

“Dados sobre a interação entre o uso de drogas e antirretrovirais são escassos, mas o conhecimento sobre as implicações potenciais destas interações pode ser de grande importância para aqueles que cuidam de pacientes com HIV.”

Um grupo de pesquisadores, que incluiu médicos, farmacologistas, um farmacêutico e um especialista em drogas, conduziu uma revisão da literatura e reuniu opiniões de especialistas, a fim de fornecer um sumário atualizado a respeito das evidências sobre interações com drogas. Ao invés de cobrir todas as interações teoricamente possíveis, eles preferiam que sua revisão fosse prática e pudesse guiar os médicos diante das interações que, em sua próprias palavras, “são mais importantes”. O foco está nas drogas usadas em festas, comumente tomadas por homens gays que vivem com HIV no Reino Unido. “Dados sobre a interação entre o uso de drogas e antirretrovirais são escassos, mas o conhecimento sobre as implicações potenciais destas interações pode ser de grande importância para aqueles que cuidam de pacientes com HIV”, afirmam os pesquisadores.

Ritonavir e Cobicistat

A mensagem mais importante para ser aprendida desta revisão é que os dois medicamentos prescritos que são os mais propensos a resultar em interações prejudiciais com drogas recreativas são o Ritonavir e o Cobicistat.

Ambos são agentes de reforço, tomados para aumentar os níveis de outros medicamentos antirretrovirais. Adicionar uma pequena dose de um destes agentes em um medicamento, faz com que o fígado decomponha a droga mais lentamente, o que quer dizer que ela permanece no organismo por um período de tempo maior ou em quantidade maior. Sem o agente de reforço, a dose prescrita do medicamento principal seria ineficaz.

Em geral, os agentes de reforço são mais usados em conjunto com os inibidores de protease, como o Lopinavir (parte do Kaletra), Darunavir, Atazanavir, Fosamprenavir e Tipranavir, mas também com o inibidores de integrase Elvitegravir (parte do Stribild) e de drogas para o tratamento da hepatite C, como Ombitasvir and Pariteprevir, parte do Viekira Pak.

O mecanismo de reforço também afeta algumas drogas recreativas. O Ritonavir e o Cobicistat são metabolizados por enzimas do fígado conhecidas como CYP2D6 e CYP3A4. Várias drogas recreativas são metabolizadas por estas mesmas enzimas, o que pode potencialmente resultar em interações. Os agentes de reforço fazem com o fígado processe as drogas recreativas mais lentamente, o que faz com que a droga recreativa permaneça no corpo por mais tempo ou em concentrações mais altas. Algumas vezes, isso pode resultar em efeitos colaterais severos ou overdose.

Drogas recreativas preocupantes

Várias drogas recreativas são metabolizadas pelas enzimas CYP2D6 ou CYP3A4, as mesmas enzimas que metabolizam o Ritonavir e o Cobicistat. São elas:

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  • Metanfetamina (também conhecida como “cristal”)
  • MDMA (ecstasy, bala)
  • Mefedrona (miau-miau, MC)
  • Ketamina (K, vitamina K, special K)
  • Drogas para disfunção erétil (Viagra, Cialis, Levitra)
  • Benzodiazepinas (Rivotril, Diazepan, Lexotan, Frontal e outros)

Os autores julgam que o potencial para interações com as primeiras três drogas listadas é “moderado”, enquanto das três últimas é “alto”. As drogas para disfunção erétil e Benzodiazepinas podem ser prescritas com segurança por um médico, mas, quando obtidas através de canais informais, os autores afirmam que não existe controle na dosagem e, nesse caso, as doses altas não serão acompanhadas de monitoramento dos efeitos colaterais.

Com cada droga recreativa, a interação com Ritonavir e o Cobicistat pode aumentar a intensidade do efeito da droga ilícita, muitas vezes para níveis desagradáveis e perigosos. Há casos reportados de morte de pessoas em decorrência da interação entre metanfetamina e Ritonavir e de MDMA e Ritonavir. Autópsias mostraram que o nível das drogas recreativas no sangue destes indivíduos estava muito acima do que seria normalmente esperado. Há também casos reportados de efeitos colaterais agudos e graves em pessoas que usaram Ketamina e Ritonavir. Os autores reconhecem que somente poucos destes casos foram documentados.

GHB

Overdoses em decorrência de drogas para disfunção erétil são perigosas para o coração. Uma overdose de Benzodiazepina pode resultar em desmaios ou redução perigosa da respiração. Em relação ao GHB (ácido gama-hidroxibutírico) e GBL (ácido gama-butirolactona), os autores dizem que os riscos de interação são “desconhecidos”.

Inibidores não nucleosídeos da transcriptase reversa e drogas recreativas

Uma interação particular entre antirretrovirais e drogas recreativas pode acontecer no caso de medicamentos inibidores não nucleosídeos da transcriptase reversa com drogas recreativas, uma vez que estes medicamentos são metabolizados de maneira diferente. A interação pode resultar em uma quantidade da droga recreativa menor do que o que seria normalmente esperado.

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Isso se aplica ao Efavirenz, Neviparina e Etravirina — exceto com Rilpivirina, a qual acredita-se que não interaja com drogas recreativas. A interação pode ocorrer com cocaína, ketamina, e medicamentos para disfunção erétil.

Os inibidores não nucleosídeos da transcriptase reversa fazem com que o fígado processe as drogas ilícitas de maneira mais rápida, o que quer dizer que a droga fica no organismo em menor quantidade ou por menos tempo. Embora possa parecer que isso seja menos prejudicial, os autores advertem que, se as drogas não atingem o efeito desejado, muitos usuários costumam aumentar a dosagem ou utilizá-las através de injeção, o que traz riscos imprevisíveis.

Medicamentos sem interações significativas

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O potencial de interações com diversas outras substâncias e drogas recreativas é considerado baixo pelos autores. Isso inclui álcool, maconha, poppers, heroína e outros opióides.

Da mesma forma, acredita-se que outros medicamentos antirretrovirais não apresentem problemas com interações. São estes:

  • Inibidores nucleosídeos da transcriptase reversa
  • Rilpivirina, um não nucleosídeos da transcriptase reversa
  • Raltegravir e Dolutegravir, ambos inibidores da integrase
  • Maraviroc, um inibidor do CCR5

Recomendações

“Médicos devem ser proativos em solicitar o histórico de uso de drogas de seus pacientes e oferecer aconselhamento a respeito de sua toxicidade, efeitos adversos comuns decorrentes do uso de drogas e sobre o as possíveis interações entre as drogas com os antirretrovirais, a fim de evitar sobredosagem ou toxicidade fatal”, concluem os pesquisadores.

“Entretanto, mesmo sob o melhor aconselhamento, muitos pacientes persistem no uso de drogas. Nesses casos, a troca da combinação da terapia antirretroviral para uma com menor propensão a interação com drogas deve ser considerada.”


Referências:
Bracchi M et al. Increasing use of ‘party drugs’ in people living with HIV on antiretrovirals: a concern for patient safety. AIDS 29: 1585-1592, 2015.
The University of Liverpool’s HIV Drug Interactions website publishes a table summarising the interactions between antiretrovirals and recreational drugs.
Cure2020

A contagem regressiva começou

Brasil Post

amfAR

A amfAR, uma organização sem fins lucrativos sediada em Nova York, começou sua Contagem Regressiva para a Cura da Aids, uma campanha que quer intensificar o programa de pesquisa da organização focado na cura do HIV. A amfAR não espera curar a todos os soropositivos até 2020, mas alcançar os fundamentos científicos necessários para a cura até esta data, para que, em seguida, ela seja exaustivamente testada e então colocada em produção.

Por que a amfAR acredita que a cura é possível até 2020?
“Pela primeira vez na história, os obstáculos científicos diante da cura foram claramente iluminados. Com um esforço de pesquisa dirigido, colaborativo e agressivo, acreditamos que estes desafios podem ser superados, se fizermos os investimentos certos agora.”
amfAR

A história da amfAR data dos anos 80. Naquela altura, a epidemia estava no começo. Muitos dos ativistas, que poderiam falar em nome das pessoas com HIV/aids ou em apoio dos fundos federais americanos para pesquisa e prevenção da doença, não sobreviveram ao vírus. Foi para ajudar a preencher essa lacuna de vozes e levantar fundos privados para apoio à pesquisa médica e científica sobre o HIV/aids, que foi fundada a Aids Medical Foundation (AMF), em Nova York. Suas primeiras bolsas de pesquisa foram concedidas em 1984. Em setembro de 1985, a AMF se juntou à National Aids Research Foundation, dando luz à American Foundation for Aids Research — a amfAR, fundada e então presidida por Elizabeth Taylor.

Elizabeth Taylor

Elizabeth Taylor

Ativista da aids, Elizabeth se esforçou para tornar reconhecido o nome da fundação dentro os Estados Unidos e, depois, no mundo todo. “A fama não é algo que vem sem responsabilidade”, disse ela. “Se eu puder ajudar ainda mais uma causa importante simplesmente emprestando a minha voz, eu sinto que devo fazê-lo.” Grande parte de seu trabalho inicial na amfAR consistia em falar sobre as realidades da doença, numa época em que muito pouco era conhecido sobre o HIV. Para refletir o escopo cada vez mais internacional dos programas amfAR, em 2005 a organização se rebatizou para The Foundation for Aids Research.

A fonte de recursos da amfAR vem de doações oriundas de empresas, fundações, e, principalmente, indivíduos. Desde 1985, a amfAR já investiu mais de 388 milhões de dólares em seus programas e já distribuiu mais de 3.300 subsídios a times de pesquisadores do mundo todo. Com esse dinheiro, a fundação apoiou a primeira pesquisa que levou ao uso de antirretrovirais com o objetivo de bloquear a transmissão vertical — da mãe para o bebê –, os primeiros estudos que levaram ao desenvolvimento dos antirretrovirais inibidores de protease, a pesquisa inicial que resultou no Fuzeon — o primeiro antirretroviral da classe dos inibidores de fusão –, os estudos que levaram à identificação da importância da proteína CCR5 na infecção pelo HIV, programas de troca de seringas para usuários de drogas injetáveis, o primeiro estudo a demonstrar o potencial de uma vacina de DNA em retardar a progressão do vírus e uma pesquisa que trouxe as primeiras imagens tridimensionais do HIV enquanto ele faz o contato inicial com células suscetíveis, entre outras iniciativas. Agora, o plano é investir 100 milhões de dólares na pesquisa da cura do HIV, ao longo dos próximos seis anos.

O que mudou desde o início da epidemia, há mais de 30 anos, que tornou a cura uma ideia plausível?
“Talvez, o avanço mais importante tenha sido o caso do Paciente de Berlim, a primeira pessoa a ser curada do HIV, relatado em 2008. O caso forneceu uma prova de que uma cura é possível. Até aquele momento, a pesquisa da aids foi, em grande parte, um processo de descoberta. Agora, sabendo quais as questões científicas importantes que precisam ser respondidas, nós estamos entrando em uma nova fase da pesquisa: resolver os problemas que são um desafio tecnológico.”
amfAR

Nunca estivemos em um momento de tanto otimismo na pesquisa da aids. Os avanços obtidos nos últimos anos trouxeram à comunidade científica uma nova compreensão a respeito dos desafios que devem ser superados para chegar a uma cura. O caso de Timothy Brown, o Paciente de Berlim, a primeira pessoa a ser curada do HIV no mundo, foi um divisor de águas no campo da pesquisa do HIV/aids e uma prova de que uma cura é possível: em 2007, ele recebeu um transplante de células-tronco, em Berlim, para tratar uma leucemia. Seu médico, o alemão Dr. Gero Hütter, decidiu tentar curar também a infecção pelo HIV de seu paciente, usando células de um doador que trazia duas cópias de uma mutação genética conhecida por oferecer uma resistência natural ao HIV — porém, um procedimento arriscado demais para ser replicado em larga escala. Desde o transplante, Timothy não toma mais antirretrovirais e não tem sinais do HIV em seu organismo. Em 2013, depois de iniciar o tratamento antirretroviral precocemente, foi relatado que um grupo de pacientes franceses entrou para o rol dos “controladores pós-tratamento”, o que quer dizer que eles ainda têm o vírus, mas em quantidade tão pequena que seus organismos se mostraram capazes de controlar naturalmente a infecção.

Para alcançar a meta ambiciosa de uma cura até 2020, a amfAR resolveu mudar a maneira que financia a pesquisa, afastando-se de uma estratégia de investimento passivo para uma mais agressiva, além de focar em abordagens colaborativas, analisando as questões não respondidas no campo da pesquisa do HIV. A fundação criou também um “roteiro de pesquisa”, que enumera os quatro principais desafios científicos que representam as principais barreiras para a cura. Primeiro, mapear as localizações precisas dos reservatórios virais que ainda persistem de maneira latente no corpo, fora do alcance dos antirretrovirais atuais. Em segundo, entender como o HIV persiste nesses reservatórios. Depois, identificar a quantidade de vírus em estado latente. E, por último, eliminar o HIV. Para ajudar a dirigir a pesquisa e garantir que os investimentos serão feitos nas áreas mais promissoras, a amfAR criou seu “Conselho de Cura”: um grupo de voluntários que reúne alguns dos principais especialistas em HIV/aids do mundo.

Em geral, estudos clínicos levam entre oito a dez anos para ser concluídos. Alcançar uma cura para o HIV em 2020 é mesmo viável?
“Nosso objetivo é alcançar os fundamentos científicos para uma cura até 2020. A probabilidade é que, quando soubermos como a cura se parece, levará algum tempo até ela ser exaustivamente testada e, em seguida, colocada em produção. É difícil saber quanto tempo esse processo vai demorar.”
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É preciso lembrar que o prazo de uma cura para 2020 não é uma estimativa que é consenso entre médicos e cientistas. “Timothy Brown é a prova de que a cura é possível”, concorda o Dr. Esper Kallás, professor associado da Disciplina de Imunologia Clínica e Alergia da Faculdade de Medicina da USP. “Entretanto, agora a cura precisa se tornar viável para todos. E isso é uma questão de tempo. Quem der um prazo estará especulando — e isso não é ciência. Precisamos sempre esperar pelos resultados.”

Talvez, o prazo de 2020 seja mesmo ousado. Na pior das hipóteses, um chute arriscado. Afinal de contas, o futuro é em grande parte imprevisível. Todavia, também é verdade que essa é uma estimativa que faz parte de uma campanha robusta de investimento na pesquisa da cura e que vem de uma organização que esteve ao lado de quem vive com HIV desde o começo da epidemia, acompanhando e incentivando o avanço das pesquisas. Nesse sentido, mesmo que este prazo venha a se mostrar equivocado no futuro, já temos hoje alguém de peso que se sente à vontade em começar a arriscar uma data — e isso, por si só, é uma boa notícia.

Atitude Abril

Francis S. Collins, diretor do National Institutes of Health.

Pesquisas para acabar com a pandemia


Declaração de esforços do National Institutes of Health em concentrar as pesquisas para acabar com a pandemia de aids

NIH

Um progresso extraordinário tem sido feito na pesquisa de HIV/aids nos últimos 34 anos, transformando uma doença quase inevitavelmente fatal em uma condição tratável. Hoje, pessoas com HIV/aids podem experimentar uma expectativa vida quase próxima do normal, se os antirretrovirais são iniciados de imediato e continuados por toda a vida. Contudo, a doença ainda permanece como uma significativa preocupação de saúde pública, com aproximadamente 50 mil novas infecções a cada ano nos Estados Unidos e 2 milhões de novas infecções no mundo todo. Os custos humanos e econômicos continuam impressionantes.

“Precisamos focar os escassos recursos em prioridades de pesquisa que ajudem a acabar com a pandemia de aids no menor tempo possível.”

Agora, estamos numa conjuntura crítica na pesquisa do HIV/aids, na qual novas oportunidades de pesquisa estão emergindo e apontado para a possibilidade de acabar com a pandemia. Avanços muito disputados na pesquisa básica e clínica trazem nova esperança para o desenvolvimento de uma vacina e até mesmo uma possível cura. Hoje, mais do que nunca, precisamos focar os escassos recursos em prioridades de pesquisa que ajudem a acabar com a pandemia de aids no menor tempo possível. Com esse objetivo em mente, decidi implementar vários novos processos que assegurem que os dólares do National Institutes of Health (NIH) estejam concentrados mais intensivamente do que nunca em áreas da mais alta prioridade para a pesquisa do HIV/aids. Para me ajudar nessa tarefa, um grupo de trabalho externo do Conselho Consultivo do Escritório do NIH para Pesquisa de Aids, sob a coordenação de sua equipe científica e do Institutos e Centros NIH, recentemente esboçou diretrizes que determinam as áreas de alta prioridade da pesquisa de HIV/aids. Com essa orientação, minha equipe e eu definimos as prioridades que visam especificamente acelerar a nossa capacidade de prevenir e curar o HIV/aids, e acabar com a pandemia global de aids.

As áreas de pesquisa de HIV/aids que são alta prioridade para o NIH são aquelas que:

  • almejam reduzir a incidência de HIV/aids, incluindo o desenvolvimento de vacinas seguras e eficazes
  • desenvolvam a nova geração de terapias para tratar o HIV, com maior segurança a mais facilidade de uso
  • desenvolvam a cura para o HIV/aids
  • melhorem a prevenção ou o tratamento de comorbidades associadas ao HIV e coinfecções

Estas novas áreas de alta prioridade são consistentes com as principais prioridades científicas esboçadas no Plano para Pesquisa do HIV do Escritório do NIH para Pesquisa de Aids. As diretrizes também informam sobre os novos processos que serão implementados e aplicados pelo NIH a todas as concessões de subsídios ocorridas no ano fiscal de 2016, para ajudar a garantir que somente os projetos de pesquisa no âmbito das áreas científicas prioritárias para o HIV/aids sejam considerados para apoio com os preciosos recursos do HIV/aids. Estas diretrizes são descritas na Guia de Aviso do NIH.

Francis S. Collins, diretor do National Institutes of Health.

Francis S. Collins, diretor do National Institutes of Health.

Estas medidas enfatizam o forte compromisso do NIH com a gestão responsável dos recursos que recebemos do povo americano. Estou confiante de que as medidas que estamos tomando vão avançar e acelerar os esforços mundiais para acabar com a pandemia de aids.

Dr. Francis S. Collins, Ph.D.
Diretor do National Institutes of Health
12 de agosto de 2015


Hope for a Cure

Um sonho impossível agora é promissor

Por Mary Engel para Fred Hutch News Service em 13 de agosto de 2015
Hope for a Cure

Na segunda Conferência sobre Células e Terapia Genética para a Cura do HIV que aconteceu no Fred Hutchinson Cancer Research Center, cientistas e ativistas tem um otimismo cauteloso diante da cura (de qualquer tipo) em um futuro não muito distante. (Ilustração de Kimberly Carney)

“Tome seus remédios e se cuide”, disse Jeff Sheehy — um experiente ativista do movimento civil LGBT de São Francisco — a um jovem de 23 anos de idade, que tinha acabado de receber seu diagnóstico positivo para o HIV. “Como um homem gay, você tem muitas possibilidades. Você pode ser casar. Pode ter uma família. Quando eu tinha sua idade, isso não era possível.” Ele também disse ao jovem: “Nós vamos poder curar você do HIV. Em seu tempo de vida, você será curado.”

Jeff Sheehy

Jeff Sheehy: ativista do movimento civil LGBT de São Francisco e de HIV/aids.

Sheehy, hoje com 58 anos de idade, não era tão esperançoso quando recebeu seu próprio diagnóstico, em março de 1997. “Naquela altura, eu torcia para que conseguisse sobreviver”, disse ele, durante uma entrevista por telefone, a partir de sua casa, em São Francisco, pouco antes de seguir para Seattle, onde participaria da Conferência sobre Terapia Celular e Genética para a Cura do HIV, que aconteceu nos dias 13 e 14 de agosto no Fred Hutchinson Cancer Research Center.

Seu diagnóstico se deu oito meses depois de estudos mostrarem que a combinação de antirretrovirais era capaz de controlar o HIV. O coquetel de medicamentos acabou por se tornar um dos maiores sucessos da medicina, transformando infecções como a de Sheehy, antes uma sentença de morte, em uma doença crônica e administrável.

A cura do HIV — que há menos de uma década era considerada tão improvável que sequer era candidata à pesquisas — hoje é o foco de uma conferência que atrai ativistas, estudantes e muitos dos principais cientistas que pesquisam o HIV. Entre eles, o Dr. David Baltimore, laureado Nobel que fez importantes contribuições para as pesquisas do câncer e do HIV e hoje trabalha no desenvolvimento de terapias de cura para ambos.

“Sendo realista: a cura vai demorar.”

Sheehy acredita que a cura pode chegar durante a vida do jovem recém diagnosticado. Mas ele é mais reticente quando se refere a si mesmo. “A ciência é animadora. O trabalho é gigantesco. A meta é viável”, ele diz. “Mas, sendo realista: a cura vai demorar.”

Timothy Ray Brown: a prova de que a cura é possível

B altimore, presidente emérito do Instituto de Tecnologia da Califórnia, abriu a conferência na última quarta-feira, 12 de agosto, à noite, com uma apresentação para uma plateia cheia de ativistas — entre eles, Timothy Ray Brown, que motivou diversas pesquisas depois te ter se tornado a única pessoa considerada curada do HIV.

Timothy Ray Brown

Timothy Ray Brown, a única pessoa considerada curada do HIV.

A primeira cura não foi fácil. Nascido em Seattle, Brown recebeu um transplante de células-tronco em Berlim, em 2007, para tratar leucemia mieloide aguda. Seu médico, o alemão Dr. Gero Hütter, decidiu tentar curar também a infecção pelo HIV de seu paciente, usando células de um doador que trazia duas cópias de uma mutação genética conhecida por oferecer resistência natural ao vírus. Desde o transplante, Brown não toma mais antirretrovirais.

As tentativas de replicar essa cura em dois pacientes soropositivos que sofriam de leucemia não chegaram aos mesmos resultados, em parte porque muitos dos pacientes morreram em decorrência do câncer ou do próprio transplante, antes que fosse possível determinar se o HIV havia desaparecido. Médicos concordam que o transplante de células tronco só é apropriado para pessoas portadoras do HIV que estão diante de um câncer que oferece risco de vida.

defeatHIV

Ainda assim, o caso de Brown, publicado no New England Journal of Medicine em 2009, mostrou que a cura é possível. Baltimore e outros cientistas, incluindo pesquisadores do consórcio defeatHIV, estão usando a cura de Brown como modelo para uma nova terapia que retira as células do próprio indivíduo infectado e então nocauteia ou desativa um gene, o CCR5, que funciona de porta para o HIV entrar nas células — imitando a genética daqueles que são naturalmente resistentes ao vírus –, antes de injetá-las de volta nos pacientes.

Times de cientistas estão pesquisando diferentes abordagens para alterar o CCR5. Alguns estão modificando as células T CD4 do sistema imune, que são alvo do HIV. Baltimore e o Dr. Hans-Peter Kiem, pesquisador de transplante de células tronco do Fred Hutch, estão trabalhando em modificar células tronco hematopoiéticas — as precursoras que geram todas as células especializadas do sangue e do sistema imune, incluindo as células T.

Kiem

Dr. Hans-Peter Kiem, oncologista e pesquisador de terapia celular e genética.

Kiem acaba de inaugurar um estudo clínico para pacientes que estão em quimioterapia para tratar linfoma relacionado à aids, um câncer comum em portadores do vírus que têm o sistema imune devastado em decorrência da infecção. Kiem vai coletar as células tronco dos pacientes, modificá-las para torná-las resistentes ao HIV para, então, injetá-las de volta, depois do último ciclo que de quimioterapia. O objetivo é fazer prosperar células resistentes ao HIV em número suficiente para montar uma resposta imune capaz de controlar o vírus sem a necessidade dos comprimidos diários.

Terapias celulares e genéticas já mostraram alguns benefícios intermediários. Um estudo clínico de 2010, feito em São Francisco, retirou, modificou e injetou novamente as células T num grupo de pessoas que eram capazes de controlar o vírus sem os medicamentos mas que estavam com o sistema imune enfraquecido. Como resultado, elas tiveram uma melhora duradoura, livrando-as de pneumonia e outras doenças oportunistas que os atormentavam regularmente. “Pode ser pouco, mas ainda vale”, observou Sheehy.

O que eles querem dizer quando falam em cura?

Quando a terapia antirretroviral foi introduzida, em 1996, muitos acreditavam que ela, sozinha, seria capaz de curar todo o mundo. Desde então, os cientistas aprenderam que os reservatórios latentes de células infectadas pelo HIV ainda se escondem no organismo, fora do alcance desses medicamentos. Basta interromper as pílulas diárias que o vírus volta com tudo.

Hoje, os cientistas falam em dois tipos de cura. A primeira — o Santo Graal das curas — é chamada de “cura esterilizante”, na qual o vírus é completamente erradicado do corpo. Acredita-se que este é o caso de Timothy Brown. Também fala-se da “cura funcional”, na qual o HIV latente continua no organismo, mas é mantido sob controle sem a necessidade medicamentos todos os dias.

Na última quarta-feira, durante a apresentação de Baltimore, Brown se levantou no meio da plateia para perguntar a posição do cientista diante da possibilidade de cura, e qual tipo de cura. “Eu gostaria de saber sua opinião: o HIV é curável?”, ele disse. “Eu acredito que você está curado”, respondeu Baltimore. No entanto, sobre a possibilidade da cura esterilizante ser aplicada mais amplamente, ele acrescentou: “Sou agnóstico.”

“A terapia genética pode ajudar a munir o sistema imune contra esse passageiro clandestino dentro do corpo e fazer voltar o relógio, para que o sistema imune fique tal como antes da infecção.”

Para a Dra. Paula Cannon, uma especialista em células tronco da Universidade do Sul da Califórnia que também se apresentou durante o evento, a cura funcional é suficiente, embora precise ir além da supressão do vírus sem a necessidade de uma pílula por dia. Segundo ela, a infecção pelo HIV é um ataque massivo contra o sistema imune e isso pode representar consequência ao longo da vida, mesmo sob antirretrovirais. “É isso o que a terapia celular e genética pode acrescentar”, ela disse. “Pode ajudar a munir o sistema imune contra esse passageiro clandestino dentro do corpo e fazer voltar o relógio, para que o sistema imune fique tal como antes da infecção. Podemos fazer isso com ou sem o vírus no organismo.”

Se você consegue curar o vírus, por que não fazê-lo?

Por que falar sobre a cura, qualquer que seja seu tipo, se a terapia antirretroviral é tão bem sucedida? Porque nem todos conseguem tolerar os medicamentos, nem todos têm acesso aos medicamentos ou a possibilidade de tomá-los regularmente. Mesmo nos Estados Unidos, menos de 40% das 1,2 milhão de pessoas infectadas pelo HIV estão sob tratamento antirretroviral e apenas 30% alcançaram a supressão viral, que leva à uma saúde melhor, vida mais longa e menos chance de transmissão do vírus, de acordo com os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC).

Além disso, há o custo e o esforço de tratar pessoas com uma doença crônica para o resto de suas vidas. Por fim, mesmo aqueles com o HIV suprimido que estão, assim como Sheehy, sob antirretrovirais há anos, o vírus continua a causar danos, em decorrência da inflamação de base, que aumenta o risco de doença do coração e de câncer.


pilulas azuis

Pílulas azuis

pilulas azuis

Uma história em quadrinhos autobiográfica, vencedora do prêmio Polish Jury Prize. Frederik Peeters, um dos quadrinistas mais celebrados da Europa, traduz com delicadeza sua vivência real e complexa em um relacionamento assombrado pelo HIV.

Foi em uma noite festiva de verão que Fred conheceu Cati. Anos depois, eles se reencontram e vivem uma conexão instantânea, que os levam a embarcar em uma comovente e verdadeira história de amor. Nesse momento, Cati encara a árdua tarefa de revelar ao seu parceiro ser soropositiva, assim como o fato de ter um filho de três anos. É quando Frederik Peeters escolhe amar mesmo em face a grandes desafios.

 

Com ilustrações em preto e branco, Peeters narra o desenvolvimento da intimidade do casal, a maneira como assume seu enteado, o preconceito, as surpresas e sua reveladora relação com um médico cuja afeição e franqueza o permite encontrar meios para quebrar todas as barreiras que ainda existem na sua relação.

A história mergulha nas angústias, dificuldades e realizações de um casal que vive um misto de amor e medo causado pela doença. Visitas regulares ao médico, o sexo com camisinha, livre de transmissão do vírus, e o uso dos medicamentos para controlar o avanço da doença são alguns dos assuntos relatados por Peeters, um autor que, na história e na realidade, questiona o sentido da vida — representado numa passagem na qual o personagem apresenta sua vulnerabilidade em um diálogo socrático com um mamute. A discussão com o animal imaginário o ajuda a perceber que conviver com a doença é completamente possível, deixando-o livre para desfrutar a vida ao lado de Cati.

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Páginas: 208 • Formato: 17 x 24 cm • Acabamento: brochura • Título original: Pilules bleues • ISBN: 9788582861592 • Editora Nemo • Data de publicação: 19/06/2015
Asier Saez-Cirion

Mais um caso de controle pós-tratamento


Por Liz Highleyman para o Beta em 11 de agosto de 2015

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Uma adolescente francesa com HIV que tem conseguido manter sua carga viral indetectável há 12 anos sem tratamento antirretroviral foi o principal assunto durante a 8ª Conferência Internacional da Aids Society, que aconteceu no mês passado, em Vancouver. Embora ninguém esteja se referindo ao seu caso como uma cura, ele certamente levanta questões interessantes sobre o “controle pós-tratamento” e pode oferecer pistas a respeito da cura funcional e da remissão do HIV a longo prazo.

Asier Saez-Cirion

Asier Saez-Cirion

Asier Saez-Cirion, do Instituto Pasteur de Paris, descreveu o caso durante uma coletiva de imprensa que aconteceu antes da conferência, no simpósio “A Caminho da Cura”. A jovem, que agora tem 18 anos de idade, foi infectada pelo HIV durante ou antes do parto. Sua mãe, que recebeu os primeiros cuidados médicos somente no final da gravidez, apresentava carga viral alta no momento do parto e, por isso, a bebê recebeu preventivamente doses de Zidovudina (AZT) logo após o nascimento. Depois de seis semanas sob AZT, sua carga viral aumentou a um nível alto, comprovando que ela de fato estava infectada. O tratamento com a terapia antirretroviral foi então iniciado, aos três meses de idade.

Com aproximadamente seis anos idade, a criança foi retirada do acompanhamento médico e do tratamento. Quando retornou, um ano depois, a carga viral em seu sangue estava indetectável, apesar da criança não estar sob terapia antirretroviral. Assim, ela foi mantida sem tratamento. Aos 12 anos de idade ela apresentou um “blip” significativo de replicação viral, que alcançou 500 cópias/ml, e então novamente retornou a níveis indetectáveis.

Hoje, a jovem contabiliza 12 anos sem tratamento e com carga viral indetectável no plasma sanguíneo, de acordo com testes ultrassensíveis, capazes de medir 4 cópias/ml. Sua contagem de células T CD4 se mantém alta e estável. Contudo, os pesquisadores conseguem detectar o DNA do HIV (o material genético viral) em suas células — e células isoladas podem ser reativadas e produzir vírus em laboratório –, mostrando que ela não foi curada.

“Precisamos deixar claro que esse caso é bastante excepcional.”

“Precisamos deixar claro que esse caso é bastante excepcional”, alertou Saez-Cirion durante a coletiva. “A maioria dos pacientes soropositivos, crianças ou adultos, perdem o controle da infecção sempre que interrompem o tratamento, mesmo que este tenha sido iniciado cedo.”

“Esta jovem continua infectada pelo HIV e é impossível prever como seu estado de saúde se comportará com o passar do tempo”, explicou Jean-François Delfraissy, diretor da Agence Nationale de Recherche sur le Sida (ANRS). “O caso dela, contudo, constitui mais um forte argumento a favor do início imediato da terapia antirretroviral em todas as crianças nascidas de mães soropositivas.”

O que esse caso nos diz?

No ano passado, nós tivemos notícias decepcionantes na busca pela cura do HIV. Em julho de 2014, cientistas anunciaram que a “Bebê do Mississippi” — uma criança que muitos especialistas acreditavam estar curada do HIV — ainda tinha o vírus. Além disso, dois pacientes em Boston que receberam transplantes de medula óssea e que não mostravam qualquer sinal do HIV em seu sangue e nas células brancas, tiveram um rebote alguns meses depois da interrupção do tratamento antirretroviral.

Com isso, Timothy Brown, o “Paciente de Berlim”, continua a ser a única pessoa aparentemente curada do HIV. Quase há uma década, Brown recebeu transplantes de medula óssea para tratar leucemia, usando as células de um doador com uma mutação natural (CCR5-delta-32) que protege as células T da infecção pelo HIV. Embora Brown tenha interrompido o tratamento antirretroviral, o HIV não voltou. Depois de mais de sete anos de testes, os cientistas não foram capazes de detectar vírus competente a replicação em seu plasma sanguíneo, nas células do sangue periférico ou em qualquer outro lugar pesquisado.

A jovem francesa não entra para o rol das pessoas curadas pelo HIV, mas faz parte de um pequeno grupo chamado de “controladores pós-tratamento”, (assim como os franceses da Coorte Visconti) os quais aparentam ser capazes de controlar o vírus mesmo depois de interromper o tratamento antirretroviral.


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